9 de outubro de 2015

Capítulo 10 - Shaunee

Os guerreiros Filhos de Erebus estavam com ar soturno, ocupados com o trabalho de amontoar madeira para construir a pira de Dragon. Shaunee tentou fazer o que podia para ajudá-los. Ela sabia dizer se a madeira ia queimar bem só de tocá-la, então indicou todas as toras e tábuas mais secas e orientou os guerreiros para colocar tudo de forma correta, a fim de que o fogo queimasse sem empecilhos e rapidamente.
Shaunee tentou encorajá-los. Ela disse que eles estavam fazendo um bom trabalho e que Dragon ficaria orgulhoso deles, mas aquilo pareceu deixá-los ainda mais calados e soturnos. Até Darius estava em silêncio e parecia quase um estranho. Foi só quando Aphrodite surgiu atirando o cabelo para o lado e falando com aquele seu jeito dominador e sedutor que as coisas começaram a melhorar.
— Ei, bonitão, você lembra do sermão que Dragon deu em você quando nós começamos a sair? — Aphrodite piscou para vários guerreiros que estavam por perto. — Aposto que Stephen, Conner e Westin se lembram, não é? Não foram vocês que tiveram que fazer um treinamento extra com Darius depois que Dragon descobriu que ele estava confraternizando com uma novata? — Aphrodite fez um tom de voz baixo que soou muito parecido o Mestre da Espada.
Os guerreiros até sorriram.
— Dragon nos fez dar um trato no seu garoto aqui por três dias seguidos — Conner lembrou.
Darius bufou.
— Cuidado com as suas palavras, Conner. Eu não sou um garoto há décadas.
Conner riu.
— Acho que era exatamente com isso que Dragon estava tendo problemas.
Aphrodite sorriu de modo sedutor e passou a mão pelo bíceps grosso de Darius.
— Ele queria que você ficasse esgotado para que não tivesse energia suficiente para confraternizar comigo.
— Seria preciso um exército de vampiros para isso — Darius afirmou.
Foi a vez de Stephen provocá-lo.
— Sério? Então por que Anastasia teve que intervir?
Aphrodite levantou suas sobrancelhas loiras.
— Intervir? Anastasia? Você não me contou isso, bonitão.
— Devo ter esquecido, já que eu estava muito ocupado confraternizando com você, minha bela.
— Hahaha! — Westin caçoou. — É impossível que qualquer um de nós tenha se esquecido de Anastasia, com os cabelos ao vento, repreendendo o nosso Mestre da Espada por perseguir o pobre e jovem Darius.
Shaunee não conseguiu deixar de rir junto com eles.
— Ela disse mesmo que Dragon estava perseguindo Darius? — a novata quis saber.
Conner, que era alto, loiro e quase tão ardente quanto o elemento de Shaunee, respondeu:
— Sim, ela disse exatamente isso. Ela até chamou Dragon de Bryan e o lembrou de que, se ela não tivesse confraternizado com um novato um século atrás, a vida dele seria muito menos interessante.
— Eu convivi com Dragon Lankford por cinquenta anos — Stephen falou. — Nunca o vi ser superado por nenhum outro guerreiro, mas Anastasia conseguia detê-lo com um simples olhar.
— Que bom que eles estão juntos agora — Darius afirmou.
— Ele ficou perdido sem ela — Westin comentou.
— Isso é algo que eu posso entender muito bem — Darius pegou a mão de Aphrodite, beijando-a gentilmente.
— Vocês realmente viram os dois se reencontrando?
— Sim — Darius, Aphrodite e Shaunee responderam juntos.
— Ele está feliz de novo — Shaunee disse.
— Ela morreu primeiro, mas esperou por ele — Aphrodite sorriu para Darius, mas Shaunee pôde ver lágrimas nos olhos dela.
— Ela teve uma morte de guerreira — Westin lembrou.
— Assim como Dragon — Darius concordou.
— Nós precisamos nos lembrar disso hoje à noite — Shaunee sugeriu. — Lembrar da alegria e do Juramento deles, e que eles ainda se amam.
— Amar para sempre — Darius falou docemente, tocando o rosto de Aphrodite.
— Amar para sempre — Aphrodite ecoou e depois levantou uma sobrancelha loira. — Se você não estiver cansado demais, é isso aí.
— Ah! Então Anastasia estava certa! Nós estamos perseguindo o pobre e jovem Darius! — Stephen e os outros guerreiros riram, e Darius começou a se defender excitadamente, enquanto Aphrodite o provocava.
Shaunee se afastou um pouco da pira em construção e do grupo que a cercava. Fogo, aqueça essa pequena fagulha de alegria que Aphrodite conseguiu plantar dentro deles. Ajude os guerreiros a se lembrarem de que Dragon e Anastasia estão juntos e felizes.
Ela sentiu o calor do seu elemento passar rapidamente por ela e envolver o grupo, um calor invisível e quase indetectável para quem não tinha afinidade com o fogo. Mas aquilo ajudou. Ela havia ajudado.
Shaunee realmente acreditava nisso.
Sentindo-se levemente melhor, ela saiu caminhando a esmo. Shaunee sabia que tinha que ir até o estábulo, mas isso não significava que ela estava com pressa de encarar a destruição que o seu elemento havia causado. Mas eu não o estava manejando, ela lembrou a si mesma. Mesmo assim, ela fez um caminho mais longo e sinuoso, na direção do pátio que tinha uma bela fonte. Dali ela iria pegar o caminho dos fundos, passando pelo estacionamento, que iria dar mais diretamente no ginásio do que no estábulo.
Shaunee escutou a água antes de ouvir a voz de Erin. Ela não quis ficar espreitando nem se escondendo. Ela só se moveu em silêncio pelas sombras em volta do pátio porque não queria uma cena com Erin, não porque ela a estava espionando.
Então ela escutou a outra voz. No começo, Shaunee não reconheceu de quem era. Ele não estava falando alto o bastante. Ela só reconheceu a risadinha sedutora de Erin. Shaunee estava tentando decidir se ter curiosidade era a mesma coisa que bisbilhotar quando a voz dele ficou mais alta e ela percebeu que o alvo da risadinha sedutora de Erin era Dallas!
Sentindo uma dor de estômago, Shaunee se aproximou mais.
— Sim, é isso mesmo que estou dizendo. Não consigo tirar você da cabeça, garota. Você sabe o que a água e a eletricidade fazem quando se juntam, não sabe?
Shaunee ficou completamente imóvel, esperando que Erin o chamasse de otário e falasse para ele voltar correndo para a nojenta da Nicole, que era da mesma laia dele; em vez disso, ela sentiu uma dor no estômago quando ouviu Erin responder flertando com ele:
— Relâmpagos... É isso o que a eletricidade e a água fazem. Parece interessante.
— É interessante. Você é interessante. E quente. Você é como uma sauna, garota. Ou como um banho de vapor no qual eu adoraria ficar ensopado.
Shaunee teve que apertar os lábios para evitar dizer “eca” e chamar Dallas de otário ela mesma. Erin ainda tinha que fazer isso. De jeito nenhum ela ia querer algo com Dallas. Ele era um completo idiota. Ele odiava Stevie Rae e Zoey! Stevie Rae disse que ele tinha tentado matá-la! Erin só estava levantando a bola dele para depois detoná-lo e colocá-lo no seu devido lugar.
Shaunee esperou por isso. Nada. Ela não ouviu mais nada. Andando sem fazer barulho, Shaunee se aproximou ainda mais. Provavelmente, Erin tinha ido embora, depois de revirar os olhos e sair andando sem nem se dar ao trabalho de falar para Dallas sumir da frente dela.
Mas Shaunee estava errada. Totalmente errada.
Erin havia se encostado na fonte. A água a estava molhando inteira. Seu cabelo, suas roupas, seu corpo. Dallas a estava encarando como se ele estivesse morrendo de fome e ela fosse uma bisteca suculenta. Erin levantou os braços acima da cabeça, fazendo com que seus peitos marcassem a sua camiseta molhada, que era branca e agora estava totalmente transparente.
— Que tal isto aqui para um concurso de camiseta molhada? — ela perguntou com uma voz toda sexy, fazendo os seus peitos balançarem um pouco.
— Você ganha. É a coisa mais gostosa que eu já vi na vida, garota.
— Eu posso te mostrar algo mais gostoso — Erin disse.
Com um movimento rápido, ela tirou a sua camiseta ensopada e desabotoou o seu sutiã de renda.
A respiração de Dallas estava tão ofegante que Shaunee podia até escutar. Ele lambeu os lábios.
— Você estava certa, garota. Isso é mais gostoso.
— E que tal isto? — Erin enganchou os dedões na cintura da sua minissaia xadrez e a tirou.
Ela sorriu para Dallas, que ficou olhando para a minúscula tanga de renda que ela ainda estava usando.
— Que tal tirar todo o resto? — a voz de Dallas estava intensa, e ele se aproximou mais dela.
— Parece uma boa ideia. Eu gosto de não vestir nada além de água — Erin tirou a tanga.
Agora tudo o que ela estava usando eram suas botas Christian Louboutin. Ela passou a mão com água por todo o seu corpo.
— Quer se molhar comigo?
— Não é só isso que eu quero fazer com você — ele sugeriu. — Garota, eu vou abrir as portas de um Outromundo inteiro para você.
— Estou pronta para isso — ela falou de modo sedutor, ainda tocando o próprio corpo. — Porque estou cansada do mundo entediante em que estou vivendo.
— Relâmpagos, garota. Vamos fazer relâmpagos e algumas mudanças.
— Vamos lá! — Erin disse.
Dallas acabou com a distância que ainda havia entre eles. Os dois ficaram tão abraçados e tão concentrados um no outro que Shaunee não teve que se preocupar se eles iriam ouvi-la quando ela saiu correndo, totalmente enojada, com os olhos cheios de lágrimas.


Zoey

— Se vocês não se importam, eu vou até o centro de mídia. Damien acha que posso encontrar alguns livros antigos sobre a Visão Verdadeira na seção de livros de referência, se eu procurar bastante. Provavelmente ele é melhor em pesquisa do que eu, mas sou teimosa — Shaylin afirmou. — Se há algo a ser encontrado, eu vou encontrar.
— Sem problemas — falei.
Stevie Rae deu de ombros, dizendo:
— Por mim tudo bem.
Shaylin começou a ir embora, mas fez uma pausa.
— Ei, obrigada por me deixarem ir com vocês falar com Thanatos. E obrigada por ouvirem o que eu tinha a dizer lá. Bem, e me desculpem de novo por aquela coisa com Aphrodite mais cedo.
— Não é comigo que você tem que continuar se desculpando — eu disse.
— É, eu sei, mas acho que você é a única que vai escutar — Shaylin falou, olhando para a direção em que Aphrodite havia saído andando bruscamente.
— Aphrodite vai escutar. Só não muito bem — Stevie Rae opinou. — Você falou bem lá dentro, Shaylin. Gostei do que você disse sobre as cores das pessoas. Acho que você deve se concentrar em seguir o seu instinto sobre o que você vê.
— Hum — Kramisha bufou enquanto se aproximava apressada da gente. — Eu digo que o instinto pode te levar para uma tonelada de problemas.
Eu estava pensando “frase do ano” quando Stevie Rae perguntou:
— O que está rolando, Kramisha?
— São os novatos vermelhos de Dallas. Eles estão agindo como se quisessem ajudar a limpar o estábulo.
Stevie Rae franziu as sobrancelhas. Eu mordi os lábios.
Kramisha cruzou os braços e ficou batendo o pé no chão.
— Ajudar é uma coisa ruim? — Shaylin falou em meio àquele silêncio desconfortável.
— O grupo de Dallas tem sido, bem... — eu hesitei, tentando formar uma frase sem o tipo de palavras que eu tentava (bastante) evitar.
Kramisha foi mais rápida do que eu.
— Eles são encrenca.
— Talvez eles estejam tentando mudar — Shaylin sugeriu.
— Eles são encrenca dissimulada — Kramisha acrescentou.
— Nós não confiamos neles — expliquei.
— E a gente tem um monte de razões para não confiar neles — Stevie Rae reforçou. — Mas eu tenho uma ideia. Thanatos disse que eu tenho que praticar liderança e Shaylin precisa praticar a coisa da Visão Verdadeira dela. Então vamos fazer as duas coisas — Stevie Rae endireitou as costas e a sua voz deixou de ser doce e do tipo garotinha e passou a ser a voz de uma mulher que soava mais confiante e bem mais velha. — Shaylin, você pode ir até o centro de mídia mais tarde. Agora você vai comigo para o estábulo. Quero que você olhe para as cores dos novatos vermelhos que estão lá e me diga quais deles são mais perigosos.
— Sim, senhora — Shaylin respondeu.
— Ahn, você não precisa me chamar de senhora — Stevie Rae falou rapidamente, soando como ela mesma de novo. — Só me deixar bancar a chefe já é o bastante.
— Você não faz o tipo “chefe mandona” — Kramisha observou.
— Bem, estou tentando fazer — Stevie Rae suspirou e olhou para mim.
Eu sorri para ela.
— Você pode mandar em mim se quiser.
Ela me deu um olhar de surpresa.
— Se alguma vez eu tentar fazer isso, você pode me chamar de salsicha e me falar para bater em mim mesma com pão e mostarda.
Dei risada e então falei:
— Bom, então, se vocês não se importam, eu preciso ficar um tempo sozinha. Quero pensar nessa coisa da pedra da vidência. Mas eu encontro com vocês no estábulo daqui a pouco. Se você virem Stark, digam que estou bem e que logo estarei lá.
— Combinado — Stevie Rae disse.
Observei as três se afastarem. Consegui ouvir Kramisha perguntar qual era a sua cor para Shaylin e, antes que a garota pudesse responder, ela já estava falando que a cor dela não podia ser laranja de jeito nenhum porque ela não gostava de laranja. Shaylin parecia confusa, mas interessada. Stevie Rae parecia pensativa e determinada, como se estivesse tentando refletir por fora a liderança em que ela estava trabalhando por dentro.
E eu? Imagino que, se você colocasse um espelho na minha direção, eu pareceria confusa e cansada e veria que o meu rímel estava empelotando e o meu cabelo estava ficando cheio de frizz.
Eu queria ir com as minhas amigas ajudar a arrumar o estábulo. Queria encontrar Stark e queria que ele segurasse a minha mão e ficasse rindo de mim por eu me preocupar demais e por procurar no Google sobre sintomas de doenças. Mais do que tudo, eu queria esquecer sobre aquela pedra da vidência idiota em volta do meu pescoço e me concentrar em algo que fizesse mais sentido, como novatos vermelhos detestáveis ou lição de casa. Mas eu sabia que Thanatos estava certa. Nós iríamos precisar de todos os nossos dons para ter chance de pelo menos manter as Trevas em xeque.
Então, em vez de seguir minhas amigas, tomei um caminho diferente. Limpei a minha mente o máximo que eu podia e deixei que meus instintos me guiassem. Então, quando ficou óbvio aonde os meus pés estavam me levando, sussurrei:
— Espírito, por favor, venha para mim. Ajude-me a não ter tanto medo — o elemento com o qual eu ficava mais confortável suavizou o meu medo, então na hora em que eu estava diante do carvalho despedaçado foi como se as minhas emoções estivessem envoltas em um cobertor macio e quentinho.
Eu precisava daquele cobertor confortável. Aquele lugar me assustava. A professora Nolan tinha sido assassinada ali. Stevie Rae quase havia sido morta ali. Kalona surgira rasgando a terra ali. Jack, o pobre e doce Jack, morrera ali.
O meu instinto tinha me levado até lá. E o pior de tudo era que a minha pedra da vidência começou a irradiar calor.
É como Kramisha disse, seguir o seu instinto pode causar uma tonelada de problemas, pensei.
Suspirei e admiti a verdade que a minha intuição havia seguido: se havia magia antiga na House of Night, aquele era um lugar excelente para ela se esconder.
Sgiach me contara que a magia antiga era poderosa. Ela também era imprevisível e perigosa. Eu me lembrei dela explicando que o modo como a magia antiga se manifestava tinha muito a ver com a Sacerdotisa que a invocava.
Então, o que aquilo significava para mim? Que tipo de Sacerdotisa eu estava me tornando?
Suspirei. Uma porcaria de Sacerdotisa confusa que não tinha dormido o suficiente.
Uma com potencial – o pensamento vagou pela minha mente.
Uma que não sabe o bastante, contra-argumentei mentalmente.
Uma que precisa acreditar em si mesma, o vento sussurrou para mim.
Uma que precisa parar de fazer besteira, minha mente insistiu.
Uma que precisa acreditar em sua Deusa.
E aquilo parou com a minha batalha mental.
— Eu acredito de verdade em você, Nyx. Sempre vou acreditar — decididamente, tirei a pedra da vidência quente que estava embaixo da minha camiseta, respirei fundo e a levantei, olhando através do pequeno buraco, tipo aquele furo de pastilhas Life Savers, para o carvalho despedaçado.
Por um segundo, nada aconteceu. Franzi os olhos, e o carvalho continuou sendo apenas uma velha árvore quebrada. Comecei a relaxar e, como de costume, foi então que o caos começou.
Do centro do tronco partido emergiu um redemoinho terrível e feio de sombras rodopiantes. Dentro daquele turbilhão eu vi criaturas horríveis com os corpos retorcidos, cobertos com uma pele manchada, como se estivessem apodrecendo de doenças nojentas. Os olhos deles eram cavidades profundas. As suas bocas eram costuradas. Eu podia sentir o cheiro deles. Era como o fedor de animais atropelados misturado ao cheiro de privada entupida. Eu tive ânsia e devo ter feito barulho de vômito, pois o grupo voltou seus rostos cegos para mim. Os seus dedos longos e esqueléticos se estenderam na minha direção.
— Não! Parem! — gritei.
O conforto do espírito tinha se quebrado. Eu estava paralisada de medo.
E então, bem do meio do redemoinho, brilhou uma luz bonita, com a cor da lua cheia, reduzindo aquelas criaturas horrendas a nada e fazendo com que eu caísse sobre o meu traseiro. Soltei a pedra da vidência, cortando a minha ligação com a magia antiga.
Num piscar de olhos, enquanto eu arfava, a árvore se tornou a árvore de novo. Velha e assustadora, mas mundana e quebrada. Sem me importar com Thanatos ou ordens da Morte, levantei cambaleante e corri feito louca.
— Eu não sou louca. É a minha vida que é louca. Eu não sou louca. É a minha vida que é louca...
Entre suspiros ofegantes, eu repetia as palavras para mim mesma como um mantra, sem parar, tentando voltar ao meu estado normal, ao meu centro, ou pelo menos a algum estado de calma, mas o meu coração estava batendo tão alto que eu podia ouvi-lo e não conseguia controlar a respiração.
Ataque do coração, pensei. Esse nível de loucura é demais para mim e estou tendo um ataque do coração.
Foi então que percebi que eu não conseguia controlar a respiração e o meu coração estava batendo loucamente porque eu ainda estava correndo, e mãos fortes e familiares me agarraram, fazendo com que eu parasse abruptamente. Como uma garotinha, desabei em cima de Stark, tremendo e batendo os dentes.
— Zoey! Você está ferida? Quem está atrás de você? — Stark me manteve grudada nele, enquanto ele me virava para olhar a escuridão atrás de mim.
Eu o abracei e senti que ele estava carregando seu arco e seu estojo de flechas sobre o ombro. Ele irradiava aptidão e presteza. Mesmo através do meu pânico, a presença dele me acalmou. Eu engoli o ar, balançando a cabeça.
— Não, eu estou bem. Estou bem.
Ele me segurou pelo ombro, à distância do seu braço esticado, olhando meu corpo de cima a baixo, como se estivesse procurando por ferimentos.
— O que aconteceu? Por que você estava apavorada, correndo feito uma louca?
Franzi a testa para ele.
— Eu não sou uma louca.
— Bem, você estava correndo como se fosse. E aqui dentro — ele pressionou um dedo contra o meu peito, sobre o meu coração que se acalmava — você estava se sentindo como se tivesse levado uma pancada.
— Magia antiga.
Ele arregalou os olhos.
— O touro?
— Não, não, nada disso. Eu olhei através da pedra da vidência para a árvore. Você sabe, aquela árvore, perto do muro leste.
— E por que diabos você faria isso?
— Porque Thanatos me disse que eu precisava praticar com a maldita pedra da vidência, para o caso de ela poder ser usada de algum modo na luta contra Neferet.
— Então você viu algo que veio atrás de você?
— Bem, não. Sim. Mais ou menos. Eu vi umas coisas assustadoras dentro de algo que parecia um tornado girando para cima, saindo do meio da árvore. Stark, eles eram a coisa mais nojenta que já vi na vida. E eles tinham um cheiro ruim. Muito, muito ruim. Na verdade, eu quase vomitei por causa do fedor. Tive uma ânsia de vômito, e foi quando repararam em mim, mas antes que pudessem fazer qualquer coisa uma luz brilhante acabou com eles — fiz uma pausa, tentando pensar em meio ao meu pânico. — Na verdade, a luz salvadora era tipo aquela luz de fada da Sookie. Você acha que existe alguma chance de eu ser uma fada?
— Não, Z. Foco. True Blood é ficção. Isto aqui é o mundo real. O que aconteceu depois dessa luz?
— Não sei. Eu corri — olhei em volta de nós e percebi que eu havia corrido todo o caminho pelo lado de dentro do muro e que eu estava quase no estábulo. — Eu realmente corri bastante.
— E?
— E nada. Exceto que você me agarrou. Deusa, eu achei que estava tendo um ataque do coração.
— Então você ficou assustada. É só isso?
Franzi a testa para ele de novo. A voz dele era gentil, mas a sua expressão estava tensa, como se ele estivesse tentando decidir se me sacudia ou me beijava.
— Bem — eu disse devagar. — Sim, mas eu fiquei realmente assustada.
As mãos dele, que estavam segurando os meus ombros, me deram um enorme e apertado abraço de urso. Senti o corpo dele relaxar. Ele soltou um longo suspiro que terminou com uma risadinha.
— Você me assustou pra caramba, Z.
— Desculpe — murmurei contra o peito dele, envolvendo-o com os meus braços e apertando-o também. — Obrigada por me encontrar e por estar totalmente pronto para me salvar.
— Você não tem por que se desculpar. Eu sou o seu guerreiro, o seu Guardião. É o meu trabalho salvar você. Apesar de você ser muito boa em se salvar sozinha.
Eu me inclinei para trás para poder olhar nos seus olhos.
— Eu sou um trabalho?
Ele deu aquele seu meio sorriso metidinho.
— De tempo integral. Totalmente. E sem benefícios nem folgas.
— Sério?
— Ok, não — o sorriso dele se alargou. — Eu me lembro de ter tirado uns dias de repouso quando uma flecha me queimou e mais alguns dias quando um escocês louco me retalhou. Então, retiro o que disse. Eu tenho alguns benefícios. Só que são bem poucos.
— Você está demitido! — tive vontade de dar um tapa em Stark, mas eu não queria tirar os meus braços dos ombros dele.
— Você não pode me demitir. Assinei um contrato vitalício — o sorriso de Stark despareceu dos seus lábios, mas continuou nos seus olhos. — Você é minha Sacerdotisa, minha rainha, mo bann ri. Eu nunca vou deixá-la. Sempre vou protegê-la. Eu amo você, Zoey Redbird — ele se inclinou e me beijou com tanta ternura que eu senti a verdade do seu compromisso no fundo da minha alma.
Quando os seus lábios finalmente deixaram os meus, levantei os olhos para ele.
— Eu também amo você. E você sabe que não precisa ter ciúmes de um cara morto, certo?
Ele tocou o meu rosto.
— Certo. Desculpe pela noite passada.
— Tudo bem. E, ahn, por falar nisso... Há algo que você precisa saber.
— O quê?
Respirei fundo e falei de uma vez:
— Na noite passada, no final do ritual, eu olhei através da pedra da vidência para Aurox e vi Heath. Foi por isso que eu não deixei que você e Darius o ferissem.
Senti a tensão no corpo de Stark disparar para o nível “Perigo! Alerta Vermelho!”.
— Foi por isso que você estava chamando por Heath durante o sono na noite passada? — ele soou mais magoado do que irritado.
— Não. Sim. Eu não sei! Eu falei a verdade. Não lembro com o que eu estava sonhando, mas faz sentido que Heath estivesse na minha mente depois de eu tê-lo visto quando olhei para Aurox.
— Aquela coisa feito touro não é Heath. Como você pôde pensar isso?
— Não é que eu esteja pensando isso. É o que eu vi.
— Zoey, olha só, tem que haver uma explicação para o que você viu — ele deu um passo para trás.
Meus braços se soltaram do seu ombro.
— É por isso que Thanatos quer que eu pratique mais essa coisa de olhar através da pedra da vidência, para que eu possa descobrir como isso funciona — eu me senti com frio e sozinha sem os braços dele em volta de mim. — Stark, eu sinto muito. Eu não quis ver Heath em Aurox. Eu não quero ver nem dizer nem fazer nada que machuque você. Nunca — eu estava piscando com força, tentando evitar explodir em lágrimas.
Stark passou a mão pelos seus cabelos.
— Z., por favor, não chore.
— Eu não estou chorando — eu disse, e então dei um pequeno soluço e enxuguei uma lágrima que de algum modo tinha escapado do meu olho.
Stark enfiou a mão no bolso da sua calça jeans e pegou um lenço de papel amassado. Ele se aproximou mais de mim de novo e enxugou a segunda lágrima que estava seguindo a primeira lágrima fugitiva. Então ele me beijou docemente e me entregou o lenço, puxando-me de volta para os seus braços.
— Não se preocupe, Z. Heath e eu ficamos em paz no Outromundo. Eu ficaria feliz em vê-lo de novo.
— Sério? — eu tive que me afastar um pouco do seu abraço para assoar meu nariz.
— Bem, sim. Feliz por vê-lo de novo, mas não tão feliz por você vê-lo de novo — a sinceridade dele arrancou um sorriso de nós dois.
— E eu sei que você não me magoaria de propósito. Mas, Z., aquela coisa tipo touro não é Heath.
— Stark, eu soube que Aurox tinha alguma coisa a ver com magia antiga desde a primeira vez em que o vi. Ele fez com que eu me sentisse completamente estranha — eu odiava contar isso a ele, mas Stark merecia nada menos do que honestidade de minha parte.
— É claro que ele fez com que você se sentisse estranha. Ele é uma criatura das Trevas! E, sim, ele é magia antiga. Ele foi criado pelo tipo mais horrível dessa merda quando Neferet matou a sua mãe como sacrifício. Eu ficaria preocupado se ele não fizesse você se sentir estranha.
Soltei um longo suspiro.
— Bem, acho que isso realmente faz sentido.
— Sim, e aposto que, se a gente trabalhar junto, nós vamos descobrir por que a pedra mostrou Heath a você na noite passada — ele disse e eu apenas mordi o lábio. Então ele continuou, como se estivesse raciocinando em voz alta. — Pense nisso, Z. O que mais você viu através da pedra?
— Bem, em Skye eu vi aqueles duendes antigos, os elementais.
— Eles eram parecidos com as coisas que você viu hoje?
Encolhi os ombros.
— Não, de jeito nenhum. Os elementais eram sobrenaturais, misteriosos, estranhos, mas no bom sentido. O que eu vi hoje foi grotesco e assustador.
— Ok, exceto por agora na árvore e pela noite passada no ritual, a pedra da vidência mostrou a você mais alguma coisa desde que nós voltamos da Itália?
Eu encontrei o olhar dele.
— Sim. Você.

2 comentários:

  1. Meu mundo acaba de desabar por completo. Achei que a versão Erin mal era so de passagem, mas depois disso ...

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