11 de outubro de 2015

Capítulo 22 - Zoey

Após a cortina para o Outromundo fechar, ninguém falou nada durante vários longos minutos. Todo mundo fungava, até mesmo os policiais. O detetive Marx finalmente quebrou o silêncio. Ele foi até Thanatos e surpreendeu totalmente a todos, inclusive a ela, pelo olhar em seu rosto. Marx a puxou para um abraço de urso gigante.
— Mesmo se eu fosse imortal, acredito que o que acabei de testemunhar foi a coisa mais maravilhosa que vi em toda a minha vida. Obrigado por nos incluir.
Os outros cinco oficiais concordaram com a cabeça enquanto enxugavam os olhos.
Thanatos sorriu e saiu suavemente do abraço dele.
— Não há de quê, detetive, embora não tenha sido eu quem permiti. Foi Nyx.
— Então espero que não se importe se algum dia em breve, após o problema com Neferet ter sido resolvido, eu visitar o Templo de Nyx com um presente para deixar em seu altar. Sei que parece loucura, mas depois do que aconteceu hoje, sinto-me muito próximo de sua Deusa.
— Não parece loucura. Nyx e eu gostaríamos de receber o seu presente. Veja, detetive Marx, Nyx não é apenas a nossa Deusa. Ela pertence a quem a busca — o olhar de Thanatos me encontrou. — Zoey, você pode fechar o círculo agora.
Eu quase tinha esquecido que ainda segurava a vela acesa do espírito. Enquanto eu rapidamente voltava para trás, agradecendo a cada um dos elementos por vez e despedindo-me deles, Vovó pegou um dos cobertores de dentro da barraca de Thanatos e gentilmente cobriu o corpo de Kalona.
No instante em que apaguei a vela de Stevie Rae, ela foi para Rephaim, envolvendo os braços nele e o apertando firme. E então Stark estava ali ao meu lado, me segurando e me dizendo o quanto me amava.
— Eu nunca vou te deixar. Eu prometo. Não me importo com Aurox ou Heath ou mesmo o estúpido do Erik — ele fez uma pausa, como se tivesse acabado de notar que Erik estava a poucos metros de distância de nós, ao lado Shaunee. — Desculpe, cara. Eu não quis dizer nada de ruim.
Erik deu de ombros.
— Sem problemas — ele respondeu, sem sequer olhar para Stark ou para mim. Erik observava Shaunee com um olhar fofo e preocupado.
Segurei o rosto de Stark entre minhas mãos, dizendo-lhe:
— Não se preocupe. Eu nunca permitirei que você me deixe.
Então eu o beijei como se nós tivéssemos no reunido após uma eternidade.
O vento escolheu aquele momento para soprar as nuvens negras do céu, e de repente estávamos sob a luz rosa amarelada do amanhecer.
— Oh-oh — falei. — Você, Stevie Rae e Shaylin têm que chegar ao abrigo.
— Nós ainda temos sete minutos até o amanhecer — disse Stark. — Mas você está certa.
Relutantemente, saí de seus braços e fui até Thanatos, esperando ter que ajudá-la a voltar para a tenda. Mas ela não parecia tão cansada quanto esteve desde que lançou o feitiço de proteção. Na verdade, exceto pelas sombras sob os seus olhos, ela parecia rejuvenescida.
— Você parece muito melhor — comentei.
Thanatos acenou e sorriu.
— Parece que guiar o espírito de Kalona para o Outromundo teve um efeito colateral de aumento de energia, pelo qual sou grata. Receio que não vá durar muito tempo, contudo, de modo que seremos breves, especialmente quando a aurora está surgindo e os nossos vampiros e calouros vermelhos precisam estar para dentro. O detetive Marx concordou em transportar o corpo de Kalona para a House of Night. Posso contar com você para construir a pira e presidir seu sacrifício?
— É claro — respondi.
— Shaunee — Thanatos a chamou até nós. — Eu tenho a força emprestada a mim por Kalona, então acredito que seria seguro para você deixar-me por tempo suficiente para voltar à House of Night e adicionar seu elemento à pira de Kalona, se puder fazê-lo rapidamente. Você faria isso pelo meu Guerreiro?
— Seria uma honra acender a pira — Shaunee concordou.
Pensei que ela parecia melhor também, e mandei um agradecimento silencioso, mas sincero, para Kalona.
— E eu cuidarei da pira do meu pai, do nascer ao pôr do sol — Rephaim falou, enxugando os olhos. — Mas precisamos agir rápido. Eu mudarei em seis minutos, e isso significa que Stevie Rae vai queimar.
— O que você vai... — Marx começou, mas parou, balançando a cabeça. — Não importa. Explique-me mais tarde. Os meus homens e eu vamos cuidar do corpo do grandalhão. O resto de vocês pode ir na frente. Vamos encontrá-los na House of Night.
Abracei vovó.
— Você mostrou sabedoria em sua resposta à Deusa — ela disse, enquanto me soltava. — Eu estou orgulhosa de você, u-we-tsi-a-ge-ya.
— Sylvia, se você e as outras precisarem de uma pausa, tenho certeza de que posso ficar sozinha enquanto vocês descansam — Thanatos falou.
Irmã Mary Angela ficou ao lado da Vovó, junto com Rabina Bernstein e Suzanna Grimms. Os rostos das senhoras estavam radiantes, como se as lágrimas que derramadas tivessem lavado anos.
— Nós escolhemos ficar com você neste solo sagrado — a freira respondeu enquanto as senhoras assentiam seu acordo.
— Quem poderia descansar depois disso, de qualquer maneira? — comentou a Rabina Bernstein.
— Eu ficarei também e terei a certeza de que ninguém as incomode — Erik falou, em seguida, acrescentou: — Se quiserem.
— Nós apreciamos muito sua proteção, Erik — respondeu Vovó.
— De fato — Thanatos concordou. Ela inclinou a cabeça para Erik e para cada uma das quatro mulheres sábias. — Vocês têm a minha gratidão. Obrigada a todos.
Stevie Rae pegou a mão de Rephaim, puxando-o para a van para que ele não estivesse lá para ver Marx e seus homens levantando o corpo de seu pai. Stark, Shaylin, Damien e eu a seguimos e nos apertamos de volta no veículo, enquanto Shaunee foi no carro de Erik.
Ninguém falou. Procurei em minha mente a coisa certa a dizer a Rephaim. Devo dizer-lhe que sinto muito sobre o seu pai? Ou felicitá-lo sobre o seu pai? Todos estavam em silêncio também. Percebi que estavam todos, mesmo Stevie Rae, tendo um momento igualmente difícil sobre ter o que dizer.
Felizmente, Rephaim salvou a todos nós.
— Estou feliz pelo Pai — ele falou suavemente. — Ele está de volta onde sempre desejou estar. Mesmo recentemente, depois que decidiu seguir a Luz e fez seu juramento a Thanatos, havia uma solidão nele que não diminuía. Na verdade, acho que ficou pior.
Stevie Rae disse:
— Acho que uma vez que seu pai finalmente foi capaz de aceitar o amor, primeiro o seu, e em seguida, o amor de Nyx, e uma vez que ele fez isso, foi como fechar a porta do celeiro depois que as vacas já estavam fora.
— Vacas?  — Rephaim perguntou.
Eu podia ouvir o sorriso em sua voz. Virei-me e de onde eu estava sentada no banco da frente e pude ver que ele sorria para ela.
— Isso significa que uma vez que ele percebeu que precisava de amor, ele não teve mais desculpas. Foi obrigado a admitir que realmente precisava do amor de Nyx para ser feliz, mesmo que ele fosse ele quem a deixou, e não o contrário.
Rephaim assentiu.
— Ele está feliz agora. Eu senti isso. Foi assim que Nyx acalmou a minha dor. Ela me deixou sentir a sua alegria — ele sorriu e enxugou os olhos de novo. — E eu sei que vou vê-lo novamente algum dia.
— Tem certeza de que não é imortal? — perguntou Shaylin. — Sua aura parece muito com a dele.
— Eu tenho certeza — ele respondeu, colocando o braço em torno de Stevie Rae. — Eu sou apenas um rapaz que tem a sorte de ser muito parecido com o pai — Rephaim encontrou meu olhar. — Zoey, faça o que Thanatos pediu. Construa a pira do Pai rapidamente para que Shaunee possa acendê-la e voltar para a Árvore do Conselho do Grande Carvalho.
— Você sabe que vai ser difícil reunir a escola, especialmente se hoje o dia for tão ensolarado como parece que vai ser — falei.
— A escola não precisa dar testemunho. Eu estarei lá. Vou cuidar do Pai.
Balancei a cabeça e pisquei rapidamente, me impedindo de chorar.
Stark passou através da entrada da House of Night e só teve tempo de estacionar o Hummer no estacionamento coberto ao lado do prédio quando Rephaim beijou Stevie Rae rapidamente e disse:
— Eu te amo — ele olhou para o resto de nós e disse: — Isso realmente não é tão ruim quanto parece.
Então ele abriu a porta do carro.
Seus pés nem sequer tocaram o chão. Seu grito perfurou os nossos ouvidos, fazendo com que todos, exceto, Stevie Rae saltassem. O grito mudou para o grasnar de um corvo, e um enorme pássaro preto explodiu de dentro de roupas de Rephaim, grandes asas varrendo o ar quando ele se ergueu para fora do estacionamento coberto e foi para o céu da manhã dar a volta na House of Night.
— Isso foi incrível — Stark falou, apertando os olhos e usando a mão para proteger contra o amanhecer, mas ainda tentando seguir o voo de Rephaim.
— Sim, ele me disse que não machuca tanto — Stevie Rae respondeu, apertando os olhos ao lado de Stark. — Não acredito nisso, mas eu o amo por tentar me fazer acreditar.
— Ei, vocês precisam entrar e ir para a cama — falei, pastoreando Stark, Stevie Rae e Shaylin.
— Não, a menos que você esteja vindo também — Stark protestou no meio de um bocejo gigante.
— Estou indo, mas primeiro vou atualizar Darius e Afrodite e chamarei Travis e alguns dos outros humanos para começarem a construir a pira de Kalona. Shaunee precisa voltar para Thanatos antes que sua explosão de energia se esgote.
— Eu vou ajudar — Damien se ofereceu. — Direi a Travis e Lenobia o que aconteceu.
— E eu vou supervisionar os humanos que construirão a pira — Shaunee disse. — Bem, primeiro vou pegar um capuz e alguns óculos de sol.
— Mas eu poderia... — parei o protesto de Stark com um beijo e, em seguida, sussurrei contra seus lábios: — Por favor, vá dormir para se fortalecer e ficar seguro. Eu não sou tão forte quanto Nyx. Eu não poderia perdê-lo.
Stark fez uma pausa e, em seguida, puxando-me em seus braços, ele cedeu.


Lynette
— Você deveria estar descansando — falou a curandeira asiática com as tatuagens geométricas cujo nome, Lynette aprendera, era Margareta. — Você está com dor?
— Não, eu estou bem. Só não estou acostumada a dormir durante o dia — Lynette assegurou a vampira.
Ela estava em pé na janela e deixara de lado a pesada cortina preta para poder assistir a um grupo de pessoas que empilhavam troncos e tábuas de madeira no centro do campus verde.
— Margareta, você sabe o que eles estão construindo lá fora?
A curandeira avançou um pouco, olhando para fora da janela, mas não chegou perto o suficiente para que a luz brilhante da manhã realmente a tocasse.
— Sei. Eles estão construindo uma pira.
— Uma pira? — o estômago de Lynette saltou. — Será que alguém morreu?
— Alguém foi morto — ela respondeu.
— Quem?
Margareta a estudou e, em seguida, deu de ombros.
— Não vejo mal nenhum em dizer. Kalona foi morto.
— Por ela? — Lynette dificilmente poderia forçar a voz acima de um sussurro. — Neferet o matou?
Margareta assentiu.
— Oh, Deus! Ele deveria ser imortal.
— Aparentemente, não — respondeu a curandeira.
Lynette tropeçou para sua cama, caindo em cima dela quando seus joelhos cederam.
— Ela quebrou o feitiço? Saiu do Mayo?
— Não, o feitiço se mantém. Por enquanto. Tem certeza de que não quer que eu lhe dê algo para ajudá-la a dormir?
Entorpecida, Lynette balançou a cabeça.
— Não. Eu estou bem. De verdade. Bem. E-eu só preciso de um tempo sozinha para pensar — ela encontrou o olhar atento da curandeira e acrescentou: — Kalona me salvou. É um choque pensar que ele está morto.
— É para todos nós também — concordou Margareta. — Vou deixá-la com seus pensamentos, então. Como sabe, estarei no final do corredor. Se precisar de mim, basta pressionar o botão vermelho em sua cama.
— Tudo bem. Obrigada, Margareta.
Quando a vampira foi embora, a mente de Lynette começou a correr. Neferet conseguiu matar um imortal enquanto presa no Mayo! Seria pior, muito pior, se ela escapasse. Lynette sacudiu-se mentalmente e fez a correção em seus pensamentos. Não se ela escapasse. Quando ela escapar.
A filha de LaFont e as outras duas garotas disseram elas mesmas: era apenas uma questão de tempo antes que o feitiço da Grande Sacerdotisa fosse quebrado. E então eles seriam os sortudos porque Neferet viria atrás de Kalona e dela primeiro. Com Kalona fora, restava apenas ela. O medo fez Lynette sentir tonturas. Um Guerreiro imortal não poderia impedi-la. Um feitiço de proteção não poderia impedi-la. As paredes de pedra desta escola e um pequeno grupo de adolescentes e professores vampiros com certeza não poderiam impedi-la.
Se Lynette permanecesse onde estava, estaria no lado perdedor, e ela seria encontrada e possuída pelas serpentes horríveis de Neferet.
Não! Lynette forçou sua respiração a acalmar, inspirando e expirando por um longo tempo em respirações fortes. Ela lutou contra o pânico, assim como tinha feito durante todo o momento que passou como prisioneira de Neferet. Não! Ela se corrigiu. Eu não era prisioneira de Neferet; era sua empregada. Sua funcionária favorita. Sua empresária de eventos. Eu era valiosa para ela antes. Serei valiosa para ela novamente.
Silenciosa e rapidamente, Lynette foi para o armário pequeno onde os vampiros tinham pendurado as roupas dela. Ela trocou sua camisola hospitalar por calças e suéter. Trocou os chinelos pelas bonitas sapatilhas pretas que usara na noite anterior.
E então, na ponta dos pés, ela saiu pelo corredor. Parou na porta do escritório da curandeira. Lynette podia ver a parte de trás da cabeça de Margareta. Ela estava olhando uma grande tela de computador que mostrava o noticiário local. Lynette observava, em silêncio e horrorizada, quando o iPhone de alguém capturou a cena da morte de Kalona.
Primeiro, ele se concentrou na varanda da cobertura, como se estivesse esperando que algo acontecesse. O imortal de repente apareceu à vista, pairando com suas enormes asas estendidas, os braços bem abertos quando ficou de frente para a varanda, olhando como se estivesse se posicionando para pegar alguma coisa. Ou alguém, Lynette considerou pela primeira vez quando o vídeo foi reproduzido totalmente. E então ela ouviu vários tiros, um após o outro, e o corpo de Kalona foi arremessado para trás.
Tiros, Lynette percebeu. Neferet atirou nele! A câmera acompanhou a queda de Kalona. Ele caiu até o chão, quebrado e sangrando, no meio da rua, onde não muito tempo antes a havia levado embora do Mayo.
Lynette não pôde se mover até que assistiu ao vídeo novamente. Então quando Margareta clicou na repetição mais uma vez, Lynette fez suas pernas se moverem. Ela prendeu a respiração até passar através da porta de saída e a fechou silenciosamente atrás dela.
Mesmo assim, ela não parou. Sabia que estava no terceiro andar do prédio à beira do campus. Conhecia o caminho para sair, pois estava muito acordada e consciente quando o detetive e Kalona a levaram para lá. Ela também tinha visto a longa fila de carros que enchia o estacionamento da escola a ponto de transbordar e as pessoas que tiveram de estacionar ao longo do meio fio para cima e para baixo da Utica.
Lynette alcançou a porta ao nível do chão e fez uma pausa, solidificando seu plano. Se ela fosse questionada em seu caminho para fora, diria que decidiu ir para casa, que sua filha adulta precisava dela. As pessoas não estavam sendo mantidas como prisioneiros na House of Night. Enquanto Lynette não fosse reconhecida, ela estaria livre para ir e vir.
Mas e se fosse reconhecida e parada, o que aconteceria então?
Então eles terão que me prender, e não têm nenhuma razão para fazer isso. É uma House of Night, mas ainda é estamos na América. Eu ainda sou livre!
Mas quando Lynette alcançou os grandes portões de ferro, percebeu que não tinha necessidade de se preocupar em ser parada ou questionada. Não havia ninguém patrulhando os muros da escola. Toda a sua atenção estava voltada para dentro.
O Hotel Mayo ficava a pouco mais de três quilômetros da House of Night. Lynette foi andando. Enquanto caminhava, ela limpou sua mente e então ordenou seus pensamentos. Concentrou-se apenas no que tinha sido o mais importante para ela por mais de vinte anos: fazer seu negócio ser bem sucedido.
Vou terminar o trabalho que comecei. Vou terminar o trabalho que comecei. Vou terminar o trabalho que comecei...
No momento em que Lynette chegou à Rua West, sua intenção estava solidamente definida.
Ela caminhou com calma, sem pressa, se aproximando da barreira e dos policiais uniformizados que estavam encostados em seus carros tomando café e conversando entre si. Havia outros civis nas imediações. Eles usavam coletes, e Lynette reconheceu alguns deles como repórteres das redes locais. Ela manteve a calma e continuou andando, fixando-se confortavelmente no papel que desempenhou inúmeras vezes ao longo das últimas duas décadas. Lynette desvanecia ao fundo daquele cenário. Era um talento único e importante. Ela havia aprendido anos atrás que, se alguém queria ser um sucesso no planejamento de eventos, esse alguém precisaria ter a capacidade de misturar-se com as decorações, de ficar de fora das fotos e manter o foco sobre a noiva e não em si mesma.
Isso funcionou para Lynette como tantas vezes antes, e de repente o Mayo estava à vista e ela deslizou silenciosamente pelo último carro da polícia na barreira. Um policial uniformizado estava de pé ao lado do carro, obviamente tentando acalmar uma mulher loura e rechonchuda que chorava histericamente e apertava a mão de um homem alto e careca.
— Temos que saber se a nossa filha está bem! — o careca gritava com o oficial sobre a mulher estava chorando. — Kylee Jackson é o nome dela. Ela é recepcionista do Mayo.
— Por favor, nos deixe ir vê-la! — a mulher chorou.
— Sr. e Sra. Jackson, vocês têm que ficar para trás. Por favor, entendo como devem estar preocupados, mas temos uma força tarefa na estação do centro que está lidando com todas as investigações das famílias das vítimas.
— Eles não estão nos dizendo merda nenhuma! — respondeu o Sr. Jackson. — Só estão falando que...
Prendendo a respiração, Lynette começou a esgueirar-se pelo oficial distraído.
— Ei, espera aí! Você tem que ficar para trás dos carros — o oficial a chamou. — Ninguém está autorizado a passar por aqui.
Lynette se virou e sorriu para ele.
— Oh, sem problemas. Eu só queria agradecê-lo. Você está fazendo um excelente trabalho em uma situação bastante difícil. Eu aprecio o seu serviço, assim como o Sr. e a Sra. Jackson.
Ele sorriu de volta. No momento em que seus ombros relaxaram e ele se virou para o casal, Lynette correu para longe.
Seu sangue bombeava tão alto em seus ouvidos que ela não conseguia ouvir o que o oficial gritava para ela.
Apenas corra. Corra como se sua vida dependesse disso, ela disse a si mesma.
Os edifícios pareciam borrões passando por ela enquanto Lynette corria, esperando a qualquer momento ser combatida ou mesmo baleada. Não esperav a passar por isso.
Quando ela chegou ao Mayo, Lynette estava chocada demais para hesitar. Ela se atirou contra a porta, sem prestar atenção na fétida cortina sangrenta que havia se tornado a pele do edifício.
— Deusa! Deixe-me entrar! Neferet, por favor! Eu voltei para você! — ela bateu os punhos contra a superfície lisa da porta.
— Senhora, volte aqui!
O policial a alcançara e pulou para frente para agarrar-lhe o braço.
A parede de fogo ardeu, colocando-o em chamas.
Horrorizada, Lynette o assistiu cambalear para trás, gritando em agonia, enquanto outros agentes, que impediam que os Jackson a seguissem, despiam os casacos e tentavam abafar as chamas.
Com o som de uma ferida fresca sendo aberta, a cortina preta se separou e a porta para o Mayo se abriu.
Lynette pulou para dentro, ofegando e tentando recuperar o fôlego.
— Como se atreve a me deixar!
Neferet estava de pé no patamar entre o salão de baile e o mezanino. As serpentes negras se contorciam ao redor de seus pés, cobrindo o mármore branco e fazendo com que ele parecesse vivo.
Com a intensidade sincera que vinha praticando durante as duas horas que levou para caminhar até lá, Lynette foi para o meio do salão e se ajoelhou, inclinando a cabeça.
— Perdoe-me, Deusa. Eu estava errada. nunca deveria tê-la deixado a menos que você dissesse que meu trabalho estava terminado e que já não precisava de mim.
— Você o deixou levá-la embora! Você me traiu!
— Perdoe-me, Deusa. Não porque eu mereço, mas porque você merece o melhor.
— Eu merecia sua lealdade! — Neferet atacou Lynette com palavras quando ela deslizou para baixo pela escada de mármore.
— Sim — concordou Lynette. Ela não levantou a cabeça. Ela apertou os olhos mantendo-os fechados, de modo que não podia ver as serpentes que deslizavam em torno dela. — E você a tem. Voltei para você por minha própria vontade.
— E por que você faria isso?
— Eu voltei porque deixei um trabalho inacabado, e durante todo os meus anos de negócio, nunca fiz isso. E não pretendo começar agora — Lynette respondeu com sinceridade.
— Vamos ver sobre isso!
Lynette sentiu a violação quando a mente de Neferet sondou a dela. Ela tremeu, prendendo a respiração até que a sensação cortante da Deusa partiu, deixando uma dor latejando em suas têmporas.
— Você retornou por sua própria vontade. Você deseja concluir o seu trabalho.
Lynette ficou tão aliviada com a surpresa na voz de Neferet que abriu os olhos, contudo não levantou a cabeça.
— Por favor, perdoe-me e me permita terminar o que comecei para você.
— Não pense que você me engana! Eu sinto sua lealdade. Também sinto que ela é baseada no medo e é para beneficio próprio.
— Eu não nego isso, Deusa. Desde o momento em que ofereci meus serviços para você, eu não neguei isso.
— Não, você controla o seu medo e usa a sua natureza egoísta para meu benefício. Ou era o que fazia até me trair — a voz de Neferet tinha suavizado.
— Eu continuo a fazer — Lynette respondeu. — Passei pelo muro de fogo sem me queimar. Eu não tenho má intenção alguma.
Lynette podia ver que a Deusa andava por causa das terríveis serpentes que ficavam para trás em seu rastro, sombreando cada movimento dela.
Finalmente Neferet parou, tão perto de Lynette que ela podia ver seus pés descalços.
— Olhe para mim — ela ordenou.
Lynette levantou a cabeça e encontrou o olhar de sua Deusa, sem vacilar.
— Tudo o que você disse é verdade, mas diga-me por que eu não deveria mandar um dos meus filhos possuí-la. Você ainda teria a capacidade de cumprir seus deveres para mim, e eu não teria que me preocupar com você fugindo novamente. Parece uma boa solução para o seu histórico recente de lealdade questionável.
Lynette respirou fundo, forçando para baixo o pânico que ameaçava sufocá-la. Com o pretexto de calma, ela disse não o que tinha a intenção de fazer, não o que tinha praticado uma e outra vez até que o pensamento a consumia. Em vez disso, Lynette falou algo pequeno e silencioso que mantivera enterrada sob de sua obstinação.
— Porque acredito que você realmente se importa comigo e sabe o quanto temo ser possuída por um de seus filhos. Deusa, eu posso provar a minha lealdade a você com as informações que eu trago. Estive dentro da House of Night. Eu escutei Zoey, Aphrodite e Stevie Rae. Elas disseram que a barreira de proteção está drenando Thanatos. Que quanto mais ela for usada, mais rápido irá drená-la, até que finalmente ela não será capaz de mantê-la por completo.
O rosto de Neferet ficou completamente sem expressão. Então lentamente, a Deusa curvou-se e colocou suas duas mãos no rosto de Lynette, segurando-a.
Lynette congelou. Incapaz de pensar, incapaz de se mover.
Neferet a beijou suave e completamente nos lábios.
— Levante-se, Lynette, minha querida. E tome o seu lugar ao meu lado, aonde você pertence e onde permanecerá até que sua breve vida mortal chegue ao fim. E saiba que quando isso acontecer, sua Deusa lamentará eternamente a sua perda.
Neferet ajudou Lynette a ficar de pé e até mesmo firmou-a quando ela tropeçou.
— Kylee! Minha querida Lynette e eu vamos até a varanda apreciar o pôr do sol. Traga-nos o meu vinho favorito e algo nutritivo para comer — Neferet fez uma pausa. — Um guisado bem preparado? Reconstituiria a sua força?
Sentindo-se totalmente desvinculada de qualquer realidade que conhecera antes, Lynette assentiu.
— Sim, por favor, Deusa.
— Você ouviu, Kylee! Lynette quer um guisado! Consiga para ela. E verifique com Tony sobre meu bolo de chocolate também. Chocolate servirá tão bem com o meu vinho tinto favorito.
Quando Kybô saiu correndo, Neferet levou Lynette até sua cobertura, falando doce e suavemente com ela por todo o caminho.
— Minha querida, você disse que estava na House of Night. Eles foram cruéis com você?
— Não, não foram cruéis. Eles não confiavam em mim, apesar de tudo.
— Você realmente viu Thanatos segurando o feitiço?
— Não, só vi a filha do prefeito, Aphrodite, e as curandeiras — ela respondeu à Deusa.
— Essas criaturas miseráveis não são verdadeiras curandeiras vampiras. Elas são meras assistentes. Sabia que uma das minhas habilidades é a de curar?
— Não — Lynette respondeu com surpresa genuína. — Eu não estava ciente disso.
— Sim, querida Lynette. Tenha certeza de que se um deles se atrevesse a prejudicá-la, eu poderia curá-la.
— Obrigada, Deusa.
— Imagino que o detetive Marx tivesse muitas perguntas para você.
Lynette ignorou o frio que começou a percorrer em sua coluna e respondeu a Deusa com toda a honestidade.
— Sim. Ele queria saber quantas pessoas estavam dentro do seu Templo.
— E você disse a ele, minha querida?
— Sim — Lynette respondeu sem hesitação. — Eu disse. Também falei como seus servos são dedicados a você.
A nuvem que começara a se formar nos olhos de esmeralda de Neferet desapareceu e ela sorriu com carinho para Lynette.
— E ele não gostou de ouvir isso.
— Não. Nem Aphrodite ou Kalona.
Isso fez com que Neferet risse com alegria perversa.
A esta altura, elas tinham chegado à varanda da cobertura. Neferet fez sinal para Lynette sentar-se em uma das duas banquetas colocadas ao redor de uma mesa alta. Sobre a mesa havia um revólver, uma daquelas coisas perigosas que as pessoas nos filmes tendem a agitar muitas vezes. Lynette estremeceu. Ela era uma nativa de Oklahoma, mas odiava armas.
A Deusa sentou ao lado dela e se inclinou em direção a ela intimamente.
— Você sabia que hoje eu matei Kalona?
Lynette assentiu.
— Sim, eu assisti no noticiário.
O sorriso de Neferet estava radiante.
— Alguém filmou? Que fabuloso! Ah, e o que me faz lembrar. Lynette, quando estivermos livres deste lugar, quero que você contrate o melhor grupo de cameramen que meu dinheiro sem fim pode comprar. Eu simplesmente devo ter um registro de vídeo exato do meu reinado.
— Sim, Deusa — Lynette concordou.
— Hmm, sim. Contrate alguém para filmar, mas quero você para editar o filme. Deve ser a versão correta e precisa. Você entende o que quero dizer?
— Claro que sim — Lynette respondeu quando ganhou confiança e deslizou de volta para seu papel familiar. — Eu não permitiria qualquer edição desagradável ou pouco atraente dos vídeos.
— Oh, falando de coisas desagradáveis e pouco atraentes. Refiro-me à sua lista, enquanto você tinha sua pequena folga. Temo que você vá perceber que tenho menos suplicantes do que quando você saiu. Acho que vai gostar de saber que comecei com aqueles que você listou como pouco atraentes e nenhuma habilidade.
Lynette hesitou apenas um momento. Em seguida, ela acenou.
— Bem, Deusa, se você tivesse que começar por algum lugar, este é onde eu teria aconselhado.
— Você é tão sábia, querida Lynette.
Kylee se apressou carregando uma bandeja de prata que continha duas grandes fatias de um delicioso bolo de chocolate que pareciam decoradas com delicadas flores brancas, uma garrafa de vinho tinto e duas taças de cristal. Lynette percebeu imediatamente que o rosto normalmente inexpressivo de Kybô parecia preocupado.
— Ah, você está aí, Kylee. Eu estava começando a me perguntar se você tinha se perdido no caminho. Confio que Tony esteja ocupado preparando o guisado de Lynette?
— Sim, Deusa, ele está. Mas há um problema com o vinho.
Neferet franziu a testa. Ela olhou para a garrafa e sua carranca se aprofundou.
— Kylee, este não é o meu vinho favorito.
— Deusa, o seu vinho favorito acabou — Kylee falou de uma vez.
— O meu vinho favorito acabou? Como isso pôde acontecer?
— Deusa, você bebeu tudo, e não podemos ir à loja de bebidas, nem podemos receber pedidos. E Tony mandou suas sinceras desculpas, mas ele queria que você soubesse que estamos com falta de suprimentos na cozinha também — Kylee colocou a bandeja sobre a mesa e ficou tremendo, obviamente esperando que Neferet explodisse de raiva.
Lynette se preparou, esperando o mesmo.
A Deusa provou que elas estavam erradas. Em vez de explodir, ela falou calmamente.
— Sirva este vinho a Lynette e a mim. Ele servirá por hora. Em seguida, diga para Tony que ouvi as suas preocupações.
A mão de Kylee tremeu quando ela fez o que Neferet ordenou. Depois que a garota as deixou, Neferet levantou a taça, girando-a e estudando-a como se ela contivesse a resposta para um grande mistério. A Deusa cheirou delicadamente e, em seguida, tomou um gole. Ela fez uma careta apenas ligeiramente.
— É extremamente mediano, mas bebível — comentou. — Vá em frente, minha querida. Experimente e me dê a sua opinião.
Lynette realizou os movimentos de girar o vinho, cheirar e beber.
— Concordo, Deusa. Não é o seu favorito, mas ele servirá.
— Sim, ele servirá — Neferet disse, e olhando para um ponto no centro da varanda, ela girou o vinho e continuou a saboreá-lo.
Lynette sabia quando ficar em silêncio. Ela desviou os olhos da deusa e bebeu seu próprio vinho. Que era, na verdade, muito bom.
— Lynette, minha querida, se eu lhe disser que Quanto mais algo é desejado, mais caro deve ser o sacrifício para atingi-lo, como você interpretaria isso?
A falta de comida de Lynette misturou-se com o rico vinho tinto e ela estava bêbada o suficiente para deixar escapar:
— Isso é fácil. É por isso que estou aqui agora. Nada e nem ninguém significa mais para mim do que ser bem sucedida e sobreviver. Eu sacrifiquei tudo na minha vida por essas duas coisas. E tem valido a pena.
— Nada e nem ninguém... — ponderou a Deusa. Em seguida, um sorriso lentamente ergueu nos exuberantes lábios de Neferet. — Depois de ouvir a você e a um aliado meu, percebi como posso quebrar o feitiço de Thanatos. Agora, vamos comer o bolo enquanto planejamos o evento mais espetacular que Tulsa já testemunhou!

7 comentários:

  1. Nussa que mulher tapada com certeza essa infeliz vai morrer

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  2. Desculpe dizer mas um coisa que Lynette não é, é tapada, mas ela fez uma escolha muito errada.

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  3. Se Neferet for detida o que acontecera com as pessoas possuídas?

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  4. Talvez com o poder dos elementos elas consigam se curar e não ficar com sequelas ou ficarem presas num hospício.Ou talvez elas moram assim que os filhos da vaca deixem seus corpos.

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  5. Nossa muito burra. Voltar pra perto daquela vaca.....

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  6. Nossa, essa Lynette é uma tapada mesmo. Que raiva dessa mulherzinha ¬¬

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