10 de outubro de 2015

Capítulo 13 - Shaunee

— Você não precisa ficar — Shaunee se dirigiu a Thanatos, sem olhar para a Alta Sacerdotisa. Ela manteve sua atenção para a pira em chamas. — Eu vou ficar de vigília. Acho que eu devo, e além disso, é algo que realmente quero fazer.
— Você foi uma boa amiga para ela — Thanatos afirmou.
— Espero que eu tenha sido. Eu tentei ser, mas as coisas ficaram muito confusas e nada saiu como eu esperava.
— Minha filha, assim é a vida – confusa, sofrida, dolorosa, mas maravilhosa. Só o que cada um de nós pode fazer e tentar ser o seu melhor, além de tentar aprender com os nossos erros e nossas vitórias.
— Bem, agora, o melhor que posso fazer é ficar aqui, velando Erin até o amanhecer.
— É uma tradição antiga que aqueles que mais amaram os novatos permaneçam ao lado dos seus amados na pira desde a primeira chama até o brilho amanhecer. Eu vou deixá-la em sua vigília. Abençoada seja, Shaunee.
Shaunee cruzou o punho sobre o coração e se curvou respeitosamente para Thanatos, então se virou para olhar as chamas da pira funerária.
— Você também não precisa ficar — Shaunee falou para o imortal, que ela sabia que estava observando das sombras. — Stevie Rae e Zoey vão precisar de você. Eu vou ficar bem.
— Eu não gostei do jeito de Dallas hoje. Ele quer desforra por essa morte, o que é impossível — Kalona afirmou.
— Ele pareceu triste quando acendeu a pira. Talvez seja só isso... ela era sua namorada — Shaunee disse, querendo acreditar nisso.
— Se ele realmente a amasse, ele a estaria velando, assim como você — Kalona colocou para fora algo que Shaunee não quis pensar.
— Cada um tem um jeito de sofrer — ela respondeu.
— Eu conheço o jeito dele de sofrer, e agora isso vai se transformar em raiva. Ele vai atacar, querendo apagar sua dor com violência e vingança.
— Foi isso que você fez? — Shaunee desviou o olhar da pira e se voltou para Kalona.
A beleza do imortal alado era tão luminosa quanto as chamas, apesar do brilho dele ostentar uma luz prateada sobrenatural.
— Sim — ele admitiu devagar. — Sim, foi isso o que fiz. É por isso reconheço a mesma coisa em Dallas. Também é por isso que sei como ele pode se tornar tão perigoso.
— Isso e uma coisa eu não entendo — Shaunee disse. — Como perder o amor de alguém pode fazer você querer destruir pessoas? Quando Erin e eu deixamos de ser gêmeas, eu fiquei triste e sozinha. Mas eu não pensei em fazer nada de ruim a para ela nem para Dallas, apesar de achar que ele não era bom o bastante para ela — Shaunee se virou novamente para encarar o imortal, que não havia respondido nada, mas continuou com o braço estendido, com a palma da mão voltada para fora, na direção da pira, controlando seu elemento e permitindo que o calor familiar aliviasse a tristeza dentro dela.
— Acho que sua pergunta só pode ser respondida por cada indivíduo.
— Então você não vai me responder?
Kalona hesitou, e Shaunee viu várias emoções passarem pelo seu rosto bonito: tristeza, dúvida e até irritação. As suas asas se agitaram com impaciência, mas ele finalmente respondeu.
— Quando eu perdi Nyx, o único jeito de conseguir suportar isso foi substituir todo o amor que eu sentia por ela por raiva. Quando eu me consumia com raiva, eu me fazia acreditar que amar a Deusa havia sido uma mentira — Kalona encontrou o olhar de Shaunee, ela pensou ver éons de sofrimento nos seus olhos âmbar. — Para manter essa raiva era preciso pagar um preço, e esse preço era violência, destruição, morte e escuridão.
— Mas não faria mais sentido se você tivesse chegado em Nyx e admitido que não queria viver sem ela?
Kalona deu um sorriso infinitamente triste.
— O meu orgulho impediu de enxergar qualquer caminho de volta até ela.
— E ainda impede?
— Não. Agora é a própria Nyx que me impede de estar ao seu lado — Kalona explicou.
— Acho que ela não vai impedi-lo para sempre — Shaunee disse.
— Você é jovem — ele falou. — Você ainda não viveu o bastante para que a vida mate sua capacidade de ter esperança.
— Bem, eu não conheço Nyx tão bem quanto você, mas com certeza eu acredito que ela é uma Deusa justa e misericordiosa. Ela prova isso toda hora. Eu já vi isso, e tenho apenas dezoito anos — Shaunee fez uma pausa. — Talvez não importe o quanto você viveu para ter capacidades de ter esperança, mesmo quando as coisas parecem impossíveis. Talvez seja só uma questão de quanta fé você tem.
— Eu tenho fé, jovem caloura. Eu tenho fé que Nyx perdoe aqueles que merecem o seu perdão — ele afirmou.
— Você acha que não merece o perdão dela, não é?
— Eu sei que não mereço — ele curvou ligeiramente a cabeça para ela. — Continue a velar sua amiga. Não vou perturbá-la mais — então desapareceu na escuridão.
Shaunee se voltou para a pira de novo e levantou a outra mão. Ela deu um passo para ainda mais perto, fechou os olhos e deixou que o seu elemento a invadisse. Enquanto isso, ela fez uma oração que se elevou junto com a fumaça até Nyx.
— Deusa esta é a minha despedida de Erin. Eu sei que ela está com você, finalmente em paz. Obrigada por amá-la e cuidar dela. Obrigada também por amar Kalona e tomar conta dele também, porque não importa o que aconteça, você nunca daria as costas para alguém que ama.
— Você se acha tão fodona, tão melhor que eu, não é?
A voz de Dallas fez Shaunee dar um salto, e ela não conseguia dizer nada por um tempo, enquanto controlava seu elemento. A pira em chamas refletiu seu choque e, se Shaunee não tivesse se controlado e conseguido manter o controle, pelo curso natural das coisas Dallas seria consumido pelo fogo.
Quando ela estava com o seu elemento sobre controle de novo e foi capaz de voltar sua atenção para Dallas, o garoto idiota estava ali sorrindo para ela de forma irônica parecendo o babaca que era, ignorando totalmente o fato que ela acabara de salvar sua vida besta.
— Não, Dallas, eu não penso que sou melhor que você. A verdade é que simplesmente eu não penso em você — ela falou.
— Erin achava que você era uma vaca nervosinha — ele disse.
Shaunee mordeu o lábio em vez de atacá-lo. Ela poderia tê-lo fritado com seu fogo ou com suas palavras. Mas ela não queria fazer nem uma coisa nem outra, principalmente na pira de Erin. Então ela pensou nisso por um longo e desconfortável momento e disse a coisa mais agradável que ela conseguiu pensar:
— Você tem certeza que sabia o que Erin realmente sobre qualquer coisa?
— Eu trepava com ela! É claro que eu sabia o que ela pensava — ele saiu das sombras e deu alguns passos na direção de Shaunee, e seu sorriso irônico virou um riso de escárnio. — A não ser que você queira dizer que também trepava com ela.
Shaunee o encarou, chocada demais com a ignorância maldosa das palavras dele para saber o que responder.
— Que merda! Eu sabia que vocês eram próximas de um jeito anormal. Você trepava com ela! Ela nem me contou. Que pena. Nós três poderíamos ter nos divertido.
A chama que estava crescendo dentro de Shaunee se tornou incandescente de tão forte. A sua mente clareou. Então ela capturou Dallas com o seu olhar.
— Eu não gostava quando você estava com Stevie Rae. Para mim sempre pareceu que tinha algo errado com você. Além disso, você é baixinho demais — ela não conseguia deixar de falar isso. Então ela se concentrou de novo e tentou dizer a verdade, sem xingamentos nem comentários maldosos. Ela canalizou o fogo, em vez de queimá-lo, ela o chamuscou com palavras. — Em toda a sua vida, o maior desejo de Erin foi encontrar qualquer um, qualquer coisa, que a fizesse sentir algo. Você foi o último de uma longa lista desse “qualquer um”. Eu entendo como ela estava confusa e vulnerável, e eu realmente me importava com ela, mesmo depois que ela não era mais minha melhor amiga. Se você realmente se importava com ela, vai provar isso ficando aqui comigo até o sol nascer e respeitando sua memória, apesar de ela já ter partido.
Dallas não desviou o olhar dela. Os seus olhos se encheram de lágrimas, que se derramaram. Shaunee pensou ter vislumbrado o garoto de verdade por um segundo – o garoto que realmente podia ter sido capaz de amar Erin. Então ele piscou com força e enxugou o rosto com a manga. E sorriu.
— Você é tão burra quanto Erin dizia. Eu não posso ficar aqui até o sol nascer. Eu sou um vampiro vermelho. O sol vai me queimar.
O elemento de Shaunee a preencheu e a acalmou. Ela não ia responder as palavras detestáveis dele com mais veneno.
— Você sempre sabe quando chega o amanhecer. Você pode ficar até um pouco antes do sol nascer e então ir embora. Eu vou esperar até o final com ela. Erin ia gostar disso.
— Acho que você acabou de dizer que eu era apenas o último de uma longa lista de “qualquer um” — ele falou.
— Eu não devia ter dito isso... Foi maldoso da minha parte. E não é certo ficar brigando na pira de Erin. Dallas, eu sinto muito.
A risada dele foi sarcástica.
— Você não sente muito, você é fraca. Erin sabia disso quando deixou você. Assim como eu sabia quando deixei Stevie Rae.
— Você não deixou Stevie Rae. Ela se apaixonou por Rephaim. Ela o deixou, e você não conseguiu lidar com isso. Foi então que você se voltou para as Trevas, onde você ainda está.
— Dane-se Stevie Rae! Danem-se todos vocês! Os seus amigos são o motivo da morte de Erin! — Dallas gritou, dando um passo ameaçador na direção dela.
Shaunee levantou uma mão. Ela canalizou um muro de calor, que crepitou entre eles. Protegendo o seu rosto com o braço, Dallas se afastou cambaleando.
— Você vai pagar pelo que fez! Todos vocês vão pagar pelo que fizeram!


Stark

— O cara com certeza vai estar mal amanhã — Stark falou quando entrou no antigo quarto de Zoey.
Só faltava uns dez minutos para o amanhecer, e ele se sentiu exausto, com um cansaço profundo dentro dele.
— Você demorou uma eternidade. Eu estava ficando realmente preocupada que você não chegasse antes do sol nascer — Zoey se sentou na cama e abaixou o livro que estava lendo.
— Pois é, desculpe. É que eu não podia deixá-lo acabado daquele jeito — ele sorriu para Z., e foi até a pia. — Shaunee está bem?
Zoey pareceu incomodada com a pergunta.
— Sim, ela parece bem. Bem, ela está triste e tal, mas é normal. Ela vai ficar na pira até o sol nascer. Parece que Dallas esteve lá e fez uma cena idiota, o que é a cara dele, mas Shaunee lidou bem com a situação.
— Você não pensou que deveria estar com ela?
— Com Shaunee? Na pira? — Zoey franziu a sobrancelha para ele.
— Sim. Você é a Alta Sacerdotisa dela.
— Bem, tecnicamente, enquanto nós estamos presos aqui na House of Night, Thanatos é a Alta Sacerdotisa dela, e não eu. E Shaunee disse que falou para Thanatos que queria ficar sozinha na pira. Thanatos respeitou sua vontade, eu achei que também deveria respeitar. Você vê algum um problema nisso?
Stark juntou a água na mão para enxaguar o sabão do seu rosto enquanto tentava pensar em como falar com Z.. Ela estava tão sensível desde aquela coisa toda na varanda da cobertura, que mostrou que Aurox era Heath e Heath era Aurox. Ele se sentia como se estivesse vivendo com um porco-espinho!
 — Não — finalmente ele respondeu. — Não vejo problema nenhum. Z., eu não estava tentando brigar com você. Eu só queria saber de Shaunee.
— O funeral de Erin acabou. Shaunee está bem. Só isso. Eu quero saber o que realmente aconteceu com Aurox e aqueles garotos humanos. Eu não estava entendendo nada que Heath estava falando.
O estômago de Stark se contraiu.
— Você quis dizer Aurox.
— É, Aurox — Zoey franziu a testa. — Foi o que eu disse. Então, o que está rolando?
Stark estava cansado demais para discutir com ela, então ignorou seu lapso freudiano, apesar de aquilo ter feito seu coração doer.
— Dois caras encontraram um buraco no muro da escola, não muito longe daqui. Eles estavam bebendo e tentando ver vampiras gostosas. Só isso — ele repetiu as palavras dela, tirou a camisa e foi escovar os dentes.
— Stark, série? Você está deixando de contar um monte de detalhes.
Ele deu os ombros e falou com a escova de dentes na boca, esperando que ela parasse com o interrogatório.
— Nada demais. Eu usei meus poderes de vampiro vermelho para fazê-los acreditar que eu era um policial e que eles tinham sorte, pois eu não ia levá-los para a cadeia, nem acusá-los de se intoxicarem em público e nem chamar os seus pais. E agora eles acreditam que a House of Night está na minha ronda, e eu disse que vou procurar por eles todas as noites de agora em diante, o que significa que eles vão voltar.
— Bem, isso é ótimo.
Ela não disse mais nada até ele terminar de escovar os dentes e deitar na cama, mas ele sabia, pelo jeito como ela estava mordendo o lábio e pelas rugas na sua testa, que ela ainda tinha muito mais a dizer. Além disso, ele podia sentir a tensão de Zoey. Ele sempre podia sentir a tensão dela. Stark percebeu que deveria massagear os seus ombros e tentar fazê-la relaxar, mas ele não conseguia esquecer o motivo da tensão dela.
Aurox era Heath. Zoey amava Heath.
E isso feriu os sentimentos de Stark e fez com que ele se sentisse um merda.
Então ele se deitou perto dela e apagou o pequeno lampião a gás, desejando com todas as forças que Zoey se encostasse no seu ombro, colocasse os braços em volta dele e dissesse que ele não precisava se preocupar, pois ela não queria ficar com Aurox, Heath nem mais ninguém além dele.
Em vez disso, no escuro, Zoey perguntou:
— Por que ele estava lá fora?
Stark suspirou.
— Ele estava correndo em volta do muro da escola. Eu não entendi muito bem por que e ele estava muito chapado para explicar.
— Correr deixa a mente dele quieta — Zoey disse.
— Como você sabe?
Houve um silêncio curto, e ele quase pôde ouvi-la pensando, então ela respondeu:
— Era isso que Heath costumava fazer quando ele tinha um problema. Ele corria até ficar exausto e isso deixava a mente dele quieta.
— Ah — Stark se sentiu mais merda ainda nesse momento.
— Onde ele está agora? — ela quis saber.
— Apagado no porão — Stark contou.
— Eu achei que ele não dormia.
— Pode ser que ele não durma, mas eu juro que ele apagou.
— Você o virou de lado, para que ele não engasgue se vomitar?
— Não, mas sinta-se livre para ir lá virá-lo você mesma, já que você está tão preocupada com ele.
— Stark, eu só estava...
— Eu sei o que você só estava. Eu sei a coisa toda, Zoey. Esse é o problema.
— Você não precisa ficar bravo comigo — ela disse.
— Eu não estou bravo. Estou cansado. O sol está se levantando e eu preciso dormir. Boa noite — Stark virou de lado.
De costas para ela, ele se encolheu, desejando que ela colocasse os braços em volta dele e o puxasse para mais perto, dizendo que tudo ficaria bem, que eles iam dar um jeito de resolver isso juntos.
Em vez disso, ele a ouviu dizer “boa noite” em voz baixa. Ele sentiu a cama mexer quando ela se virou para o outro lado.
Stark nunca ficou tão satisfeito de se entregar ao chamado do sol e ao sono sem sonhos que o amanhecer trazia.


Stevie Rae
Era sempre tão difícil se despedir de Rephaim. Stevie Rae estava rolando sozinha na cama. Ela estava exausta – o sol havia se levantado há alguns minutos, e ela estava lutando com a necessidade de dormir que a deixava esgotada. Mas estava sendo difícil sossegar a sua mente. Stevie Rae não conseguia parar de pensar em como queria que Rephaim estivesse ali com ela. Não que ela quisesse ser ingrata com Nyx, mas depois do funeral de Erin, de Thanatos romper com o Conselho Supremo, de Nicole (ela!) jurar lealdade, sem falar no fato de Neferet estar sabe-se lá onde, ela queria muito, muito mesmo, ficar deitada de conchinha com Rephaim e se sentir segura e amada.
Em vez disso, ela se despediu dele lá fora um pouco antes de o sol nascer e então subiu para o quarto que estava dividindo com Shaunee. Stevie Rae havia ficado com a cama mais próxima da grande janela panorâmica, apesar de essa não ser a escolha mais inteligente. O quarto delas era voltado para o leste e recebia muita luz do sol pela manhã. Se elas não tivesses cortina blackout, ela iria ficar como bacon frito.
Mas elas tinham cortinas blackout grandes, grossas e escuras. Elas eram tão pesadas e tão firmemente atadas que, apesar de Stevie Rae deixar a janela aberta o dia inteiro enquanto dormia, nem um vento mais forte as tirava do lugar. Isso era bom, pois ela sempre deixava a janela aberta. Afinal, e se Rephaim precisasse voltar para ela? E se ele se metesse em alguma encrenca enquanto era corvo e precisasse de um lugar seguro para se esconder? Ela queria acreditar que uma parte do garoto que ela amava permanecia lá no fundo dele, mesmo quando ele era um animal.
Era por isso que ela desejava que ele a deixasse assistir a sua transformação em corvo. Ela tinha pensado bastante nisso, e ela podia tentar tocá-lo... tentar domesticá-lo. Depois do dia em que a Deusa perdoara Rephaim e concedera a ele a forma de um garoto humano durante as horas entre o pôr do sol e o nascer do sol, ela havia dito para ele: “Afinal, eu já domestiquei um besta uma vez. Talvez eu possa fazer isso de novo!”. Ela esperava que Rephaim desse risada, como ele sempre fazia – ele parecia tão feliz perto dela. Mas ele não riu. Ele ficou todo sério, pegou a mãe dela e disse: “Quando eu era um Corvo Escarnecedor, tinha um pouco de humanidade dentro de mim. Você tem que lembrar que eu sou diferente agora. Quando eu sou um garoto, como agora, sou completamente humano. Quando sou um corvo, não sou mais nada além de uma besta, um animal. Eu não reconheço você. Eu não reconheço nem a mim. Eu só reconheço o céu e a necessidade de voar com o vento”.
Aquilo a assustou. E ela contou isso a ele. Ela não escondia nada de Rephaim – eles eram próximos demais para isso.
“Mas você sempre volta para mim. Será que isso não significa que uma parte de você ainda está dentro do corvo?”
Ele pareceu triste, mas disse a verdade, como eles haviam prometido dizer sempre um ao outro.
“Quando eu sou um corvo, eu sou um animal. Eu não sei o que é amor. Eu não reconheço você. Por favor, não tente transformar isso em algo que não é.”
“Mas você volta para mim!”
“Stevie Rae.” Ele envolveu o rosto dela com as mãos. “Eu acho que isso só acontece por causa da magia de Nyx.”
“Como se ela tivesse colocado um GPS aí dentro, para que você pudesse me encontrar?”
“GPS?”
“Uma magia moderna que ajuda a encontrar o caminho de volta para casa.”
Ele abriu o sorriso.
Sim! Nyx colocou um GPS dentro de mim para que eu possa encontrar você.”
Stevie Rae afastou o seu cobertor e olhou para a cama vazia de Shaunee. Ela queria tentar ficar acordada para se certificar de que Shaunee estava bem. Devia ser horrível perder a melhor amiga. Apesar de Erin e Shaunee terem passado por problemas, isso não mudava o fato de que até algumas semanas atrás elas eram inseparáveis desde que chegaram na House of Night. Havia uma grande diferença entre brigar com a sua melhor amiga e a sua melhor amiga morrer.
A mente de Stevie Rae automaticamente voltou para a noite que Erin havia tossido o seu sangue vital e morrido. Zoey estivera lá com ela em cada segundo. Isso tinha ajudado. O fato de Shaunee estar lá com Erin também havia ajudado. E agora Shaunee estava fazendo a coisa certa, velando a pira da sua amiga até depois do amanhecer.
Stevie Rae rolou na cama e ficou olhando para a cortina blackout, tentando manter os olhos abertos, tentando lutar contra a falta de energia que naturalmente acometia os novatos e vampiros vermelhos quando o sol se levantava. Não era impossível para ela ficar consciente durante o dia. Só era difícil. Muito difícil. As suas pálpebras pesavam. Talvez ela pudesse descansar só um pouquinho. Ela iria escutar Shaunee entrando e acordaria para ver se ela estava bem...
A porta se abriu tão devagar e sem fazer barulho que quase não acordou Stevie Rae. Ela estava deitada de lado, virada para a janela, lutando para despertar completamente. Shaunee está tão quieta, Stevie Rae disse a si mesma, meio grogue. Talvez ela não queira conversar. Talvez ela só queira dormir. Stevie Rae revolveu que iria virar de lado e abrir os olhos, mas não ia falar nada – apenas ia deixar Shaunee saber que ela estava lá, acordada (mais ou menos), se ela precisasse conversar. Ela começou a se virar e de repente ouviu um som crepitante estranho bem acima do seu ombro. Ela tentou se virar e o barulho virou um zumbido ainda mais estranho, até que um choque elétrico, como eletricidade estática em esteroides, atingiu-a, fazendo com que ela se deitasse novamente na cama.
Instantaneamente desperta e totalmente apavorada, Stevie Rae tentou sentar de novo, dizendo:
— Shaunee, tem algo errado aqui.
Apesar de não haver nada acima dela, a eletricidade a atravessou novamente. Ainda deitada de lado, Stevie Rae pressionou o seu corpo contra a cama, tentando se afastar daquele perigo invisível que estava pairando acima dela.
— Shaunee! — ela gritou. — Ajude-me!
— Ela não  aqui. Ela ainda  se acabando de chorar na pira da Erin. Hipócrita de merda.
A respiração de Stevie Rae ficou ofegante de pânico quando ela reconheceu a voz dele.
— Dallas, o que você está fazendo aqui? — automaticamente, Stevie Rae começou a tentar alcançar a proteção do seu elemento, mas o quarto de Shaunee ficava no terceiro andar do dormitório, ou seja, muitos metros acima da terra para que o seu elemento pudesse ajudá-la sem o auxílio de um círculo traçado e o reforço do poder de Zoey.
Ele deu um passo e entrou no campo de visão dela: uma silhueta escura contra as cortinas negras. Ela conseguiu ver que ele estava com uma das mãos levantadas, com a palma voltada para ela. A palma da mão dele estava incandescente. Com a outra mão, ele segurou a corda grossa que prendia as cortinas no lugar.
— Vamos apenas dizer que estou aqui para dar o troco.
Stevie Rae tentou sair da cama. Um campo elétrico crepitou e deu um choque nela, fazendo-a gritar de dor e se retrair.
— Dallas, isso é loucura! Shaunee vai chegar a qualquer momento.
— Já vai ser tarde demais para você. E não se preocupe, eu vou cuidar para que Shaunee também receba o que ela merece. Mas primeiro é a sua vez — o olhar dele estava frio, e a sua voz, cheia de ódio. — Eu vou matar Shaunee rápido, com apenas um “zap”. Mas você não... Você merece sofrer. Você me traiu com uma aberração da natureza. Agora vai fritar por causa disso!
Dallas puxou a corda com força, soltando as cortinas blackout. Abrindo metade da cortina, mas tomando cuidado para se manter coberto, ele deu um passo para trás.
A luz do dia invadiu o quarto através da janela descoberta diretamente em Stevie Rae.
Foi como se ela tivesse entrado na boca de uma fornalha. O campo elétrico a prendia na cama enquanto a luz começava a queimar a sua pele. Stevie Rae cobriu o rosto, contorcendo-se de agonia, e começou a gritar.
Então de repente tudo ficou muito louco.
Houve um grito estridente e terrível, tão alto que penetrou a agonia de Stevie Rae.
— Ahhh! Merda! Saia de mim! — Dallas estava berrando e cambaleando pelo quarto.
O campo elétrico que a estava mantendo presa se dissipou e Stevie Rae rolou para fora da cama. Ela se encostou na lateral da cama, escapando para a sombra fria.
Dallas passou bruscamente por ela, tentando chegar até a porta, mas o ataque do corvo gigante era implacável. Totalmente chocada, Stevie Rae viu o pássaro tirar sangue de Dallas, arranhando com suas garras os braços levantados dele, enquanto batia suas asas enormes e guinchava de ódio.
A porta abriu bruscamente e Shaunee correu para dentro do quarto.
— Stevie Rae! O que...
Dallas a agarrou, segurando-a na frente dele, usando-a como um escudo.
— Não, Rephaim, não machuque Shaunee!
O corvo desviou suas garras no último segundo, apenas roçando a lateral do rosto de Shaunee, e o impulso do seu ataque fez com que ele passasse por ela e se chocasse brutalmente contra a parede.
Dallas empurrou Shaunee na direção do pássaro e então saiu correndo em disparada pela porta, batendo-a com força depois de passar por ela.
Shaunee se arrastou pelo chão até Stevie Rae.
— Aiminhadeusa! A sua pele! Ah, Stevie Rae, você se queimou muito! Não se mexa... não se mexa! Eu vou fechar as cortinas e buscar ajuda.
— Deixe Rephaim sair primeiro. Ele vai ficar assustado.
Shaunee não teve que procurar o corvo. Ele voou até elas, passando tão perto que Stevie Rae sentiu o ar que ele movimentou. Ele aterrissou no pé na cama. Empoleirado ali, ele observou Stevie Rae atentamente, inclinando a cabeça.
— Pode ir — ela disse, tentando soar calma e normal. — Eu estou bem. Vá lá para fora — Stevie Rae levantou a mão, fazendo um gesto fraco na direção da janela aberta e ignorando o fato de que a sua mão, o seu braço e, ela tinha certeza, o seu rosto, estavam chamuscados e ensanguentados. — Shaunee vai cuidar de mim agora. Eu o vejo no pôr do sol.
Ele inclinou a cabeça de novo e grasnou baixinho.
Stevie Rae pensou que ele era o pássaro mais lindo que ela já tinha visto na vida.
— Eu te amo, Rephaim — ela falou. — Obrigada por me salvar.
Como se ele estivesse apenas esperando ouvir isso, o corvo enorme abriu as asas e levantou voo pela janela aberta.
Shaunee correu até a janela e fechou as cortinas blackout, amarrando-as rapidamente e com firmeza.
Ela se agachou ao lado de Stevie Rae.
— Quer que eu a ajude a deitar na cama?
— Não. Apenas busque ajuda.
Depois que Shaunee saiu correndo do quarto, Stevie Rae pressionou o rosto contra o chão e rezou para desmaiar.

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