10 de outubro de 2015

Capítulo 15 - Zoey

— Ah, que merda. Ela está pior do que eu imaginava — Aphrodite disse.
— É, está mesmo — a minha voz soou trêmula, enquanto meus amigos e eu olhávamos pelo vidro do cubículo de terapia intensiva da nossa enfermaria.
Shaunee tinha levado até lá Stark, eu, Aphrodite e Darius. No caminho até a enfermaria, ela nos contou rapidamente o que Dallas havia feito. Eu prometi a mim mesma que não ia chorar, que ia ser uma Alta Sacerdotisa forte e madura e dar um bom exemplo, mas só de olhar para Stevie Rae fiquei muito assustada e tive vontade de explodir em lágrimas. Ela estava usando um camisetão de show do Kenny Chesney, mas todas as partes do corpo dela que camiseta não cobria – rosto, braços e pernas – estavam muito vermelhas, cobertas de bolhas horríveis que pingavam sangue. Margareta, a vampira responsável pela enfermaria, disse que ela não tinha recuperado totalmente a consciência, e isso não era bom, pois Stevie Rae precisava beber sangue, senão ela não ia começar a se curar.
— Não dá para fazer uma transfusão nela ou algo assim? — Aphrodite perguntou.
— Já perguntei isso — Shaunee falou enquanto eu enxugava meus olhos e fungava. Stark me estendeu um Kleenex. — Os vampiros não são como humanos. Uma transfusão não ia funcionar. Nós temos que absorver sangue pela boca, pela garganta e, bem, você sabe, por toda a parte, para que ele nos cure.
— Espero que você saiba como isso soa nojento — Aphrodite comentou.
— Aphrodite, eu mastigaria cocô e cuspiria no pescoço de Stevie Rae se isso a fizesse melhorar — eu afirmei.
— Isso não vai ser necessário — a voz de Thanatos fez com que todos virassem na direção da entrada da enfermaria.
Ela tinha aberto a porta. Kalona entrou. Rephaim vinha logo atrás dele. Descalço e colocando a camisa, ele passou correndo pelo seu pai.
Ele foi correndo até Stevie Rae. Nós ficamos agrupados perto da porta, observando e esperando.
— Stevie Rae, está na hora de acordar agora — Rephaim sentou ao lado dela na cama do hospital. As lágrimas escorriam pelo seu rosto, mas a voz dele não estava trêmula. Ele soou calmo e seguro de si. — Eu vim o mais rápido que pude. Sinto muito que você teve que ficar assim tanto tempo, mas você sabe do problema que eu tenho durante o dia. Eu não sou exatamente o mesmo — ele tentou rir, mas em vez disso saiu um soluço. Ele limpou a garganta e enxugou os olhos, dizendo: — Mas isso não é tão ruim quanto o seu problema com o sol — ele estendeu a mão como se quisesse tocar o rosto dela, mas desistiu por causa da carne viva e das bolhas. Em vez disso, ele colocou a mão sobre o peito dela, em cima do coração. — Ei, eu preciso que você acorde agora — ele repetiu com as lágrimas caindo cada vez mais rápido.
Kalona passou por todos nós para ficar ao lado do seu filho.
— Rephaim, você tem que fazer com que ela beba de você. Você é ligado a ela, e dentro das suas veias, pulsa as forças dos imortais. Só você pode curá-la.
Rephaim levantou os olhos para o seu pai.
— Ela não está consciente. Ela não está acordando.
— Então você precisa forçá-la a beber.
Rephaim assentiu. Ele levantou o braço que estava sobre o coração de Stevie Rae e mordeu a si mesmo. Com força, bem no pulso.
Eu nem precisei ver o sangue brotando através da ferida. Eu farejei na hora. Tinha um cheiro superestranho. De certo modo, tinha um cheiro meio fedido, como mofo ou terra recém-lavada. Mas também tinha algo mais, que lembrava chocolate escuro, temperos e uma brisa fresca iluminada pela lua no meio de uma noite de verão.
— Uau, que cheiro bizarro — Stark murmurou.
Eu não disse nada porque não conseguia parar de salivar. Só o que eu podia fazer era olhar com desejo quando Reaphim se inclinou para frente e gentilmente segurou a cabeça de Stevie Rae, enquanto pressionava o seu pulso ensanguentado contra o lábios abertos dela.
— Beba, Stevie Rae. Você tem que beber — Rephaim suplicou.
Stevie Era não teve nenhuma reação. O sangue de Rephaim escorreu pelos cantos da boca dela e fez uma poça vermelha nos lençóis brancos do hospital, parecendo delicioso, irresistível...
— Zoey! Ajude-a.
Percebi que estava olhando hipnotizada para o sangue de Rephaim quando a voz de Kalona me fez dar um salto e voltar a mim.
— Co-como? — eu gaguejei.
Thanatos respondeu por ele.
— Invoque o espírito. Faça com que ele a fortaleça e a preencha. O corpo dela vai se curar se o seu espírito despertar, para que ela possa beber do seu companheiro.
— É claro... Eu entendo, desculpem — limpei a minha garganta e respirei fundo, ignorando o cheiro de sangue que encheu os meus pulmões. — Espírito, venha a mim! — eu me senti melhor quando o meu elemento respondeu. Mais eu mesma. Mais no controle. Com o pé no chão novamente, eu ordenei: — Vá para Stevie Rae. Preencha-a e fortaleça-a para que ela volte para nós! — o meu cabelo se levantou quando o espírito saiu de mim e se derramou sobre Stevie Rae.
Imediatamente, ela respirou fundo e começou a tossir, engasgada com o sangue. E então os olhos dela se abriram e ela segurou o braço de Rephaim, sugando seu pulso, bebendo avidamente.
— Não deixe que ela beba demais para não o enfraquecer — Kalona colocou a mão no ombro do filho. — Ela vai precisar beber de você novamente, muitas vezes, até ficar completamente curada, e você tem que estar forte o bastante para fazê-lo.
Rephaim assentiu e gentilmente colocou a sua mão sobre a de Stevie Rae.
— Stevie Rae, você precisa parar agora, mais tarde você pode beber mais.
Eu vi os olhos de Stevie Rae quando ela olhou para ele. Eles estavam vermelhos. A sua expressão era feroz.
— Oh-oh — Stark disse.
Ele e Kaloma ficaram tensos ao mesmo tempo, mas a voz de Thanatos soou como bálsamo, suavizando o ambiente no quarto:
— Deem tempo a ela. Stevie Rae é uma vampira, uma Alta Sacerdotisa. Confiem nela. Ela vai se encontrar.
E, de fato, Stevie Rae piscou algumas vezes e seus olhos voltaram ao normal. Ela tirou o pulso de Rephaim da sua boca, limpando o sangue de seus lábios e parecendo que ia chorar.
— Eu o machuquei? Sinto muito, Rephaim!
— Shhh — ele a acalmou, puxando-a para os seus braços. — Você nunca me machucaria.
De repente ela se sentou e encarou Rephaim. Eu fiquei impressionada ao ver que a pele dela já parecia menos queimada.
— Você me salvou! Quando você era um corvo!
— Você precisou de mim. Eu podia sentir a sua dor. Eu fui até você.
Shaunee já havia nos contado a sua versão do que havia acontecido, mas ouvir aquilo de Rephaim foi surreal. Tipo, o cara era um pássaro durante o dia. Ele não deveria ser nada mais além de um pássaro. Mesmo assim ele tinha salvado a vida de Stevie Rae.
— Você é o cara mais maravilhoso do universo! — Stevie Rae sorriu com amor e alegria para ele. — Você se lembra?
Rephaim enxugou as lágrimas dos seus olhos e sorriu para ela. Desta vez, ele pôde tocar levemente o rosto vermelho de Stevie Rae.
— Eu só lembro que você precisava de mim e da raiva do corvo.
— Bem, isso é o bastante para mim — ela falou. Então ela voltou a sua atenção para Thanatos. — Dallas tentou me matar e também matar Shaunee.
— Ah, Deusa! — Shaunee exclamou. — Eu sabia que Dallas estava bravo quando ele voltou para a pira de Erin, mas eu não sabia que ele estava louco.
— Ele não é louco — Stevie Rae disse. — Ele é malvado.
— E ele é poderoso — Thanatos acrescentou. — Capture-o — ela deu a ordem a Kalona. — Traga-o até mim. O Conselho Supremo pode ter virado as costas para nós, mas a Morte ainda pode julgar e fazer justiça.
Kalona colocou a mão em punho sobre o coração, mostrando ter entendido a ordem dela. Quando ele saiu a passos largos do quarto, Stark afirmou:
— Eu vou com ele.
— Faça isso, e não deixe que o imortal mate Dallas. Eu o quero bem vivo — Thanatos o instruiu.
— Sim, Alta Sacerdotisa — ele se curvou rapidamente para ela e para mim antes de sair apressado atrás de Kalona.
— Os meus novatos vermelhos. Estão todos bem? — Stevie Rae perguntou.
Thanatos assentiu.
— Kalona e Aurox montaram guarda enquanto eles dormiam pacificamente durante o dia — a Alta Sacerdotisa respondeu.
— E Darius foi direto ao porão se juntar a Aurox assim que Shaunee nos contou o que tinha acontecido — Aphrodite complementou.
Eu fiquei surpresa ao ouvir o nome de Aurox. Aquela definitivamente não era hora para mencionar isso, mas ele não tinha ficado superbêbado e passado a dia todo apagado?
— Então os alvos dele eram apenas Shaunee e Stevie Rae? — eu quis saber.
— Eu não sei — Shaunee disse. — Ele parecia irritado com todos nós. Bem, eu quero dizer todos do círculo de Zoey. Acho que ele nos culpa por Erin ter rejeitado a Transformação.
— Sim, ele me disse que estava apenas começando a dar o troco matando Shaunee e eu — Stevie Rae se recostou em Rephaim, como se ela estivesse absorvendo força do toque dele.
— Isso é ridículo — Aphrodite falou. — Se há alguma culpada, é Neferet.
— Nós éramos alvos mais convenientes — Shaunee comentou.
— Ninguém mais vai ser alvo de novo, não enquanto a Morte reinar como Alta Sacerdotisa aqui — Thanatos afirmou. — Mas até Kalona e Stark encontrarem Dallas, todos nós temos que ficar em alerta máximo — ela se virou para mim. — Zoey, eu sei que todos nós estamos preocupados com o fato de os garotos estarem dormindo juntos no mesmo lugar, mas eu vou ordenar que você e o seu círculo, junto com as suas Profetisas, descansem lá com os novatos vermelhos. Isso vai nos dar duas linhas de proteção. A primeira vai ser Darius e os Filhos guerreiros de Erebus. A segunda vai ser o seu próprio círculo.
— Você quis dizer os novatos vermelhos de Stevie Rae, certo? — eu quis saber. — Dallas tem todo aquele grupo que o segue.
— E que são igualmente detestáveis — Stevie Rae acrescentou. — Na noite passada, sabe a novata vermelha Nicole, aquela que ajudou Lenobia a salvar os cavalos quando o estábulo pegou fogo? — Stevie Rae perguntou para Thanatos, que assentiu. — Então, ela oficialmente saiu do grupo de Dallas e jurou lealdade a mim, basicamente porque Dallas e o seu grupo são totalmente detestáveis.
Eu estava abrindo a boca para concordar com Stevie Rae – eu não queria de jeito nenhum ficar presa em um porão com aqueles idiotas que Dallas chamava de amigos – mas Thanatos falou primeiro.
— Quando meu julgamento de Dallas terminar, não haverá mais novatos que o seguem — a voz dela era como gelo.
Eu me perguntei como Thanatos faria para os novatos vermelhos idiotas ficassem legais, mas ela tinha tipo uns milhões de anos de experiência e era superpoderosa. Quem podia saber que espécie de magia vampírica ela tinha na manga? Eu esperava que fosse alguma coisa totalmente malvada. A verdade é que, depois do que havia acontecido naquela noite, eu estava cansada de ser paciente com qualquer um que quisesse ferir os meus amigos ou a mim – e se isso significava que Thanatos ia usar o equivalente dos vampiros às punições corporais de antigamente, então que fosse assim. Dallas e os seus amigos mereciam o que os aguardava.
— Zoey, você pode dar uma olhada nos meus garotos? Diga a eles que eu vou ficar bem. Você sabe que Kramisha e Shaylin vão surtar quando elas souberem o que aconteceu — a voz de Stevie Rae estava ficando cada vez mais fraca e, apesar de ela estar sorrindo para mim e segurando a mão de Rephaim, ela tinha se recostado em seu travesseiro, parecendo exausta e torrada.
— Sem problemas — eu a tranquilizei. — Não quero que você se preocupe com nada, a não ser ficar bem. Aphrodite, Shaunee e eu vamos ver os garotos e fazer com que eles saibam que vai se recuperar.
— Ótimo. Quando você falar com os novatos vermelhos, pode aproveitar e dizer a eles que, apesar de hoje ser sábado, eu decidi que a House of Night precisa de um dia extra de aulas para compensar todo o tempo de estudo que perdemos. Eu já avisei os professores. Vou fazer um anúncio para toda a escola daqui a alguns instantes. Eu espero todos para a primeira aulas às 20 horas em ponto. Atrasos são inaceitáveis. A violência e o ódio não vão jogar a minha House of Night no caos — Thanatos afirmou.
— Ah, que merda... aula... eca — Aphrodite resmungou baixinho.
— Acho que essa é uma ótima ideia — Stevie Rae apoiou. — Tome notas para mim, Z.
— Combinado — concordei, já pensando em pedir a Damien que fizesse anotações para ela. — Venho te ver depois da aula.
— Todos nós viremos — Shaunee acrescentou.
Aphrodite grunhiu.


Então, Stevie Rae estava totalmente certa. Os calouros vermelhos dela estavam apavorados. Kramisha veio para cima de nós assim que entramos no porão.
— Se ela não estiver bem, eu mesma vou furar Dallas.
— Stevie Rae vai ficar bem — eu assegurei a ela e aos outros garotos que estavam se aglomerando à nossa volta.
— Ele tentou mesmo matá-la, não foi? — a voz de Nicole, que estava afastada do grupo, fez todos se voltarem para ela. Só Shaylin estava perto dela.
— Dallas tentou matar Stevie Rae e Shaunee — eu encontrei o olhar dela, procurando por alguma pista de que ela sabia o que ele havia planejado.
A expressão de Nicole não traiu nada além de desgosto. Ela balançou a cabeça.
— Ele estava ficando cada vez pior, mas não pensei que ele fosse tentar algo aqui, na House of Night — ela disse.
— Você era como ele — eu afirmei.
— Você está certa. Eu era. Não sou mais. Já faz algum tempo.
— Como vamos saber que você está falando a verdade? — Shaunee perguntou.
— Eu acredito nela — Shaylin respondeu sem hesitação. — E na mudança nas cores dela.
Eu olhei para Aphrodite.
— Você está certa sobre ela? — eu a questionei.
— Ela quem? Shaylin ou Nicole?
— As duas — eu disse.
O olhar de Aphrodite passou rapidamente por Shaylin antes de se voltar para mim.
— Eu confio no julgamento de Shaylin, se ela diz que a garota mudou, então eu acredito nela.
— Ela era namorada de Dallas, e Dallas acabou de tentar matar Stevie Rae e eu! — Shaunee colocou para fora o que pensava. — Eu não estou sendo uma pessoa horrível, só estou dizendo as coisas como elas são.
Escutei alguns garotos murmurando concordando com ela. O rosto de Nicole ficou pálido, mas ela empinou o queixo e encarou Shaunee.
— Erin era namorada de Dallas, e você ainda se importava tanto com ela, que ficou na sua pira até depois do amanhecer.
— Eu conhecia Erin há muito tempo — Shaunee rebateu. — Eu conheço você, tipo, há dois segundos.
— Erin foi perfeita em todo esse tempo que você conviveu com ela? — Nicole perguntou.
Shaunee desviou os olhos da caloura vermelha.
— Não. Não, ela não foi.
— Eu também não fui perfeita no passado, mas estou pedindo uma segunda chance.
Eu já tinha ouvido o suficiente. A minha Profetisa e o meu instinto me convenceram.
— Para mim já é o bastante — eu afirmei em voz alta. — E isso tem que ser o bastante para vocês também. Se nós usássemos o passado contra os outros, então Kalona não seria o guerreiro da nossa Alta Sacerdotisa e Stark não seria o meu guerreiro. Que inferno, e nem Stevie Rae seria a minha melhor amiga.
— Eu teria sido expulso e banido da House of Night junto com Neferet — Aurox disse.
Eu não havia reparado nele antes. Ele estava parado atrás de nós, bem na entrada do porão.
Eu não olhei para ele, mas assenti.
— E se Aurox não tivesse recebido outra chance, a minha avó estaria morta. Shaunee, nós precisamos ficar na mesma página quanto a isso. Muita coisa ruim já aconteceu com a gente para que agora nós comecemos a desconfiar uns dos outros.
Shaunee olhou para Nicole rapidamente, e então o olhar dela encontrou o meu.
— Ok, você é minha Alta Sacerdotisa. Eu confio em você.
— Obrigada — eu olhei em volta para o grupo. — Alguém tem mais algo a dizer?
— Stevie Rae vai ficar bem? — Kramisha perguntou.
— Totalmente — eu respondi.
— É verdade que Rephaim a salvou quando ele era um pássaro? — Shaylin quis saber.
Eu sorri para Shaunee.
— Conte a história eles, mas seja rápida. Lembre-se de que Thanatos disse que ela quer que hoje seja um dia de reposição de aulas e que todo mundo tem que estar na sua sala quando o sino tocar às oito.
Houve vários resmungos por causa dessa notícia, mas eles pararam assim que Shaunee começou a contar o que havia acontecido mais cedo. Aproveitei a oportunidade para sair e falar com Darius, que estava parado na porta de entrada de cima. Aphrodite, é claro, foi comigo.
Quando passei por Aurox, olhei de relance para ele. O garoto parecia mal. Os seus olhos estavam vermelhos e inchados, e a sua pele perfeita parecia meio pálida e úmida.
— Ressaca é péssimo, hein? — não pude deixar de tirar um sarro, mas não esperei para ouvir se ele me respondeu.
Aphrodite subiu a escada rindo sarcasticamente.
— Kalona e Stark estão procurando por Dallas? — Darius perguntou quando nos aproximamos dele.
— Sim — eu respondi — Thanatos quer que ele seja pego para ser julgado. Ela também disse que está farta dos novatos vermelhos dele.
— Vai ser bem interessante ver o que ela fará com todos eles — Aphrodite comentou. — Bem, isso se eles conseguirem encontrar Dallas. Ele definitivamente não quer ser encontrado.
— O imortal vai encontrá-lo, não tenho a menor dúvida — Darius afirmou.
— Alguém viu se algum dos amigos de Dallas desapareceu com ele? — eu quis saber.
— Eu dei uma conferida rápida depois que me certifiquei de que os nossos novatos estavam seguros. Dallas realmente sumiu, mas acho que ninguém mais foi embora com ele — Darius disse.
— Eu só espero que o que Thanatos vá fazer nos deixe livres dele para sempre — Aphrodite falou.
Eu suspirei.
— Eu não consigo nem imaginar como prender um garoto que controla eletricidade. É deprimente pensar em todos os meios que ele pode usar para escapar.
— Thanatos é sábia. Ela fará um julgamento justo — Darius argumentou.
— Estou preocupada porque “justo” e “praticável” são duas coisas totalmente diferentes — eu contra-argumentei.
— Como o seu guerreiro não está presente, vou ocupar o lugar dele e dizer para você não se preocupar tanto — Darius me aconselhou.
— Ela é cabeça-dura. Ela não vai ouvir — Aphrodite deu um beijo na bochecha dele. — Mas obrigada por tentar.
— Eu estou acostumado a lidar com uma mulher cabeça-dura — ele sorriu para ela.
— Você anda me traindo com alguma vadia teimosa? — Aphrodite fingiu estar irritada. — Não me faça arrancar os olhos de alguma baranga.
Darius riu e a puxou para os seus braços. Eu revirei os olhos.
— Eu vou ver se tenho sorte por dois dias seguidos e consigo comer psaguete no café da manhã. Tchau, Darius. Aphrodite, eu te vejo na primeira aula.
Eu tinha acabado de decidir passar primeiro no meu quarto para tentar pentear o cabelo e dar uma ajeitada no rosto antes de ir para o refeitório quando a voz dele chamou o meu nome. Sinceramente, eu não queria parar. Eu queria fingir que não havia escutado e sair apressada para o meu quarto, continuando a evitá-lo o máximo possível. Mas eu vi o garoto correndo. Ele ia me alcançar de qualquer jeito. Respirei fundo, parei e fiquei esperando por ele.
— Zoey, posso falar com você um instante? — Aurox perguntou quando chegou perto de mim.
Ele soou tão diferente de Heath, tão formal, que eu relaxei um pouco.
— Sim, é claro.
— Acho que lhe devo desculpas.
— Pelo quê?
A testa dele se enrugou.
— Acho que eu disse algo indelicado para você ontem à noite.
— Você acha?
— A minha memória está prejudicada. Só consigo lembrar de algumas partes do que eu disse.
— Aurox, ficar bêbado causa um monte de outras coisas além de prejudicar a memória. Pode deixar outra pessoa doente e fazer com que você faça ou diga coisas idiotas. Não precisa me pedir desculpas, apenas não fique chapado novamente.
Ele suspirou e esfregou a testa como se estivesse com dor de cabeça, o que eu tinha certeza que ele estava sentindo mesmo.
— Mas, Zo, beber cerveja é muito bom.
Eu senti como se ele tivesse me dado um soco no estômago.
— Como você faz isso?
Ele tirou a mão da testa e me deu um olhar totalmente confuso.
— Gostar de cerveja?
— Não! — eu joguei os braços para cima de frustração. — Soar exatamente como Heath.
— Eu faço isso?
— Não na maior parte do tempo, mas você acabou de fazer isso quando me chamou de Zo.
Aurox pensou por um instante e então falou:
— Sinto muito se te ofendi.
— Você não me ofendeu. Você me deixa confusa — eu afirmei.
— Você também me deixa confuso — ele disse.
— Por quê?
— Porque eu sinto coisas por você que sei que são erradas.
— Sentimentos errados? Como o quê? — prendi a respiração enquanto ele respondia.
— Eu me sinto atraído por você. Eu me preocupo com você. Eu penso em você. Muito — ele falou devagar. — E eu sei que esses sentimentos são errados porque você me detesta.
Eu abri a boca para dizer que não o detestava, que inferno, que eu nem tinha antipatia por ele, mas ele levantou a mão, impedindo as minhas palavras.
— Não, eu entendo porque você tem repugnância por mim. Não é que você seja uma pessoa má. Você é realmente uma pessoa ótima, especial. Não é sua culpa por se sentir assim — Aurox começou a se afastar de mim. — Eu só queria pedir desculpas por qualquer coisa indelicada que eu tenha dito na noite passada. Vou deixá-la em paz agora.
— Aurox, espere aí. Não vá embora. Eu preciso dizer algo a você — eu fiz um gesto para que ele me seguisse até um dos vários bancos de pedra que ficavam embaixo dos enormes carvalhos do jardim da escola. — Ok, sente aqui um pouco e me deixe pensar em como falar isto da forma certa.
Ele se sentou ao meu lado. Bem, não exatamente ao meu lado. Ele praticamente se encolheu na pontinha do banco, o mais longe possível de mim. Eu suspirei.
— Certo, é o seguinte — respirei fundo e coloquei tudo para fora. — Eu me sinto tão atraída por você quanto você se sente por mim. Eu penso em você. Não, espere, isso não está certo. Eu me esforço para não pensar em você porque eu penso em você — suspirei de novo. — Como se isso não fosse confuso. Enfim, é o seguinte: eu tenho dezessete anos, e dentro de você está a alma do garoto que eu amei por quase a metade da minha vida. Mas você não é esse garoto, e é isso que eu digo a mim mesma o tempo todo, e na maioria das vezes eu acredito nisso. Só que de repente você faz algo como cantar a música do psaguete ou me chamar de Zo com aquele tom de voz único que só Heath tinha, ou fica bêbado feito um idiota e diz algo totalmente a cara do Heath, e eu fico com medo porque aí não consigo mais me fazer acreditar naquilo — concluí rapidamente.
— Naquilo?
Eu franzi os olhos para ele.
— Viu só, é exatamente o que o Heath teria dito. Eu usei uma frase complexa e você se perdeu.
— Sinto muito, Zo.
— Você fez isso de novo! E aquilo que eu tenho medo é de não conseguir me fazer acreditar que você e Heath não estejam virando o mesmo garoto.
— Ah — ele fez uma pausa e eu praticamente pude ver as engrenagens girando dentro da cabeça dele. — Você ainda ama o Heath?
Eu encontrei o olhar dele e falei a absoluta verdade.
— Eu sempre vou amar Heath.
Aurox não desviou o olhar, então quando ele começou a sorrir, eu vi como isso provocou em seus olhos a familiar faísca de travessura de Heath.
— Isso é bom — ele disse.
— Não, isso é confuso, principalmente porque Stark é o meu guerreiro e também o meu namorado — eu afirmei.
— Mas você não amava Heath e Stark ao mesmo tempo antes?
— Bem, sim, mas isso era muito complexo. E estressante. Para nós três.
— Mesmo assim, você amava os dois.
Ele não formulou a frase como uma pergunta, mas eu a respondi de todo modo.
— Sim, e o que estou tentando que você entenda é que eu acho que é muito difícil amar mais de um cara ao mesmo tempo. Posso te falar com certeza o que o Stark diria se eu tentasse fazer isso de novo.
— Stark foi gentil comigo na noite passada.
— Bem, Stark e Heath acabaram virando amigos. Ou mais ou menos isso.
— Então talvez nós possamos ser amigos de novo — ele sugeriu.
A ideia de sermos amigos parecia algo seguro. Quem não precisa de mais amigos?
— Nós podemos tentar.
— Você pode sugar o meu sangue se quiser.
— Aurox! Não. Não, eu não quero sugar o seu sangue — eu menti, lembrando como tinha sido totalmente incrível sugar o sangue de Heath e como ele gostava disso. Franzi os olhos para o garoto. — Aurox, você não tem a memória de Heath, tem?
Ele balançou a cabeça.
— Acho que não. Às vezes, eu digo ou faço coisas que me surpreendem, pois não consigo lembrar como sei isso. Só há uma coisa que eu tenho certeza que tenho do Heath.
Eu sabia que não devia perguntar, mas escutei minha boca dizer:
— E que é essa coisa?
— O amor dele por você, Zo.

3 comentários:

  1. Own! Que lindo!❤
    No entanto, isso vai complicar as coisas pra Zoey. #vidacomplicada #amandoasaga

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  2. Fica com ele que não vai faltar amor Zo! ♥

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  3. ain to cada vez mais encantada por Arox/Heath

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