9 de outubro de 2015

Capítulo 12 - Kalona

Estar do lado da Luz não era tão interessante quanto ele se lembrava. Verdade seja dita, Kalona estava entediado. Sim, Kalona entendia por que Thanatos havia dito a ele para ficar em segundo plano e não chamar atenção para si mesmo até depois do funeral de Dragon. Era nessa hora que ela ia anunciar para a escola que ele era o seu novo guerreiro e que ele ia assumir o posto de Mestre da Espada e líder dos Filhos de Erebus da House of Night de Tulsa.
Até esse momento, a presença dele poderia ser algo confuso, se não insultuoso aos olhos dos outros guerreiros.
O problema é que Kalona nunca havia se preocupado por parecer insultuoso. Ele era um imortal poderoso. Por que ele deveria se importar com os sentimentos irrelevantes dos outros?
Porque aqueles que eu julgo mais irrelevantes às vezes me surpreendem: Heath, Stark, Dragon, Aurox, Rephaim. O último nome da sua lista mental o alarmou. Rephaim já pareceu sem importância para ele um dia, mas ele estava errado. Kalona tinha percebido que ele amava e precisava do seu filho. Em que mais ele havia errado?
Provavelmente em um monte de coisas. Esse pensamento o deixou deprimido.
Ele andou de um lado para o outro pelo lado mais escuro e cheio de sombras do Templo de Nyx. Ali ele estava perto o bastante da pira de Dragon para ouvir quando Thanatos o chamasse, mas ao mesmo tempo estava fora do campo de visão.
O fato de alguém dizer a ele o que deveria fazer o irritava. Isso sempre o irritara.
E havia aquela novata que tinha afinidade com o fogo, Shaunee. Ela parecia ter a habilidade de incitá-lo, de fazê-lo pensar em coisas em que ele não estava acostumado a perder tempo pensando.
Ela já havia feito isso antes. Ele havia tido a intenção de manipulá-la, para conseguir informações sobre Rephaim e a Vermelha. Mas o que havia acontecido era que ela o tinha presenteado com algo ridiculamente mundano e simples: um telefone celular. Aquele pequeno presente tinha salvado a vida do seu filho. Agora ela o fizera pensar em todos aqueles éons que ele havia passado afastado de Nyx.
— Não! — ele falou a palavra em voz alta, fazendo com que o pequeno bosque de olaias que estavam plantadas no lado oeste do Templo de Nyx chacoalhasse como se uma tempestade as ameaçasse.
Kalona se concentrou e controlou o seu temperamento.
— Não — ele repetiu, usando uma voz que não estava mais repleta de poder sobrenatural. — Eu não vou pensar nos séculos que passei afastado dela. Não vou pensar nela de jeito nenhum.
Uma gargalhada soou ao redor dele, fazendo as olaias se mexerem, tremularem e então explodirem em plena floração, como se um facho da luz do sol do verão tivesse subitamente iluminado as árvores. Kalona cerrou os punhos e levantou os olhos.
Ele estava sentado no beiral de pedra do templo. Havia pouca luz naquele lado do edifício, motivo pelo qual Thanatos havia ordenado que ele esperasse ali, mas Erebus irradiava luz própria. Erebus... seu irmão... o Consorte imortal de Nyx. O único ser do universo que era mais parecido com ele, e o único ser do universo que ele detestava mais do que a si mesmo. Ali! No reino mortal depois de todos esses éons? Por quê?
Kalona mascarou o seu choque com desdém.
— Você é mais baixo do que eu me lembrava.
Erebus sorriu.
— Que bom ver você de novo também, irmão.
— Como sempre, você coloca palavras da minha boca.
— Desculpe. Eu não preciso fazer isso. Não quando as suas próprias palavras são tão interessantes. “Não vou pensar nela de jeito nenhum” — Erebus não apenas era quase uma imagem espelhada de Kalona, como também imitava a voz de seu irmão perfeitamente.
— Eu estava falando de Neferet — Kalona rapidamente organizou seus pensamentos e mentiu com facilidade.
Fazia éons, mas ele costumava ser bom em mentir para o seu irmão. Kalona achou que ainda levava jeito para a coisa.
— Não duvido de você, irmão — Erebus se inclinou para a frente, abriu suas asas douradas e planou graciosamente até o chão diante de Kalona. — Veja só, esse é exatamente o motivo da minha pequena visita.
— Você veio até o reino terreno porque eu era amante de Neferet? — Kalona cruzou os braços sobre o seu peito largo e encontrou o olhar âmbar de seu irmão.
— Não, eu vim porque você é um mentiroso e um ladrão. O estupro da última bondade de Neferet é apenas mais um de seus muitos crimes — Erebus disse.
Ele também cruzou o braço sobre o peito.
Kalona deu uma gargalhada.
— Você não andou espionando muito bem se acha que estupro tem algo a ver com o que Neferet e eu compartilhamos. Ela estava mais do que desejosa e pronta para o meu corpo.
— Eu não estava falando do corpo dela! — a voz de Erebus se elevou e Kalona ouviu o som de vampiros chamando e perguntando o que estava havendo ali perto do Templo de Nyx.
— Como sempre, irmão, você apareceu para causar problemas para mim. Eu deveria ficar nas sombras, sem ser visto e esperando até ser convocado. Se bem que, pensando melhor, vai ser divertido assistir a você lidar com a descoberta dos mortais. Apenas um rápido aviso: até os vampiros tendem a ter reações exageradas quando encontram um deus.
Erebus não hesitou. Ele levantou as mãos e ordenou:
— Esconda-nos!
Houve uma onda de vento e uma sensação de claridade que Kalona achou tão familiar, tão agridoce, que só duas reações vieram à sua mente: raiva e desespero. Ele não ia permitir que Erebus visse o seu desespero.
— Você está desafiando Nyx? Ela determinou que eu não posso entrar no Outromundo. Como você se atreve a me trazer aqui? — as asas cor da noite de Kalona estavam totalmente abertas e tensionadas, prontas para atacar o seu irmão.
— Você sempre faz o papel do tolo impetuoso, irmão. Eu nunca iria contra as determinações da minha Consorte. Eu não o trouxe para o Outromundo. Apenas trouxe um pedaço do Outromundo para nos esconder, só por alguns momentos, dos olhos mortais — Erebus sorriu de novo.
Desta vez, ele não obscureceu a beleza de sua expressão. Uma luz solar irradiava do seu corpo. As suas asas cintilavam com penas de ouro. A sua pele era perfeita, como se ele tivesse sido modelado com raios de sol.
Ele foi, Kalona pensou com desgosto. Ele foi modelado quando o céu beijou o sol. Assim como eu fui modelado quando o céu beijou a lua.
O céu, como a maioria dos imortais, é um bastardo inconstante, que faz o que quer e depois não presta atenção nos filhos que deixa para trás.
— Que tal a sensação de estar no Outromundo? Deve ser melhor do que quando você entrou sorrateiramente, perseguindo aquela pequena novata, Zoey Redbird. Naquela ocasião você era só espírito. Você não podia sentir a mágica do reino de Nyx contra a sua pele. E você sempre ficou tão impressionado com qualquer coisa que você pudesse tocar, que pudesse fisicamente chamar de sua.
Ótimo, Kalona pensou, ele ficou nervoso. Isso vai ofuscar a sua perfeição.
Foi a vez de Kalona sorrir. A luz que ele emitiu para o seu irmão não era a luz quente e vistosa do sol. Era a luminescência prateada e fria da lua.
— Ainda enciumado por eu tê-la tocado depois de todo esse tempo? Você se lembra de que Nyx é uma Deusa, não lembra? Ela não pode ser tocada a não ser que seja a sua vontade, o seu desejo, ser tocada, acariciada, amada por...
— Eu não vim aqui para falar de minha Consorte! — as palavras explodiram em flashes de calor dourado ao redor de Kalona.
— Que amostra de temperamento divino! — Kalona riu sarcasticamente. — E ainda dizem que você é o irmão bom. Se ao menos os aduladores que preferiram ficar no Outromundo pudessem vê-lo agora.
— Eles não dizem que eu sou o irmão bom. Eles dizem que você é o usurpador — Erebus atirou as palavras no seu irmão.
— Verdade? Pergunte novamente a eles. Eu acredito, depois de éons de reflexão cuidadosa, que eles iriam me chamar de “aquele que se recusou a compartilhá-la” — Kalona disse.
— Ela me escolheu — a voz de Erebus estava baixa; os seus pulsos estavam cerrados ao lado de seu corpo.
— Escolheu mesmo? Minha memória é diferente.
— Você a traiu! — Erebus gritou.
Kalona ignorou o ataque de cólera de seu irmão. Ele já havia testemunhado isso antes. Em vez de se abalar, ele falou com a frieza da superfície da lua:
— Por que você veio? Diga o que tem a dizer e então desapareça. O mundo mortal não é um grande reino, mas ele é meu. E eu não vou compartilhá-lo com você, assim como eu não teria compartilhado Nyx com você.
— Eu vim adverti-lo. Nós escutamos o seu Juramento no Outromundo. Nós sabemos que você se comprometeu a ser o guerreiro da Morte e a se tornar o Mestre da Espada desta escola.
— E líder dos Filhos de Erebus — Kalona acrescentou. — Não se esqueça do resto do meu título.
— Eu nunca poderia esquecer que você pretende blasfemar contra os meus filhos.
— Seus filhos? Agora você anda se acasalando com humanas e produzindo machos que crescem para se tornar guerreiros vampiros? Isso é fascinante, especialmente porque eu fui julgado tão duramente por criar meus filhos.
— Vá embora — os olhos de Erebus começaram a ficar incandescentes. — Saia deste lugar e pare de se intrometer na vida dos vampiros de Nyx e dos valorosos guerreiros que se comprometeram a me servir.
— Mas você não está se intrometendo ao ordenar que eu parta? Estou surpreso que Nyx tenha permitido isso.
— A minha Consorte não sabe que estou aqui. Eu só vim porque, de novo, você a está perturbando. Eu vivo para evitar qualquer perturbação a ela. Essa é a única razão pela qual estou aqui — Erebus disse.
— Você vive para lamber os pés dela e está, como sempre, com ciúmes de mim — Kalona não pôde evitar uma onda de alegria pelo que as palavras de Erebus tinham revelado.
Ainda posso fazer Nyx sentir algo! A Deusa me observa! O imortal controlou suas emoções. Ele tinha que esconder a sua alegria de Erebus. Quando ele falou novamente, a sua voz estava sem emoção.
— Que isto fique claro: eu não jurei servir a você. Eu fiz um Juramento de servir a uma Alta Sacerdotisa que personifica a Morte através da sua afinidade concedida pela Deusa. Tudo o que a sua visita fez foi me dar motivos para fazer uma clara distinção entre os guerreiros que se dizem seus filhos e os que não. Eu não vou oprimir os seus filhos com a minha liderança.
— Então você vai embora desta House of Night — Erebus afirmou.
— Não. Mas você vai. Leve esta mensagem minha para Nyx: a Morte não faz diferença entre aqueles que a seguem e aqueles que seguem outros deuses. A Morte chega para todos os mortais. Eu não preciso da sua permissão, nem da permissão da Deusa, para servir à Morte. Agora suma daqui, irmão. Eu tenho que participar de um funeral.
Kalona colocou os braços à frente do seu corpo e juntou as palmas das mãos, provocando uma explosão de luz prateada e gelada que criou uma onda ao redor dele, despedaçando a pequena bolha de Outromundo que o seu irmão havia criado e arremessando Erebus para cima e para longe no céu.
Quando a luz em volta dele desapareceu, os pés de Kalona tocaram a terra de novo e ele estava em pé ao lado do Templo de Nyx.
Aphrodite surgiu de um canto apressada, parou e o encarou.
— Eu já fui convocado? — ele perguntou.
Ela piscou e esfregou os olhos, como se estivesse tendo problemas em clarear a sua visão.
— Você estava brincando com uma lanterna aqui?
— Não tenho nenhuma lanterna. Eu já fui convocado? — ele repetiu.
— Quase. Alguma retardada, ou melhor, Kramisha, porque ela estava responsável pelas velas, esqueceu a vela do espírito. Eu tenho que pegar uma no Templo de Nyx. Você deve voltar comigo para a pira de Dragon. Thanatos vai concluir o círculo, dizer algumas coisas bacanas sobre Dragon e depois apresentar você.
Sentindo-se estranhamente desconfortável sob o olhar da humana rude e estranha que Nyx tinha, por razões incompreensíveis a quase todos, escolhido como sua Profetisa, Kalona resmungou uma resposta sem palavras e se virou para abrir a porta lateral do templo.
Ela não se abriu.
Kalona tentou de novo. Ele se esforçou, usando a sua enorme força imortal. Ela absolutamente não se abriu.
Foi então que ele notou que a porta de madeira havia desaparecido. A maçaneta havia se transformado em uma pedra firme e espessa. Não havia nenhuma entrada. Nada.
De repente, Aphrodite o estava empurrando para o lado. Ela segurou a maçaneta e a girou. A pedra desapareceu, transformando-se de novo em uma porta de madeira, que se abriu facilmente para ela. Aphrodite levantou os olhos para Kalona, antes de passar pela entrada do templo da Deusa.
— Você é tão estranho — ela atirou o cabelo para trás e entrou.
A porta se fechou atrás dela. Kalona colocou sua mão nela e, sob sua palma, ela se transformou de uma receptiva madeira em pedra novamente.
Kalona se afastou para trás, com uma sensação terrível dentro dele.
Apenas alguns minutos depois, Aphrodite emergiu por uma porta completamente normal. Ela estava segurando uma grossa vela roxa e disse, ao passar por ele:
— Bom, vamos lá. Thanatos quer que você fique na beira do círculo e tente não chamar atenção. Apesar de que, você sabe, isso seria bem mais fácil se você usasse mais roupas.
Kalona a seguiu, tentando ignorar aquele vazio dentro dele.
Ele era exatamente o que Erebus havia dito, um tolo impetuoso e um usurpador. Se Nyx o estava observando, não era com nada mais além de desdém. Ela negava tudo a ele: que ele entrasse no Mundo do Além, no seu templo e no seu coração...
Os séculos deveriam ter diminuído a sua dor, mas Kalona estava começando a entender que a verdade era o oposto disso.


Aurox

Nyx, se você é mesmo uma Deusa misericordiosa, por favor, me ajude... por favor...
Aurox não tinha escapado de seu esconderijo na terra. Em vez disso, ele ficou repetindo sem parar aquela única frase, aquela única prece. Talvez Nyx premiasse a determinação. Pele menos ele poderia oferecer isso à Deusa.
Foi durante a ladainha da sua prece silenciosa que a mágica começou a girar em um redemoinho ao redor dele. A princípio, o espírito dele se animou. Nyx me ouviu! Mas bastaram alguns instantes para que ele percebesse o quanto estava errado. As criaturas que se materializaram, saindo do ar frio e úmido ao redor dele, não podiam estar a serviço de uma Deusa misericordiosa.
Aurox se encolheu para se afastar delas. O fedor daquelas criaturas era quase insuportável. Era horrível olhar aquelas faces cegas. O coração dele começou a bater mais forte. O medo o fez estremecer e a besta dentro dele se agitou. Será que aquelas coisas tinham sido enviadas como julgamento pelos malfeitos que ele cometera a serviço de Neferet?
Aurox usou o seu próprio medo e começou a alimentar a besta no seu interior. Ele não queria que ela despertasse, mas ele ia lutar antes de sucumbir ao redemoinho de malevolência que ameaçava engolfá-lo. Mas Aurox não foi engolfado por elas. Devagar, as criaturas foram subindo em um redemoinho mágico. Quanto mais alto elas iam, mais rápido elas giravam. Parecia que elas haviam sido invocadas e estavam despertando aos poucos, atendendo a um chamado mudo.
Aurox acalmou o seu medo e a besta dentro dele retrocedeu.
Aquelas coisas não o queriam. Elas não tinham prestado nenhuma atenção nele. A cauda do redemoinho estava deixando como rastro uma névoa escura e fétida. Sem saber ao certo o que o compelia, Aurox estendeu o braço e passou a mão naquele rastro.
A sua mão se tornou a névoa, como se elas fossem feitas da mesma substância. Ele não sentiu o redemoinho, apesar de aparentemente ele ter dissolvido a carne de Aurox. Com os olhos arregalados, ele tentou soltar sua mão, mas era tarde demais. Ele não tinha mais mão, e então um tremor tomou conta dele quando a névoa começou a absorver a sua carne. Impotente, Aurox viu o seu antebraço desaparecer, depois os seus bíceps, depois os seus ombros. Ele tentou despertar a besta, libertar o poder adormecido dentro dele, mas a névoa amortecia os seus sentimentos. Ela o anestesiava enquanto o sugava. Quando ela absorveu a sua cabeça, Aurox se tornou a névoa. Ele não sentia mais nada, exceto um desejo enorme, uma busca incompleta, uma necessidade implacável.
Do quê? Aurox não sabia dizer. Tudo o que ele sabia é que havia sido engolfado pelas Trevas e que ele estava sendo levado em uma onda de desespero.
Tem que existir algo além disto para mim!, ele pensou freneticamente. Eu tenho que ser mais do que névoa, desejo, besta e escuridão! Mas parecia que ele não era nada além dessas coisas. O desespero tomou conta dele quando ele percebeu a verdade. Ele era todas essas coisas e ao mesmo tempo nenhuma dessas coisas. Aurox não era nada... Absolutamente nada.
Aurox pensou que o barulho de vômito fosse dele mesmo. Em algum lugar, de algum modo, o seu corpo deveria estar revoltado com o que estava acontecendo. Então ele a viu.
Zoey estava lá. Ela estava segurando a pedra branca à sua frente. Do mesmo modo como ela havia feito na noite anterior, no ritual em que ele tinha tentado fazer uma escolha, fazer a coisa certa. Ele sentiu a névoa se agitar. Ela também viu Zoey. A névoa ia absorvê-la.
Não! O seu espírito berrou profundamente. Não!
A mente de Aurox ecoou aquele berro. Em vez de desespero, ele começou a sentir algo mais ao observar Zoey. Ele sentiu o medo dela e a sua força. A sua determinação e a sua fraqueza. E Aurox percebeu algo que o surpreendeu. Zoey se sentia tão insegura sobre si mesma e sobre o seu lugar no mundo quanto ele. Ela se preocupava em não ter a coragem necessária para fazer as coisas certas. Ela questionava as suas decisões e se envergonhava de seus erros. De vez em quando, até Zoey Redbird, a novata privilegiada tocada pela Deusa, sentia-se como um fracasso e pensava em desistir.
Exatamente como ele.
A compaixão e a compreensão fluíram através de Aurox, e nesse momento ele sentiu uma onda de um poder quente e claro. Em um flash de luz ofuscante, ele caiu do centro do redemoinho em desintegração, aterrissando com força no seu corpo restaurado, arfando em busca de ar fresco e tremendo inteiro.
Ele não ficou descansando muito tempo ali. Ainda trêmulo e fraco, Aurox encontrou apoio para as mãos e os pés no labirinto de raízes quebradas. Devagar, ele foi se puxando para cima até a beira do buraco. Isso levou muito tempo. Quando finalmente alcançou o topo, ele hesitou, procurando ouvir atentamente.
Ele não ouviu nada além do vento.
Aurox se ergueu do chão, usando o tronco quebrado como esconderijo. Zoey tinha desaparecido. Ele analisou a área ao seu redor e os seus olhos foram atraídos imediatamente para um monte enorme de madeiras e tábuas, em cujo topo havia uma figura coberta por uma mortalha. Apesar de aquele local estar aparentemente cercado pela House of Night inteira, Aurox não teve dúvidas em reconhecer o que estava vendo. É a pira funerária de Dragon Lankford, foi o seu primeiro pensamento. Eu o matei, foi o segundo.
Como o desespero na névoa mágica, o funeral o sugou.
Não foi difícil se aproximar do círculo de novatos e vampiros. Os guerreiros Filhos de Erebus estavam obviamente bem armados, mas a atenção de todos estava focada dentro do círculo e na pira no seu centro.
Aurox se moveu furtivamente, usando os grandes carvalhos antigos e as sombras abaixo deles como cobertura até chegar perto o bastante para entender as palavras que Thanatos estava dizendo.
Então ele recuperou o controle sobre si mesmo e saltou. Agarrando um galho baixo, Aurox foi subindo na árvore até encontrar um lugar onde se agachou, com uma vista desimpedida do espetáculo macabro.
Thanatos havia acabado de traçar o círculo. Aurox podia ver que quatro professores vampiros estavam segurando velas e representando cada um dos elementos. Ele esperava ver Zoey no centro do círculo, perto da pira, mas em vez disso ele ficou surpreso ao ver que Thanatos estava segurando a vela roxa do espírito com uma mão e uma tocha grande com a outra.
Onde estava Zoey? Será que as criaturas da névoa a tinham capturado? Será que foi isso que fez com que a névoa se dissipasse?
Freneticamente, ele procurou encontrá-la no círculo. Quando ele a encontrou em pé ao lado de Stark, rodeada pelo seu grupo de amigos, Aurox achou que ela parecia triste, mas sem ferimentos. Ela estava observando Thanatos atentamente. Aparentemente, não havia nada errado com Zoey, exceto que ela lamentava a perda do seu Mestre da Espada. Com aquela sensação de alívio, Aurox ficou tão fraco que quase caiu de seu poleiro na árvore.
Aurox encarou Zoey. Ela havia começado esse conflito interno que ele sentia. Por quê? Ele estava tão confuso com ela quanto estava em relação aos sentimentos que ela havia despertado dentro dele.
Ele voltou sua atenção para Thanatos. Ela estava andando graciosamente em volta da circunferência do círculo, falando com uma voz que acalmava até os seus nervos em frangalhos.
— O nosso Mestre da Espada morreu como ele viveu: como um guerreiro, fiel ao seu Juramento, fiel a esta House of Night e fiel à sua Deusa. Há outra verdade aqui que precisa ser contada. Apesar de nós chorarmos a sua perda, nós reconhecemos que ele era apenas a casca de si mesmo sem a sua companheira, a amável Anastasia.
Aurox olhou para Rephaim. Ele sabia que, como Corvo Escarnecedor, Rephaim havia matado Anastasia Lankford. Que ironia o fato de o Mestre da Espada ter morrido para protegê-lo. Ironia maior ainda era o rosto do garoto estar encharcado de lágrimas e ele chorar abertamente a morte de Dragon.
— A Morte foi gentil com Dragon Lankford. Ela não apenas permitiu que ele morresse como guerreiro, mas também serviu como um conduto para a Deusa. Nyx uniu novamente Bryan Dragon Lankford à sua amada e aos espíritos iluminados de seus dois familiares felinos, Shadowfax e Guinevere.
Os gatos deles também morreram? Eu não me lembro de nenhum gato no ritual. Confuso, Aurox analisou a pira funerária. Sim, agora que estava olhando mais de perto, ele podia ver dois pequenos volumes embrulhados na mortalha com Dragon, aninhados um de cada lado do guerreiro caído.
Thanatos havia parado de andar em volta do círculo e estava parada bem na frente de Zoey. A Alta Sacerdotisa sorriu para a novata.
— Conte-nos, Zoey Redbird. Já que você entrou no Outromundo e voltou, qual é a única constante lá?
— O amor — Zoey respondeu sem hesitar. — Sempre o amor.
— E você, James Stark? O que você encontrou no Outromundo? — Thanatos perguntou ao jovem guerreiro, que estava com seu braço em volta dos ombros de Zoey.
— O amor — Stark repetiu com uma voz forte e firme. — Sempre o amor.
— Isso é uma verdade — Thanatos continuou a andar ao redor do círculo. — Eu também posso dizer a vocês que a minha proximidade com a Morte já me mostrou relances do Outromundo. O que eu tive permissão para ver me ensinou que, apesar de o amor permanecer conosco quando passamos deste reino a outro, ele não pode existir eternamente sem compaixão, assim como a Luz não pode existir sem esperança e as Trevas não podem existir sem o ódio. Então, tendo em mente essa verdade dita e compreendida, eu gostaria de pedir que vocês abram os seus corações e deem as boas-vindas ao nosso novo Mestre da Espada e líder dos guerreiros Filhos de Erebus, meu guerreiro sob Juramento, Kalona!
Aurox refletiu a surpresa que ele viu em muitos rostos abaixo dele quando Kalona, o imortal alado que ele sabia que estava havia muito tempo ao lado das Trevas, entrou no círculo com passos firmes e se aproximou de Thanatos. Ele cruzou sua mão em punho sobre o peito e se curvou respeitosamente. Então ele levantou a cabeça e sua voz profunda preencheu o ar.
— Eu jurei ser o guerreiro da Morte, e assim será. Eu jurei ser o Mestre da Espada desta House of Night, e assim será. Mas eu não tentarei tomar o lugar de Dragon como líder dos guerreiros Filhos de Erebus.
Aurox viu que Thanatos estava observando Kalona atentamente, apesar de a sua expressão parecer satisfeita. Os guerreiros que estavam espalhados por toda a volta do círculo se agitaram, como se não soubessem bem o que pensar a respeito da proclamação do imortal.
— Eu vou servir como guerreiro da Morte — Kalona repetiu.
Ele estava se dirigindo a Thanatos, mas a sua voz chegava a todos no círculo e à multidão que havia se reunido para o funeral.
— Vou proteger você e esta escola. Mas não vou receber um título que me liga a Erebus.
— Eu estava no Conselho Supremo quando você declarou ser Erebus de volta à Terra — Thanatos afirmou. — O que você tem a dizer sobre isso?
— Eu não reivindiquei esse título. Isso foi coisa de Neferet. Ela quer muito ser uma deusa, e isso significa que ela precisa de um Consorte imortal, então ela me nomeou Erebus de volta à Terra. Eu rejeitei esse papel quando rejeitei Neferet.
Sussurros zuniram através do círculo como se fosse o vento através das árvores. Thanatos levantou a tocha que ela ainda segurava.
— Silêncio! — as vozes se aquietaram, mas o choque e a descrença continuaram. — Kalona está falando a verdade sobre Neferet. Dragon foi morto pela criatura dela, Aurox. Ele não foi um presente de Nyx. Na noite passada, durante o ritual de revelação na fazenda de lavandas de Sylvia Redbird, a terra nos mostrou a terrível verdade. Aurox foi criado pelas Trevas através do sacrifício da mãe de Zoey Redbird. Ele é um Receptáculo escravo de Neferet. As Trevas continuam a controlá-lo através de sacrifícios sangrentos — ela apontou sua tocha para os três corpos em cima da pira. — Eu tenho evidências de que Neferet tirou a vida de Shadowfax para que as Trevas mantivessem o domínio sobre Aurox. Essa morte foi demais para a pequena Guinevere de Anastasia. A tristeza parou o seu coração e ela prontamente seguiu Shadowfax para o Outromundo, para se reencontrar com aqueles a quem os dois mais amavam.
O corpo de Aurox ficou imóvel. Ele mal conseguia respirar. Ele se sentia como se Thanatos tivesse acabado de estripá-lo. Ele queria gritar: “Não é verdade! NÃO É VERDADE!”, mas as palavras dela continuavam a massacrá-lo.
— Zoey, Damien, Shaunee, Erin, Stevie Rae, Darius, Stark, Rephaim e eu! — ela gritou cada nome. — Nós testemunhamos os malfeitos sombrios de Neferet. Dragon Lankford morreu para que nosso testemunho pudesse se tornar público. Agora nós precisamos continuar a luta que derrubou o nosso Mestre da Espada. Kalona, estou satisfeita por ouvir a sua confissão. Você tentou usurpar Erebus, ainda que apenas na Terra. Ficou claro para o Conselho Supremo que você estava sendo incitado pelas tramoias de Neferet. Eu o aceito como guerreiro da Morte e protetor desta escola, mas você não pode liderar os guerreiros que fizeram Juramento como Filhos de Erebus. Isso seria desrespeitoso à Deusa e ao seu Consorte.
Aurox viu um lampejo de raiva passar pelos olhos de Kalona, mas ele abaixou a cabeça para Thanatos e cruzou sua mão em punho sobre o coração, dizendo:
— Que assim seja, Alta Sacerdotisa.
Então ele voltou para a beira do círculo, e as pessoas que estavam próximas a ele deram alguns passos discretos para trás.
Thanatos pediu que Shaunee invocasse o fogo e acendesse a pira funerária. Quando a coluna de fogo engolfou a pira de Dragon Lankford, Aurox desceu da árvore e, sem ser visto por ninguém, cambaleou de volta até o carvalho despedaçado e desapareceu abaixo do chão, onde, sozinho, chorou todo o seu desespero e o seu ódio por si mesmo dentro da terra partida.

4 comentários:

  1. tadinho do heart tanto sofrimento :´(

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  2. Não basta toda dor antes de morrer tem que sofrer ainda mais agora que reviveu... Heart compadre você tá tão ferrado mas espero que consiga ser feliz...

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  3. Mas será que um dia essas autoras vam fazer um casal definitivo com a zoey? Todo cara relacionado a ela que nois shippa tem algum problema grave, heath era humano então iria morrer cedo, erik era ciumento e mandão, loren(não gostava dele) não prestava, stark teve que morrer,viver,ficar com ela,morrer pra salvala, ficar com ela, voltar e enfrentar tude de ruim e agora lidar com a possivel volta de heath, e por ultimo o aurox que foi criado a partir da morte da mãe de zoey pelo mal reincarnado para servir a neferet com o objetvo de criar o caus na vida do pessoal da HON (abreviação da escola) principalmente da zoey (ufa que cansativo).

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