10 de outubro de 2015

Capítulo 2 - Zoey

— Z., até que enfim! Eu estava te procurando por toda parte. Essa não é exatamente uma boa hora para se esconder aqui.
A voz de Stark me assustou e eu dei um pulo. Depois alisei os pelos eriçados do meu braço e franzi a testa para ele.
— Eu não estou me escondendo. Eu só estou aqui... — perdi a fala e olhei em volta.
O que eu estava fazendo aqui fora se não estava me escondendo?
Thanatos tinha levado rapidamente o corpo de Erin para a enfermaria, afastando-a dos olhos chocados e embasbacados dos visitantes humanos. Automaticamente, meu círculo a seguira. Ela dera ordens aos professores e guerreiros Filhos de Erebus para acompanhar os nossos convidados até a saída dos jardins da escola e fechar o campus. Acho que todo mundo imaginou que eu estava ajudando a levar os humanos para fora. Eu tinha mesmo a intenção de ajudar. Até havia começado a fazer isso, mas então escutei o que um grupo de habitantes estava dizendo e precisei fugir. Era insuportável que o fato de uma novata sangrar até morrer fizesse com que um bando de políticos e mães da Associação de Pais e Mestres ficasse fofocando e especulando – e eles estavam sussurrando sobre a garota morta, sobre ela mal ter completado dezoito anos e já estar morta? Não. Eles estavam falando sobre Neferet! Murmurando sobre como ela havia sido demitida da House of Night e então tornado pública as suas opiniões antivampiros, e que então ela tinha desaparecido depois de a sua cobertura ter sido vandalizada.
Eu tinha até escutado um dos membros da Câmara Municipal de Tulsa dizer que eles não ficariam surpresos se os vampiros estivessem mandando uma mensagem para Neferet sair da cidade, e que a “pobre Neferet” podia ter sido vítima da violência da House of Night.
Aquilo realmente me deixou irritada, mas o que eu poderia ter dito para aquele cara? Nós não exatamente vandalizamos e ameaçamos quando resgatamos a minha avó das suas garras malignas e a atiramos para fora da varanda da sua cobertura. Sim, como se isso soasse muito melhor.
Ouvi-los falando sobre a “pobre Neferet” era mais do que eu podia aguentar. Que inferno, o meu círculo e eu tínhamos acabado de evitar que a “pobre Neferet” se materializasse no meio do nosso evento e destruísse os humanos! A “pobre Neferet” podia ser inclusive a responsável por o corpo de Erin ter rejeitado a Transformação. Para mim, parecia coincidência demais que Erin morresse logo depois de a nojenta da ex-Alta Sacerdotisa quase totalmente formada ter passado através do corpo dela.
Então, em vez de gritar com os locais, eu me aproveitei do caos provocado pela morte em público da novata e escapei sozinha para sentar em um banco do lado mais distante dos estábulos. Inspirei profundamente e comecei a pensar. Soltei o ar e continuei a pensar.
— Stark, eu não estou me escondendo aqui — raciocinei em voz alta o que eu estava sentindo. — Eu só precisava de um momento comigo mesma para lidar com a tempestade de porcaria que vai ser causada por toda essa... — fiz um gesto na direção do campus principal e conclui: — toda essa confusão.
Ele sentou ao meu lado no banco e pegou a minha mão.
— Sim, eu entendo. Lidar com a morte também é difícil para mim — Stark disse em voz baixa.
— É — eu falei, deixando escapar um pequeno soluço. Deusa, eu estava sendo tão hipócrita! — Sabe de uma coisa? Eu sou tão péssima quanto aqueles humanos fofoqueiros. Você estava certo. Eu estou me escondendo aqui, irritada e com pena de mim mesma, em vez de estar arrasada por alguém do nosso círculo ter acabado de morrer.
— Z., eu não espero que você seja perfeita. Ninguém é — Stark apertou a minha mão. — Você sabe que não vai ser sempre assim.
Senti um aperto no estômago.
— Acho que esse é o problema. Eu não sei se vai ser sempre assim.
— Esta foi a segunda vez que derrotamos Neferet, e ela não pareceu muito bem hoje. Sério, aranhas? Isso é tudo o que ela tem? Ela não pode continuar lutando conosco para sempre.
— Ela é imortal, Stark. Ela não pode ser morta, então ela pode continuar lutando conosco para sempre — eu afirmei melancolicamente. — E ela se transformou naquela coisa negra nojenta e pegajosa que estava começando a restaurar o seu corpo. Eca. Ela está de volta.
— Bem, pelo menos todo mundo sabe que ela se voltou para o mal — ele argumentou.
— Não, todo mundo não sabe que ela se voltou para o mal. Os vampiros sabem, e o Conselho Supremo decidiu não se curvar a ela. Já os humanos, os locais... Que inferno, o nosso próprio prefeito e os seus vereadores... Todos acham que ela é praticamente Glinda, a Bruxa Boa do Norte. O que me deixou irritada hoje à noite foi que ouvi uns caras de terno e as mães da Associação de Pais e Mestres falando sobre ela e imaginando se a gente tinha algo a ver com o fato de a sua cobertura ter sido vandalizada na semana passada porque a “pobre Neferet” — fiz aspas com os dedos — não tinha sido mais vista desde então.
— Sério? Não acredito que estão falando isso.
— Pode acreditar. A coletiva de imprensa de Neferet preparou o cenário para que ela parecesse uma vítima se qualquer coisa acontecesse a ela.
— Não importa. Isso não muda o fato de que a gente tinha que chutar o traseiro dela e resgatar a sua avó. Nós estávamos encobertos naquela noite. Ninguém nos viu, então todo esse papo é só uma fofoca idiota. Não significa nada.
— Fofoca sempre significa alguma coisa, Stark. Nesse caso, acho que quer dizer que vai ser preciso muito mais merda no ventilador para que quem não é vampiro saiba como Neferet é do mal.
— Provavelmente você está certa, mas isso na verdade é bom — Stark disse.
— Ahn?
— Neferet nunca soube como ficar na moita e deixar a poeira abaixar. E ela também nunca foi capaz de representar bem o papel de vítima. Se ela conseguir ficar inteira de novo, literalmente, e manifestar um corpo que é mais do que uma meleca preta, ela vai voltar a ser exatamente o que era antes. Ela vai acabar percebendo que os humanos locais não vão se curvar para adorá-la. Muitos inclusive sentem pena dela. Isso vai irritá-la num nível máximo e Neferet vai meter os pés pelas mãos. De novo. Então ela vai ser desmascarada pelos humanos, assim como foi pelos vampiros. Isso vai deixá-la sem merda nenhuma para manipular aqui, e se ela não puder manipular merda nenhuma, Neferet vai encontrar outro lugar para assombrar. Na verdade, livrar-se dela para sempre pode ser, como diria Stevie Rae, bem facinho.
— Stevie Rae! — senti o rosto corado de culpa. — Droga. Eu praticamente a deixei sozinha para lidar com a confusão da morte da Erin.
— Thanatos está lidando com isso; “isso” quer dizer Shaunee. Stevie Rae e Kramisha estão agrupando o pessoal para o ônibus. Todo mundo queria saber onde você estava, por isso vim aqui atrás de você.
— Desculpe. Acho que o meu momento para respirar já acabou. Estou pronta para mergulhar na loucura de novo. Vamos nos despedir de Vovó antes de embarcar no ônibus.
— Eu estou com você, Z. — Stark se levantou, ajudou-me a me levantar e me beijou suavemente. — Eu sempre vou estar com você, mesmo que isso signifique que eu vou estar no meio da loucura também.
Eu ainda estava em seus braços, sentindo-me segura, quando ouvimos a gritaria começar.
— Droga, o que é isso?
Eu senti a tensão no corpo de Stark.
— Alguém está histérico — ele pegou minha mão e escutou alguns segundos antes de começar a me guiar na direção da entrada do ginásio. — Venha. O som está vindo do outro lado da escola. Fique perto de mim. Tenho um mau pressentimento.
Ah, Deusa! Por favor, não deixe que seja outro garoto morrendo... Foi tudo o que eu consegui pensar enquanto cortamos caminho pelo ginásio e corremos na direção do estacionamento da escola.
A gente estava vindo por um caminho diferente das outras pessoas, então ninguém reparou em nós no começo, e Stark e eu pudemos ter uma boa visão daquela cena assustadora. No meio do estacionamento, havia uma mulher alta e loira tendo um colapso histérico, rodeada por humanos estupefatos e por um grupo de freiras Beneditinas que a estava amparando depois de ela ter vindo correndo dos portões da escola. Ela estava usando calças pretas de alfaiataria impecáveis, um suéter azul de cashmere justo e um colar grosso de pérolas com aparência de caro. O seu cabelo tinha se soltado de um coque de mulher rica, e mechas loiras estavam espetadas como se ela tivesse sido eletrocutada. Apesar de as freiras terem conseguido fazer com que ela parasse de correr em círculos, ela estava berrando e debatendo os braços feito uma louca.
Admito que a minha primeira reação foi sentir um superalívio por ser uma local surtada, e não outro novato morrendo.
A irmã Mary Angela saiu do meio da multidão e começou a tentar tranquilizar a mulher.
— Calma, calma, madame. Eu sei que é muito triste quando uma pessoa jovem morre, mas todos nós sabemos que a morte nunca está muito longe de nenhum calouro. Eles aceitam isso, e nós também devemos aceitar.
A mulher histérica fez uma pausa na sua gritaria e olhou para a irmã Mary Angela como se tivesse acabado de perceber onde estava. Ela respirou fundo e a sua expressão se alterou, passando do terror para a raiva tão rapidamente que foi assustador. Mais tarde eu percebi que isso deveria ter feito com que eu a reconhecesse.
— Você acha que eu estou chorando por causa de uma caloura? Isso é absurdo! — a mulher atirou as palavras na freira.
— Sinto muito. Eu não entendo por q...
Aphrodite chegou correndo, interrompendo a freira e arregalando os olhos para a mulher em prantos.
— Mãe? O que há com você?
— Ah, que merda! — Stark falou baixo para mim. — É a mãe de Aphrodite.
Eu soltei a mão dele e já estava andando antes de a minha mente ter tempo de acompanhar as minhas ações.
— Eles o mataram! — a mãe de Aphrodite berrou para ela.
— Mataram quem?
— O seu pai! O prefeito de Tulsa!
A multidão ofegou junto comigo. O rosto de Aphrodite ficou pálido. Antes que ela conseguisse falar de novo, Lenobia se adiantou, dizendo:
— Senhoras e senhores, alguns de vocês já me conhecem. Eu sou Lenobia, Mestra dos Cavalos desta House of Night. Em nome da nossa Alta Sacerdotisa e do nosso corpo docente, sinto muito que vocês tenham sido testemunhas dos trágicos eventos desta noite. Deixem-me ajudá-los a encontrar os seus veículos para que vocês possam ir para casa em segurança.
— É tarde demais para isso! — a mãe de Aphrodite gritou para Lenobia. — Não há nada seguro hoje à noite. Nenhum de nós nunca vai estar seguro enquanto coexistirmos com vocês, seus sugadores de sangue!
Enquanto Aphrodite apenas ficava parada ali olhando para a sua mãe, dei um passo à frente, surpresa ao perceber como a minha voz soou calma.
— Lenobia, esta é a mãe de Aphrodite. Ela diz que o seu marido foi assassinado.
— Sra. LaFont — Lenobia reagiu instantaneamente. — Deve haver algum engano. Foi uma de nossas novatas que morreu precocemente hoje.
— O único engano aqui é que outros de vocês não morreram hoje — a Sra. LaFont se virou e apontou um dedo acusador para o muro da escola, na direção da entrada principal e do portão de ferro aberto. Eu consegui distinguir o que parecia alguém deitado no chão. — Ele ainda está ali. Onde foi deixado, morto e sem sangue, por um vampiro! — então ela se dissolveu novamente em soluços histéricos, desta vez agarrando sua filha descontroladamente.
— Eu vou — a voz de Darius era firme e forte.
Ele tocou o ombro de Aphrodite gentilmente antes de correr até aquele vulto escuro. Quando chegou lá, ele se agachou. Antes de voltar até nós, ele se levantou e tirou a sua jaqueta, colocando-a sobre o que devia ser um corpo. Então ele voltou até Aphrodite. Ela ainda estava abraçando a sua mãe em prantos.
— Sinto muito — ele disse a ela. — É o seu pai e ele está morto.
O choro da Sra. LaFont se tornou um terrível uivo de dor. O resto da multidão começou a sussurrar com uma agitação que parecia uma mistura de raiva e medo. O pânico crescente era quase uma coisa palpável. Eu sabia que, se ninguém dissesse ou fizesse algo rapidamente, aquela noite, que já estava horrível, podia muito bem se tornar perigosa. Levantei a voz, satisfeita por eu ainda soar muito mais calma do que me sentia.
— Aphrodite, você precisa levar a sua mãe para dentro da escola. Darius, ligue para o 911 e informe que o prefeito está morto. Lenobia, Stark, irmã Mary Angela e as freiras Beneditinas, por favor, ajudem essas pessoas a encontrar os seus carros. Eu vou ajudar Aphrodite e a sua mãe a se acomodarem e então vou encontrar Thanatos. Ela saberá o que fazer.
As pessoas já tinham começado a fazer o que eu havia dito quando a mãe de Aphrodite de repente se soltou de sua filha.
— Não! — ela berrou, balançando a cabeça e fazendo com que o resto de seu cabelo preso de soltasse ao redor de seus ombros. — Eu nunca mais vou entrar nesse prédio. Eles mataram o meu marido!
— Mãe — Aphrodite tentou argumentar com ela. — Nós não sabemos do que papai morreu. Ele tinha pressão alta. Ele pode ter tido um ataque do coração.
— A garganta dele estava rasgada e o seu sangue tinha sido sugado do seu corpo. Isso não é um ataque do coração. É um ataque de vampiro! — a mãe de Aphrodite gritou com ela.
Eu olhei para Darius procurando uma confirmação. Ele assentiu levemente e continuou a falar no telefone.
Ah, que inferno.
— Sra. LaFont, se foi um ataque de vampiro, eu prometo que nós vamos encontrar o assassino e levá-lo até a Justiça — Lenobia falou solenemente.
— É exatamente como a sua ex-Alta Sacerdotisa disse... vocês são violentos! Foi por isso que ela rompeu com vocês. Nós devíamos tê-la escutado. Todos nós devíamos tê-la escutado. A pobre Neferet foi apenas a primeira vítima de vocês... — a Sra. LaFont soluçou.
— Eu vou cuidar para que os humanos continuem indo embora. Zoey, controle a boca dessa mulher — Lenobia sussurrou quando passou apressada por nós. Então ela levantou a voz. — Ok, senhoras e senhores, novamente eu peço desculpas pelas tragédias desta noite. Eu e as boas irmãs aqui vamos acompanhá-los até os seus carros. Logo a polícia de Tulsa vai estar aqui, e a última coisa de que eles precisam é ter a cena do crime alterada.
— Acho melhor eu ajudá-la — Stark murmurou.
— Não, é melhor você me ajudar — eu agarrei a mão dele. Stark me olhou com cara de interrogação. Eu abaixei a voz e me inclinei na direção dele. — Você ouviu Lenobia. A boca dela precisa ser fechada, eu preciso do seu feitiço de vampiro vermelho — expliquei.
Ele arregalou os olhos, mas assentiu e sussurrou:
— O que você quer que eu faça?
— Deixe-a chorar, mas sem gritos e berros — eu disse baixinho.
Ele assentiu de novo, e nós fomos até Aphrodite, que estava olhando impotente para a sua mãe em prantos.
Encontrei o olhar e Aphrodite, desejando que ela entendesse o real significado das minhas palavras.
— Stark vai falar com a sua mãe. Tudo bem por você?
Aphrodite olhou para Stark e depois para a sua mãe, antes de se virar para mim de novo.
— Sim. Na verdade, acho que é uma ótima ideia — ela segurou o braço de sua mãe e falou em voz baixa: — Mãe, você está certa. Nós não precisamos entrar na escola. Mas há um belo jardim logo ali. Longe dos vampiros. Por que eu e você não nos sentamos ali em um dos bancos enquanto esperamos a polícia chegar? Ok?
— A polícia humana! Eu quero que a polícia humana encontre o vampiro assassino do seu pai!
— Como Lenobia disse, a polícia humana já está a caminho. Agora Stark e Zoey virão conosco enquanto esperamos. Sabe, Stark não é um vampiro normal. Ele é um Guardião. Ele, ahn, já trabalhou com a polícia antes, a polícia humana — Aphrodite inventou enquanto conduzia a sua mãe para longe da multidão, em direção ao pequeno e escuro jardim bem atrás dos aposentos dos professores. — Então, Mãe, quero que você deixe Stark fazer algumas perguntas enquanto esperamos os policiais humanos chegarem.
Stark deu um passo à frente, assentiu para Aphrodite e então ficou ao lado da Sra. LaFont.
— Madame, eu sinto muito sobre o seu marido — ele disse com uma voz suave e encantadora. Até eu podia perceber a magia hipnotizante dos vampiros vermelhos enquanto ele continuava. — Vou cuidar para que você fique segura. Agora só quero que você vá comigo até o jardim, onde possa chorar em silêncio. Se não gritar mais, vai ser ótimo.
Aphrodite e eu soltamos suspiros de alívio quando escutamos a resposta da mãe dela, ecoando as palavras dele.
— Eu vou com você até o jardim, onde posso chorar em silêncio. Sem gritaria.
— Você está bem? — perguntei para Aphrodite enquanto seguíamos a sua mãe e Stark.
 Ela levantou os ombros.
— Não sei. Eles... os meus pais... eles nunca gostaram de mim. Na verdade, eles sempre foram péssimos comigo desde que eu consigo me lembrar. Sério, foi um alívio ter os dois fora da minha vida. Mas parece estranho e triste saber que o corpo do meu pai está ali atrás do muro.
Eu assenti e entrelacei o meu braço ao dela, querendo tranquilizá-la com meu toque, mesmo sabendo que ela não era do tipo que gostava de muito contato físico.
— Eu entendo totalmente o que você quer dizer. Quando a minha mãe morreu, não importava que ela tivesse sido horrível comigo por anos e preferido aquele idiota do meu padrasto em vez de mim. Só o que importava é que eu tinha perdido a minha mãe.
— Ela estava me abraçando enquanto chorava — Aphrodite disse, soando como uma menina arrasada. — Não consigo lembrar da última vez em que ela me abraçou.
Não consegui pensar em nada para dizer, então eu simplesmente fiquei ali com Aphrodite, segurando firme o braço dela e ouvindo os soluços de sua mãe enquanto o barulho das sirenes da polícia ficava cada vez mais próximo.


Fiquei feliz ao ver o detetive Marx de novo, apesar de as circunstâncias serem o que mais tarde Stark chamou de “tão difícil quanto tentar arrebanhar gatos”. Pelo menos Marx não era um humano com ódio de vampiros. Ele tinha belos olhos castanhos, e eu me lembro de como eles se iluminaram quando ele me contou da sua irmã gêmea, lembrando que mesmo depois que ela foi Marcada e passou pela Transformação os dois ainda continuavam em contato. Era bom saber que pelo menos um policial em Tulsa não iria abrir as portas da escola para os humanos lincharem os vampiros, já que o feitiço de vampiro vermelho de Stark tinha acabado super-rápido e a mãe de Aphrodite estava definitivamente em um estado de mente pró-linchamento.
— Prenda-os! — a Sra. LaFont atirou as palavras contra o detetive. — Prenda todos eles! Um vampiro fez isso, e um vampiro tem que pagar por isso.
— Madame, quem quer que seja o responsável deve pagar por esse crime. É por isso que vou investigar cuidadosamente o assassinato do seu marido até o fim. Vou encontrar quem fez isso. Dou a minha palavra. Mas eu não posso, e não vou, prender todos os vampiros desta escola.
— Obrigada, detetive. Como Alta Sacerdotisa, eu aprecio o seu profissionalismo, assim como a sua integridade — a voz de autoridade de Thanatos fez com que eu me sentisse aliviada. — Por favor, fique certo de que nós vamos cooperar totalmente com a sua investigação. Nós também queremos que o assassino do prefeito seja encontrado e levado à Justiça. Nós não acreditamos que um vampiro seja responsável por essa tragédia.
— O pescoço do meu marido foi rasgado e o seu sangue foi sugado do seu corpo! Isso é um ataque de vampiro — a Sra. LaFont franziu os olhos para Thanatos. A sua voz estava cheia de veneno.
— Certamente parece um ataque de vampiro — Thanatos concordou. — Justamente por isso, duvido que um vampiro tenha cometido esse crime. Por que um vampiro mataria o prefeito de Tulsa na House of Night, durante o nosso evento aberto ao público, e deixaria o seu corpo no portão principal para ser descoberto pelos humanos e pelos vampiros? Não faz sentido.
— Vocês são predadores de humanos. Isso não faz sentido!
— Senhoras, por favor, discutir não ajuda em nada — o detetive Marx tentou intervir, mas a Sra. LaFont o ignorou.
— Você nega que é uma aliada próxima da morte? — ela perguntou rapidamente para Thanatos.
— A minha afinidade concedida pela Deusa é, de fato, uma afinidade com a morte, e eu tenho um dom que me permite ajudar os espíritos dos mortos a encontrarem o seu caminho para o Outromundo.
— Foi isso o que você fez com o meu marido? Seduziu-o e armou uma cilada para ele? Ajudando-o a encontrar o seu caminho para um fictício Outromundo dos vampiros? — a voz dela ficava cada vez mais alta a cada pergunta que ela disparava contra Thanatos.
— É claro que não, Sra. LaFont. Eu não tenho nada a ver com a morte do seu marido — Thanatos se voltou para o detetive Marx. — Você pode perguntar para qualquer pessoa presente ao evento hoje. Eu estava sempre à vista do público. Inclusive quando a tragédia se abateu sobre nós e uma das nossas novatas rejeitou a Transformação e morreu, eu continuei acessível ao nosso corpo docente e aos nossos estudantes.
— Uma novata também morreu aqui hoje? — o detetive perguntou.
Thanatos assentiu.
— Sentiremos falta dela.
— Por que você está perguntando sobre a novata para ela? Todo mundo sabe que eles podem cair mortos a qualquer instante. Isso é normal na espécie deles. Meu marido foi morto por um vampiro. Isso não é normal!
— Mãe, se foi mesmo um vampiro que matou meu pai, posso jurar que esse vampiro não faz parte desta escola! — Aphrodite disse de repente.
Todos se viraram para encará-la, então ela mordeu os lábios e desviou os olhos, constrangida.
— Você está dizendo que sabe quem matou o seu pai? — A mãe de Aphrodite soou totalmente insana de novo.
Aphrodite engoliu em seco e então me surpreendeu ao deixar escapar.
— A única vampira que eu conheço que faria algo assim é alguém que iria querer armar para a House of Night levar a culpa — ela fez uma pausa, e eu tentei encontrar o olhar dela e telegrafar uma expressão de NÃO DIGA ISSO, mas Aphrodite estava encarando a mãe, como se pudesse fazer Frances LaFont acreditar nela. — Mãe, a nossa antiga Alta Sacerdotisa, Neferet, tem um rancor enorme contra nós, todos nós. Ela é ruim, mãe. Pior ainda, ela é do mal. Ela faria algo assim.
— Isso é ridículo, Aphrodite! Neferet era amiga do seu pai. Ele a indicou para ser agente de ligação entre vampiros e a cidade. Ela não o mataria!
— Neferet só estava usando papai e a cidade — Aphrodite insistiu. — Ela nunca quis fazer amizade com os humanos. Ela odeia os humanos. Na verdade, a única coisa que ela odeia mais do que humanos é a nossa House of Night, principalmente depois que ela foi expulsa daqui. Então faz todo o sentido que ela tenha matado o prefeito de Tulsa na House of Night durante o nosso evento. Ela sabe que isso vai provocar grandes problemas entre humanos e os vampiros.
— Alta Sacerdotisa? — Marx se voltou para Thanatos antes que a Sra. LaFont pudesse dar palpite. — O que você sabe sobre Neferet e as suas motivações?
— Como eu disse na entrevista para a Fox News há mais de uma semana, Neferet foi demitida da nossa House of Night. Acho que o que Aphrodite está dizendo faz sentido. Neferet estava muito zangada conosco.
— Zangada o bastante para matar? — o detetive perguntou.
Thanatos suspirou.
— Temo que ela seja capaz de grande violência. Essa é uma das razões pelas quais o Conselho Supremo a despojou da sua posição aqui e do seu título de Alta Sacerdotisa de Nyx. Apesar do que ela disse para o prefeito e os membros da Câmara Municipal, é Neferet quem defende a violência contra os humanos, não nós.
— Se vocês sabiam que ela era violenta, deveriam ter nos procurado e nos alertado sobre as suas preocupações — Marx afirmou de modo severo.
— Eles não o procuraram porque isso é um monte de mentiras! — a Sra. LaFont explodiu. — Hoje mesmo alguns membros da Câmara Municipal, Charles e eu estávamos falando que era estranho a cobertura de Neferet ter sido vandalizada e ela ter desaparecido, tudo isso logo depois de ela tomar uma posição pública contra o que estava acontecendo aqui na House of Night. O próprio Charles disse que ele suspeitava de jogo sujo.
Aphrodite pareceu totalmente chocada.
— Mãe, você não pode acreditar nisso.
— É claro que eu posso! Neferet teve a força de se manifestar contra os vampiros assassinos. O seu pai ficou ao lado dela. E agora ela está desaparecida e o seu pai está morto — ela voltou o seu olhar em chamas para o detetive. — E o que exatamente vocês vão fazer a respeito desses crimes hediondos?
— Sra. LaFont, por favor... — o detetive começou, mas ela o interrompeu.
— Não, eu já estou farta disso. O meu marido está morto, e eu não vou ficar sentada passivamente em relação ao seu assassinato e deixar que a culpa seja jogada em alguém inocente. Eu vou para casa. Vou ligar para o meu advogado. Vocês terão noticias minhas — os seus malvados olhos azuis encontraram Aphrodite. — E você vai comigo. Vamos. Agora.
A Sra. LaFont já tinha dado vários passos quando percebeu que a sua filha não a estava seguindo. Ela parou, virou-se e deu um riso de escárnio que lembrava tanto o pior de Aphrodite que eu fiquei olhando embasbacada para ela como uma turista.
— Aphrodite, eu disse que você vai para casa comigo. Agora. Estou falando sério.
— Não — Aphrodite respondeu simplesmente. Achei que ela soou muito cansada, mas a sua voz estava firme. — Eu estou em casa, e é aqui que eu vou ficar.
— O assassino do seu pai é um deles!
— Mãe, eu já disse, se um vampiro matou papai, não foi ninguém daqui.
— Aphrodite, eu não vou dizer de novo para você vir comigo.
— Ótimo. Isso significa que eu não vou ter que dizer não de novo. Sinto muito que papai esteja morto e que isso signifique que você está sozinha. Mas eu já não moro com você há quase quatro anos. Você já não é mais minha família.
— Detetive, eu posso obrigá-la a vir comigo? — a Sra. LaFont perguntou a ele.
— Na verdade, essa é uma boa pergunta — o detetive olhou para Aphrodite e depois para Thanatos. — Eu não estou vendo uma lua crescente na testa dela. A Marca dela está coberta por alguma razão?
— Não. Aphrodite é um membro diferente da House of Night. Ela já foi Marcada, mas o seu crescente desapareceu, apesar de os dons que Nyx concedeu a ela como novata não terem desaparecido; por isso, o nosso Conselho Supremo a nomeou Profetisa de Nyx. Portanto, embora Aphrodite não seja novata nem vampira, ela foi Escolhida pela nossa Deusa e sempre vai poder ter a House of Night como lar.
O detetive Marx soltou um longo suspiro.
— Bem, o fato de ter sido Marcada e Escolhida por Nyx significa que Aphrodite foi emancipada dos seus pais humanos. Apesar de as circunstâncias serem estranhas, eu diria que a sua emancipação continua válida por causa da decisão do Conselho Supremo. Sra. LaFont, acho que a resposta à sua pergunta é não, eu não posso obrigar a sua filha a ir embora com a senhora.
— Aphrodite — a voz da Sra. LaFont estava gélida. — Você vai fazer o que eu digo e vir comigo ou vai escolher ficar com os assassinos do seu pai?
— Eu escolho a minha família e o meu lar de verdade — Aphrodite respondeu sem hesitar, dando a mão para Darius e segurando firme nela, enquanto a sua mãe destilava veneno.
— Então eu preferia nunca ter te dado à luz. Nunca mais me chame de mãe. Nunca mais fale comigo. Eu nego a sua existência completamente. Você está tão morta para mim quanto o seu pai — a Sra. LaFont virou as costas para a sua filha e foi embora rapidamente.
No silencio que a sua mãe deixou para trás, a voz de Aphrodite pareceu muito baixa quando ela disse:
— Eu realmente gostaria de ir para casa agora. Eu vou estar no ônibus esperando vocês terminarem aqui.
— Ônibus? — o detetive Marx perguntou.
— Sim — Thanatos parecia exausta. — Alguns dos nossos estudantes e vampiros preferiram viver juntos fora do campus. O amanhecer está próximo. Eles realmente precisam voltar logo para a sua casa.
— Essa nova moradia fora do campus foi criada porque há um novo tipo de vampiro? — ele olhou para as tatuagens vermelhas de Stark. — Os vampiros vermelhos?
— De fato, como Neferet anunciou na sua entrevista, há um novo tipo de vampiro entre nós, e alguns deles estão entre os novatos e vampiros que escolheram viver fora do campus — a voz de Thanatos começou a ficar cuidadosa.
— E o que Neferet disse sobre esses novos vampiros também é verdade?
— Se você quer dizer a parte sobre nós sermos violentos e perigosos... não. Isso não é verdade — Stark encontrou o olhar do detetive.
O detetive hesitou e então, em caráter definitivo, ele afirmou:
— Alta Sacerdotisa, eu vou ter que insistir para que nenhum dos novatos ou vampiros tenha a permissão de sair do campus até que nós investiguemos totalmente o crime desta noite e possamos descartar a hipótese de o assassino ser alguém da sua House of Night. Se a senhora requisitar uma ordem judicial, tenho certeza de que posso acordar um juiz e conseguir um mandado de segurança determinando que o seu campus permaneça fechado. Mas devo dizer que seria melhor que uma ordem judicial não fosse necessária.
Sem nenhuma hesitação aparente, Thanatos disse:
— Não é preciso um mandado de segurança. Eu vou cumprir a sua solicitação voluntariamente. Zoey, diga para os estudantes descerem do ônibus. Até nova ordem, todos vão morar no campus.

4 comentários:

  1. Como Zo diz
    "Oh , inferno "!!

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  2. Serio essa senhora Lafont é um belo pé no saco, deu até pena de Afrodit...

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    1. Né, que raiva dela! Dá pra ver onde ela Aphrodite aprendeu a ser do jeito que é...

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  3. Mulher horrorosa, desprezível e sem coração. Tratar uma filha assim!������

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