10 de outubro de 2015

Capítulo 1 - Neferet

O reflexo do passado que havia se manifestado de repente no espelho de Zoey Redbird tinha sido uma terrível lembrança da morte da inocência de Neferet. Tinha sido tão inesperado para Neferet ver a si mesma novamente como uma garota machucada e destruída que aquela memória a havia despedaçado, deixando-a vulnerável ao ataque rebelde da criatura que era o seu instrumento. Aurox a havia derrotado, espetado-a com seu chifre e a atirado da varanda da cobertura. Quando ela atingira o chão, Neferet, a ex-Grande Sacerdotista de Nyx, tinha de fato morrido. Quando o seu coração mortal parou de bater, o espírito dentro dela, a energia imortal que a fizera rainha Tsi Sgili, tomara conta, dissolvendo a sua concha quebrada de um corpo vivo.
Aquela mistura de Trevas e espírito se aninhou, indo ao chão, esperando, esperando, sobrevivendo, enquanto a consciência da Tsi Sgili batalhava para continuar a existir.
A garota violentada no espelho havia ressuscitado uma memória que Neferet acreditava estar há muito tempo morta... enterrada... esquecida. O passado se levantara com uma força que ela estava totalmente despreparada para combater.
Vivo novamente, o passado havia matado Neferet.
Neferet se lembrou. Ela já tinha sido uma filha. Ela já foi Emily Wheiler. Ela era uma garota vulnerável e desesperada, e o humano que deveria ser o seu maior protetor a tinha molestado, abusado dela e a violentado.
No instante em que a imagem de Emily se refletiu no espelho mágico, todas as décadas de poder e força que Neferet havia moldado como uma barreira para reprimir aquela violação, aquela inocência assassinada, evaporaram.
A poderosa Grande Sacerdotista vampira se foi. Só sobrou Emily, encarando a ruína da sua vida jovem. Foi Emily quem Aurox espetou com seu chifre e atirou na calçada solitária na frente do Mayo Hotel. Foi Emily quem levou Neferet junto em sua morte.
Mas foi o espírito da rainha Tsi Sgili quem sobreviveu.
É verdade, o seu corpo se quebrara, a sua mente se despedaçara, mas a energia que era a imortalidade de Neferet estava viva, apesar de a sua consciência pairar no limite da dissolução. Os reconfortantes filamentos de Trevas a acolheram e fortaleceram, permitindo que ela primeiro emprestasse a aparência de insetos, depois de sombras, depois de neblina. O espirito da Tsi Sgili bebeu a noite e vomitou o dia, submergindo no sistema de esgoto do centro de Tulsa e se movendo devagar e inexoravelmente em uma direção – o que sobrara de Neferet tinha uma incansável compulsão por buscar o familiar – para encontrar o que iria torná-la inteira de novo.
A Tsi Sgili estava consciente quando cruzou a fronteira entre a cidade e o lugar que ela mais conhecia. O lugar que, mesmo desencarnada, o seu espírito reconhecia, pois ele a atraíra para lá por tantos anos. Ela entrou na House of Night na forma de uma névoa cinza e densa. Vagou de sombra em sombra, absorvendo o familiar.
Quando chegou ao templo no centro da escola, o espectro se retraiu, apesar de fumaça, sombras, energia e escuridão não poderem sentir dor, assim como não podiam sentir prazer. A energia maligna da Tsi Sgili se retraiu por reflexo, assim como uma perna de rã se contrai em contato com uma frigideira quente.
Foi aquela contração inadvertida que alterou o seu curso, fazendo com que ela vagasse perto o bastante do lugar de poder que ela realmente sentia. A Tsi Sgii não podia reconhecer a dor ou o prazer, mas o que sobrou de Neferet conhecia o poder. Ela sempre iria conhecer o poder.
Em gotas pegajosas de um líquido oleoso, ela mergulhou no buraco na terra. Ela absorveu a energia enterrada ao seu redor, a através disso extraiu os resíduos espectrais do que estava acontecendo acima dela.
A Tsi Sgili podia ter permanecido assim – sem forma, sem rosto, simplesmente existindo – se a morte não tivesse escolhido aquele momento para se aproximar.
Como o vento que sobra nuvens para encobrir o sol, a aproximação da morte foi invisível, mas Tsi Sgili sentiu o seu toque antes de a novata começar a tossir.
A morte era ainda mais familiar para o espectro do que a escola ou o lugar de poder. A morte a atraiu para cima, para fora do buraco na terra. Em uma onda de excitação, o espírito da Tsi Sgili se manifestou na primeira forma que tinha vindo até ela perto dos primórdios do seu poder: a de um inseto de oito patas sempre resiliente, curioso e incansável.
As aranhas negras, movendo-se como se fossem uma só, materializaram-se para buscar a morte e se alimentar dela.
Ironicamente, foi o círculo dos novatos que abriu a energia condutora que permitiu que Neferet adquirisse consciência suficiente para ser capaz de se concentrar e de emprestar o poder ancestral da morte e de, finalmente, encontrar-se de novo.
Eu sou aquela que foi Emily Wheiler, depois Neferet e então Tsi Sgili – rainha, deusa, ser imortal!
Até aquele momento, encontrar o familiar havia sido o seu foco. Quando a morte atacou a novata, o espírito da Tsi Sgili se alimentou dela, acumulando energia para que finalmente as suas memórias se aglutinassem e deixassem de ser fragmentos de passado e presente e se tornassem uma verdadeira consciência.
O choque daquele conhecimento fez com que uma energia bruta ondulasse através do seu espírito, fragmentando os filamentos de Trevas e abastecendo a remodelagem do seu corpo. Ela já estava quase totalmente formada quando os elementos a expulsaram. Explodindo de dentro do círculo, Neferet desapareceu.
Isso até o portão de ferro que servia como uma barreira entra a rua humana e o jardim da escola de vampiros. Ali, o seu corpo se solidificou, e ela ardeu com todo o seu poder canalizado até ficar ofegante, fraca como um recém-nascido, mal se agarrando à sua consciência. Neferet desabou contra o muro que era o limite da House of Night.
Ela precisava se alimentar!
Fome era tudo o que ela sentia até ouvir a voz alta daquele homem, maliciosa e sarcástica, falando com ironia:
— Sim, querida. É claro que você está certa. Você está sempre certa. Eu também não quero ficar para essa rifa ridícula. Eu não tenho o menor interesse em ganhar aquele Thunderbird 1966 do qual os vampiros estão se desfazendo com um dos bilhetes nos quais gastei quinhentos dólares. Não, sem problemas! E, como você disse tantas vezes, a gente deveria ter chamado um motorista e pegado uma limusine. Sinto muito mesmo pela inconveniência de você ter que ficar esperando que eu ande todo o caminho até onde estacionamos, pegue o nosso carro e dirija de volta para buscá-la, enquanto você fica sentada em um banco descansando. Ah, eu estou tão, mas tão feliz que você deixou aqueles dois idiotas da Câmara Municipal olharem para os seus peitos enquanto sussurrava para eles e espalhava as suas fofocas loucas sobre Neferet. HAHAHA! — A risada sarcástica dele chegou até Neferet através da noite. — Se você prestasse atenção em alguém além de si mesma, saberia que Neferet sabe se cuidar. Vândalos na cobertura que não foram vistos por ninguém? Dificilmente. Aquela bagunça parece o resultado de um acesso de raiva de mulher. Tenho pena de quem quer que tenha causado a fúria de Neferet, mas não tenho pena de Neferet.
Neferet se esforçou para sentar, ouvindo com toda a atenção. O humano havia falado o seu nome. Isso deveria ser um sinal de que ele era um presente dos deuses.
As luzes do Lexus, que estava a menos de dez passos de onde ela estava sentada, acenderam-se quando ele apertou o controle remoto do chaveiro. Ele resmungou:
— Maldita mulher. Ela só sabe fofocar e manipular, manipular e fofocar. Eu devia ter escutado o meu pai e não ter casado com ela. Só o que ganhei nesses vinte e cinco anos com ela foi pressão alta, refluxo gastroesofágico e uma filha ingrata. Eu poderia ter sido o primeiro prefeito solteiro de Tulsa em cinquenta anos e poderia escolher entre as jovens filhas com dinheiro antigo do petróleo se eu já não estivesse acorrentado a ela...
Os murmúrios dele se transformaram em um barulho ambiente ininteligível quando a audição supersensível de Neferet alcançou a batida do coração dele.
Ela suspirou de gratidão. De fato, ele soava como jantar. Mas ela não iria agradecer aos deuses do destino que o enviaram até ela. Ela iria aceitar a ajuda deles como nada além do que ela merecia – um reconhecimento de que eles estavam felizes por ela voltar às fileiras dos imortais.
Ele estava abrindo a porta do sedã quando ela se levantou. Neferet colocou todo o seu desejo e sua fome na palavra que era o nome dele:
— Charles!
Ele fez uma pausa, endireitou-se e olhou na direção dela, tentando enxergar na escuridão.
— Olá? Tem alguém aí?
Neferet não precisava de luz para enxergar. A sua visão se movia através das Trevas facilmente, confortavelmente. Ela viu o cabelo cuidadosamente penteado dele, as linhas do seu terno caro e bem cortado, o suor no seu lábio superior e a pulsação no pescoço que batia compassadamente com o seu sangue vital.
Ela deu um passo e jogou para trás o seu longo cabelo ruivo, expondo a exuberância do seu corpo nu. Depois, como se fosse um pensamento tardio, ela tentou sem sucesso esconder com as mãos as suas partes íntimas dos olhos arregalados dele.
— Charles! — Neferet repetiu o seu nome, acrescentando um soluço. — Eles me machucaram!
— Neferet? — obviamente confuso, Charles deu um passo na direção dela e parou. — É você mesma?
— Sou eu! Sou eu! Ah, Deusa, logo você me encontrou aqui, nua, ferida e sozinha. Isso é tão horrível! É muito mais do que eu posso suportar — Neferet chorou e cobriu o rosto com as mãos, permitindo que ele desse uma olhada completa no seu corpo.
— Eu não entendo! O que aconteceu?
— Charles! — um grito agudo veio de trás dos jardins da escola, fazendo os dois pararem. — Por que você está demorando tanto?
— Querida, eu encontrei... — Charles começou a gritar para a sua mulher, mas Neferet moveu-se rapidamente na direção dele, agarrando a sua mão e cortando as suas palavras.
— Não! Não conte a ela que sou eu. Eu não suportaria que ela soubesse o que fizeram comigo — ela sussurrou desesperada.
O olhar dele estava totalmente focado nos seios nus de Neferet. Ele limpou a garganta e continuou:
— Frances, querida, tenha paciência. Eu derrubei o controle remoto do caro e só agora o encontrei. Em dois minutos eu levo o carro até aí.
— É claro que você derrubou! Você sempre tão desastrado! — ela retrucou cheia de veneno.
— Vá até ela! Esqueça que me viu — Neferet choramingou enquanto andava com dificuldade de volta para as sombras ao lado dos muros da escoa. — Eu posso cuidar de mim mesma.
— Do que você está falando? É claro que eu não vou deixá-la aqui nua e ferida. Coloque meu paletó. Conte-me o que aconteceu, eu sei que a sua cobertura foi vandalizada. Você foi sequestrada? — Charles falou, movendo-se na direção dela. Ele tirou o paletó e o estendeu para ela.
O olhar de Neferet se voltou para as mãos dele, que seguravam o casaco, oferecendo-o a ela.
— Suas mãos são tão grandes — abalada por imagens do passado, Neferet achou difícil falar. Seus lábios estavam frios e dormentes. — Os seus dedos... São tão, mas tão grossos.
Charles piscou os olhos, confuso.
— Acho que são. Neferet, você está em seu juízo perfeito? Você parece muito perturbada. Como posso ajudá-la?
— Ajudar-me? — a mente esfomeada de Neferet a tirou do passado de Emily e a impulsionou para o presente. — Vou mostrar o único jeito de você me ajudar.
Neferet não desperdiçou mais nenhuma energia falando com ele. Em um único movimento predatório, ela atirou o para o lado o paletó oferecido e jogou Charles contra o muro. Ele perdeu o fôlego com o impacto e caiu no gramado, ofegante. Ela não permitiu que ele se recuperasse. Ela o prensou no chão com os seus joelhos e, transformando as suas mãos em garras, rasgou o seu pescoço. Quando aquele sangue quente e espesso jorrou da sua jugular, ela grudou os lábios sobre a ferida e bebeu profundamente. Mesmo enquanto morria, ele não lutou. Completamente enfeitiçado, ele gemeu e tentou abraçá-la mais. A respiração dele fez um som de gargarejo, acabando com os seus gemidos, e as suas pernas chutaram espasmodicamente, mas a força de Neferet aumentava enquanto ele se aproximava da morte. Ela bebia sem parar, exaurindo o corpo e o espírito dele, até que Charles LaFont, o prefeito de Tulsa, não era mais nada além de uma concha sem sangue e sem vida.
Lambendo os lábios, Neferet se levantou, olhando para o que havia sobrado dele. Uma onda de energia a atravessou. Com ela amava o gosto da morte!
— Charles! Que droga! Eu tenho que fazer tudo sozinha? — a voz da mulher dele estava se aproximando, como se ela estivesse indo na direção deles.
Neferet levantou a sua mão sangrenta.
— Neblina e escuridão, eu as comando. Encubram o meu corpo. Agora! Cubram-me!
Em vez de obedecê-la e escondê-la de olhares curiosos, as mais profundas e escuras sombras apenas se agitaram inquietas. Através da noite, ela mais sentiu do que ouviu sua resposta: O seu poder minguou, Tsi Sgili renascida. Comandar-me agora? Vamos ver... vamos ver...
A raiva era uma emoção que Neferet não podia se dar ao luxo de sentir. Ela manteve sua própria raiva próxima a ela, escolhendo-a em vez de pegar o paletó amassado de Charles LaFont. Vestida apenas de sangue, de raiva e de um poder minguante, Neferet fugiu. Ela havia alcançado a vala do lado oposto da Utica Street quando a esposa de LaFont começou a gritar.
Os gritos dela fizeram Neferet sorrir, e, apesar de as Trevas não terem obedecido o seu comando e a encoberto, a Tsi Sgili correu com a agilidade sobrenatural de uma imortal. Enquanto ela escapava por aquele bairro rico, Neferet imaginou como ela pareceria para qualquer mortal que tivesse a sorte de olhar pela janela. Ela era um espectro escarlate, uma Banshee de tempos antigos. Neferet queria poder dar vida à maldição de magia antiga de Banshee – que qualquer mortal insolente o bastante para se atrever a olhar para ela se transformasse em pedra.
Pedra... eu queria... eu queria tanto...
A morte do prefeito não a havia preenchido o suficiente. Logo a agilidade de Neferet começou a vacilar. Ondas de fraqueza percorreram o seu corpo com tanta intensidade que ela tropeçou no meio-fio, respirando com dificuldade.
Não há casas aqui. Onde estou?
Confusa, Neferet olhou em volta, piscando contra a claridade das luzes estilo anos 1920 que pontuavam o parque. Instintivamente, ela se afastou das luzes, indo em direção aos arbustos e caminhos sinuosos no centro do parque.
Foi no meio de um pequeno cume, cercado por arbustos de azaleia adormecidos, que Neferet finalmente recuperou o fôlego, permitindo que os seus pensamentos clareassem o bastante para que ela reconhecesse a sua localização.
Woodward Park... não muito longe da House of Night. Neferet levantou os olhos, procurando pelo skyline do centro de Tulsa. O Mayo está muito longe. Não vou conseguir chegar lá antes do amanhecer. E mesmo que ela conseguisse chegar à sua cobertura antes de o sol se levantar do horizonte e acabar com o que havia sobrado de sua força, como ela iria passar pelos humanos que trabalhavam na recepção? As Trevas não a estavam obedecendo. Sem disfarce, ela seria uma vampira nua e cheia de sangue – motivo para causar aversão e ser presa, principalmente na noite em que o prefeito foi morto por um vampiro.
Talvez ela devesse ter estudado melhor suas alternativas antes de acabar com a vida do miserável LaFont.
Neferet sentiu a sua primeira centelha de pânico. Ela nunca tinha estado tão sozinha e vulnerável desde a noite em que seu pai matara a sua inocência.
A Tsi Sgili estremeceu, lembrando das suas mãos grandes e quentes, dos seus dedos grossos e do seu hálito fétido.
Neferet, soluçou, lembrando também das sombras que a haviam confortado quando ela era apenas uma garota e das Trevas que haviam suavizado a sua inocência quebrada.
— Todos vocês me abandonaram? Nenhum dos meus filhos sombrios permaneceu fiel a mim?
Como uma resposta, o arbusto na frente dela farfalhou com o movimento, e uma raposa emergiu de dentro dele. A criatura encarou Neferet sem nenhum medo aparente. A Tsi Sgili ficou admirada com a beleza do seu pelo âmbar e vermelho e com a inteligência nos seus olhos verdes e brilhantes.
A raposa é minha resposta... meu presente... meu sacrifício.
Neferet reagrupou o resto do seu poder. Rapidamente e em silêncio, ela atacou, quebrando o pescoço da raposa com um só golpe. Enquanto a luz se apagava de seus olhos, Neferet deitou o corpo dela em seu colo e abriu com suas garras o pescoço da criatura agonizante. Ela ergueu a raposa para que o seu sangue escorresse lentamente pelos seus braços e seus seios, empoçando-se ao redor dela como uma chuva quente de primavera.
— Se é de um sacrifício que vocês precisam, então que esta criatura sangre por vocês! Este sangue apenas abre a porta. Voltem para mim e Tulsa vai dar a vocês mais... muito mais!
As sombras mais escuras abaixo dos arbustos de azaleia de agitaram. Devagar, de modo quase hesitante, uns poucos filamentos de Trevas deslizaram em direção a Neferet.
A Tsi Sgili piscou com lágrimas nos olhos. Eles não a haviam abandonado! Ela mordeu o lábio para não chorar de gratidão quando a primeira das gavinhas roçou sua carne gélida contra ela enquanto afundava no calor do sangue da raposa e começava a se alimentar. Outras gavinhas logo se juntaram a ela e, apesar de não terem vindo a centenas e até milhares que ela já comandara, Neferet estava satisfeita por haver uma quantidade suficiente de gavinhas que atenderam ao seu chamado para fazer parecer que o chão ao seu redor tinha se transformado em um ninho de Trevas. Ela inalou profundamente a noite, sentindo o poder que pulsava através dela. Se ela pelo menos pudesse permanecer com os seus filamentos familiares, ela poderia alimentá-los, e em troca eles iriam escondê-la e nutri-la até que ela realmente recuperasse a sua força e o seu propósito.
O meu propósito? Qual é o meu propósito?
Memórias inundaram a sua mente enfraquecida com uma cacofonia de vozes e visões. Ela era uma jovem garota... o seu propósito é ser a Senhora Wheiler! Ela era uma jovem Alta Sacerdotisa... o seu propósito é seguir o caminho da Deusa! Ela era uma vampira mais madura que havia começado a ouvir os sussurros de Trevas, que pareciam flutuar pelo vento até ela... o seu propósito é me ajudar a me libertar da minha prisão na terra e reinar ao meu lado! Ela era poderosa, alimentada pelos filamentos feitos de noite e magia... o seu propósito é me divertir e ser minha Consorte!
— Chega! — Neferet gritou, afundando o seu rosto no pelo macio e embolorado da raposa sacrificada. — Chega de outros me dizendo qual é o meu propósito — decididamente, ela se levantou, recolhendo o resto de seu orgulho e poder. — Eu matei e vocês se alimentaram. Agora eu serei guiada para um abrigo em segurança!
As gavinhas de Trevas se ondularam, enrolando-se em suas pernas nuas, puxando-a gentilmente, compelindo-a ir para frente. Silenciosamente, Neferet seguiu as Trevas para um caminho que dava numa larga escadaria de pedra, que serpenteava rocha abaixo até o nível da rua do parque vazio. Ela parou, olhando para uma pequena área semelhante a uma gruta, escondida entre os caminhos e os jardins. Pedras e arbustos praticamente ocultavam a entrada, que ficava diante de um amplo gramado que acabava na Twenty-first Street. Os filamentos soltaram-na e desapareceram nas fendas das pedras. Novamente, Neferet os seguiu, escalando até a boca da gruta. Ela inspirou profundamente para se fortalecer enquanto rastejava para a escuridão total, até que ela fez uma pausa, surpresa com o aroma selvagem de bolor que a cercou lá dentro.
Os seus filamentos a tinham levado até a toca da raposa.
Neferet afundou na terra, apreciando o cheiro da sua presa. Ela quase podia sentir o calor do corpo do animal no ninho do qual ela havia partido tão recentemente. Neferet se encolheu ali, coberta apenas de sangue e de Trevas, fechou os olhos e finalmente deixou que o sono a chamasse.

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