10 de outubro de 2015

Capítulo 14 - Neferet

Nyx tirou de mim a única coisa que eu amava. Na sua toca, as palavras sussurraram ao redor dela, fazendo as gavinhas de Trevas estremecerem contra sua pele. Envolvida pelo seu casulo frio com toque afiado, Neferet viajava pelo tempo e por diferentes dimensões através da sua consciência, saltando como uma pedra sobre um lago plácido, enquanto entrava em contato com o passado.
Como caloura, ela já era respeitada e valorizada. Depois da sua Transformação em vampira, era inevitável que Neferet se tornasse uma Alta Sacerdotisa. Ela não teve que ir atrás desse título. Ele viera até ela sem esforço, como ela tão abundantemente merecia.
Da mesma forma, o guerreiro chegou até ela.
O nome dele era Alexander. Ela se lembrou da primeira vez que o viu nos Jogos de Verão. Naquele dia, ele havia se tornado Mestre da Espada e derrotado todos os competidores para obter a coroa, que era uma guirlanda de oliveira trançada com fitas vermelhas. Como a mais jovem Alta Sacerdotisa da House of Night, Neferet tinha colocado a coroa em sua cabeça e dado o beijo cerimonial da vitória em seus lábios.
Ela se lembrou de sentir o cheiro do seu suor misturado ao do sangue dos oponentes que ele havia derrotado. Os olhos dele a haviam seguido pelo resto da cerimônia. Mais tarde, ele lhe dissera que nunca tentaria seduzi-la naquela noite, pois estava todo sujo, ainda coberto do sangue coagulado da competição. Mas Neferet o havia seduzido, e não havia permitido que ele se lavasse e se preparasse para ela.
Ele costumava sorrir e contar várias vezes a história de como a sua Alta Sacerdotisa sentira tanto desejo por ele que nem quisera esperar que ele se banhasse. O que Alexander não havia entendido até que fosse tarde demais é que Neferet havia sentindo tanto desejo por ele por causa do sangue e do suor que o cobriam.
Durante o restante dos Jogos de Verão, Alexander se apaixonou por ela. Tanto que solicitou a transferência da House of Night de Nova York para a escola de Tower Grove de St. Louis, onde Neferet dava aula de Feitiços e Rituais. Como o novo vitorioso coroado dos Jogos de Verão, o seu pedido de transferência estava garantido.
Neferet o teria descartado logo após a chegada dele, como ela fez com todos os seus amantes anteriores, não fosse pela gatinha: Alexander tinha, é claro, escutado a história da morte de Chloe e do grande “dom” que Neferet havia recebido de Nyx naquela noite. Então depois que chegou à House of Night de Tower Grove, ele se ajoelhou, curvou-se reverentemente diante dela e tirou de uma mochila em suas costas uma gatinha preta manhosa que bateu na mão dele com pequenas garras afiadas que reluziam de todos os seus doze dedos.
Neferet estendeu os braços para pegar a gatinha.
— Uma polidáctila! Onde você a encontrou?
— No cais da margem do East River, do lado de Manhattan. Os marinheiros gostam de gatos com seis dedos. Eles juram que eles matam o dobro de ratos do que os gatos com os dedos normais. Quando eu a encontrei, sabia que você devia pertencer a ela, assim como eu sabia que você devia pertencer a mim.
Encantada com o olhar travesso da gatinha, Neferet não descartou Alexander.
Ele era um guerreiro poderoso. O talento de Alexander com a espada quase emparelhava ao talento de Neferet para curar. Neferet gostava da ironia do amor dele por ela. Ele podia abater os homens. Neferet podia curá-los – mesmo que essa cura não fosse nada mais do que um toque que suavizasse o caminho deles até o Outromundo.
É claro que Alexander não costumava abater homens – a menos que ele ou a House of Night estivesse ameaçados, e em 1899 havia poucos que se atreviam a ameaçar a poderosa e rica House of Night de Tower Grove.
Entediada, Neferet começou a ignorar Alexander. Ela tinha a pequena Claire, outra gata adorável e travessa toda sua. Ela tinha as suas ocupações na House of Night. E, o mais importante, ela tinha poderes que estavam crescendo mais a cada dia. Todas essas coisas eram mais interessantes que o honrado, dependente e enfadonho Alexander. Ela nem teve que usar as suas habilidades de empatia para prever as suas declarações de amor eterno. Ela teve que usar a sua capacidade de diplomacia para suportá-las sem bocejar.
No começo de 1900, Neferet recebeu um convite incomum. Ela foi a Alta Sacerdotisa mais jovem a ser convidada para a Assembleia na Ilha de São Clemente durante a qual o Conselho Supremo iria liderar uma discussão sobre o rumo que a sociedade dos vampiros deveria tomar nesse novo século, no qual eles acreditavam que as invenções, a ciência e a tecnologia iriam avançar a uma velocidade sem precedentes.
Alexander implorou para que Neferet permitisse que ele a acompanhasse. Ela recusou inflexivelmente. Ela não tinha a menor intenção de tolerar a sua atenção constante e enjoativa lá, onde haveria tantos novos guerreiros para escolher. Afinal, os guerreiros mais condecorados, poderosos e experientes sempre eram escolhidos para proteger o Conselho Supremo dos Vampiros da Noite da Ilha de São Clemente.
Ela permitiu que ele conduzisse a carruagem que iria levá-la até o Rio Mississipi, onde estava o barco a vapor da House of Night que a levaria como se ela fosse uma rainha – ou melhor, uma deusa – até o porto de Nova Orleans. Lá ela iria se juntar a muitas outras Grandes Sacerdotisas para a travessia do Atlântico.
Eles tinham acabado de chegar ao cais onde estava o barco a vapor quando os ladrões atacaram. Confundindo a magnífica carruagem de mogno da House of Night com a de um jogador rico, os seis humanos, atraídos por uma carruagem tão opulenta com apenas um motorista e sem guardas adicionais, atacaram Alexander. Na escuridão, eles não viram as tatuagens elaboradas que o Marcavam para sempre como vampiro. Já era tarde demais quando eles viram a sua espada.
Neferet assistiu da janela da carruagem, encantada, Alexander matar seis atacantes rapidamente e brutalmente. Neferet pensou que o som que a espada dele fazia quando cortava o ar devia ser como o canto das míticas Valquirias pairando acima de um campo de batalha nórdico, esperando para escolher os guerreiros mortos que elas levariam para Valhalla.
Gotejando de sangue, ele correu até a porta da carruagem e a abriu impetuosamente. Respirando ofegante, ele disse:
— Minha Sacerdotisa! Graças a Deusa você não se feriu.
— Acho que devo agradecer a você — ela o possuiu ali, coberto de sangue, ainda carregando o cheiro forte e doce da batalha. O sangue de ambos pulsava quente pela matança.
Depois de tudo, ele se ajoelhou diante dela e se curvou, dizendo:
— Alta Sacerdotisa Neferet, amor da minha vida, eu Juro servi-la como o seu guerreiro, com meu corpo, meu coração, minha mente e minha alma. Por favor, aceite-me!
— Eu aceito o seu Juramento — Neferet se ouviu dizer enquanto o seu corpo ainda pulsava pelo toque dele. — De agora em diante você será o meu guerreiro.
Levou exatamente um dia e uma noite inteiros para que ela se arrependesse de ter aceitado o Juramento de Alexander. Felizmente, os dons de empatia de Neferet permitiam que ela fosse capaz de conter o fluxo de emoções que normalmente corria entre um guerreiro sob Juramento e a sua Alta Sacerdotisa. Alexander lamentava o fato de não conseguir sentir as suas necessidades nem ouvir as suas emoções. Ele se queixou de que, se ela estivesse em perigo, ele não saberia disso, como qualquer guerreiro Juramentado deveria saber.
Neferet apenas deu de ombros e disse que era uma ironia que as suas habilidades de empatia de algum modo negassem o compartilhamento psíquico entre guerreiro e Sacerdotisa. Ele foi um tolo de acreditar nela. Como ele não conseguia enxergar que era ela quem controlava a ligação deles? Se Neferet se importasse mais, teria explicado que ele deveria ser grato por não conseguir saber os verdadeiros pensamentos e emoções dela. Quando eles chegaram a Veneza, Neferet havia pensado em atirá-lo para fora do navio exatamente trezentas e sessenta e uma vezes, apesar de ele ter passado toda a viagem felizmente sem saber da verdade.
Neferet estava certa sobre os guerreiros de São Clemente. Eles eram espetaculares. E ofuscando todos estava Artus, o Mestre da Espada do Conselho Supremo.
Artus tinha o porte de um deus. Ele era indiferente e intocável. A palavra dele era lei para os Filhos de Erebus. Ele respondia apenas a Duantia, líder do Conselho Supremo.
E, o mais importante, ele adorava batalhas. Ele era impiedoso e só terminava as sessões de treinamento depois de tirar sangue pelo menos três vezes de cada oponente e de fazer um se render formalmente a ele.
Artus não era bonito – era glorioso. Ele era alto. Os seus músculos eram longos e delgados. A pele dele era negra como se as asas de um corvo. Ao contrário de Alexander, cujo corpo jovem e musculoso era liso e sem cicatrizes, Artus era coberto de evidências que ilustravam uma vida de violência.
Mas não era apenas a sua aparência que atraía Neferet. Era o que fervia abaixo dela. Neferet usou o seu dom e esquadrinhou a mente dele, leu os seus desejos, conheceu as suas necessidades. Artus se excitava com a dor. Era por isso que ele exigia tanto dos seus guerreiros. Foi assim ele se tornou o líder Mestre da Espada do século anterior e havia permanecido nessa função no novo século. Era por isso também que ele não havia se ligado por Juramento a nenhuma Sacerdotisa. Ele não queria que nenhuma delas conhecesse a sua verdadeira natureza nem descobrisse as suas reais necessidades. Em vez de tomar uma vampira como amante, Artus escolhia prostitutas humanas para saciar os seus desejos. Surpreendentemente, Neferet escutou poucas fofocas sobre a escolha de parceira de cama de Artus. As outras Grandes Sacerdotisas o achavam desconcertante. Ele era muito indiferente, muito sério. Ele fazia o seu trabalho melhor do que qualquer guerreiro no mundo – era só isso que importava para as vampiras de São Clemente. Era só isso que as outras sabiam sobre ele. Mas Artus não podia se esconder de Neferet. Para ela, ele era um pergaminho escrito a sangue, fácil de ler, fácil de apreciar. Neferet o desejava mais do que ela há havia desejado qualquer um. Ela ficou determinada a possuí-lo.
Seduzir Artus era mais difícil do que Neferet esperava. Neferet ofuscava a todas, mesmo no meio da beleza sobrenatural das mais importantes e poderosas Grandes Sacerdotisas da sua época. Mas Artus parecia invulnerável à beleza de Neferet.
A indiferença dele serviu apenas para acender mais o desejo dela por ele.
Ela o analisou. Aprendeu os seus hábitos. Neferet se vestiu com o traje cerimonial tradicional das antigas Grandes Sacerdotisas italianas, que deixava os seus seios à mostra, o seu cabelo enfeitado com flores e hera, e os seus quadris viçosos envoltos, o seu tecido transparente da cor do rubor de uma virgem. Então ela se certificou de que iria liderar o traçado do círculo que diariamente pedia as bênçãos de Nyx para os guerreiros Filhos de Erebeus.
Ela podia sentir os olhos de Artus em seu corpo, mas, quando ela tentava encontrar o olhar dele e atrair mais a sua atenção para ela, ele sempre desviava os olhos rapidamente.
Infelizmente, Alexander não desviava os olhos dela. Nunca. O seu guerreiro achava que a razão pela qual ela estava gastando tanto tempo e atenção com os guerreiros no ginásio era por devoção a ele. Alexander se pavoneava por causa disso, gostando dos olhares invejosos dos seus novos amigos guerreiros. Ele se vangloriava de o poder de Neferet ser tão grande quanto a sua beleza. Ele atendia cada capricho dela como um cachorrinho. Alexander a desconcertava tanto quanto a irritava. Como ele não percebia que ela apensas o aceitou porque não pensou muito? Ela sondou a mente do guerreiro procurando algum subterfúgio, mas não encontrou nenhum. Os sentimentos dele eram verdadeiros. Ele era completamente apaixonado por ela e estava totalmente iludido achando que ela sentia o mesmo por ele.
Alexander não podia estar mais errado.
Neferet ansiava por algo mais sombrio, mais sensual, que a satisfizesse mais plenamente. Ela ansiava por Artus. Na próxima vez em que ela liderou a Oração do Guerreiro e sentiu os olhos de Artus roçarem o seu corpo, Neferet se concentrou na força total do seu dom e investigou profundamente a mente dele. Ela foi fartamente recompensada. Ela descobriu exatamente como seduzir o guerreiro indiferente.
Neferet preparou o terreno cuidadosamente. Ela esperou até um pouco depois do amanhecer. Ela sabia que Artus já teria terminado de treinar os guerreiros. Ele estaria em seus aposentos, nos fundos do ginásio, preparando-se para descansar por seis horas. Então ele iria assumir o turno mais desconfortável de guarda, durante as horas em que o sol estava mais brilhante no céu.
A Alta Sacerdotisa presumia que Artus havia escolhido esse turno por causa da sua devoção a eles. Neferet sabia a verdade por trás dessa crença conveniente. Artus tinha prazer na dor física que o turno desconfortável e o sol causavam nele. Neferet guardou esse segredo delicado para ela quanto arquitetava a sua sedução.
Primeiro, ela se livrou do guerreiro novato que serviria como assistente de Artus. Essa foi a parte mais fácil. Ela permitiu que o novato a acariciasse – ela fingiu que sentia desejo pela sua juventude e pelo seu corpo perfeito. Ela o fez acreditar que iria enviar um novato em seu lugar naquele amanhecer para servir Artus, se o garoto fosse se encontrar com ela em uma hospedaria discreta na vizinha Ilha Tocella.
É claro que depois ela iria negar ter tentado seduzi-lo. Na verdade, ela se divertiu em pensar qual punição Artus iria dar a ele depois de descobrir por que o garoto havia escapado de suas obrigações.
Em seguida, ela se desvencilhou de Alexander. Ela tinha pensado em mandá-lo até Veneza para encontrar um corte de seda perfeito em uma cor impossível de achar, mas ela não gastou sua energia para inventar uma missão para enganá-lo. Em vez disso, ela esperou até que ele estivesse com a atenção em outro lugar e invocou a névoa, sombras e escuridão para desaparecer antes que ele pensasse que precisaria procurar por ela – e ela tinha certeza de que ele iria fazer isso. Ele sempre procurava por ela. Neferet sorriu de desgosto. Por que ela deixara que sangue e luxúria a acorrentassem a um ser tão previsível e entediante? Neferet deu de ombros e afastou o pensamento desagradável sobre Alexander e a sua devoção. Ela não iria mais pensar nele – ela não queria estragar o prazer que ela tinha certeza de que se aproximava.
Corada de excitação, Neferet foi sem ser vista até o ginásio. Ela entrou pela porta dos fundos – a mais próxima dos aposentos de Artus. Então ela esperou.
Neferet não teve que esperar muito. Como ela já havia descoberto, Artus era um vampiro dos hábitos regrados. Exatamente trinta minutos após o amanhecer, como o seu novato não apareceu, ele abriu a porta do quarto e gritou rispidamente:
— Salvatore! Onde você está, garoto?
— Salvatore não está aqui. Ninguém está aqui além de nós dois — ela disse.
Quando saiu de seus aposentos, ele estava franzindo a testa, com o cabelo molhado, o peito nu e apenas uma toalha enrolada meio solta em volta do seu quadril esbelto.
— Sacerdotisa, você se perdeu do seu guerreiro?
Neferet empinou o queixo e falou com a voz dura:
— Guerreiro, você perdeu o respeito? Eu sou a Alta Sacerdotisa. Espero ser saudada como tal.
Artus levantou uma sobrancelha escura, mas obedeceu, colocando a mão em punho sobre o coração e se curvando para ela.
— O que posso fazer por você, Neferet?
— Ah, você sabe o meu nome.
— Todos na Ilha de São Clemente sabem o seu nome. O que posso fazer por você, Neferet? — ele repetiu.
— Eu estou aqui para uma aula — ela respondeu.
— O seu guerreiro é um Mestre da Espada talentoso. Por que não ter uma aula com ele?
Ela curvou os lábios carnudos em um sorriso e ronronou:
— Ah, mas você me entendeu mal. Eu não estou aqui para ter aula. Estou aqui para dar aula.
Ele arregalou os olhos escuros quando ela tirou uma tira de couro das dobras do seu vestido e levantou a adaga que estava escondendo atrás dela. Então ela cortou a alça dos seus ombros, e seu vestido deslizou pelo seu corpo até o chão. Nua, ela caminhou até ele, sem falar nada até estar bem próxima.
— Coloque suas mãos à frente e junte os pulsos.
— Neferet, o que você...
— Eu não permiti que você falasse! Faça o que mando! — ela ordenou.
Como ele apenas ficou parado ali feito uma estátua, ela levantou a adaga e a encostou no peito dele.
Ele respirou fundo, mas não se moveu nem desviou os olhos dela.
Neferet sorriu, mas falou de um jeito mordaz e cruel:
— Obedeça-me!
— Sim, Grande Sarcedotisa — a voz dele havia se tornado penetrante. Ele levantou as mãos, juntando os pulsos.
Neferet amarrou a tira de couro em volta deles, apertando até perceber que estava desconfortável. A respiração de Artus estava ficando acelerada. O suor começou a brotar do seu corpo de ébano.
— Ótimo, mas você não me obedeceu rápido o bastante. Eu devo puni-lo, mas só se você implorar.
Os olhos deles se encontraram. Ela viu choque e então compreensão e desejo dentro dos olhos dele.
— Por favor, Neferet, puna-me — ele implorou.
Ela ficou feliz em atender o seu pedido.
Na sua toca, o corpo de Neferet se aqueceu ao se lembrar de como ela o havia punido. Ela estava montando em Artus, imaginando-se como uma deusa ancestral montando um touro de sacrifício, quando Alexander os encontrou. Ele gritou o nome dela, soando como um garoto da escola magoado. Totalmente absorta pelos espasmos de êxtase e dor, ela desmontou de Artus para encarar Alexander, derrubando as barreiras que ela havia construído entre eles.
— Veja quem eu realmente sou! Veja o que eu realmente penso de você!
As emoções dela bombardearam Alexander. Ela se lembrava de como o rosto dele havia ficado pálido quando ele soluçou e saiu correndo do ginásio.
Quase tão pálido quanto no dia seguinte, quando ele foi encontrado caído sobre a sua própria espada, depois de ter acabado com a sua vida miserável e tediosa.
Ela teve que fingir estar arrasada em público, é claro, não pela primeira vez nem pela última em sua vida. Ela inventou uma história que retratou Alexander como um jovem guerreiro perturbado. Ela chorou e disse que havia aceitado o seu Juramento porque acreditava que tinha a capacidade de curá-lo. A sua preocupação com as emoções instáveis dele era o motivo de ela estar passando tanto tempo no ginásio – era a razão pela qual ela havia insistido em liderar a Oração do Guerreiro.
O Conselho Supremo havia reagido com compaixão, elogiando-a pela sua tentativa de curar alguém que obviamente estava tão frágil. Isso não havia sido surpresa. Neferet era perita em manipular Grandes Sacerdotisas. A reação de Artus ao suicídio de Alexander é que tinha sido uma surpresa.
Ela foi até ele no próximo amanhecer, encobrindo-se de escuridão e entrando discretamente nos aposentos dele. Ele a rejeitou completamente. As suas palavras foram respeitosas, mas ela viu dentro dele. Artus estava sentindo repugnância por ela.
Neferet cortou as suas desculpas tão meticulosamente quanto havia cortado a sua pele.
— Conte a qualquer um por que Alexander realmente se matou, e eu vou explicar em detalhes ao Conselho Supremo sobre a sua necessidade de punição. Você sabe o que aconteceria. É por isso que você esconde os seus desejos com prostitutas humanas, pagando pelo silêncio delas. Se o Conselho Supremo descobrir isso, vai acreditar corretamente que essa sua necessidade o afeta como guerreiro e vai tirar você de seu posto.
— Você é totalmente desprovida de compaixão — a versão na voz dele nunca saiu da cabeça de Nerefet.
— Nós dois usamos máscaras, não é? Guarde o meu segredo e eu guardarei o seu.
Neferet partiu da Ilha de São Clemente no dia seguinte, logo depois de acender a pira de Alexander. O Conselho Supremo havia sido compreensivo. É claro que ela deveria voltar para a sua House of Night imediatamente. A perda de um guerreiro Juramentado podia mudar a vida de uma Alta Sacerdotisa!
Artus ficou em silêncio.
Um ano depois, Neferet soube como o Conselho Supremo havia ficado chocado quando o corpo dele foi encontrado boiando no Grande Canal. Não havia nenhum sinal de violência em seu corpo, apenas duas de muitas cicatrizes. Aparentemente, ela havia se afogado de propósito. Neferet sorriu com a notícia.
Sozinha na viagem de volta, Neferet havia caído em desespero. Ela tinha começado a acreditar que não haveria nenhum homem, humano ou vampiro, que pudesse ser um par à altura dela. O seu desespero ia ficando cada vez maior enquanto o fim da viagem se aproximava. Ondas de emoção, junto com as do oceano, se levantavam diante dela e batiam contra a costa, penetrando o chão e ensopando a terra.
Foi então que os sonhos começaram. Ela sonhou que estava envolta em poder, coberta de grandeza, apreciada além da dor e do prazer.
“Nenhum mortal está à sua altura porque você merece se unir a um deus!”
Aquela bela voz sussurrou, e Neferet começou a ouvir.

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