9 de outubro de 2015

Capítulo 24 - Aurox

Apesar de Aurox precisar que ela desse essa ordem para que ele pudesse se aproximar de Vovó Redbird o bastante para salvá-la, aquelas palavras fizeram o estômago dele se contrair e o seu coração disparar. Ele se levantou e começou a caminhar na direção da jaula feita de gavinhas de Trevas.
— Apenas quebre o pescoço dela. Não danifique o seu corpo ainda mais do que o estrago que os meus filhos já fizeram. Quero me certificar de que Zoey possa identificá-la.
— Sim, Sacerdotisa — Aurox disse sem mostrar emoção.
Ele não olhou para a terrível poça de sangue coagulado e turquesas quebradas que havia se formado, manchando o carpete abaixo da jaula. O olhar dele e o de Vovó Redbird se encontraram.
Aurox tentou dizer a ela com aquele único olhar que ela não precisava ter medo, que ele nunca iria machucá-la. Sem emitir som, ele movimentou a boca para falar duas palavras para ela: corra e varanda.
Vovó continuou olhando para ele. Ela assentiu e disse:
— Eu vou sentir falta do nascer do sol, das lavandas e da minha u-we-tsi-a-ge-ya, mas a morte não me aterroriza.
A jaula estava quase ao alcance de Aurox. Ele sabia o que precisava fazer. As gavinhas iriam se abrir para ele. Vovó iria correr. Ele iria persegui-la, mantendo o seu corpo entre o dela e os filhotes deslizantes de Neferet, pegando-a lá fora, na varanda. Então ele iria segurá-la, até que Kalona a levasse para um local seguro.
Então os elementos iriam abandoná-lo e a besta teria que lutar pela sua própria liberdade. Aurox tinha pouca esperança de conseguir, mas ele se agarrava ao pensamento de que libertar Vovó Redbird já era uma vitória por si só. Aurox levantou as mãos para romper os filamentos de Trevas.
— Por que você não invocou a besta? — a voz de Neferet estava a centímetros dele.
Vovó Redbird se encolheu para trás, olhando por sobre o ombro dele.
Aurox se virou. Neferet estava ali, pairando sobre um ninho de gavinhas deslizantes. Ele não podia ver os pés dela. Dos joelhos para baixo, parecia que ela havia se transformado em uma parte dos filhos de Trevas que havia tanto tempo ela alimentava.
Então ele sentiu medo. Esse medo provocou calafrios em Aurox como um vento de inverno. Mas, dentro dele, o fogo enviou uma onda de calor e ele reencontrou a sua voz.
— Sacerdotisa, a besta não responde aos meus comandos como fazia antes do ritual de revelação. Mas eu não preciso dela para quebrar o pescoço de uma velha mulher.
— Mas eu realmente gosto de bestas. Vou ajudar você a fazê-la emergir — rápida como o bote de uma cobra, Neferet deu um tapa em Aurox.
A besta estremeceu, mas a terra suavizou a dor lancinante, permitindo que Aurox controlasse a criatura mais uma vez. Neferet levantou a sobrancelha.
— Isso não é interessante? Eu não sinto o menor sinal da presença da criatura — o seu ninho de Trevas a levou para ainda mais perto de Aurox.
Ele podia sentir o seu bafo, que tinha um cheiro rançoso, como se ela tivesse comido carne podre. Ele se forçou a não se mover quando ela se inclinou sobre ele, colocando os seus braços em volta de Aurox, como se ele fosse seu amante.
— Mas você sabe o que eu sinto?
Aurox não conseguiu falar. Ele só conseguiu balançar a cabeça.
— Eu vou dizer a você — ela passou a sua unha afiada pelo rosto dele.
O sangue brotou e as gavinhas em volta dela estremeceram na expectativa.
— Eu sinto traição — ela deu outro tapa nele, desta vez usando a sua mão como uma garra e tirando mais sangue do seu rosto. — Você é um Receptáculo, criado como um presente para mim. Você é meu e tem que obedecer às minhas ordens. A besta é minha e eu posso invocá-la — Neferet o atacou novamente, extraindo mais sangue.
A besta se agitou, mas o espírito fortaleceu Aurox, permitindo que ele mantivesse o controle.
— Espírito? Como o espírito pode estar presente dentro de você? — Neferet cresceu sobre ele, e sua fúria fez com que as gavinhas se multiplicassem e se expandissem. — Ataque-o!
A Tsi Sgili atirou um filamento de Trevas nele. Desta vez, Aurox levantou o braço para bloquear o impacto. A gavinha fez um corte profundo em todo o seu antebraço. A besta estremeceu, alimentando-se da dor de Aurox.
Instantaneamente, os outros quatro elementos se uniram ao espírito que o acalmava, e a água o suavizou, o ar o resfriou, a terra o apoiou e o fogo o fortaleceu.
A ira de Neferet era terrível.
— Os elementos estão com você! Onde estão aquela vaca da Zoey e o seu círculo?
— Longe de você, bruxa! — Aurox gritou, e então ele se virou e rasgou a jaula de Trevas, abrindo-a.
Pegando Vovó Redbird em seus braços, Aurox correu.

“Ataquem! Machuquem! Provoquem uma dor insuportável em Aurox, essa é a minha ordem!”

As gavinhas pegaram Aurox pelos tornozelos, ferindo-o profundamente e fazendo com que ele tropeçasse. Ele derrubou Vovó Redbird. A velha mulher gritou:
— Aurox!
Ele tentou responder, dizendo para ela correr para a varanda, onde a liberdade a esperava, mas Neferet foi mais rápida, terminando o feitiço num piscar de olhos.

“Besta feita de Trevas, apareça! Obedeça à minha ordem!”

Aurox foi engolfado pelas gavinhas de Trevas. Elas não apenas o cortaram. Elas pressionaram os seus corpos contra ele. A pele dele ondulou e começou a absorver aquelas terríveis criaturas parecidas com cobras. A dor ardia por baixo de sua pele. Acompanhando cada batida do seu coração disparado, as Trevas pulsavam através do corpo de Aurox, combatendo os elementos até que eles desaparecessem, despertando a besta.
Vovó Redbird estava chorando e estendendo o braço na direção de Aurox. A dor dentro dele era insuportável, e com um tremor terrível o seu corpo começou a se transformar.
— Não! Vá! — Aurox conseguiu gritar.
A voz dele havia mudado. Era incrivelmente poderosa e completamente inumana. A besta emergiu, nascida da dor, do ódio e do desespero.
A velha mulher se levantou e começou a mancar na direção da porta quebrada da varanda.
— Mate-a! Agora! — Neferet ordenou.
Dentro da parte da mente que ainda era sua, Aurox gritou quando a besta rugiu e obedeceu.


Zoey

Balancei a cabeça para Aphrodite quando ela pediu a sua terceira taça de champanhe.
— Como você consegue beber?
— Usando a minha identidade falsa que diz que eu sou Anastasia Beaverhousen e tenho vinte e um anos.
Revirei os olhos.
— Ok, o meu nome falso na verdade é Kitina Maria Bartovick — ela disse.
— Ah, como se esse nome não fosse tão obviamente falso — revirei os olhos de novo.
— Tanto faz. Funciona.
— Você não respondeu à minha pergunta sobre as centenas de taças de champanhe.
— Não respondi mesmo, e você perdeu o senso de humor — ela deu um gole naquele líquido rosado e borbulhante. — Enfim, de repente você ficou com a aparência péssima. O que está rolando?
Esfreguei a testa. Minha mão estava trêmula. Meu estômago estava me matando.
Aphrodite se inclinou para mais perto de mim, fingindo estar interessada no livro de Geometria aberto em cima da mesa, e sussurrou:
— Se você começar a tossir sangue e morrer, você vai ferrar totalmente o nosso plano.
— Eu não estou morrendo. Eu só... — perdi a fala quando fui preenchida por uma onda de energia. — Ah, não!
— O que foi?
— O espírito. O elemento está de volta — falei enquanto digitava o número de Thanatos no meu telefone.
Através da janela enorme da frente do restaurante, eu vi o ombro de Shaunee dar um solavanco, como se alguma coisa tivesse acabado de bater com força dentro dela também, e juro que o ar em volta dela soltou faíscas de fogo. Ela se virou. Os nossos olhos se encontraram. Ela pegou a sua vela vermelha.
Thanatos atendeu no primeiro toque.
— Kalona pegou Vovó? — perguntei.
— Não. Não há nenhum sinal dela. Zoey, você não pode... — ela ainda estava falando quando eu desliguei o telefone e peguei a pequena vela roxa.
— Ela não está a salvo? — Aphrodite perguntou.
— Não — eu me levantei. — Eu vou subir lá agora — sem esperar para ver se ela concordava comigo, saí correndo do restaurante, atravessei o lobby e cheguei ao elevador.
Shaunee e Darius me encontraram lá. Ela estava segurando a sua vela. A chama dela estava brilhando bem mais forte do que a da minha pequena vela roxa, mas as duas velas ainda estavam acesas.
— O fogo voltou — Shaunee disse.
Apertei o botão do elevador com a seta apontada para cima.
— Eu sei. Vovó ainda está lá em cima.
Stark entrou correndo no lobby, com Damien logo atrás dele. Ele também ainda estava segurando a sua vela acesa.
— O ar retornou! O fogo e o espírito também?
Eu assenti e então encarei Stark.
— Vovó não saiu. Eu vou subir lá agora.
— Não sem mim — Stark afirmou.
— Ou sem mim — o rosto de Stevie Rae estava corado e ela estava cuidando da sua vela acesa.
Shaylin parecia assustada e confusa quando entrou apressada no lobby, protegendo com a mão a chama da sua vela azul.
— Aconteceu alguma coisa. A água voltou e Thanatos não fechou o círculo. Achei melhor entrar aqui.
— Você fez bem — respondi. — Ok, olhem só — as portas do elevador se abriram e eu entrei. — Aurox perdeu o controle. Provavelmente porque Neferet fez algo terrível. Eu e Stark vamos subir lá para ter certeza de que essa coisa terrível não vai acabar matando a Vovó. Vocês ficam aqui. Não deixem as suas velas se apagarem. Mantenham o círculo aberto.
— Claro que não, que inferno — Shaunee falou, entrando decidida no elevador. — Se você vai, o fogo também vai.
— Todos nós vamos — Stevie Rae afirmou.
— Foda-se, eu também vou — Aphrodite disse.
E foi assim. Eu e meus amigos nos apertamos dentro do elevador. Apertei o botão para subir até a cobertura.
— Vocês sabem que vai estar rolando uma merda incrivelmente foda quando essas portas se abrirem — Aphrodite nos alertou.
— Fique dentro do círculo e perto de Zoey — Darius a orientou.
Ele tinha uma faca em cada mão.
Stark engatou uma flecha no seu arco. Coloquei a mão que não estava segurando a vela em seu ombro.
— Não mate Aurox a menos que você tenha que fazer isso.
— Zoey, não é Aurox que vamos encontrar. Vai ser a besta. Lembre-se disso — ele respondeu.
Eu concordei.
— Vou me lembrar. E lembre que eu amo você.
— Sempre — ele falou.
As portas se abriram e vimos um hall deserto. Como se a gente fosse um só, saímos juntos do elevador, segurando as nossas velas acesas e mantendo o nosso círculo aberto.
O cheiro de sangue me atingiu. Misturado na terrível sedução daquele aroma, havia o perfume de lavanda e algo que não consegui identificar. Algo que me lembrava dos rochedos que rodeavam a fazenda de Vovó.
— Turquesa — Stevie Rae afirmou. — Eu posso senti-la.
Então escutei Vovó chamar o nome de Aurox, e logo depois um grito seguido de um terrível rugido, e então a voz inconfundível de Neferet ordenando:
— Mate-a! Agora!
Entrei correndo na cobertura.
— Ar, fogo, água, terra, espírito! Detenham a besta!
Houve um flash ofuscante quando Aurox, totalmente transformado naquela criatura horrível que repousava embaixo da sua pele, arremeteu contra Vovó. O poder dos elementos o envolveu e o segurou, chiando de energia. A besta rugiu de ódio, cuspindo sangue e saliva daquela boca terrível, enquanto ele rodeava Vovó.
— U-we-tsi-a-ge-ya!
— Vá para a varanda! — eu berrei.
Havia uma porta de vidro estilhaçado apenas alguns metros atrás de Vovó, e através dela eu podia ver a varanda iluminada pelas estrelas na qual Kalona, com as asas abertas, estava pousando.
— Não! Desta vez não! — de repente Neferet estava ali, diante do meu grupo. — Fechem a porta!
Neferet ordenou e uma teia preta se formou sobre a porta quebrada, bloqueando a saída de Vovó. Então ela se virou para nós.
— Desta vez vocês estão na minha casa, e eu não convidei nenhum novato ou vampiro vermelho para entrar!
— Ah, não! — Stevie Rae gritou quando ela, Shaylin e Stark foram levantados do chão e arremessados contra as portas fechadas do elevador com tanta força que Shaylin berrou. Ela e Stevie Rae derrubaram as suas velas. O círculo estava rompido.
— Zoey! — Stark exclamou, soando como se ele estivesse em agonia enquanto o seu corpo continuava se chocando contra as portas de metal fechadas do elevador.
— Faça isso parar! — Shaylin implorou.
Eu entendi o que tinha acontecido. Regras diferentes se aplicavam aos vampiros vermelhos. O sol os queimava. Eles conseguiam controlar a mente dos humanos. E eles não podiam entrar em uma casa sem serem convidados.
Aphrodite conhecia muito bem essas regras. Ela correu até o elevador e apertou o botão. Quando as portas se abriram, os três foram jogados para dentro. Stark se levantou primeiro.
— Traga o meu arco para mim! — ele gritou para Rephaim.
— Não. Eu prefiro que você fique sem o seu arco — Neferet disse. Ela mexeu a mão e algo escuro e pegajoso derrubou Rephaim. — Mas eu quero que vocês três assistam — ela estalou os dedos e gavinhas parecidas com teias de aranha se formaram em volta das portas do elevador, mantendo-as abertas. Então ela se voltou para mim. — Que ótimo que você veio se juntar à sua avó. Vamos nos divertir, não? Receptáculo, mate a velha!
A ordem de Neferet foi como um chicote sobre a besta. Ele rugiu e se debateu contra a prisão dos elementos. E os elementos começaram a ceder.
Eu soltei a minha vela e levantei as mãos. Damien pegou a minha mão direita. Shaunee agarrou a minha mão esquerda.
— Espírito, segure-o! — eu berrei.
— Ar, bata nele! — Damien gritou.
— Fogo, acabe com ele! — Shaunee acrescentou.
A bolha de energia em volta da besta pulsou e por um momento achei que ela fosse aguentar. Então Neferet falou de novo.

“Meus filhos que estão aí dentro, feitos das divinas Trevas,
Venham para a superfície e consumem a minha vingança!”

A pele da besta estremeceu e se contraiu e, enquanto ela rugia, criaturas negras e medonhas foram cuspidas da sua boca. Elas se chocaram contra a bolha de poder elemental. Eu senti uma exaustão, como se eu tivesse recebido um soco no estômago. Shaunee gritou. Escutei Damien ofegar de dor. Os dois ainda estavam agarrando as minhas mãos.
— Espírito, continue firme!
— Ar, mantenha o controle!
— Fogo, aguente aí!
Nós três tentamos, mas eu sabia que estávamos perdidos. As criaturas de Trevas eram muitas. Elas eram poderosas demais. Um círculo quebrado não conseguiria detê-las.
— Zoey! Vá embora!
Vovó estava encolhida no chão diante da teia de Trevas que havia impedido a sua fuga para a varanda. Eu podia ver Kalona do outro lado, combatendo as Trevas furiosamente. Ele estava arrancando, cortando e ferindo as gavinhas. Ele estava avançando, mas eu sabia que não rápido o bastante.
— Vovó, venha para cá!
— Eu não consigo, u-we-tsi-a-ge-ya. Estou muito fraca.
— Tente! Você tem que tentar! — Stevie Rae gritou do elevador.
Vovó começou a se arrastar na nossa direção.
Neferet deu uma gargalhada.
— Isto é tão divertido! Nunca imaginei que eu iria acabar com todos vocês de uma só vez. Vou até me livrar de Kalona. O Conselho Supremo vai ficar furioso quando souber que ele ficou louco e me atacou e que, quando vocês vieram tentar me salvar, ele matou todos vocês — ela estava sentada no grande sofá arredondado, com as pernas cruzadas e com a mão no joelho, de um modo bem afetado.
O seu longo vestido negro cobria os seus pés, mas havia algo errado. Neferet não estava se movendo, mas o tecido do seu vestido não parava quieto. Eu estremeci. Era como se ela estivesse coberta de insetos.
— Ninguém vai acreditar nisso. Thanatos está aqui. Ela é nossa testemunha — eu afirmei.
— Vai ser tão triste contar que Kalona atacou a sua Alta Sacerdotisa antes de mim — ela disse.
— Você não vai escapar assim! — eu berrei para ela.
Ela riu de novo e fez um gesto com o dedo, chamando as criaturas que haviam saído do corpo da besta. Elas pressionaram a bolha com uma energia renovada. Shaunee cambaleou e a mão dela escapou da minha. O poder elemental que continha a besta diminuiu.
— Sinto muito, Zoey. Eu não consigo mais — Damien soltou a minha mão e caiu de joelhos, passando mal.
A bolha estremeceu.
Senti um puxão violento dentro de mim e soube que logo eu iria perder o espírito também e que a besta ficaria livre.
— Cresça, Zoey. Desta vez você não vai salvar o dia — Neferet falou.
Stark estava gritando atrás de mim. Darius e Rephaim estavam lado a lado na frente do elevador aberto, combatendo os filamentos de Trevas que continuavam tentando entrar. Mas tudo aquilo pareceu muito distante para mim, pois as últimas palavras de Neferet ficaram ecoando dentro da minha mente sem parar. Eu salvo o dia... eu salvo o dia... eu salvo o dia...
Então eu me lembrei. Não é um poema! É um feitiço!   
Senti o espírito sair de mim com um solavanco e dei um passo para a frente. Peguei o pedaço de papel roxo dobrado no bolso da minha calça jeans, e a minha pedra da vidência se inflamou com o calor.
Eu não tinha tempo para me questionar. Eu só tinha tempo para agir. Puxei a corrente que prendia a pedra em volta do meu pescoço e a segurei diante de mim como um escudo. Então, com uma voz amplificada pela dor e pelo poder, eu recitei:

“Espelho ancestral
Espelho mágico
Tons de cinza
Escondido
Proibido
Dentro, fora
Rompa a névoa
Toque de magia
Invoque as fadas
Revele o passado
O feitiço está feito
Eu salvo o dia!”

Olhei através da pedra da vidência e o mundo se transformou completamente. Eu não estava mais segurando uma pedra com a forma de uma pastilha Life Savers. Diante de mim, ela se expandiu e ficou com uma superfície redonda e brilhante. Eu não entendi o que era aquilo até que vi o reflexo da sala reluzindo sombriamente em sua superfície.
— Você acha que pode me combater com um espelho? — Neferet perguntou.
Eu não hesitei. Eu já sabia a resposta.
— Sim — eu disse com firmeza. — É exatamente isso o que eu vou fazer — segurando o espelho com as duas mãos, eu o virei para que ele capturasse a imagem de Neferet.
Ela havia se levantado do sofá. O espelho pegou o reflexo enquanto ela deslizava na minha direção. Ela estava rindo cruelmente e olhando com desprezo para o espelho quando toda a sua linguagem corporal mudou. Neferet começou a balançar a cabeça de um lado para o outro. Sua boca se abriu e ela gemeu, encolhendo-se para trás, como se estivesse se protegendo de um golpe invisível. Surpresa com a mudança de postura dela, estiquei o pescoço e olhei para o reflexo.
No espelho, havia a imagem de uma Neferet que eu não conhecia. Ela era jovem, parecia ter mais ou menos a minha idade. Ela também era bonita, extremamente bonita, apesar de o seu longo vestido verde estar rasgado, deixando claro que alguém havia batido nela. Muito. O rosto dela estava perfeito, não tinha sido tocado. Mas parecia que haviam marcas de mordidas no seu peito. Os pulsos dela estavam inchados e com hematomas escuros. Mas o mais horrível de tudo era o sangue que cobria a parte interna das suas coxas e escorria pelas suas pernas.
— Não! De novo não! Não quero ver isso nunca mais! — Neferet cobriu o rosto com as mãos, soluçando de desespero.
Enquanto a Tsi Sgili chorava arrasada, as gavinhas de Trevas começaram a se dissolver.
— Espírito! — eu chamei o meu elemento, o único que ainda continha a besta em um círculo de poder cada vez mais fraco. — Solte-o — então eu andei para a frente, mantendo o espelho apontado para Neferet. — Aurox! — o meu grito fez a besta desviar os olhos do lugar em que a Vovó havia caído e olhar para mim. — As Trevas não controlam você. Volte para nós. Você consegue! — eu disse.
Ele balançou a sua cabeça disforme. Continuei andando na direção dele. Ele começou a me rodear. Continuei olhando nos seus olhos cor de lua.
— Espírito! Não o prenda, ajude-o!
Senti quando o elemento entrou na besta. Ele cambaleou, caiu de joelhos e rugiu.
— Lute! Você é mais do que uma criatura feita de Trevas! — atirei as palavras nele.
Ele levantou a cabeça e senti uma onda de esperança. A sua pele estava tremendo e se contraindo. Ele estava se transformando!
— Zoey, cuidado! — Stark gritou.
Desviei os olhos de Aurox a tempo de ver Neferet se aproximando de mim. Ela ainda estava olhando fixamente para o espelho. Lágrimas de sangue escorriam dos seus olhos. Ela havia cortado a sua própria carne com as suas mãos feito garras. Ela levantou aquelas mãos ensopadas de sangue e mortais.
— Sua vaquinha! Não vou deixar que você traga tudo isso de volta para mim! Maldita seja Nyx! Eu mesma vou matá-la! — Neferet correu na minha direção.
Aurox a atingiu violentamente. Ele ainda era uma besta, e a ponta branca e comprida de um chifre espetou Neferet bem no meio do peito. A força do impulso levou ambos para a frente, e eles atravessaram juntos o resto da teia que Kalona estava combatendo.
O imortal alado se desviou quando aquele ser metade besta metade garoto passou pela varanda carregando Neferet, que gritava e se debatia. Levou menos do que um piscar de olhos até os dois chegarem à borda da varanda. O poder sobrenatural do corpo da besta despedaçou o parapeito de pedra e os dois despencaram da cobertura.

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