11 de outubro de 2015

Capítulo 24 - Lynette

— Lynette, minha querida, você está linda! — Neferet sorriu e caminhou em círculos ao seu redor. — Eu sabia que meu vestido lhe serviria bem. Você é muito mais magra do que suas antigas roupas faziam parecer.
— Bem, ultimamente eu tenho perdido peso — ela respondeu, alisando o vestido de seda.
Lynette teve um vislumbre de si mesma no longo espelho de Neferet. Eu pareço bem, mesmo que o único jeito de eu ter podido caber neste vestido foi ter a cintura completamente comprimida.
— E você estava certa. É bom para o ego vestir-se bem e aparentar no nosso melhor.
— É claro que eu estou certa. Eu sou uma Deusa!
Lynette observou Neferet fazer uma graciosa pirueta ao redor da sala. Seu longo vestido dourado girava em torno dela e suas serpentes se contorceram com entusiasmo sobre os seus tornozelos, como se fossem uma versão pervertida de filhotes.
Kylee entrou na cobertura.
— Deusa, seus adoradores estão reunidos no salão de festas, esperando a dádiva de sua presença.
Lynette assentiu sua aprovação para Kybô. A garota tinha abordado Neferet exatamente como ela a havia treinado. Neferet girou, tomando a recepcionista boquiaberta nos braços e ordenou:
— Valse comigo!
Ela tem sido assim desde que descobriu como quebrar o feitiço de proteção. É como se ela estivesse tendo um episódio maníaco. A alegria de Neferet preocupava Lynette. Ela sabia muito bem que o que sobe alto demais sempre cai. Eu não estarei no seu caminho quando ela desabar, Lynette prometeu a si mesma. Meu instinto de sobrevivência é uma das coisas que Neferet aprecia sobre mim, ela me disse isso.
— Lynette, pare de pensar em si mesma e preste atenção.
Imediatamente Lynette focou em Neferet, esperando ter que lidar com um de seus acessos de raiva. Mas Neferet não foi desagradável de todo modo. Ela deu a Kylee um último giro e, em seguida, sorrindo e abanando o rosto corado, Neferet simplesmente repetiu o que dissera sem exibir nenhuma raiva ou irritação para Lynette.
— Eu perguntei se você tem certeza de que Tony fez o que mandei. Você sabe que ele é pouco mais do que um marionete de uma criança.
— Oh, sim, Deusa. Claro que eu tenho — Lynette assegurou. — Eu verifiquei tudo novamente antes de vir até você. Tony fez exatamente o que mandou. Ele preparou uma festa, usando os últimos dos alimentos, e serviu o resto do vinho e do licor a todos aos seus adoradores.
— Até a minha equipe? — Neferet enviou a Kylee um sorriso carinhoso.
Lynette assentiu.
— Sim, até mesmo o seu pessoal.
— Será que você aproveitou a sua festa, Kylee? — Neferet perguntou-lhe, como se realmente se importasse com sua resposta.
— Sim, Deusa, eu aproveitei.
— Excelente! — ela riu feliz e fez um movimento de enxotar Kylee. — Vá em frente e anteceda-nos no salão de festas, Kylee. Mande o quarteto começar a tocar a música que escolhi da cena final do Ballet Giselle.
— Sim, Deusa.
Quando ficaram sozinhas, Neferet disse:
— Venha, Lynette. Você me ajudaria a ter certeza que meu cabelo está perfeito?
— Eu ficaria feliz em fazer isso, embora tenha que admitir que não sou muito boa com cabelos.
— Oh, apenas assegure-se de que nenhuma das flores que a estilista teceu na parte de trás caiu quando eu dançava. Qual era o nome dessa estilista? Ela era muito proficiente.
— Allison — Lynette respondeu, enfiando um raminho de volta no cabelo ruivo.
— Sim, isso mesmo, Allison. Um nome tão bom. Fiquei satisfeita com o que ela fez para a festa.
— Assim como eu — Lynette concordou. Apenas uma estilista das quatro que haviam sido contratadas para o casamento no Mayo ainda estava viva. Lynette pensou que a noite do casamento parecia ter acontecido há uma eternidade.
— Lynette, sinto muito por você ter perdido a festa, mas me agradou que você e eu tenhamos sido capazes de cear juntas antes. Espero que não tenha se importado que o guisado fosse simples e que o vinho não fosse o meu melhor.
— Nossa refeição foi maravilhosa. Eu gostei de tudo, até mesmo do vinho. — respondeu Lynette, maravilhada com o quão genuína Neferet parecia. Era como se um interruptor tivesse sido ligado dentro da Deusa. Toda a sua atitude mudou. Lynette estava com medo de ter esperanças, quando isso acabasse.
— E agora é quase meia-noite. Todo mundo está vestido com suas melhores roupas e saciados com alimentos e bebidas. O cenário está montado para o evento de saída perfeita — visse Neferet.
— Esse é o meu maior desejo — Lynette respondeu. Então ela teve uma chance e perguntou: — Deusa, tem certeza de que não há nada que eu possa fazer para ajudá-la com a nossa saída real?
— Ah, minha querida Lynette, não. Eu já lhe expliquei que o seu dever é fazer com que todos fiquem prontos para a nossa saída espetacular. O restante deste evento é o meu dever, já que exige a magia de uma Deusa.
— Como quiser Deusa, depois de você — Lynette fez uma reverência quando Neferet e seu enxame de Trevas passaram por ela.
Obediente, ela seguiu para o elevador, ignorando as serpentes de pele fria quando elas deslizavam sobre seus pés em sua pressa para ficar perto de Neferet. Na verdade, Lynette estava orgulhosa de si mesma. Estava ficando mais e mais fácil suprimir a repulsa que as criaturas de Neferet a faziam sentir. E Neferet apreciou isso. Qualquer coisa Neferet apreciava era uma coisa boa.
Lynette estava preocupada sobre como Neferet os libertaria do Mayo. Ela não tinha ideia do que a Deusa tinha planejado. Tudo o que sabia era que Neferet agia como se não tivesse absolutamente nenhuma dúvida de que conseguiria quebrar o feitiço e levá-los para fora do Mayo, e ela estava muito feliz com isso. Tal como acontece com o apreço de Neferet, sua felicidade era definitivamente uma coisa boa.
— Lynette, minha querida, você já foi à Itália?
Lynette piscou surpresa com a pergunta inesperada.
— Sim, na verdade fui. Já estive em Roma, Veneza, Sorrento e Capri.
— Você aproveitou a Itália?
— Muito — ela assegurou a Deusa. — Gostaria que eu começasse a pesquisar uma viagem para você?
— Oh, veremos como hoje à noite será não é? Como você mesma sempre diz: “você precisa de tempo e meios para planejar o evento perfeito.”.
Um pouco confusa, Lynette concordou com a cabeça, supondo ser um bom sinal que Neferet estivesse citando uma de suas frases. Ela alisou o lindo vestido que a Deusa tinha lhe dado e colocou o cabelo no lugar. Este era um evento para o qual Lynette absolutamente queria aparentar o seu melhor.


Zoey
— Então, por eu ter sido, de alguma forma, convocada para ser a secretária da horda de nerds, deixem-me recapitular sua tentativa patética de bolar um plano — Aphrodite falou, parando para olhar para o bloco amarelo no qual eu podia ver que ela tinha, na maior parte, apenas rabiscado o nome de Darius. – Temos nada. Nothing. Nichts. E discutimos planos por horas, embora eu esteja ficando extremamente ligada a sala de jantar dos professores — ela mordiscou a borda de um fudge brownie que o chefe de cozinha nos trouxera a cerca de uma hora ou mais. — Mas se eu ficar aqui por muito tempo, a minha bunda vai ficar do tamanho dessa cadeira confortável.
— Isso não é verdade — falei. — Bem, a parte sobre a sua bunda provavelmente sim. A parte do “nada, nothing, nichts” não é verdade. Sabemos que eu tenho que usar Magia Antiga para matar Neferet. Eu a estou usando — levantei a pedra da vidência como uma prova A — e eu não me apavorei ou fiquei maluca ou qualquer coisa. Então, eu poderia ser capaz de usá-la sem me transformar em alguma coisa terrível. Quero dizer, eu não sei como ainda, mas mesmo assim.
— A pedra da vidência aquece quando você está perto do Aurox — acrescentou Stark, recebendo de Aurox um olhar irritado.
— Mas não o tempo todo — disse Damien.
— Z, ela está quente agora? — Stevie Rae me perguntou.
Fechei os dedos em torno dela para ter certeza antes de responder, e balancei a cabeça.
— Não. É apenas uma pedra. Nem quente, nem fria.
— Neferet não pode ser morta — Aurox falou.
Nós todos olhamos para ele com surpresa. Ele estava sentado ao lado do nosso grupo, ouvindo, mas não disse quase nada durante horas.
— Sim, gênio. Nós sabemos disso. Ela é imortal — Aphrodite respondeu.
— Mas Zoey acabou de dizer que ela precisa usar Magia Antiga para matar Neferet. Damien disse isso há uma hora. Você mesma disse isso 45 minutos antes disso. Stevie Rae o mencionou assim que todos nos reunimos.
— Ok, já captamos isso — eu o interrompi, sentindo o nível de irritação na sala elevando-se com cada um de seus comentários. — Nós sabemos que ela não pode ser morta.
— Pelo menos, achamos que ela não pode ser morta — Rephaim observou. — Meu Pai era imortal, e ele está morto.
Houve um longo silêncio triste, por isso, quando Aurox falou, soou alto e bastante estranho.
— Eu acredito que esse é o núcleo do seu problema. Vocês não estão se fazendo a pergunta certa sobre o que aconteceu com Kalona. Vocês sabem que Neferet é imortal, mas acreditam que se Zoey exercer poder suficiente, ela ainda pode ser morta. Acho que é o erro que os está impedindo de descobrir o seu plano — como se ele estivesse se aquecendo para o assunto, Aurox se inclinou para frente em sua cadeira, estudando Rephaim. — Ninguém me explicou, mas vocês todos parecem saber a resposta não dita. Perdoe-me se isso lhe traz dor, mas você pode me dizer como seu pai foi morto, embora tivesse sido imortal por eras?
Stark levantou-se e pôs a mão no ombro de Rephaim.
— Eu vou responder isso para você — ele deu a Aurox um olhar duro. — Quando Heath, o garoto cuja alma está dentro de você, foi morto por Kalona, a alma de Zoey se despedaçou e ela ficou presa no Outromundo. Eu a segui até lá para tentar salvá-la. Kalona foi também, porque Neferet tinha controle sobre ele e o mandou para ter certeza de que Z nunca voltasse. Kalona e eu lutamos no Outromundo. Ele venceu. Eu perdi. Ele me matou. Nyx intercedeu porque Kalona a enganou. Ele nunca deveria ter estado lá, para começar. Ele foi banido do Outromundo pela Deusa, e só voltou por causa de um detalhe técnico.
Vi a confusão de Aurox e expliquei:
— Nyx baniu Kalona fisicamente, mas não disse especificamente que o seu espírito também não era permitido no Outromundo. Ele voltou para lá como espírito, não em corpo.
Aurox assentiu.
— Entendo.
— Porque o Pai desobedeceu ao édito da Deusa, ela ordenou-lhe que desse a Stark um pedaço de sua imortalidade — disse Rephaim.
— E porque Kalona obedeceu a seu comando, eu estou vivo hoje — acrescentou Stark.
— Mas ele está morto por causa disso — disse Aurox. — Entendo.
— E também entende que é um assunto muito doloroso agora? — Stevie Rae falou, tomando a mão de Rephaim e deslizando para mais perto dele.
— É claro que entendo isso. Eu não tive a intenção de causar qualquer dor. Rephaim, peço-lhe desculpas — disse Aurox.
— E eu aceito — disse Rephaim. — Todos nós sabemos que o Pai cometeu muitos erros. É apenas difícil de revivê-los agora.
— E, no entanto, precisamos de toda a informação que podemos obter para derrotar Neferet e isso inclui a compreensão de que sua imortalidade está intacta — Aurox continuou.
— Então ela não tem um calcanhar de Aquiles, como Kalona tinha — falei.
— Ela não tem uma fraqueza literal, como Kalona e Aquiles tinham — Damien observou em sua voz de professor. — Mas talvez possamos encontrar algo de seu passado que possamos usar contra ela.
— Nós já tentamos isso. A pedra da vidência se transformou em um espelho que mostrou seu passado, quando ela tinha sido espancada e estuprada por seu pai — falei. — A razão pela qual funcionou foi que ela ficou chocada o suficiente para que Aurox tivesse a chance de espetá-la e jogá-la da varanda. Ela não vai ser surpreendida por isso outra vez.
— Mas ela foi enfraquecida o suficiente para ser derrotada, ainda que temporariamente — ressaltou Aurox.
— Falando sobre a luta de assustador contra assustador — comentou Aphrodite. — Sem ofensas ao Garoto Touro, mas você pode ser tão terrível quanto as aranhas quando faz essa coisa e se transforma.
Eu tremi, não gostando da memória que passou pela minha mente do que se escondia sob a aparentemente fachada normal de Aurox.
— Sem ofensas — Aurox repetiu.
— Aurox, você pode matá-la? — perguntei.
Ele balançou a cabeça lentamente.
— Usei todo o meu poder contra ela na cobertura e isso não a matou. O que precisamos é de algo parecido com o que você e eu fizemos para ela, só que mais permanente. Precisamos de uma prisão feita para segurar um imortal, e não uma arma para matar um.
— Caramba — falei, sentando-me ereta. — A-ya!
— O que é A-ya? — perguntou Aurox.
— Quem, não o quê — corrigi falando rápido, tentando manter meus pensamentos ampliados. — A-ya era uma garota criada a partir da terra e soprada com a vida.
— Com Magia Antiga — Aphrodite completou.
Eu balancei a cabeça.
— Sim, com Magia Antiga. Ela atraiu Kalona para o subterrâneo.
— Porque a menos que tenham vínculo com a terra, os Imortais são mais fracos debaixo dela — Damien acrescentou, sua voz espelhando a minha emoção.
— Neferet não tem laços com a terra. Ela rouba o seu poder de almas quando pessoas morrem — disse Shaylin. — Ela é uma sanguessuga de almas.
— A garota A-ya foi capaz de aprisionar o Pai, porque ela foi criada com a Magia Antiga da Grande Mãe Terra e poder elementar concentrado por mulheres sábias que defendiam seu povo — disse Rephaim. — Ele foi preso por séculos.
— Até Neferet libertá-lo — completei.
— Acho que ela nunca foi uma vampira — Stevie Rae falou. — Ela é mais como uma feiticeira, uma superlouca, supermanipuladora e superpodre.
— Ohminhadeusa! — Damien exclamou, seus dedos voando em seu iPad. — A prisão de Nimue para Merlin na caverna de cristal criada a partir da própria magia dele! Isso é mais do que um tropo chato ou clichê, parábola em demasia. É a nossa resposta!
— Oh, pelo amor de Deus, fale inglês. Inglês moderno — Aphrodite solicitou.
Damien nem sequer teve tempo para franzir a testa para ela.
— Merlin foi conselheiro do Rei Arthur, lembra?
— Sim — respondi. — Ele não era um vampiro?
Damien balançou a cabeça.
— Não, não, não, embora as pessoas tendam a cometer esse erro com bastante frequência. As lendas do Rei Artur foram baseadas em um rei humano que viveu nos tempos medievais. Elas foram romantizadas por autores como Alfred Lord Tennyson, TH White e Marion Zimmer Bradley, que na verdade só transformaram tudo em ficção, incluindo Merlin.
— Eu me lembro — disse Stark. — Eu li a Trilogia de Merlin escrita por Mary Stewart. Merlin, basicamente, faz de Arthur um rei e, em seguida, não estava lá para ajudar a parar a queda de Camelot, porque ele está preso por sua própria magia usada por Nimue, a aprendiz por quem ele se apaixonou. Pelo menos acho que é assim a história, li quando era criança.
— Eu vi o filme da Disney A Espada era a lei — disse Stevie Rae. — Gostei, mas não me lembro de Nimue.
— Os detalhes não são importantes — Damien respondeu. — É o coração do mito que tem a pista da ideia de que precisamos.
— Nós usamos a sua própria magia para prender Neferet — falei.
— Não nós, Zo. Você — corrigiu Aurox.
— Ah, inferno.
Suspirei e tomei um grande gole da minha Coca. Essa seria uma longa noite.


Lynette
O elevador se abriu para o mezanino e Neferet andou graciosamente através do corredor, chamando a atenção de todo o salão para si quando foi para a larga escadaria de mármore e desceu ao nível em que seu trono estava. Lynette a seguiu mais lentamente, os olhos automaticamente buscando na multidão abaixo qualquer coisa ou qualquer um que pudesse estragar o ambiente festivo que ela tinha se empenhado tanto para criar.
Ela soltou um suspiro longo e satisfeito quando tudo pareceu tão perto da perfeição quanto possível. Bem, pelo menos as únicas pessoas que permaneceram vivas foram as mais atraentes. Isso definitivamente tornara o seu trabalho mais fácil. Estudando-os, Lynette teve que admitir que formavam um grupo bonito, se não olhasse muito de perto para seus rostos pálidos e preocupados, ou observasse a maneira nervosa que eles tendiam a se agrupar em pequenos grupos como se estivessem tentando fazer-se tão pequenos quanto possível e imperceptíveis. Lynette pensou que a falta de luz, provavelmente os ajudou a sentirem-se mais seguros. Eles estavam sem velas, por isso Lynette dissera a Judson posicionar a maioria dos candelabros em volta do trono de Neferet, na esperança de que ela ficasse destacada e não notasse a falta de iluminação no salão de festas.
Aparentemente, o plano de Lynette estava funcionando. Havia apenas luz suficiente sobre a multidão para que as joias das mulheres brilhassem, deixando todos, exceto a Deusa banhados por uma suave cor sépia.
Neferet levantou os braços. Lynette estava de pé no canto do patamar atrás dela, de modo que não podia ver o rosto da Deusa, mas a voz de Neferet transmitiu alegria.
— Meus leais veneradores, uma Deusa grata está diante de vocês!
Lynette ergueu as mãos, imitando aplausos. Os servos de Neferet imediatamente a imitaram e o resto das pessoas os seguiram, embora com menos entusiasmo.
— Obrigada, obrigada, que adorável da parte de vocês! — disse Neferet. Os aplausos foram sumindo e a Deusa continuou. — Passamos por muita coisa juntos. Eu quero que vocês, meus primeiros suplicantes, saibam que sua Deusa se lembrará eternamente que o seu reinado na terra começou aqui, em Tulsa, com vocês.
Lynette decidiu não interromper com mais aplausos, especialmente depois que eles morreram tão rapidamente. Ela esperaria até que o discurso de Neferet fosse concluído e, em seguida, sinalizaria a ovação final.
— Eu gostaria de mostrar um apreço especial à minha equipe. Judson, Kylee, vocês e o resto do pessoal poderiam vir para frente do salão de baile, por favor?
Isso é inesperado, pensou Lynette. Ela supostamente deveria apenas agradecer seus suplicantes com um discurso de tirar o fôlego, aguardando o relógio badalar a meia-noite...
Lynette olhou para o grande relógio que pairava sobre o foyer, suspenso numa elaborada moldura de art déco. Quinze minutos para meia noite. Neferet não falou nada sobre qualquer reconhecimento especial. Merda! Espero que ela não esteja esperando que eu tenha presentes para lhes dar.
O estresse começou a formar uma bola no estômago de Lynette. Não é bom que saia do roteiro de Neferet. Lynette observou os membros da equipe avançarem de suas posições normais na parte de trás do salão. Ela fez uma careta. Eles eram tão mecânicos, sem nenhuma vontade própria! Ela não gostava de imaginar o que as serpentes dentro delas estavam fazendo às pessoas reais que ainda estavam lá dentro.
Lynette reprimiu um estremecimento, olhando para baixo, onde deveria haver um ninho das coisas repugnantes deslizando em torno dos tornozelos de Neferet.
Elas tinham ido embora. Não havia serpentes em qualquer lugar ao redor da Deusa.
Isso é realmente estranho. Talvez ela lhes tenha dito para ficar invisíveis. Mas não, Lynette esteve perto o bastante de Neferet para ouvi-la desde que deixaram a cobertura. Ela não tinha dito nada para as criaturas.
— Ah, minha leal equipe — Neferet sorria para as dezoito pessoas possuídas pelas serpentes que estavam lado a lado, logo abaixo do hall. — Que bom que vocês todos parecem ter seus uniformes recém-passados. Sua Deusa está agraciada com vocês.
Lynette prestava atenção apenas parcialmente no que Neferet dizia, porque ela tinha encontrado as serpentes. Elas formaram um círculo preto em torno da pista de dança, que ondulava lentamente ao redor.
— Quero reconhecer sua obediência. Sim, sim, entendo que, em razão de estarem possuídos por meus filhos, vocês não tiveram escolha que não fosse ser obedientes — Neferet falou carinhosamente a eles. — No entanto, ainda assim reconheço o apreço de vocês.
O estômago de Lynette saltou. As pessoas no salão de baile não haviam notado que estavam envoltas pelas serpentes de Neferet. Ainda. O salão de festas estava muito pouco iluminado, e toda a sua atenção estava em Neferet.
— Agora, para mostrar o meu apreço, decidi que daria aos dezoito de vocês a última honra. Vocês sabem o quanto amo meus filhos, não é?
Cada um dos dezoito assentiu roboticamente.
— Então vocês entenderão o quanto os amo quando eu sacrificar cada um de vocês para o meu filho que descansa em seu interior.
A voz de Neferet mudou para um ritmo cantante.

Dezoito filhos, eu os liberto assim!
Possuam, devorem cada sacrifício para mim!

Bile subiu pela garganta de Lynette quando os funcionários de Neferet começaram a gritar e a se contorcer. Então suas bocas se abriram, abriram até que não pudessem mais. Até que a pequena Kylee, Judson Tony e o resto deles explodirem em uma chuva de sangue e carne, e as enormes serpentes emergirem consumindo cada um deles, de dentro para fora.
O salão de festas irrompeu em gritos. Neferet pareceu não tomar conhecimento. Ela ergueu os braços e estremeceu de prazer quando cada um de seus funcionários morreu. Um movimento ao longo das paredes capturou o olhar chocado de Lynette. Uma cortina negra pulsante caía das paredes do salão de baile, movendo-se em direção ao círculo de serpentes.
É a cortina que Neferet criou com os sacrifícios na varanda. A mente de Lynette girava com o pânico, mas seu corpo tinha congelado no lugar. De alguma forma, ela estava chamando as criaturas de volta para ela.
Os braços ainda erguidos, a voz de Neferet foi amplificada por um poder terrível, de modo que suas palavras ecoaram, abafando o caos e o pânico abaixo dela, e ela começou outro feitiço:

“O momento chegou.
Criem para mim confusão.
Morte me traz poder,
Para a meia-noite devem beber.
Eu os liberto nesta ocasião.
Meus servos para vocês se dobrarão.
Saciem-se! Alimentem-se!
Esta noite tenham o que necessitem!”

Neferet atirou os braços para o lado. As criaturas horríveis que ela chamava de filhos tornaram-se um laço de vida que terminou com os gritos das pessoas em pânico, matando-as, cada uma.
Neferet virou o rosto para Lynette. Ondas de energia inundavam a Deusa. Sua pele tremia e pulsava com ela, como se seu corpo estivesse mudando, crescendo, abaixo dela. Seus olhos brilhavam num verde esmeralda sólido.
Lynette apertou-se contra a parede, apavorada demais para falar.
— Ah, minha querida Lynette. Eu realmente reservei o melhor para o final.
— Por favor! Não deixe que um deles me possua! — as palavras dela explodiram.
Neferet parecia chocada.
— É claro que não vou deixar que um dos meus filhos a possua. Esse é o seu maior medo. Eu sei disso. Eu o conhecia o tempo todo — a Deusa deslizou mais e mais perto dela, até que foi capaz de alcançá-la com os dedos de aranha e acariciar o rosto de Lynette. – Você voltou para mim, para que eu a recompensasse. O seu sacrifício será apenas para mim. Você nunca mais terá medo. Nunca mais terá que se esforçar para superar o que o passado lhe fez. E, minha querida, eu me lembrarei de você por toda a eternidade.
Lynette sentiu um puxão no pescoço. Não foi doloroso. Foi estranhamente agradável e calmante para os nervos em pânico. Então ela sentiu o calor úmido de algo lavar seu corpo abaixo, absorvendo o belo vestido que Neferet lhe dera. As pernas de Lynette pararam de funcionar e ela desabou, mas a Deusa não a deixou cair. Neferet levou Lynette em seus braços e começou a alimentar-se dela, e quando o seu mundo ficou preto, Lynette chorou em silêncio lágrimas de sangue.


Neferet
Neferet não permitiu que o corpo de Lynette caísse no chão depois que ela o drenou. Em vez disso, o levantou gentilmente e o colocou com cuidado no trono, arrumando seus membros sem vida e ajeitando o vestido para que qualquer pessoa que a visse soubesse que a Deusa honrou seu sacrifício.
— Sentirei saudades, minha querida — Neferet disse ao cadáver, afastando o cabelo do rosto e beijando-lhe a testa com reverência. — Você foi a primeira a compreender que é impossível fugir de mim. Haverá tantos outros que virão a esse entendimento, mas você sempre será a minha primeira e minha eterna favorita.
Ela acariciou o rosto de Lynette uma última vez antes de descer as escadas de mármore e entrar no salão de festas.
Partes dos corpos desmembrados estavam espalhados pelo xadrez de mármore branco e preto, mas havia pouco sangue para manchar o chão bem cuidado. Seus filhos tinham feito um excelente trabalho, e não era de se admirar. Aqueles que tão valentemente cobriram o Templo com proteção não tiveram nada para comer por dias, pobres coitados. E ainda assim eles permaneceram onde ela ordenou. Vigilantes, protetores, amorosos.
Eles farão isso por mim. Sei que sim. Meus filhos me amam como eu os amo.
Neferet parou no salão diante das largas portas de bronze e vidro, diretamente sob o belo relógio que foi tão habilmente suspenso no teto.
— Crianças, venham a mim — ela chamou.
Eles correram para ela. Inchando e pulsando com a energia adquirida de seu festim que encheu o salão, ansiosos para responderem ao seu próximo comando. Neferet ajoelhou-se, reunindo-os para ela, acariciando sua adorada pele familiar, maravilhada com a sua força, como eles realmente haviam se tornado seus filhos.
— Eu sei como quebrar o feitiço de Thanatos e nos libertar-nos — ela lhes falou. Seus rostos sem olhos se voltaram para ela, seus corpos contorcidos a cercavam. — Mas não posso fazer isso sozinha. Vocês devem ajudar a sua Deusa, sua Mãe. Lynette deixou claro, a velha Thanatos não tem o poder de manter o feitiço; mesmo ela acredita que acabará por quebrar. Como vocês sabem, meus queridos, eu não sou uma Deusa paciente. E por que devemos esperar? — ela acariciou as crianças mais próximas com carinho quando ela explicou-lhes: — Bem, não precisamos esperar. As palavras do Touro Branco me inspiraram e eu sei a resposta. Ele disse que, ao longo da eternidade, eu descobriria que quanto mais algo é desejado, mais caro o sacrifício deve ser para atingi-lo. Nunca desejei mais do que ser livre dessa prisão para que eu possa reinar sobre este mundo mortal como a Deusa das Trevas, estar de uma vez por todas no completo controle do meu próprio destino. E não há nada mais para mim do que vocês, meus filhos leais.
Neferet fez uma pausa.
— Então, eu vou pedir a vocês, e não comandar. Vocês vão me salvar? Vão quebrar o encanto e me libertar? Se a sua resposta for sim, nem todos vão sobreviver a esta noite, mas aqueles que sobreviverem virão comigo, primeiro para a traidora House of Night, onde vamos faremos um festim com calouros, vampiros e humanos e então sairemos juntos para governar o reino mortal! Saibam:

“Por minha imortalidade eu juro,
Ao meu lado para sempre os conjuro.”

O ar em torno de Neferet ondulou com a força de seu juramento. Seus filhos acalmaram sua inquietação. Era um silêncio audível, um silêncio de espera, e isso encheu Neferet com alegria.
A Deusa se virou e olhou para as portas.
— Abram-nas! — ela gritou.
Seus filhos correram para obedecê-la, segurando abertas as amplas portas duplas do Mayo para que Neferet pudesse ver a calma e escura noite além. Enquanto ela falava, o poder dentro dela começou a zunir, ampliando suas palavras, levantando seu cabelo, deslizando sob sua pele e pulsando com magia escura ao redor dela.

“Eu os convoco,
Oh meus filhos!
Sejam meu sangue
Surjam adiante
Para mim sempre verdadeiros.
Eu os convoco,
Oh meus filhos
Sejam meu vigiante
Combatam adiante
Ganhem o mundo comigo mais uma vez.
Eu os convoco,
Oh meus filhos
Sejam meu amante
Me levem adiante
De modo que, finalmente, eternamente, eu receba o que me é devido!”

Neferet abriu os braços, e como relâmpagos negros, seus filhos atiraram-se para frente. A parede de fogo inflamou, engoliu a primeira onda de seus filhos. Neferet chorou sua perda quando eles morreram. Mas a morte não impediu os outros. Seus filhos ergueram-se mais uma vez, batendo nas chamas. Sempre que um queimava, outro tomava seu lugar, e apesar das lágrimas derramadas pelo rosto de Neferet, seus gritos de raiva e perda se transformaram em gritos de vitória quando lenta e inevitavelmente, as chamas queimaram mais e mais, até que finalmente, como um silvo de gelo que cobre a vela, o muro de proteção foi extinto.

2 comentários:

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!