9 de outubro de 2015

Capítulo 2 - Lenobia

Lenobia saiu em disparada de seu quarto e desceu correndo a pequena escada que ligava o seu alojamento ao piso térreo e ao estábulo. A fumaça estava se infiltrando feito cobras por debaixo da porta. Ela controlou o seu pânico e encostou a mão na madeira. Não estava quente, então ela empurrou a porta, avaliando a situação rapidamente enquanto entrava no estábulo.
O fogo estava ardendo mais furiosamente no fundo do edifício, na área onde o feno e a ração eram estocados. Era também a área mais próxima à baia de Mujaji e à grande baia para animais prenhes onde a Percherão Bonnie e Travis haviam se instalado.
— Travis! — ela gritou, levantando o braço para proteger o rosto do calor das labaredas crescentes, enquanto corria para dentro do estábulo, abrindo as baias e libertando os cavalos mais próximos a ela. — Para fora, Persephone, vá!
Lenobia empurrou a égua clara, que estava congelada de pavor, recusando-se a sair de sua baia. Quando Persephone passou por ela em disparada em direção à saída, Lenobia chamou de novo:
— Travis! Cadê você?
— Estou levando para fora os cavalos que estavam mais perto do fogo! — ele gritou quando uma jovem égua acinzentada correu da direção de onde vinha a voz de Travis e quase passou por cima de Lenobia.
— Calma! Calma, Anjo — Lenobia a tranquilizou, conduzindo a égua aterrorizada até a saída.
— A saída leste está bloqueada pelas chamas e eu... — as palavras de Travis foram cortadas quando a janela da selaria explodiu e estilhaços de vidro quente voaram pelo ar.
— Travis! Saia daqui e ligue para o 911! — Lenobia gritou enquanto abria a baia mais próxima e libertava um capão, detestando o fato de ela não ter pegado o seu telefone e feito ela mesma a chamada antes de sair do quarto.
— Eu acabei de ligar! — respondeu uma voz não familiar.
Lenobia olhou através da fumaça e das chamas e viu uma novata correndo na sua direção, guiando uma égua alazã que estava totalmente em pânico.
— Está tudo bem, Diva — Lenobia automaticamente acalmou o cavalo, pegando a correia da garota.
Ao seu toque, a égua se aquietou, e Lenobia soltou a correia do cabresto, encorajando-a a galopar para fora pela porta mais próxima atrás dos outros cavalos em fuga. Ela puxou a garota para trás com ela, afastando-se do calor que aumentava, dizendo:
— Quantos cavalos estão... — Lenobia perdeu a fala quando viu que o crescente na testa da garota era vermelho.
— Acho que só sobraram alguns — a novata vermelha estava com a mão trêmula quando enxugou o suor com fuligem do seu rosto, gaguejando as palavras. — E-eu peguei Diva porque sempre gostei dela e pensei que ela podia se lembrar de mim. Mas até ela estava assustada. Realmente assustada.
Então Lenobia reconheceu a garota: Nicole. Ela tinha uma aptidão com cavalos e um modo natural de montar antes de morrer, ressuscitar e se juntar ao grupo do mal de Dallas. Mas não havia tempo para questionar a garota. Não havia tempo para nada, exceto levar os cavalos – e Travis – para um local seguro.
— Você fez bem, Nicole. Você pode entrar de novo lá?
— Sim — Nicole concordou trêmula. — Não quero que eles se queimem. Farei qualquer coisa que você mandar.
Lenobia colocou a mão no ombro da garota.
— Eu só preciso que você abra as baias e saia do caminho. Eu vou guiá-los para um local seguro.
— Ok, ok. Eu consigo fazer isso — Nicole concordou.
Ela soou aflita e assustada, mas seguiu Lenobia sem hesitação, e as duas correram de volta para o turbilhão de calor dentro do estábulo.
— Travis! — Lenobia tossiu, tentando enxergar através da fumaça cada vez mais espessa. — Você está me ouvindo?
Mais alto que o som crepitante das chamas, ele gritou:
— Sim! Estou aqui atrás. Fechado na baia!
— Abra a baia! — Lenobia se recusou a ceder ao seu próprio pânico. — Abra todas as baias! Eu consigo chamar os cavalos para mim, para um local seguro. Posso fazê-los sair. Siga-os. Posso guiar todos vocês para fora!
— Já abri! — Travis gritou logo depois, do meio da fumaça e do calor.
— Já abri todas aqui também! — Nicole gritou bem mais perto.
— Agora sigam os cavalos e saiam do estábulo! — Lenobia berrou antes de começar a correr para trás, para longe do fogo e em direção à porta dupla da saída que ela deixou bem aberta.
Em pé, na frente da porta, ela levantou os braços, com as palmas voltadas para fora, e imaginou que estava extraindo poder diretamente do Outromundo e do reino místico de Nyx. Lenobia abriu seu coração, sua alma e seu dom concedido pela Deusa e gritou:
— Venham, meus belos filhos e filhas! Sigam minha voz e meu amor e vivam!
Pareceu haver um estouro da manada, com cavalos saindo em disparada do meio das labaredas e da fumaça escura. O terror deles era tão palpável para Lenobia que era quase como um ser vivo. Ela compreendeu isso – o seu medo das chamas, do fogo e da morte – e canalizou força e serenidade para si mesma e para os cavalos que passavam por ela galopando em direção aos jardins da escola.
A novata vermelha saiu cambaleando e tossindo atrás deles.
— Acabou. Todos os cavalos saíram — ela disse, desabando no gramado.
Lenobia deu um aceno rápido de cabeça para Nicole por consideração. Suas emoções estavam concentradas na manada agitada atrás dela, e seus olhos estavam focados na fumaça espessa e nas chamas flamejantes diante dela, das quais Travis não saía.
— Travis! — ela gritou.
Não houve nenhuma resposta.
— O fogo está se espalhando rápido — a novata vermelha falou ainda tossindo. — Ele pode estar morto.
— Não — Lenobia respondeu com firmeza. — Não desta vez — ela se voltou na direção da manada, chamando a sua amada égua negra. — Mujaji!
O cavalo relinchou e veio trotando até ela. Lenobia levantou a mão, fazendo-a parar.
— Fique calma, doçura. Cuide dos meus outros filhos. Empreste a eles a sua força e serenidade, assim como o meu amor — Lenobia disse.
Com relutância, porém obedientemente, a égua começou a andar ao redor do bando de cavalos assustados, agrupando-os.
Satisfeita, Lenobia se virou, inspirou duas vezes profundamente e entrou em disparada na boca do estábulo em chamas.
O calor estava terrível. A fumaça era tão densa que era como tentar respirar um líquido efervescente. Por um instante, Lenobia foi transportada de volta para aquela noite horrível em Nova Orleans e para outro celeiro em chamas. Os sulcos grossos das cicatrizes nas suas costas latejaram como uma memória fantasma de dor, e por um momento o pânico reinou, enraizando Lenobia no passado.
Então ela o escutou tossir, e o seu pânico foi despedaçado pela esperança, permitindo que o presente e a força verdadeira da vontade de Lenobia superassem o seu medo.
— Travis! Eu não estou te vendo! — ela gritou e arrancou a parte de baixo de sua camisola, entrou na baia mais próxima e mergulhou o pano na água do cocho.
— Saia... daqui... — ele disse entre uma tosse seca e outra.
— Nem ferrando. Já vi um homem queimar por minha causa. Não gosto nada disso.
Lenobia colocou o tecido ensopado sobre ela como um manto com capuz e avançou mais para dentro da fumaça e do calor, seguindo a tosse de Travis.
Ela o encontrou perto de uma baia aberta. Ele havia caído e estava tentando se levantar, mas só havia conseguido se ajoelhar e estava curvado para frente, quase vomitando e tossindo. Lenobia não hesitou. Ela entrou na baia e molhou o tecido rasgado na água do cocho da baia de novo.
— O quê...? — outra tosse o acometeu enquanto ele franzia os olhos para ela. — Não! Saia...
— Eu não tenho tempo para discutir. Apenas deite-se — ela falou.
Como ele não se moveu rápido o bastante, ela deu uma rasteira por baixo dos seus joelhos. Ele caiu de costas com um gemido e ela estendeu o tecido molhado sobre o rosto e o peito dele.
— Isso, assim mesmo. Na horizontal — Lenobia ordenou, enquanto foi até o cocho e rapidamente espalhou água pelo seu próprio rosto e cabelo.
Então, antes que ele pudesse protestar ou estragar o plano dela se mexendo, ela agarrou as pernas de Travis e começou a puxá-lo. Ele tinha que ser tão grande e pesado? A mente de Lenobia estava ficando confusa. As chamas estavam rugindo em volta dela, e ela tinha certeza de que podia sentir o cheiro de cabelo queimado.
Bem, Martin também era grande... E então a mente dela parou de funcionar. Era como se o seu corpo estivesse se movendo no piloto automático, sem ninguém para dirigi-lo, exceto uma necessidade primordial de continuar arrastando aquele homem para longe do perigo.
— É ela! É Lenobia!
De repente, mãos fortes estavam ali, tentando tirar aquela carga dela. Lenobia lutou. A morte não vai vencer desta vez! Não desta vez!
— Professora Lenobia, está tudo bem. Você conseguiu.
Então a mente dela registrou o frescor do ar e foi capaz de entender o que estava acontecendo. Ela ofegou, inspirando o ar puro e tossindo o calor e a fumaça, enquanto mãos gentis a ajudaram a se sentar na grama e colocaram uma máscara sobre o seu nariz e sua boca, através da qual um ar ainda mais puro inundou os seus pulmões. Ela sugou o oxigênio e a sua mente clareou completamente.
Um enxame de bombeiros humanos lotava os jardins.
Poderosas mangueiras estavam voltadas para o estábulo em chamas. Dois paramédicos estavam ao redor dela, observando-a, parecendo perdidos e obviamente surpresos com a rapidez com que ela estava se recuperando.
Ela arrancou a máscara do rosto.
— Não cuidem de mim. Cuidem dele! — ela puxou o tecido quente do corpo de Travis, que ainda estava imóvel demais. — Ele é humano. Ajudem-no!
— Sim, senhora — um dos paramédicos murmurou e então eles começaram a trabalhar em Travis.
— Lenobia, beba isto — alguém disse e uma taça foi colocada em suas mãos.
A Mestra dos Cavalos levantou os olhos e viu duas vampiras curandeiras da enfermaria da House of Night, Margareta e Pemphredo, agachadas ao lado dela. Lenobia bebeu de uma vez todo o vinho, que estava bastante misturado com sangue, sentindo instantaneamente a energia vital que ele carregava formigar pelo seu corpo.
— É melhor você vir com a gente, professora — Margareta afirmou. — Você vai precisar de mais do que isso para se curar completamente.
— Mais tarde — Lenobia respondeu, deixando a taça de lado.
Ela ignorou as curandeiras, bem como as sirenes, as vozes e o caos generalizado ao seu redor. Lenobia engatinhou em direção à cabeça de Travis. Os paramédicos estavam ocupados. O cowboy já estava usando uma máscara, e eles estavam dando uma injeção no seu braço. Os olhos dele estavam fechados. Mesmo por baixo da sujeira da fuligem, ela podia ver que o seu rosto estava escaldado e vermelho. Ele estava usando uma camiseta para fora da calça, que obviamente tinha vestido apressadamente por sobre o jeans. Os seus antebraços fortes estavam descobertos e cheios de bolhas. E as suas mãos... as suas mãos estavam queimadas e ensanguentadas.
Ela deve ter feito algum barulho involuntário – sinal da terrível dor de cabeça que estava sentindo – pois Travis abriu os olhos. Eles eram exatamente como ela se lembrava: castanhos, com um tom de uísque e traços verde-oliva. Os seus olhares se encontraram e se fixaram um no outro.
— Ele vai sobreviver? — ela perguntou ao paramédico mais próximo.
— Eu já vi casos piores, e ele vai ter cicatrizes, mas nós temos que levá-lo ao hospital St. John o mais rápido possível. A inalação de fumaça foi pior do que as suas queimaduras — o humano fez uma pausa e, apesar de Lenobia não tirar os olhos de Travis, pôde escutar o sorriso na voz do paramédico. — Ele é um cara de sorte. Quase você não o encontra a tempo.
— Na verdade, levei duzentos e vinte e quatro anos para encontrá-lo, mas estou feliz que cheguei a tempo.
Travis começou a dizer algo, mas suas palavras foram cortadas por uma tosse seca horrível.
— Com licença, senhora. A maca chegou.
Lenobia se afastou para o lado, enquanto Travis era transferido para a maca com rodinhas, mas em nenhum momento eles deixaram de se olhar. Ela caminhou ao lado dele enquanto os paramédicos empurravam a maca até a ambulância que estava à espera. Antes de o colocarem lá dentro, ele tirou a máscara e, com uma voz áspera, perguntou:
— Bonnie? Ok?
— Ela está bem. Eu posso senti-la. Ela está com Mujaji. Vou cuidar dela. Vou cuidar de todos eles e deixá-los em segurança — ela assegurou a ele.
Ele estendeu a mão para Lenobia, e ela cuidadosamente tocou sua mão queimada e ensanguentada.
— Você vai cuidar de mim também? — ele conseguiu perguntar.
— Sim, cowboy. Você pode apostar sua bela e grande égua que eu vou — e sem se importar nem um pouco com os olhares de humanos, novatos e vampiros que ela podia sentir na direção dela, Lenobia se inclinou e o beijou suavemente na boca. — Procure por alegria e cavalos. Eu vou estar lá. Desta vez, cuidando para que você esteja a salvo.
— Bom saber. Minha mãe sempre dizia que eu precisava de alguém que cuidasse de mim. Espero que ela descanse em paz sabendo que eu consegui essa pessoa — a voz dele soou como se a sua garganta fosse uma lixa.
Lenobia sorriu.
— Você conseguiu, mas eu acho que é você que precisa aprender a descansar.
As pontas dos dedos dele tocaram a mão de Lenobia, e ele disse:
— Acho que agora eu vou conseguir. Eu só estava esperando encontrar o meu caminho de volta para casa.
Lenobia encarou aqueles olhos âmbar esverdeados que lhe eram tão familiares, tão incrivelmente parecidos com os de Martin, e imaginou que através deles ela podia enxergar a verdadeira natureza daquela alma também familiar — a bondade, a força, a honestidade e o amor que, de algum modo, haviam cumprido a sua promessa de voltar para ela. Lá no fundo do coração, Lenobia sabia que, apesar de no resto da aparência o cowboy alto e rijo não ter nenhuma semelhança com o seu amor perdido, ela havia encontrado o seu coração de novo. A emoção travou a sua voz, e tudo o que ela podia fazer era sorrir, concordar com a cabeça e virar a mão para que os dedos dele pousassem na sua palma – quente, forte e muito viva.
— Nós temos que levá-lo ao hospital, senhora — afirmou o paramédico.
Lenobia tirou sua mão de Travis com relutância, enxugou os olhos e disse:
— Você pode levá-lo por pouco tempo, mas eu o quero de volta. Logo — ela dirigiu o seu olhar, que parecia uma nuvem de tempestade, para o humano de jaleco. — Trate-o bem. Esse fogo no celeiro não é nada perto do meu temperamento inflamado.
— S-sim, senhora — o paramédico gaguejou, rapidamente colocando Travis dentro da ambulância.
Lenobia teve certeza de que ouviu a risada de Travis no meio da sua tosse horrorosa, antes de as portas da ambulância se fecharem e de eles partirem com a sirene piscando.
Ela estava parada ali, olhando a ambulância se afastar e preocupada com Travis, quando alguém próximo limpou a garganta de um jeito bem óbvio, atraindo a atenção de Lenobia instantaneamente. Ao se virar, ela enxergou o que a sua visão antes totalmente capturada por Travis havia ignorado. Parecia que a escola havia explodido. Cavalos movendo-se nervosamente o mais perto domuro leste que eles conseguiam chegar. Caminhões de bombeiros estavam estacionados nos jardins ao lado do estábulo, esguichando água de enormes mangueiras na direção do prédio ainda em chamas. Novatos e vampiros tinham se reunido em grupos assustados, parecendo impotentes.
— Calma, Mujaji, calma... Está tudo bem agora, minha doçura.
Lenobia fechou os olhos e se concentrou em usar o dom que a sua Deusa havia concedido a ela há mais de duzentos anos. Ela sentiu a bela égua negra responder imediatamente, relaxando da sua agitação e acabando com o resto do seu medo e nervosismo.
Então Lenobia voltou sua conexão para a grande Percherão, que estava preocupada escavando o chão, movendo as orelhas, buscando algum sinal de Travis.
— Bonnie, ele está bem. Você não tem com o que se preocupar — Lenobia falou suavemente, ecoando as ondas de emoção que ela estava transmitindo para a égua ansiosa.
Bonnie se acalmou quase tão rápido quanto Mujaji, o que agradou bastante Lenobia e permitiu que ela direcionasse sua atenção facilmente para o resto dos cavalos.
— Persephone, Anjo, Diva, Little Biscuit, Okie Dodger — ela enviou afeto e segurança individualmente para os cavalos — sigam a liderança de Mujaji. Fiquem calmos. Sejam fortes. Vocês estão a salvo.
A pessoa próxima a ela limpou a garganta novamente, interrompendo a concentração dela. Irritada, Lenobia abriu os olhos e viu um humano parado na sua frente. Ele vestia um uniforme de bombeiro e a estava observando com as sobrancelhas arqueadas e uma curiosidade explícita.
— Você está falando com aqueles cavalos?
— Na verdade, estou fazendo muito mais do que isso. Dê uma olhada — ela fez um gesto para a manada diante dela.
Ele se virou, e o seu rosto registrou a sua surpresa.
— Eles se acalmaram bastante. Isso é bizarro.
— A palavra “bizarro” tem tantas conotações negativas. Prefiro a palavra “mágico”.
— Lenobia fez um aceno de cabeça, despedindo-se do bombeiro, e então começou a andar a passos largos na direção do grupo de novatos que estavam aglomerados em volta de Erik Night e da professora P.
— Senhora, eu sou o capitão Alderman, Steve Alderman — ele disse, quase correndo para acompanhar o passo de Lenobia. — Estamos trabalhando para controlar o fogo, e eu preciso saber quem é o responsável pela escola.
— Capitão Alderman, eu gostaria de dizer que sou eu — Lenobia disse sombriamente. Então ela acrescentou: — Venha comigo. Vou resolver isso.
A Mestra dos Cavalos se juntou a Erik, professora P. e seu grupo de novatos, que incluía um guerreiro Filho de Erebus, Kramisha, Shaylin e vários novatos azuis quintanistas e sextanistas.
— Penthesilea, eu sei que Thanatos está com Zoey e o seu círculo, terminando o ritual na fazenda da Sylvia Redbird, mas onde está Neferet? — a voz de Lenobia soou como um chicote.
— E-eu simplesmente não sei! — a professora de Literatura respondeu trêmula, olhando por sobre o seu ombro para o estábulo em chamas. — Eu fui até os aposentos dela quando vi o fogo, mas não havia nenhum sinal dela.
— E ninguém tentou ligar para ela? — Kramisha perguntou.
— Não atende — Erik respondeu.
— Que maravilha — Lenobia resmungou.
— Posso supor então que, na ausência dessas pessoas que acabou de mencionar, você é a responsável aqui? — o capitão Alderman questionou Lenobia.
— É, parece que, como não sobrou ninguém, sou eu — ela respondeu.
— Bem, então você precisa fazer a contagem dos estudantes o mais rápido possível. Você e os professores precisam conferir imediatamente se todos os alunos estão presentes — ele indicou com o polegar um banco não muito longe de onde eles estavam. — Aquela garota com a lua vermelha na testa é a única garota que encontramos perto do celeiro. Ela não está ferida, apenas um pouco abalada. O oxigênio está limpando os pulmões dela surpreendentemente rápido. Mesmo assim, pode ser uma boa ideia que ela seja examinada no hospital St. John.
Lenobia deu uma olhada para Nicole, que estava sentada respirando profundamente com uma máscara de oxigênio, enquanto um paramédico conferia seus sinais vitais. Margareta e Pemphredo estavam por perto, fuzilando o paramédico com os olhos, como se ele fosse um inseto irritante.
— A nossa enfermaria está mais bem equipada para cuidar de novatos feridos do que um hospital humano — Lenobia afirmou.
— Como achar melhor, senhora. Você é a responsável aqui, e sei que vocês, vampiros, têm uma fisiologia própria. — Ele fez uma pausa e acrescentou: — Sem ofensas. Meu melhor amigo no ensino médio foi Marcado e Transformado. Eu gostava dele na época. E ainda gosto dele.
Lenobia controlou o sorriso.
— Não me senti ofendida, capitão Alderman. Nós estamos apenas falando a verdade. Os vampiros realmente têm necessidades fisiológicas diferentes das dos humanos. Nicole vai ficar bem aqui com a gente.
— Ótimo. Acho que é melhor enviar alguns rapazes para dentro daquele ginásio para procurar outros garotos que podem estar por perto — o capitão falou. — Parece que nós conseguimos evitar que o fogo se espalhasse, mas é melhor fazer uma busca nas partes adjacentes da escola.
— Acho que procurar no ginásio é uma perda de tempo para os seus homens — Lenobia afirmou, seguindo o que o seu instinto estava lhe dizendo. — Concentre-se em fazer com que eles acabem com o fogo no estábulo. O incêndio não começou sozinho. Isso precisa ser investigado, além de nos certificarmos de que nenhum dos nossos ficou preso nas chamas. Eu vou pedir que os nossos guerreiros façam buscas nas áreas adjacentes da escola, começando pelo ginásio.
— Sim, senhora. Parece que realmente nós chegamos aqui a tempo. O ginásio vai ter danos de fumaça e água, mas vai parecer muito pior do que realmente é. Acho que a estrutura permaneceu intata. É um edifício sólido, feito de pedras boas e espessas. Vai ser preciso alguma reforma, mas a sua estrutura foi feita para durar — o bombeiro tocou no seu chapéu para cumprimentá-la e se afastou, gritando ordens para os homens mais próximos.
Bem, pelo menos algumas notícias boas, Lenobia pensou, tentando desviar os olhos do caos em combustão em que o seu estábulo tinha se transformado. Ela se virou de novo para o seu grupo.
— Onde está Dragon? Ainda no ginásio?
— Nós também não conseguimos encontrar Dragon — Erik respondeu.
— Dragon está desaparecido?
O estábulo tinha sido construído com uma parede compartilhada com o grande ginásio coberto. Até então, ela havia estado muito preocupada para pensar nisso, mas a ausência do líder dos Filhos de Erebus durante uma crise na escola era algo totalmente estranho.
— Neferet e Dragon... Não gosto do fato de que nenhum deles está aqui. Isso é um mau presságio para a escola.
— Professora Lenobia, hum, eu vi Neferet.
Os olhos de todos se voltaram para a pequena garota de cabelos grossos e escuros que faziam as feições delicadas do seu rosto parecerem quase de boneca. Lenobia colocou um nome rapidamente naquele rosto: Shaylin, a novata recém-chegada na House of Night de Tulsa e a única novata cuja Marca original era vermelha. No instante em que a conhecera alguns dias atrás, Lenobia pensou que havia algo muito estranho com ela.
— Você viu Neferet? — ela franziu os olhos para a novata. — Onde? Quando?
— Há mais ou menos uma hora — Shaylin respondeu. — Eu estava sentada do lado de fora do dormitório, olhando para as árvores. — Ela encolheu os ombros, nervosa, e acrescentou: — Eu era cega e, agora que eu não sou mais, gosto de olhar para as coisas. Adoro.
— Shaylin, e Neferet? — Erik a estimulou a continuar.
— Ah, sim, eu a vi andando pela calçada em direção ao ginásio. Ela, bem, ela parecia muito escura — Shaylin fez uma pausa, parecendo desconfortável.
— Escura? O que você quer dizer com...
— Shaylin tem um jeito único de ver as pessoas — Erik interrompeu. Lenobia o viu colocar a mão sobre o ombro de Shaylin para tranquilizá-la. — Se ela achou que Neferet parecia escura, então provavelmente foi bom você ter evitado que os bombeiros humanos fossem bisbilhotar no ginásio.
Lenobia queria questionar mais Shaylin, mas Erik encontrou o seu olhar e balançou a cabeça, quase imperceptivelmente. Lenobia sentiu um arrepio de mau pressentimento descendo pela sua espinha. Aquela premonição fez com que ela tomasse a decisão.
— Axis, vá com Penthesilea até o escritório da administração. Se Diana não estiver acordada, acorde-a. Pegue a lista de alunos e a distribua para os guerreiros Filhos de Erebus. Peça para que eles contem todos os estudantes e depois faça com que os estudantes apresentem-se aos seus mentores antes de voltarem aos dormitórios.
Quando a professora e o guerreiro saíram apressados, Lenobia encontrou o olhar franco de Kramisha.
— Você pode fazer com que esses novatos — Lenobia fez uma pausa e seu gesto abrangeu todos os alunos com aparência desnorteada que estavam vagando pela área — se apresentem aos seus mentores?
— Sou uma poetisa. Eu consigo criar alguns pentâmetros iâmbicos incríveis. Isso significa que eu posso dar uma de chefe de alguns garotos assustados e sonolentos.
Lenobia sorriu para a garota. Ela já gostava de Kramisha mesmo antes de ela morrer e depois voltar como uma novata vermelha, que tinha tantas habilidades poéticas e proféticas que havia sido nomeada a nova vampira Poeta Laureada.
— Obrigada, Kramisha. Eu sabia que podia contar com você. Mas é bom se apressar. Não preciso dizer isso para você, mas está bem perto de amanhecer.
Kramisha bufou.
— Você está me dizendo isso? Eu vou ficar mais tostada do que aquele celeiro se eu não entrar em um lugar coberto logo.
Quando Kramisha saiu apressada, chamando os novatos espalhados, Lenobia encarou Erik e Shaylin.
— Nós três precisamos dar uma examinada no ginásio.
— É, eu concordo — Erik disse. — Vamos lá.
Mas Shaylin não saiu do lugar, e Lenobia percebeu que ela tirou a mão de Erik do seu ombro. Não de um jeito irritado, mas, sim, distraído. Ela viu a jovem novata vermelha olhar para o céu e suspirar. Lenobia notou que ela parecia se sentir importante, que ela exibia uma sensação de quem queria ou esperava algo.
— O que foi? — Lenobia perguntou para a garota, apesar de a última coisa que ela deveria fazer naquele momento era dar atenção para uma novata vermelha distraída e estranha.
Ainda olhando para cima, Shaylin falou:
— Onde está a chuva quando você precisa dela?
— Ahn? — Erik balançou a cabeça. — Do que você está falando?
— Chuva. Eu queria muito, muito mesmo que chovesse — a garota baixou os olhos do céu e se voltou para ele, encolhendo os ombros e parecendo um pouco sem jeito. — Juro que eu posso sentir um cheiro de chuva no ar. Isso iria ajudar os bombeiros e seria uma garantia dupla de que o fogo não vai se espalhar para o resto da escola.
— Os humanos estão conseguindo lidar com o fogo. Nós temos que examinar o ginásio. Não gosto do fato de Neferet ter sido vista entrando lá — Lenobia afirmou e começou a andar em direção ao ginásio, supondo que os dois iriam segui-la, mas ela hesitou ao perceber que Shaylin ainda continuava lá.
Ela se virou para a novata e estava pronta para repreendê-la por insolência ou ignorância, mas Erik disse algo antes:
— Ei, isso é importante — ele falou com uma voz baixa e urgente para Shaylin. — Vamos com Lenobia conferir o ginásio. Os bombeiros já estão com as coisas sob controle.
Como Shaylin não saiu do lugar e continuou a resistir em ir até o ginásio, ele falou mais alto:
— O que há com você? Já que Thanatos, Dragon e até Zoey e o seu grupo não estão aqui, a gente tem que tomar cuidado para não deixar ninguém pensar que nós podíamos...
— Erik, eu realmente acho que Lenobia está certa — Shaylin o interrompeu. — Eu só quero saber o que vai acontecer com ela.
Lenobia seguiu o olhar de Shaylin e encontrou Nicole, ainda sentada no banco, entre duas vampiras da enfermaria, com a pele rosa e manchada de fuligem.
— Ela faz parte do grupo de novatos vermelhos de Dallas. Eu não ficaria surpreso se ela tivesse algo a ver com o incêndio — Erik insinuou, claramente irritado. — Lenobia, acho que você deveria fazer com que Nicole vá até a enfermaria e fique trancada lá até nós descobrirmos o que realmente aconteceu aqui.
Antes de Lenobia responder, Shaylin já estava falando. Ela soou firme e muito mais sábia do que deveria ser aos dezesseis anos.
— Não. Façam com que ela vá até a enfermaria para ter certeza de que ela está bem, mas não a prendam lá.
— Shaylin, você não sabe o que está dizendo. Nicole está com Dallas — Erik afirmou.
— Bem, neste momento ela não está com ele. Ela está mudando — Shaylin respondeu.
— Realmente, ela me ajudou a tirar os cavalos do estábulo — Lenobia disse. — Se ela estivesse envolvida com o incêndio, teria sido muito mais fácil se esconder e fugir no meio da fumaça. Eu nunca saberia que ela esteve lá.
— Isso faz sentido. As cores dela estão diferentes... melhores. — E então Shaylin, com a sua firmeza e sabedoria se dissipando, arregalou os olhos para Lenobia: — Ah, desculpe. Eu falei demais. Preciso aprender a manter a minha boca fechada.
— Que atrocidade foi cometida nos jardins da escola esta noite!
A voz ressoou como um trovão sobre Lenobia. Pelos jardins da escola, movendo-se rapidamente em direção a eles, havia uma falange de vampiros e novatos, com Thanatos à frente, Zoey e Stevie Rae cada uma ao seu lado e, por mais bizarro que fosse, Kalona marchando logo atrás de Thanatos, com as asas abertas defensivamente, como se ele de repente tivesse se tornado o Anjo Guardião da Morte.
Foi nessa hora que o céu da noite se abriu e começou a chover.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!