6 de outubro de 2015

Capítulo 13 - Rephaim

Rephaim soube instantaneamente que o mal tinha se materializado. Ele estava sentado na varanda, comendo uma maçã, olhando para o céu, à noite clara e tentando ignorar a presença irritante do fantasma humano que desenvolveu uma terrível fascinação por ele.
— Vamos, me diga! É realmente divertido voar? — o jovem espírito perguntou a Rephaim, provavelmente pela centésima vez. — Parece ser divertido. Eu nunca consegui, mas eu aposto que voar com suas próprias asas é mais divertido que viajar de avião todos os dias.
Rephaim suspirou. A criança falava mais que Stevie Rae, o que era bastante impressionante. Irritante, mas impressionante. Ele estava tentando decidir se devia continuar a ignorá-la e esperar que ela finalmente fosse embora, ou chegar a um plano alternativo, já que ignorar a menina não parecia estar funcionando. Ele pensou que deveria perguntar a Stevie Rae o que fazer com o fantasma, que tinha voltado sua mente em direção à Vermelha. Embora, verdade seja dita, seus pensamentos nunca ficaram longe dela.
— É perigoso voar? Quer dizer com as suas próprias asas? Eu acho que deve ser porque você se machucou, e eu aposto que estava voando ao redor...
A criança estava balbuciando quando a textura do mundo mudou. Nesse momento, no primeiro choque, ele sentiu a familiaridade e acreditou, no espaço de um batimento que seu pai tinha retornado.
— Silêncio. — Ele rugiu para o fantasma. Levantou-se e deu a volta, seus brilhantes olhos vermelhos evidente na terra a sua volta, esperando além das suas palavras que ele pudesse perceber a escuridão das asas de corvo do seu pai.
A criança fantasma deu um rangido chocado, encolheu-se longe dele, e desapareceu.
Rephaim não deu absolutamente nenhum pensamento à ela. Ele estava muito ocupado para ser bombardeado com conhecimentos e emoções.
Primeiro veio o conhecimento. Ele sabia quase de imediato que não era seu pai que ele sentia. Sim, Kalona era poderoso, e tinha se aliado com o mal há muito tempo, mas a perturbação que este imortal estava causando ao mundo era diferente, ele era muito mais poderoso. Rephaim podia sentir isso na resposta entusiasmada das coisas ocultas da terra, espíritos que este mundo moderno de luz artificial e mágica eletrônica havia esquecido. Mas Rephaim não se esqueceu deles, e das sombras mais profundas da noite, ele viu ondulações e tremores, e ficou perplexo com a reação deles.
O que poderia ser forte o suficiente para despertar os espíritos ocultos?
Então o medo de Stevie Rae o atingiu. Foi a crueldade do seu completo terror juntamente com o entusiasmo dos espíritos, e esse instante de familiaridade inicial, que providenciaram a Rephaim sua resposta.
— Por todos os Deuses, a Escuridão se infiltrou neste reino! — Rephaim estava em movimento antes que tivesse tomado uma decisão consciente de fazê-lo. Ele derrubou as portas da frente da mansão em ruínas, colocando-as de lado com seu braço ileso como se fossem feitas de papelão, só para parar frente a uma grande varanda.
Ele não tinha ideia de onde deveria ir.
Outra onda de terror o pegou. Vivia com ela. Rephaim sabia que Stevie Rae estava paralisada de medo. Um sentimento horrível preencheu sua mente: Stevie Rae tinha conjurado a Escuridão? Como poderia? Por que ela faria?
A resposta à mais importante das três perguntas veio tão depressa quanto ele pensava. Stevie Rae faria quase qualquer coisa que ela acreditasse que pudesse trazer Zoey de volta.
O coração de Rephaim trovejou, e seu sangue bombeava dura e rapidamente através de seu corpo. Onde ela estava? Na House of Night?
Não certamente não. Se ela planejava conjurar a Escuridão, não seria em uma escola dedicada à luz.
— Porque você não vem a mim? — gritou sua frustração para a noite. — Eu sei que você não conjurou a Escuridão!
Mas como ele mesmo falou, ele admitiu para si mesmo que ele estava errado. Stevie Rae tinha sido tocada pela Escuridão, quando ela tinha morrido. Ele não tinha conhecido ela ainda, mas ele conheceu Stark, e tinha testemunhado por si mesmo a escuridão que cercava a morte e ressurreição de um principiante.
— Ela escolheu a Luz, apesar de tudo. — Falava baixinho neste momento. — E a Luz sempre subestima a maldade da Escuridão.
O fato de que eu vivo é um exemplo disso.
Stevie Rae precisou dele hoje à noite, mal. Isso também era um fato.
— Stevie Rae, onde está você? — Rephaim murmurou.
Somente a agitação inquieta dos espíritos o respondeu.
Ele poderia persuadir um espírito para conduzi-lo à Escuridão? Não, ele descartou a ideia rapidamente. Espíritos iam para a Escuridão se ela chamasse. Fora isso, preferiam muito mais se alimentar dos vestígios de poder de longe. E ele não podia se dar ao luxo de esperar ao redor com esperança que a Escuridão os chamasse. Ele precisava descobrir...
— REPHAIM!
O grito de Stevie Rae ecoou estranhamente ao seu redor. Sua voz estava cheia de dor e desespero. O som dele cortava o coração. Ele sabia que os seus olhos brilhavam vermelhos. Quis dilacerar e destruir. A neblina vermelha de raiva, que começou a esmagá-lo, era um escape sedutor. Se ele cedesse à raiva completamente, ele iria, na verdade, tornar-se mais besta do que homem, e esse desconforto, incomum que ele havia começado a sentir por ela seria abafado pelo instinto e pela violência gratuita, o que ele poderia apaziguar ao atacar os seres humanos indefesos em qualquer uma das casas escuras em torno do museu sem vida. Por algum tempo ele ficaria satisfeito. Por um tempo ele não se sentiria mal.
E por que não ceder à raiva que tantas vezes consumiu sua vida? Seria mais fácil – era familiar – era segura.
Se eu ceder para a raiva, será o fim dessa ligação que tenho com ela. O pensamento enviou ondas de choque através do seu corpo. A ondulação virou para as partículas brilhantes de luz e queimavam a névoa vermelha que cobria seus olhos.
— Não! — Gritou, deixando a humanidade de sua voz derrotar a fera dentro dele. — Se eu abandoná-la para a Escuridão, ela morre. — Rephaim chamou respirações longas e lentas. Ele tinha que se acalmar. Ele tinha que pensar. A neblina vermelha continuou a se dissipar, e sua mente começou a raciocinar novamente. Eu tenho que usar a nossa ligação e nosso sangue!
Rephaim se forçou a ficar quieto e respirar na noite. Ele sabia o que devia fazer. Ele inalou uma respiração mais profunda, e então começou: — Eu convoco o poder do espírito dos antigos imortais, que é meu por direito de nascença e de comando. — Rephaim se enrijeceu para o esgotamento que a invocação poderia causar em seu corpo não cicatrizado, mas enquanto ele chamava a poder das sombras da noite, ele ficou surpreso ao sentir uma onda de energia. A noite em torno dele parecia inchada, pulsando com força bruta dos antigos. Deu-lhe um senso de presságio, mas ele usou todos os mesmos, canalizando o poder através dele, preparando-se para recarregá-lo com a imortalidade contida em seu sangue, o sangue que Stevie Rae agora compartilhava. Mas, como se enchia, seu corpo foi consumido em uma energia tão forte, tão crua, que derrubou Rephaim de joelhos.
Seu primeiro indício de que algo milagroso estava acontecendo foi quando ele percebeu que tinha jogado automaticamente ambas as mãos para frente para apoiar a si mesmo e os dois braços responderam mesmo o que havia sido quebrado e estava atado ao seu peito com uma tipoia.
Rephaim permaneceu lá de joelhos, tremendo e segurando os dois braços para frente. Sua respiração estava vindo mais rápida enquanto as mãos estavam flexionadas.
— Mais! — Ele sussurrou a palavra. — Venha para mim!
A energia escura surgiu nele de novo, uma vida corrente de violência fria lutava para se conter. Rephaim sabia que isto era diferente do que qualquer coisa que ele tinha sentido antes, quando tinha convidado os poderes do sangue de seu pai e lhes permitiu o acesso, mas ele não era calouro. Ele tinha grande intercâmbio com as sombras e base das coisas que enchiam a noite. Penetrando profundamente dentro dele, o Corvo Escarnecedor inalou a energia, como o ar de uma noite de inverno, e depois atirou os braços e no mesmo instante ele desatou suas asas.
Ambas as asas responderam-lhe.
— Sim! — Sua mensagem alegre fazendo as sombras se contorcerem e tremerem em êxtase.
Ele estava completo de novo! A asa foi completamente curada!
Rephaim saltou a seus pés. Suas asas negras completamente estendidas pareciam uma escultura de um magnífico Deus-pássaro, de repente, ganharam vida. Seu corpo vibrando com o poder, o Corvo Escarnecedor continuou a invocação. O ar brilhou escarlate, como se uma névoa de fósforo misturada com sangue rodeava. Inchado com o poder emprestado da Escuridão, a voz de Rephaim tocou na noite. — Com o poder imortal de meu pai, Kalona, que semeou o meu sangue e espírito, com seu legado, eu comando este poder que eu domino em seu nome para me levar para a Vermelha. –ela que já provou o meu sangue, e com quem eu tenho um Imprint e troquei dívidas de vida. Leve-me para Stevie Rae! Eu ordeno isso!
A névoa pairou por um momento, depois mudou e, como uma fita de seda escarlate, um caminho, fino brilhante foi revelado no ar em frente a ele. Rápido e seguro, Rephaim foi para o céu e riscou acenando depois da Escuridão.
Encontrou-a não muito longe do museu em um parque coberto pela fumaça e morte. Ele caiu do céu em silêncio, Rephaim queria saber como os humanos nas casas ao redor da área poderiam ser tão alheios ao que tinha sido libertado fora da ilusória segurança de sua porta da frente.
O ponto de fumaça negra era mais concentrado no centro do parque. Rephaim poderia apenas forçar para fora os ramos de um velho carvalho e ver onde o caos reinava. Ele abrandou quando chegou perto dele, mas suas asas ainda estavam espalhadas em torno dele, tocando o ar e lhe permitindo mover-se silenciosamente e rapidamente, mesmo no chão.
O calouro não o notou. Mas Rephaim percebeu que o menino provavelmente não teria percebido a chegada de um exército. Toda a sua atenção estava voltada para a tentativa de esfaquear com uma faca longa e letal através do que parecia ser um círculo de escuridão que tinha se fundido em uma parede sólida – ou pelo menos era assim que se manifestava para o calouro.
Rephaim não era um calouro, ele entendia muito melhor a Escuridão.
Ele contornou o menino e, invisível, enfrentou o círculo no seu ponto mais setentrional. Ele não tinha certeza se seu instinto ou a influência de Stevie Rae o atraiu ali, e reconheceu, embora brevemente, que os dois poderiam estar se tornando um.
Ele fez uma pausa, e com um movimento único, relutante, fechou as asas, dobrando-as cuidadosamente em suas costas. Então, ele ergueu a mão e falou baixinho à névoa vermelha que ainda estava a seu comando. — Cubra-me. Permita-me atravessar a barreira. — Rephaim enrolou em torno de seu punho a energia pulsante reunida ali e, em seguida, com um toque de seus dedos, dispersou o nevoeiro sobre seu corpo.
Ele esperava sentir a dor. Embora houvesse aspectos do poder imortal que lhe obedeciam, nunca antes a obediência veio sem um preço. Muitas vezes, esse preço era pago com dor. Desta vez, a dor através de seu corpo, recentemente curado, queimava como lava, mas ele a acolheu com prazer porque isso significava que seu comando tinha sido feito.
Não havia maneira de se preparar para o que ele poderia encontrar dentro do círculo. Rephaim simplesmente reuniu-se e, coberto pela força do sangue herdado de seu pai, ele se adiantou. A parede da Escuridão se abriu para ele.
Dentro do círculo Rephaim foi tragado pelo cheiro do sangue de Stevie Rae e o odor esmagador de morte e decadência.
— Por favor, pare! Eu não aguento mais! Mate-me se isso é o que você quer, mas não me toque de novo!
Ele não podia vê-la, mas Stevie Rae soou completamente derrotada. Agindo rapidamente, Rephaim escavou um pouco da névoa escarlate que estava agarrada em seu corpo. — Vá para fortalecê-la — ele sussurrou o comando.
Ele ouviu o suspiro da Stevie Rae e teve quase certeza que ela gritou seu nome. Então a Escuridão se dispersou para revelar uma visão que Rephaim nunca esquecerá, mesmo se ele viver para ser tão antigo quanto o pai.
Stevie Rae estava no meio do círculo. Gavinhas da pegajosa corrente preta enroladas nas pernas. Onde quer que elas a tocassem, cortavam sua pele. Seu jeans rasgado em fragmentos estava pendurado em seu corpo. Sangue escorria de sua carne rasgada. Enquanto observava, outra corrente serpenteou fora da Escuridão cercando-a e amarrando-a, como um chicote, em torno de sua cintura, imediatamente, traçando uma linha de sangue. Ela gemeu de dor, e sua cabeça pendeu. Rephaim viu que seus olhos ficaram em branco.
Foi então que o animal apareceu. No instante em que viu, Rephaim soube sem qualquer dúvida que ele estava olhando a Escuridão em sua forma física. Ele exalava um cheiro terrível, um som ensurdecedor. Vomitando sangue, muco e fumo, o touro rasgou a terra com suas patas. A criatura perseguia Stevie Rae para fora da densa fumaça negra. Como o luar em uma cripta, o revestimento do touro branco, parecia como a morte quando ele se elevou sobre a menina. A criatura era tão grande que teve de mergulhar sua cabeça enorme para permitir a sua língua lamber o sangramento da cintura dela.
O grito da Stevie Rae ecoou através do choro de Rephaim: — Não!
O grande touro parou. Sua cabeça virou-se para o Corvo Escarnecedor, e seu olhar sem fundo encontrou Rephaim.
— Esta noite se torna mais e mais interessante. — A voz retumbou em sua mente. Rephaim foi forçado para baixo com medo quando o touro deu dois passos em direção a ele, balançando o chão enquanto sentia o ar perfumado. — Sinto a Escuridão em você.
— Sim — Rephaim falou sobre o som do bater do seu coração apavorado. — Eu tenho vivido muito tempo com a Escuridão.
— Estranho, então, que eu não o conheço. — O touro sentiu o ar em torno dele novamente. — Apesar de eu ter conhecido seu pai.
— É através do poder do sangue de meu pai que eu parti a neblina escura e estou diante de vós. — Ele mantinha os olhos sobre o touro, mas ele estava totalmente ciente de que Stevie Rae estava a poucos metros dele, sangrando e indefesa.
— É? Eu acho que você mente homem-pássaro.
Embora a voz em sua mente não se alterou, Rephaim podia sentir a raiva do boi.
Permanecendo calmo, Rephaim escavou um dedo no peito, puxando uma linha de névoa vermelha do seu corpo. Ele segurou a mão para cima, como uma oferenda para o touro. — Isto me permitiu partir a cortina escura do círculo, e este poder está a meu comando, por direito do sangue imortal de meu pai.
— Esse sangue imortal que flui através de suas veias é a verdade. Mas o poder que enche o seu corpo e comandou minha barreira e a partiu é emprestado de mim.
Medo deslizou na espinha de Rephaim. Muito cuidadoso, ele abaixou a cabeça em respeito e reconhecimento. —Então eu agradeço, apesar de eu não recorrer ao seu poder. Eu invoquei apenas o meu pai, como só o dele que tenho direito de comandar.
— Eu ouço a verdade nas suas palavras, filho de Kalona, mas porque usou o poder de comando dos imortais para atraí-lo aqui e para permitir que você entre em meu círculo? Que negócio você ou seu pai têm com a Escuridão esta noite?
O corpo de Rephaim continuou parado, mas sua mente disparou. Até aquele momento em sua vida, ele sempre tinha elaborado que a força do legado da imortalidade em seu sangue e as astúcias do corvo que ele tinha herdado ajudaram a criá-lo. Mas esta noite, ao enfrentar a Escuridão, inchado, com uma força que não era sua, de repente ele sabia que mesmo que fosse através do poder desta criatura que tinha sido concedido acesso a Stevie Rae, ele não poderia salvá-la usando a força da Escuridão, se veio do touro ou do pai, nem poderia o instinto de corvo em batalha ajudar a enfrentar esta besta. Forças aliadas não poderiam derrotar este touro – esta encarnação da Escuridão.
Então Rephaim chamou a única coisa que restava a ele, os remanescentes de humanidade passados a ele através do corpo de sua mãe morta. Ele respondeu ao touro como um ser humano, com uma sinceridade tão crua que ele pensou que poderia unir seu coração.
— Eu estou aqui porque ela está aqui e ela me pertence. — Os olhos de Rephaim nunca deixaram o touro, mas ele sacudiu a cabeça em direção Stevie Rae.
— Eu sinto o cheiro dela em você. — O boi deu mais um passo em direção Rephaim, fazendo com que o solo sob eles tremesse. — Ela pode pertencer a você, mas ela teve o descaramento de me chamar. Esta vampira solicitou a minha ajuda, e a concedi. Como você sabe, ela deve pagar o preço. Parta agora, homem-pássaro, e permitirei que você viva.
— Vá, Rephaim. — Disse Stevie Rae com a voz fraca, mas quando Rephaim finalmente a olhou, e viu que seu olhar era firme e lúcido. —Não é como no telhado. Você não pode me salvar disto. Apenas vá.
Rephaim deveria ir. Ele sabia que devia. Apenas alguns dias antes ele não podia sequer imaginar um mundo onde ele se humilharia à Escuridão para tentar salvar uma vampira – para tentar salvar alguém, exceto ele próprio ou o seu pai. No entanto, enquanto ele olhava para os calmos olhos azuis de Stevie Rae, o que ele viu, foi todo um novo mundo, um mundo em que esta estranha e pequena vampira vermelha significava coração, alma e verdade.
— Por favor. Não deixe ele machucar você também. — ela disse.
Foram essas palavras, aquelas abnegadas, sinceras, as palavras verdadeiras que fizeram Rephaim tomar a decisão.
— Eu disse que ela pertence a mim. Você sentiu o cheiro dela em mim, você sabe que é verdade. Então eu posso pagar a dívida por ela. — disse Rephaim.
— Você é filho de seu pai. Como ele, você optou por ser um defensor que nunca pode ter o que vocês mais procuram. Que assim seja. Eu aceito o pagamento da dívida da vampira por você. Liberte-a! —O touro ordenou.
As correntes da Escuridão retiraram-se do corpo de Stevie Rae e, como se tivessem sido as únicas coisas que a mantinham de pé, ela desabou na grama encharcada de sangue.
Antes que ele pudesse mover-se para ajudá-la, um cacho de correntes escuras, semelhante a cobras, levantou a partir do fumo e das sombras em torno do touro. Com uma rapidez que era sobrenatural, o atacou, envolvendo em torno do tornozelo de Rephaim.
O Corvo Escarnecedor não gritou, mesmo querendo. Em vez disso, concentrando-se através da dor extrema, ele gritou para Stevie Rae, — Volte para House of Night!
Ele viu Stevie Rae tentar ficar em pé, mas ela escorregou no seu próprio sangue e deitou no chão, chorando baixinho. Seus olhos se encontraram, e Rephaim balançou em direção a ela, abrindo suas asas, determinado a quebrar a corrente apertada e, pelo menos, levá-la segura pra fora do círculo.
Outra corrente serpenteou fora e chicoteou em torno do bíceps de Rephaim no braço recentemente curado, cortando mais de um centímetro no músculo. No entanto, outra veio das sombras atrás dele, e Rephaim não podia ajudar gritando em agonia com a coisa enrolada em torno de suas asas e em todas suas costas, rasgando e arrancando e fixando-o contra o chão.
— Rephaim! — Stevie Rae soluçou.
Ele não podia ver o touro, mas ele sentiu a terra tremer enquanto a criatura se aproximou dele. Ele virou a cabeça e, através de um borrão de dor, ele viu Stevie Rae tentar rastejar na direção dele. Ele queria dizer a ela para parar – dizer algo para ela que iria fazê-la fugir. Então, a dor lancinante da língua do boi tocou na ferida em seu tornozelo, Rephaim compreendeu que Stevie Rae não estava realmente tentando rastejar até ele. Ela estava em cima das suas mãos e joelhos, em posição de caranguejo, pressionada contra a terra. Seus braços estavam tremendo, e seu corpo ainda estava sangrando, mas seu rosto estava voltando a sua cor. Ela estava puxando energia da terra, Rephaim compreendeu com uma incrível sensação de alívio. Isso a tornaria forte o suficiente para sair do círculo e encontrar seu caminho para a segurança.
— Eu tinha esquecido a doçura do sangue imortal. — A respiração podre do touro banhou sobre Rephaim. — O sangue de vampiro é apenas uma sugestão do que é isso. Eu acredito que vou beber e beber de você, filho de Kalona. Você, certamente, pediu o poder da Escuridão esta noite, então você tem uma grande dívida a pagar maior do que apenas a dela.
Rephaim recusou-se a olhar para a criatura. Mantido em cativeiro pelas correntes cortantes, seu corpo foi levantado e virado de modo que seu rosto foi pressionado contra a terra. Ele manteve seu olhar focado em Stevie Rae enquanto o touro estava em cima dele e começava a beber do ferimento na base de suas asas sangrando.
Agonia como ele nunca sentiu antes agrediu seu corpo. Ele não queria gritar. Ele não quis se contorcer de dor. Mas ele não poderia ajudá-la. Os olhos de Stevie Rae eram tudo que o mantinha preso à consciência com a Escuridão se alimentando dele, violando-lhe uma e outra vez.
Quando Stevie Rae ficou em pé, levantando os braços, Rephaim pensou que estava tendo alucinações, porque ela parecia tão forte e poderosa e muito, muito furiosa. Ela segurava algo na sua mão – uma trança longa que estava soltando fumaça.
— Eu fiz isso antes. Vou fazê-lo novamente.
A voz de Stevie Rae veio a ele como se fosse de muito longe, mas parecia forte, também. Rephaim perguntou por que o touro não ouviu-a e impediu-a, mas a criatura gemia de prazer e a dor aguda que irradiava de suas costas respondeu a Rephaim. O touro não considerou Stevie Rae uma ameaça, ele estava fixado em consumir o sangue inebriante da imortalidade. Deixe-o continuar a tomar de mim, deixe-a escapar, Rephaim orou em silêncio a qualquer um dos deuses que se dignasse a ouvi-lo.
— Meu círculo está intacto — Stevie Rae estava falando com rapidez e clareza. — Rephaim e esse boi nojento vieram ao meu comando. Então, eu comando novamente, através do poder da terra, eu chamo o outro touro. Aquele que luta contra este, e eu vou pagar o que for preciso, é só tirar essa coisa de meu Corvo Escarnecedor!
Rephaim sentiu a criatura acima dele pausar sua alimentação na medida em que um raio de luz atravessou a escuridão lançando fumaça na frente de Stevie Rae. Ele viu os olhos de Stevie Rae aumentarem e, milagrosamente, ela sorriu e depois gargalhou.
—Sim! — Falou alegremente. — Eu vou pagar o seu preço. E, droga! Você é tão negro e tão belo!
Ainda de pé sobre ele, o touro branco rosnou. Gavinhas começaram a serpentear da Escuridão em torno de Rephaim e deslizar em direção a Stevie Rae. Rephaim abriu a boca para gritar um aviso, mas Stevie Rae pisou diretamente para o feixe de luz. Houve um som como um trovão, e então outro flash ofuscante. Do meio da explosão brilhante pisou um touro enorme, negro, enquanto o primeiro era branco. Mas esta criatura da Escuridão não era como a outra suja de sombras pretas que se curvou para longe dele. A pele deste touro era como o negro do céu da meia-noite preenchida com o brilho de diamante das estrelas – profundo e misterioso e belo de se ver.
Por um instante, o touro negro olhou fixamente Rephaim, e o Corvo Escarnecedor suspirou. Ele nunca tinha visto tal bondade em sua vida, ele nunca, jamais soube que tal bondade poderia existir.
— Não deixe que ela tenha feito a escolha errada. — A nova voz em sua mente era tão profunda como o primeiro touro tinha sido, mas cheio de uma riqueza de compaixão. — Porque se você é digno ou não, ela pagou o preço.
O touro negro abaixou a cabeça e atacou o touro branco, arremessando-o longe do corpo de Rephaim. Houve um estrondo ensurdecedor quando os dois se encontraram, e depois um silêncio tão profundo, que também era ensurdecedor.
As correntes se dissiparam como o orvalho no sol do verão. Stevie Rae estava de joelhos, alcançando-o, quando a fumaça desapareceu, e o calouro correu para o círculo com uma faca levantada e pronta.
— Para trás, Stevie Rae! Eu vou matá-lo porra!
Stevie Rae tocou o chão, e murmurou: — Terra, o faça tropeçar. Duramente.
Sobre o ombro de Stevie Rae, Rephaim viu o chão se levantar na frente dos pés do menino, o magro calouro tropeçou e caiu de cara – duramente.
— Você pode voar? — Ela sussurrou.
— Eu acho que sim. — ele murmurou de volta.
— Então, volte para o Gilcrease, — disse ela com urgência. — Eu irei até você depois.
Rephaim hesitou. Ele não queria deixá-la tão cedo depois de terem passado por tanta coisa juntos. Ela estava realmente bem, ou a Escuridão tomou muito dela?
— Eu estou bem. Prometo, — Stevie Rae disse-lhe baixinho como se estivesse lendo sua mente. — Vá em frente.
Rephaim ficou em pé. Com um último olhar em Stevie Rae, ele desdobrou suas asas e forçou seu corpo golpeado a levá-lo para o céu.

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