9 de outubro de 2015

Capítulo 19 - Kalona

Tudo voltou rapidamente para ele, como um amigo perdido que se reencontra depois de algum tempo. Kalona havia sido o guerreiro escolhido de Nyx. Ele passara séculos combatendo Trevas mais ferozes do que essas.
Sim, as gavinhas se multiplicavam quando se despedaçavam, mas se ele quebrasse os seus pescoços elas não conseguiam se regenerar imediatamente. Elas eram apenas servas inferiores.
Kalona ria enquanto se desviava, atacava e lutava. Era tão bom fazer de novo aquilo para o qual ele fora criado! No meio da batalha, ele viu Neferet observando a cena silenciosamente.
— Você pensa em me derrotar com essas marionetes? Por séculos eu combati coisas assim no Outromundo. Você deveria saber que eu posso combatê-las por mais alguns séculos.
— Ah, tenho certeza de que você pode, traidor. Mas ela não pode — Neferet apontou seu dedo longo para Sylvia Redbird, que ainda estava presa e sofrendo dentro da jaula de Trevas.

“Com o sangue de Kalona como alimento,
Obedeçam-me, sejam leais e precisas.
A turquesa não vai mais salvar a vida dela,
E o poder dele vai ser a minha faca vingadora!”

As gavinhas obedeceram Neferet instantaneamente. Elas pararam de sugá-lo e, inchadas com o seu sangue imortal, aglomeraram-se em Sylvia Redbird feito um enxame de abelhas. Ela gritou e levantou os braços, tentando bloquear aquele ataque furioso. As pedras que ela usava ainda freavam obviamente as gavinhas, mas não o suficiente. Através do poder roubado do sangue imortal de Kalona, várias gavinhas conseguiram resistir à proteção das turquesas. Elas cortavam a carne da velha mulher e, depois de se enfraquecerem e de soltarem fumaça, deslizavam de volta para ele para se alimentar. Kalona lutava com elas novamente, mas, a cada duas que ele detia, outras duas rompiam as suas defesas, cortavam a sua carne e bebiam o seu sangue. Com forças renovadas, elas voltavam a atacar Sylvia.
Sylvia Redbird começou a cantar. Kalona não entendia aquelas palavras, mas ele percebeu o objetivo dela claramente. Ela estava cantando a sua canção de morte.
— Sim, Kalona. Por favor, fique e combata as Trevas. Você só serve para alimentar as torturadoras da avó de Zoey Redbird. Uma hora elas vão conseguir romper a barreira de proteção dela, mas com a sua ajuda o fim dela acontecerá mais rápido. Ou, talvez depois que a proteção da turquesa seja quebrada, eu decida não matá-la. Talvez eu fique com ela e a transforme em meu animal de estimação de verdade. Por quanto tempo você acha que a sanidade de uma velha vai resistir aos tormentos das Trevas?
Kalona sabia que Neferet estava certa. Ele não poderia salvá-la – ele não poderia ordenar que as Trevas se afastassem dela. Em vez disso, as Trevas iriam usar o poder do seu sangue para torturá-la.
— Vá embora! Deixe-me aqui! — Sylvia fez uma pausa na sua canção para gritar essas palavras para Kalona.
Ele sabia que ela estava certa, mas, se ele deixasse aquela velha mulher ali, teria que voltar para a House of Night derrotado por Neferet. Mas eu não tenho escolha! Se ele permanecesse e combatesse as Trevas, tudo o que restaria de Sylvia Redbird seria a sua casca mortal. Neferet não conseguiria controlar a sua ira. Quando as turquesas não protegessem mais a velha mulher, Neferet a destruiria. Para ser vitorioso, Kalona tinha que se retirar e depois voltar outro dia para lutar, apesar de isso ferir o seu orgulho.
O imortal abriu suas asas poderosas e se lançou da varanda, deixando as gavinhas de Trevas, Neferet e Sylvia Redbird para trás.
Kalona sabia para onde tinha que ir. Ele voou alto e rápido, e então desceu com uma velocidade sobrenatural, aterrissando no meio do campus da House of Night, bem na frente da estátua em tamanho natural de Nyx. Kalona se ajoelhou e então fez o que ele ainda não havia se permitido até aquele momento: levantou os olhos para o retrato em mármore da sua Deusa perdida.
Não, ele se corrigiu silenciosamente. Fui eu que me perdi, não Nyx.
A imagem de Nyx que os escultores haviam decidido reproduzir era, de fato, adorável. A Deusa estava nua. Seus braços estavam erguidos, envolvendo a lua crescente com as mãos. Seus olhos de mármore olhavam ao longe. Ele parecia bela, impetuosa, grandiosa e poderosa. Kalona daria qualquer coisa para que ela simplesmente o tocasse de novo.
— Por quê? — ele perguntou para a estátua. — Por que você aceitou o meu Juramento e permitiu que eu trilhasse o seu caminho de novo se isso me custou o domínio sobre as Trevas? Agora eu tive que permitir que Neferet me derrotasse. Eu tive que deixar para trás uma velha presa e torturada. Eu fracassei! Por que me aceitar de volta, para deixar que eu fracasse?
— Liberdade de escolha — a voz de Thanatos trazia o poder da autoridade. — Você sabe melhor do que eu o que isso significa.
— Sim — Kalona continuou a olhar para a estátua enquanto falava. — Isso significa que Nyx não nos detém quando cometemos erros, mesmo que isso custe caro para nós e para aqueles à nossa volta.
— Por ser imortal pode ser que você não tenha percebido isto, mas a vida é uma lição — ela afirmou.
— Então eu vou estar para sempre em uma sala de aula — Kalona respondeu amargamente.
— Ou você pode olhar para isso como uma chance eterna de evoluir — Thanatos argumentou.
— Evoluir em que sentido? — ele se levantou e encarou a sua Alta Sacerdotisa. — Você não me escutou? Eu fracassei. Sylvia Redbird continua aprisionada pelas Trevas que Neferet domina.
— Primeiro você me perguntou em que sentido poderia evoluir. A minha resposta é: escolha. Definitivamente, você é um guerreiro. Mas que tipo de guerreiro é uma escolha sua. Dragon Lankford era um guerreiro. Ele quase escolheu se tornar amargo e duro, quebrar um Juramento e ser um traidor. Tudo porque o amor dele estava fora do seu alcance. Você pode fazer o mesmo.
— Você sabe — Kalona disse.
— Que você ama Nyx? Sim, eu sei — Thanatos falou. — Eu também sei que ela está fora do seu alcance, quer você admita ou não.
Kalona mordeu os lábios. Ele queria gritar o seu êxtase, contar a Thanatos que ele achava que a Deusa o havia tocado, que talvez ela não estivesse fora de seu alcance. Mas ele se lembrou de como a porta do templo da Deusa tinha se solidificado sob a sua mão, bloqueando a sua entrada. A certeza dele se esvaneceu.
— Eu admito — ele afirmou de modo lacônico.
— Ótimo. Em relação à sua segunda pergunta: sim, eu o escutei. Você não conseguiu resgatar Sylvia Redbird porque não comanda mais as Trevas.
— Sim.
Thanatos voltou o seu olhar para as marcas de cortes que cobriam o corpo dele. Elas estavam se curando, mas ainda sangravam.
— Você combateu as Trevas.
— Sim.
— Então você não fracassou. Você cumpriu o seu Juramento.
— E ao cumpri-lo, eu não consegui fazer o que me foi pedido — ele disse. — É um paradoxo desconcertante.
— De fato, é — Thanatos concordou.
— E agora? Não podemos permitir que Neferet torture aquela velha mulher. Ela planeja controlar Zoey através de sua avó. Zoey seria uma aliada poderosa para as Trevas, mesmo se ela for usada contra a sua vontade.
Thanatos balançou a cabeça com tristeza.
— Guerreiro, tudo o que você disse é verdade, mas você deixou de lado o ponto principal.
— Qual é o ponto principal?
— Não podemos permitir que Neferet torture uma velha mulher porque isso é desumano. Se você compreendesse isso, Nyx não seria tão inalcançável.
— Eu compreendo! — alguém mais disse.
Kalona e Thanatos se viraram ao mesmo tempo para olhar para Aurox. Ele estava sentado nos degraus de pedra do Templo de Nyx, em silêncio e observando a cena sem ser notado por nenhum dos dois.
— Por que ele não está sendo vigiado? Ou pelo menos preso em uma sala? — Kalona perguntou.
— Eu não preciso de ninguém me vigiando nem de uma prisão assim como você! Eu escolhi vir até aqui... e me afastar das Trevas... do mesmo modo que você! — Aurox gritou para Kalona. — E se eu tivesse ido até a casa de Vovó Redbird mais cedo, ou não tivesse saído de lá, eu não teria deixado que Neferet a levasse! Eu teria lutado mais por ela!
Kalona deu passos firmes em direção a ele, agarrou-o pelo cangote da sua blusa e atirou-o no chão aos pés da estátua.
— Você não conseguiu nem impedir a si mesmo de matar Dragon. Você atacou Rephaim. Você não pode combater as Trevas, sua criatura tola. Não importam as suas palavras de bravura e os seus propósitos tão nobres, você foi feito com Trevas!
— E apesar disso ninguém precisa me dizer que a vida de uma velha mulher é importante, não apenas porque a sua neta pode ser usada! — Aurox contra-atacou.
Kalona estendeu o braço para pegá-lo e sacudi-lo pelo cangote novamente, mas Thanatos interveio.
— Não, o garoto está sendo sincero. Ele realmente se importa com Sylvia.
— Ele também é uma criação das Trevas!
Thanatos arregalou os olhos.
— Sim, com certeza ele é. E isso, guerreiro, pode muito bem vir a ser a salvação de Sylvia Redbird — a Alta Sacerdotisa começou a se afastar rapidamente, deixando Kalona e Aurox olhando para ela. — Bem, o que vocês estão esperando? Venham comigo! — ela chamou sem fazer nenhuma pausa.
Kalona e Aurox trocaram um olhar confuso e então fizeram o que a sua Alta Sacerdotisa havia ordenado.


Zoey

Eu não conseguia dormir. Eu não parava de pensar em Vovó. Tentei não ficar imaginando tudo o que Neferet podia estar fazendo com ela, mas na minha mente volta e meia eu via Vovó sendo ferida – ou coisa pior.
Neferet podia ter matado Vovó.
— Pare de pensar nisso! — Stark havia me dito com firmeza quando nós ficamos abraçados de conchinha na cama. — Você não sabe o que aconteceu e se ficar pensando nisso vai ficar louca!
— Eu sei. Eu sei. Mas não consigo evitar. Stark, eu não posso perdê-la. Vovó não! — afundei meu rosto no peito dele e o abracei forte.
Ele tentou me tranquilizar, e por um tempo eu encontrei conforto no seu toque. Eu me concentrei no seu amor e na sua força. Ele era o meu Guardião, o meu guerreiro e o meu namorado. Ele era o meu chão.
Então o sol nasceu e ele pegou no sono, deixando-me sozinha com os meus pensamentos. Nem a máquina de ronronar de Nala conseguiu fazer a minha mente desligar. Sério, tudo o que eu queria era me encolher num canto e chorar no pelo macio e laranja da minha gata.
Mas isso não iria trazer Vovó de volta.
Eu sabia que a minha ansiedade iria acabar acordando Stark, e enquanto o sol estava alto isso não era nada bom, então beijei o focinho de Nala e saí do quarto de fininho.
Meus pés me levaram automaticamente até a cozinha, onde apanhei uma lata de Coca e um saco de Doritos sabor queijo nacho. Sentei na mesa por um tempo, querendo que alguém acordasse e conversasse comigo. Mas ninguém apareceu. Não os censurei por isso. A gente tinha acordado cedo no dia anterior, e todo mundo estava estressado. Eles precisavam dormir. Que inferno, eu também precisava dormir.
Em vez disso, fiquei olhando para o meu telefone, bebi refrigerante e comi um saco de salgadinho. E também chorei.
Se Neferet estava com Vovó, a culpa era minha. Era eu quem tinha sido Marcada e quem havia feito com que uma bomba explodisse na minha família humana.
— Eu não devia ter mantido contato com ninguém — dei um pequeno soluço. — Se eu tivesse me afastado da minha família, Neferet não saberia nada sobre minha mãe nem sobre minha avó. Elas estariam seguras... vivas...
Limpei os restos de Doritos que estavam na minha calça jeans e usei um papel toalha para assoar o nariz.
— Eu trouxe toda essa coisa de vampiros para a minha família — coloquei o rosto no papel toalha e chorei feito uma criancinha de dois anos. — É assim que eu me sinto: uma maldita criancinha. Impotente! Idiota! Inútil! — chorei de soluçar. — Nyx! Onde você está? Por favor, ajude-me. Eu preciso tanto de você!
Então cresça, filha. Seja uma mulher, uma Alta Sacerdotisa, e não uma criança. A voz dela preencheu a minha mente. Levantei a cabeça, piscando com força e limpando o muco do meu rosto. As paredes de terra do túnel estavam incandescentes. Bem na minha frente, uma imagem começou a emergir. Como se eu estivesse olhando para uma piscina de água negra, algo começou a se formar e a se erguer das cavidades da parede. Era a figura de uma mulher! Em circunstâncias normais, eu a descreveria como gorda. Ela estava nua e tinha peitos enormes, quadris largos e macios e coxas grossas. O seu cabelo flutuava ao seu redor, tão espesso e escuro quanto o seu corpo. Ela era absolutamente linda – cada quilo e cada curva dela, o que me fez repensar totalmente o meu conceito de “gorda”.
Ela abriu os olhos, e eu vi que eles eram cristais de ametista, gentis, afetuosos e cor de violeta.
— Nyx!
Sim, u-we-tsi-a-ge-ya, esse é um dos meus nomes. Mas os seus ancestrais me chamariam de Mãe Terra.
— Você também é a Deusa de minha avó!
Ela sorriu e foi difícil continuar olhando diretamente na sua direção, pois ela era tão incrivelmente adorável!
Eu realmente conheço Sylvia Redbird.
— Você pode ajudá-la? Acho que neste momento ela está correndo um sério perigo! — juntei as mãos em prece.
A sua avó me conhece bem. Ela pode se esconder no poder da minha terra, assim como muitos dos meus filhos podem, se eles escolhem trilhar o meu caminho.
— Obrigada! Obrigada! Você vai me contar onde ela está e depois vai me ajudar a salvá-la?
Você tem recursos para isso, Zoey Redbird.
— Eu não entendo! Por favor, pelo bem de Vovó, ajude-me! — implorei para a Deusa.
Ela sorriu de novo, e desta vez me cegou ainda mais.
Mas eu já expliquei quando você suplicou pela primeira vez. Se você quer salvar a sua avó e, no final das contas, o seu povo, você vai ter que crescer. Ser uma mulher, uma Alta Sacerdotisa, e não uma criança.
— Eu quero ser, apenas não sei como. Você poderia me ensinar, por favor? — mordi o lábio para evitar chorar de novo.
Como ser a mulher que você está destinada a ser é algo que ninguém pode lhe ensinar. Você precisa encontrar o caminho por si mesma. Mas saiba de uma coisa: uma criança senta, chora e se esvai em depressão e pena de si mesma. Uma Alta Sacerdotisa age. Qual caminho você vai escolher, Zoey Redbird?
— O caminho certo! Eu quero escolher o caminho certo. Mas eu preciso da sua ajuda!
Como sempre, você tem. Nunca tomo de volta nada que eu concedo. Abençoada seja, minha preciosa u-we-tsi-a-ge-ya...
E a Deusa afundou na parede do túnel, desaparecendo em uma poeira que brilhava como os cristais de ametista que haviam sido os seus olhos.
Fiquei sentada ali, olhando para a parede e pensando no que a Deusa tinha dito. Percebi que o que eu sentia era principalmente vergonha. Basicamente, a Grande Mãe Terra havia acabado de me falar para parar de choramingar. Enxuguei meu rosto de novo. Suguei o último gole de refrigerante. Então tomei minha decisão. Em voz alta.
— Hora de crescer. Hora de parar de chorar. Hora de fazer alguma coisa. E isso significa que, se eu não estou dormindo, a minha horda de nerds também não está, com sol ou não.
Voltei pelo mesmo caminho no túnel, teclando números de telefone enquanto eu andava.
— O que está acontecendo, Z.? — Stevie Rae atendeu no terceiro toque e soou meio grogue.
— Vista-se, pegue uma vela verde e me encontre no porão — eu disse e desliguei.
Aphrodite era a próxima.
— Alguém deveria estar morto — foi o seu modo de dizer “alô”.
— Eu vou cuidar para que esse alguém não seja a Vovó. Acorde Darius. Encontrem-me no porão.
— Por favor, diga-me que eu posso ligar para Shaunee e para a Rainha Damien e acordá-los também — ela pediu.
— Com certeza. Diga para eles trazerem as suas velas do círculo. Ah, e avise Shaunee para ela trazer a vela azul de Erin. Você vai representar a água.
— Tenho uma ideia melhor, mas isso não é nenhuma novidade. Enfim, daqui a pouco a gente se vê.
Nessa hora eu já tinha chegado ao meu quarto. Eu não hesitei. Grandes Sacerdotisas não são bebês hesitantes. Elas agem. Então, eu agi.
— Stark, acorde — sacudi o ombro dele.
Ele piscou com um ar sonolento, olhando para mim com o cabelo bagunçado e fofo.
— O que há de errado? Você está bem?
— O que há de errado é que nós não vamos dormir até termos um plano para salvar Vovó.
Ele se sentou, desalojando Nala do seu quadril e fazendo com que ela resmungasse aqueles barulhos de gata velha e mal-humorada.
— Mas Kalona foi resgatar Vovó.
— Você confiaria em Kalona para cuidar de Nala?
Stark esfregou os olhos.
— Não, provavelmente não. Por que você quer que Kalona cuide de Nala?
— Eu não quero. Só estou mostrando como eu tenho razão: não quero que seja nele que eu tenha que confiar para salvar a minha avó.
— Ok, e agora?
— Agora a gente vai fazer um círculo — fui até a mesinha ao lado da nossa cama e peguei um isqueiro e a vela grossa roxa que ficava ali, com aquele cheirinho de lavanda e da minha infância.
Respirei fundo. Então falei para Stark:
— Encontre-me no porão.
Andei rapidamente. Eu não queria esperar ninguém, nem Stark. Eu precisava de algum tempo comigo mesma para me concentrar no espírito, para extrair força do elemento do qual eu era mais próxima. Eu tinha que ser corajosa, forte e inteligente, e na verdade eu não era todas essas coisas – ou pelo menos não ao mesmo tempo.
Lembrei que uma vez eu havia perguntado para Vovó como ela conseguia ser tão inteligente. Nessa ocasião, ela riu e me contou que se cercava de pessoas inteligentes, e que nunca tinha deixado de estar disposta a escutar e a aprender.
— Ok — falei enquanto subia a escada de metal que ligava os túneis abaixo da estação à entrada do porão. — Eu tenho amigos inteligentes. Eu sei escutar. E, pelo menos na teoria, posso aprender. É isso o que eu vou fazer.
Andei até o que parecia o centro do porão e então me sentei de pernas cruzadas, colocando a vela no chão de cimento frio. Segurando o isqueiro, fechei os olhos e inspirei profundamente três vezes para me centrar. Com os olhos ainda fechados, eu disse:
— Espírito, você é o meu coração. Você me preenche e me dá força. Eu peço, por favor, venha para mim, espírito! — então abri os olhos e acendi a vela roxa.
A chama ficou prateada. Senti o elemento me invadir e de repente todo o turbilhão de confusão que havia tomado conta da minha mente e da minha alma desde que Aurox disse que Vovó havia desaparecido se dissipou. Eu me senti fortalecida pelo espírito enquanto ele passava rapidamente por mim e ao meu redor, enquanto a chama prateada da vela roxa dançava aparentemente como uma resposta vívida. Eu assenti.
— Ok, agora eu vou começar a agir. Primeiro passo: descobrir que diabo está acontecendo — peguei o telefone no meu bolso e liguei para Thanatos.
Seria inteligente da minha parte esperar embaixo da terra até o sol se pôr para ter a ajuda dos meus vampiros vermelhos, mas isso não significava que eu tinha que ir para a cama sem reclamar como uma criança que vai correndo para casa antes do toque de recolher.
O telefone dela estava chamando quando Kalona empurrou o portão enferrujado e Thanatos entrou a passos largos no porão, seguida pelo guerreiro alado e por Aurox.
Apertei o botão para finalizar a ligação e me levantei. Eu estava abrindo a boca para perguntar a Thanatos que diabo ela estava fazendo ali e por que havia trazido Aurox quando a minha mente alcançou a minha visão. Kalona estava coberto de cortes rosados e manchas de sangue. Parecia que alguém havia batido nele com um chicote afiado.
— E Vovó? Onde ela está?
Kalona parou na minha frente. Os olhos âmbar dele encontraram os meus. Enquanto ele ficava parado ali, vários cortes rosados se abriram e começaram a sangrar. O corpo dele é vulnerável aqui embaixo da terra, eu me lembrei. É mais difícil para ele se curar aqui. Mas eu não reconheci que ele havia entrado na terra de boa vontade, apesar de ser óbvio que ele estava ferido. Ele era um guerreiro. A sua função sob Juramento era proteger.
— Onde ela está? — repeti.
— Na cobertura de Neferet. A Tsi Sgili a aprisionou usando as gavinhas de Trevas — ele contou.
— Por que você não a tirou de lá? — tive vontade de levantar meus punhos e bater no peito dele, abrindo mais as suas feridas e fazendo com que ele sofresse tanto quanto eu estava sofrendo; tanto quanto Vovó estava sofrendo. Mas eu não fiz isso. Apenas o feri com o meu olhar e com minhas palavras. — Você disse que, se Neferet estivesse com ela, você a resgataria. E que as Trevas eram suas melhores amigas havia séculos! Por que você não conseguiu resgatá-la?
— As subalternas das Trevas não obedecem mais a Kalona. Ele escolheu sinceramente voltar a trilhar o caminho de Nyx, portanto ele não é mais aliado do mal — Thanatos explicou.
— Ah, que merda incrível. Isso é que é habilidade de timing, Kalona — Aphrodite comentou.
Ela, Darius e Stark haviam subido a escada e estavam sendo seguidos por Shaunee, Damien e, fiquei surpresa ao ver, Shaylin.
— Então por que você fugiu? Por que diabos você não lutou com as gavinhas, derrotou-as e pegou Vovó Redbird? — Stark perguntou. — Supostamente, proteger Nyx contra as Trevas era o seu emprego de tempo integral antes de você ferrar com tudo. Você esqueceu como fazer isso?
Kalona andou em volta de Stark.
— Parece que eu fugi de uma batalha?
Stark não hesitou.
— Sim, você está aqui. Vovó não está. Você fugiu!
Kalona rosnou e deu um passo na direção de Stark. Darius tirou uma faca da sua manga e Stark pegou o seu arco onipresente.
Totalmente irritada, eu entrei no meio deles.
— Isso não está ajudando em nada, Kalona! Conte-me por que Vovó ainda está com Neferet — eu falei.
— Eu poderia ter lutado com aquelas marionetes de Trevas por dias. No fim eu acabaria ganhando delas. Não iria me custar quase nada, exceto sangue e dor. Mas o comando não era para que elas lutassem comigo. Elas receberam a ordem de se alimentar do meu sangue para se fortalecer, de modo que elas pudessem romper o poder da terra com o qual Sylvia Redbird se protegeu.
— Vá em frente. Conte-me tudo — eu soei forte, mas tive que colocar minha mão na boca para evitar chorar. Eu não vou chorar!
— Turquesa e prata: o poder da terra. Isso a protege, mas, com o meu sangue alimentando as gavinhas, elas estavam conseguindo começar a atravessar essa barreira. Se eu tivesse ficado e continuasse a lutar com elas, eu venceria, mas Sylvia Redbird teria morrido.
— Nós precisamos de uma criatura feita de Trevas para romper a jaula de Trevas que aprisiona a sua avó — Thanatos afirmou.
— A criatura sou eu — Aurox deu um passo à frente.
— Ah, que merda! Nós estamos totalmente fodidos! — Aphrodite exclamou.
Infelizmente, eu tive que concordar com ela.

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