11 de outubro de 2015

Capítulo 23 - Zoey

O funeral de Kalona foi triste e feliz ao mesmo tempo, e passou bem rápido. Travis e Shaunee trabalharam tão bem juntos que às vezes parecia que eles estavam lendo a mente um do outro. Darius e Aurox ergueram um toldo para protegê-la do sol e de lá ela deu instruções para Aurox, Travis e uma equipe de humanos que incluía o detetive Marx e os oficiais que se incumbiram de carregar o corpo de Kalona, assim como um grupo de homens que tinham de alguma forma começado a ajudar.
Durante todo o tempo havia um grande corvo, obviamente Rephaim, empoleirado à beira do teto do toldo, logo acima de Shaunee, inclinando a cabeça com interesse ativo e silenciosamente vigiando tudo.
Foi no meio da tarde, quando Shaunee disse que os troncos e tábuas estavam perfeitos e pediu que trouxessem o corpo de Kalona. Detetive Marx e Darius ficaram à frente na maca. Os oficiais do Departamento de Polícia de Tulsa em uniformes recém-passados e Aurox, todo vestido de preto, se alinharam ao longo dela, levantando-a e caminhando em passos lentos em direção à pira.
Esperei ao lado da pira com Shaunee, Damien, Lenobia e Erik. No último minuto, usando óculos escuros Chanel, Aphrodite se juntou a nós.
— Você está bem? — elhe perguntei em voz baixa.
— Não, mas tem muitos da horda de nerds faltando. Alguém tem que representar.
Eu sorri para ela e lhe dei um abraço.
— Agradeço por deles.
— Pare. Sério. É mais demonstração pública de afeto do que posso aguentar quando estou de ressaca. Ou até mesmo quando não estou de ressaca.
Em seguida, a atenção de todos se focou no corpo de Kalona quando o carregaram pelo gramado verde. Ele estava coberto por um pano prateado extremamente grande. A luz do sol da tarde parecia brilhar quando ele chegou mais e mais perto da pira e o material brilhou e vibrou como se fosse feito de mercúrio líquido.
— Aquilo é incrível — observei. — Nunca vi nada parecido com aquele tecido.
— Eu o encontrei na sala de teatro e dei a Damien para a mortalha de Kalona — Erik respondeu. — Mas ele não brilhava desse jeito.
— É Erebus — Damien explicou. — Ele direcionou a magia da luz do sol para o seu irmão.
Pisquei rápido, e estava tão concentrada em não chorar que não notei as pessoas até Shaunee apontar para elas.
— Uau, olhem todos os humanos!
Liderados por Travis, uma longa fila de pessoas cabisbaixas foram se arrastando para fora dos estábulos.
— Eles gostavam dele — disse Lenobia. Quando lhe lancei o meu olhar de interrogação, ela explicou: — Kalona fascinou os seres humanos, mas parece que também gostavam de verdade dele. Ele foi paciente com as suas perguntas e não ficou com raiva quando as crianças puxavam suas penas.
— Então as crianças chegaram a agarrar as suas penas — Aphrodite disse. — Queria ter gravado isso.
— E vocês também têm que se lembrar que o vídeo o fez parecer um herói — disse Lenobia.
— E o vídeo no YouTube se tornou viral.
— Kalona foi um herói — Shaunee falou com firmeza. — Ele salvou Rephaim. Tentou o seu melhor para salvar a Vovó Redbird. Ele salvou um monte de nós na frente do Mayo. Até morreu tentando salvar alguém que ele nunca conheceu. Ele cometeu erros terríveis em sua vida, mas no final, estava do lado certo, ele fez a coisa certa.
— E Nyx o perdoou — falei, concordando com ela.
O corvo, circulando baixo sobre as nossas cabeças, crocitou como se concordando com Shaunee também. E depois foi até o carvalho mais próximo da pira e empoleirou-se em um galho grosso que se estendia em direção a ela.
— Zoey, eu ajudarei Travis a organizar a multidão. Você pode começar quando estiver pronta —  Lenobia disse.
Concordei com a cabeça e, em seguida me virei para Shaunee.
— Acho que você deve ser a oradora. Ele e eu tínhamos muita história — ela começou a protestar, mas eu a interrompi. — Não quero dizer que tenho quaisquer sentimentos ruins sobre Kalona agora. Na verdade, eu já não os tinha faz algum tempo. Mas isso é diferente de ser amiga dele. Um amigo deve falar em seu funeral, e acho que você era essa amiga.
— Estou de acordo com Z — Aphrodite concordou.
— Assim como eu — disse Damien.
— Mas eu não sei o que dizer — Shaunee protestou.
— Sim, você sabe — Erik pegou sua mão e sorriu intimamente para ela. — Você é boa em dizer o que sente. Basta fazer isso por Kalona mais uma vez.
Há! Tem algo rolando entre eles! Fiquei sinceramente feliz por eles.
— Ok, eu vou fazê-lo — Shaunee concordou.
— Eu vou segui-la com a tocha. Me avise quando quiser que eu a entregue a você —  falei.
Shaunee acenou com a cabeça, ergueu o queixo e caminhou propositadamente através do círculo de pessoas para ficar na frente da pira de Kalona.
A multidão já tranquila ficou absolutamente silenciosa. Ouvi Shaunee tomar um grande fôlego, e então ela começou.
— Kalona era Guerreiro da nossa Grande Sacerdotisa, e protetor desta House of Night. Ele era meu amigo. Era um bom pai para seu filho, Rephaim. Essas coisas são importantes. Guerreiro, amigo e pai, mas Kalona era algo mais. Ele era um ancião andando entre nós nesta terra, para o bem ou para o mal, um lembrete constante de que o nosso mundo está cheio de forças mágicas. Kalona era a prova concreta de que essas forças podem ser imponentes e impressionantes, assustadoras e fascinantes, maravilhosas e terríveis, tudo ao mesmo tempo. Ele era o nosso super-herói, e até mesmo um super-herói às vezes comete erros. Ele errou, mas no final manteve seu juramento e se sacrificou para nos proteger. Quando eu me lembrar de Kalona, recordarei com respeito e amor, sempre o amor.
Shaunee acenou para mim e dei um passo à frente, entregando-lhe a tocha acesa que eu carregava.
— Agora todos vocês devem dar três grandes passos para trás. Acenderei a pira de Kalona, e isso será brilhante e quente. Mas vocês não precisam ter medo. O fogo me escuta e eu lhes dou o meu juramento de que só vou usá-lo para proteger e servir a Deusa e a Luz — eu a vi trocar sorrisos com o detetive Marx e os policiais uniformizados. Quando todo mundo se moveu longe o suficiente, Shaunee disse: — Fogo, eu o chamo para mim. Acenda uma fogueira que Kalona possa ver do Outromundo!
Ela tocou a tocha na pira e fogo rugiu a partir dela, como se tivesse acabado de ligar um lança-chamas. No mesmo instante, um feixe de luz se ergueu a partir do oeste, intensificando a fogueira já impressionante de Shaunee. Nós todos nos movemos para mais longe, embora ninguém agisse com medo ou pânico. Acima de nós o filho de Kalona, sob a forma de um corvo, gritava cada vez mais tristemente. Quando formas escuras circularam muito acima de nós, lançando sombras estranhas sobre a pira, e os gritos de Rephaim ecoaram no vento, percebi que não era apenas um corvo que eu estava ouvindo, mas centenas deles.


Com a ajuda de fogo e, nós suspeitamos que de uma dose maior de luz solar, a pira queimara mais rápido do que qualquer outra que eu já tinha visto antes. Aphrodite, Damien, Erik e eu ainda não tínhamos ido embora, mesmo que todos nós estivéssemos bocejando bastante. Ninguém disse isso, mas eu imaginei que sentiam muito, assim como eu. Eu não queria deixar Rephaim empoleirado lá em cima sozinho, grasnando pateticamente. Stevie Rae quereria que eu ficasse. Inferno, Kalona provavelmente iria querer que ficássemos. Por isso, ficamos.
Os humanos tinham principalmente vagado de volta para dentro, apesar de algumas das crianças terem descoberto uma pilha de cordas de pular no ginásio dos Guerreiros e pulavam ruidosamente para cima e para baixo na calçada.
Aphrodite olhou por cima da borda preta de seus óculos de sol para as crianças.
— Eu não sei por que alguém procriaria propositadamente.
Fiz uma careta quando uma das crianças riu tão estridente que tive a certeza de que ouvi Duquesa uivar em resposta.
— E este é o momento perfeito para que eu faça a minha saída de volta para Thanatos — Shaunee falou. — Mesmo que eu meio que goste de crianças. Eu costumava tomar conta dos filhos de amigos dos meus pais, que eram tão ricos que sua sala de jogos era como uma loja Toys “R” Us.
Aphrodite estremeceu delicadamente.
— Por que seus pais te odeiam tanto?
O detetive Marx se juntou a nós.
— Foi um bom funeral. Shaunee, o que você falou foi perfeito.
— Obrigada — ela agradeceu, sorrindo para o alto detetive.
— Ei, eu vou levar a ambulância de volta para o Hospital St. John e os outros oficiais estarão de folga. Vou pegar meu carro e voltaremos aqui de noite.
— Você não deveria ir para casa ficar com suas filhas? Elas devem estar com saudade de você — Shaunee observou.
Marx sorriu.
— Minhas filhas e minha esposa estão bem ali — ele apontou para o grupo de meninas que pulavam corda.
— É claro que elas estão — Aphrodite murmurou.
Nós a ignoramos.
— Quer pegar uma carona com a gente? — Marx perguntou a Shaunee. — Posso deixar você na Árvore do Conselho do Grande Carvalho no meu caminho de volta para a estação.
Erik pigarreou.
— Se estiver tudo bem com vocês, levarei Shaunee de volta e ficarei lá fora por um tempo.
Eu dei de ombros.
— Tudo bem por mim.
— Legal! — Erik falou, sorrindo para Shaunee. — E diga a Aurox que ele não precisa se preocupar em me substituir até o sol nascer amanhã. Eu sei que os Guerreiros têm muito o que fazer aqui com todos esses seres humanos.
— Eu direi a ele — respondi.
E todos, exceto Aphrodite, se foram.
— Quando eles começaram a ter alguma coisa? — perguntou Aphrodite.
— Eu fiquei me perguntando a mesma coisa.
— Acho que ele precisava de um plano de B desde que Shaylin virou gay.
— Aphrodite, você percebe que o que você disse está cheio de estereótipos, não é?
— Sim. É a linguagem figurada que eu odeio, não inglês em geral — ela respondeu, revirando os olhos.
Olhei para ela e balancei a cabeça.
— Shaunee é uma pessoa incrível e linda. Erik poderia querer estar com ela por esses motivos e não apenas porque precisa estar com alguém para compensar Shaylin.
Aphrodite começou a dizer algo e depois parou, pensou e começou de novo.
— Na verdade, você pode estar certa. Erik mudou desde que ele era “o nosso Erik” — ela fez aspas no ar. — Ele está se transformando em um cara legal. Só não diga pra ele que eu falei isso.
— Eu não vou.
— Além disso — ela continuou, enquanto observava os dois andando juntos na calçada. — Eles estão me fazendo lembrar Olivia e o Presidente em Scandal. Estou gostando dessa coisa toda de menina negra e garoto branco. É atraente. Sem falar de como isso amplia o ponto de vista do típico garoto branco. A Deusa sabe que eles precisam disso.
— Essa é a coisa mais politicamente correta que já ouvi você dizer.
— Não têm de que, retardada. Vá dormir um pouco. Vejo você depois do sol se pôr.
Mas antes que ela pudesse de afastar, Kramisha correu até nós, oscilando sobre os quinze centímetros de suas botas de couro envernizado até os joelhos, com o capuz de seu moletom sobre a cabeça de modo que ele cobrisse a sua flamejante peruca vermelha. Mesmo com os gigantes e espelhados óculos de sol dourados que usava, eu podia dizer que ela estava de cara feia.
— Suas botas são horríveis — Aphrodite disse.
— Nem comece comigo. Eu não dormi — Kramisha tirou um papel de carta roxo de dentro da bolsa gigante e empurrou-o em nossa direção.
— Ah, inferno, não! — Aphrodite deu um passo para trás. — Isso é para Z.
— Aja como se você tivesse algum maldito senso. Não é como se eu estivesse aqui porque quero. Aqui, Z — ela me entregou o papel. — É para você.
Eu queria gritar e afastá-lo como se fosse uma aranha, mas eu estava tentando ser madura e ter algum juízo. Então, ao invés disso, suspirei e peguei o papel, lendo o poema em voz alta:

Inevitável como a morte
Exerceu a Magia Antiga
Seu sacrifício foi aceito.

— Hum, meio tarde demais? — Aphrodite comentou. — Mesmo eu posso dizer que o poema é sobre Kalona, e ele já está morto.
— Não. Fale — Kramisha apontou dedo para Aphrodite. Obviamente, pensando que ela tinha Aphrodite sob controle, ela se virou para mim. — Tenho um forte sentimento de que você deve pegar a pedra da vidência de volta do Frodo ali.
— Eu vou bater em você com a minha escova se você me chamar de Frodo novamente.
— Shhh! — ordenei a Aphrodite. Em seguida, encarei Kramisha. — Eu não posso usá-la até descobrir como não me transformar em outra Neferet.
— Neferet está despedaçada. Você não. Magia Antiga é a única chance que temos contra uma Deusa. Então use-a ou você não terá que se preocupar em virar uma cadela louca, porque todos nós seremos escravos de uma  — Kramisha virou a cabeça para encarar Aphrodite. — Estou indo embora antes que ela faça alguma piada estúpida sobre escravos que vá me fazer pular como Jackie Brown sobre ela.
E Kramisha foi para longe.
— Quem é Jackie Brown?
— Eu não tenho ideia — respondi.
— Talvez devêssemos perguntar a Shaunee.
Eu suspirei.
— Talvez devêssemos nos concentrar sobre como posso usar a estúpida pedra!
— Você quer a minha opinião?
Eu sufoquei outro suspiro e disse:
— Sim.
— Use a pedra. Você sabe do que ela é capaz agora. Mantenha o controle sobre si mesma. Vamos todos manter um olho sobre você, desta vez abertamente. Se você começar a perder a cabeça, será abordada por uma horda de nerds. Literal e figurativamente.
— Eu realmente não tenho outra escolha, não é?
— Não mesmo. Neferet descobriu como matar Kalona. Ela vai descobrir como quebrar o feitiço de proteção. Em seguida, virá atrás de nós. Principalmente você, mas o ataque vai incluir o resto de nós.
— Você está certa. Devolva-me a estúpida pedra.
Aphrodite alcançou o decote de sua camisa e puxou uma delicada corrente de prata, longa o suficiente para que ela não tivesse que soltá-la para tirá-la. Da corrente pendia a enganosamente de aparência, pedra da vidência.
— Ela sempre me faz lembrar uma daquelas boias salva-vidas de navio — falei, relutante em tocá-la. — Essa corrente é muito bonita.
— É platina. Tente não perder isso, porque eu a quero de volta. A corrente, não a pedra. Pare de enrolar e pegue-a — ela estendeu a mão para que eu tivesse que fazer exatamente isso. — Você sabe, o primeiro passo para essa coisa toda de dominar a Magia Antiga pode ter algo a ver com você trabalhando em sua confiança. Z, se você não acreditar que pode fazer isso, não há nenhuma maldita maneira de conseguir.
— Eu sei — coloquei a corrente em volta do pescoço e descansei a pedra sob minha blusa. Então esperei que algo acontecesse.
Aphrodite bufou.
— Sério? Você andou com essa coisa por semanas antes de pirar.
— Bem, alguma coisa pode acontecer! — respondi defensivamente.
— Sim, claro, e Oklahoma poderia eleger um democrata do sexo feminino para o Senado, o inferno pode congelar, os porcos poderiam voar, blá, blá, blá. Relaxe. Se estressar sobre isso não vai ajudar.
— Ok. Sim, você está certa.
— Eu adoro ouvir isso duas vezes em uma conversa.
— Não se acostume com isso — Aphrodite revirou os olhos e começou a se afastar. Chamei atrás dela: — Ei, estou enviando uma mensagem para o grupo. Temos que ter uma séria reunião sobre o poema de Kramisha. Todo mundo precisa se encontrar na sala dos professores para o almoço. Quinze minutos após o pôr do sol.
— Transforme isso em uma hora e quinze minutos após o pôr do sol e eu mandarei a mensagem por você.
— Aphrodite, nós realmente precisamos de um plano.
— Zoey, o que realmente precisamos é dormir um pouco.
Mordi meu lábio e pensei em como ela parecia cansada e como eu me sentia cansada.
— Tudo bem.
— Ah, e por falar nisso, sei que você está usando essa coisa toda de fim do mundo como uma desculpa para assumir o refeitório dos vampiros, e eu gosto disso! — ela moveu as sobrancelhas para mim e depois foi embora.
Balançando a cabeça e bocejando, comecei a ir para os dormitórios das garotas e, em seguida, fiz uma manobra brusca, voltei para trás e fiz um desvio circular gigante quando notei que algumas das crianças pulando corda estavam de boca aberta para mim como se estivessem se preparando para puxar minhas penas.
— É ruim quando Kalona parece melhor do que eu — murmurei para mim mesma.
— Você geralmente é boa, Zo.
— Caramba, Aurox! Você não pode simplesmente se esgueirar atrás de mim e me assustar desse jeito.
— Eu estava correndo pelo perímetro, e não me esgueirando — ele respondeu. — Você estava falando sozinha tão alto que não me ouviu, ou a Skylar — ele acenou com a cabeça para o alto da parede da escola, onde o gigante gato laranja estava acomodado em suas patas de tigre, mantendo-se com Aurox. — Por que você acha que Kalona era melhor do que você?
Fiz um gesto na direção onde risos de meninas ainda podiam ser ouvidos.
— Ele as deixava puxar suas penas. Eu desviei por todo o caminho até aqui para evitá-las.
Aurox sorriu.
— Isso não a torna menos agradável. Isso faz você inteligente. Humanos jovens ferem os meus ouvidos também.
Eu sorri de volta para ele, alegre por sentir que as coisas estavam mais fáceis entre nós desde que tínhamos descoberto Skylar juntos.
— Humanos jovens, especialmente as garotas humanas, gostaram de você. Elas pensam que você é superquente — eu provoquei. Em seguida, imediatamente quis poder retirar o que eu havia acabado de dizer por que o sentimento fácil, amigável entre nós evaporou.
— Eu deveria começar com a minha patrulha. Abençoada seja, Zoey.
Ele começou a correr para longe e eu agarrei seu pulso.
— Ei, espere. Eu não quis dizer nada para fazer você ficar chateado.
Seus longos ombros caíram.
— Eu não estou chateado. Só fiquei cansado disso.
— Disso? — perguntei sem entender.
— Disso. O fato de que eu não sou o que pareço. Se essas meninas soubessem em que eu posso me transformar, elas estariam com medo de mim.
— Oh — respondi, entendendo-o. — Mas elas não sabem, e você não está se transformando em nada agora. Por que não faz o mesmo que Rephaim? Ele vive cada momento de sua vida humana ao máximo. Ele não deixa que o fato de que tem que ser um pássaro todos os dias arruíne a vida dele.
Eu podia ver que dera a Aurox algo para pensar. Pelo menos ele não correu para longe, ou se tornou todo frio e distante. Nós andamos por um tempo sem dizer nada. Quando ele finalmente me respondeu, fez isso com uma voz que era quase um sussurro.
— Eu gostaria de ser assim, mas Rephaim tem duas coisas que eu não tenho, duas coisas que acho que nunca vou ter.
Quando ele não continuou a falar, perguntei:
— Que duas coisas?
— O perdão de Nyx e o amor de uma mulher.
Comecei com o que não era uma bomba-relógio.
— Por que você acha que Nyx não o perdoou? Você já perguntou a ela?
— Todos os dias. Eu acendo uma vela aos pés de sua estátua e peço-lhe perdão a cada dia.
— Bem, então, por que você acha que a Deusa não o perdoou? Você escolheu seu caminho. Está fazendo somente o bem. Até salvou a minha avó de Neferet.
— Ela nunca falou comigo — a tristeza em sua voz fez soar como se ele tivesse um zilhão de anos de idade.
— Nyx não falou com um monte de gente — respondi.
— Isso não é verdade aqui. Nyx já apareceu várias vezes. Ela apareceu hoje.
— Bem, sim, mas...
— A Deusa sabe o que eu sou. Ela não quer ter nada a ver comigo.
— Aurox, isso não pode ser verdade. Nyx permitiu que o espírito de Heath entrasse em você para que você pudesse escolher ser mais do que um receptáculo.
Seu olhar encontrou o meu.
— Ela não fez isso por mim. Ela fez isso por você.
Eu não sabia o que dizer. Eu tinha falado com a autoridade de Nyx antes, quando ouvi a voz dela, ou senti a cutucada em meu interior que dizia que eu estava no caminho certo. Não senti nenhuma dessas coisas agora. Eu só me senti mal por Aurox.
— E, quanto à segunda coisa, você sabe por que eu nunca vou ter.
— Aurox, eu me preocupo com você, mas estou com Stark. É muito complicado entre nós para que isso mude.
— Não, Zoey. Você não se importa comigo. Você se importa com Heath. E é por isso que é muito complicado mudar. Agora eu vou terminar a minha patrulha — seu sorriso era triste e doce. — Abençoada seja.
Foi depois que ele foi embora que notei a ausência do calor que tinha se espalhado a partir da pequena pedra circular que descansava entre os meus seios.
— Magia Antiga — sussurrei, olhando para ele. — Aurox é definitivamente coberto de Magia Antiga.
E como diabos isso poderia me ajudar?
Eu não tinha ideia. Mas estava indo descobrir isso. Peguei meu telefone e enviei uma mensagem rápida para Aphrodite: Incluir Aurox em sua mensagem de grupo. Esperei até que meu telefone vibrou com sua resposta dizendo: Ok. Vá dormir antes que complete o resto caminho para o dormitório.
Senti meus pés superpesados quando os arrastei até as escadas e para o meu quarto. Estava fresco, escuro e tranquilo no interior. Stark dormia. Eu estava agradecida por isso. Não queria que ele acordasse e sentisse a minha tristeza e estresse. Eu teria que explicar sobre a pedra em breve. E não queria explicar sobre Aurox de maneira nenhuma.
Escovei meus dentes, lavei o rosto, e me preocupei em silêncio.
Tive que mover Nala para que eu pudesse deitar ao lado de Stark. Ela só resmungou por um segundo e, em seguida, circulou as cobertas aos meus pés, fazendo um pequeno ninho de Nala, enterrou seu corpo gordo para baixo e começou a ligar a sua máquina de ronronar.
Fechei os olhos.
Vá dormir. Vá dormir. Vá dormir.
Suspirei e ajeitei meu travesseiro, e deitei longe de Stark para que a minha inquietação não o incomodasse.
— Você está se preocupando novamente — a voz de Stark estava sonolenta.
Ele me puxou de volta contra ele, e sua mão encontrou meu ombro, que ele começou a massagear suavemente.
— Você não tem que fazer isso. Sei que você está supercansado.
Ele moveu o meu cabelo e beijou a minha nuca.
— Sei que eu não tenho que fazer isso. Eu quero fazer.
— Obrigada por cuidar de mim — sussurrei.
— Sempre, Z. Sempre — ele respondeu.
E seu toque me fez dormir.

5 comentários:

  1. Eu posso te dar amr e ñ me importo com sua parte TOURO kkkkkkkkkkkk

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  2. Poxa todo mundo arranja um namorado(a) só Aurox/Heath! :'(

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  3. Queria uma massagem agora! Stark cadê você? 😃

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