11 de outubro de 2015

Capítulo 18 - Shaunee

Shaunee estava tão cansada que até seu cabelo parecia pesado demais. Ela estava feliz que Vovó Redbird e as outras mulheres estivessem lá com ela e Thanatos. Realmente feliz. Ela poderia ter sido capaz de vigiar a Grande Sacerdotisa e manter seu elemento focado por algum tempo, mas absolutamente não poderia montar uma barraca, alimentar e nutrir a todos e transformar o pequeno parque em um santuário. Vovó Redbird e as outras mulheres tinham feito tudo isso, e continuavam a fazê-lo. Tudo o que Shaune foi capaz de fazer era vagar a poucos metros ao lado de Thanatos até a fogueira que Vovó Redbird fizera para ela, colar sua bunda no chão e olhar para as chamas dançando, tentando chamar um pouco de força a partir delas para se manter.
— Uggh — ela gemeu.
A pressão do poder a acertou novamente e ela se agachou, abraçando-se ao redor da cintura.
— Ei, você está bem?
Não era possível falar ainda, e Shaunee assentiu. Sem olhar para Erik, ela se concentrou na fogueira, no seu calor, beleza e familiaridade, em canalizá-la e incentivá-la a arder mais e mais. Quando seu elemento rugiu através dela, ela agarrou um pouquinho de sua força para não desmaiar.
Ela aprendeu esse truque há algumas horas, depois de desmaiar mais uma vez. Shaunee puxou lentamente o ar para dentro e, em seguida, expulsou para fora, para dentro e para fora, dentro e fora, seguidamente... Até que seu elemento dissipou e ela foi capaz de sentar-se ereta novamente.
Erik estava ao seu lado, parecendo desamparado e assustado.
— Você vai desmaiar? Devo chamar Vovó Redbird?
— Não — sua voz soava como uma lixa, e ela limpou a garganta. — E não, mas eu gostaria de algo para comer e beber.
— Oh, desculpe. Aqui — ele pegou o prato e o copo que tinha colocado no chão ao lado deles. — Eu estava trazendo isso para você.
Shaunee pegou o prato, sorrindo cansada.
— Acho que estou ficando viciada nos biscoitos de chocolate e lavanda da Vovó. Sério, eu os amo tanto que sinto que estamos em um relacionamento — ela deu uma grande mordida no suave e doce biscoito e tomou um gole gigante no copo. — Biscoitos e chá doce. Será que dá pra ficar mais Okie que isso?
Erik sorriu, obviamente aliviado que ela não estivesse mais se contorcendo de dor ou inconsciente.
— Acho que a única maneira de você poder ficar mais Okie é comer biscoitos e beber Dr. Pepper.
Shaunee fez uma careta.
— Isso não é Okie. É caipira. Eu não sou uma nativa, mas tenho certeza desses limites.
— Então você está se sentindo melhor — disse Erik.
Shaunee deu outra mordida no biscoito e falou.
— Melhor do que quando eu estava curvada? Sim. Melhor, melhor? Não.
— Por que você se curvou daquele jeito, afinal?
— Alguém de má intenção tentou entrar ou sair de Tulsa, e a barreira de proteção se inflamou diante dele. Quando ela faz isso, o fogo passa por mim e eu me concentro para intensificá-lo — explicou.
— Isso dói?
— Sim, como se você tentasse acrescentar mais uma série de treinamento que já acabou com você de tanto esforço. Só que estou fazendo tantas vezes que sinto que não estou mais recebendo uma pausa entre os circuitos.
Erik não falou nada por um tempo. Ele apenas mordiscou seu próprio biscoito e olhou para o fogo. Shaunee estava bem com isso. Silêncio e olhar fixo no fogo eram bons pra ela.
— Você é forte — ele finalmente disse. — Muito mais forte do que eu percebi antes.
— Antes?
— Quando você e Erin, bem, você sabe — ele terminou sem jeito.
— Quando éramos gêmeas — disse ela.
Ele assentiu com a cabeça.
— Sim, mas foi estúpido da minha parte para trazer isso a tona. A última coisa que você precisa é se sentir triste agora. Desculpe, às vezes sou um idiota e eu nem quero ser.
Shaunee sentiu-se sorrindo para ele.
— Ei, isso é um talento, ser um idiota sem querer ser.
Ele deu um sorriso hesitante de volta para ela.
— Um talento de baixa qualidade.
— É verdade, mas ainda assim, nem todo mundo tem um talento, mesmo de baixa qualidade. Além disso, você pode atuar. Atuar de verdade. Então essa coisa de idiotice acidental provavelmente vem a calhar quando você for para Hollywood.
— Não acho que eu vá para Hollywood — ele comentou.
Shaunee viu a expressão chocada que se fixou no rosto dele em linhas congeladas no instante em que ele falou aquelas palavras.
— É a primeira vez que você diz isso em voz alta? — ela perguntou-lhe suavemente.
— Essa é a primeira vez que eu sequer penso isso — ele respondeu. Seu rosto tinha descongelado, mas agora ele estava pálido e inseguro de si mesmo. — Eu não sei por que eu disse isso, de qualquer forma.
Shaunee bebeu o resto do chá doce e, em seguida, perguntou:
— Bem, por que você quer ir para Hollywood, para começar?
— Para ser uma estrela — ele respondeu rápida e automaticamente.
— Por quê?
— Porque eu quero ser famoso.
— Por quê? —  ela perguntou novamente.
Desta vez, ele levou mais tempo para responder.
— Para que as pessoas pensem que eu sou importante.
— Por que você se importa com o que as pessoas pensam?
Ele voltou seu olhar para o fogo.
— Porque estou cansado de pessoas que pensam que eu não sou nada além de um grande sorriso e estrutura óssea incrível.
Shaunee estudou seu perfil. Ela sequer já olhou além da famosa gostosura de Erik? Não. Ele sempre foi o cara mais quente no campus, e tudo o que ela realmente sabia sobre ele era que muitas meninas o queriam, e as meninas mais populares no campus o tiveram. Ela realmente não sabia nada sobre o cara por trás do famoso Erik Night.
— Se você pudesse mudar o que as pessoas pensam, o que iria querer que elas pensassem de você?
Ele desviou o olhar do fogo e olhou para ela, e ela percebeu que naqueles lindos olhos azuis ela podia ver honestidade e vulnerabilidade.
— Quero que elas pensem que eu sou forte como Aurox, ou valente como Darius, ou fiel como Stark. Em vez disso, todo mundo acha que sou um garoto bonito, vaidoso e inútil.
A honestidade crua do que Erik tinha dito a chocou e a fez ficar em silêncio. Shaunee estava tentando descobrir o que dizer para ele em seguida quando seu corpo estremeceu e a chama brilhou através dela, usando-a como um supercondutor em sua maneira de reforçar o feitiço de Thanatos.
— Argh.
Ela gemeu, segurando-se firmemente de novo e focando... Focando... Tentando fortalecer seu elemento enquanto ele rugia através dela.
Mas ela estava tão cansada! Isso vinha acontecendo por horas e horas. Por que tantas pessoas estavam preenchidas com má intenção? Elas estavam drenando-a! E, provavelmente, matando Thanatos. De jeito nenhum ela poderia continuar com isso. De jeito nenhum ela poderia...
Um braço forte envolveu seus ombros e a voz profunda e bela de Erik falou suavemente para ela.
— Respire. Está tudo bem. Você pode fazer isso. Já fez isso. Lembre-se, o fogo é o seu elemento. É parte de você. Não lute contra ele, siga junto. Você consegue. Você é forte e inteligente. É por isso que o fogo a escolheu. Você consegue. Eu estou bem aqui, e acredito em você, Shaunee. Sei que você pode fazer isso.
Sua voz era uma tábua a que se agarrar, e Shaunee segurou-a, seguindo de volta para si mesma, de volta para a fogueira familiar.
— Aqui, beba o meu chá — ele empurrou o copo em suas mãos e ela o esvaziou. — Vou pegar mais alguns biscoitos você.
Ele começou a se levantar, puxando o braço que estava ao redor de seus ombros.
— Não, ainda não — ela pediu, ainda ofegante. — Você pode ficar aqui, assim, por alguns segundos?
Erik sorriu para ela. Não seu oh-tão-perfeito sorriso de milhões de watts de estrela de cinema. Ele sorriu de verdade para ela, e dentro de sua vulnerabilidade, Shaunee viu bondade e verdadeira compaixão.
— Ficarei assim pelo tempo que quiser — disse ele, apertando o braço ao redor dela.
— Shaunee, pensei que você poderia gostar de outro sanduíche e mais um pouco de chá — disse Vovó Redbird. Seu sorriso cresceu quando seu olhar parou em Erik sentado ali com o braço ao redor dela. — Bem, vou pegar um sanduíche para você também, Erik.
— Obrigado, Vovó Redbird — ele agradeceu.
— Isso seria incrível, muito obrigada — Shaunee concordou.
— Não tem de quê — Vovó Redbird respondeu, e pouco antes de ela se virar, acrescentou: — Muito bom, Erik Night. Estou orgulhosa de você, filho.
Shaunee olhou para Erik e viu que ele estava corando, mas quando seus olhos se encontraram, seu olhar não vacilou.
— Estou começando a pensar que estou orgulhoso de mim mesmo também — ele observou, e apertou seus ombros novamente.
Shaunee inclinou-se contra ele, pegando força e conforto dele, pensando: Agora sei o que eles querem dizer quando falam “quando você não estiver buscando por ele, ele vai te encontrar”.


Lynette
— Você tem sido muito útil, Sra. Witherspoon — disse o detetive Marx, fechando seu caderninho e colocando a caneta de volta no bolso do paletó. — Peço desculpas se minhas perguntas a estão cansando. A senhora já passou por uma provação terrível.
— Não há nada para se desculpar, detetive — Lynette assegurou-lhe, embora sentisse como se houvesse areia sob suas pálpebras, e ela tinha certeza de que a injeção que a vampira curandeira aplicara em sua intravenosa era um belo coquetel antiestressante e sonífero. — Quero fazer tudo o que eu puder para ajudá-lo a deter Neferet — Lynette parou e tentou ordenar seus pensamentos. A maldita droga deixou suas palavras distorcidas e sua mente girando em nevoeiro. — Detetive, posso fazer algumas perguntas agora?
— Sinta-se à vontade.
— Eu vou, porém, por favor, me perdoe se algumas das minhas palavras soarem misturadas — ela apontou para a bolsa intravenosa. — Definitivamente não é sangue que eles estão me dando.
O detetive riu alto.
— Só uma coisinha para que você descanse facilmente. A enfermeira disse que seu sistema passou por um choque terrível. Você precisa dormir para se recuperar.
— Sim, essa é a minha primeira pergunta. Por que estou aqui, em uma enfermaria vampira, ao invés de no Hospital St. John, que fica na mesma rua?
— Bem, Kalona a trouxe direto para cá depois de tê-la salvado. Não acredito que um hospital para seres humanos esteja no radar do imortal.
— Ele não me resgatou. A Grande Sacerdotisa que ergueu a parede de fogo que o fez.
— Suponho que você poderia dizer que Kalona estava no lugar certo na hora certa — o detetive concordou. — Prefere que eu chame uma ambulância do St. John que a leve para lá?
— Talvez de manhã. Foi a Grande Sacerdotisa que fez a parede de fogo, não foi?
— Foi o trabalho em equipe que criou o feitiço.
O detetive parecia determinado a fugir de sua pergunta, então Lynette foi mais incisiva.
— Será que a Grande Sacerdotisa e sua equipe mataram pessoas para fazer a magia?
Marx parecia genuinamente chocado.
— Claro que não! Senhora, eu estava lá quando Thanatos lançou o feitiço. Magia elementar foi usada, não vidas humanas. Neferet enlouqueceu. Ela mata sem remorso porque ela é uma sociopata, não porque é uma vampira.
— Neferet tentou chegar à House of Night? Ela tentou entrar em contato com qualquer um aqui, afinal?
— Não que eu ou qualquer um dos funcionários ou estudantes da escola na liderança saiba. Neferet não pode deixar o Mayo enquanto o feitiço vigorar e a sua intenção for a de causar dano.
— E se ela só quiser outra garrafa de seu vinho caro? Ou uma ou duas roupas novas da Miss Jackson? Ela pode sair para essas coisas, especialmente agora que eu fui embora. E sua intenção seria apenas para fazer compras — Lynette podia sentir a sua frequência cardíaca aumentar à medida que ela falava.
— Não importa qual seria o motivo de Neferet para deixar o Mayo, sua verdadeira intenção sempre será a de ver violência, o que o feitiço interpreta como má intenção. Ela jurou matar você e Kalona. Esse juramento por si só é suficiente para mantê-la presa.
— Ela não vai me matar. Vai ordenar que uma daquelas cobras negras entre em minha boca, envolva o meu cérebro e me possua!
Quando o corpo de Lynette começou a tremer de medo renovado, o detetive chamou pela porta:
— Ei, eu preciso de alguma ajuda aqui!
A vampira curandeira com tatuagens que pareciam formas geométricas correu para o quarto, franzindo a testa para o detetive quando verificou os sinais vitais de Lynette e fez alguns ajustes na bolsa intravenosa.
— Detetive, o senhor já questionou minha paciente o suficiente. É hora de deixá-la — a curandeira disse-lhe com firmeza.
— Sem problemas. Posso ver que a Sra. Witherspoon precisa descansar. Se tiver mais alguma dúvida, ou lembrar-se dos os detalhes que esqueceu, aqui está o meu cartão — ele o colocou em sua mesa de cabeceira. — Apenas me ligue.
— A Sra. Witherspoon estará descansando. Não fazendo ligações — disse a vampira.
— Certo. Bem, então boa noite, Sra. Witherspoon.
Depois que o detetive saiu, a curandeira lhe ofereceu um copo de água gelada, segurando-o por Lynette enquanto ela bebia com gratidão através de um canudo.
— Você está segura aqui, Lynette — a curandeira falou calmamente. — Está entre amigos e aliados. Nosso campus está transbordando com os seres humanos que vieram para a House of Night, de modo que eles estão fora do alcance de Neferet. Não tenha medo. Descanse e se recupere. Nós cuidaremos de você.
A boca de Lynette não conseguia formar uma palavra para agradecê-la, então ela apenas balançou a cabeça e tentou sorrir. A vampira parecia ter entendido, porque lhe acariciou a mão suavemente e, antes de sair, apagou todas as luzes, exceto um das luminárias que iluminavam suavemente o quarto. Finalmente sozinha, Lynette recostou-se contra seu monte de travesseiros e se permitiu fechar os olhos e relaxar nas drogas.
— Ah, inferno! Ela está dormindo.
Lynette manteve os olhos fechados, cuidando para não se mover ou alterar a sua respiração.
Ela disse para os vampiros e para o detetive tudo o que sabia e teve absolutamente questionamento o bastante por um dia. Esta nova voz teria que esperar.
— Eu lhe disse que deveria ter vindo direto para cá. Ela estava desvanecendo rapidamente na última vez que a vi.
Lynette reconheceu a segunda voz como a da filha novata do prefeito, Aphrodite. Embora parecesse a menina tinha de algum modo trocado seu status de novata para o de Profetisa.
— Zoey, Aphrodite, Stevie Rae, vocês não podem perturbar a humana — disse a voz inflexível da vampira curandeira. — Eu lhe mediquei para garantir que ela não seja incomodada pelo resto da noite.
Lynette podia ouvir o barulho suave dos sapatos de sola emborrachada da curandeira desaparecendo.
— Drogada e dormindo — Aphrodite falou depois de uma breve pausa. — Sortuda.
— Sortuda? De nenhuma maneira maldita eu chamaria essa mulher de sortuda — disse uma voz com um forte sotaque de Oklahoma. — Neferet vai caçá-la e esfolá-la viva.
— Nós não vamos deixar.
Lynette reconheceu o bufo sarcástico de Aphrodite.
— Então é melhor você começar a usar Magia Antiga e impedi-la, Z. Pelo o que você descreveu, Thanatos e Shaunee não serão capazes de manter esse feitiço por muito tempo. Mas você está certa, Caipira. Eu não deveria tê-la chamado de sortuda. Nós que temos sorte, por causa dela e de Kalona.
— O que você quer dizer?
— Simples. Os dois aborreceram Neferet o suficiente para que ela vá atrás deles em primeiro lugar. É algo bom ser rebaixado na lista de Quem-eu vou-matar-e-torturar-primeiro de Neferet.
— Tenho a sensação de que estamos sempre perto do topo da lista — disse a garota que deve ser Zoey.
— Sim, sem brincadeira — Aphrodite concordou. — Ok, eu fico aqui. E não vou voltar para os estábulos. Mencionei que ainda mais humanos se reuniram aqui enquanto vocês estavam fora tendo um tempo bom criando o feitiço?
— Sim, Aphrodite, você mencionou.
— Apenas cerca um zilhão de vezes. Jeesh, você é definitivamente a nossa especialista em lamentação.
— Vou encontrar Stark enquanto ele ainda está consciente. Eu não me importo se tiver que ficar de guarda com ele, e preciso de um tempo sozinha.
— Estou com você, Z. Eu preciso encontrar Rephaim antes do amanhecer.
— Por que você não se casa com ele e coloca um chip GPS na aliança? Assim pode localizá-lo. Seria como um reality show do National Geographic...
Insignificantes, as vozes das meninas desapareceram, deixando Lynette sozinha e paralisada pelo medo e pelas drogas.

7 comentários:

  1. "por que você não se casa com ele e coloca um chip GPS na aliança?"
    É por isso que eu amo a Afrodite !!!

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  2. Aonde a aliança ficaria durante o dia??? Ele não tem mão, ficaria na pata???

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  3. "— Aqui, beba o meu chá — ele empurrou o copo em suas mãos e ela o esvaziou. — Vou pegar mais alguns biscoitos você."

    Só eu que percebi o erro ai ou foi empreção:Vou pegar mais alguns BISCOITOS VOCÊ.

    Cade de o para ai no meio?

    Letícia.

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