8 de outubro de 2015

Capítulo 24 - Neferet

Como vai a busca do caos, minha impiedosa?
A voz profunda do touro branco ecoou através da mente dela.
Neferet quase deu uma volta completa antes de ver seu dorso luminoso e mágico, seus chifres enormes e seus cascos satânicos. Ele estava saindo detrás de uma sepultura, em cima da qual a estátua de uma jovem angelical olhava para baixo, com a cabeça curvada. Uma das suas mãos de pedra havia se desintegrado com o tempo, e Neferet achou a aparência, pela expressão do rosto da estátua, que ela havia dado parte de si mesma como uma oferenda, talvez para o touro branco.
Esse pensamento fez Neferet arder em ciúmes.
Ela caminhou para encontrar seu touro, devagar e lânguida. Neferet sabia que era bonita, mas ainda assim ela se sentiu compelida a extrair poder das sombras ao seu redor para realçar a si mesma. Seu cabelo longo e grosso brilhou, assim como a seda fluida do seu vestido negro. Ela havia escolhido esse vestido porque ele a lembrava das Trevas – e do seu touro.
Neferet parou diante dele e se ajoelhou graciosamente.
 A busca do caos vai bem, meu senhor.
— Eu sou o seu senhor? Que interessante.
Neferet levantou a cabeça e sorriu sedutoramente para o deus gigantesco.
— Você prefere que eu o chame de meu Consorte?
— Ah, a nomenclatura das coisas. Há poder nos nomes.
 De fato, há  Neferet levantou a mão e tocou em um dos seus chifres grossos. Eles reluziam como opalas.
—  Eu aprovei o nome que você deu para o Receptáculo. Aurox, como os grandes e poderosos touros Aurochsde tempos antigos. Esse nome é algo que combina e parece certo.
 Fico feliz que tenha aprovado, meu senhor  ela disse, pensando que o touro ainda não havia falado se ela poderia ou não chamá-lo de Consorte.
— E como ele serve a você, essa criatura feita por meio de um sacrifício imperfeito?
 Ele me serve bem. Eu não vejo nenhuma imperfeição quando olho para ele, apenas um gentil presente seu.
— Mas você vai se lembrar de que eu a avisei, não vai? O Receptáculo pode estar danificado.
 O Receptáculo propriamente dito não é importante  Neferet descartou o problema.  Ele é simplesmente um meio de atingir um objetivo — ela se levantou e se aproximou mais dele.  Nós não precisamos perder minutos preciosos falando sobre Aurox. Ele vai me servir, e me servir bem, ou vai deixar de existir.
— Você se desfaz dos seus presentes assim tão facilmente?
 Oh, não, meu senhor!  ela garantiu.  Eu apenas escutei o seu aviso. Será que agora nós podemos falar sobre algo mais prazeroso do que um Receptáculo vazio?
— Você falou em Consorte. Isso me trouxe a mente algo que eu gostaria de mostrar a você, algo que talvez você ache interessante.
 Eu estou às suas ordens, meu senhor  Neferet fez uma reverência. A enorme encarnação das Trevas se ajoelhou, oferecendo seu dorso para ela.
— Venha, minha impiedosa.
Neferet montou nele. Seu pelo era gelado, lustroso e impenetrável. Ele a carregou para dentro da noite, deslizando rapidamente de modo inumano através das sombras, usando as correntes de vento e as coisas horríveis e escondidas que sempre, sempre o obedeciam. Até que ele finalmente parou nas sombras mais espessas embaixo de árvores antigas e desfolhadas pelo inverno em uma cordilheira de montanhas a sudeste de Tulsa.
 Onde nós estamos?  Neferet teve calafrios por se agarrar nele.
— Silêncio, minha impiedosa. Observe silenciosamente. Veja. Escute.
Neferet observou, escutou e logo alguém que ela acreditava ser um homem alto e musculoso desceu de uma das três cabanas de madeira que ficavam no alto da montanha diante dela. Ele andou até a beirada do precipício e se sentou em uma pedra grande e chata de arenito.
Foi só depois que ele se sentou que ela viu suas asas. Kalona! ela pensou o nome dele, não o pronunciou, mas o touro respondeu a ela dentro de sua mente.
Sim, é o seu antigo Consorte, Kalona. Vamos chegar mais perto. Vamos observar.
A noite ao redor deles se ondulou e se transformou, encobrindo o touro e Neferet sinistramente, de modo que parecia que eles eram apenas parte do tecido de sombras e da neblina preguiçosa que de repente começou a se formar sobre a montanha.
Neferet prendeu a respiração quando o touro, invisível e em silencioso, chegou mais perto de Kalona, tão perto que ela conseguiu olhar sobre o ombro largo e perceber que ele estava segurando uma telefone celular.
Ele começou a tocar na tela e ela se acendeu. O alado imortal hesitou, com seus dedos pairando indecisamente sobre o celular.
Você sabe o que está vendo?
Neferet encarou Kalona. Os ombros dele desabaram. Ele esfregou a testa, abaixou a cabeça como se estivesse derrotado e relutantemente, colocou o telefone devagar na pedra ao lado dela.
Não, Neferet pensou. Eu não sei o que estou vendo.
Kalona, guerreiro caído de Nyx, sente falta de alguém que está longe dele. Alguém que ele não tem coragem de procurar.
Ele sente falta de mim? Ela não pôde evitar esse pensamento.
A risada sem humor do touro ressoou pela sua mente.
Não, minha impiedosa. O seu antigo Consorte sente a falta da companhia do seu filho.
Rephaim! A raiva de Neferet começou a crescer. Ele sente a falta daquele garoto?
Sim, apesar de ele ainda não ter colocado esse sentimento em palavras. Você sabe o que isso significa?
Neferet refletiu antes de responder em pensamento. Ela descartou o ciúme, a inveja e todas as armadilhas do amor mortal.
Sim, significa que Kalona tem uma enorme fraqueza. Ele tem, de fato.
Eles começaram a desaparecer da montanha, deslizando de sombra em sombra, montados na noite. Neferet acariciou o pescoço do touro, pensou em novas possibilidades e sorriu.


Rephaim

A gente tem que conversar sobre a visão de Aphrodite  Stevie Rae disse.
Rephaim pegou um dos cachos dela e começou a enrolá-los no dedo. Quando terminou, ele deu um puxão leve de brincadeira.
 Você vai falar. Eu vou mexer no seu cabelo.
Ela sorriu, mas afastou a mão dele com delicadeza.
 Pare, Rephaim. É sério. A visão de Aphrodite é assustadora.
— Você não me contou que Aphrodite previu a morte de Zoey? Duas vezes? Assim como a morte da avó dela? Em todos esses casos a previsão ajudou a evitá-las  Rephaim acariciou a bochecha dela e a beijou gentilmente.  A gente vai usar essa visão para evitar a minha morte também.
 Isso soa bem para mim  ela recostou a bochecha contra a mão dele.  Mas a gente tem que deixar uma coisa bem clara. Dragon é algum tipo de chave, então você realmente precisa ficar longe dele.
— Sim, eu sei  ele passou a mão pela lateral da cabeça dela, adorando sentir a maciez do seu cabelo, e deixou os dedos descerem devagar pelo pescoço e pelo ombro da sua amada.
 Rephaim, por favor, preste atenção  Stevie Rae segurou o rosto dele com as mãos e o fez parar de tocar o seu cabelo e a sua pele.
— Eu estou prestando  com relutância, ele concentrou sua atenção nas palavras dela.
 Cheguei a conclusão de que talvez eu estivesse errada. Talvez você tenha que ficar aqui, sem ir para a escola. E com certeza você também não deve ir para qualquer ritual que a gente faça na fazenda da avó de Z, ou pelo menos você precisa ficar afastado até que a gente descubra mais detalhes sobre a visão de Aphrodite.
Rephaim pegou as mãos dela, que estavam segurando o seu rosto, e as apertou com firmeza.
 Stevie Rae, se eu começar a me esconder agora, quando isso vai acabar?
— Eu não sei, mas o que eu sei é que você vai estar vivo.
 Há coisas piores do que a morte. Ficar preso pelo medo é uma dessas coisas  ele sorriu.  Na verdade, eu achei a coisa toda curiosamente positiva. A visão significa que eu sou humano de verdade.
 O que você quer dizer? É claro que você é humano.
 Eu pareço humano, pelo menos até o sol nascer. O fato de eu ser mortal me faz ser o que eu aparento.
 Mas você não fica triste por saber que o seu sangue não é mais imortal?
— Não, isso me deixa um pouco mais normal.
Stevie Rae arregalou seus brilhantes olhos azuis.
 Sabe o que mais? Isso faz com que você não seja mais parte do sangue de Kalona.
Rephaim tentou entender por que Stevie Rae negava o seu pai. Ele realmente tentou, mas não conseguiu evitar a sensação defensiva e quase irritada que o invadiu quando ela quis rechaçar o imortal alado.
— Você acha que é preciso mais do que sangue para que alguém seja pai? — ele falou devagar, tentando raciocinar em meio aos seus sentimentos e encontrar a verdade por baixo deles
 Sim, é claro  ela respondeu.
 Então é lógico que a ausência do sangue não faz automaticamente alguém deixar de ser pai também  antes que ela pudesse retrucar, ele continuou. — Kalona é imortal, mas eu estive ao seu lado por tempo o bastante para vislumbrar humanidade dentro da sua imortalidade.
 Rephaim, eu não quero discutir sobre o seu pai. Eu sei que você pensa que eu o odeio, mas não é isso. Eu odeio que ele machuque você.
 Eu entendo  ele a puxou para os seus braços e beijou o todo da cabeça dela, inalando o aroma doce e familiar da garota, xampu e sabonete.  Mas você precisa me deixar encontrar meu próprio caminho. Ele é meu pai. Nada vai mudar isso.
 Tudo bem, eu vou tentar parar com esses discursos sobre ficar longe de Kalona, mas quero que você me prometa que vai pensar em ficar longe de Dragon, pelo menos por um tempinho.
 Essa é uma promessa fácil de fazer. Eu já tento evitar o Mestre da Espada porque eu sei que ele sente dor quando me vê, mas eu não vou me esconder. Eu não posso me esconder de Dragon assim como não posso me esconder do meu Pai.
Ela se afastou e olhou para ele.
 Nós estamos juntos nessa, não estamos?
Ele encontrou o olhar dela.
 Estamos. Sempre.
 Cento. Vamos ficar juntos, mesmo se for perigoso. Eu vou proteger você — ela afirmou.
 E eu vou proteger você  ele concordou.
Então Rephaim deu um beijo longo e demorado nela. Ele a abraçou forte por mais alguns momentos, deixando que o perfume e a doçura dela o encobrissem.
 Você tem que ir agora?  ela falou com o rosto enterrado no peito dele.
 Você sabe que eu tenho.
— Vou parar de perguntar se eu posso ir até lá em cima com você, pois sei que você não quer, mas se algum dia você mudar de ideia eu vou ficar com você até o último instante. Porque, mesmo quando você é um pássaro, você é o meu pássaro.
Ele riu.
 Nunca pensei nisso dessa forma, mas eu sou o seu pássaro, e o seu pássaro precisa ir lá para o céu de manha esticar suas asas.
 Beleza  Stevie Rae se soltou dele primeiro e ele gostou que ela deu um sorriso entusiasmado, apesar de não parecer muito verdadeiro. — Vou estar aqui quando você voltar voando para casa.
 Ótimo, pois eu sempre vou voltar voando para você  ele deu um beijo rápido nela, vestiu a camisa e saiu do quarto. Ele estava contente por ter saído antes de começar aquele comichão terrível na sua pele. Ele odiava a sensação de pânico que tinha ao correr pelos túneis, ansiando com cada vez mais força o mundo lá em cima e o céu à sua espera.
Apenas um pouco antes da saída do porão, ele viu algo se mover nas sombras e automaticamente assumiu uma postura defensiva.
 Ei, relaxe. Sou eu.
Ele realmente relaxou quando ouviu a voz de Shaunee e logo em seguida a garota em pessoa emergiu dos tuneis à direita. Ela estava com o cabelo despenteado e carregava uma cesta de plástico grande.
 Sim, eu acho. Eu tenho mais uma leva de coisas para tirar do quarto de Erin e levar para o meu novo quarto aqui embaixo  ela apontou com o polegar para a escuridão atrás dela.  Sim, eu sei que vou ter que colocar luzes aqui.
 Você precisa de luz?
Ela sorriu, levantou a mão com a palma voltada para cima, assoprou nela e uma pequena chama apareceu, dançando alegremente.
 Bem, não exatamente, mas se alguém quiser me visitar vai precisar de luz.
— Posso ajudar você a fazer isso amanhã se quiser  ele se ouviu dizer e de repente preferiu não ter dito. E se ela fosse como os outros calouros e realmente não quisesse ter muito contato com ele?
Mas ele não precisava ter se preocupado. Shaunee não o rejeitou. Na verdade, o sorriso dela se ampliou.
— Isso seria incrível. Eu ia tentar colocar as luzes depois que eu trouxesse a última leva de coisas, mas fazer mudança é muito cansativo e tudo o que eu realmente quero é me jogar na minha cama nova e super confortável e assistir ao ultimo episodio de “A Guerra dos Tronos” no meu iPad. Eu realmente adoro a Daenerys.
 Stevie Rae e eu também estamos assistindo. Você sabe que tem corvos na série.
 Sim, e também tem dragões, coisas mortas e um anão bacana, o que parece ser uma coisa totalmente louca e sem noção, e é, mas num bom sentido  ela mordeu o lábio e pareceu que estava decidindo se ia dizer mais alguma coisa, então Rephaim ficou ali, esperando, mesmo quando a sua pele começou a formigar. Finalmente, Shaunee falou com uma voz bem baixa:  Erin nunca gostou da série. Ela dizia que era uma versão mais idiota de Dungeons e Dragons, e eu concordava em voz alta com ela, mas costumava assistir quando ela estava dormindo.
Rephaim não sabia muito bem como responder. Ele realmente não entendia por que as duas garotas antes costumavam agir como se fossem uma pessoa só e, por isso, ele também achava difícil entender por que as duas pareciam tão perturbadas e perdidas agora.
 Quem sabe você queira assistir comigo e com Stevie Rae quando a nova temporada começar?  ele ofereceu.
 Stevie Rae ainda faz pipoca com manteiga? Ela fazia uma pipoca com manteiga incrível.
 Ela ainda faz, sim, então com certeza ela vai fazer a pipoca. Com manteiga.
— Ah, nham-nham. Estou dentro. Obrigada, Rephaim.
 De nada. Agora eu preciso ir...  a voz dele morreu quando ele começou a se afastar em direção à saída do porão.
 Ei, ouvi falar sobre a visão de Aphrodite. Só quero dizer que eu espero que você não morra.
 Também espero que eu não morra  ele fez uma pausa e então acrescentou:  Se alguma coisa acontecer a mim, você poderia ligar para aquele telefone que você deu para o meu pai e contar a ele?
— Sim, é claro. Mas não vai acontecer nada com você. Eu espero. Além disso, você não precisa morrer para que a gente use o telefone, você pode ligar para ele quando quiser, você sabe, só para falar com ele.
Rephaim percebeu que ele nem tinha pensado em algo tão simples, tão mundano, tão normal como apenas ligar para o seu pai.
 Eu vou ligar. Em breve  ele disse com convicção.  A gente se vê depois do por do sol.
 Até mais  ela respondeu.
Então Rephaim teve que correr na última parte do túnel e subir apressado pela escada de ferro até o porão, mas ele não se importou. O seu último pensamento, antes de o corvo e o céu se apoderassem da sua mente humana, foi que ele estava contente por Shaunee e Erin não serem mais uma pessoa só, pois Shaunee sozinha era uma pessoa legal. E ao lado de Zoey e talvez Damien, os três poderiam ser os primeiros amigos verdadeiros que ele já teve na vida...


Kalona

Havia alguma coisa naquela noite que não o deixava descansar. Seus filhos já estavam dormindo, aquecidos e seguros, aninhados nas três cabanas de caçadores. Ele também deveria estar dormindo. Mas, em vez disso, ele se encontrava ao ar livre da montanha, sentado em uma enorme pedra achatada, pensando.
O iPhone estava na sua mão. Ele refletiu sobre o mundo moderno e a magia estranha que tinha se desenvolvido nos tempos atuais. Ele não conseguia decidir se gostava mais da modernidade ou do mundo antigo.
Certamente, agora era mais confortável. E também era mais complicado. Mas melhor? Kalona tendia a acreditar que não.
Ele olhou para o telefone. A caloura o havia dado para que ele pudesse ligar para Rephaim, mas o nome do garoto não estava na lista de contatos.
Que coisa mais inútil, ele pensou. Mas então, pensando melhor, ele percebeu que o nome de Stevie Rae estava lá. Ligando para a Vermelha, ele poderia falar com o seu filho.
Ele não queria falar com a Vermelha. Ela era a raiz dos seus problemas. Se ela não tivesse interferido, Rephaim estaria ali, ao lado dele, segundo a ordem natural das coias.
Ou Rephaim estaria morto depois de ficar sangrando, quebrado e sozinho naquela noite terrível. Esse não teria sido um fim melhor e mais apropriado para o meu filho do que ser acorrentado a uma jovem vampira e à sua Deusa implacável?
Os pensamentos mal haviam se formado na sua mente quando Kalona se arrependeu deles.
Não, não seria melhor se Rephaim tivesse morrido.
E Nyx não era implacável. Ela havia perdoado seu filho. Era só ele quem ela havia se recusado a perdoar. Kalona falou para o firmamento:
 É irônico que, ao fazer uma gentileza para o meu filho, você tenha feito uma crueldade para mim. Você tirou de mim a única criatura neste mundo que me amava de verdade  sua voz desapareceu rapidamente na noite e ele estava completamente sozinho. Deusa, ele estava cansado de ficar só!
Ele sentia falta da companhia de Rephaim. Os ombros de Kalona desabaram.
Foi então que ele sentiu a presença das Trevas. Foi sutil e bem disfarçada, mas Kalona conhecia as Trevas há tempo demais, tanto lutando contra elas quanto ao lado delas, para ser enganado.
Kalona largou o telefone e colocou no rosto uma expressão impassível e neutra. Ele não tinha ideia de por que o touro branco estava espreitando esta noite, mas ele sabia que a sua presença era um presságio de grandes problemas e tormentos para este mundo e, talvez, para ele.
Ele compreendia algo que Neferet, inebriada demais pelo poder, não conseguia entender: a encarnação das Trevas não poderia nunca ser um verdadeiro aliado. O touro branco tinha apenas um único objetivo: destruir o touro negro. Ele usaria qualquer coisa ou qualquer um para atingir esse objetivo, assim como ele destruiria qualquer coisa ou qualquer um que se colocasse no seu caminho.
Se Neferet acreditava que era sua Consorte, ela estava completamente errada. O touro branco das Trevas não tinha Consorte – ele tinha conquistas.
A presença se dissipou e Kalona suspirou de alívio. Então ele se endireitou, pensativamente.
Neferet? Eu senti a sua presença também?
Ele abaixou os olhos para o iPhone. Por quanto tempo será que eles ficaram observando? O que eles tinham escutado? O que eles sabiam? Será que Rephaim estava em perigo?
Kalona ficou em pé e se atirou no céu. Ele bateu suas asas poderosas contra a noite, pegando correntes de vento silenciosamente, e voou rápido em direção ao leste na escuridão da pré-alvorada.
Ele chegou à estação momentos antes de o sol nascer, aterrissou no chão de cascalho perto dos trilhos da estrada de ferro, longe da entrada principal que Shaunee já havia explicado a ele que não era utilizada.
Kalona estava andando de um lado para o outro, olhando para uma grade velha de metal e praguejando sem silêncio por ter deixado o maldito telefone na pedra, quando a grade enferrujada foi empurrada e seu filho saiu correndo do edifício.
Kalona começou a andar em direção a ele, muito aliviado pelo fato de o garoto estar bem e inteiro, quando seu filho abriu a boca e berrou – um som de agonia terrivelmente agonizante. Então ele viu o corpo de Rephaim estremecer e se contorcer até se transformar, e um corvo irromper da pele do garoto!
Movendo-se por instinto, Kalona subiu ao céu seguindo o corvo. O imortal ficou bem no alto, longe dos olhos curiosos da cidade, apesar de na verdade o corvo ter ficado bem pouco tempo na cidade. Em vez disso, ele voou para o oeste e um pouco para o sul, misteriosamente seguindo o mesmo caminho que Kalona havia trilhado. Não demorou muito até ver o corvo ficar empoleirado em um velho carvalho, cujos galhos se estendiam como um gigante protetor sobre os abrigos dos caçadores.
O Corvo Rephaim permaneceu ali, apenas ocasionalmente se alimentando, às vezes subindo ao céu, mas sempre, sempre, voando em círculos de volta para a montanha.
Quando o por do sol se aproximou, o pássaro voou. Desta vez, não voou em círculos, mas sim encarou o leste e bateu asas em direção a Tulsa. Kalona o seguiu e, quando o sol mergulhou no horizonte, o corvo aterrissou do lado de fora da entrada do porão da estação. O pássaro deu um berro que se transformou em um grito de agonia, e então ali estava Rephaim, nu, ofegante e de joelhos.
Kalona se escondeu nas sombras, observando seu filho se vestir. Então, o som da grade de metal se movendo fez os dois olharem para lá.
 Você voltou! Viva!  a Vermelha se atirou nos braços de seu filho.
Ele a abraçou forte, rindo e beijando-a. De mão dadas, os dois desaparecendo dentro do porão do edifício.
Kalona, subitamente confuso e sentindo-se incrivelmente velho, sentou-se nos trilhos enferrujados e falou em voz alta e para a noite e para a Deusa que era a sua personificação:
 Você o perdoou e ainda assim o faz sofrer como uma besta. Por quê? Ele está pagando pelas minhas transgressões? Maldita seja você, Nyx. Maldita seja.

3 comentários:

  1. Sei que Neferet é um pouco/muito perturbada, mas ter ciúmes de uma estátua já é D+.

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    Respostas
    1. Kkkk pra quem tem um relacionamento com um touro branco, ter ciúmes de uma estátua não é nada.
      Ana.

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