9 de outubro de 2015

Capítulo 14 - Neferet

Neferet não teria visto a entrevista se ela não tivesse chamado o serviço de quarto até a sua cobertura. O subserviente garoto loiro era quase jovem demais para despertar o interesse dela. O último mensageiro que havia tido a sorte de atender ao seu chamado ia ter que tirar uma licença médica do trabalho pelos próximos dias. Fraco e cheio de hematomas, ele não iria se lembrar de nada, além da fascinação pela sua beleza e de uma série de sonhos eróticos e sombrios. Sonhos febris – o seu médico sem dúvida iria chamá-los assim. Os humanos eram criaturas tão frágeis. Era uma pena que ela precisasse constantemente encontrar novos brinquedinhos.
Neferet analisou o mensageiro. Ele era alto e parecia extremamente nervoso. A sua pele era ruim. Ele praticamente exalava virgindade por todos os seus poros dilatados. Pensando que sangue virgem iria combinar bem com a garrafa resfriada de champanhe que ele estava trazendo, ela fez um gesto em direção à sua sala de estar.
— Por favor, traga a garrafa aqui para dentro — Neferet ronronou.
O sangue virgem era tão doce que aquela aparência ruim e as mãos cheias de suor podiam ser facilmente ignoradas. Afinal de contas, ela não ia tocá-lo. Pelo menos não muito...
— Aqui está bem, madame?
Os olhos dele continuavam passeando rapidamente dos seios dela para a sua boca e depois de volta para a garrafa que ele estava abrindo, enquanto ele fedia a desejo sexual, medo e fascinação.
— Aqui está perfeito — Neferet deslizou uma unha comprida e pontuda pelo corpete decotado do seu robe de seda.
— Uau — ele engoliu em seco, tirando a folha metálica dourada da boca da garrafa de champanhe com mãos trêmulas e inexperientes. — Espero que não se importe por eu dizer isto, mas você é muito mais bonita do que aqueles outros vampiros no telejornal.
— Outros vampiros? Telejornal?
— Sim, madame. Eles estão agora no jornal da noite da Fox23.
— Ligue a TV para mim! — ela falou rispidamente.
— Mas o champanhe não está...
— Deixe a garrafa de lado! Eu sou plenamente capaz de abri-la sozinha. Ligue a TV no telejornal e vá embora.
O garoto fez o que ela ordenara e então se retirou envergonhadamente, ainda dando olhares desejosos para ela. Neferet não prestou atenção nele. Ela estava totalmente absorta na cena que se descortinava à frente dela na grande televisão de tela plana.
Thanatos, Zoey e alguns do seu grupo estavam lá. Eles estavam ao ar livre na House of Night, bem agrupados e conversando facilmente com o repórter. Neferet franziu a testa. Todos pareciam tão normais.
Ela sorriu um pouco quando ouviu Thanatos explicar a morte de Dragon Lankford como um trágico acidente com um bisão.
— Aquele Aurox imprestável! — Neferet resmungou. — Receptáculo imperfeito e inepto! Tudo isso é culpa dele.
Ela continuou assistindo à entrevista, sorrindo ironicamente para Stark e Zoey, apenas se concentrando mais quando ouviu o seu próprio nome ser mencionado. Neferet apertou o botão para aumentar o volume e Thanatos proclamou em voz alta:
— ... Neferet é uma ex-funcionária descontente que não apita mais nada.
O corpo de Neferet se congelou.
— Ela se atreve a me chamar de funcionária! — Neferet continuou a assistir.
A raiva dela cresceu com tanta intensidade que a porta de vidro que dava para a varanda da cobertura se abriu com força, espalhando estilhaços de cristal sobre o chão de mármore.
— Todos nós vivemos em Tulsa e amamos esta cidade. Então, vamos apenas nos dar bem uns com os outros! — a voz ridiculamente alegre de Zoey provocou arrepios de raiva que subiram e desceram pela espinha de Neferet.
— Eu não vou permitir que você desfaça o que eu comecei, sua criança odiosa! — Neferet explodiu.
Quando Thanatos anunciou que a House of Night ia receber inscrições de humanos para vagas de professores, ela ficou de queixo caído junto com o repórter. Após a saudação benevolente da nova Alta Sacerdotisa, merry meet, merry part e merry meet again, Neferet assistiu incrédula aos âncoras do telejornal conversarem tolamente sobre como a interação com os vampiros era interessante e como o evento aberto ao público e a feira de empregos seria ótima para a cidade, com um close congelado do rosto sorridente de Zoey decorando a tela.
Ela apertou com força o botão de desligar a TV, incapaz de suportar Zoey Redbird por um só instante.
Do pequeno recanto que ficava entre a sala de estar e a sala de jantar, o computador de Neferet começou a chamar. Na tela, a silhueta da imagem de Nyx com os braços levantados piscou e, ao lado do ícone, apareceram as palavras: CONSELHO SUPREMO DOS VAMPIROS.
Neferet caminhou devagar até o computador e clicou com o mouse para atender ao chamado, automaticamente ativando a câmera de vídeo. Ela sorriu friamente para as seis Grandes Sacerdotisas com expressões sérias que estavam sentadas em seus tronos esculpidos em mármore.
— Eu estava esperando a sua ligação.
Duantia, membro sênior do Conselho Supremo dos Vampiros, falou primeiro. Neferet achou que ela soou muito, muito velha. Certamente o seu cabelo longo e grosso parecia mais prata do que castanho, e Neferet teve certeza de ver bolsas embaixo de seus olhos escuros.
— Você foi convocada a aparecer diante de nós, mas aí está você em Tulsa, e aqui estamos nós em Veneza. Qual o motivo da sua demora?
— Eu estou ocupada — Neferet modulou a sua voz para parecer mais entretida do que irritada. Ou com medo.
Ela não podia permitir nunca que as vampiras do Conselho Supremo acreditassem que ela tinha medo delas ou de qualquer um.
— Não é conveniente viajar para a Itália nesta época.
— Então você nos obriga a julgá-la absente reo.
Neferet zombou.
— Guarde o seu latim para os vampiros velhos demais para viver no presente.
Duantia continuou como se ela não tivesse falado nada.
— Nossa irmã Alta Sacerdotisa, sétimo membro deste Conselho Supremo, Thanatos, produziu provas irrefutáveis através de um ritual de revelação testemunhado pela Alta Sacerdotisa Zoey Redbird, pelo seu...
— Aquela criança insolente não é uma Alta Sacerdotisa!
— Você não vai me interromper!
Mesmo pela internet, a milhares de quilômetros de distância, o poder de Duantia era palpável. Foi preciso um esforço supremo para que Neferet não se encolhesse de medo da tela do computador.
— Diga o que tem a dizer. Eu não vou interrompê-la de novo — Neferet disse sem emoção.
— O ritual de revelação que Thanatos presidiu foi testemunhado pela jovem Alta Sacerdotisa Zoey Redbird, pelo seu círculo, em que cada membro recebeu de Nyx o dom de uma afinidade elemental, além de vários guerreiros Filhos de Erebus. Durante esse ritual, a terra mostrou o registro de que você assassinou uma humana, sacrificando-a para o touro branco das Trevas, que aparenta ser o seu Consorte.
Neferet observou que as vampiras do Conselho Supremo se agitaram nervosamente, como se apenas ouvir a palavra Consorte associada ao touro branco fosse difícil de suportar. Isso a agradou.
Muito em breve o Conselho Supremo iria ter que suportar muito mais do que apenas palavras.
— Neferet, o que você tem a dizer em sua defesa? — Duantia concluiu.
Neferet se levantou, atingindo a sua altura máxima. Ela sentiu os filamentos de Trevas roçando em volta dela, enrolando-se nos seus tornozelos e serpenteando em suas panturrilhas.
— Eu não preciso de defesa. Matar a humana não foi um ato de assassinato. Foi um sacrifício sagrado.
— Você se atreve a chamar as Trevas de sagradas? — a vampira membro do Conselho Supremo chamada Alitheia gritou.
— Alitheia, ou Verdade, como nós diríamos em uma língua que não está morta, eu vou conceder um pouco de você mesma a todas vocês. A verdade é que eu sou imortal. Em pouco mais de uma centena de anos eu obtive mais poder do que vocês, com todos os seus séculos, conseguiram adquirir. A verdade é que dentro de mais alguma centena de anos, a maioria de vocês será pó, e eu ainda vou ser jovem, poderosa, bonita e uma deusa. Se eu decido sacrificar uma humana, não importa por qual motivo, isso é sagrado, e não pecado!
— Neferet, você é Consorte das Trevas? — a pergunta de Duantia foi disparada em meio ao silêncio que se seguiu ao grito de Neferet.
— Conjure o touro branco e pergunte às Trevas você mesma. Mas apenas se você tiver coragem — Neferet sorriu com sarcasmo.
— Conselho Supremo, qual é o seu julgamento? — Duantia perguntou.
Ela manteve o olhar fixo em Neferet enquanto cada vampira membro do Conselho Supremo se levantou e, uma de cada vez, pronunciou repetidamente a mesma palavra: “Banida!”.
Duantia se levantou por último.
— Banida! — ela disse com firmeza. — Deste dia em diante, você não será mais reconhecida como uma Alta Sacerdotisa de Nyx. Você não será mais reconhecida nem como uma vampira. Daqui em diante, você está morta para nós — Duantia falou e todas as vampiras do Conselho Supremo deram as costas para Neferet.
Então o computador emitiu aquele som de final de chamada e a imagem delas se apagou.
Neferet olhou para a tela escura. Ela estava respirando pesadamente, tentando controlar o tumulto dentro dela. O Conselho Supremo a havia banido!
— Velhas horrendas! — ela explodiu.
Era cedo demais! Neferet tinha a intenção, é claro, de romper com o Conselho Supremo, mas não antes de ela provocar uma divisão interna e atiçar umas contra outras para que elas ficassem ocupadas demais com a própria destruição e não se intrometessem no mundo que ela estava criando do lado de fora da charmosa ilhazinha delas.
— Eu quase consegui isso antes, quando Kalona estava posando de Erebus ao meu lado. Mas Zoey estragou tudo, forçando-me a revelar que ele era uma fraude.
Incapaz de acalmar a sua frustração, Neferet andou com passos largos pela sala, com seu salto agulha triturando o vidro quebrado. Ela saiu para a varanda, apoiando as mãos no parapeito de pedra.
— Zoey fez com que Thanatos fosse enviada a Tulsa para me espionar. E a mãe de Zoey foi um sacrifício fraco e imperfeito demais. Se Aurox não fosse um Receptáculo defeituoso, o ritual de revelação teria sido interrompido com a morte de Rephaim. E agora eu fui banida pelo Conselho Supremo e sou vista como uma aliada domesticada pelos humanos de Tulsa — Neferet levantou os braços para o céu e descarregou a sua raiva. — Zoey Redbird vai pagar por tudo que ela causou!
Neferet abaixou as mãos e rasgou o seu robe de seda, desnudando o seu corpo para a noite. Nua, ela estendeu os braços e inclinou a cabeça para trás de modo que o seu cabelo comprido a encobrisse como uma cortina escura.
— Trevas, venham para mim! — ela se apoiou, preparando-se para o prazer doloroso do toque gélido do seu touro branco.
Nada aconteceu.
O único movimento na noite era das gavinhas escuras e agitadas que haviam se tornado sua companhia constante.
— Meu senhor! Venha para mim! Eu preciso de você — Neferet chamou.
O seu chamado não é uma surpresa, minha cara impiedosa.
Neferet ouviu a voz dele em sua cabeça, como sempre, mas ela não sentiu a sua presença imponente e poderosa. Ela abaixou os braços, virando-se, procurando por ele.
— Meu senhor, eu não posso vê-lo.
Você precisa de algo.
Ainda sem entender por que ele não havia aparecido para ela, Neferet não permitiu que a sua confusão transparecesse. Em vez disso, ela respondeu sedutoramente:
— Eu preciso de você, meu senhor.
Instantaneamente, o filamento mais grosso feito uma serpente, comandado pelas Trevas, soltou-se dos outros que estavam enrolados em seus tornozelos. Ele deu uma chicotada ao redor da cintura dela, abrindo uma ferida na sua pele macia e desenhando um perfeito círculo escarlate. As outras gavinhas subiram se arrastando pelas suas pernas, para se alimentar do seu sangue quente.
Neferet teve que se esforçar muito para não gritar de dor.
Mentir para mim não é sábio de sua parte, minha cara impiedosa.
— Eu preciso de mais poder — Neferet admitiu. — Quero matar Zoey Redbird, e ela está bem protegida.
Ela está bem protegida e é amada por uma Deusa. Nem você está preparada para destruir abertamente alguém como ela.
— Então me ajude. Eu imploro, meu senhor — Neferet bajulou o touro, ignorando o filamento afiado como uma lâmina que continuava a ferir a sua pele e as outras gavinhas que estavam se alimentando dela.
Você me desapontou. Eu já esperava que você me chamasse e implorasse pela minha ajuda. Veja bem, minha cara impiedosa, eu não deveria conseguir prever as suas ações. Isso me deixa entediado, e eu não desejo desperdiçar os meus poderes com nada previsível e tedioso – a voz dele martelou implacavelmente na sua mente.
Neferet não recuou.
— Eu não vou pedir que você me perdoe — ela disse friamente. — Você sabia como eu era desde a primeira vez em que nos encontramos. Eu não mudei. E não vou mudar.
De fato, e é por isso que eu sempre a chamo de minha cara impiedosa – a voz dele era quase uma violação. Agora ela tinha um tom de divertimento. — Você me lembrou de como nós começamos bem. Você era uma surpresa tão deliciosa. Surpreenda-me de novo, e eu vou pensar em vir ajudá-la. Até lá, eu concedo a você o controle sobre os filamentos de Trevas que escolherem permanecer com você. Não se desespere. Muitos vão escolher você. Você os alimenta tão bem. Eu a verei de novo, minha cara impiedosa, quando... se... você despertar o meu interesse o bastante para que eu volte — a voz dele cessou quando a gavinha grossa enroscada na cintura dela se soltou e desapareceu na noite.
Neferet desabou. Ela ficou deitada na varanda de pedra fria, observando os filamentos de Trevas lamberem o seu sangue. Ela não os deteve. Ela deixou que eles se alimentassem dela enquanto os acariciava, encorajando-os, analisando quantos haviam permanecido fiéis a ela.
Se o touro não ia ajudá-la, Neferet se ajudaria sozinha. Zoey Redbird era um problema havia tempo demais. Havia tempo demais ela permitia que aquela garota interferisse nos seus planos.
Mas ela não iria matá-la. Isso provocaria a ira de Nyx cedo demais. Ao contrário do Conselho Supremo dos Vampiros, uma Deusa não podia ser ignorada. Não, Neferet pensou, eu não preciso matar Zoey. Tudo o que eu preciso fazer é criar um ser para fazer o serviço por mim. O Receptáculo falhou uma vez por causa de um sacrifício imperfeito. Com o sacrifício perfeito, eu não vou falhar.
— Eu sou imortal. Eu não preciso do touro para criar. Tudo o que eu preciso é de um sacrifício sagrado e de poder. Eu já aprendi o feitiço. Aurox foi só o começo... — Neferet acariciou os filamentos de Trevas e permitiu que eles continuassem a se alimentar dela.
Há filamentos o bastante, ela assegurou a si mesma. Sobrou apenas o suficiente.


Zoey

— A Deusa sabe que eu odeio dizer isso, mas eu estava errada. Isso é sim como assistir àquele programa idiota The Bachelorette — Aphrodite balançou a cabeça e revirou os olhos.
Ela, Stevie Rae e eu caminhávamos devagar para o estacionamento na direção do ônibus cheio de garotos que estava à nossa espera. Nós estávamos indo devagar porque a gente estava superocupada olhando para Damien e o repórter, Adam. Os dois estavam parados, sorrindo e conversando, perto da van da Fox23 News.
— Shhh! — sussurrei para Aphrodite. — Eles vão ouvir você e isso vai deixar Damien constrangido.
— Ah, por favor! — Aphrodite bufou. — Os garotos gays estão bem animadinhos e entretidos. Ele não está prestando a menor atenção em nós.
— Eu estou tão feliz que ele está flertando — comentei.
— Vejam! Eles estão pegando os telefones!!! — Stevie Rae sussurrou efusivamente com pontos de exclamação demais para ser um sussurro.
— Eu estava errada de novo — Aphrodite falou. — Isso aqui não é como assistir a The Bachelorette. É como assistir ao National Geographic Channel.
— Eu acho que ele é uma gracinha — Stevie Rae disse.
— O cara que está conversando com Damien? — Shaylin perguntou quando se juntou a nós.
— Sim. A gente acha que eles estão marcando um encontro — Stevie Rae respondeu, ainda olhando para os dois.
— Ele tem cores suaves e bonitas — Shaylin observou. — Na verdade, as cores dele combinam bem com as de Damien.
— Como assim, os arco-íris deles estão se fundindo? — Aphrodite bufou sarcasticamente.
Shaylin franziu a testa.
— Eles não têm cores de arco-íris. Isso é um estereótipo horrível. Eles têm a cor do céu de verão, com tons de azul e amarelo. Damien também tem um pouco de branco encrespado e fofo que se parece bastante com nuvens densas.
— Ah, que merda, isso aí não tem nenhum senso de humor — Aphrodite protestou.
— Aphrodite, você tem que parar de chamar Shaylin de isso. Não é nada legal — Stevie Rae a repreendeu.
— Então me diga, para futura referência, o quanto isso não é legal na escala daquela palavra maldosa, “retardada”? — ela levantou uma sobrancelha loira com cara de interrogação para Stevie Rae. — Não é legal no nível de “debiloide” ou “monga”, ou mais como a palavra tradicional e explícita “retardada” mesmo?
— Você é a Alta Sacerdotisa, mas eu acho que responder qualquer coisa apenas a encoraja. Você sabe, é como acontece quando você pega um bebê chorando, ele continua chorando — Shaylin afirmou, soando bem prática.
Aphrodite vai arrancar os cabelos dela pela raiz, foi só o que eu consegui pensar.
Em vez disso, Aphrodite deu risada.
— Ei, isso fez uma piada! Pode até ser que isso tenha alguma personalidade.
— Aphrodite, eu acho que você deve ter algum dano cerebral — Stevie Rae disse.
— Obrigada — Aphrodite respondeu. — Eu vou entrar no ônibus. E vou cronometrar o Garoto Gay. Se ele continuar flertando por mais do que cinco minutos, eu vou... — ela parou de falar quando se virou em direção ao ônibus.
Os meus olhos seguiram os dela. Shaunee e Erin estavam paradas do lado da porta aberta do ônibus. Shaunee parecia perturbada. O rosto de Erin não tinha nenhuma expressão. Eu podia ver que elas estavam conversando, mas nós estávamos muito longe para ouvir o que elas estavam dizendo.
— Há algo errado com ela — Shaylin observou.
— Ela quem? — Stevie Rae perguntou.
— Erin.
— Shaylin está certa. Tem alguma coisa errada com Erin — Aphrodite concordou.
Eu não sabia o que havia me chocado mais, se era o que Shaylin e Aphrodite estavam dizendo ou o fato de elas estarem de acordo.
— Conte-me o que você está vendo — Stevie Rae falou em voz baixa para Shaylin.
— Este é o melhor jeito de eu descrever o que vejo: havia um canal que passava atrás da casa onde eu morava quando era criança, um pouco antes de eu perder a visão. Eu costumava brincar ali perto e fingia que o canal era um córrego da montanha lindo e borbulhante, e que eu estava crescendo nas Montanhas Rochosas do Colorado, porque ele era claro e até mesmo bonito. Mas, assim que eu me aproximava, podia sentir o fedor do canal. Tinha um cheiro de coisas químicas e de algo mais, algo podre. A água parecia boa, mas abaixo da superfície ela era suja e poluída.
— Shaylin — eu estava quase perdendo a paciência. Eu me sentia como se estivesse ouvindo um dos poemas de Kramisha, e isso não é necessariamente uma coisa boa. — Que diabo você quer dizer? Erin tem cor de água poluída? E se ela tem, por que você nunca disse nada até agora?
— Ela está mudando! —  Shaylin gritou.
Quando vários rostos no ônibus, além de Erin e Shaunee, voltaram-se na nossa direção, ela disfarçou:
— O inverno parece estar mudando para a primavera! Hoje não está uma bela noite?
Os garotos balançaram a cabeça e franziram a testa para ela, mas pelo menos pareceu que eles pararam de prestar atenção em nós.
— Ah, que merda. Você não é nada boa em espionagem — Aphrodite abaixou a voz e nos agrupou. — Z., se liga. É simples. O que Shaylin está dizendo é que Erin parece ser a mesma de sempre: bonita, loira, popular, perfeita. Você sabe, típica. Mas a verdade é que por baixo da superfície há algo apodrecendo. Você não pode ver isso. Eu não posso ver isso. Mas Shaylin pode — Aphrodite deu uma olhada no ônibus.
Todos nós acompanhamos o olhar dela a tempo de ver Shaunee balançar a cabeça como quem diz não e subir rapidamente os degraus pretos com piso emborrachado, enquanto Erin continuou ali com uma aparência bonita, mas muito, muito fria.
— Parece que Shaunee pode ver isso também. Não que a gente tenha acreditado nela. A gente achou que ela só estava irritada com Erin porque as gêmeas siamesas idiotas tinham sido separadas cirurgicamente.
— Eu acho que isso é muito rude — falei.
— Também acho — Stevie Rae concordou. — Mas o meu instinto me diz que é verdade.
— O meu também — Damien disse, aproximando-se de nós.
As suas bochechas ainda estavam vermelhas e ele acenou alegremente quando a van da Fox23 foi embora, mas a sua atenção estava voltada para Erin.
— E o meu instinto também está me dizendo mais uma coisa.
— Que você e o Garoto das Notícias estão quase virando amiguinhos de cama? — Aphrodite falou com uma voz animada e educada, que contrastava radicalmente com o que ela havia dito.
— Isso não é da sua conta. — Damien respondeu. E então acrescentou em um tom suave: — E acho que você vai querer prestar atenção, Aphrodite. O que eu vou falar vai abalar o seu mundo.
— Que coisa mais velha de se dizer — Aphrodite comentou.
— Velho não significa impreciso — Damien rebateu. — Você traduziu o que Shaylin pressentiu. Isso significa que você está agindo como um oráculo.
— Eu não sou um maldito oráculo. Sou uma Profetisa — Aphrodite pareceu realmente irritada.
— Oráculo... Profetisa — Damien levantou primeiro uma mão e depois a outra, como se ele estivesse comparando o peso de algo na palma de suas mãos, até que ambas ficaram na mesma altura. — Para mim é a mesma coisa. Pesquise a sua história, Profetisa. Sibila, Delfos, Cassandra. Esses nomes não dizem nada a você?
— Não. Sério. Eu tento não ler demais.
— Bem, eu começaria a ler se fosse você. Esses são apenas os nomes top três que vêm à minha mente culta. Alguns os chamam de Oráculos. Alguns os chamam de Profetisas. É a mesma coisa.
— Eu posso pegar o resumo na internet?
Aphrodite estava tentando parecer engraçadinha, mas o seu rosto tinha perdido toda a cor e os seus olhos pareciam gigantes e ainda mais azul-topázio do que o normal. E assustados. Ela parecia superassustada.
— Ok. Bem, lição aprendida. Parabéns para nós! — eu falei animadamente. Todo mundo simplesmente olhou para mim, então tentei explicar: — Thanatos disse que nós temos que praticar os nossos dons. Acho que o que acabou de acontecer é como uma nota extra nessa prova. Que tal agora a gente entrar no ônibus, voltar para os túneis e assistir um pouco às reprises de Fringe?
— Fringe? Estou dentro — Shaylin começou a andar na direção do ônibus.
— Eu gosto do Walter — Aphrodite comentou. — Ele me lembra o meu avô. Bem, exceto que Walter é um pouco mais inteligente e é doidão e louco, em vez de bêbado e antissocial. Mesmo assim, ambos são estranhamente adoráveis.
— Você tem um avô? E você gosta dele? — Stevie Rae perguntou antes de mim.
— É claro que eu tenho avô. Você é uma retardada em Biologia? — então Aphrodite deu de ombros. — Que seja. Minha família é meio difícil de explicar. Eu vou seguir isso e entrar no ônibus — e foi o que ela fez, seguindo Shaylin.
Ficamos só Stevie Rae, Damien e eu.
— Ela é totalmente louca — foi só o que pensei em dizer.
— De fato — Damien concordou.
— Ok, bem, vocês acham que está todo mundo no ônibus? — perguntei.
— Espero que sim. Eu sei que Rephaim está aí, e que nós só temos algumas horas até o sol nascer. Tenho certeza de que ele nunca viu nenhum episódio de Fringe, e acho que ele vai gostar. Assistir a uma série abraçadinha com ele parece uma ótima ideia agora, mesmo se a gente tiver que fazer isso com a louca da Aphrodite — ela sorriu para mim. — A gente pode pedir pizza no Andolini?
— Claro que sim — respondi.
— Ahn-han — Damien simulou bem o ato de limpar a garganta.
— Sim? — perguntei.
— Hum, vocês achariam estranho se eu, hum, talvez fosse me encontrar com alguém para tomar um café? Mais tarde. Hoje à noite. No The Coffee House On Cherry Street.
— Eles ainda estão abertos? — eu perguntei, dando uma olhada no meu celular. Nossa, já eram quase 4 h da manhã.
— Eles começaram a funcionar 24 horas por dia. A tempestade de gelo acabou com os negócios por semanas e eles estão tentando compensar o prejuízo atendendo, bem, a turma da noite — Damien explicou.
— Sério? Eles estão ficando abertos por nossa causa? — eu me lembrava tanto dos sanduíches incríveis deles e da bela arte local que eles exibiam. — Eles costumavam fechar às 23 h!
— Não mais — ele disse alegremente.
— Uau, que legal. Quero dizer, eu nunca estive lá, mas o fato de uma cafeteria ficar aberta no Centro da cidade para que a gente possa se encontrar lá é sensacional — Stevie Rae falou.
— Que tal se amanhã Darius desviar o ônibus para lá na volta para a estação? — eu segui o meu instinto.
É normal que um grupo de estudantes do ensino médio queira parar em um café depois da escola.
— Damien, se você for lá hoje, pode perguntar para algum funcionário se tudo bem a gente aparecer lá amanhã?
— Com certeza, vou fazer um reconhecimento da área para vocês! — então a expressão de Damien murchou. — E então, o que vocês acham? Jack iria me odiar?
— Oh, claro que não, querido! — falei rapidamente.
— Jack entenderia — Stevie Rae acrescentou. — Ele não ia querer que você ficasse triste e sozinho enquanto espera que ele volte.
— Ele vai voltar, não vai? — Damien me encarou bem no fundo dos meus olhos. — Jack vai voltar, certo?
As almas deles estão destinadas a se encontrar novamente... as palavras foram sussurradas na minha mente. Reconhecendo a voz sábia e familiar de Nyx, eu sorri, dando o braço para Damien.
— Ele vai. Eu prometo. E a Deusa também promete.
Damien piscou forte para segurar as lágrimas.
— Eu tenho um encontro! E vou ficar feliz com isso.
— É isso aí! — eu o encorajei.
— Estou tão feliz que eu poderia cuspir! Mesmo que isso seja um pouco grosseiro — Stevie Rae pegou a outra mão de Damien.
— Esse é um ditado estranho — Damien observou.
— Totalmente — eu disse. — Foi nojento quando Leonardo fez toda aquela cena da cuspida com Kate em Titanic.
— Essa cena nunca deveria ter acontecido — Damien concordou. — Foi a única falha do filme.
— Bem, essa cena e aquela do Leo se transformando em um lindo picolé — acrescentei.
Damien e Stevie Rae fizeram sons de total concordância comigo enquanto nos aproximávamos do ônibus. Eu podia ver os rostos dos garotos nas janelinhas. Parecia que o ônibus estava cheio, o que me deu uma onda enorme de alívio porque eu estava mais do que pronta para ir para casa. Stark estava lá, em pé no alto da escada, ao lado de Darius. Os olhos dele me encontraram, e isso fez minha pele esquentar e formigar.
Rephaim estava no primeiro assento, bem na frente de Kramisha, e eu praticamente pude sentir Stevie Rae vibrando de alegria ao acenar para ele. Shaylin e Aphrodite estavam subindo as escadas. Eu não conseguia ver o rosto de Aphrodite, mas o jeito com que ela jogou o cabelo para trás me dizia que ela já estava flertando com o seu guerreiro.
Ok, as Trevas eram um pé no saco e muitas coisas difíceis haviam acontecido com a gente, mas pelo menos estávamos juntos e tínhamos amor. Sempre o amor.
— Preciso conversar com você.
A voz sem emoção de Erin foi como um banho de água fria na minha alegria.
— Ok, claro. Ei, daqui a um instante eu estarei no ônibus — avisei Stevie Rae e Damien.
— Eu vou ficar — Erin disse as três palavras assim que ficamos sozinhas.
— Ficar? Você quer dizer aqui?
Eu tinha entendido o que ela queria dizer, mas precisava ganhar tempo para tentar processar as perguntas na minha mente. Eu tinha impedido Shaunee quando ela havia tentado se separar de nós e voltar para a House of Night logo depois que ela e Erin começaram a ter problemas. Eu não deveria impedir Erin também?
— Sim, é claro que eu estou falando daqui. Estou cansada dos túneis. A umidade está deixando o meu cabelo cheio de frizz.
— Ahn, há produtos para isso. Tem alguns da Aveda. Podemos pegar para você no salão Ilhoff da Utica Square amanhã — sugeri.
— Ok, então, não é só o meu cabelo. Eu não quero morar nos túneis. É aqui que eu moro. Nesta escola. Eu não quero ser levada de ônibus. É idiota.
— Erin, eu sei que pegar o ônibus da escola é idiota. Que inferno, isso já era idiota antes de eu ser Marcada. Mas eu acho que nós precisamos ficar juntos. A gente é mais do que um grupo ou uma panelinha, a gente é uma família.
— Não, a gente não é uma família. Nós somos um grupo de garotos que vai para a mesma escola. Só isso. Ponto final.
— As nossas afinidades fazem com que a gente seja mais do que isso — ela estava me deixando chocada... não apenas pelo que ela estava dizendo, mas pela sua atitude. Erin era tão fria! — Erin, nós passamos por coisas demais juntos para acreditarmos que somos apenas um grupo de garotos que por acaso frequenta a mesma escola.
— E se isso for o jeito como você se sente, mas não como eu me sinto? Eu não posso escolher? Achei que Nyx concedesse o livre-arbítrio.
— Sim, mas isso não quer dizer que não podemos dizer algo quando alguém com quem a gente se importa está fazendo besteira.
— Deixe-a ficar.
Erin e eu levantamos os olhos e vimos Aphrodite em pé no primeiro degrau do ônibus. Ela estava encostada na porta com os braços cruzados. Eu esperei ver aquele sorriso irônico típico de Aphrodite em seu rosto, mas ela não parecia brava. Ela não soou irônica. Ela apenas pareceu bastante segura de si. Atrás dela, eu podia ver Stevie Rae e Shaylin. Elas concordaram com a cabeça, e aquele apoio mudo a Aphrodite me venceu quando eu percebi que o meu Conselho havia decidido – elas resolveram o que era melhor para todos nós, mesmo que aquilo não fosse o melhor para Erin.
— Obrigada, Aphrodite. Quem poderia imaginar que você seria a única a concordar comigo? — Erin riu, soando petulante e infantil em comparação com o despertar da maturidade serena de Aphrodite.
— Sabe de uma coisa, Erin, estou feliz que você e Aphrodite tenham me lembrado de uma coisa — afirmei. — Nyx realmente nos dá o livre-arbítrio e, se você prefere viver na House of Night, então vou respeitar isso. Espero que isso não mude as coisas no nosso círculo. Você ainda é a água. O seu elemento e você ainda são importantes para nós.
Erin sorriu um pouco, mas o sorriso dela não chegou aos seus frios olhos azuis.
— Sim, é claro. Eu sempre serei a água, e a água pode correr em qualquer lugar. É só me chamar se precisar de mim. Eu vou estar lá na mesma hora.
— Que ótimo — falei rapidamente, sentindo-me superconstrangida. — Bem, então acho que a gente se vê amanhã.
— Sim, claro. Vejo vocês na aula — Erin acenou de modo petulante e saiu andando.
Subi as escadas do ônibus, perguntando para Darius:
— Estão todos aqui?
— Todos já foram contados e estão presentes — ele respondeu.
— Então vamos para casa — eu disse.
Todos se espalharam pelos seus assentos, Stevie Rae ao lado de Rephaim, Aphrodite na primeira poltrona logo atrás de Darius como motorista. Stark estava esperando por mim na poltrona atrás dela, e eu me inclinei, beijando-o rapidamente e sussurrando:
— Vou dar uma olhada em Shaunee e já volto.
— Vou estar aqui esperando. Sempre — ele tocou o meu rosto delicadamente.
Fui sacolejando até o fundo do ônibus, onde Shaunee estava sentada sozinha, enquanto Darius passava pelos buracos do estacionamento e fazia um retorno em direção ao caminho de saída da escola.
— Posso sentar aqui por um instante?
— Sim, claro — ela respondeu.
— Então, você e Erin não estão mais se falando direito?
Shaunee mordeu a bochecha e balançou a cabeça.
— Não.
— Ela está bem brava — eu estava tentando pensar em algo para dizer que ajudaria Shaunee a se abrir comigo.
— Não, acho que ela não está brava — Shaunee afirmou.
Franzi a testa.
— Bem, ela pareceu brava.
— Não — Shaunee repetiu, olhando para fora da janela. — Pense em como ela vem agindo nos últimos dias, principalmente hoje. “Brava” não é a melhor palavra para descrevê-la.
Eu realmente pensei. Erin estava sendo fria e sem emoções. Só isso.
— Bem, você está certa. Agora que eu pensei mesmo nisso, ela não tem sido nada além de desinteressada, e isso é estranho.
— Sabe o que é mais estranho? Aquela garota ali está demonstrando mais sentimentos do que Erin — Shaunee apontou pela janela na direção do pequeno jardim dos professores, não muito longe dos limites do estacionamento.
Uma garota estava sentada ao lado da fonte. Quando o ônibus passou ali perto, havia luz suficiente para ver de relance que ela estava com a cabeça apoiada nas mãos. Os seus ombros estavam chacoalhando como se ela estivesse chorando convulsivamente.
— Quem é ela?
— Nicole.
— Nicole, a novata vermelha? Você tem certeza? — estiquei o pescoço, tentando olhar melhor para ela, mas nós já estávamos pegando a pista com árvores enfileiradas, e a minha visão da garota ficou completamente encoberta.
— Tenho. Eu a vi lá quando estava indo para o ônibus.
— Hum. E você imagina o que está se passando com ela? — eu perguntei.
— Acho que as coisas estão mudando para muitos de nós, e às vezes isso enche o saco.
— Há algo que eu possa fazer para tornar isso menos pé no saco para você? — eu quis saber.
Então Shaunee olhou para mim.
— Apenas seja minha amiga.
Eu pisquei surpresa.
— Eu sou sua amiga.
— Mesmo sem a Erin?
— Eu gosto mais de você sem a Erin — falei honestamente.
— Eu também — Shaunee concordou. — Eu também.
Um pouco depois voltei para o meu assento ao lado de Stark e deixei que ele colocasse o seu braço ao redor de mim. Encostei a cabeça no ombro dele e fiquei escutando a batida do seu coração, apoiando-me na sua força e no seu amor.
— Prometa-me que você nunca vai pirar e se transformar em um estranho frio e distante — pedi em voz baixa para ele.
— Prometo. Não importa o que aconteça — ele afirmou sem hesitar. — Agora, tire qualquer coisa de sua cabeça, exceto o fato de que eu vou forçá-la a experimentar uma pizza diferente hoje à noite.
— Não vamos pedir a Santino? Mas a gente adora essa pizza!
— Confie em mim, Z. Damien me falou sobre a pizza Athenian. Ele disse que ela é a ambrosia das pizzas. Não entendi exatamente o que ele quis dizer, mas acho que isso significa mais do que bom, então vamos experimentar.
Eu sorri, relaxei ao lado dele e, no curto caminho da House of Night até a estação, fingi que o meu maior problema era decidir se expandia os meus horizontes em relação aos sabores de pizza.

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