10 de outubro de 2015

Capítulo 18 - Neferet

Os olhos de Neferet se moveram embaixo de suas pálpebras fechadas enquanto ela revivia o século vinte. Para um período em que ela tinha conseguido tanto poder e o princípio da sua imortalidade, tinha sido realmente um tédio terrível.
Duas coisas foram a exceção: os seus sonhos e a velha mulher. Os primeiros se mostraram mentiras, e a segunda se revelou incrivelmente mais do que a verdade. Era irônico que o seus sonhos fossem a parte de que ela mais gostou de revisitar.
Neferet tinha voltado para a House of Night de Tower Grove, onde a escola inteira estava ávida demais por demonstrar preocupação e compaixão com ela. As mortes precoces da sua primeira familiar, a pequena Chloe, e de seu guerreiro haviam sido muito próximas. Todos compreenderam quando Neferet se retirou da vida social e começou a passar uma quantidade de tempo incomum em meditação e oração.
Eles não tinham ideia de que Neferet na verdade passava o seu tempo de oração em um sonho profundo e entorpecido, ansiando pelo deus que aparecia para ela apenas quando ela estava inconsciente.
Kalona havia sido esperto. Apesar de ter uma beleza impressionante, ele aparecia nos sonhos dela como o Deus sem rosto, que pedia apenas que ela revelasse as suas fantasias e permitisse que ele a venerasse.
Não parecia sonho. Mais tarde – depois que era tarde demais – Neferet percebeu que não andava sonhando, mas sim que Kalona estava entrando no seu subconsciente e a manipulando. Porém, naquele momento, tudo o que Neferet sabia era que o toque imortal dele despertava seu desejo. Ela continuou a se abrir para ele e, enquanto o seu subconsciente escutava os sussurros dele, Neferet ficava mais forte.
Ela começou a questionar os modos modernos dos vampiros à sua volta. E, basicamente, a acreditar que o seu destino era libertar um deus de sua prisão injusta, para que ela e ele pudessem governar lado a lado, Nyx e Erebus sobre a Terra. Juntos eles iriam anunciar uma nova era, em que vampiros não iriam mais coexistir em uma paz desconfortável e patética com os humanos.
Em silêncio, Neferet começou a tomar providências que iriam mudar a forma das relações entre humanos e vampiros irrevogavelmente. Como o imortal havia dito para ela em seus sonhos: Por que os deuses que caminham sobre a Terra se curvam para aqueles que os deveriam venerar?
Neferet usou a perda do seu guerreiro como uma desculpa para viajar, para não ficar presa ao trabalho enfadonho de ser uma professora. Buscando, sempre buscando o que alimentava os seus sonhos, mas a iludia na vida, Neferet sorriu quando começaram a chamá-la de embaixadora de Nyx, cujas visitas abençoavam cada House of Night de um modo especial.
Neferet pensava em si mesma como uma embaixadora de poder.
Ela usou os seus dons psíquicos para saber o que cada Alta Sacerdotisa queria ou precisava: ser adulada ou desafiada, ameaçada ou elogiada, adorada ou ignorada. E então ela dava exatamente o que elas queriam: informação, um toque de cura, inspiração, excitação... a lista de necessidades e desejos das Grandes Sacerdotisas era interminável. Enquanto Neferet “servia”, ela adquiria reputação na comunidade dos vampiros. Ela se via como um camaleão fascinante e poderoso. Ela aprendeu a fazer com que as pessoas enxergassem nela a característica que cada uma mais respeitava, confiava e venerava em alguém.
E sempre, sempre, Neferet era atraída para o centro da nação – para Oklahoma, para a terra cor de sangue antigo, e para a jovem cidade, Tulsa, onde ela havia enterrado os registros de seu passado humano e para onde os sonhos, os sussurros e o toque de Kalona continuavam atraindo-a.
Busque a minha libertação... busque a minha libertação... Os sussurros dele preenchiam os seus sonhos e assombravam a sua vida.
Era o dia 22 de abril de 1927 quando o rico casal humano Waite e Geneviere Phillips fizeram um convite para as Grandes Sacerdotisas comparecerem ao grande baile de gala que eles estavam oferecendo para celebrar o término da construção da mansão que estava sendo chamada de Philbrook.
Neferet se certificou de que estava entre as Sacerdotisas que aceitaram o convite. Ela não tinha interesse por Philbrook, nem pelo casal humano filantrópico e liberal e seus amigos ricos da alta sociedade.
Mas a cidade interessava Neferet. Ela tinha cheiro de petróleo, álcool, dinheiro, sangue e poder – sempre o poder.
Foi o aroma do poder, como a essência dos seus sonhos, que naquela noite a fez sair da festa dos Phillips e começar a vagar pela cidade. Mansões do petróleo recentemente construídas pontuavam a paisagem. Neferet passou por elas sem ser vista. Ela mal olhou para dentro de suas janelas, nem reparou no brilho cintilante dos novos lustres elétricos de cristal. Em vez disso, ela foi atraída para longe das mansões resplandecentes e começou a seguir um pequeno e melódico córrego, que parecia estar sussurrando uma canção para ela.
A mansão apareceu de repente, como se tivesse se materializando especialmente para Neferet. Ela era enorme e ficava no meio de jardins caprichosamente bem cuidados, enfeitados por carvalhos. Neferet se lembrava de ter pensado como era estranho o fato de existir apenas um portão de ferro na entrada da rua, sem muros cercando a propriedade.
Então ela viu a placa e percebeu que, apesar de aparentemente ter sido construído como uma elegante casa de campo europeia, ou talvez até como um castelo, o enorme prédio de pedra era uma escola particular.
Neferet foi atraída para ela antes de ver a velha mulher. Quando ela entrou no campus, o seu interesse definitivamente despertou. Havia dois prédios principais, ambos construídos com uma pedra de textura única. O campus aparentava ser novo, tão novo que parecia escuro e desabilitado. Foi quando Neferet perambulava pelo campus inativo que a canção sussurrante que ela estava escutando a noite inteira se tornou realidade e se aglutinou aos seus sonhos.
Primeiro ela ouviu a sonora batida de tambor. Neferet seguiu o som até um lugar no extremo leste dos jardins do campus. Lá o aroma de sálvia e da erva-doce a guiaram até um enorme carvalho, grande o bastante inclusive para esconder a luz de uma fogueira. Ela reparou que vários pássaros enchiam os galhos da árvore. Corvos. Estranho, normalmente corvos não são vistos à noite, ela se lembrava de tê-los identificado e de ter pensado nisso.
Neferet deu a volta na árvore e viu a fogueira.
Então a batida do tambor preencheu a clareira, e toda a atenção de Neferet se concentrou na anciã. Ela estava ajoelhada perto do fogo com um grande tambor na sua frente, no qual batia com um bastão simples enrolado em couro, que ela segurava com sua mão direita. Na sua mão esquerda, ela tinha um machadinho. Depois de algumas batidas, ela cortou um pedaço de uma corda grossa e longa de ervas secas, que estava no chão ao seu lado. O fogo chiou quando consumiu as ervas, soltando uma fumaça com aroma doce.
O vestido da mulher, apesar de amarelado pelo tempo, tinha uma beleza inesperada. As delicadas contas bordadas se refletiam na luz do fogo, e a longa franja ondulava graciosamente a cada batida do tambor. O seu rosto era velho, e o seu cabelo preso em uma trança grossa era completamente branco, mas a sua voz era clara como a de uma garota. Ela começou a cantar, e Neferet foi arrebatada pelas suas palavras.

Ancestral adormecido, esperando para despertar...

Neferet se moveu silenciosamente na direção da velha mulher, enquanto a música pulsava através do seu corpo no mesmo compasso das batidas do seu coração.

Quando o poder da terra sangra em sagrado vermelho
A marca atinge a verdade; a Rainha Tsi Sgili irá tramar
Ele será levado de seu leito de morte

Neferet deu um passo e entrou na área iluminada pela luz do fogo. A anciã levantou os olhos embaçados, que deviam ser azuis, e parou de cantar.
— Não — Neferet insistiu. — Continue cantando. É uma canção adorável.
A expressão da mulher se endureceu, mas ela continuou:

Pelas mãos dos mortos ele se liberta
Beleza terrível, visão monstruosa
Eles haverão de ser regidos outra vez
As mulheres hão de se curvar à sua misteriosa força

Doce é a canção de Kalona
Enquanto assassinamos com um calor gelado

Kalona! O nome do deus penetrou em Neferet.
— Cante outra vez, velha — ela ordenou.
— Já terminei. Vou embora.
A anciã começou a se levantar, mas Neferet se moveu rapidamente para detê-la. Foi muito fácil pegar o machadinho daquela velha. Foi muito fácil pressioná-lo contra a garganta dela.
— Faça o que eu mando ou vou cortar o seu pescoço e deixar o seu corpo velho aqui para que os pássaros a devorem até os ossos.
A velha mulher fechou os olhos, deu um suspiro profundo e trêmulo e começou a cantar sem parar, até que Neferet teve certeza de que havia memorizado a canção. Só então ela permitiu que a mulher parasse. Só então ela passou a examinar a mente da anciã.
— Você se vê como uma Ghigua. O que é isso? — Neferet perguntou.
A idosa arregalou os olhos. Ela não respondeu, mas a sua mente de repente foi invadida por pânico e palavras estranhas: Ane li sgi, demon, Tsi Sgili, devoradora de almas, assassina de homens. Esse fluxo de palavras foi levado até Neferet em uma onda de medo e horror.
— Você está com muito medo de mim — Neferet sorriu e se sentou mais perto da velha, deixando o machadinho no pequeno espaço entre elas.
— Você escuta o que está na minha mente — a mulher disse.
— Eu consigo escutar mais do que isso — Neferet afirmou. — A sua canção... acho que eu entendo o que ela significa.
— Eu canto essa canção a cada lua nova como um alerta.
— Certamente, para alguns deve ser um alerta. Para mim, é uma promessa — Neferet investigou mais a fundo a mente da velha mulher. — Você não tem medo de mim porque eu sou uma vampira.
— Eu não tenho medo de vampiros.
— Mas ainda assim você tem medo de mim — Neferet falou. — E você canta sobre o meu amante. Deixe-me ver, como é mesmo a canção? A marca atinge a verdade; a Rainha Tsi Sgili irá tramar. Diga-me, velha, quem é o que é a Rainha Tsi Sgili?
É você, demônio! Tem prazer com a dor! Alimenta-se da morte!
A condenação ecoou da mente da anciã até Neferet, mas ela disse apenas:
— Eu já falei o bastante por uma noite. Agora não vou dizer mais nada — então ela pressionou os seus lábios finos e enrugados, teimosamente.
Neferet sorriu de modo insinuante para ela.
— Ah, mas eu não preciso que você fale com palavras. A sua mente está gritando alto o suficiente. Eu posso capturar tudo o que preciso sem que você diga uma única sílaba, velha.
Mas Neferet não teve tempo para violar a mente da mulher como ela pretendia. Com um grito de guerra estridente, a anciã pegou rapidamente o machadinho e deu um golpe em seu próprio pescoço, abrindo a artéria carótida.
— Não! — Neferet gritou, pressionando a mão contra a carne da idosa, tentando prolongar os seus últimos minutos de vida, enquanto examinava a mente dela, buscando respostas em pensamentos semiformados e em imagens que desvaneciam.
Na sua toca, o corpo de Neferet se contorceu e estremeceu em reação às duas lembranças. A velha mulher havia se sacrificado por nada. A sua mente moribunda ofereceu informação suficiente para que Neferet começasse duas coisas: a busca de um modo para libertar Kalona e a sua transformação de uma Alta Sacerdotisa insatisfeita em uma deusa imortal, a Rainha Tsi Sgili.


Zoey

Eu adorava a sexta aula. Não só porque Lenobia era a professora mais legal de todos os tempos, mas porque era uma aula em que eu montava um cavalo! Eu não conseguia imaginar como isso poderia ser mais perfeito. Hoje parecia que Lenobia sabia que a gente precisava se livrar do estresse. Quando a aula começou, nós entramos na arena e encontramos grandes barris pretos de aço dispostos na forma de um triângulo.
Lenobia veio galopando em Mujaji. A égua negra parou deslizando bem na nossa frente.
— Então, novatos, alguém sabe por que esses barris estão aqui?
Eu levantei a mão.
— Zoey?
— Para uma corrida de barris.
— Exato — ela disse. — Você já participou de uma corrida de barris antes, Zoey?
Eu sorri, um pouco nervosa.
— Bem, mais ou menos. O cavalo de minha avó, Mouse, era um corredor de prova de barris aposentado. Vovó costumava colocar barris para ele treinar. Mesmo quando já estava bem velho, ele se empertigava e corria ao redor dos barris como se fosse um potro novamente. Eu apenas ficava em cima dele e o deixava fazer todo o serviço, mas era divertido.
Lenobia sorriu.
— Essa é uma história adorável e uma lembrança especial, Zoey. Guarde-a com carinho.
— Vou guardar. Eu já guardo.
— E então, alguém mais tem experiência com corrida de barris?
Outros cinco garotos balançaram as cabeças e se mostraram desconfortáveis.
Lenobia franziu a sobrancelha e resmungou, mais para si mesma do que para nós:
— É tão desanimador estar no meio de Oklahoma cercada de jovens que não sabem nada de cavalos — então ela levantou a voz e continuou: — Não importa. Eu preparei um exemplo bem simples, grande e óbvio para vocês seguirem — ela fez um barulho com a boca para Mujaji, e a égua se moveu para o lado para que Travis, montado em sua égua Percherão, Bonnie, pudesse entrar trotando na arena.
Ele empinou a égua na frente de Lenobia e tocou na aba de seu chapéu para cumprimentá-la.
— Madame, você não acabou de chamar a minha égua de grande e simples, chamou?
Ela acariciou o focinho de Bonnie e deu beijinho nela antes de responder:
— Eu nunca chamaria essa criatura magnífica de grande e simples. Eu estava falando de você — os olhos dela faiscaram para o cowboy alto e bonitão.
— Bom, então tudo bem, madame — ele disse. — Fico feliz em saber que sou valorizado assim.
A risada de Lenobia pareceu a de uma garotinha, e eu pensei que nunca a tinha visto tão bonita.
— Vá, conduza Bonnie ao redor dos barris para que os garotos vejam — ela bateu de brincadeira na bota de Travis.
Sim, ela definitivamente estava apaixonada.
— Certo, minha garota, vamos mostrar a esses calouros que você não precisar ser um Quarto de Milha para fazer uma prova de barris — ele bateu com o seu chapéu no traseiro enorme dela. A égua Percherão praticamente decolou.
Lenobia explicava o que Bonnie estava fazendo, como ela estava seguindo um padrão de trevo, em um tempo exagerado. Mesmo assim, quando a égua gigante arremeteu pelo centro com Travis a incitando, e o chão da arena pareceu tremer, todos nós a saudamos e aplaudimos.
E isso foi só o começo da diversão. Por quase uma hora, fizemos sem parar a corrida de barris, um de cada vez, com o cavalo escolhido. Persephone era a “minha” égua. Eu adorava cada centímetro de sua bela pelagem ruão. E ela também corria bem! Persephone sabia fazer direitinho o padrão de trevo. Como diria Stevie Era, eu só precisava ficar feito um carrapato, grudada nela.
Por todo esse tempo – cerca de cinquenta e poucos minutos – eu esqueci de Neferet, Stark, Aurox, Transformação e magia antiga. Só durante esse pequeno período, eu era uma garota de novo, rindo, montando um cavalo e amando a vida.
Isso acabou rápido demais. Normalmente, tratar de Persephone me ajudava a aquietar a mente. Hoje teve o efeito contrário. Talvez porque eu não tivesse pensado em nada enquanto eu estava montando. Porém, quando eu comecei a pentear a sua crina com a almofaça, os meus problemas rugiram.
Pensar no que Neferet estava armando deveria ser o meu maior problema, seguido por tentar descobrir como a minha pedra da vidência e a magia antiga estavam funcionando – ou não funcionando – mas o que continuava girando sem parar na minha mente era a situação Heath/Aurox/Stark.
Afe, eu tinha lambido o sangue no dedo do garoto.
Que diabo eu ia fazer agora?
— Bom trabalho hoje, Zoey — a voz de Lenobia me assustou e Persephone levantou a cabeça por causa da minha reação.
— Eu entendo totalmente — ela se encostou na portinhola da baia. — Tratar Mujaji para mim é como tomar um comprimido para dormir. Ela me deixa tão relaxada que até já me aconcheguei na sua baia e dormi ali mesmo algumas vezes.
Eu suspirei.
— É, normalmente eu também me sinto assim quando cuido de Persephone.
— Mas hoje não?
Balancei a cabeça.
— Hoje não.
— Você quer conversar sobre isso?
Eu quase respondi automaticamente algo como “está tudo ok, eu estou bem”. Mas então eu lembrei que ela havia dito que esperou Travis por mais de duzentos anos. Ela devia entender de casos de amor complicados – além disso, Lenobia era mais do que apenas uma professora, ela era minha amiga. Então dei outra resposta:
— Sim, se você tiver tempo, eu realmente gostaria de conversar sobre isso.
Lenobia colocou um fardo de feno dentro da baia e se sentou nele.
— Eu tenho tempo.
Inspirei profundamente, sem saber por onde começar.
— Apenas escove a égua e comece a falar. O resto vai vir naturalmente — Lenobia disse.
Segurei a escova macia e comecei a passá-la em Persephone, seguindo o padrão de crescimentos do seu pelo lustroso. E comecei a falar.
— Sei que é normal, e até parece ser meio esperado que uma Alta Sacerdotisa escolha mais de um cara, mas eu simplesmente não entendo como elas fazem isso.
Lenobia riu.
— O que foi que eu disse?
— Ah, Zoey, desculpe. Eu não estou rindo de você. É só que eu me esqueci que como você é tão jovem e de como há tantas coisas sobre vampiros que você não entende muito bem.
— Tipo, como fazer para lidar com mais de um cara ao mesmo tempo — eu disse, concordando.
— Bem, talvez. Mas para mim parece que a primeira coisa que você deve entender é que não se espera que Grandes Sacerdotisas tenham mais de um amante ao mesmo tempo. Elas simplesmente têm a opção de escolher mais de um parceiro sem serem julgadas, como uma mulher humana seria na cultura de hoje — Lenobia cruzou as pernas e se encostou na parede da baia, como se estivesse se acomodando para uma longa conversa íntima. — Zoey, pense em como vai ser a sua vida quando você completar a Transformação.
— Se eu completar a Transformação — eu observei.
Lenobia sorriu.
— Eu tenho confiança em você, então vamos dizer quando você completar. Você sabe quantos anos eu tenho?
— Muitos — eu falei sem pensar. — Ahn, desculpe. Não é que você pareça velha nem nada disso.
— Não fiquei ofendida. Eu nasci no ano de 1772.
— Faz muito tempo! — eu exclamei.
O sorriso dela se ampliou.
— Se o destino for bom comigo, eu provavelmente vivi apenas metade da minha expectativa de vida. Desde 1722, eu só amei um único homem, mas isso foi uma escolha minha, um voto que fiz. A maioria das vampiras encontram diversos amores suas vidas. Às vezes, elas já estão envolvidas com um vampiro quando conhecem um novo amor humano. Às vezes, o contrário.
— Então, não é que se espere que elas tenham vários caras ao mesmo tempo — eu concluí.
— Exato. Trata-se mais de lógica e expectativa de vida. E escolha. Como fazemos parte de uma sociedade matriarcal, podemos escolher sem ser julgadas ou condenadas. Isso ajuda com seu problema?
— Bem, sim e não. Obrigada por me explicar essa história de múltiplos parceiros, mas ainda não sei o que fazer em relação à coisa Heath barra Aurox — eu respondi, sentindo-me péssima.
— Por que você tem que fazer algo?
— Porque eu já fiz uma coisa. E ignorar isso não é justo com Aurox ou com Stark — suspirei de novo. — Ou, eu imagino, com Heath.
— Então você tomou Aurox como amante, junto com Stark?
— Não! — eu gritei. Então eu espiei Lenobia por cima de Persephone. Ela estava olhando imperturbável para mim, serena e sem julgamentos. — Mas bebi um pouco do sangue dele — eu admiti.
— E como você não é igual a uma caloura normal do primeiro ano, isso é muito viciante e excitante para você. Certo?
— Sim, certo — eu reconheci.
— Stark sabe disso?
— Ah, Deusa, não! Ele iria surtar. Ele já está agindo feito um babaca possessivo sempre que Aurox está perto de mim.
— Mas ele sabe que você era companheira de Heath e que a alma de Heath está dentro de Aurox.
— É por isso que ele está agindo feito um babaca possessivo. Aparentemente, Stark não vai aceitar que eu fique com Heath, ahn, Aurox. E Stark pensa que nós mal falamos um com outro.
— Aurox te atrai.
Ela não formulou a frase como uma pergunta, mas eu respondi.
— Sim, atrai. Isso porque Heath está dentro dele. Não é uma coisa consciente. É estranho... e perturbador. Aurox é particularmente um garoto bonitinho, por quem eu não me sinto atraída nem nada, mas de repente... bang! ... eu pisco e ele fala algo tão igual a Heath que faz meu coração doer.
— Se você não estivesse ligado a Stark, você se interessaria por Aurox?
Mordi o lábio.
— Eu não tenho certeza. Eu amo Heath. Sempre vou amar Heath. Mas Aurox não é realmente o meu Heath.
— Você quer dizer que é como Kalona se sentia atraído por você, porque a alma da virgem A-ya está ai dentro, e Kalona reconhecia sua presença?
Essa comparação me surpreendeu, mas, quando mais eu pensava sobre ela, mais fazia sentido.
— Acho que você está certa. Uau, isso é verdade e vai deixar as coisas mais fáceis para mim. Kalona realmente me queria por causa de A-ya, e eu tenho de admitir que sentia uma atração profunda por ele. Mas não era real. Mas eu não sou A-ya, e eu escolhi não amá-lo. Aurox não é Heath. Ele não precisa escolher me amar... os resquícios de Heath me amam, só isso.
— Eu vou ter que complicar as coisas para você, mas para ser justa, você precisa saber que Aurox pode amar você também. Travis é a reencarnação do meu único companheiro, Martin. Ele não tem as memórias de Martin. Na verdade, ele é muito diferente do meu Martin, mas mesmo assim ele é tão eternamente devotado a mim quanto eu sou a ele — Lenobia sorriu com ternura, e seus olhos se encheram de lágrimas. — Realmente é possível levar o amor com você, e alguns de nós tem sorte o bastante para encontrar esse amor novamente.
— Lenobia, eu estou superfeliz por você, mas realmente você complicou muito as coisas para mim — eu afirmei.
— Zoey, a sua situação já era complicada. Você quer meu conselho sobre como eu lidaria com isso?
— Claro que sim — eu respondi.
— Pode ser que isso pareça frio e até egoísta, mas, se eu estivesse no seu lugar, iria decidir com quem realmente queria ficar, sem me preocupar com que os dois garotos queriam. O único modo de você ficar plenamente satisfeita com a escolha é se você fizer a escolha pensando em você, não em ninguém mais.
Abaixei a escova e olhei para ela.
— É mesmo tão simples assim?
— Sim. Se você for honesta consigo mesma e seguir com essa honestidade até o fim, sim, é — Lenobia respondeu.
— Você me deu bastante coisa para pensar, mas pelo menos agora eu tenho uma direção — eu falei.
— Você tem que amar e ser verdadeira consigo mesma antes que alguém possa amar e ser verdadeiro com você.
O sino que sinalizava o fim das aulas soou. Coloquei a minha mão em punho sobre o coração e me curvei respeitosamente para ela.
— Obrigada, Lenobia.
Lenobia retribuiu com o mesmo gesto tradicional e disse:
— Que você seja sempre abençoada, Zoey Redbird.


— Stark, nós precisamos conversar — odiei dizer essas duas palavras, provavelmente tanto quanto Stark odiou escutá-las. Afinal, quem não odiaria? Será que um pai ou mãe, namorado ou namorada, professor ou chefe já começou uma conversa boa dizendo isso?
— Ok, mas eu pensei que a gente ia assistir Big Bang Theory e, você sabe, passar algum tempo juntos e sozinhos — ele tentou dar um sorriso metidinho.
— Bem, a gente ainda pode fazer isso. Talvez. Se você ainda quiser, depois que a gente conversar.
— Você está me assustando — ele falou.
Eu estendi a mão para ele. Stark a segurou e sentou perto de mim na cama.
— Eu preciso dizer algumas coisas que provavelmente será difícil de escutar, mas você não precisa se assustar.
— Não preciso me assustar porque, não importa o que seja, eu sempre vou ser seu guerreiro e Guardião?
Ele parecia muito nervoso. Eu entrelacei meus dedos nos dele.
— Sim, em parte é por isso, mas em parte porque eu te amo.
— Ah, ótimo. Eu gosto dessa parte.
— Eu também — eu afirmei. — Mas também eu preciso gostar de você.
— Mas você acabou de dizer que gosta.
— Não, eu acabei de dizer que te amo. E amo mesmo. Mas você ultimamente tem feito algumas coisas que não gosto muito, e nós temos que conversar sobre isso.
— O que você quer dizer?
Eu tinha decidido que, se ia ser honesta comigo mesma, eu tinha que ser honesta com Stark. Então eu falei a verdade para ele, diretamente, sem rodeios.
— Eu não gosto como você me trata quando Aurox está por perto. Você age feito um babaca possessivo, e eu quero que você pare com isso.
Ele tentou tirar sua mão da minha, mas eu não deixei e continuei.
— O ponto é: não acho que você seja um babaca possessivo. Eu gosto de quem você realmente é, e quero que você volte a ser aquele cara o tempo todo.
— Tudo bem. Que seja.
— Não, Stark. Isso não vai dar certo se você não for honesto comigo e consigo mesmo. Você sempre será o meu guerreiro, mas se você ficar todo na defensiva comigo e a gente não puder conversar sobre nossos problemas, você vai acabar sendo apenas o meu guerreiro e nada mais.
— É isso que você quer?
— Sério, Stark, pense nisso. Se eu quisesse isso, porque a gente teria essa conversa?
— Então você não está terminando comigo?
— Espero que não — eu falei.
Ele soltou um longo suspiro, como se estivesse se esvaziando. Os seus ombros desabaram e ele ficou olhando fixamente para o chão sob seus pés.
— Saber que você ama Aurox está me deixando louco, e eu sinto muito se isso me faz agir feito um idiota. Mas eu não sei o que fazer em relação a isso, porque não suporto pensar em você ficando com ele.
— Ok, em primeiro lugar, eu não amo Aurox. Eu amo Heath. E sempre vou amar Heath. Você sabe disso.
— Mas Aurox tem a alma de Heath dentro dele.
— Sim, e eu fico feliz que tenha, afinal foi isso o que salvou Vovó. Eu sempre vou ser grata a Aurox por isso, mas eu não o amo.
— Você não quer ficar com ele? Mesmo? — Stark levantou os olhos do chão e se virou para mim.
— Eu decidi não quero ficar com ele. Mesmo — eu afirmei.
— Por que não? — Stark perguntou, mas, antes que pudesse responder, ele me cortou. — Não... não importa. Eu não quero saber o porquê. Só importa que você não quer ficar com ele. Não quero saber mais nada além disso.
Ok, eu tinha intenção de contar a Stark que eu tinha provado o sangue de Aurox, e que realmente era difícil para mim quando vislumbrava Heath dentro dele, e que na verdade eu ainda amava Heath e Stark. Mas, mesmo apesar disso tudo, eu tinha decidido que não conseguia lidar com mais de um namorado ao mesmo tempo. Mas eu não consegui dizer nada disso porque Stark me puxou para seus braços.
— Estou tão feliz que você me escolheu! — ele sussurrou.
Senti que ele estava trêmulo, eu o abracei e sussurrei:
— Eu também.
Então de repente a gente estava se beijando com um desejo tão quente que eu nem conseguia pensar no que dizer. Eu só conseguia pensar em seu toque e que eu o amava.
Foi só mais tarde, quando o sol havia se levantado e Stark estava roncando ao meu lado, com o braço sobre o meu corpo e a lateral do seu corpo pressionada intimamente contra o meu, que minha mente começou a funcionar de novo, e eu soube que precisava falar com Aurox.

11 comentários:

  1. sinceramente eu to começando a gostar um pouco menos da zo..nam menina veia paia....

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  2. Vlazacky eu concordo com vc tudo bem que ela ta numa Fase mais difícil do que nos outros livros mas ela ta se tornando uma VACA

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  3. Tipo assim ela não está sendo uma vaga ela só está estressada... E confusa, não pode só porque ela é a principal... Gente Zo. não é perfeita. 😐

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  4. Comcordo com vc Belle.
    Quem nunca teve uma queda por dois caras ??? Além do mais Zo sabe oque ela deve fazer e ela vai faze-lo.

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  5. Não gosta da Z? Lê de novo pq vc está lendo errado. Se vc não gosta da personagem principal, vc tá lascada, pq tudo tá centrado nela.

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  6. acho que vcs meio que tem que voltar lá pro primeiro livro por que a autora deixa bem claro que uma alta sarcedotisa,vampira e até mesmo caloura pode ter mais que um parceiro,guerreiro e consorte contanto e todas as partes saibam acho que ela esta sendo uma alta sarcedotisa ela tem todo o direito de ter um consorte .... vcs estão sendo machistas ;)

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  7. NOssa como vcs falam mal da menina !!! Mesmo ela sabendo q pode ficar com os dois, pq isso é normal para uma sarcedotista ela ta fazendo de tudo pra tentar ficar só com um deles, e vcs chamam ela de vaca, gente isso ta feio leia o livro de novo e tentem entender a historia direito e parem de julgar errado a Z.

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  8. Eu sei que Zo gosta dos dois caras. Mas eu acho tão fofo quando ela esta com stark.. E torço pelos dois ficarem juntos. 💕💕
    Ny

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  9. Acho que Stark está sendo mt possessivo. Apesar de ter motivo, ela não gosta disso e pode mudar de ideia...

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  10. eu acho que a neferet tem algo a ver com isso, ela deve esta mandando as trevas mecher com os sentimentos da zo...

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