9 de outubro de 2015

Capítulo 21 - Zoey

Esperar até o anoitecer foi um inferno. Eu sentia a minha cabeça latejar e o meu estômago doer por ter que ficar de boca fechada enquanto os outros novatos da estação acordavam aos poucos, passavam sonolentos arrastando os pés pelos túneis, sem a menor pressa, e comiam cereal, falando sobre escola, lição de casa e outras coisas que não tinham nada a ver com salvar a Vovó.
E, claro, acrescente a isso o fato de que Aurox estava encolhido numa torre da estação, escondido, esperando até a gente voltar para pegá-lo um pouco antes de começar todo aquele plano de traçar o círculo e salvar a Vovó. Afinal, como Aphrodite tinha dito: “Não podemos deixar ninguém vê-lo. Se Neferet ouvir só uma palavrinha de que o menino-touro mostrou a cara de novo na House of Night e que nós não acabamos totalmente com ele, bem, então podem pintar um alvo gigante nele e considerar que Vovó está ferrada”.
Então, sim, eu estava com uma dor de cabeça enorme e com um episódio sério de síndrome do intestino irritável.
— Tome uma Coca — Stark disse, deslizando uma cadeira para perto de onde eu estava sentada em uma das mesas da cozinha.
— Já tomei — eu falei.
— Tome outra. — Ele se inclinou na minha direção, beijou a minha bochecha e sussurrou: — Você está batendo o seu pé feito louca, e os outros estão olhando na sua direção como se você fosse explodir.
— Eu acho que vou explodir mesmo — esfreguei o meu nariz nele, como pretexto para sussurrar de volta.
— Vai um pouco de Count Chocula aí, Z.? — Stevie Rae perguntou com uma alegria forçada.
— Não estou com fo... — comecei, mas Aphrodite me cortou.
— Ela vai adorar comer um pouco sim. O café da manhã é a refeição mais importante do dia.
— Você nunca come nada no café da manhã — eu lembrei, franzindo a testa para ela.
Aphrodite levantou a sua taça de champanhe que estava pela metade e brindou comigo ironicamente.
— Eu prefiro beber no meu café da manhã, e faço isso todo dia. Suco de laranja é alimento para o cérebro.
— E champanhe é um matador de células do cérebro — Shaylin comentou, com a boca cheia de Lucky Charms.
— Gosto de pensar nisso como o modo que a Deusa tem de nivelar o campo de jogo. Pensem por um instante como eu seria ridiculamente mais inteligente do que todos vocês se eu não bebesse tanto.
— Acho que a sua lógica é falha — Damien afirmou.
— E eu acho que tem uma falha no seu cabelo. Será que estou vendo aquela careca masculina precoce clássica aí?
Damien arfou.
Eu suspirei.
— Não seja tão maldosinha — Stevie Rae falou para Aphrodite, enquanto me entregava uma tigela de cereal.
— Aproveitando, a cintura dessa calça jeans Roper horrorosa e caipira que você está usando está tão alta que não passaria num teste de bafômetro — Aphrodite fez graça com Stevie Rae, enquanto enchia a sua taça de Mimosa.
— Acho que Stevie Rae está ótima — Shaylin comentou.
— É claro que você acha. E amanhã provavelmente você vai usar dois sapatos diferentes, porque esse é o tipo de gosto refinado para moda que você tem.
Tentei comer enquanto meus amigos se alfinetavam. Stark continuava perto de mim, com a sua mão em cima da minha coxa – de vez em quando, ele me dava um apertãozinho reconfortante.
Minha mente não conseguia sossegar. Ok, eu entendia por que nós tínhamos que esperar até o pôr do sol para ir até o edifício Mayo. Das cinco personificações dos elementos do nosso círculo, duas iriam explodir em chamas se a gente saísse à luz do sol. Isso sem contar Stark, que também iria ficar torrado. Eu também sabia que a gente tinha que ir para a escola assistir à primeira aula, que seria dada por Thanatos. Ela iria nos dividir em grupos e passar diferentes deveres, todos relacionados com a preparação da escola para o evento aberto ao público no sábado. Convenientemente, as tarefas que ela iria atribuir aos que iam resgatar Vovó seriam fora do campus. Portanto, Erin, Dallas e ninguém mais que pudesse entrar em contato com Neferet de propósito ou acidentalmente não iriam ter a menor ideia do que estávamos preparando, nem mesmo de que a gente sabia que Vovó estava desaparecida.
Mas a espera era difícil, principalmente porque os garotos que não faziam parte do nosso plano não sabiam de nada do que estava acontecendo e estavam enrolando, levando séculos para se preparar para entrar no ônibus.
Aurox estava encolhido em uma torre no alto do prédio da estação. Vovó estava presa em uma jaula criada pelas Trevas. Era difícil fingir que não estava acontecendo nada. Eu queria ficar andando de um lado para o outro. Eu queria gritar. Que inferno, eu queria poder bater em algo. Ou em alguém. Bem, com certeza em Neferet. Mas pelo menos eu não queria explodir em lágrimas, e achei que isso era um bom sinal.
Quando o meu cereal e a minha paciência estavam quase acabando, Kramisha entrou na cozinha feito fogos de artifício. Bem, talvez fosse apenas a roupa dela que se parecesse com fogos de artifício, com a sua saia amarela colada na bunda, seu suéter roxo ostentando no peito o símbolo prateado de quintanista da carruagem de ouro de Nyx puxando um rastro de estrelas, além dos seus sapatos de salto wedge de couro envernizado vermelho e brilhante, que combinavam exatamente com a cor da sua peruca curta escarlate.
— O ônibus está esperando! E por mais que Darius seja legal, ele não precisa ficar sentado lá fora imaginando por que todo mundo está demorando tanto — ela fez um movimento com as mãos para enxotar os novatos. — Vão logo, rápido!
Tive vontade de beijá-la. Então ela me fuzilou com seus olhos escuros e disse:
— Tenho algo para você.
Meu estômago se contraiu quando ela enfiou a mão na sua bolsa Louis Vuitton gigante e pegou o seu caderno roxo.
— Eu não consigo nem dizer o quanto eu detesto poesia — Aphrodite falou.
— Não me venha com essa sua atitude — Kramisha rebateu.
— Você já teve alguma visão hoje?
— Não. Hoje estou às voltas com Mimosas em vez de visões, mas obrigada por perguntar — Aphrodite respondeu.
— Parece que eu estou tendo que fazer o seu trabalho, Profetisa, então você não deveria detestar a minha poesia — Kramisha também fez um movimento para enxotar Aphrodite dali. — Vá embora. Eu disse que isto aqui é para Zoey.
— Ótimo. Algumas pessoas dizem “foda-se a yoga”. Eu digo “foda-se a linguagem figurada”. E não, eu não quis dizer isso no sentido figurado — Aphrodite atirou o cabelo para trás e saiu andando.
— Você precisa que eu fique? — Stevie Rae perguntou.
Levantei as sobrancelhas fazendo um ar de interrogação para Kramisha.
— Não — ela afirmou. Então ela olhou para Damien, Shaylin e Stark. — Vocês também podem ir.
— Ei, não sei se estou de acordo com isso — Stark falou.
— Você tem que estar. Estou sentindo uma vibe forte de conversar a sós com Z., e estou seguindo isso — Kramisha cruzou os braços e bateu o pé no chão olhando para Stark, ainda segurando o que eu já estava começando a pensar em chamar de O Bloco Roxo da Danação.
— Vá na frente — eu pedi. — O instinto de Kramisha costuma acertar bem mais do que errar.
— “Bem mais” quer dizer sempre — Kramisha soou superimpaciente.
— Ok, mas não estou gostando disso. Eu te espero no ônibus — Stark me beijou, franziu os olhos para Kramisha e saiu.
Kramisha balançou a cabeça.
— Eu tenho uma palavra para esse garoto: con-tro-la-dor.
— Ele só está tentando me manter segura, só isso — opinei.
Kramisha bufou.
— É, foi exatamente o que disse o segundo marido da minha tia, antes de dar um tapa na cara dela que a fez sair voando pela sala, só porque ela olhou torto para ele.
— Stark não vai me bater, Kramisha!
— Estou só avisando. Enfim, isto aqui é para você. Só para você. Não sei por que eu estou com uma intuição forte de que você tem que ouvir isto aqui, pensar a respeito e manter isto só para você, mas eu estou. Você é a Alta Sacerdotisa e tal, então você pode fazer o que quiser. Mas eu tenho que ser honesta e contar todos os detalhes da magia para você.
— Ok, sim, eu entendi. Então, deixe-me ler isso — estendi a mão para pegar o caderno.
— Não — Kramisha me surpreendeu. — Não sei por que, mas isto aqui é uma coisa que tem que ser lida em voz alta. Você só tem que escutar — quando ela começou a ler, a sua voz mudou.
Não ficou mais alta, mas havia um poder no modo como Kramisha falava, no modo como ela pronunciava as palavras, que fazia com que aquilo fosse mais um cântico do que simplesmente um poema rimado.

“Espelho ancestral
Espelho mágico
Tons de cinza
Escondido
Proibido
Dentro, fora
Rompa a névoa
Toque de magia
Invoque as fadas
Revele o passado
O feitiço está feito
Eu salvo o dia!”

Ela terminou, e o aposento ficou totalmente silencioso.
— Bem, isso é alguma merda estranha — Kramisha disse, soando como ela mesma de novo. — Isso significa alguma coisa para você?
— Eu não sei. Pareceu algo poderoso, como se fosse mais do que um poema — respondi. — Eu gostei da parte que diz que você vai salvar o dia.
— Não foi dirigido a mim, Z. É para você. Eu nem sei muito bem o que ele é, porque não se parece com nenhum dos meus outros poemas. Parece mais um feitiço do que uma profecia.
— Um feitiço? — olhei ao nosso redor. Estava tudo igual. Nada havia acontecido. — Você tem certeza?
— Não, eu não tenho. Leve isto — ela arrancou a página do caderno e a entregou para mim. — Eu sei que tem alguma coisa rolando com você e com o seu círculo. Sei que você me contaria se pudesse — ela ergueu a mão para cortar a minha tentativa de explicação. — Eu não preciso de nenhuma explicação. Você é a minha Alta Sacerdotisa. Confio em você. Eu só precisava dar o poema a você e dizer que vai precisar dele. Quando você precisar, fale em voz alta como eu fiz. Há poder nessas palavras.
Peguei o poema, dobrei a folha cuidadosamente e a coloquei no bolso da frente da minha calça jeans.
— Obrigada, Kramisha. Espero que em breve eu possa contar a você como isso significa muito para mim.
— Você vai. Como eu disse, acredito em você, Z. Agora é a sua vez de acreditar em si mesma.
— É, seu sei. É isso que me assusta — eu admiti.
Kramisha me puxou e me deu um abraço apertado e caloroso.
— Z., se isso não a assustasse, eu diria que você não tem nenhum juízo mesmo. Apenas seja forte e se lembre: Nyx não é idiota, e foi ela que escolheu você para lidar com toda essa merda estressante, e não o contrário.
— Isso realmente me faz sentir um pouco melhor — falei.
— Bem, eu não sou nenhum Dr. Phil, mas sou inteligente — ela brincou.
— E os seus sapatos são mais bonitos do que os dele — tentei soar pelo menos um pouco normal.
— Sim, eles me lembram dos sapatinhos de rubi da Dorothy, só que os meus são wedge porque eu sou mais ligada em moda do que ela.
O comentário dela foi apropriado porque eu me sentia como se estivesse seguindo a estrada de tijolos amarelos ao encontro de uns macacos alados assustadores, o que supostamente transformava Aurox em Glinda, a Bruxa Boa do Norte. E eu? Tenho certeza de que eu seria o Leão Covarde...
Pensei que estava preparada para encontrar com Erin. Mas eu estava totalmente errada. Eu esperava que ela estivesse distante e fria; ela estava fazendo esse papel nos últimos dias. Eu inclusive já sabia do seu caso com Dallas – Shaylin tinha nos contado que viu Erin e Dallas juntos e que analisou as cores superturvas e imundas deles na noite anterior. E Shaunee havia admitido que viu os dois se pegando (apesar de se recusar a nos contar o que ela chamava de detalhes sórdidos). Mesmo assim, eu não esperava que Erin fosse tão descarada. Mas, quando chegamos para a primeira aula, ali estava ela, sentada grudada em Dallas, no fundo da classe com os outros novatos vermelhos detestáveis.
— Ah, não, que inferno — Aphrodite resmungou quando a risada sarcástica de Erin, na linha “ai, meu Deus, eu sou tão sexy”, ressoou à nossa volta.
— Não deem nenhuma atenção a ela — Shaunee sussurrou enquanto caminhava ao nosso lado, pois todo mundo ficou olhando com cara de tacho para Erin, sem acreditar como ela tinha se afundado tanto na sarjeta.
Ok, todos nós ficamos olhando com cara de tacho, menos Shaunee. Ela não olhou nem de relance para a sua ex-gêmea. Ela apenas entrou na sala de cabeça erguida, como se não estivesse ouvindo as risadinhas imaturas de Erin nem sentindo os olhares nojentos disparados na sua direção.
— Shaunee está certa — abaixei a voz para que só o meu grupo pudesse me ouvir. — Erin é como uma dessas crianças malcriadas que querem qualquer tipo de atenção, positiva ou negativa. Ignorem Erin e os outros.
Assim nós fizemos. Sentei na primeira fileira, com Stevie Rae, Rephaim e Shaunee de um lado, e Aphrodite, Shaylin e Damien do outro.
O assento vazio de Aurox saltou aos meus olhos. O que será que ele está fazendo agora? O que está passando na sua cabeça enquanto ele se prepara para enfrentar Neferet e salvar Vovó? Será que ele vai amarelar? Provavelmente ele nem vai estar esperando na estação quando a gente voltar para buscá-lo. Provavelmente ele vai estar, tipo, na metade do caminho para o Brasil...
A voz de Shaylin cortou o meu surto mental.
— Olhem lá — ela havia se inclinado sobre Aphrodite para sussurrar para mim.
Com a cabeça, ela indicou ligeiramente uma garota à esquerda do nosso grupo. Surpresa, reconheci Nicole. Ela estava sozinha, sentada mais na frente da classe, totalmente separada de Dallas e do seu grupo.
— Cores? — Aphrodite a questionou em voz baixa.
— O vermelho quase desapareceu — Shaylin respondeu de modo que eu ouvisse também. — E o marrom de tempestade de areia está ficando dourado. É realmente bonito.
— Hum — eu falei.
— Estranho — Aphrodite comentou.
— Totalmente estranho — Stevie Rae sussurrou do meu lado. — E eu ainda não gosto dela.
Eu estava pensando em algo sábio para dizer quando
Thanatos entrou na sala.
— Merry meet! — ela saudou a todos.
— Merry meet! — nós a saudamos de volta.
Thanatos não perdeu tempo, e eu fiquei supergrata por isso, pois estava seriamente cansada de perder tempo.
— Não posso pedir que vocês entreguem a sua lição de casa, como eu faria se esta fosse uma escola comum. Não vou fingir que vocês não perderam a sua líder, Neferet, e que as suas vidas não foram dilaceradas.
Damien digitou rapidamente no seu iPad e o levantou para que a gente pudesse ler: dilaceradas = despedaçadas.
— Eu quero saber quem foi o responsável pelo incêndio no estábulo — a pergunta de Erin, vinda do fundo da classe, surpreendeu mais gente do que apenas a mim.
Escutei sussurros em toda parte. O rosto de Shaunee ficou pálido, e até Thanatos levou mais do que o tempo normal de hesitação de um professor para responder.
— Parece que foi um acidente infeliz — Thanatos afirmou.
— Bem, eu não conheço algum acidente que seja feliz — a voz de Dallas foi sarcástica.
— Você não conhece nenhum acidente que seja feliz, certo? — Thanatos o corrigiu tranquilamente.
— Você não é um acidente? Lembro que você me contou que o seu pai e a sua mãe disseram que eles só foram até Dallas para passar o fim de semana, não para fazer um bebê — Stevie Rae gritou para o fundo da sala na direção dele.
Um monte de garotos começou a rir. Thanatos falou mais alto do que as risadas.
— Às vezes, as melhores coisas nascem de momentos acidentais e desesperadores. Você não concorda comigo, Dallas?
Ele resmungou algo que ninguém conseguiu entender. Escutei a voz ofegante de Erin, tipo Marilyn Monroe, sussurrar para Dallas antes que ele falasse qualquer coisa:
— Então, basicamente ninguém vai pagar por tocar fogo no estábulo?
— Eu não toquei fogo no estábulo — Nicole não estava se dirigindo a eles. Ela estava olhando para Thanatos e soando como se as duas estivessem sozinhas na sala. — Já falei isso para Lenobia. Eu estava lá. Estava ventando muito e o lampião caiu. Tudo aconteceu muito rápido. Eu estava indo até a selaria para guardar as escovas e outras coisas que estava usando para tratar de uma das éguas. Eu vi tudo acontecer. Teve uma rajada forte de vento, que derrubou o lampião bem no meio de um monte de fardos de feno, e eles se acenderam feito fogos de artifício — então Nicole se virou e terminou de falar olhando diretamente para Dallas. — Foi um acidente. Ponto final.
— Bom, ainda bem que você é tão confiável, ou as pessoas poderiam pensar que você está mentindo — a voz de Dallas soou como um insulto.
— Sim, de fato — Thanatos cortou o sarcasmo dele. — E a nossa Mestra dos Cavalos concorda com o testemunho de Nicole. Estamos todos muitos satisfeitos que ninguém tenha morrido por causa desse acidente.
— Mas o celeiro está uma bagunça — eu disse para preencher aquele silêncio desconfortável, fazendo o melhor que eu podia para nos trazer de volta para alguma aparência de normalidade. — Então, isso significa que as nossas aulas de Estudos Equestres estão canceladas?
— Não, de jeito nenhum — Thanatos se virou para mim com um olhar de gratidão. — Continuem com o seu calendário de aulas normalmente. Mas quem tiver aula de Estudos Equestres pode ser colocado para limpar o estábulo e retirar os destroços, em vez de cavalgar — então ela tocou a testa como se tivesse acabado de se lembrar de algo. — Exceto aqueles que eu preciso que me ajudem a preparar o evento aberto ao público no sábado.
Damien levantou a mão.
— Sim, Damien, qual é a sua pergunta? — Thanatos quis saber.
— Não é bem uma pergunta. Só quero me oferecer como voluntário para ajudar como eu puder.
Thanatos sorriu.
— Aprecio muito o seu gesto.
— Você está falando em estudo do meio? — a voz de Erin soava tão estranha vinda do fundo da sala.
— Acho que parte do que eu preciso pode ser considerada como estudo do meio, já que vou precisar que vocês saiam do campus. Erin, você está se candidatando a voluntária?
— Se isso significa perder aula, então você tem mais voluntários além de Erin — Dallas disse.
Eu não podia nem dar aquele olhar oblíquo para Stevie Rae e Aphrodite, mas com o canto do olho tive certeza de que vi Stevie Rae cruzando os dedos.
— Dallas, a sua ajuda pode ser útil. Hoje eu passei muitas horas do dia procurando na internet eventos beneficentes em Tulsa. Parece que um dos eventos para arrecadar fundos mais bem-sucedidos se chama Uma Noite de Vinho e Rosas. Ele ajuda o Tulsa Garden Center. Parece que a instituição pendura uma infinidade de luzes em volta do seu jardim de rosas e então promove um jantar com degustação de vinhos após o anoitecer. Isso, meu jovem e interessante vampiro vermelho, é perfeito para você.
— Perfeito? Eu não gosto muito de vinho — ele protestou.
Escutei Aphrodite bufando, mas continuei olhando para a frente, tentando nem respirar. Eu sabia o que Thanatos estava armando e queria muito que desse certo.
— Não, você me entendeu mal — Thanatos explicou. — Eu simplesmente quero reproduzir o padrão de iluminação deles no nosso evento aberto ao público. Dallas, imagine como o nosso campus vai ficar adorável se cordões de lâmpadas elétricas forem amarrados em volta dos nossos antigos carvalhos.
— Um monte de eletricidade seria ótimo. Já faz tempo que eu digo que esta escola precisa se atualizar em termos de eletricidade. Não estamos, tipo, em 1960. Precisamos de luzes de verdade aqui. Nossos olhos conseguem lidar com isso — Dallas soou metido, como sempre.
— Bem, eu concordo com você, pelo menos temporariamente — Thanatos sorriu para ele.
Novamente, eu fiquei maravilhada com a sua impressionante capacidade de atuação. Então ela voltou sua atenção para Erin.
— Como parece que você trabalha bem em parceria com Dallas, posso contar com você para ajudar a cuidar da decoração do nosso evento? Nós precisamos de uma iluminação requintada, mas também precisamos de mesas cobertas com belas toalhas de linho, espalhadas por todo o jardim central. Você pode assumir a responsabilidade de coordenar isso com os humanos locais, junto com a experiência em eletricidade de Dallas, para que tudo isso seja feito?
— Eu nasci para fazer decorações e compras. Dê o cartão ouro da escola para mim e estou dentro — Erin afirmou.
— Você vai ter um orçamento generoso — Thanatos garantiu a ela. — Principalmente porque o nosso evento já é daqui a alguns dias. O tempo é crucial.
— Se eu tiver dinheiro, sou ótima em cumprir prazos — Erin pareceu que tinha entrado totalmente no jogo de Thanatos.
Seguindo o roteiro, Aphrodite levantou a mão na hora certa.
— Ahn, hello! — ela soou entediada e maldosa. Ainda mais do que o normal.
— Você quer fazer uma pergunta, Aphrodite? — Thanatos se dirigiu a ela.
— Quero fazer uma observação inteligente. Se você vai escolher um responsável por organizar tudo para um evento beneficente, deveria procurar uma especialista: moi. Eu cresci no meio do que a classe média chama tão barbaramente de planejamento de eventos.
Thanatos sorriu e respondeu em um tom condescendente:
— Tenho certeza de que você é uma especialista nisso, mas Erin e Dallas já se candidataram. Mas eu tenho outra tarefa para você. Gostaria que você desse uma saída rápida do campus para convidar os seus pais para o evento aberto ao público. Pelos comentários que li na imprensa ontem, suponho que posso contar com o apoio deles.
— Sim, que seja. Eu falo com eles — Aphrodite estava fazendo um trabalho incrível representando o seu papel.
Ela parecia totalmente irritada por Thanatos não ter substituído Erin por ela, que era exatamente o que nós queríamos. Se Erin e Dallas acreditassem que estavam fazendo algo importante e que nós estávamos aborrecidos ou deixados de lado, eles ficariam convencidos. Eles ficariam insuportáveis. Eles ficariam totalmente distraídos e não contariam nada para Neferet, apenas que Thanatos estava dependendo deles e dando um monte de responsabilidade a eles. O primeiro passo definitivamente estava indo de acordo com o Plano.
Damien levantou a mão com ímpeto. Quando Thanatos o chamou, as palavras dele praticamente jorraram efusivamente:
— Será que eu poderia ir com Aphrodite? Sempre quis ver como a política da cidade funciona por dentro.
— Eca — Aphrodite bufou.
— Sim, você pode ir — Thanatos permitiu.
Foi a minha vez de levantar a mão. Eu tinha me preparado para isso, mas mesmo assim foi difícil manter a voz calma.
— Ahn, eu liguei para Vovó para falar sobre a ideia de ela vender os seus produtos de lavanda no evento, mas ela ainda não atendeu às minhas ligações.
— Você deixou um recado para a sua avó? — Thanatos perguntou.
— Sim, deixei — dei um longo suspiro. — E imagino que não é uma grande surpresa o fato de ela ter deixado o telefone desligado, já que a gente acabou de fazer o ritual de revelação sobre a minha mãe e tal — nessa hora não havia problema de a minha voz ficar trêmula, e fiquei muito feliz com isso, pois estava sendo bem difícil me controlar. — Então, você quer que eu vá até a sua fazenda para falar com ela?
— Bem, talvez amanhã ou depois — Thanatos fez um gesto com a mão, indicando que isso não era urgente. — Mas acho que agora isso não é necessário. Hoje eu preciso que você vá comigo até os Gatos de Rua. Gostaria muito de ser apresentada à líder da organização, irmã Mary Angela. Nós já sabemos que a sua avó irá nos apoiar, então ajudar a coordenar o evento com os Gatos de Rua é um uso melhor do seu tempo, Zoey.
— Ok, eu posso fazer isso — respondi.
— Posso ir com vocês até os Gatos de Rua? — Shaylin falou sem levantar a mão. — Eu realmente adoraria que um gato me escolhesse.
Thanatos sorriu.
— É claro, jovem novata — ela voltou o seu olhar aguçado para Stevie Rae. — Alta Sacerdotisa, preciso que você fale com a sua mãe. Você mencionou os cookies dela durante a nossa entrevista na televisão. Bem, acredito que vamos precisar dos cookies de mais de uma mãe para saciar o apetite de Tulsa no próximo sábado.
— Posso pedir para a minha mãe envolver as mães da Associação de Pais e Mestres. Elas cozinham feito loucas para o clube de apoio aos estudantes Henrietta Hen.
— Então vou contar com você para organizar os nossos petiscos — Thanatos afirmou. — Então, vamos recapitular. Aqueles a quem eu nomeei líderes, Dallas, Erin, Aphrodite, Zoey e Stevie Rae: escolham os novatos mais próximos a vocês e deleguem tarefas a eles. Dallas, você me parece um guerreiro legítimo, então pode proteger o seu próprio grupo. Zoey, Aphrodite e Stevie Rae, vocês podem incluir os seus guerreiros nas suas saídas do campus se acharem necessário. Vou confiar no seu bom senso. Fiquem em segurança e sejam discretas, ou seja, cubram as suas Marcas e não usem nenhuma peça do uniforme da escola. Não precisamos de nenhuma tensão adicional entre vampiros e humanos nem queremos chamar mais atenção do público. Além disso, vocês não precisam vir para a aula entre hoje e segunda. Aqueles a quem eu nomeei líderes devem vir até esta sala para me manter atualizada e, claro, pedir ajuda se for preciso. Hoje eu vou com Aphrodite encontrar o prefeito, mas depois vou voltar para a House of Night e permanecer no campus, disponível como sempre. Não vamos esperar até que o sino indique que vocês podem ir. Vocês, meus estudantes especiais, não precisam seguir as regras tão ao pé da letra. Eu sei que vocês têm os valores da escola nos seus corações. Então, vão em frente com suas tarefas. Merry meet, merry part e merry meet again.
Desse modo, Thanatos simplesmente se livrou de Dallas, Erin e do seu grupo de bisbilhoteiros e espiões. Eles acreditavam sem a menor dúvida que Thanatos era uma Alta Sacerdotisa ingênua que eles podiam manipular, e que eles estavam recebendo um monte de responsabilidades para o evento aberto ao público na escola, o qual eu tinha certeza de que eles iriam tentar estragar totalmente junto com Neferet.
Nós, por outro lado, iríamos salvar Vovó e chutar o traseiro de Neferet sem que ela desconfiasse. Então a gente teria tempo para consertar qualquer confusão que Dallas, Erin e a sua gangue pudessem ter aprontado para o nosso evento. Ou pelo menos esse era o nosso plano.

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