6 de outubro de 2015

Capítulo 2 - Rephaim

O sonoro tambor era como o batimento cardíaco de um imortal: nunca terminando, engolindo, esmagador. Ele ecoou através da alma de Rephaim em sintonia com as batidas de seu sangue. Então, com a batida do tambor, as antigas palavras tomaram forma. Eles embrulharam seu corpo de modo que, mesmo enquanto ele dormia, seu pulso aliou-se em harmonia com a melodia eterna. Em seu sonho, as vozes das mulheres cantavam:

Antigo dormindo, esperando para levantar-se
Quando o poder da terra sangra vermelho sagrado
A marca atingirá a verdade; Rainha Tsi Sgili planejará
Ele deve ser lavado desde sua cama-sepulcro

A canção era sedutora, e como um labirinto, que circulou incessantemente.

Pela mão do morto, ele é livre
Terrível beleza, monstruosa visão
Governando novamente eles devem estar
Mulheres devem ajoelhar-se aos seus escuros poderes 

A música era uma incitação sussurrada. Uma promessa. Uma bênção. Uma maldição. A memória do previsto fez o corpo de Rephaim dormir inquieto. Ele se contorcia e, como uma criança abandonada, murmurou uma pergunta de uma só palavra:
— Pai?
A melodia concluída com a rima que Rephaim havia memorizado séculos atrás:

A canção de Kalona soa doce
Enquanto massacramos com fria cólera

—... massacramos com fria cólera. — Dormindo constante, Rephaim respondeu às palavras. Ele não acordou, mas seu batimento cardíaco aumentou - suas mãos enroladas em punhos - seu corpo enrijecido. No limite entre o despertar e o sono, a batida gaguejou em uma pausa, e as vozes macias das mulheres foram substituídas por uma que era profunda e também toda familiar.
—Traidor... covarde... traidor... mentiroso! — A voz masculina era uma condenação. Com a sua ladainha de ira, ele invadiu sonho Rephaim e sacudiu-o completamente para o mundo acordado. 
— Pai! — Rephaim explodiu, jogando fora os papéis velhos e pedaços de papelão que ele tinha usado para criar um ninho em torno dele. — Pai, você está aqui?
Um brilho de movimento capturado no canto de sua visão, e ele empurrou para a frente, rangendo sua asa quebrada quando ele olhou das profundezas da escuridão, o armário de painéis de cedro.
— Pai? 
Seu coração sabia que Kalona não estava lá antes mesmo do vapor de luz e movimento tomar forma para revelar a criança.
— O que é você?
Rephaim concentrou seu abrasador olhar sobre a menina.
— Vá embora, aparição.
Em vez de esmorecer como ela deveria, a criança estreitou os olhos para estudá-lo, parecendo intrigada.
— Você não é um pássaro, mas você tem asas. E você não é um garoto, mas você tem braços e pernas. E seus olhos são como de um menino, também, só que eles estão vermelhos. Então, o que é você?
Rephaim sentiu uma onda de raiva. Com um rápido movimento que causou fragmentos brancos quente da dor que irradiou através de seu corpo, ele pulou do armário, aterrissando poucos metros antes do fantasma – predatório, perigoso, defensivo.
— Eu sou o pesadelo dado a vida, espírito! Vá embora e me deixe em paz antes de aprender que existem coisas muito piores que a morte de medo.
Em seu movimento brusco, a criança fantasma necessitou de um pequeno passo para trás, de modo que agora o ombro roçou na vidraça baixa. Mas lá estava ela parada, ainda olhando para ele com um curioso, inteligente olhar.
— Você clamou por seu pai em seu sono. Eu ouvi você. Você não pode me enganar. Eu sou inteligente assim, e eu lembro das coisas. Além disso, você não pode me assustar porque você está realmente apenas ferido e sozinho.
Então, o fantasma da menina cruzou seus braços petulantemente sobre o magro peito, jogou para trás os longos cabelos loiros, e desapareceu, deixando apenas Rephaim da forma que ela havia falado dele, ferido e sozinho.
Suas mãos em punhos frouxos. Seus batimentos cardíacos acalmaram. Rephaim tropeçou ao voltar para seu ninho improvisado e descansou a cabeça contra a parede do armário atrás dele.
— Patético — murmurou em voz alta. — O filho predileto de um antigo imortal reduzido a se esconder no lixo e falar com o fantasma de uma criança humana. — Ele tentou rir, mas falhou. O eco da música de seu sonho, de seu passado, ainda era muito alto no ar ao seu redor. Como foi a outra voz - uma que ele podia jurar que era de seu pai.
Ele não conseguia sentar mais. Ignorando a dor em seu braço e a doente agonia de sua asa, Rephaim ficou de pé. Ele odiava a fraqueza que impregnava seu corpo. Há quanto tempo ele esteve aqui, ferido, exausto desde o voo do depósito, e enrolado nessa caixa em uma parede? Ele não conseguia se lembrar. Já passou um dia? Dois?
Onde ela estava? Ela disse que viria até ele esta noite. E ainda lá estava ele, onde Stevie Rae o tinha enviado. Era noite, e ela não tinha chegado.
Com um som de aversão, ele saiu do armário e seu ninho, seguiu além do parapeito em frente da qual a menina havia materializado na porta que dava para a varanda do último andar. Um impulso o levara até o segundo andar da mansão abandonada, logo após o amanhecer, quando ele chegou. No final de sua grande reserva de força, ele só pensava em segurança e dormir.
Mas agora ele estava muito acordado.
Ele encarou o vazio terreno do museu. O gelo que havia caído durante dias do céu tinha parado, deixando as enormes árvores que circundavam as colinas em que estava o Museu Gilcrease e sua mansão abandonada e em ruínas, com ramos curvados. A visão noturna de Rephaim era boa, porém ele não pôde detectar qualquer movimento em toda a parte externa. As casas que enchiam a área entre o museu e o centro de Tulsa estavam quase tão escuras quanto tinham sido em sua jornada ao abrigo ao amanhecer. Pequenas luzes pontilhavam a paisagem — não muito, a acelerada eletricidade que Rephaim havia chegado a esperar de uma cidade moderna. Eles só estavam fracos, velas tremeluzentes — nada comparado com a majestade do poder neste mundo que poderia evocar.
Não havia, naturalmente, nenhum mistério para o que tinha acontecido. As linhas que levaram energia para as casas dos humanos modernos tinham sido rompidas com tanta certeza quanto tinha os galhos carregados de gelo das árvores. Rephaim sabia o que era bom para si. Exceto pelos galhos caídos e outros detritos deixados nas estradas, as ruas pareciam a maior parte transitáveis. Havia uma grande máquina elétrica que não foi quebrada, pessoas teriam inundado esses terrenos enquanto a vida humana diária era retomada.
— A falta de energia mantém os seres humanos — ele murmurou para si mesmo. — Mas o que é mantê-la fora?
Com um som de pura frustração, Rephaim abriu a porta em ruínas, automaticamente procurando o céu aberto como bálsamo para os nervos. O ar estava frio e espesso com umidade. Baixo em toda a grama de inverno, a névoa suspensa em um lençol ondulado, como se a terra estivesse tentando se ocultar de seus olhos.
Erguendo seu olhar, Rephaim fez uma longa, estremecedora respiração. Ele inspirou o céu. Parecia estranhamente brilhante, em comparação com a cidade escurecida. Estrelas acenaram-no, assim como o nítido semicírculo da lua minguante.
Tudo dentro de Rephaim ansiou o céu. Ele queria que debaixo das suas asas, passando por seu escuro, emplumado corpo, acariciando-o com o toque da mãe que ele nunca conheceu.
Sua asa ilesa estendeu-se, alongando-se mais do que o comprimento do corpo de um homem adulto ao lado dele. Sua outra asa tremeu, Rephaim respirou o ar noturno, irrompendo com ele em um agonizante gemido.
Quebrada! A palavra ardeu através de sua mente.
— Não. Isso não é uma certeza. — Rephaim falou em voz alta. Ele balançou a cabeça tentando apagar o cansaço incomum que o fazia se sentir cada vez mais impotente — cada vez mais danificado. — Concentre-se! — Rephaim admoestou a si mesmo. — Está na hora de encontrar o Pai. — Ele ainda não estava bem, mas a mente de Rephaim, embora cansada, estava mais clara do que tinha estado desde sua queda. Ele deve ser capaz de detectar alguns traços de seu pai. Não importa quanta distância ou tempo separados, eles foram amarrados pelo sangue e espírito, e especialmente pelo dom da imortalidade, que havia sido da primogenitura de Rephaim.
Rephaim olhou para o céu, pensando nas correntes de ar em que ele estava tão acostumado a deslizar. Ele respirou fundo, levantou o braço ileso, e estendeu a mão, tentando tocar as correntes evasivas e os vestígios de magia negra do Outromundo que apodrecia ali.
— Tragam-me algum sentido dele! — Ele fez seu apelo urgente para a noite. 
Por um momento ele acreditava que sentiu um lampejo de resposta, longe, muito longe para o leste. E então, o cansaço era tudo que ele poderia sentir. — Por que não posso sentir você, Pai? — Frustrado e excepcionalmente exausto, ele deixou cair a mão inerte ao seu lado. Extraordinário cansaço...
— Por todos os deuses! — Rephaim de repente, percebeu que tinha esgotado sua força e deixou seu próprio escudo partido. Ele sabia o que estava impedindo-o de sentir o caminho que seu pai tinha tomado. — Ela fez isso. — Sua voz era dura. Seus olhos brilhavam carmesins.
Sim, ele foi terrivelmente ferido, mas como o filho de um imortal, seu corpo já deveria ter iniciado o seu processo de reparação. Ele tinha dormido — duas vezes desde que o Guerreiro atirou nele no céu. Sua mente estava clara. Dormir deveria ter continuamente reanimado-o. Mesmo que, como ele suspeitava, sua asa tivesse permanentemente danificada, o resto de seu corpo deveria estar visivelmente melhor. Seus poderes deveriam ter retornado a ele.
Mas a Vermelha tinha bebido do seu sangue, teve um Imprint com ele. E ao fazê-lo, ela tinha perturbado o equilíbrio do poder imortal dentro dele.
A raiva aumentou para atender à frustração já existente. Ela usou-o e depois o abandonou. Assim como o Pai tinha feito.
— Não! — Ele se corrigiu imediatamente. Seu pai tinha sido expulso pela jovem Alta Sacerdotisa. Ele voltaria quando fosse capaz, e em seguida Rephaim estaria mais uma vez ao lado de seu pai. Foi a Vermelha quem o tinha usado, depois deixou-o de lado.
Por que pensar muito nisso causa uma curiosa dor dentro dele? Ignorando o sentimento, ele levantou o rosto para o familiar céu. Ele não queria este Imprint. Ele apenas a salvou porque ele lhe devia sua vida, e ele sabia muito bem que um dos verdadeiros perigos deste mundo, assim como do próximo, era a força de uma dívida de vida não paga. 
Bem, ela salvou-o — encontrou-o, escondeu-o, e depois soltou-o, mas no telhado do depósito, ele pagou a dívida ao ajudá-la a escapar da morte certa. Sua dívida de vida estava paga agora. Rephaim era filho de um imortal, e não um fraco humano. Ele tinha poucas dúvidas de que ele poderia quebrar esse Imprint — este ridículo subproduto de lhe salvar a vida. Ele usaria o que restava de sua força de vontade para afastar-se, e então ele iria realmente começar a curar-se.
Ele respirou na noite novamente. Ignorando a fraqueza em seu corpo, Rephaim concentrou em sua força de vontade.
— Eu convoco o poder do espírito dos antigos imortais, que é meu por direito de nascença para comandar, para quebrar...
Uma onda de desespero caiu sobre ele, e Rephaim cambaleou contra o parapeito da varanda. A tristeza propagou em todo o seu corpo com tanta força que ele caiu de joelhos. Ele permaneceu ali, ofegando com dor e choque. 
O que está acontecendo comigo?
Em seguida, um estranho, medo absurdo encheu-o, e Rephaim começou a entender.
— Estes não são os meus sentimentos — ele disse a si mesmo, tentando encontrar seu próprio centro no turbilhão da aflição. — Estes são os sentimentos dela.
Rephaim arfou à medida que o desespero seguia o medo. Endurecendo-se contra o persistente ataque, esforçou-se para ficar de pé, lutou contra a onda de emoções de Stevie Rae. Resoluto, ele se obrigou a recentrar durante o violento ataque e o cansaço que o puxava incansavelmente — para tocar o lugar do poder que estava trancado e dormente durante a maior parte da humanidade — o lugar em que seu sangue tinha a chave.
Rephaim começou a invocação de novo. Desta vez com uma intenção totalmente diferente.
Mais tarde, ele diria a si mesmo que sua resposta foi automática — que ele estava agindo sob a influência de seu Imprint, que tinha sido simplesmente mais poderoso do que ele esperava. Este condenável Imprint que o levara a acreditar que o mais seguro, a maneira mais rápida para acabar com a horrível lavagem de emoções da Vermelha foi a atraí-la para ele e, assim, retirá-la do que quer que estava causando sua dor.
Não poderia ser que ele se importasse com a dor dela. Nunca poderia ser isso.
— Eu convoco o poder do espírito dos antigos imortais, que é meu por direito de nascença para comandar. — Rephaim falou rapidamente. Ignorando a dor em seu corpo espancado, ele puxou a energia da mais profunda sombra da noite, e depois canalizou o poder através dele, acusando-a de imortalidade. O ar em torno dele brilhava enquanto tornou-se manchado com um brilho escuro escarlate. — Com o poder imortal de meu pai, Kalona, que semeou o meu sangue e espírito com o poder, eu vos envio a minha … — Suas palavras se quebraram. Sua? Ela não era nada dele. Ela era... ela era... — Ela é a Vermelha! Alta Sacerdotisa Vampira daqueles que estão perdidos — ele finalmente desabafou. — Ela está ligada a mim através do Imprint de sangue e por dívida de vida. Vá até ela. Fortaleça-a. Atraia-a para mim. Pela parte imortal do meu ser, eu te ordeno isso!
A névoa vermelha espalhada foi instantaneamente, voando para o sul. Voltaria da maneira em que veio. Voltaria para encontrá-la.
Rephaim voltou a contemplar o olhar depois disso. E então ele esperou.

Um comentário:

  1. Estou amando ler sobre Rephaim e Stive Rae <3

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