11 de outubro de 2015

Capítulo 10 - Aphrodite

— Caramba! Você não vai acreditar no que está bombando no Youtube! — Nicole subiu as escadas do auditório para o palco, acenando com o iPad como uma maluca.
Aphrodite olhou para ela e empurrou o iPad para longe.
— Sério? A Assembleia acabou de terminar. Você estava no YouTube enquanto eu falava?
— É sério — Nicole revirou os olhos. — Supere isso. Todo mundo estava no YouTube. Você tem que ver isso.
Ela empurrou o iPad para Aphrodite.
— Ser uma professora é um pé no saco. Adolescentes são um saco — Aphrodite disse, ainda ignorando o iPad.
— Ohminhadeusa, é o Kalona? No YouTube? — Stevie Rae empurrou Aphrodite para espiar a tela.
— O quê? Kalona? — Lenobia correu para se juntar a Stevie Rae, com Darius e Rephaim logo atrás.
— Tudo bem. Vou olhar. Agora que eu já disse para todo o corpo docente que vamos ter que salvar o mundo. Mais uma vez — Aphrodite olhou para a tela e seus olhos ficaram arregalados. — Oh, puta merda! Por que você demorou tanto tempo para nos dizer? Volte essa maldita coisa pro início!
Ela pegou o iPad, tocou no botão de replay, e aumentou o volume no máximo.
O vídeo não era profissional, mas o início era superclaro. Primeiro a imagem ficou focada em Thanatos. Ela estava de pé na frente de um edifício seriamente conturbado que parecia estar coberto por uma cortina preta viscosa. Eles observaram enquanto a Grande Sacerdotisa terminava seu feitiço, levantando os braços e segurando um punhado de belos globos brilhantes. Quando eles voaram para o céu, o vídeo ainda estava focado em Thanatos, mas no fundo eles podiam ouvir Neferet gritando.
— Anciã da Morte, você não tem domínio sobre o meu templo!
O vídeo se deslocou para que eles pudessem ver Neferet de pé na frente do que tinha que ser o Mayo.
— Ela é um monte de batatas fritas curtas em um McLanche Feliz — disse Stevie Rae.
Aphrodite não tirou os olhos da tela.
— Isso é tudo que você tem, caipira?
— Eu diria que é mais louca do que uma casa infestada de ratos — Nicole opinou.
— Ninguém pergunt... — Aphrodite começou, mas a explosão no vídeo cortou suas palavras.
— Oh, Deusa, não! — Lenobia engasgou enquanto observavam Neferet expelir uma onda de escuridão sobre Thanatos e o resto deles.
— O Pai os está salvando! — disse Rephaim.
— Olhem como ele se move — a voz de Darius era serena, respeitosa. — Sua força e velocidade são incríveis.
Aphrodite não teve a chance de concordar. O vídeo terminou com quem quer que tenha filmado aquilo levando empurrões para entrar no Hummer da escola, embora ainda tivesse conseguido filmar Neferet e seus tentáculos sangrentos das Trevas escorregando para dentro do Mayo.
Em seguida, a entrevista começou, e Aphrodite tinha que dizer a si mesma para fechar a sua, nada atraente, boca escancarada porque lá estava Kalona, ao lado de Thanatos (com asas e tudo), na Fox 23.
— Eu sou Kalona, irmão imortal de Erebus. Uma vez, quando a Terra era mais jovem, eu era Guerreiro e companheiro da Deusa Nyx, mas escolhi mal e por causa disso caí do lado da minha Deusa do Outromundo para este reino.
— O irmão de Erebus? Você tem que estar brincando! — Aphrodite sentiu como se seu cérebro fosse explodir.
— É verdade — Darius falou baixo quando o vídeo terminou.
A tela escureceu e Aphrodite olhou para ele.
— Você sabia?
— Sim, Kalona nos contou, para Zoey, Stark e eu — Darius admitiu.
— E nenhum de vocês pensou que fosse importante o suficiente para contar a qualquer um de nós? — Lenobia perguntou, parecendo quase tão irritada quanto Aphrodite se sentia.
Darius deu de ombros.
— Honestamente, não dei muita atenção a isso. A credibilidade de Kalona tem sido mais do que questionável desde o momento em que ele apareceu por aqui.
— Mas agora você acredita nele — disse Rephaim.
Darius encontrou seu olhar.
— Eu acredito.
— Rephaim, você sabia que o seu pai era irmão de Erebus? — Stevie Rae perguntou.
Os olhos do menino pássaro pareciam tristes.
— O Pai nunca fala de antes.
— O que significa que não, você não sabia? — perguntou Aphrodite.
— Correto — Rephaim disse, soando estranhamente parecido com o seu pai.
— Isso muda as coisas — Lenobia falou.
— Sim, de uma forma incrível — Nicole assentiu como um balançar de cabeça. — Isso significa que temos o Guerreiro de Nyx em nossa equipe.
— Não, não — Aphrodite corrigiu secamente. — Isso significa que temos o ex-Guerreiro de Nyx que serviu tão mal que foi expulso do Outromundo em nossa equipe. E isso não é tão impressionante.
— Ele disse que está tentando reparar — Rephaim ressaltou.
— E ele salvou Thanatos e o resto deles — Darius acrescentou.
— Desculpe, mas não estou pronta para saltar cegamente na equipe Kalona — Aphrodite disse.
— Acho que é cego ignorar o que está na frente de nossos olhos — Rephaim opinou, apontando para a tela escura do iPad.
— E acho que há um monte de coisas sobre Kalona que não sabemos —  ela fez uma pausa e deu a Darius um olhar duro. — Ou pelo menos que a maioria de nós não sabe. Agora, se não houver algo melhor pra fazer, eu agradeceria se juntasse todos os novatos que você ache que pode ter algum talento de Guerreiro. Tenho certeza de que Thanatos quererá uma contagem dos prontos para a batalha. Depois de assistir a loucura no YouTube, tenho a sensação de que Neferet não vai dar a mínima para a equipe Kalona — Aphrodite deu um tapa na testa e depois acrescentou com sarcasmo: — Espere! Droga, Neferet provavelmente já sabe sobre a conexão Kalona/Erebus como praticamente todos os outros, exceto eu.
Ela sacudiu os cabelos para trás e se esquivou para longe.
Não foi até Aphrodite estar do lado de fora do auditório que ela diminuiu a velocidade e deixou que seus pensamentos acompanhassem as suas emoções. Seu coração trovejava e seu estômago balançava. Ela estava chateada. Superchateada.
Não, isso não é verdade. Eu não estou brava. Estou enlouquecida e chateada.
Com um suspiro gigante, Aphrodite moveu-se da calçada para um dos bancos sob a sombra de um carvalho enorme. A mão que tirou o cabelo grosso loiro de seu rosto estava trêmula.
Darius tinha escondido algo dela, algo importante. Até aquele momento, pensou que ele fosse diferente de todos os outros caras nesta terra. Era para ele ser honesto. Era para ele ser fiel. E, acima de tudo, ele deveria amá-la o suficiente para nunca mentir para ela ou manter qualquer coisa escondido dela.
A quantidade de mentiras era o calibre real do quanto alguém ama você. Aphrodite sabia disso porque crescera assistindo um contar de mentiras permanente crescendo e crescendo.
Seus pais fingiram ser o casal perfeito, mas a verdade era que eles tinham se odiado, quase tanto quanto a odiavam. Com exceção de quando estavam em público, eles viviam vidas totalmente separadas, não compartilhavam sequer um quarto por mais de uma década, muito menos segredos.
Eles haviam mentido um para o outro diariamente.
Quando ela tinha apenas oito anos de idade, Aphrodite jurou a si mesma que nunca, nunca entraria em qualquer coisa como o casamento de seus pais. Inferno, até que ela conheceu Darius, não deixava qualquer cara chegar perto o suficiente para que ela se importasse se ele mentia para ela ou não. Ela seria a primeira a mentir. Seria a primeira a trair. Seria a primeira a romper a relação.
— Posso sentir a sua tristeza, minha bela. Por favor, fale comigo.
Aphrodite olhou para onde vinha o som da voz de Darius, mas não encontrou seus olhos.
Ela olhou por cima do seu ombro.
— O que você quer falar?
Ele se sentou ao lado dela e usou as costas da mão para limpar suavemente uma lágrima de seu rosto. Ela se afastou dele, apressadamente limpando sua outra face. Ela nem sabia que estava chorando!
— Eu quero falar sobre nós — disse ele.
— Sério? Não seria apenas mais fácil manter em curso como estivemos? Fingindo estar “apaixonados para todo o sempre”? — ela suspirou sarcasticamente.
— Nunca foi um fingimento para mim. Você sabe disso, Aphrodite — ele falou calma e sinceramente.
Ela queria dar um tapa nele, machucá-lo, fazê-lo sentir ainda que um pouco do medo que ela sentia. Mas não fez nada violento. Isso significaria que ela perdeu o controle. Significaria que ela se tornou sua mãe. Em vez disso, Aphrodite o feriu com palavras.
— E como diabos eu saberia isso? Eu não posso estar dentro de sua cabeça. Não posso nem compartilhar seus sentimentos como uma verdadeira Sacerdotisa. Mas que seja. Não se preocupe com isso. Está tudo bem, e nós dois temos um monte de merda para fazer, porque, como de costume, as Trevas estão prestes a tentar controlar o nosso mundo.
— As Trevas terão que esperar, porque você é meu mundo, e se eu perdê-la, eu me perco.
Aphrodite estava prestes a se levantar e ir embora sem olhar para trás. Ela deixaria seu coração duro como pedra, como ele costumava ser, quando realmente a protegia. Antes da tempestade de merda que era Zoey, sua horda de nerds e Darius aparecerem em sua vida.
Ela ia, mas de alguma forma, Darius dissera exatamente a coisa certa, de modo que as suas pernas de repente decidiram ouvir seu coração em vez de a sua cabeça.
Aphrodite encontrou seu olhar.
— Você mentiu para mim.
— Não, minha bela. Eu simplesmente não lhe contei algo.
— Por quê? Por que manter segredo de mim? Kalona ser irmão de Erebus é algo grande!
— Eu não me importo com Kalona ou com o que ele disse ou deixou de dizer. Eu me importo com você e o que você diz.
— Eu? — Aphrodite franziu o cenho para ele. — Que diabos você está falando? Nem uma única vez já mencionei algo remotamente parecido com a possibilidade de Kalona e Erebus serem irmãos.
O sorriso de Darius foi lento e doce.
— Exatamente. E se você, minha linda e sábia Profetisa talentosa, não tinha nenhum conhecimento sobre o verdadeiro passado de Kalona, então por que eu mencionaria um comentário que o imortal alado havia feito? Aphrodite, se fosse importante sabermos que Kalona era irmão de Erebus, então acredito que você teria me contado.
Aphrodite balançou a cabeça, sentindo-se um pouco tonta quando percebeu o que Darius estava realmente dizendo a ela.
Ele pegou a mão dela.
— Eu já te disse o quanto eu a amo hoje?
— N-não — ela sussurrou, pensando, “Por favor, não diga isso se você não quiser dizer, por favor, por favor, não”.
— Com todo o meu ser.
Lágrimas escorreram pelo seu rosto, mas ela não desviou o olhar.
— Não tenha medo.
— Eu tenho. Isso ainda me assusta — ela admitiu.
— Me assusta também, mas vale a pena enfrentar e conquistar esse medo para estar com você, estar de verdade e não apenas fingir que meu coração permanece seguro.
— Mas você é um Guerreiro. Eu não sou nada, não realmente. Eu sou apenas... — sua voz se desvaneceu.
Ela não podia verbalizar, mas as palavras encheram sua mente: Eu sou apenas a filha de uma mulher horrível que me ensinou a odiar, e nunca, nunca confiar no amor.
— Você é a pessoa mais corajosa que conheço — Darius falou solenemente. — E você não é, nem nunca será sua mãe.
— E você nunca vai mentir para mim.
Ela não falou como uma pergunta, mas ele saiu do banco para ficar de joelhos e apertou a mão dela contra o seu coração, dizendo:
— Aphrodite, Profetisa de Nyx, eu lhe dou o meu Juramento de que nunca mentirei para você. Se eu não falar sempre a verdade, que a terra me engula inteiro, para que o meu espírito nunca encontre o seu caminho para o Outromundo.
Um terrível arrepio passou por Aphrodite e ela agarrou Darius e puxou-o para seus braços.
— Não, pare com isso! Qualquer pessoa pode acidentalmente contar uma mentira, qualquer uma! Eu não aceito esse juramento!
Darius se inclinou para trás, segurando-a delicadamente pelos ombros trêmulos e sorriu.
— Mas eu não sou qualquer pessoa. Eu sou seu. Seu Guerreiro. Seu amante. Seu companheiro. Eu juro nunca mentir para você, porque isso feriria você além do suportável, e prefiro que a terra me engula para sempre do que fazer isso com você.
Quando ela olhou para Darius e viu a verdade em seus olhos, algo se soltou dentro de Aphrodite, algo pequeno e afiado que esteve dentro dela por muito, muito tempo. Ela engasgou, respirou, então o deixou ir lentamente.
— Ele se foi — ela sussurrou.
— O que se foi, minha bela?
— Meu medo. Ele se foi, Darius. Você o arrancou fora — Aphrodite sabia que parecia jovem e boba. Ela não se importava. Pela primeira vez em sua vida, ela não estava com medo de perder o amor. — Eu não posso te perder! — ela desabafou.
— Não — ele disse, sorrindo de novo. — Você não pode nunca se perder de mim. E eu não afugentei o seu medo. Você se libertou dele.
— Oh — ela falou suavemente, finalmente entendendo. — Desculpe por ter levado tanto tempo.
— Você levou exatamente o tempo que foi necessário, e eu não me arrependo de nenhum momento da espera.
Darius a beijou então, e Aphrodite conheceu a felicidade completa.
Até a voz de Aurox interrompê-la.
— Darius! Aí está você. Venha depressa. Eles estão na porta!
Aphrodite se apoiou no ombro de Darius e fez uma careta para Aurox.
— Oh, puta merda, se você atrapalhou este momento porque Zoey e a horda de nerds estão de volta, eu vou bater a porcaria direto na...
— Não Zoey! — disse Aurox. — Os seres humanos! Há humanos no portão pedindo para que os deixem entrar, porque eles querem se proteger de Neferet!
— Bem, nesse caso, acho que devemos deixá-los entrar — Darius respondeu, de pé e oferecendo sua mão para Aphrodite. — Não acha, minha bela?
Ela suspirou e murmurou:
— Tudo bem. Que seja. Enquanto não houver políticos com eles.

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