10 de outubro de 2015

Capítulo 22 - Neferet

Quando ela finalmente estava pronta para emergir da toca, a chuva banhou Neferet, limpando-a do sangue e da terra que cobriam o seu corpo. Aquela área estava em um completo caos. Apesar da chuva, o fogo estava consumindo o parque acima dela.
Neferet pensou que essa era uma saudação encantadora.
Ela se alimentou da morte e da destruição ao seu redor e usou essa energia para se encobrir.
O seu cabelo ruivo e liso contra o seu corpo parecia um manto vivo. Os filamentos de Trevas fiéis a Neferet, saciados e pulsando de poder, levantaram-na. Como se tivesse ordenado a uma nuvem de tempestade que a obedecesse, Neferet saiu flutuando do parque dentro de um véu de raios, trovões, névoa e loucura.
Ela atirou a cabeça para trás, adorando a carícia que a chuva fazia ao escorrer pela sua pele nua, limpando-a. Ela ergueu os braços, e as gavinhas de Trevas se enrolaram neles. Ela riu ao sentir o seu toque frio e perverso.
— Vamos para casa. Nós temos tanto a fazer! — a tempestade que era Neferet passou por sobre a cidade, na direção do centro de Tulsa e da sua cobertura no Mayo. — Ah, mas não tão rápido — ela ronronou para as Trevas que a embalavam. — Nós não vamos jantar? Descobri que estou morrendo de fome!
Os filamentos de Trevas tremeram de excitação, impacientemente aguardando as suas ordens.
Neferet vasculhou a sua própria mente. Buscando... buscando... pervertendo o som que ela havia recebido tantos décadas trás.
Ela seguiu a Fifteenth Street no rumo oeste, ainda buscando. Foi na Boston Avenue que ela sentiu uma atração para o norte.
— Para o norte! Em direção àquelas almas deliciosas que fingem ser tão, tão boas! — Neferet estremeceu de prazer. — Todos reunidos tão convenientemente para mim. É como se eles já soubessem me venerar — ela fez um gesto impetuoso indicando um ponto à sua direita. — Levem-me para lá!
Quando chegou à catedral, Neferet ordenou que os filamentos fizessem uma pausa, permitindo que ela absorvesse a perfeição da sua escolha. A construção era realmente magnifica. Ela resplandecia na chuva. As pontas da torre principal pareciam dentes. As pontas das torres mais baixas pareciam mãos levantadas, com garras afiadas e uma superfície de metal lisa e molhada, pronta para ser destruída.
— Soltem-me! Deixem que eu seja vista!
A nuvem mágica se dissipou. Neferet pousou silenciosamente na calçada.
— Venham comigo, meus queridos! — ela falou para os seus filamentos. — O nosso jejum acabou. Vamos nos fartar como eu mereço!
Neferet subiu os vários degraus de calcário enquanto as Trevas, como a cauda do manto de coroação de uma rainha, seguiam atrás dela. Neferet levantou os olhos. Estátuas projetando-se da parede externa eram deuses dourados montados em cavalos de guerra molhados pela chuva. Eles pareciam lhe dar as boas-vindas.
Abaixo deles, esculpidos em cima de três portas de entrada, havia homens se curvando.
— Para mim — ela falou para as estátuas silenciosas. — Vocês se curvam para mim.
Olhando para cima, Neferet leu as palavras escritas abaixo de cada um dos três grupos de estátuas de devotos: O FRUTO DO ESPÍRITO É O AMOR, O JÚBILO; PAZ, RESIGNAÇÃO, GENTILEZA, BONDADE; SINCERIDADE, HUMILDADE, AUTOCONTROLE.
— Isso vai ser mais fácil do que eu imaginei.
Nua, Neferet entrou na igreja, escolhendo a porta embaixo da palavra RESIGNAÇÃO. Do lado de dentro, as paredes estavam pintadas em um tom rosa claro, que para Neferet lembrava sangue diluído em uma chuva de lágrimas. Ela pensou que essa era uma cor perfeita. Virando à esquerda, ela seguiu por um corredor curvo até a entrada principal do santuário. As portas estavam fechadas. Neferet sorriu carinhosamente para os seus filamentos de Trevas.
— Sim, por favor, abram as portas.
Os filamentos a obedeceram.
Neferet adentrou no amplo salão oval. Um hino estava em seus acordes finais e, enquanto eles prolongavam o améééém final, Neferet aproveitou a oportunidade para apreciar o cenário antes de ser notada. Era realmente um santuário adorável. Com assentos almofadados violeta claro e vitrais art déco estilizados em cores avermelhadas e em tons de lilás, ela pensou que o local parecia mais um daqueles teatros decorados que proliferaram tanto nos Estados Unidos na virada do último século do que uma igreja. Suas fileiras circulares de assentos afunilando-se até um palco central haviam sido criadas obviamente mais para o drama do que para a adoração.
Neferet sorriu, gostando da ironia.
— Psiu! — um sussurro veio das sombras nos fundos do aposento, enquanto o pastor começava a liderar os fiéis em uma oração repetitiva e entediante. — Com licença. Você precisa de ajuda? — uma mulher gorda e de meia-idade se aproximou de Neferet. Ela estava hipnotizada pelo corpo nu de Neferet que nem percebeu as suas tatuagens.
Neferet se virou para ela.
— Sim, eu preciso — Neferet abriu os braços, como se quisesse que a mulher a abraçasse.
Confusa, a mulher deu alguns passos, aproximando-se dela. Neferet atacou com uma velocidade ofuscante, rasgando o pescoço dela com suas unhas feito garras e segurando a mulher quando ela caiu para a frente. Neferet então a abraçou, mas o beijo que ela deu na mulher foi pressionar os lábios na ferida aberta e ensanguentada no seu pescoço. Neferet drenou o seu corpo enquanto se alimentava de sua energia.
Um dos fiéis que estava na parte de trás da igreja gritou.
Neferet levantou os olhos quando as pessoas se viraram na sua direção. Ela soltou a mulher, gostado do barulho surdo que o corpo dela fez ao cair no chão.
Empinando o queixo, Neferet jogou o cabelo para trás e foi para a frente do santuário a passos largos.
— Oh, meu Deus, é uma vampira!
— Ela está nua!
— Ela acabou de matar a Sra. Peterson!
As pessoas começaram a gritar. Algumas até começaram a sair de seus bancos.
Neferet levantou os braços.
— Fechem as portas! E revelem-se para eles!
As sombras ao redor de Neferet ondularam quando as gavinhas grossas feito cobras assumiram formas que os humanos podiam ver. A congregação fez uma pausa, olhando em choque os filamentos de Trevas deslizarem para cada uma das portas e fechando-as como uma teia pelo lado de dentro.
— O que você quer? — um homem de cabelos brancos vestindo um hábito negro enfeitado com veludo escarlate desceu do púlpito e caminhou decidido em direção a ela.
— Eu sou Neferet — ela disse cordialmente. — E quem é você?
— Eu sou o Dr. Andrew Mullins, pastor da Igreja Boston Avenue. O que significa essa profanação?
— Profanação? — Neferet sorriu. — Ah, eu mal comecei — ela apontou seus dedos ensanguentados para o corpo da mulher. — Aquilo ali não pode nem ser considerado um aperitivo.
— Pelo poder a mim concedido pelo nosso Senhor e Salvador, eu exijo que você vá embora deste local sagrado e não machuque mais ninguém!
— Pastor Mullins, apesar de não parecer, eu sou muito mais velha do que você, então deixe-me compartilhar com você algo que aprendi em meus muitos anos de vida: o poder real sempre supera o poder concedido a alguém. Então, eu realmente acredito que vou usar o meu poder real e não vou embora.
— Muito bem. Se você não vai embora, nós vamos! — o pastor disse.
Como se estivesse arrebanhando galinhas ao seu redor, o homem gesticulou para que as pessoas fossem até ele, enquanto ele retrocedia, afastando-se de Neferet.
— Sinto muito, mas não posso permitir que vocês vão embora. Nenhum de vocês — Neferet apontou para o pastor. — Tragam-no para mim!
Um filamento grosso como um braço se desvencilhou do tornozelo de Neferet e foi rapidamente na direção do pastor. Quando o alcançou, a gavinha se enrolou na cintura dele feito um chicote, ferindo-o. As Trevas arrastaram o pastor aos berros até Neferet.
— Ah, acabem com esse barulho ridículo! — Neferet fez um gesto e uma gavinha menor envolveu o rosto do pastor, cobrindo sua boca, amordaçando-o. — Melhor assim, não? — ela olhou com raiva para a congregação em pânico. — Parem de gritar, a menos que vocês queiram ser amordaçados também!
As pessoas ficaram em silêncio, exceto por soluços abafados.
Neferet se aproximou do pastor.
— Eu gostei do seu hábito. Gosto muito da cor vermelha. Tire-o!
O homem obedeceu com mãos trêmulas, deixando o hábito cair aos seus pés.
Inclinando a cabeça, Neferet o examinou. Ele estava usando por baixo uma camisa branca e uma calça informal.
— Você estava tão grandioso com o seu hábito. Agora você parece um rato pelado — Neferet entrou na mente dele. — Aaaah, não é de se estranhar que você não esteja olhando para o meu corpo. A castidade é tão entediante, não é? Deixe-me livrá-lo desse sofrimento — ela fez um corte no seu pescoço. Ele arregalou os olhos quando ela disse para os dois filamentos: — Sim, vocês podem ficar com esse aí.
As Trevas perfuraram a boca e a cintura do pastor, alimentando-se fartamente, enquanto ele se contorcia em agonia.
— Neferet! Por que está fazendo isso?
A atenção de Neferet se desviou do pastor moribundo e se voltou para um homem parado na frente do santuário. Reconhecendo-o, ela sorriu.
— Vereador Meyers! Que bom revê-lo — ela falou.
— O-olá, Neferet — ele gaguejou, segurando firme na mão de uma mulher bem-vestida ao seu lado. — Eu estava lá na sua coletiva de imprensa. Você... você disse que era uma aliada dos humanos e contra a violência.
— Eu menti — o sorriso de Neferet se ampliou ao ver a expressão horrorizada do vereador. A mulher ao lado dele soluçou, com a mão sobre a boca para tentar conter seus gritos. — Você é a Sra. Meyers?
Tremendo e chorando, a mulher assentiu.
— Você está vestida com muito bom gosto. É Armani?
Novamente, a mulher em prantos concordou.
— E o seu tamanho deve ser trinta e seis, certo?
— Si-im! Pegue minhas roupas! Mas nos deixe ir embora, por favor — ela implorou.
— Ah, como você pediu educadamente! Tire o seu vestido e traga-o para mim e eu posso pensar no seu pedido.
— Neferet, por favor, não machuque... — o marido dela começou.
Neferet entrou na mente dele e ordenou que o seu coração parasse de bater. O vereador Meyers ofegou e desabou no chão.
A mulher berrou.
Neferet suspirou.
— Sra. Meyers, eu acho tão desanimador que hoje em dia ninguém mais parece ser capaz de obedecer a ordens simples. Você não acha?
— Você pretende matar todos nós?
Neferet desviou o olhar da histérica Sra. Meyers e se voltou para uma mulher de meia-idade atraente que havia entrado no corredor central. Ela empinou o queixo e encarou Neferet, sem mostrar nenhum sinal aparente de medo.
Neferet ficou intrigada.
— E que é você?
— Karen Keith, outra representante de Tulsa. Eu também estava lá no dia em que você deu a sua coletiva de imprensa e prometeu se aliar à nossa cidade.
— Aaaaah, outra política. Que delícia!
— Você não respondeu à minha pergunta. Você vai matar todos nós?
— Perdoe-me, Karen. Posso chamá-la de Karen?
— Prefiro que não.
Neferet ergueu a sobrancelha, surpresa.
— Você tem uma energia adorável, Sra. Keith. Você vai ser o meu prato principal.
Gavinhas de Trevas começaram a deslizar na direção dela.
Karen Keith não se retraiu quando elas se enrolaram ao seu redor. Ela encontrou o olhar de Neferet e afirmou:
— Depois disso, todo mundo vai saber o monstro que você é.
— Não, Sra. Keith, todo mundo vai saber a deusa que eu sou.
Karen Keith morreu sem gritar, mas as pessoas em volta dela berraram e começaram a se lançar contra as portas fechadas em pânico.
— Bem, acho que é esperar demais ter uma conversa durante o jantar — Neferet disse. Ela levantou os braços. — Matem todos, mas cuidado com o vestido Armani.
Neferet e os seus servos das Trevas atacaram a congregação de fiéis. Eles se alimentaram sem parar, fartando-se de sangue e energia roubada, até que o santuário virou um cemitério.
Neferet se banhou nas bacias de água benta e usou o hábito com detalhes escarlates do pastor para se secar. Então, vestida de Armani e pulsando com um poder glorioso, ela saiu da igreja Boston Avenue.
Tinha parado de chover. O céu estava novamente azul claro. O ar cheirava a primavera. Neferet limpou uma última gota de sangue no canto dos seus lábios carnudos. Sorrindo, radiantes, Neferet apontou para o Mayo.
— Levem-me para casa. Estou com tanta saudade da minha cobertura...
Pulsando e completamente saciados, os seus filamentos a levantaram gentilmente. Envolta em Trevas, Neferet flutuou, invisível, através do centro de Tulsa, enquanto a frase “eu mereço... eu mereço...” ecoava na sua mente.
A estátua dourada de calcário no meio da entrada da igreja estremeceu, alterou-se e, em meio a uma rajada de vento fétida, o touro branco se materializou. Quando ele emergiu do revestimento da igreja, os seus cascos faiscaram, fazendo o chão tremer. Ele bufou, olhando para a direção em que Neferet havia desaparecido.
— Agora, minha cara impiedosa, isso me surpreendeu...

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