9 de outubro de 2015

Capítulo 23 - Neferet

— Então, velha, o que você acha que há no seu sangue que o torna tão rançoso que os meus filhos não conseguem se alimentar dele?
Sylvia Redbird virou a cabeça devagar. Os olhos dela eram pontos brilhantes dentro da jaula de Trevas.
— Os seus fantoches não podem se alimentar de mim porque eu tive tempo para me preparar para você.
A voz da velha estava rouca, mas a força que ainda permanecia nela surpreendeu Neferet quase tanto quanto a irritou.
— Está certo. Oh, você é tão especial e amada pela sua Deusa. Mas espere um pouco — Neferet simulou sarcasticamente estar chocada. — Se você é mesmo tão especial e amada, por que está aqui, sendo torturada pelos meus filhos? Por que a sua Deusa não a salva?
— Você diz que eu sou especial. Eu não me chamaria assim, Tsi Sgili. Se você tivesse me perguntado, eu diria apenas que sou valorizada pela Grande Mãe Terra. Nem mais, nem menos.
— Se é assim que a sua Grande Mãe Terra trata uma filha valiosa que está gritando por ajuda, então sugiro que você pense em mudar de deusa — Neferet deu um gole no seu vinho misturado com sangue.
Ela não sabia muito bem por que tinha a necessidade de provocar a velha mulher. A dor e a morte iminente dela deveriam ser suficientes para satisfazer a imortal, mas não eram. Neferet odiava o fato de Sylvia não gritar. Ela não implorava. Desde que Kalona havia escapado, Sylvia parara de gemer de dor. Agora, se não estava em silêncio, a velha estava cantando. Neferet detestava aquela maldita canção.
— Eu não pedi ajuda para a Grande Mãe Terra. Só pedi a sua bênção, e isso ela me concedeu em abundância.
— A sua bênção! Você está dentro de uma jaula de Trevas que a está matando devagar e dolorosamente. Quem você pensa que é, uma santa católica? Será que eu devo crucificar você de cabeça para baixo e cortar a sua cabeça fora?
Neferet riu da própria piada, mas até mesmo para ela o som da sua risada foi falso. Eu preciso de adulação e veneração! Como eu posso reinar como uma Deusa sem devotos?
— Você matou os professores.
Sylvia não tinha feito uma pergunta, mas Neferet quis respondê-la.
— É claro que sim.
— Por quê?
— Para criar o caos entre humanos e vampiros, é claro.
— Mas como isso beneficia você?
— O caos incendeia as pessoas, os vampiros, a sociedade. O vencedor que emerge dessas cinzas controla o mundo. Eu serei essa vencedora — sentindo-se arrogante e cheia de poder, Neferet sorriu.
— Mas você já tinha poder. Você era a Alta Sacerdotisa da House of Night. Você era amada por sua Deusa. Por que deixar tudo isso para trás?
Neferet franziu os olhos para Sylvia.
— Poder não significa controle. Quanto poder tem a sua Grande Mãe Terra se ela não pode fazer algo tão simples como controlar se eu tiro a sua vida ou não? Eu aprendi há muito tempo que o controle é o verdadeiro poder.
Sylvia balançou a cabeça, finalmente parecendo tão exausta quanto deveria.
— Você não pode controlar ninguém de verdade, exceto a si mesma, Tsi Sgili. Pode parecer que as coisas sejam de outro modo, mas todos nós fazemos as nossas próprias escolhas.
— É mesmo? Então vamos testar essa teoria. Imagino que você prefira viver — Neferet fez uma pausa, esperando ansiosamente pela resposta de Sylvia.
— Eu prefiro — as palavras de Sylvia saíram em um sussurro.
— Bem, acho que eu posso controlar se você vai viver ou morrer. Agora, vamos ver quem tem mais poder — Neferet levantou o pulso.
Com um movimento rápido e habitual, ela abriu a veia que pulsava perto da superfície da pele com uma unha afiada.
— Já cansei dessa conversa — quando o seu sangue começou a fluir, Neferet mudou o tom de voz e começou a cantarolar:

“Venham, meus filhos, provem a minha raiva
Usem o meu poder para fechar a sua jaula!”

Suas gavinhas fiéis deslizaram até ela, alimentando-se avidamente no seu pulso. Com forças renovadas, elas voltaram para Sylvia. A velha mulher levantou os braços defensivamente, mas vários braceletes se quebraram. Através das barras de sua jaula, peças de turquesa e prata caíram em cima da poça de sangue cada vez maior.
Quando a velha mulher tentou começar a cantar a sua canção de novo, as palavras dela foram cortadas por gavinhas pulsantes que se enrolaram na pele desprotegida dos seus braços.
Sylvia Redbird arfou de dor. Neferet gargalhou.


Kalona

Os humanos não olham para cima. Isso era uma coisa que não havia mudado com o passar dos séculos. O homem tinha conquistado o céu, mas, a menos que houvesse um pôr do sol radiante ou uma lua cheia e cintilante para admirar, os humanos raramente levantavam os olhos acima de suas cabeças. Kalona não entendia o motivo, mas ficava satisfeito com isso. Ele deu a volta por cima do edifício Mayo, avistando Damien, Stevie Rae, Shaylin e Shaunee. Então ele voltou para o edifício Oneok Plaza, aterrissando ao lado de Thanatos.
— Os quatro estão a postos.
Thanatos assentiu.
— Ótimo. Zoey já entrou. É hora de começar — ela colocou a mão dentro de seu volumoso manto de veludo e pegou um saco grande e escuro e uma caixa de fósforos longos.
Kalona apontou para o saco.
— Sal para amarrar o feitiço?
— Sim, é um prédio grande. Preciso de muito sal.
O imortal assentiu, pensando que ele havia começado a apreciar o senso de humor de Thanatos.
— Vamos torcer para ter um pouco de sorte nesse saco também.
— Sorte? Não sabia que imortais acreditavam nisso.
— Nós vamos resgatar uma humana, não uma imortal. Os humanos cruzam os dedos e desejam boa sorte uns aos outros. Só estou seguindo o exemplo — ele disse. — Além do mais, eu acredito que devemos usar toda a ajuda que conseguirmos. Se isso significa contar com um pouco de sorte, eu aceito.
— Eu também — Thanatos estendeu a mão para ele. — Não importa o que aconteça hoje, eu sei que você vai manter o seu Juramento a mim e, através de mim, a Nyx. Abençoado seja, Kalona.
Ele segurou o antebraço dela e abaixou a cabeça para Thanatos respeitosamente.
— Merry meet, merry part e merry meet again, Alta Sacerdotisa.
Kalona subiu ao céu enquanto Thanatos atravessava a Quinta Avenida e entrava no beco escuro, onde Damien estava esperando, vigiado por Stark. Empoleirado em um dos pilares de pedra da parede do edifício que ficava voltada para o leste, Kalona observou a cena do alto. Ele ficou surpreso por a voz de Thanatos chegar tão claramente até ele – e então a sua surpresa se transformou em vigilância. O poder no feitiço da Alta Sacerdotisa era palpável, e, se ele podia ouvi-la, um humano também poderia.

“Venha, ar, para este círculo da noite, eu o invoco
Proteja, defenda, esteja presente... Escute atentamente.”

Thanatos riscou o fósforo e a vela amarela ganhou vida, iluminando o rosto sério de Damien. Stark estava parado na frente dele, de arco e flechas em punho. Kalona ficou pairando acima deles, enquanto a Alta Sacerdotisa voltava pelo mesmo caminho, caminhando rapidamente para fora do beco em direção à frente do edifício Mayo. Com a mão escondida em seu manto, Thanatos ia derramando um rastro de sal. As luzes decorativas da entrada do saguão se refletiram nos minúsculos cristais, e de cima parecia que ela estava deixando um caminho de diamantes atrás dela.
Thanatos caminhou até a pequena mesa redonda na qual Darius e Shaunee estavam sentados. A jovem novata havia colocado a sua bolsa enorme na frente, de modo a bloquear a sua vela vermelha da visão dos transeuntes.

“Venha, fogo, para este círculo da noite, eu suplico
Seja vigilante e forte para fazer o que é preciso.”

Antes que Thanatos riscasse o fósforo, ele se acendeu e virou uma labareda, iluminando a vela vermelha com um som alto e crepitante de fogo intenso.
Kalona franziu o cenho. Era bom que os elementos estivessem se manifestando, mas ele preferia que eles fizessem menos barulho.
Com o sal a seguindo, Thanatos deu a volta rapidamente no edifício, chegando até a calçada da Cheyenne Street. Havia pilares na lateral do prédio, como na face do edifício que dava para o beco. Foi ali que Kalona se empoleirou, olhando para baixo na direção da pequena novata sentada de pernas cruzadas no meio de uma cerca viva. Shaylin havia se escondido tão bem que Thanatos quase passou reto por ela. Kalona assentiu em aprovação à garota.
— Jovem, mas esperta. Nyx não se enganou em conceder dons a ela — ele murmurou.

“Venha, água, para este círculo da noite, eu peço
Flua, purifique, preencha, dê poder: essa é a sua tarefa.”

A vela azul não ganhou vida em uma explosão de fogo como a vela de Shaunee, mas ela se acendeu normalmente, e Kalona sentiu o cheiro frio de chuvas de primavera chegando até ele.
Ele subiu ao céu novamente, seguindo a Alta Sacerdotisa. Stevie Rae estava esperando com Rephaim nos fundos do edifício. Thanatos teve que descer uma escadaria escura e íngreme e caminhar entre vans que esperavam para fazer entregas.
Kalona pairou no ar, observando atentamente. Rephaim protege a sua Stevie Rae, e eu protejo o meu filho. Mas parecia que tanta vigilância não era necessária. A noite estava silenciosa como a própria morte quando Thanatos parou na frente de Stevie Rae.

“Venha, terra, para este círculo da noite, eu imploro
Apoie, seja o chão que sustenta e que dá confiança ao nosso grupo.”

A vela verde crepitou e se acendeu. Na sua luz trêmula, Kalona viu de relance o rosto de Rephaim. O garoto parecia calmo e seguro, como se acreditasse que não havia nenhuma possibilidade de o saldo final da noite não ser positivo.
Kalona queria ter a fé de seu filho.
Ele voou mais para cima, mantendo Thanatos à vista enquanto a Alta Sacerdotisa terminava o círculo ao redor do edifício Mayo, cortando caminho pelo beco e passando rapidamente em silêncio por Damien e Stark. A trilha de sal que envolvia o prédio ficou completa. Quando ela chegou na frente do edifício novamente, Thanatos fez apenas uma pausa para olhar para cima. Kalona encontrou o olhar dela e voou para o topo do Oneok Plaza, empoleirando-se ali. Daquele ponto avantajado, ele observou a Alta Sacerdotisa entrando no edifício Mayo. Ela desapareceu por alguns instantes, e então ele viu o seu manto escuro quando ela se juntou a Zoey e Aphrodite na mesa perto da ampla janela do restaurante.
Kalona não conseguiu ouvir as palavras de Thanatos, mas ele sussurrou para si mesmo a conclusão da invocação dos elementos.

“Venha, espírito, para este círculo da noite, eu clamo
Conceda seus dons, preencha-nos, em seu poder nós confiamos.”

Zoey tinha levado uma pequena vela roxa em seu bolso até o restaurante. Ela e Aphrodite haviam conversado sobre esconder a vela atrás do livro que elas estavam usando como acessório. A visão de Kalona não era boa o suficiente para ver a luz da vela, mas ele teve certeza de que o círculo estava traçado e de que o feitiço de proteção tinha sido realizado. Ele sentiu a onda de poder dos elementos o invadir. Ela formigou pela sua pele como uma faísca elétrica.
Não! O imortal alado quis gritar para a noite. Se eu posso sentir o feitiço, Neferet também pode! Com um temor horrível, Kalona observou o espaço que separava o topo do seu prédio da varanda na cobertura de Neferet. Ele não podia ver nada através dos grossos parapeitos de pedra. Será que ele deveria sobrevoar o covil de Neferet e correr o risco de ser visto? O que será que está acontecendo?
— Apresse-se, garoto. Suba na cobertura enquanto Neferet está distraída, para que ela não saiba que eles fizeram um círculo lá embaixo e para que ela descarregue a sua vingança apenas em cima de você. Eu vou cuidar para que todos escapem. Pegue Sylvia antes que a Tsi Sgili o mate!
Essa era a verdade que ninguém tinha falado. Kalona sabia disso, e ele acreditava que Aurox também sabia. Não haveria escapatória para Aurox. Neferet iria matar o seu Receptáculo traidor naquela noite.
Kalona sentiu o calor e soube que Erebus tinha se materializado antes que ele falasse. Mas ele não se virou. Ele não desviou o olhar da varanda de Neferet.
— Pronto para aceitar a minha ajuda, irmão?
— Por que eu precisaria da sua ajuda? Eu sempre fui o melhor guerreiro — Kalona respondeu.
— Talvez o melhor guerreiro, mas não o melhor Consorte.
— Esse título é seu, não meu — Kalona se recusou a morder a isca. — Volte para a sua Deusa. Eu não tenho tempo nem paciência para discutir com você hoje.
— As Trevas não podem se alimentar de nós dois — a voz de Erebus não tinha emoção. — Se eu voar até lá com você, nós podemos libertar a velha senhora e levá-la de volta para as pessoas que ela ama. Neferet não pode nos deter.
Kalona se virou um pouco, de modo que ele podia olhar para o seu irmão e continuar vigiando a varanda ao mesmo tempo.
— Por que você faria isso?
— Para conseguir o que eu quero, é claro — Erebus afirmou.
— E o que é?
— Que você vá embora da House of Night; de qualquer House of Night. Os vampiros não são o seu povo. Vá viver a sua eternidade em qualquer outro lugar e deixe os nossos filhos para a Noite e o seu Sol.
— Eu fiz um Juramento de ser o guerreiro da Morte e não vou quebrá-lo.
— Você já quebrou um Juramento antes. Que diferença faz quebrar mais uma vez?
— Eu nunca mais vou quebrar nenhum Juramento! — a raiva de Kalona fez o ar em volta deles se agitar com o poder frio da luz da lua.
Uma névoa se levantou do corpo abençoado pelo sol de seu irmão, quando aquele poder fluiu por sobre o calor das suas asas douradas.
Erebus sacudiu as asas e afastou a neblina, que se evaporou.
— Como sempre, você está pensando só em si mesmo — ele olhou com desprezo para Kalona.
Kalona balançou a cabeça de desgosto.
— O que Nyx diria se escutasse você negociando a vida de uma velha mulher?
Erebus bufou.
— Você vem falar para mim sobre a vida de uma velha mulher? Quantas mulheres, jovens e velhas, você destruiu durante todos esses éons, desde que você foi banido?
— Nyx não sabe que você está aqui — Kalona deu as costas para o seu irmão. — Eu fui banido. Eu quebrei um Juramento. E mesmo assim eu sou inteligente o bastante para saber que, se a sua Deusa descobrir, ela vai desprezar o que você está fazendo.
— Minha Deusa despreza você!
Kalona não o viu partir. A ausência do seu calor e da sua malícia era a prova de que Erebus havia retornado para o reino do Outromundo.
Silenciosamente, Kalona continuou a observar o espaço até a varanda. Não muito tempo depois, Thanatos se juntou a ele na sua vigília.
— O círculo está traçado. O feitiço está feito. Agora nós só podemos esperar — Thanatos disse.
— E assistir — Kalona concordou, acrescentando mentalmente: e imaginar.


Aurox

Ele sentiu o feitiço de proteção sendo feito e sabia o que significava. Sem hesitar, Aurox entrou apressado no elevador e apertou o botão para subir até a cobertura.
— Rápido! Por favor, vá rápido! — ele gritou para as portas fechadas. Está devagar demais! Eu já precisava estar lá agora! Se eu senti o feitiço, ela pode senti-lo também!
Aurox queria esmurrar as paredes daquela caixa de metal lenta. Ele sentiu a frustração, quente e espessa, tomar conta dele. A besta se agitou.
Aurox congelou. Apavorado, ele diminuiu o ritmo da sua respiração. Controle a besta... controle a besta... Ele ficou repetindo mentalmente sem parar. Foi quando o elevador finalmente alcançou o andar da cobertura e as portas se abriram devagar que os elementos o encontraram. Com uma onda de energia, eles o encheram de força e calma, apagando o calor da besta.
Ele soltou um logo suspiro de alívio e, com confiança renovada, pisou no mármore lustroso do hall de entrada. Havia um cheiro forte do sangue de Neferet no ar. Por um momento, Aurox não compreendeu. Será que Vovó Redbird havia conseguido ferir a Sacerdotisa?
Então ele escutou uma risada e o barulho familiar que as gavinhas de Trevas faziam ao se alimentar. Ele também ouviu o terrível gemido de dor de uma mulher. Furtivamente, Aurox extraiu coragem da presença dos elementos e entrou rapidamente e em silêncio na sala de estar da cobertura.
Aurox pensou que estava preparado para o que iria ver. Ele sabia que Neferet havia aprisionado Vovó em uma jaula de Trevas. Ele sabia que ela estaria assustada e machucada. Mas a cena era muito pior do que ele tinha imaginado. Ele deu só uma rápida olhada para Vovó, encontrando os olhos cheios de dor dela apenas por um instante. Foi em Neferet que ele concentrou a sua atenção.
Ela parecia nem saber que ele estava ali. Ela estava se espreguiçando em um grande móvel modular que tinha a forma de um semicírculo. Seus braços estavam abertos, com as palmas voltadas para cima, e ela estava rindo. As gavinhas de Trevas estavam em toda a volta dela, agitando-se por cima das almofadas e debatendo-se umas contra as outras, ávidas por alcançar os pulsos feridos de Neferet e se alimentar. Quando uma se soltava da pele dela, outra tomava o seu lugar.
Aurox observou quando uma gavinha inchada deslizou para a jaula que prendia Vovó, onde ela se juntou a outras da sua espécie que não paravam de cortar a pele da velha mulher com as mesmas marcas de chicote afiado das quais Kalona havia se curado recentemente. Aurox sabia que Vovó não teria tanta sorte.
Ele andou decididamente até Neferet e se ajoelhou diante dela.
— Sacerdotisa! Eu voltei para você!
A cabeça dela estava virada preguiçosamente para trás. Ao som da voz dele, Neferet a levantou. Ela franziu a sobrancelha, como se estivesse sendo difícil conseguir focá-lo, até que arregalou os olhos ao reconhecê-lo. Apesar de a posição do seu corpo passar a falsa impressão de letargia, em um movimento rápido Neferet agarrou uma gavinha que tinha acabado de se alimentar e a atirou em Aurox. A criatura parecida com uma cobra o atingiu no meio do peito, rasgando a sua blusa e abrindo a sua pele.
— Você demorou! — Neferet gritou para ele.
Aurox não recuou.
— Perdão, Sacerdotisa! Eu fiquei confuso. Não consegui encontrar o caminho de volta até você — Aurox deu a desculpa que ele achou mais provável de Neferet acreditar.
Neferet endireitou as costas e se sentou, afastando as gavinhas dos seus pulsos e falando suavemente com elas, como se aqueles filamentos de Trevas fossem filhos amados.
— Você ignorou a minha ordem. Eu tive que fazer um sacrifício para reassumir o controle da besta, e mesmo assim você fracassou — ela atirou outra gavinha nele, que deixou a marca de uma linha vermelha no bíceps de Aurox.
A dor se multiplicou. A besta sentiu e começou a se agitar. Aurox fechou os olhos e imaginou o círculo incandescente em volta dele com o seu brilho protetor.
Com relutância, a besta se acalmou.
Fortalecido, Aurox abriu os olhos e suplicou para Neferet:
— Eu não ignorei a sua ordem! Foi o círculo que foi traçado e a invocação da Morte que me fizeram fracassar. Sacerdotisa, eu não posso descrever o afluxo de Luz e poder que Thanatos fez surgir. Isso afetou a besta. Eu não consegui fazer com que ela emergisse!
— Mas eu consegui, e mesmo depois disso você fracassou em destruir Rephaim e romper o círculo — Neferet atirou outra gavinha nele.
Esta não apenas o feriu. Ela se enroscou no pescoço dele e começou a se alimentar dali.
Mesmo assim, Aurox não se retraiu. Porém, dentro dele, a besta rugiu, mas o som foi abafado por uma onda fria de água e soprado para longe com uma poderosa rajada de vento.
— Isso foi culpa de Dragon Lankford. Ele estava protegendo Rephaim — Aurox respondeu, mantendo o corpo totalmente imóvel, enquanto as Trevas continuavam a se alimentar dele.
Neferet balançou a cabeça, irritada.
— Dragon não deveria estar lá. Eu pensei que a morte de Anastasia havia acabado com ele. Infelizmente, eu estava errada — ela suspirou. — Eu ainda não entendo por que você não matou Rephaim depois que Dragon morreu.
— Foi como eu disse, Sacerdotisa. O feitiço fez algo terrível a mim. Eu não era eu mesmo. Não consegui controlar a besta. Depois que ela perfurou o Mestre da Espada, não consegui forçá-la a continuar e a matar Rephaim. Ela saiu correndo, e eu não consegui detê-la. Foi só hoje que finalmente eu recuperei os sentidos. No mesmo instante em que voltei a mim, vim atrás de você novamente.
Neferet franziu a testa.
— Como se você tivesse algum sentido que pudesse recuperar. Imagino que eu deveria esperar mesmo esse tipo de coisa. Sacrifício imperfeito, Receptáculo estragado — ela resmungou mais para si mesma do que para Aurox. — Bem, tudo não acabou tão mal assim — ela voltou a se dirigir a ele. — Você colocou um fim na vida honrada e irritante de Dragon Lankford. Você não impediu o ritual de revelação, e por causa disso eu fui banida pelo Conselho Supremo dos Vampiros, mas resolvi não me importar muito com isso. Afinal, eu posso brincar com os humanos locais e o meu pequeno grupo de vampiros — ela se inclinou para a frente, oferecendo a Aurox sua mão manchada de sangue. — Portanto, você está perdoado.
Aurox pegou a mão dela e inclinou a cabeça.
— Obrigado, Sacerdotisa.
A gavinha que estava se alimentando no seu pescoço se soltou e caiu na mão de Neferet, enrolando-se no seu braço e aninhando-se perto do seu peito.
— Na verdade, a sua volta me deu uma ideia. Dragon Lankford estava quase completamente acabado com a morte de sua companheira. Permitir que alguém tenha tanto controle sobre as suas emoções é mesmo uma coisa patética e fraca. Mas não importa. Dragon era maduro e sábio, e mesmo assim a morte de Anastasia quase o destruiu. Zoey Redbird não é madura nem sábia. Quando Kalona matou aquele humano dela tão estupidamente, ela se despedaçou e eu quase me livrei dela — Neferet colocou seu dedo lambuzado de sangue em seu lábio vermelho, pensativamente.
Ela desviou o olhar de Aurox e se voltou para o canto da sala em que Sylvia Redbird estava pendurada em uma jaula cada vez mais apertada.
— Sylvia, você pode imaginar como a sua pobre e doce u-we-tsi-a-ge-ya vai ficar devastada quando você morrer?
A voz de Vovó Redbird estava fraca e com traços de dor, mas ela respondeu sem hesitar:
— Zoey é mais forte do que você pensa. Você subestima o amor. Acho que porque você nunca se permitiu saber o que é isso.
— Eu nunca permiti que isso me controlasse como se eu fosse uma idiota! — os olhos de Neferet faiscaram de ódio.
Aurox queria implorar para Vovó: Não a enfrente, fique em silêncio até que eu liberte você!
Mas Vovó não ficou em silêncio.
— Aceitar o amor não faz de você uma idiota. O amor a torna humana, e isso é exatamente o que você não é, Tsi Sgili. Você só glorifica a sua vitória sobre a humanidade porque se tornou uma coisa podre, impossível de ser amada.
Aurox percebeu que as palavras de Sylvia afetaram profundamente Neferet. A Tsi Sgili se levantou e, com um sorriso de réptil, ela ordenou:
— Receptáculo, invoque a besta e mate Sylvia Redbird!

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