2 de outubro de 2015

Capítulo 14

— Me deixa na porta escondida do muro. Eu ainda acho que não é uma boa ideia as pessoas acharem que estamos andando juntas — Aphrodite disse.
Eu virei a direita na rua Peoria e me dirigi de volta a escola. — Estou surpresa por você se importar tanto com o que elas acham.
— Eu não me importo. Eu me importo com o que a Neferet descobre. Se ela achar que nós duas somos amigas, ou apenas não somos inimigas, ela vai descobrir que compartilhamos informações sobre ela.
— E isso seria muito ruim — eu terminei por ela.
— Definitivamente — ela disse.
— Mas ela vai nos ver juntas de vez em quando porque você irá evocar a terra nos meus círculos.
Aphrodite me encarou. — Não, eu não vou.
— É claro que vai.
— Não, eu não vou.
— Aphrodite, Nyx te deu uma afinidade com a terra. Você pertence ao círculo. A não ser que você queira ignorar a vontade de Nyx. — Eu não acrescentei a palavra “de novo”, mas pareceu permanecer ficar no ar conosco.
— Eu já disse que vou fazer a vontade de Nyx — ela disse através dos dentes cerrados.
— O que significa que você vai fazer parte do Ritual da Lua Cheia hoje à noite — eu disse.
— Isso vai ser um pouco difícil, já que eu não sou mais membro das Filhas das Trevas. — Merda. Eu esqueci disso.
— Bem, então, você vai ter que voltar para as Filhas das Trevas. — Ela começou a dizer algo. Eu levantei a voz e falei mais alto que ela. — O que significa que você vai ter que jurar seguir nossas regras.
— Idiotas — ela murmurou.
— Você está fazendo aquela coisa com péssima atitude de novo — eu disse. — Então, você vai jurar?
Eu pude ver que ela estava mordendo os lábios. Eu esperei sem ninguém dizer nada e continuei dirigindo. Isso era algo que Aphrodite ia ter que decidir sozinha. Ela disse que queria reparar as merdas que fez e seguir a vontade da deusa. Mas querer algo e fazer são duas coisas bem diferentes. Aphrodite tem sido egoísta e maldosa por muito tempo. Às vezes eu podia ver uma faísca de mudança nela, mas a maior parte das vezes eu só via a garota que as Gêmeas chamavam de Bruxa do Inferno.
— Yeah, tanto faz.
— Como assim.
— Eu disse sim. Eu vou jurar obedecer suas regras idiotas.
— Aphrodite, parte do juramento significa que você não acredita que as regras são idiotas.
— Não, não tem nada no juramento que diz que não posso achar as regras idiotas. Só diz que eu tenho que ser autêntica pelo ar, fiel pelo fogo, sábia pela água, sensitiva pela terra, e sincera pelo espírito. Então sou autêntica dizendo que as regras são idiotas.
— Se é isso que você acha, porque as memorizou?
— Conheça teu inimigo — ela citou.
— Quem disse isso, afinal?
Ela deu nos ombros. — Alguém antigamente. O “teu” deixa claro que foi alguém velho.
Eu achei que ela estava falando cocô, mas não quis dizer nada (especialmente já que ela goza de mim por dizer cocô ao invés da palavra com m).
— Ok, aqui está. — Eu encostei. Graças a Deus, as nuvens que apareciam de madrugada tinham se multiplicado, e a manhã estava escura e emburrada. Tudo que Aphrodite tinha que fazer era cruzar o pequeno gramado que ficava entre a grama e o muro que cercava a escola, passar pela porta escondida, e então seguir a calçada até o dormitório. Como as Gêmeas diriam, fácil-fácil. Eu olhei para o céu, considerando se deveria pedir para o vento trazer mais nuvens para deixar ainda mais escuro, mas eu olhei para o rosto de Aphrodite e decidi que não, ela podia lidar com a luz do sol. — Então, você estará no ritual hoje à noite, certo? — eu perguntei, imaginando do porque estar levando tanto tempo para ela sair do carro.
— Yeah, estarei lá.
Ela soava distraída. Tanto faz. A garota era apenas estranha às vezes.
— Ok, te vejo mais tarde — eu disse.
— Yeah, te vejo mais tarde — ela murmurou, abrindo a porta e (finalmente) saindo do carro. Mas antes dela fechar a porta, ela se curvou e disse, — Algo parece errado. Você também não está sentindo?
Eu pensei. — Eu não sei. Eu estou me sentindo meio inquieta e estressada, mas isso pode ser por causa da morte da minha melhor amiga – ou melhor morta viva. — Então olhei mais perto para ela. — Você está ficando pronta para ter uma visão?
— Eu não sei. Eu nunca sei dizer quando vou ter uma. Mas eu tenho pressentimentos sobre as coisas às vezes e não tenho uma visão.
Ela parecia muito pálida e até um pouco suada (o que definitivamente não era normal para Aphrodite). — Talvez você devesse voltar para o carro. Provavelmente não tem ninguém acordado para nos ver entrar juntas de qualquer forma. — Aphrodite era uma chata, mas ver como as visões a faziam ficar indefesa e doente eu realmente não gostava da ideia de deixar ela ficar na luz do sol sozinha quando uma atingisse ela.
Ela se balançou, me lembrando de um gato saindo na chuva. — Vou ficar bem. Eu provavelmente só estou imaginando coisas. Vejo você hoje a noite.
Eu vi ela se apressar até o muro de pedra e tijolos que cercavam o terreno da escola. Enormes e antigos carvalhos se alinhavam no muro, fazendo sobras que de repente pareciam sinistras. Jeesh, agora eu estava imaginando coisas? Eu tinha a mão no volante e estava mudando a marcha para poder me aproximar quando Aphrodite gritou.
As vezes eu não penso. Meu corpo assume e eu apenas ajo. Essa foi uma dessas horas. Eu sai do carro e estava correndo até Aphrodite antes de poder pensar. Quando cheguei até ela, eu soube duas coisas ao mesmo tempo. Uma era que algo tinha um cheiro maravilhoso, meio familiar. O que quer que fosse, era um cheiro que estava na área como uma deliciosa névoa e eu automaticamente respirei fundo. A segunda coisa é que Aphrodite estava curvada, vomitando e chorando ao mesmo tempo, o que não foi muito agradável de se ver. Eu estava muito ocupada olhando para ela e tentando descobrir o que estava acontecendo e distraída pelo maravilhoso cheiro para notar. A princípio.
— Zoey! — Aphrodite chorou, ainda vomitando, — Chame alguém! Rápido!
— O que foi – uma visão? Qual o problema? — Eu peguei ela nos ombros e tentei dar apoio a ela enquanto ela continuava a vomitar.
— Não! Atrás de mim! Contra o muro... — Ela ficou com ânsia, mas não teve tempo para vomitar. — É tão horrível.
Eu não queria, mas meus olhos automaticamente olharam para cima atrás dela nas sombras do muro da escola.
Foi a coisa mais horrível que eu já vi. A princípio minha mente nem registrou o que viu. Mais tarde eu pensei que provavelmente era um mecanismo de defesa. Infelizmente, não durou muito. Eu pisquei e olhei por entre a escuridão. Algo parecia manchado, e molhado e –
E eu sabia o que aquele doce e sedutor cheiro era. Eu lutei contra a vontade de cair de joelhos e vomitar ao lado de Aphrodite. Eu senti o cheiro de sangue. Não era o cheiro ordinário de sangue humano, que já era muito delicioso. O que eu estava sentindo era o cheiro do sangue derramado de um vampiro adulto.
O corpo dela estava pregado grotescamente em uma cruz de madeira que estava parada contra o muro. Eles não pregaram só os pulsos e tornozelos dela. Eles também passaram uma grossa estaca de madeira no coração dela. Havia algum tipo de papel por cima do coração dela, preso num lugar perto da grotesca estaca. Eu podia ver que havia algo escrito nela, mas meus olhos não se focaram bem o bastante para ver o que estava escrito nele.
Eles também cortaram a cabeça dela, a cabeça da professora Nolan. Eu sabia que era ela porque eles colocaram a cabeça dela numa estaca de madeira do lado do corpo dela. O longo cabelo preto dela se mexia suavemente contra a brisa, parecendo obscenamente gracioso. A boca dela estava aberta em uma terrível careta, mas os olhos dela estavam fechados.
Eu agarrei o cotovelo de Aphrodite e fiz ela levantar. — Anda! Temos que chamar ajuda.
Se apoiando uma na outra, voltamos para o meu carro. Eu não sei como consegui ligar o Fusca e me afastar.
— Eu – eu – eu acho que eu vou vomitar de novo. — Os dentes de Aphrodite batiam tanto que ela mal podia falar.
— Não, você não vai. — Eu não podia acreditar no quão calma eu soava. — Respire. Se concentre. Tire forças da terra. — Eu percebi que eu estava automaticamente fazendo o que eu disse para ela fazer, só que no meu caso eu estava tirando força dos cinco elementos. — Você está bem — eu disse a ela com a energia canalizada do vento, fogo, água, terra, e espírito para manter longe a histeria e o choque a qual eu queria ceder. — Estamos bem.
— Estamos bem... estamos bem... — Aphrodite continuou repetindo. Ela estava tremendo tanto que eu peguei o canguro que eu mantinha no banco de trás. — Coloque isso ao seu redor. Estamos quase lá.
— Mas todos foram embora! A quem você vai contar?
— Nem todo mundo foi embora. — Minha mente trabalhou. — Lenobia nunca deixa os cavalos sozinhos por muito tempo. Ela provavelmente está aqui. — E então arfei para a escuridão. — E eu vi Loren Blake ontem. Ele vai saber o que fazer.
— Ok... ok... — Aphrodite murmurou.
— Me escute Aphrodite — eu disse firmemente. Ela virou os olhos bem abertos e chocados para mim. — Eles vão querer saber porque estávamos juntas, e especialmente eu estava te largando tão perto do muro.
— O que diremos?
— Eu não estava com você e eu não estava te largando. Eu fui visitar minha avó. Você estava... — eu pausei, tentando forçar minha mente atordoada a pensar. — Você estava em casa. Eu vi você voltando para a escola e te dei uma carona. Quando passamos pelo muro você sentiu que algo estava errado e paramos para olhar. Foi assim que achamos ela.
— Ok. Ok. Eu posso dizer isso.
— Você vai lembrar?
Ela respirou fundo. — Eu vou lembrar.
Eu não me incomodei em parar numa vaga direito. Eu parei o mais perto possível do prédio principal que tinha a residência dos professores. Eu esperei o suficiente para pegar Aphrodite de novo, e juntas corremos pela calçada até a antiga porta de madeira do prédio que parecia um castelo. Silenciosamente agradecendo a deusa pela política de não trancar as portas, eu abri a porta e entrei junto com Aphrodite.
E eu me encontrei com Neferet.
— Neferet! Você tem que vir! Por favor! É horrivel! — Eu chorei e me joguei nos braços dela. Eu não pude me impedir. Minha mente sabia que ela tinha feito coisas horríveis, mas a um mês atrás Neferet era uma mãe para mim. Não, na verdade, ela se tornou a mãe que eu queria ter, e meu pânico ao ver ela mandou uma onda de alívio pelo meu corpo.
— Zoey? Aphrodite?”
Aphrodite caiu contra a parede ao nosso lado e eu podia ouvir ela chorando. Eu percebi que eu comecei a chorar tanto que se não fosse pelos braços fortes de Neferet ao meu redor eu provavelmente não seria capaz de me manter de pé. A Alta Sacerdotisa me segurou gentilmente, mas firme longe de mim para poder olhar meu rosto. — Fale comigo, Zoey. O que aconteceu?
Eu tremi mais. Eu curvei a cabeça e cerrei os dentes, tentando me concentrar de novo e retirar força o suficiente dos elementos para poder falar.
— Eu ouvi algo e — Eu reconheci nossa professora de equitação, Lenobia, uma voz clara se aproximado no corredor de nós. — Pela deusa! — Do canto do olho eu vi que ela se apressou até Aphrodite e estava tentado dar apoio ao corpo fraco dela.
— Neferet? Qual o problema?
Minha mente se quebrou quando ouvi a voz familiar e vi Loren, o cabelo todo bagunçado como se ele estivesse dormindo, vindo da escadaria que levava para o loft dele enquanto ele colocava um moletom da House of Night. Meu olhar se trancou no dele e de alguma forma eu consegui encontrar força para falar.
— É a professora Nolan — eu disse, e me perguntei o quão clara e forte minha voz soava quando senti meu corpo se quebrando em pequenos pedaços. — Ela está perto da porta escondida no muro leste. Alguém a matou.

2 comentários:

  1. CARAMBA! Tomara que a Lenobia não morra, eu amo ela, o resto dos professores pode tudo ser assassinado, menos a Lenobia, please

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