9 de outubro de 2015

Capítulo 15 - Vovó Redbird

Sylvia saudou o sol com alegria e gratidão, com o coração tão leve como ela não sentia havia anos – mais leve até do que na manhã anterior, quando ela encontrara Aurox e escolhera o amor e o perdão em vez da ira e do ódio.
A sua filha estava morta e, apesar da certeza de que ela iria sentir a sua perda pelo resto da vida, Sylvia sabia que Linda estava finalmente livre do solo infértil em que a sua vida havia se transformado. Agora ela descansava em paz no Outromundo com Nyx, feliz e sem dor. Essa constatação fez a velha mulher sorrir.
Sentada na sua mesa de artesanato na sala de trabalho de sua casa, ela cantarolava uma antiga canção de ninar Cherokee enquanto analisava as diversas ervas, pedras, cristais e linhas, escolhendo um ramo de erva-doce longo e macio para enrolar junto com um feixe de lavanda seca. Neste amanhecer, ela iria cantar para o sol enquanto a fumaça purificadora da erva-doce e o aroma relaxante da lavanda se misturavam e a banhavam junto com a luz do sol. Enquanto fabricava o bastão de defumação, Sylvia deixou de refletir sobre a sua filha biológica e passou a pensar em Zoey, a sua filha do espírito.
— Ah, u-we-tsi-a-ge-ya, sinto tanto a sua falta — ela disse em voz baixa. — Vou ligar para você hoje depois do pôr do sol. Vai ser bom ouvir a sua voz.
A sua neta era jovem, mas havia recebido dons especiais de sua Deusa e, mesmo que isso significasse que Zoey tinha responsabilidades incomuns para carregar, também significava que ela tinha o talento de se superar para enfrentar os desafios que vinham com essas responsabilidades adicionais.
E isso fez com que a mente de Sylvia se voltasse para Aurox, o garoto que também era uma besta.
— Ou ele é uma besta que também é um garoto? — enquanto suas mãos trabalhavam, a velha mulher balançou a cabeça. — Não, eu vou esperar o melhor dele. Eu o chamei de tsu-ka-nv-s-di-na. Touro, em vez de besta. Eu o encontrei, olhei nos seus olhos e o vi chorando de arrependimento e solidão. Ele tinha um espírito, uma alma e, portanto, uma escolha. Vou acreditar que Aurox vai escolher a Luz, mesmo que as Trevas habitem o seu interior. Nenhum de nós é inteiramente bom. Ou mau — Sylvia fechou os olhos, inalando o aroma doce das ervas. — Grande Mãe Terra, fortaleça o bem dentro daquele garoto e permita que o tsu-ka-nv-s-di-na seja domado.
Sylvia começou a cantarolar de novo enquanto terminava de fabricar o bastão de defumação. Foi só quando completou o trançado de erva-doce e lavanda que ela percebeu que a cantiga que cantarolava havia se transformado em outra bem diferente: Song for a Woman who was Brave in War.
Apesar de ainda estar sentada, Sylvia começou a bater os pés e a subir e descer o tom de voz para acompanhar o ritmo forte.
Quando se deu conta do que estava fazendo, Sylvia ficou completamente imóvel. Ela olhou para as suas mãos. Entremeada dentro da trança de erva-doce e lavanda, havia uma linha azul que estava amarrada e presa com nós a turquesas brutas. Em um choque de claridade, Sylvia compreendeu.
— Um Feixe da Deusa — Sylvia falou as palavras com reverência. — Obrigada, Mãe Terra, por este aviso. O meu espírito escuta você, e o meu corpo obedece — devagar, solenemente, a velha mulher se levantou.
Ela caminhou até o seu quarto e tirou a camisola. Abrindo o armário encostado nas paredes rústicas de pinho, Sylvia pegou a sua relíquia mais sagrada: o manto e a saia que ela havia feito assim que descobriu que estava grávida de Linda.
A pele de cervo estava velha e ficava um pouco folgada no seu corpo magro, mas ainda era lisa e macia. O verde que Sylvia tinha passado tanto tempo misturando pigmentos para fazer, e que depois usou para tingir as peças, ainda permanecia com o mesmo tom de musgo, mesmo depois de três décadas. Nenhuma das contas e conchas haviam se soltado.
Enquanto Sylvia fazia uma trança longa e grossa em seu cabelo prateado, ela começou a cantar em voz alta Song for a Woman who was Brave in War.
Ela colocou brincos de prata e turquesa.
A sua voz ficava mais alta e mais baixa, acompanhando a batida dos seus pés descalços, enquanto ela pendurava colares de turquesa em volta do pescoço, colocando um em cima do outro, para sentir o seu peso familiar e seguro.
Sylvia envolveu seus pulsos finos com braceletes de turquesa e pulseiras menores de prata e turquesa – sempre turquesa – até os dois antebraços estarem quase completamente preenchidos, do pulso ao cotovelo.
Só então Sylvia pegou seu bastão de defumação e uma caixa de fósforos longos e saiu do seu quarto.
Ela deixou que o seu espírito guiasse os seus pés descalços. O espírito dela não a levou para o riacho borbulhante que corria atrás da sua casa, onde ela normalmente saudava o amanhecer. Em vez disso, Sylvia se viu no meio da sua ampla varanda frontal.
Continuando a seguir os seus instintos, ela acendeu o bastão de defumação. Com graça e movimentos hábeis pela prática, Sylvia começou a girar em volta de si mesma junto com os aromas de erva-doce e lavanda. Quando ela foi engolfada pela fumaça dos pés à cabeça, ainda cantando a canção de guerra das Sábias Cherokee, Neferet saiu de um poço de Trevas, materializando-se diante dela.


Neferet

A voz de Sylvia Redbird soava como o barulho de giz arranhando um quadro-negro.
— De acordo com o seu sistema de crenças, é falta de educação não saudar um convidado — Neferet levantou a voz para poder ser ouvida mais alto do que a canção horrível daquela velha.
— Você não é convidada. Você não recebeu nenhum convite para vir à minha casa. Isso faz de você uma intrusa. De acordo com as minhas crenças, eu a estou saudando adequadamente.
Neferet sorriu. A velha havia parado de cantar, mas ainda estava batendo seus pés descalços em um ritmo repetitivo.
— Essa canção é quase tão irritante quanto essa fumaça. Você realmente pensa que esse fedor a protege?
— Eu penso muitas coisas, Tsi Sgili — Sylvia respondeu, ainda agitando a grossa varinha de ervas em volta de si mesma, enquanto dançava sem sair do lugar. — Neste momento, estou pensando que você quebrou a promessa que fez para mim quando minha u-we-tsia-ge-ya entrou no seu mundo. Eu a censuro por isso.
Neferet estava quase achando graça na insolência daquela velha.
— Eu não fiz nenhuma promessa a você.
— Você fez. Você prometeu ser a mentora e protetora de Zoey. E então você quebrou essa promessa. Você tem uma dívida comigo por essa promessa quebrada.
— Velha, eu sou uma imortal. Não estou presa às mesmas regras que você — Neferet zombou.
— Você pode ter se tornado imortal. Isso não muda as leis da Mãe Terra.
— Talvez não, mas muda o modo como elas são aplicadas — Neferet afirmou.
— Essa promessa quebrada é apenas uma das dívidas que você tem comigo, bruxa — Sylvia disse.
— Eu sou uma deusa, não uma bruxa! — Neferet sentiu a sua raiva aumentar.
Ela começou a se aproximar da varanda devagar. As gavinhas de Trevas deslizaram junto com ela, apesar de Neferet sentir a sua hesitação quando tufos de fumaça branca flutuaram para baixo, parecendo se dissolver em volta delas.
Sylvia continuava dançando e agitando o bastão ao seu redor.
— A segunda dívida que você tem comigo é maior do que uma promessa quebrada. Você tem uma dívida de vida comigo. Você matou a minha filha.
— Eu sacrifiquei a sua filha por um bem maior. Não devo nada a você!
A velha mulher não prestou atenção nela. Em vez disso, ela fez uma pausa em sua dança para se inclinar e colocar as ervas fumegantes aos seus pés. Então ela levantou o rosto e ergueu os braços, como se estivesse abraçando o céu.
— Grande Mãe Terra, ouça-me. Eu sou Sylvia Redbird, Sábia Cherokee e Ghigua da minha tribo, aquela da House of Night. Eu imploro misericórdia. A Tsi Sgili, Neferet, que já foi Alta Sacerdotisa de Nyx, cometeu perjúrio. Ela tem uma dívida comigo por uma promessa quebrada. Ela também é a assassina de minha filha. Ela tem uma dívida de vida comigo. Eu invoco a sua ajuda, Mãe Terra, e proclamo que essas duas dívidas devem ser quitadas. O pagamento que eu solicito é proteção.
Ignorando as gavinhas de Trevas que estavam se acovardando em volta dela, Neferet se aproximou de Sylvia, subindo os degraus para a varanda enquanto dizia:
— Você está completamente enganada, velha. Eu sou a única deusa que a está ouvindo. Eu sou a imortal para quem você devia estar implorando proteção.
Neferet entrou na varanda cheia de fumaça quando Sylvia falou novamente. A voz da velha mulher havia mudado. Quando invocou aquela a quem chamava de Grande Mãe, a voz dela estava poderosa, mais baixa e suave. Os seus braços não estavam mais abertos. O seu rosto suplicante não estava mais levantado para o céu. Em vez disso, os seus olhos escuros encontraram o olhar de Neferet sem se abalar.
— Você não é nenhuma deusa. Você é uma garotinha ferida, com o espírito maldoso. Tenho pena de você. O que aconteceu com você? Quem a feriu, filha?
A raiva de Neferet era tão intensa que ela sentia que ia explodir. Sem se lembrar dos filamentos de Trevas, ela atacou Sylvia, querendo ferir, cortar e dilacerar aquela velha horrorosa com suas próprias mãos.
Com um movimento tão rápido que contrariava a sua idade, Sylvia colocou os braços na frente do seu rosto defensivamente, e recebeu a explosão de ódio de Neferet.
A dor fulminou o corpo da Tsi Sgili, irradiando-se das suas mãos. Neferet berrou e se esquivou para trás, olhando para as marcas sangrentas que ficaram em seus pulsos, queimadas com a forma exata das pedras azuis dos braceletes que envolviam os braços murchos da velha.
— Você se atreve a me atacar! A atacar uma deusa!
— Eu não ataquei ninguém. Eu só me defendi com as pedras de proteção com que a Grande Mãe me presenteou.
Sem deixar de olhar para ela, e mantendo levantados os seus braços envolvidos em turquesa e prata, a velha mulher começou a cantar de novo.
Neferet sentia vontade de despedaçá-la. Mas, enquanto se aproximava mais da Cherokee, ela podia sentir a onda de calor que se irradiava das pedras azuis das quais ela estava coberta. Era como se elas pulsassem com um fogo equivalente à sua própria fúria.
Ela precisava do touro branco! As Trevas geladas dele iriam extinguir as chamas da velha. Talvez a energia estranha que ela ostentava o surpreendesse e ele emprestasse novamente a Neferet o seu poder encantador.
Controlando a sua raiva, Neferet deu um passo para trás, saindo do anel de fumaça e calor que engolfava Sylvia. Ela analisou a velha mulher, observou a sua dança, escutou a sua canção. Antiga. Ancestral. Tudo em relação a Sylvia Redbird dizia que ela e o poder da terra que ela portava já estavam ali havia muito tempo.
O touro branco também era ancestral. Aquela índia não iria surpreendê-lo.
— Eu mesma vou lidar com você.
Ainda sustentando o olhar de Sylvia Redbird, Neferet levantou suas mãos e, sem a menor hesitação, usou suas unhas afiadas para abrir as feridas feitas pelas turquesas protetoras da velha. O seu sangue fluiu livremente, respingando na varanda. Neferet sacudiu as mãos, borrifando gotas escarlates através da nuvem de fumaça, tingindo a velha com pontos vermelhos brilhantes, que eram um contraste forte e gritante com os tons de verde e azul que ela usava. Então Neferet virou as palmas da mão para cima, deixando que o sangue se empoçasse ali.
— Venham, meus filhos das Trevas, bebam! — ela disse, e as gavinhas hesitaram no começo, mas tomaram coragem depois de provar o sangue de Neferet.
Neferet observou a índia arregalar os olhos e viu a sombra do medo dentro deles. Sylvia não deixou de olhá-la intensamente, mas a sua canção ficou vacilante. Sua voz começou a soar velha... fraca... trêmula.
— Agora, meus filhos! Vocês provaram o meu sangue e Sylvia Redbird foi ungida por ele. Aprisionem-na! Tragam-me a velha! — a voz de Neferet se transformou e ganhou ritmo. Sombriamente, ela espelhou a canção de guerra de Sylvia.

“Vocês não precisam matar
Vocês só precisam saciar a minha raiva.
Vocês já beberam o bastante.
Agora criem uma jaula para mim.
Vou transformar o velho em novo.
Vocês terão um banquete de juventude, vigor e força.
Ajam com precisão para mim.
E acabem com a canção dessa velha mulher!”

As gavinhas obedeceram Neferet. Elas evitaram as turquesas da velha e se enrolaram em volta dos seus pés descalços e sem ornamentos, interrompendo a sua dança cadenciada. Como o chão de uma jaula, Trevas se formaram a partir dos seus pés, espalhando-se e subindo por todos os lados, aprisionando Sylvia. Finalmente, a canção dela foi silenciada e substituída por um grito agonizante quando ela foi levantada e as Trevas seguiram a sua mestra, movendo-se através das sombras e das névoas e carregando a terrível jaula e a sua prisioneira.


Aurox

Aurox esperou até que o sol estivesse alto no céu do inverno antes de escalar o buraco de novo. A manhã estava acinzentada e cheia de nuvens, mas com o passar interminável das horas o sol do inverno tinha finalmente aparecido através da névoa e das sombras.
Ao meio-dia, quando o sol estava em seu ponto mais alto no céu, Aurox emergiu.
Ele não permitiu que aquela sensação de urgência que formigava em sua pele o deixasse imprudente. Aurox usou os músculos salientes dos seus braços para segurar firme nas raízes e ficar pendurado na beira do buraco, com a cabeça parcialmente para fora. Ele usou todos os seus sentidos paranormais para olhar em volta.
Eu preciso fugir sem ser visto, era o principal pensamento em sua mente.
A escola não estava tão silenciosa como havia ficado no dia anterior. Trabalhadores humanos estavam ocupados consertando a parte danificada do estábulo. Aurox não viu nenhum vampiro, mas o cowboy humano, Travis, parecia estar em toda parte. Sim, as mãos e os antebraços dele ainda estavam enfaixados com gaze branca, mas a voz dele era tão forte que atravessou os jardins da escola e chegou até Aurox.
Lenobia não apareceu no sol do meio-dia, mas ela não precisava. Travis estava lá por ela, e não simplesmente para lidar com os trabalhadores. O cowboy interagia livremente com os cavalos.
Aurox observou Travis mudando a grande Percherão e a égua negra de Lenobia de um cercado temporário para outro. Ele não apenas trabalha para Lenobia. Ela confia nele. Essa percepção surpreendeu Aurox. Se uma Alta Sacerdotisa pode confiar tanto em um humano nesse período de estresse e tumulto, talvez exista uma chance de que Zoey possa...
Não. Ele não ia se deixar iludir com uma fantasia dessas. Aurox havia escutado o que ele era. Zoey também tinha escutado. Todo mundo havia escutado! Ele fora criado pelas Trevas através do sangue vital da mãe de Zoey. Ele estava fora do alcance da confiança ou do perdão dela.
Só há uma única pessoa neste mundo que confia em mim... só uma pessoa que me perdoou. É para ela que eu tenho que ir.
Aurox ficou pendurado ali, espiando através das raízes e dos pedaços de casca de árvore, esperando... observando... Finalmente, os humanos começaram a se afastar do estábulo, conversando sobre como eles estavam felizes por poderem ir a pé até o Queenies e comerem um sanduíche Ultimate Egg no almoço. E eles estavam rindo. Amigos sempre riem.
Aurox desejava muito compartilhar risadas com amigos.
Quando eles estavam de costas para Aurox e as suas vozes desapareceram, ele puxou o próprio corpo para fora do buraco e, feito um macaco, escalou a árvore caída até o ponto em que ela encostava no muro da escola, saltando por cima dele.
Aurox queria sair dali em disparada, queria despertar a besta, rasgar o solo e correr com todo o seu poder sobrenatural. Em vez disso, ele se forçou a caminhar. Ele tirou a terra, as folhas e a grama da sua roupa. Passou os dedos pelo seu cabelo emaranhado, tirando o acúmulo de lama e sangue e tentando penteá-lo para ficar com alguma aparência de normalidade.
O normal era bom. O normal não era notado. O normal não era aprisionado.
O carro estava exatamente no mesmo lugar em que ele o havia deixado no dia anterior. A chave ainda estava na ignição. As mãos de Aurox tremeram apenas um pouco quando o motor começou a funcionar e ele saiu do estacionamento dos fundos da Utica Square, rumando para o sudeste, em busca de refúgio.
O percurso até lá pareceu rápido. Aurox ficou feliz com isso. Quando o carro fez o retorno para entrar na pista que levava até a casa de Vovó Redbird, ele abaixou os vidros das janelas. Apesar de o dia estar frio, ele queria inalar o aroma de lavanda e com isso aceitar a sensação de calma que aquele perfume oferecia. Assim como ele havia aceitado o refúgio que Vovó Redbird oferecera.
Quando Aurox estacionou na frente da sua ampla varanda frontal, tudo mudou. No começo ele não entendeu, não conseguiu processar aquilo. O cheiro o atingiu, mas ele lutou contra a compreensão que inalou simultaneamente.
— Vovó? Vovó Redbird? — Aurox chamou quando saiu do carro e correu pela lateral da pequena casa de campo.
Ele esperava encontrá-la perto do riacho cristalino; ela pertencia àquele lugar. Ela deveria estar cantarolando uma canção alegre. Cheia de paz. Segura. A salvo.
Mas ela não estava lá.
Uma premonição terrível tomou conta dele. Aurox se lembrou do cheiro fétido que havia chegado até ele misturado ao aroma de lavanda quando ele estacionou diante da casa de Vovó. Aurox correu.
— Vovó! Onde está você? — ele gritou enquanto rodeava a casa, com seus pés deslizando no cascalho que pavimentava o pequeno espaço de estacionamento na frente da casa.
Aurox segurou no corrimão da varanda e subiu os seis degraus em dois passos largos, parando no meio do amplo deque de madeira, na frente da porta fechada de Vovó. Aurox empurrou a porta para abri-la e correu para dentro.
— Vovó! Sou eu, Aurox, o seu tsu-ka-nv-s-di-na. Eu voltei!
Nada. Ela não estava ali. Aquilo parecia errado, muito errado. Aurox refez os seus passos, voltando para o meio da varanda. O cheiro era mais forte ali.
Trevas. Medo. Ódio. Dor. Aurox podia captar todas essas emoções e mais algumas no sangue salpicado na varanda. Enquanto ele estava parado ali, respirando pesadamente, absorvendo a terrível compreensão da violência e da destruição, a fumaça veio até ele. Ela se levantou em redemoinho ao redor dos seus pés calçados com mocassins de couro, levando até ele fragmentos de informação. Uma canção antiga estava impregnada na névoa cinza que se ergueu em volta dele como uma pluma. Dentro dela, Aurox podia escutar os ecos da voz corajosa de uma mulher.
Aurox fechou os olhos e inspirou profundamente. Por favor, ele suplicou silenciosamente, deixe-me saber o que aconteceu aqui. Sensações como o ódio e a ira o assaltaram. Essas sensações eram familiares, fáceis de entender.
— Neferet — ele murmurou. — Você esteve aqui. Eu sinto o seu cheiro. Eu sinto você.
Mas depois dessas emoções familiares, vieram aquelas que o fizeram cair de joelhos. Aurox sentiu a coragem de Sylvia Redbird. Ele reconheceu a sua sabedoria e a sua determinação, e depois finalmente o seu medo.
Ele se ajoelhou.
— Ah, Deusa, não! — Aurox gritou para o céu. — Este é o sangue de Neferet, derramado por Vovó Redbird. Neferet a matou como ela fez com sua filha? Onde está o corpo de Vovó?
Não houve nenhuma resposta, exceto o suspiro do vento e as grasnadas irritantes de um enorme corvo que se empoleirou no parapeito da varanda.
— Rephaim! É você? — Aurox passou a mão pelo seu cabelo sujo enquanto o corvo o encarava, inclinando a cabeça para um lado e depois para o outro. — Eu queria que a Deusa tirasse o touro de dentro de mim e me transformasse em um pássaro. Se ela fizesse isso, eu subiria ao céu e voaria para sempre.
O corvo deu uma grasnada para ele e então abriu suas asas e saiu voando, deixando Aurox completamente sozinho.
Dividido em partes iguais, Aurox queria chorar de desespero e frustração ou despertar a besta dentro dele e atacar alguém, qualquer um, para descarregar a raiva e o medo. O garoto que era também uma besta escolheu não fazer nenhuma das duas coisas. Em vez disso, Aurox não fez nada – nada mesmo, exceto pensar.
Aurox ficou sentado na varanda de Vovó por bastante tempo e, em meio aos resíduos de sangue, fumaça, medo e coragem, raciocinou para chegar à verdade.
Se Neferet tivesse matado Vovó Redbird, o corpo dela estaria aqui. Ela não tem nenhum motivo para esconder os seus malfeitos. Os seus crimes já foram descobertos. Thanatos cuidou disso. Então, o que será que Neferet quer mais do que a morte e a destruição?           
A resposta era tão simples quanto horrível.
Neferet quer criar o caos, e um modo muito fácil de fazer isso é provocar dor em Zoey Redbird. Assim que esse pensamento chegou até Aurox, ele soube que era verdade. Vovó era única entre os mortais... ela era uma líder com muitos dons... amada por muitos. E poderosa. Vovó era poderosa.
Sylvia Redbird seria um sacrifício mais perfeito do que a sua filha tinha sido.
— Não! — a mente de Aurox afugentou aquele pensamento terrível.
Também era verdade que, capturando a amada avó de Zoey, Neferet tinha certeza de que a novata iria atrás dela com todo o seu impressionante poder. Ao fazer isso, ela também iria fragmentar a comunidade dos vampiros e espalhar o seu caos localmente.
— Seja para usá-la como sacrifício ou como refém, se Neferet mantiver Vovó Redbird presa, e Zoey tentar salvá-la, Neferet pode conseguir o que ela mais quer: caos e vingança. Bem, então alguém precisa salvar Vovó.
Aurox tomou a sua decisão rapidamente, apesar de saber que isso poderia muito bem significar o seu fim. O caminho de volta para Tulsa pareceu demorar muito mais tempo do que o normal.
Aurox teve bastante tempo para pensar.
Ele pensou em Neferet e no seu insensível desprezo pela vida. Ele pensou em Dragon Lankford e em como ele tinha lutado e superado a solidão e o desespero que haviam tentado dominar a sua vida. Aurox pensou na coragem daqueles que se levantaram contra um inimigo tão grande, e apenas a lembrança do touro branco lhe causou calafrios.
E Aurox pensou em Zoey Redbird.
Foi só bem depois do pôr do sol que Aurox chegou em Tulsa. Ele não pegou o caminho do obscuro estacionamento dos fundos da Utica Square. Em vez disso, Aurox passou pelas lojas fechadas do centro de compras, rumando para leste na Vigésima Primeira. Ele virou à esquerda no farol da Utica Street e depois à esquerda de novo no próximo quarteirão, entrando pelo portão da frente da House of Night e estacionando não muito longe do ônibus amarelo vazio.
Aurox respirou fundo. Fique calmo. Controle a besta. Eu posso fazer isso. Eu preciso fazer isso. Então ele saiu do carro.
Aurox havia pensado bastante no caminho da casa vazia de Vovó Redbird até ali, mas na verdade ele não havia planejados os detalhes do que deveria fazer quando chegasse à House of Night. Então, deixando que os seus instintos o guiassem, simplesmente começou a andar pelo campus.
Obviamente, era a hora do almoço. Os cheiros que vinham do refeitório no prédio principal fizeram sua boca salivar, e ele se deu conta de que não havia comido nada o dia todo. Automaticamente, os seus pés o levaram até o centro do campus, seguindo a comida.
Assim que ele pisou na calçada do lado de fora da entrada do refeitório, a grande porta de madeira se abriu e um grupo de novatos saiu, conversando e rindo com vozes tranquilas e familiares.
Zoey o viu antes de todo mundo. Ele percebeu isso porque ela arregalou os olhos de surpresa. Ela balançou a cabeça e estava começando a abrir a boca, como se fosse gritar algo para ele, quando a voz de Stark cruzou o espaço entre eles como uma flecha.
— Zoey, volte para dentro! Darius, Rephaim, venham comigo. Vamos pegá-lo!

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