9 de outubro de 2015

Capítulo 18 - Kalona

— As nuvens do céu clarearam. Acho que isso é um bom presságio — Kalona se dirigiu à Alta Sacerdotisa da Morte, que estava parada diante do ônibus, cheio de novatos e vampiros, que ainda não havia partido para a estação.
— Sim, é verdade. Agora a gente realmente tem que voltar para a estação — Stevie Rae disse. — Mas todos nós desejamos boa sorte a você. Eu só sei que, se Neferet está mesmo com Vovó Redbird, você é o cara certo para trazê-la de volta!
Ela deu aquele seu sorriso inocente e alegre para ele, e o seu filho deu um aceno feliz, indicando que concordava com ela. Então as portas do ônibus se fecharam e Darius deu a partida e foi embora.
Zoey não disse nada antes de partir. Absolutamente nada. Ela havia apenas se sentado no ônibus enquanto todo mundo conversava, organizava os seus livros de escola e terminava de entrar no veículo. Mas ele pôde sentir os olhos dela o observando. Ele sentiu a desconfiança que havia neles. Ele também sentiu a sua esperança.
Eu represento a única chance que ela tem de trazer a avó dela de volta com vida, Kalona pensou enquanto o ônibus desaparecia na Utica Street. Ela podia ao menos ter me desejado boa sorte.
— Nyx, eu peço que você proteja o meu guerreiro, Kalona.
Ouvir o nome da Deusa alarmou Kalona e fez com que ele se concentrasse de novo em Thanatos. A Alta Sacerdotisa estava parada diante dele, com os braços levantados e o rosto voltado para o céu do pré-amanhecer.
— Ele escolheu se comprometer a seguir o seu caminho através de mim, sua fiel Alta Sacerdotisa. Ele é minha espada, meu escudo, meu protetor. E como eu recebi o controle sobre esta House of Night, Kalona também se tornou o protetor desta escola.
A voz de Thanatos estava cheia de poder e, quando ela roçou pela pele de Kalona, ele estremeceu. Ela está invocando Nyx! E a Deusa está respondendo! Ele ficou escutando ansiosamente enquanto ela continuava.
— Portanto, eu suplico a sua ajuda, benevolente Deusa da Noite. Peço que o fortaleça se ele for enfraquecido pelas Trevas e suas armadilhas. Permita que a escolha dele se ilumine e, como a luz da lua através da escuridão de um nevoeiro, deixe que o propósito dele rompa as sombras daquilo que possa turvar o seu discernimento e distraí-lo do seu objetivo. Não deixe que ele seja presa das Trevas, já que a escolha dele é pela Luz.
Kalona fechou suas mãos em punho para que Thanatos não visse como elas haviam começado a tremer.
Nyx não apareceu, mas a presença dela ali, à escuta, era tangível. Ele podia sentir a doce bondade que agitou o ar no rastro da Deusa. Sempre havia sido assim. Para onde quer que Nyx voltasse a sua atenção imortal, para lá seguiam magia, Luz, poder, sorrisos, alegria e amor. Sempre o amor.
Kalona abaixou a cabeça. Como eu sinto falta dela!
— Kalona, vá com a bênção de Nyx!
O turbilhão de energia que se seguiu à invocação de Thanatos banhou os dois. Kalona levantou os olhos e viu que a Alta Sacerdotisa estava sorrindo em júbilo para ele.
— Nyx a ouviu — ele falou, satisfeito por a sua voz não soar tão trêmula quanto ele se sentia.
— De fato, ela me ouviu — Thanatos disse. — E isso com certeza é um bom presságio.
— Eu não vou desapontar nem você nem a Deusa — Kalona afirmou, então ele deu uma corrida curta e se lançou ao céu.
Não desta vez; eu não vou desapontá-la desta vez, ele pensou.
Kalona fez um voo direto e preciso. A varanda do edifício Mayo era ampla e alta. Ele desceu do céu cor de ameixa e aterrissou facilmente na sua superfície de pedra fria. Dobrou suas asas de corvo atrás de suas costas nuas. Sim, ele tinha vindo até ela com o peito nu. Ela o preferia dessa forma.
— Deusa, o seu Consorte voltou! — Kalona chamou, grato por alguém ter quebrado o vidro da porta da cobertura.
Isso evitava que ele tivesse que quebrar a porta desajeitadamente para abri-la se Neferet não o recebesse como ele esperava.
— Não estou vendo nenhum Consorte, só um fracasso alado — a voz dela veio das sombras atrás dele no canto mais distante da varanda, num local bem afastado da entrada para a sua cobertura.
Ele se virou devagar para encará-la, dando tempo para que ela absorvesse a visão do seu peito nu e das suas asas poderosas.
Neferet era uma criatura luxuriosa. Neferet desejava ardentemente os homens. Porém, mais do que o prazer físico que ela obtia com o corpo dos homens, Neferet ansiava por exercer domínio sobre os homens. O touro branco podia dar poder a ela, mas um touro não era um homem.
— Durante os éons da minha existência, de fato eu fracassei em algumas coisas. Cometi muitos erros. O maior deles foi sair do seu lado, Deusa — Kalona falou sinceramente, apesar de a Deusa em sua mente não ser Neferet.
— Então agora você me chama de Deusa e vem rastejando de volta para mim.
Kalona deu dois passos firmes na direção dela, deixando suas asas se agitarem.
— Eu pareço estar rastejando?
Neferet inclinou a cabeça. Ela não saiu das sombras e tudo o que ele podia ver dela eram seus olhos cor de esmeralda e o brilho flamejante do seu cabelo provocado pelo sol que começava a se levantar atrás dela.
— Não — ela respondeu, soando entediada. — Você parece estar batendo as asas.
Kalona abriu suas asas e seus braços. Os seus olhos cor de âmbar encontraram o olhar verde e frio dela, e ele concentrou o seu poder nela. Neferet era imortal havia pouco tempo. Ela ainda deveria ser suscetível ao seu encanto.
— Olhe de novo, Deusa. Mire o seu Consorte.
— Estou vendo você. Mas você não é tão jovem quanto eu me lembrava.
— Parece que você não sabe com quem está falando! — ele tentou controlar o seu temperamento, mas ela havia despertado a sua raiva. Ele havia esquecido como detestava o sarcasmo frio dela.
— Não sei? — Neferet saiu deslizando do canto escuro. — Foi você quem veio atrás de mim. Você realmente acreditou que eu ia recebê-lo de bom grado?
O sol havia se levantado acima do horizonte distante e, quando ela se aproximou, Kalona finalmente conseguiu vê-la por inteiro. Neferet havia continuado a se transformar. Ela ainda estava bonita, mas havia perdido qualquer traço mortal, delicado e humano. Era como se ela fosse uma estátua benfeita que tivesse recebido o sopro da vida, mas sem uma consciência, sem uma alma. Ela sempre fora fria, mas antes Neferet mantinha a habilidade de fingir gentileza e amor. Não mais.
Kalona se perguntou se ele era o único que podia ver tão claramente que ela estava se tornando um canal direto para o mal.
— Eu não acreditava, mas tinha esperança, apesar de eu ter escutado rumores de que o meu lugar ao seu lado havia sido usurpado — ele esperava que ela confundisse o abalo na sua voz com ciúmes.
Neferet deu um sorriso de réptil.
— Sim, eu encontrei algo maior do que um pássaro, mas tenho que admitir que o seu ciúme é divertido.
Engolindo a bílis que subiu na sua garganta ao pensar em tocá-la, Kalona encurtou a distância entre eles. Ele colocou suas asas para a frente, para que a fria maciez de suas penas acariciasse a pele dela.
— Eu sou algo maior do que um pássaro.
— Por que eu deveria aceitá-lo de volta? — a voz de Neferet soou sem emoção, mas Kalona sentiu que a pele dela estremeceu de expectativa sob o seu toque.
— Porque você é uma Deusa e merece um Consorte imortal — ele se aproximou ainda mais, sabendo que ela podia sentir o poder gelado da sua imortalidade abençoada pela lua.
— Eu já tenho um Consorte imortal — Neferet afirmou.
— Não um Consorte que pode fazer isto — Kalona a envolveu com suas asas. Devagar, ele se ajoelhou diante dela, com seus lábios a apenas alguns centímetros da sua carne trêmula de desejo. — Eu vou servir a você.
— Como? — a voz dela não deixou transparecer nenhum sentimento, mas ela levantou a mão para acariciar a parte interna da asa dele.
Kalona fechou a mente para qualquer coisa exceto sensações, e então gemeu de prazer. Ela continuou a acariciá-lo.
— Como? — Neferet repetiu a pergunta e acrescentou: — Ainda mais agora que você serve a outra mestra.
Kalona esperava que ela soubesse do seu Juramento a Thanatos e já tinha uma resposta pronta.
— A única mestra a quem eu posso servir de verdade é uma Deusa e, se a minha Deusa me perdoar, eu farei qualquer coisa que ela me peça — Kalona tinha pensado que o seu jogo de palavras seria divertido.
Neferet iria acreditar que ele falava sobre ela, e na verdade ele poderia estar falando sobre qualquer divindade feminina. Mas, no momento em que ele disse aquelas palavras, a verdade da afirmação de Kalona ondulou através de seu corpo, fazendo com que ele arfasse e cambaleasse para trás, afastando-se da criatura que estava diante dele.
Os joguinhos que ele estava jogando consigo mesmo havia éons terminaram com aquela sentença. Eu fui criado para servir apenas a uma única Deusa. Neferet incorporava o oposto de tudo o que Nyx representava. De costas para Neferet, Kalona afundou o rosto em suas mãos. Como eu já pude pensar que ela ou qualquer outra mulher poderia suplantar o lugar de Nyx no meu coração? Eu passei séculos como uma concha quebrada de mim mesmo, tentando preencher o que estava faltando dentro de mim com violência, luxúria e poder. Não deu certo! Nada funcionou!
Ele sentiu as mãos dela em seus ombros. Elas eram macias, quentes e pareciam irradiar bondade. Com muita gentileza, ela fez com que ele se virasse, persuadindo Kalona a encará-la. Quando ele levantou a cabeça, o seu corpo ficou imóvel. Neferet não o havia seguido. Ela não tinha se movido. Ela nunca poderia tê-lo tocado. Neferet nunca o tocaria com tanta benevolência. Mas Nyx sim.
Kalona sentiu o seu rosto molhado. Distraidamente, ele enxugou as lágrimas.
— Hummm... — Neferet estava batucando o queixo com uma unha longa e afiada, analisando-o do outro lado da varanda, sem demonstrar nenhum sinal de ter visto Nyx se manifestar diante dele.
Será que ele havia imaginado que a sua Deusa estivera ali?
Não! Eu me lembro do seu toque... do seu afeto... da sua bondade.
Nyx tinha estado ali. Kalona se forçou a acreditar nisso.
— Kalona, eu não posso dizer que não fiquei tocada com a sua súplica. Parece que você finalmente aprendeu a falar com uma Deusa de verdade. Talvez eu perdoe a sua traição e permita que você me ame novamente. Com uma condição.
— Faço qualquer coisa — Kalona falou as palavras para a sua Deusa invisível, esperando que ela ainda estivesse presente, escutando.
— Desta vez você tem que me trazer Zoey Redbird. Apesar de que eu não a quero morta, pelo menos não ainda. Eu resolvi que atormentá-la vai ser muito mais divertido.
Neferet caminhou devagar até Kalona e arranhou o peito dele com suas unhas, rasgando a pele dele e desenhando linhas finas e escarlates. Neferet virou a mão para cima para que o sangue dele escorresse pelo dedo dela e caísse na sua palma. Ela deixou que o sangue se empoçasse na sua mão e depois se inclinou para a frente, lambendo o seu peito e fechando as feridas. Sorrindo, Neferet continuou andando e passou por ele.
— Eu tinha esquecido como o seu gosto era delicioso. Siga-me e vamos ver se o resto de você ainda é tão agradável também.
Sentindo-se totalmente entorpecido, Kalona não saiu do lugar. Com o vestígio do toque de Nyx, ele havia se esquecido de Sylvia Redbird. Ele não queria mais nada exceto a sua Deusa.
Eu não posso suportar o toque de Neferet. Eu não posso nunca mais, nem fingindo, abrir a mim mesmo para uma perversão como ela.
Foi a grasnada de um corvo que fez com que ele recuperasse a concentração. Ele olhou para trás. O sol havia se levantado completamente, destacando a silhueta do pássaro empoleirado no parapeito da varanda de pedra. Ele o olhava com olhos cheios de consciência.
Rephaim? Kalona se sacudiu mentalmente. Eu jurei não desapontar Thanatos e Nyx, e também não vou desapontar o meu filho. Ainda que eu não consiga suportar o toque dessa versão distorcida da minha Deusa.
Kalona não conseguia se mexer. Ele estava confuso. A sua mente era um campo de batalha; os seus pensamentos, inimigos de si mesmos.
— O que há de errado com você? — Neferet estava parada do lado de dentro, perto da porta de vidro estilhaçado da sua cobertura.
Ela tinha franzido os olhos com desconfiança. A palma da mão dela ainda estava voltada para cima, segurando o sangue dele.
— Venham, alimentem-se. Pode ser que eu precise que vocês mostrem a Kalona o quanto eu mudei. Eu não tolero mais desobediência.
Kalona observou as gavinhas de Trevas deslizarem feito cobras vindas de um canto da sala. Elas engolfaram a mão de Neferet, parecendo sorvê-la bem como o seu sangue. Kalona sabia que as gavinhas deviam estar provocando dor nela. Elas pulsavam e se contorciam enquanto se alimentavam, mas Neferet as acariciava com a outra mão, quase amavelmente.
Kalona desviou os olhos. Neferet o enojava.
Então ele escutou um gemido. No começo ele pensou que o som vinha de Neferet, mas quando ele olhou na sua direção ela ainda estava sorrindo e acariciando os filamentos de Trevas. Ele ouviu o gemido novamente. Kalona olhou para dentro da sala. Neferet não havia deixado nenhuma luz acesa. As amplas janelas que iam do chão ao teto eram vitrais espessos e, apesar de a cobertura ficar no topo daquele edifício alto, eles deixavam entrar pouca luz. Neferet havia deixado acesas apenas algumas grossas velas brancas. As suas chamas trêmulas serviam como a única iluminação de fato do apartamento. Kalona espiou para dentro, mas não viu nada exceto sombras e Trevas.
Uma gavinha estremeceu em um canto particularmente escuro do aposento principal, abrindo uma brecha nas sombras retintas. Algo dentro do escuro se agitou. Houve um rápido lampejo prateado, refletindo momentaneamente a luz das velas. Kalona piscou algumas vezes, sem saber se podia confiar na sua visão. O imortal focou o olhar na escuridão e aquilo tomou forma. Parecia um casulo pendurado no teto. Kalona balançou a cabeça, sem compreender.
Um flash prateado dentro do escuro brilhou novamente, e Kalona viu algo mais refletindo luz dentro daquela forma feito um casulo. Olhos – os olhos abertos de um humano. As peças do quebra-cabeças se juntaram quando Kalona viu aqueles olhos.
O imortal alado entrou no aposento.
Sylvia Redbird se agitou e, com uma voz trêmula e sussurrante, murmurou “não aguento mais... não aguento mais...”, enquanto as gavinhas se formavam de novo, enrolando-se em volta dela, cortando a sua pele. O seu sangue gotejava na poça que já havia se formado abaixo da sua jaula. Estranhamente, as famintas gavinhas de Trevas não se alimentavam do banquete à sua espera.
Enquanto Kalona observava, Sylvia mexeu seu corpo novamente, desta vez pressionando seus braços contra a jaula. Quando os seus antebraços, adornados por braceletes de prata com turquesas, entraram em contato com uma gavinha, o filamento vivo estremeceu e se retraiu rapidamente, deixando escapar uma fumaça preta e murchando, enquanto outra gavinha deslizava para ocupar o seu lugar.
— Ah, vejo que você encontrou o meu novo animal de estimação.
Kalona se forçou a desviar os olhos de Sylvia Redbird. As gavinhas de Trevas já haviam se alimentado, mas ainda estavam enroladas em volta do braço e da mão de Neferet, imitando grotescamente os braceletes protetores de Sylvia.
— É claro que você reconhece a avó de Zoey Redbird. É uma pena que ela estava preparada para mim quando eu fui até a sua casa. Ela teve tempo de reunir o poder da terra de seus ancestrais em um feitiço protetor — Neferet suspirou, claramente irritada. — Tem algo a ver com a turquesa e a prata. Estão funcionando como um empecilho para alcançá-la, mas os meus adoráveis filhotes de Trevas estão produzindo algum dano.
— No mínimo, a velha mulher vai sangrar até a morte — Kalona afirmou.
— Tenho certeza de que vai, no final das contas. É uma pena que o sangue dela não sirva para nada. Simplesmente não dá para bebê-lo. Mas não importa. Vou esperar ela se esvair.
— Você pretende matá-la?
— Eu pretendia sacrificá-la, mas como você pode ver isso se mostrou mais difícil do que eu havia previsto. Mas não importa. Eu sou uma Deusa. Eu me adapto facilmente às mudanças. Talvez eu a mantenha viva e a transforme em meu animal de estimação. Isso iria sem dúvida torturar a sua neta — Neferet deu de ombros. — Matá-la ou usá-la, tanto faz. Vai dar tudo no mesmo. Afinal de contas, ela não é nada além de uma concha mortal.
— Pensei que a criatura Aurox fosse o seu animal de estimação — Kalona se esforçou para parecer apenas vagamente interessado. — Por que você iria abandonar uma criatura tão poderosa e trocá-la por uma mulher velha?
— Eu não abandonei Aurox. Aquela criatura-touro é imperfeita e não foi tão útil quanto eu esperava. Mais ou menos como você, meu amor perdido — ela acariciou uma gavinha pulsante. — Mas você já sabia disso, não? Você agora é o Mestre da Espada da House of Night no lugar de Dragon Lankford. Certamente você sabe como o seu antecessor foi morto.
— Claro que sim. Aurox o matou — Kalona começou a andar devagar na direção da jaula de Sylvia. — E só ocupei o lugar de Dragon para que eu possa conquistar a confiança de Thanatos e do Conselho Supremo.
— Por que você iria querer fazer isso?
— Por nós, é claro. O Conselho Supremo a baniu por unanimidade. Você não pode mais causar o caos entre eles, então pensei em fazer isso no seu lugar. Thanatos está começando a confiar em mim. O Conselho Supremo confia nela. Eu já comecei a espalhar a discórdia para a Morte.
— Interessante — Neferet disse. — Quanta consideração da sua parte, especialmente porque no nosso último encontro nós nos despedimos como inimigos declarados.
— Eu errei em deixá-la assim tão bruscamente. Só percebi como estava errado quando descobri que você havia tomado outro como seu Consorte. Eu não gosto de sentir ciúmes — Kalona deu alguns passos enquanto falava com ela.
Ele esperava aparentar frustração com o questionamento dela. Na verdade, ele se certificou de que os seus passos continuavam o levando para cada vez mais perto da jaula de Sylvia.
— E eu não gosto de ser traída. Mesmo assim, aqui estamos nós.
— Eu não estou traindo você — Kalona falou honestamente.
Ele não estava traindo Neferet. Ele não devia a ela absolutamente nenhuma lealdade.
— Ah, eu acho que você está fazendo muito mais do que me trair. Eu acredito que você traiu também a sua própria natureza.
As palavras dela fizeram com que ele interrompesse os seus passos.
— O que você está dizendo não faz sentido.
— Como vai o seu filho, Rephaim?
— Rephaim? O que ele tem a ver com nós dois? — Kalona sentiu o primeiro fiapo de preocupação com a menção ao nome de seu filho.
— Eu observei você. Eu vi o seu sofrimento pela perda do seu filho. Você se importa com ele — Neferet cuspiu as palavras, como se elas tivessem um gosto horrível.
Ela deu um passo na direção de Kalona. Ele deu um passo para trás.
— Rephaim está há muito tempo ao meu lado. Ele faz tudo que eu mando há séculos. Eu senti falta da presença dele como eu sentiria de qualquer servo dedicado.
— Eu acho que você está mentindo.
Ele forçou uma risada.
— Assim você prova que imortalidade não equivale a infalibilidade.
— Diga-me que você não permitiu que sentimentos o enfraquecessem. Diga-me que você não decidiu correr feito um cachorrinho atrás de uma Deusa que já o rejeitou.
— Meus sentimentos não me enfraquecem. É você quem está torturando uma velha para atormentar uma garota.
— Você se atreve a falar de Zoey Redbird para mim? Você, que sabe quanta dor ela já me causou! — Neferet estava respirando pesadamente.
As gavinhas de Trevas que deslizavam em volta dela se contorceram de agitação.
— Dor que Zoey causou a você? — Kalona balançou a cabeça, incrédulo. — Você deixou caos e dor por onde passou. Zoey não hostilizou você, foi você quem a atacou primeiro. Eu sei. Você me usou para feri-la.
— Eu sabia que você estava mentindo. Eu sempre soube que você a amava, a sua doce e especial A-yazinha reencarnada.
— Eu não a amo! — Kalona quase deixou escapar a verdade: Eu sempre amei e sempre vou amar Nyx! Um gemido atrás dele fez com que ele escolhesse melhor as palavras. — Mas eu também não a odeio. Você não pode considerar a ideia de que pode encontrar mais satisfação em fragmentar o Conselho Supremo e em comandar aqueles vampiros que escolherem um caminho mais ancestral no seu castelo em Capri? Os seus vampiros vermelhos em particular iriam venerá-la e ficariam ansiosos em trazer de volta o antigo modo de vida dos vampiros. Eu vou ajudá-la nesse caminho, serei o seu Consorte e obedecerei aos seus comandos — Kalona falou com uma voz calma e racional.
Ele também deu mais um passo para trás. Para mais longe de Neferet. Para mais perto de Sylvia Redbird.
— Você quer que eu vá embora de Tulsa?
— Por que não? O que há aqui? Gelo no inverno, calor no verão e humanos religiosos e de mente estreita. Acho que nós dois ficamos grandes demais para Tulsa.
— Você fez uma excelente observação — as gavinhas de Trevas, ainda inchadas pelo sangue de Kalona, aquietaram-se quando Neferet pareceu considerar a proposta dele. — É claro que você teria que fazer um Juramento de sangue para me servir.
— É claro — Kalona mentiu.
— Ótimo. Talvez eu o tenha julgado mal. Eu tenho as criaturas perfeitas que vão me ajudar a fazer um feitiço assim — ela acariciou ternamente as gavinhas que pareciam cobras. — Elas podem misturar o meu sangue com o seu, unindo-nos para sempre?
Kalona tensionou os seus músculos, preparando-se para correr os poucos passos que agora o separavam de Sylvia Redbird.
Ele iria comandar os filamentos de Trevas que a prendiam, e então voaria com ela para a liberdade enquanto Neferet estava cortando a sua própria pele e conjurando um feitiço de magia negra que nunca seria realizado.
— Como quiser, Deusa.
Neferet estava começando a sorrir com seus lábios vermelhos e carnudos quando o corvo grasnou. Neferet franziu os olhos e voltou sua atenção para o pássaro, ainda empoleirado no parapeito, um alvo fácil no sol da manhã. Ela apontou um dedo longo para o pássaro e ordenou:

“Com o sangue imortal do qual vocês se alimentaram,
Matem agora o pássaro Rephaim!”

As gavinhas que estavam enroladas no seu corpo se soltaram e dispararam como flechas negras na direção do corvo. Kalona não hesitou. Ele se atirou entre o corvo e a morte, absorvendo a explosão destinada ao seu filho.
A força do impacto o levantou do chão da cobertura e fez com que ele fosse arremessado para a varanda, atirando-o contra o parapeito de pedra. Enquanto a dor explodia no seu peito, Kalona gritou para o pássaro imóvel:
— Rephaim, voe!
Ele teve pouco tempo para se sentir aliviado quando o corvo obedeceu à sua ordem. Neferet avançou, com gavinhas de Trevas deslizando no seu rastro. Kalona se levantou. Ele ignorou a dor terrível em seu peito, abrindo seus braços e suas asas.
— Traidor! Mentiroso! Ladrão! — Neferet berrou para ele.
Ela também abriu seus braços, com os dedos bem esticados. Ela penteou o ar com as mãos, agrupando os filamentos que se multiplicavam ao redor dela.
— Você pensa em me combater usando as Trevas? Você não se lembra de que tentou fazer isso há pouco tempo e eu ordenei que elas se afastassem? Você é tão tola quanto louca, Neferet — Kalona disse.
Neferet respondeu com as palavras cantaroladas de um feitiço:

“Vocês sabem do que eu preciso!
Façam esse imortal sangrar!
E então vocês podem se alimentar sem parar!”

Ela atirou as gavinhas nele. Kalona colocou suas mãos na frente do corpo e falou diretamente para aqueles servos das Trevas as mesmas palavras que havia usado semanas atrás, quando Neferet se atrevera pela primeira vez a desafiá-lo, quando ele estava inteiro, ileso e livre do confinamento sufocante da terra.
— Parem! Eu sou aliado das Trevas há muito tempo. Obedeçam ao meu comando. Esta batalha não é sua. Fora daqui!
O choque o atingiu ao mesmo tempo em que as gavinhas cortaram o seu corpo. As gavinhas não me obedeceram! Em vez disso, elas rasgaram a sua carne, alimentando-se como sanguessugas tóxicas. O imortal arrancou uma das criaturas pulsantes do seu peito e a atirou no chão da varanda. Ali ela se despedaçou para em seguida se recompor em dezenas de aberrações de dentes afiados.
Neferet deu uma gargalhada enlouquecida.
— Parece que só um de nós dois é aliado das Trevas, e esse alguém não é você, meu amor perdido!
Kalona se contorcia e lutava, arrancando aquelas criaturas do seu corpo, quando tudo ficou totalmente claro. Ele percebeu que Neferet estava certa. As gavinhas não obedeciam mais às suas ordens porque ele realmente havia escolhido outro caminho. Kalona não barganhava mais com as Trevas.

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