10 de outubro de 2015

Capítulo 20 - Kalona


Dez minutos mais cedo.

Kalona estava parado perto da entrada do porão esperando Aurox voltar e pensando que o garoto ia demorar um pouco, já que Zoey tinha ido procurá-lo, quando sentiu uma coceira quente e familiar sob a pele.
— Erebus — ele resmungou.
— Você disse algo?
Kalona olhou rapidamente para o corredor.
— Aphrodite, o que posso fazer por você? — ele não colocou a mão em punho sobre o coração nem se curvou para ela.
Sim, a garota era uma Profetisa de Nyx, mas também era a humana mais irritante que ele já havia conhecido. E Kalona já conhecera muitos humanos.
— Preciso falar com Shaylin. Ela está no porão, certo?
— Todos os novatos vermelhos estão no porão — ele respondeu.
— Menos os dois que você largou no meio do nada para morrerem.
— Você gostaria de fazer alguma consideração a respeito disso?
— Não, só estou afirmando o óbvio. Vou acordar Shaylin. Eu agradeceria se você pudesse nos dar um pouco de privacidade para conversar.
— Como quiser, Profetisa. O seu guerreiro está a uma distancia em que pode ouvir os seus gritos, no caso de haver problemas lá embaixo?
— Não preciso de Darius para lidar com os novatos vermelhos. Eu tenho isto aqui — ela deu um tapinha na sua bolsa.
— Você acha que pode apartar uma briga com uma bolsa? — ele quase riu.
— Não, eu acho que posso apartar uma briga com isto aqui — Aphrodite abriu a sua bolsa de couro.
Kalona espiou dentro dela e viu um pequeno cilindro preto.
— Você vai jogar esse recipiente de perfume em alguém?
— Ah, por favor, entre nesse século. Não é perfume, é um spray de pimenta. Eu estou morando em uns túneis no centro da cidade, embaixo de um porão. Os distritos Brady, Greenwood e outros lá perto estão passando por uma reforma adorável, mas vale a pena andar protegida e estar preparada para tudo.
— Então eu vou lhe dar a privacidade que deseja — ele se curvou para ela nessa hora.
Aphrodite era tão irritante que ele quase se esquecia de como ela também podia ser divertida.
Com a sua mão com unhas pintadas de rosa, Aphrodite fez um gesto para que ele fosse embora antes de entrar no porão.
Kalona pensou em chamá-la e contar que Zoey estava ali perto com Aurox, mas ele pensou melhor. Realmente seria divertido ver o que aconteceria se Aphrodite encontrasse Zoey nos braços de Aurox.
Kalona estava rindo quando saiu do ginásio, passando através do estábulo. Ele parou do lado de fora, recompôs-se e tentou descobrir por qual direção o bastardo do seu irmão iria chegar. Não demorou muito. Receando o encontro, mas resignado por ser inevitável, Kalona se dirigiu ao Templo de Nyx.
Ele não tentou entrar. Na verdade, ele desviou os olhos quando passou pela grande porta de madeira e deu a volta pelo edifício de pedra até a parte de trás do templo. Ele esperava que o seu irmão fosse se manifestar, do seu jeito tipicamente espalhafatoso, onde quer que Kalona estivesse. E o prédio iria bloquear a sua luz o suficiente para evitar que todos os professores corressem para lá.
Kalona não teve que esperar muito. A bola de luz do sol que se materializou acima do solo era, de fato, espalhafatosa, mas Kalona não cedeu ao impulso de encobrir os olhos. Erebus saiu dos raios ofuscantes, assentindo e sorrindo ironicamente.
— Parabéns por atender rapidamente ao meu chamado, irmão — Erebus disse.
— Fico perplexo como você finge que eu quero alguma coisa com você. Quem veio até mim foi você. Como diriam no mundo moderno, vivo há séculos sem ligar para você e sem nem pensar em você.
— Sem nem pensar em mim? Mesmo? Pois eu acho que, desde a sua Queda, os seus pensamentos se voltam com frequência para o Outromundo.
— Você não é Nyx, irmão. Eu também fico perplexo com como você confunde o meu interesse pela Deusa com interesse por você.
Erebus sorriu.
— Pois eu posso acabar com a sua perplexidade facilmente. Nyx e eu somos inseparáveis. Os interesses dela são os meus, assim como os meus são os dela.
— Inseparáveis? Mesmo? — Kalona fez uma cena, fingindo que estava procurando alguém perto de seu irmão. — Será que a Deusa está se escondendo na sua bola de sol? Ah, não. É claro que ela não estaria aí. Pelo que me lembro, a Deusa prefere o toque frio e suave da luz da lua em vez da luz bruta do sol.
— Nyx me enviou aqui!
Kalona sorriu devagar, satisfeito.
— Então seja bem-vindo, irmão, como o moleque de recados da Deusa.
Erebus desfraldou suas asas. Elas se abriram ao redor dele e brilharam como a luz do sol refletida em barras de ouro.
— Eu não vim como um moleque de recados, mas sim como um imortal, consorte da Deusa da Noite, e eu trago um aviso dela!
— Impressionante — Kalona falou sarcasticamente. — Mas se você não parar de cintilar e de gritar, o seu aviso vai ser testemunhado por todo o centro de Tulsa.
Erebus fechou as asas contra as costas. A sua voz saiu sem aquele volume sobrenatural, mas a sua expressão não perdeu em nada a sua presunção de imortal.
— Você já capturou Neferet?
— Com certeza você me observa o bastante para já saber a resposta a essa pergunta.
— Então você ignorou o édito de Nyx.
— Eu não ignorei nada. Estive ocupado cumprindo os meus deveres como guerreiro Juramentado da Sacerdotisa desta House of Night — Kalona afirmou.
— Você está fora de forma se o fato de executar três crianças pode distraí-lo tanto a ponto de ignorar a ordem de Nyx e de falhar ao perceber que a magia antiga está se manifestando no mundo moderno.
Kalona se recusou a morder a isca de Erebus. Ele não fez nenhum comentário sobre Nyx e apenas disse calmamente:
— Sgiach lida com magia antiga há séculos.
— Sim, Kalona, mas Sgiach é uma Rainha ancestral que vem lidando com magia antiga por todos esses séculos na Ilha de Skye, um lugar dedicado a preservar a magia antiga há muito tempo. Tulsa, em Oklahoma, não é a ilha de Skye, e não há nenhuma Rainha vampira ancestral aqui com experiência em usar a magia antiga — Erebus falou em um tom professoral, como se estivesse dando uma aula para algum idiota cabeça oca.
— Sei exatamente onde eu estou e quem está comigo. Os meus atos são corretos, ao contrário dos seus. Eu decapitei um vampiro que foi condenado por tentativa de assassinato pela minha Alta Sacerdotisa. Ela não usou magia antiga. Ela simplesmente invocou a lei ancestral. E o vampiro que eu executei não era uma criança — Kalona acrescentou, não gostando do tom de seu irmão, como sempre.
— O garoto mal tinha dezoito anos.
— Se você quer discutir a execução de um assassino confesso, então discuta com Thanatos, o Conselho da escola, duas Profetisas de Nyx e Zoey Redbird.
— Mas nenhum deles levantou a espada que cortou a cabeça do vampiro, assim como nenhum deles levou dois novatos para a morte certa — Erebus rebateu.
— Eu sou guerreiro Juramentado de Thanatos. Se ela me dá alguma ordem, eu tenho que obedecer.
— É uma pena que você não tenha demostrado esse tipo de lealdade cega para Nyx quando era guerreiro juramentado dela — Erebus falou.
Kalona encontrou o olhar âmbar de seu irmão sem se abalar.
— Eu aprendi com os meus erros do passado. E você, aprendeu?
Erebus desviou o olhar.
— Dê logo o aviso que você veio dar e desapareça. Você me cansa — Kalona disse.
— Muito bem, você está avisado de que a magia antiga foi despertada quando leis ancestrais foram invocadas. Nyx adverte que vocês estão lidando com forças que podem não ser capazes de controlar.
— Nyx não deveria dizer isso a Thanatos? Foi a Alta Sacerdotisa dela que começou a lidar com essas forças.
— Ainda é você quem pode ser o fiel da balança em uma batalha entre Luz e Trevas. A Deusa já viu isso acontecer antes perto de você. Os Corvos Escarnecedores foram feitos com magia antiga.
Kalona sentiu uma terrível punhalada de culpa, mas disse:
— Os meus filhos foram feitos de estupro e ódio.
Erebus assentiu solenemente.
— Sim. Magia antiga.
— Nyx controla a magia antiga! — Kalona exclamou.
— Você se tornou tão iludido, tão arrogante, que acredita que pode lidar com o mesmo tipo de poder que a Deusa?
— Eu não tenho nenhuma ilusão! Minha mente nunca esteve tão clara desde que eu Caí — Kalona avançou sobre Erebus. — E a minha arrogância não é nada comparada à sua, irmãozinho. Sem mim para dar equilíbrio, é você que acredita que é tão poderoso quanto Nyx.
— Eu estou falando justamente de equilíbrio, irmão. Os touros são magia antiga, e eles deveriam estar eternamente em combate — Erebus afirmou.
— Eu não tenho nada a ver com o touro branco e o touro preto.
— Você acredita mesmo nisso? Você esteve ao lado dela por tempo o bastante para saber que a magia antiga é tão traiçoeira quanto poderosa. Seja sábio! Pense bem! Tome cuidado com os poderes que estão sendo despertados antes que seja tarde demais. Este é o aviso da Deusa!
Kalona franziu os olhos e se virou para o outro lado quando a bola de luz do sol engolfou Erebus e desapareceu, deixando uma espécie de purpurina dourada irritante que o imortal teve que limpar das suas próprias asas.
— Nyx! — Kalona falou para o céu. — Ele me chama de arrogante e então desaparece em uma explosão solar de brilho dourado. Eu não entendo como você continua a suportar a presença vaidosa dele!
Uma risada familiar, que sempre fez Kalona se lembrar de uma lua cheia avermelhada, ecoou ao redor de Kalona. Ele fechou os olhos por causa da dor da ausência dela, enquanto a esperança acelerava as batidas do seu coração.
— Você me observa. Eu sei que você me observa — Kalona sussurrou.
A risada esvaneceu. Kalona abriu os olhos. Sentindo-se como se estivesse carregando um grande peso, ele começou a caminhar. Ele precisava voltar para zelar pelos calouros. Isso era uma coisa que ele podia fazer, e fazer bem.
— Nenhum outro calouro vai conseguir fazer nada estúpido para depois ser condenado... Não enquanto eu zelar por eles — ele falou seus pensamentos em voz alta.
O que Kalona não disse e não gostou nem de admitir em silêncio para si mesmo foi que ele não conseguia tirar da cabeça os gritos de misericórdia dos dois novatos. Decapitar o vampiro não tinha sido difícil. Dallas tentara assassinar uma vampira e havia sido condenado justamente. Eram os dois novatos que o assombravam. Eram garotos que apenas fizeram uma escolha insensata e seguiram o líder errado, ele pensou.
— Compaixão.
A palavra sussurrada fez Kalona parar.
— Nyx?
— Compaixão.
A palavra foi repetida. Ela foi falada em um tom muito baixo para que Kalona tivesse certeza, mas o afeto, o amor infinito contido nela... Só podia ser Nyx. E então Kalona percebeu onde ele havia parado. Ele estava diante da porta de madeira do Templo de Nyx.
A porta de madeira que havia se transformado em pedra sob o seu toque quando a sua Deusa negou que ele entrasse.
Devagar, como se estivesse atravessando os séculos de espera por ela, Kalona levantou a mão. Ele colocou a palma da mão contra a porta e esperou que ela se transformasse em uma pedra inflexível.
A porta continuou sendo de madeira.
A mão de Kalona tremia quando tocou a maçaneta. Ele a girou e empurrou, e a porta de madeira se abriu, fazendo um som de suspiro de mulher.
Kalona entrou no saguão do Templo de Nyx. Ele ouviu água corrente, mas mal olhou para a fonte de ametistas reluzentes que ficava em um nicho na grossa parede de pedra. Ele passou por baixo de um portal em arco e entrou no coração do templo da Deusa.
O aroma de baunilha e lavanda das velas preenchia o ambiente com uma fragrância doce e inebriante. Elas estavam em candelabros de ferro suspensos do teto. Mais velas aromáticas estavam em outros candelabros independentes em formato de árvores que ficavam perto das paredes. Candeeiros com o formato de uma graciosa mão de mulher estavam acesos nos cantos do aposento. Uma chama ardia em uma reentrância no chão de pedra. Kalona quase não reparou em nada disso. O seu único foco estava na mesa de madeira antiga no centro do templo. Em cima dela, havia uma primorosa estátua de mármore de Nyx. Kalona avançou de modo hesitante e de ajoelhou diante da estátua. Ele levantou os olhos para a estátua. Ela parecia brilhar. Kalona percebeu que os seus olhos estavam cheios de lágrimas.
Com uma voz abafada pelas lágrimas, ele falou para ela:
— Obrigada. Eu sei que não mereço me ajoelhar aos seus pés. Pode ser que eu não mereça nunca. Não depois do que eu fiz para nós dois. Mas obrigado por permitir a minha entrada no seu templo — então Kalona abaixou a cabeça e ficou chorando, ajoelhado diante de sua Deusa, por um longo tempo.


Neferet

Neferet se encolheu toda, abraçando os filamentos de Trevas que ainda a cobriam, e então reviveu o final de sua jornada.
Cascia Hall era como os humanos chamavam a escola particular que havia sido construída no meio do centro de Tulsa, naquela terra que dizia tanto a Neferet. A escola humana, apenas para meninos, é claro, havia sido recentemente fundada pelo ramo Agostiniano do Povo da Fé. No ano de 1927, ela não estava à venda. Mas esse fato não preocupou Neferet. O Conselho supremo não estava pronto para comprar outra escola nos Estados Unidos – pelo menos não na cidade de Tulsa, Oklahoma, que existia em 1927.
Neferet sabia que o tempo estava a seu favor. Nos setenta e cinco anos que levaram para que ela manipulasse, intimidasse, conduzisse e influenciasse o Conselho Supremo a fazer uma oferta para os monges Agostinianos que eles não pudessem recusar, além de indicá-la como a Alta Sacerdotisa da recém-adquirida House of Night de Tulsa, Neferet descobriu a sua verdadeira natureza.
Ela era a Tsi Sgili. Não, ela era mais do que uma simples história de fantasmas dos nativos americanos. Ela era uma poderosa Alta Sacerdotisa cujos dons eram muito maiores do que pareciam. Neferet era a Rainha Tsi Sgili.
Não era de se estranhar que ela tivesse sido tão atraída para Oklahoma. Foi através do povo Cherokee que se fixara lá que Neferet descobriu um aspecto escondido do seu dom intuitivo. Ela não só conseguia ler as mentes das pessoas, como também absorver a sua energia. Mas apenas no momento das suas mortes.
Ela aprendera isso com a velha mulher. Neferet tinha feito mais que roubar os seus pensamentos enquanto ela morria. Ela havia absorvido o poder da anciã.
A morte se tornou uma droga viciante, e Neferet nunca conseguia ficar satisfeita.
Ela seguira os ecos na mente de idosa e começou a fazer perguntas sobre a Tsi Sgili.
Foi assim que ela aprendeu a própria história. Uma Tsi Sgili vivia afastada de sua tribo. Elas eram poderosas e tinham prazer com a morte. Elas se alimentavam da morte. Elas podiam matar com as suas mentes. Isso era o ane li sgi que a velha mulher havia pensado logo antes de morrer: uma morte causada pela mente de um ser poderoso.
O marido da velha Cherokee tinha inadvertidamente ensinado a Neferet a usar melhor o seu dom. Ele foi menos corajoso do que a sua mulher. Pensando em se salvar, ele acabou se abrindo para Neferet. Através das lembranças que ele compartilhou com ela por vontade própria, Neferet aprendeu muito mais sobre a Tsi Sgili. Ela se alimentou das histórias tribais que ele tinha em sua memória e descobriu que era possível entrar em uma mente e fazer as batidas do coração da pessoa pararem enquanto ela se alimentava dos pensamentos, da energia e do poder da vítima, até que ela estivesse completamente seca. Drenar a energia do corpo era muito mais satisfatório do que simplesmente drenar o sangue. E muito mais efetivo.
Como Neferet tinha ganhado mais poder, também começou a sonhar mais com o imortal alado, Kalona. Ele fazia amor com Neferet enquanto ela dormia. Não da forma como os seus amantes inadequados humanos ou vampiros haviam tentado. Kalona possuía o seu corpo e usava a dor como prazer, e o prazer como dor.
Por todo esse tempo os seus sussurros pintaram imagens de um futuro onde eles reinariam como deuses sobre a Terra e anunciariam uma nova era de iluminismo para os vampiros. Onde ela era a sua Deusa e ele era o seu Consorte ardoroso, poderoso e sedutor.
— Mas primeiro você precisa me libertar — ele havia dito enquanto o seu delicioso fogo frio queimava o corpo dela. — Siga a canção até Tulsa, e então você vai completar a profecia e encontrar um meio de me libertar.
Neferet o escutou. Ah, mas ela encontrou muito mais do que um meio de libertá-lo. Ela descobriu como libertar a si mesma!
Ela não tinha compreendido totalmente até tomar posse da sua House of Night em Tulsa. Havia um poder naquela terra que ressoava dentro dela. Estava lá em 1927, e continuou lá depois da virada do século vinte e um.
A terra vermelha a tinha atraído com o seu poder ancestral, mas foi a morte da sua primeira novata que de fato selou o seu destino.
É claro que Neferet já havia testemunhado a morte de muitos novatos antes de se tornar a Alta Sacerdotisa da House of Night de Tulsa. Frequentemente ela era chamada para suavizar a passagem de um novato morrendo com o dom de seu toque. Neferet era respeitada pela sua habilidade de acalmar um novato que estava rejeitando a Transformação. Nenhum vampiro nunca imaginou que ela tirava muito mais do que dava. Mas os novatos sabiam disso. Nos seus últimos momentos, enquanto Neferet os segurava em seus braços, eles percebiam que ela se alimentava de sua energia. É claro que nessa hora eles estavam longe de serem capazes de dividir essa informação com qualquer um.
Então, quando a jovem quartanista que havia adotado o nome de Crystal começou a tossir o seu sangue vital, no meio da primeira aula de equitação de Lenobia na nova House of Night de Tulsa, Neferet foi chamada imediatamente – não apenas porque ela era a Alta Sacerdotisa, mas porque ela era amplamente conhecida por ser capaz de suavizar a dor de quem estava morrendo.
— Afastem-se! Abram espaço! Lenobia, leve os calouros para o ginásio e peça para Dragon Lankford trazer guerreiros e uma maca para a garota — Neferet ordenou quando entrou apressada no estábulo.
Então ela voltou sua atenção para Crystal. A novata havia desabado no chão de areia e terra da arena e estava tendo convulsões, sangrando pelos olhos nariz, boca e ouvidos.
Neferet não prestou atenção no sangue nem na lama. Ela colocou a novata em seus braços, confortando-a com seu toque mágico, enquanto começou a entrar na mente de Crystal, absorvendo a sua energia vital minguante. Neferet estava preparada para a onda de poder que vinha com a absorção da força vital. Mas ela não estava preparada para o dom puro e delicioso que veio junto com a morte da sua primeira novata.
Na sua toca, o corpo de Neferet estremeceu de prazer ao reviver aquele momento poderoso.
Crystal levantou os seus olhos ensanguentados para ela.
— Não! — ela tossiu, engasgou e conseguiu gritar: — Eu não estou pronta para morrer!
— É claro que está, minha querida. Chegou a sua hora. Eu estou aqui.
— Você não vai me deixar? — a garota suplicou, chorando.
— Você não vai me deixar — Neferet sussurrou quando entrou na mente de Crystal.
A força vital de Crystal inundou Neferet. Tão pura, tão forte, tão doce que era como se a novata não estivesse morrendo, mas sim se transformando em um ser de luz e poder que agora viveria dentro de Neferet.
Neferet se curvou reverentemente sobre o corpo da garota moribunda, aceitando esse novo dom que recebeu junto com a House of Night de Tulsa.
Os guerreiros pensaram que Neferet ficou arrasada com a morte da primeira novata na sua própria House of Night, e que por isso ela havia se curvado sobre o corpo de Crystal, chorando histericamente.
Eles não sabiam que as lágrimas de Neferet eram de alegria, e que ela estava chorando por que finalmente havia reconhecido o seu destino. Rainha Tsi Sgili era um título modesto. Na verdade, ela deveria ser chamada de Deusa Tsi Sgili, pois havia se tornado imortal e um dia iria ocupar o seu lugar entre os deuses e ser venerada como tal!
Mas o seu dom não acabava aí. Mesmo antes de Neferet cumprir a profecia Cherokee e libertar Kalona, os novatos da sua House of Night começaram uma metamorfose junto com ela.
O corpo de Neferet se contorceu. A sua respiração se acelerou enquanto ela prosseguia através dos reinos do tempo e das camadas do seu inconsciente.
Os novatos que morriam na sua House of Night renasciam diferentes, ligados a ela por Trevas e sangue. Neferet acreditava que havia gerado um novo tipo de exército, além de uma nova espécie de vampiros. Essas novas criaturas iriam protegê-la e servi-la quando ela e o seu Consorte governassem a nova era dos vampiros.
Então Zoey Redbird havia sido Marcada, e o que se seguiu foi um passo em falso atrás do outro, uma irritação depois da outra, uma derrota após a outra. Neferet odiava aquela caloura e os seus amigos rebeldes com uma paixão que obscurecia todas as suas outras paixões.
Zoey Redbird era a razão pela qual Neferet estava escondida em uma toca, vestida apenas de Trevas e sangue.
Uma deusa não deveria sofrer esse tipo de aborrecimento! Uma deusa não deveria ser impedida de cumprir o seu destino divino!
Como em resposta ao seu turbilhão de emoções, o céu fora da toca rugiu com trovões, e um raio atingiu a terra com uma força que reverberou pela pele de Neferet.
Neferet, a Rainha Tsi Sgili, abriu os seus olhos.
— Eu fui tão idiota! Eu sou uma imortal. Ninguém pode ofuscar a minha majestade a não ser que eu permita. E não vou mais permitir! Mundo, prepare-se para me venerar!
Raios e trovões aplaudiram Neferet e a chuva acariciou o seu corpo, enquanto ela se preparava para sair de seu esconderijo em direção ao futuro, renascida, pronta para abraçar o seu destino.

5 comentários:

  1. Erebus nunca vai ser como Kalona porque ele nunca se sentiu abandonado nunca esteve só.
    pesar Erebus e Kalona é como pesar Dallas e Raphem

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  2. Nossa cada vez mais me surpreendo com Kalona ele continua um mala mais ele e melhor que Erebeus. Erebeus e muito hipócrita

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  3. Entao foi assim q ela fez com Erin sugou toda sua energia ?! Faz sentido o-o

    Aphofite

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  4. Ai ela sugou a ebergia de erin pra "renascer" , aiminhadeusa

    Aphodite

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