11 de outubro de 2015

Capítulo 1 - Zoey

Eu nunca senti essa escuridão.
Nem mesmo quando estava despedaçada e presa no Outromundo e minha alma começou a se fragmentar. Na época sofri um duro golpe e me quebrei, estava prestes a me perder para sempre. Eu me sentia sombria por dentro, mas as pessoas que mais me amavam eram como luzes, belos faróis de esperança, e fui capaz de encontrar força em seu brilho.
Eu lutei da minha maneira contra as Trevas. Desta vez eu não tinha qualquer esperança. Eu não conseguia encontrar uma luz. Eu merecia ficar perdida, permanecer despedaçada. Desta vez eu não merecia ser salva.
O detetive Marx me levou para o gabinete do xerife do Condado de Tulsa, em vez de me colocar na cadeia com o resto dos criminosos que foram recentemente detidos. Na viagem aparentemente interminável da House of Night até o grande departamento de pedra marrom do xerife na First Street ele falou comigo, explicando que tinha feito algumas ligações, mexido uns pauzinhos.
E eu seria alocada em uma cela especial até que meu advogado pudesse fazer os arranjos para a minha defesa, para que eu pudesse ser liberada sob fiança. Ele olhou para trás e para frente na estrada, buscando meu reflexo no retrovisor; eu o fitei de volta. Não demorou mais que um piscar de olhos para ler sua expressão. Ele sabia que eu não tinha chance de fiança.
— Eu não preciso de um advogado — falei. — E não quero uma fiança.
— Zoey, você não está pensando direito. Tome um tempo. Confie em mim, você vai precisar de um advogado. E se pudesse sair da prisão sob fiança, seria o melhor para você.
— Mas não seria o melhor para Tulsa. Ninguém vai deixar um monstro a solta.
Minha voz soou calma e sem emoção, mas por dentro eu estava gritando mais e mais alto.
— Você não é um monstro — o detetive Marx disse.
— Você viu os homens que matei?
Ele olhou novamente no espelho e assentiu. Eu podia ver que seus lábios estavam comprimidos em uma linha, como se estivesse tentando evitar falar algo. Por alguma razão, seu olhar ainda era gentil. Eu não conseguia ver isso. Olhando pela janela, falei:
— Então você sabe o que eu sou. Queira você chamar de monstro, assassina ou uma novata vampira, é tudo a mesma coisa, eu mereço ser presa. Mereço o que vai acontecer comigo.
Ele rapidamente deixou de responder, o que me deixou aliviada.
Uma cerca de ferro circundava o estacionamento do departamento do xerife, e Marx dirigiu por uma entrada dos fundos, onde teve que esperar para se identificar antes de um enorme portão ser aberto. Ele parou o carro e me levou algemada por uma porta do fundos e através de uma enorme sala atravessada por divisórias que separavam a sala em cubículos minúsculos.
Quando entramos, policiais conversavam e telefones tocavam. Assim que eles viram a mim e ao detetive Marx, foi como se tivessem apertado um interruptor. A conversa parou e começaram a me encarar. Eu estava olhando para frente, concentrada em um ponto na parede tentando não deixar o grito preso em minha garganta sair.
Tivemos de andar pela sala inteira. Em seguida, passamos por uma porta que dava para uma daquelas salas que se vê nos seriados quando a policial interroga os bandidos.
Deu-me uma pontada de orgulho perceber que o que eu fiz me equiparou aos badboys.
Havia uma porta no outro extremo da sala que dava para um corredor. O detetive Marx virou à esquerda. Ele fez uma pausa e passou seu crachá de identificação, e uma espessa porta de aço se abriu.
Do outro lado da porta, o corredor terminava em poucos metros. Havia outra porta de metal à direita que estava aberta. Seu fundo era sólido, mas acima da altura dos ombros havia barras na parede, espessas barras negras. Foi ali que o detetive Marx parou.
Deu uma olhada lá dentro. O quarto era um túmulo. De repente, tive dificuldade para respirar, e meus olhos deslizaram para longe do lugar horrível para encontrar o rosto familiar do detetive Marx.
— Com o poder que você tem, imagino que conseguiria fugir daqui — ele falou em voz baixa, como se pensasse que alguém estivesse nos ouvindo.
— Eu deixei a pedra da vidência na House of Night. Foi ela que me deu o poder de matar aqueles dois homens.
— Então você não os matou sozinha?
— Eu fiquei com raiva e joguei minha ira contra eles. A pedra da vidência só me deu um impulso. Detetive Marx, a culpa foi minha. É isso, ponto final.
Tentei parecer forte e segura de mim mesma, mas minha voz tinha ficado hesitante e tremida.
— Você consegue escapar daqui, Zoey?
— Sinceramente, não sei, mas prometo que não irei tentar — respirei fundo e deixei a verdade sair, absoluta. — Por causa do que fiz, eu pertenço a este lugar, e não importa o que acontecer comigo, eu mereço.
— Bem, prometo que ninguém irá incomodá-la aqui, você está segura — ele falou gentilmente. — Me encarreguei disso. Então o que quer que aconteça com você, não será devido a um linchamento.
— Obrigada — minha voz falhando novamente, mas eu tinha dito o mais importante.
Ele tirou minhas algemas. Eu não era capaz de me mover.
— Você tem que entrar na cela agora.
Eu movi meus pés. Quando já estava dentro, eu me virei, e pouco antes que a porta fechasse, eu disse:
— Eu não quero ver ninguém, especialmente alguém da House of Night.
— Você tem certeza?
— Sim.
— Você entende o que está dizendo, não é? — ele perguntou.
Eu assenti.
— Sei o que acontece com um novato que não fica perto de vampiros.
— Então você está basicamente condenando a si mesma.
Ele não havia formulado a frase como uma pergunta, mas respondi assim mesmo.
— O que eu estou fazendo é assumindo a responsabilidade por minhas ações.
Ele tinha hesitado, e parecia ter outra coisa a dizer, mas o detetive Marx acabou dando de ombros, suspirando e dizendo:
— Ok, então. Boa sorte, Zoey. Lamento que tenha chegado a esse ponto.
A porta se fechou como se fosse um túmulo.
Não havia nenhuma janela, nenhuma luz exterior, exceto a que vinha do corredor entre as barras da porta. No final da cela havia uma cama – um colchão fino sobre uma laje fixada à parede. Havia um vaso sanitário de alumínio na parede ao lado da cama, não muito longe dela. Não havia tampa. O chão era de um concreto negro. As paredes eram cinza. O cobertor sobre a cama também era cinza. Sentindo como se estivesse em um pesadelo, caminhei até a cama. Seis passos. Esse é o tamanho da cela em que eu estava. Seis passos.
Fui da parede lateral e caminhei pela cela. Cinco passos. Cinco passos atravessavam a cela.
Eu estava certa. Se não contasse a distancia até o teto. Eu estava trancada em um cubículo do tamanho de um túmulo. Sentei na cama, dobrei meus joelhos até o peito e os abracei.
Meu corpo não parava de tremer. Eu iria morrer.
Eu não conseguia me lembrar se Oklahoma era um estado a favor da pena de morte. Como se eu realmente prestasse atenção às aulas de história enquanto o professor Fitz passava filmes e mais filmes. Mas isso não importava de qualquer forma. Eu tinha deixado a House of Night. Sozinha. Sem nenhum vampiro. Até mesmo o detetive Marx entendia o que isso significava. Era só uma questão de tempo antes que meu corpo começasse a rejeitar a Transformação. Como se eu tivesse pressionado um botão de rebobinar em minha cabeça, imagens de calouros mortos passavam na tela de meus olhos fechados: Elliot, Stevie Rae, Stark, Erin...
Apertei mais ainda meus olhos. Acontece rápido. Muito, muito rápido, eu prometi a mim mesma.
Em seguida, outra cena de morte passou pela minha memória. Dois homens – sem-teto, detestáveis, mas vivos, até que perdi o controle do meu temperamento. Lembrei-me de como eu tinha jogado minha ira contra eles... como eles se chocaram contra a parede de pedra ao lado da pequena gruta no Woodward Park...Como eles ficaram caídos ali, tortos, quebrados...
Mas eles estavam se mexendo! Eu não pensei que os matei! Eu não tinha intenção de matá-los! Foi apenas um acidente terrível! Minha mente gritou.
Não! Falei bruscamente para a parte egoísta de mim que queria arrumar desculpas, queria fugir das consequências. As pessoas convulsionam quando estão morrendo. Eles estão mortos porque eu os matei. Isso não vai mudar o que fiz, mas eu mereço morrer.
Eu me enrolei debaixo do cobertor e encarei a parede. Ignorei a bandeja de comida que eles deslizaram através de uma fenda na porta. Eu não estava com fome de qualquer maneira, e fosse qual fosse a coisa naquela bandeja não despertou minha fome.
E por alguma razão, o mau cheiro da comida me lembrou do cheiro da minha última e impressionante refeição que eu tinha experimentado - psaguete na House of Night, com meus amigos à minha volta.
Mas eu andava estressada demais com o problema Aurox/Heath/Stark. Não aproveitei o psaguete, não muito. Assim como eu não tinha aproveitado meus amigos. Ou Stark, não mesmo.
Eu não tinha parado de considerar o fato de que eu tive sorte por ter dois caras incríveis que me amam. Em vez disso eu estava chateada e frustrada.
Pensei em Aphrodite. Eu me lembro de tê-la ouvido falar com Shaylin sobre me vigiar. Lembrei-me de como invadi o porão e empurrei Shaylin com o poder da minha raiva focada através da pedra da vidência.
A memória me fez estremecer de vergonha.
Aphrodite estava absolutamente certa. Eu precisava que me vigiassem.
Não era como se ela não tivesse tentado conversar comigo. Inferno, quando ela tentou eu não estava nada perto de ser razoável.
Eu me encolhi novamente enquanto me lembrava do quão perto estive de atirar minha raiva em Aphrodite.
Ainminhadeusa! Se eu tivesse feito isso eu poderia ter matado minha amiga! — falei com as mãos cobrindo meu rosto em vergonha.
Não importava que a pedra da vidência de alguma forma, sem que eu pedisse, amplificou meu poderes. Eu tive muitos avisos. Todas as vezes que eu ficava irritada, a pedra ficava mais quente. Por que eu não parei e pensei no que estava acontecendo? Por que eu não havia pedido ajuda de alguém? Pedi a Lenobia conselhos sobre namoro. Conselho sobre namoro! Eu deveria ter pedido por uma intervenção!
Mas eu não pedi ajuda para qualquer outra coisa exceto o que a minha visão ficou focada: em mim.
Eu fui uma vadia autoabsolvida.
Eu merecia estar onde estava. Merecia minhas consequências.
As luzes do corredor se apagaram. Eu não tinha nenhuma ideia de que horas eram. Parece que se passaram anos e não meses desde que fui uma adolescente humana normal que tinha de ir para a cama muito cedo em noites de aula.
Eu desejava, mais que tudo dentro de mim, que eu pudesse chamar o Super-Homem e fazê-lo voar no sentido contrário da rotação da Terra, até que o tempo voltasse para ontem. Eu estaria em casa, na House of Night, com os meus amigos. Correria direto para os braços de Stark e diria a ele o quanto eu o amo e o aprecio. Diria a ele o quanto eu sentia sobre a confusão Aurox/Heath, e que nós – nós cinco – descobriríamos o que fazer e que eu apreciaria mais o amor que me rodeava, não importasse o quê. Então eu arrancaria a maldita pedra da vidência e encontraria Aphrodite, e a entregaria para ela mantê-la segura, como se ela fosse o meu Frodo.
Mas era tarde demais para desejos, voltar no tempo era apenas fantasia. Super-Homem não era real.
Eu não dormi, era de noite, e a noite tinha se tornado o meu “dia”. Agora eu deveria estar na escola com meus amigos, vivendo minha vida, com o que era (para mim) “um dia normal”.
Em vez disso, eu estava ali, abraçando a mim mesma. Deveria ter sido mais inteligente, mais forte. Deveria ter sido qualquer coisa menos uma pirralha egoísta.
Horas mais tarde, ouvi a fenda na porta se abrir outra vez, e, quando me virei, vi que alguém tirara a bandeja intocada. Bom. Talvez o cheiro tivesse ido embora, também.
Tive de fazer xixi, mas eu não queria. Não queria usar aquele banheiro que saía da parede no meio da sala. Olhei para os cantos, onde as paredes se encontravam com o teto. Câmeras.
Era legal para os guardas assistirem os prisioneiros fazendo xixi?
As regras normais ainda se aplicavam a mim? Quero dizer, eu nunca tinha ouvido falar de um novato ou um vampiro que tivesse sido levado a julgamento em um tribunal humano, ou ir para a prisão humana.
Eu não tenha que me preocupar com isso. Eu me afogarei no meu próprio sangue antes de haver um julgamento.
Estranhamente, esse pensamento era um conforto, e enquanto a luz do corredor voltava, eu caí em um sono inquieto, sem sonhos.
Parecia que dez segundos haviam se passado quando a portinhola se abriu e outra bandeja de alumínio entrou na minha cela. O barulho fez com que eu me sacudisse e acordasse, mas eu ainda estava grogue, tentando voltar a dormir, até o cheiro de ovos e bacon me deixar com água na boca. Quanto tempo se passou desde que eu tinha comido alguma coisa? Ugh, eu me senti péssima. Cegamente levantei e caminhei os seis passos para a porta, pegando a bandeja e levando-a cuidadosamente de volta para minha cama desarrumada.
Os ovos eram mexidos e superescorregadios. O bacon era gorduroso e estava duro. Tinha café, uma caixa de leite e torradas. Eu teria dado quase tudo por uma tigela de Count Chocula e uma lata de Coca-Cola.
Dei uma mordida nos ovos, e eles estavam muito salgados e quase me fizera engasgar. Mas em vez de asfixia, comecei a tossir. Dentro dessa terrível tosse eu provei algo, algo metálico, suave, quente e estranhamente maravilhoso.
Era o meu próprio sangue.
Medo disparou através de mim, deixando-me fraca com tonturas e náusea. Está acontecendo tão cedo? Eu não estou pronta! Eu não estou pronta!
Tentando limpar minha garganta, tentando respirar, cuspi os ovos, ignorando o tom rosa que escorria junto com o amarelo, coloquei a bandeja no chão, e me enrolei na cama, passando os braços em volta de mim à espera de mais tosse e mais sangue, muito mais sangue. Minhas mãos tremiam enquanto eu limpava a umidade fresca de meus lábios.
Eu estava tão assustada!
Não fique! Eu disse a mim mesma enquanto tentava abafar uma tosse realmente horrível. Você verá Nyx em breve. E Jack. E talvez até Dragon e Anastasia.
E mamãe!
Mãe... De repente eu queria que a minha mãe como um terrível desejo inexplicável.
— Eu queria não ficar sozinha — sussurrei em uma voz grossa para a cela.
Ouvi a porta ser aberta, mas não me virei. Eu não queria ver a expressão de horror de um estranho. Fechei os olhos com força e tentei fingir que estava na fazenda de lavanda da vovó, dormindo no meu quarto lá. Tentei fingir que o cheiro de ovo e bacon vinha de sua cozinha, e minha tosse era apenas um resfriado que tinha me feito ficar em casa ao invés de ir à escola.
E eu estava conseguindo! Oh, obrigada, Nyx! De repente, juro que podia sentir o cheiro dos perfumes que sempre pairavam em torno da Vovó Redbird, lavanda e erva-doce. Isso me deu coragem para falar rapidamente, antes que minha voz fosse afogada em sangue, para quem quer que esteja ali:
— Está tudo bem. Isso é o que acontece a alguns novatos. Apenas por favor, vá embora e me deixe em paz.
— Oh Zoey Passarinha, minha preciosa u-we-tsi-a-ge-ya, ainda não sabe que eu nunca a deixarei sozinha?

10 comentários:

  1. KARINA !!!!!!!!!! Vc ñ tem noção d como eu esperei por esse livro !!!!!!!!!!!!!!!!! MT obg, kra, vlw msm
    Bjuuss,
    Ana Eliza

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Bem, boa leitura então, Ana Eliza! Espero que goste do desfecho da série :D

      Excluir
  2. Mds como amo essa serie!!! <3

    ResponderExcluir
  3. Nossa! Não pode ser só isso eu não li essa série por tanto tempo pra ser assim.

    ResponderExcluir
  4. Concordo completamente Livia Crisostomo

    ResponderExcluir
  5. A serie não pode começar com a morte da personagem principal... É muito sem noção!!!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Bom.. vc não leu certo livro do Rick Riordan, né? heuaheuaheuae

      Excluir
    2. E este é o último livro de House of Night... como assim, "a série não pode começar"?

      Excluir
  6. Ola!! Obg por postar a Historia, estou mtt grata e feliz .
    - Marianne

    ResponderExcluir
  7. Ah mds, to chorando,deve ser tpm, afs
    Eu querendo que até mesmo Nyx aparecesse pra Zoey e aparece a vovó redbird <3

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!