9 de outubro de 2015

Capítulo 1 - Lenobia

O sono de Lenobia estava tão agitado que aquele sonho familiar adquiriu uma sensação de realidade que ultrapassou o reino etéreo das fantasias do subconsciente. E se tornou, desde o começo, dolorosamente real demais.
Começou com uma lembrança. Décadas e então séculos vagaram à deriva, deixando Lenobia jovem e ingênua de novo, no porão de carga do navio que a havia levado da França para a América – de um mundo a outro. Foi durante essa viagem que Lenobia conheceu Martin, o homem que deveria ter sido seu Consorte pela sua vida inteira. Mas, em vez disso, ele morrera jovem demais e havia levado o amor dela para o túmulo junto com ele.
No seu sonho, Lenobia podia sentir a leve ondulação do navio e o cheiro de cavalo, feno, peixe e mar – e Martin. Sempre Martin.
Ele estava em pé na sua frente, olhando fixamente para ela com olhos ansiosos cor de azeitona e âmbar. Ela havia acabado de dizer a ele que o amava.
— É impossível.
Martin estendeu o braço, pegou a mão dela e a levantou com delicadeza, fazendo a memória se repetir em sonho na sua mente. Ele levantou o próprio braço, alinhando-o lado a lado com o braço dela.
— Você vê a diferença, não vê?
A Lenobia do sonho deu uma pequena exclamação de dor sem palavras. O som da voz dele! Aquele sotaque crioulo característico – profundo, sensual, único. A lembrança do som agridoce da sua voz e do seu belo sotaque havia mantido Lenobia longe de Nova Orleans por mais de duzentos anos.
— Não — a jovem Lenobia respondeu à pergunta dele depois de olhar para os braços encostados dos dois, um marrom e um branco. — Tudo o que eu vejo é você.
Ainda profundamente adormecida, Lenobia, a Mestra dos Cavalos da House of Night de Tulsa, se remexeu agitada, como se o seu corpo estivesse tentando forçar a sua mente a despertar. Mas nesta noite a sua mente não obedeceu. Nesta noite os sonhos prevaleceram.
A sequência de memórias se alterou e se transformou em outra cena, ainda no porão de carga do mesmo navio, ainda com Martin, mas alguns dias depois. Ele estava entregando para ela um colar longo de couro amarrado a uma pequena bolsa tingida de um profundo azul safira. Martin colocou-o no pescoço dela, dizendo:
— Este amuleto a protegerá, chérie.
Tão rápida quanto uma batida de coração, a memória se ondulou e o tempo foi adiantado para um século à frente. Uma Lenobia mais velha, mais sábia e menos ingênua estava segurando entre suas mãos a bolsa de couro envelhecida, que havia se partido e cujo conteúdo estava caindo para fora – treze coisas, justamente como Martin tinha dito para ela. Mas a maioria dessas coisas havia se tornado irreconhecível durante o século em que ela usara o talismã. Lenobia se lembrou de um cheiro fraco de zimbro, do toque macio do barro granulado antes de ele se transformar em pó e da pequena pena de pomba que se desintegrou entre seus dedos. Mas, acima de tudo, Lenobia se lembrava da onda de alegria fugaz que sentira quando, no meio dos restos em decomposição do amor e da proteção de Martin, ela descobriu algo que o tempo não havia sido capaz de destruir. Era um anel de ouro, com uma esmeralda em forma de coração rodeada por minúsculos diamantes.
— O coração de sua mãe... o seu coração... o meu coração — Lenobia sussurrou enquanto deslizava a peça pelo seu dedo anular.
— Eu ainda sinto a sua falta, Martin. Eu nunca o esqueci. Eu prometi.
E então as memórias do sonho voltaram no tempo novamente, levando Lenobia para Martin outra vez, só que desta vez eles não estavam se encontrando no porão de carga de um navio no mar e se apaixonando. Essa memória era sombria e terrível. Mesmo sonhando, Lenobia sabia o lugar e a data: Nova Orleans, 21 de março de 1788, pouco tempo depois do pôr do sol. Os estábulos haviam explodido em um incêndio e Martin a salvara, carregando-a para longe das chamas.
— Oh, não! Martin! Não! — Lenobia havia gritado para ele, e agora ela choramingava, lutando para despertar antes que ela tivesse que reviver o fim terrível da sua lembrança.
Ela não acordou. Em vez disso, ela ouviu o seu único amor repetir as palavras que haviam partido o seu coração dois séculos atrás, sentindo tudo novamente como se fosse uma ferida fresca e em carne viva.
— Tarde demais, chérie. É tarde demais para nós neste mundo. Mas eu vou vê-la de novo. Meu amor por você não acaba aqui. Meu amor por você não vai acabar nunca... Vou encontrá-la de novo, chérie. Isso eu prometo.
Quando Martin capturou o humano do mal que havia tentado escravizá-la, e então voltou com ele para a estrebaria em chamas, salvando a vida de Lenobia, a Mestra dos Cavalos finalmente conseguiu acordar com um choro soluçante e violento. Ela se sentou na cama e, com a mão trêmula, tirou o cabelo ensopado de suor do seu rosto.
O primeiro pensamento de Lenobia ao despertar foi em sua égua. Através da conexão psíquica que elas tinham, ela podia sentir que Mujaji estava agitada, quase em pânico.
— Shhhh, minha bonita. Volte a dormir. Eu estou bem.
Lenobia falou em voz alta, enviando pensamentos tranquilizantes para a égua negra com a qual ela tinha um vínculo especial. Sentindo-se culpada por ter deixado Mujaji perturbada, ela abaixou a cabeça e começou a girar carinhosamente o anel de esmeralda em volta do seu dedo.
— Pare de ser tão tola — Lenobia disse a si mesma com firmeza. — Foi só um sonho. Eu estou em segurança. Não estou lá de novo. O que aconteceu naquela ocasião não pode me machucar mais do que já machucou — Lenobia mentiu para si mesma.
Eu posso me ferir de novo. Se Martin voltou, se ele realmente voltou, meu coração pode se ferir novamente. Outro soluço tentou escapar de Lenobia, mas ela pressionou seus lábios e controlou suas emoções à força.
Ele pode não ser Martin, ela disse a si mesma racionalmente. Travis Foster, o novo humano contratado por Neferet para auxiliá-la nos estábulos, era simplesmente uma bela distração – ele e sua grande e bonita égua Percherão.
— Provavelmente, era exatamente isso o que Neferet pretendia quando o contratou — Lenobia resmungou. — Ela só queria me distrair. E a Percherão dele é só uma estranha coincidência.
Lenobia fechou os olhos e bloqueou as lembranças que se levantavam do passado. Então ela repetiu em voz alta:
— Travis pode não ser Martin reencarnado. Eu sei que a minha reação a ele é surpreendentemente forte, mas já faz muito tempo desde que eu tive um amante.
Você nunca mais teve um amante humano. Você jurou – sua consciência a lembrou.
— Então simplesmente já passou da hora de eu ter um amante vampiro, mesmo se for por pouco tempo. E esse tipo de distração vai ser uma coisa boa para mim.
Lenobia tentou ocupar sua imaginação considerando e depois rejeitando uma lista de guerreiros Filhos de Erebus bonitões, mas os olhos de sua mente não estavam vendo seus corpos fortes e musculosos, e sim imaginando olhos castanhos cor de uísque tingidos de um verde-oliva familiar e um sorriso fácil...
— Não! — ela não iria pensar nisso. Ela não iria pensar nele.
Mas e se a alma de Martin realmente estiver em Travis? A mente inquieta de Lenobia sussurrou sedutoramente. Ele deu sua palavra de que me encontraria de novo. Talvez ele tenha conseguido.
— E então? — Lenobia se levantou e começou a andar de um lado para outro. — Eu conheço bem demais a fragilidade dos humanos. Eles são tão facilmente mortos, e hoje em dia o mundo é ainda mais perigoso do que era em 1788. O meu amor terminou em sofrimento e chamas uma vez. E uma vez já é o bastante.
Lenobia parou e colocou seu rosto entre as mãos quando seu coração percebeu a verdade e bombeou-a através de seu corpo e de sua alma, tornando-se realidade.
— Eu sou uma covarde. Se Travis não é Martin, eu não quero me entregar a ele e correr o risco de amar outro humano. E se ele é Martin que voltou para mim, eu não posso suportar o inevitável, pois vou perdê-lo de novo.
Lenobia sentou-se pesadamente na velha cadeira de balanço que ela havia colocado ao lado da janela do seu quarto. Ela gostava de ler ali. Se não conseguisse dormir, sua janela era voltada para o leste, de modo que ela podia assistir ao nascer do sol e olhar para os jardins ao lado do estábulo.
Lenobia não conseguia deixar de apreciar a luz da manhã, por mais irônico que isso fosse para uma vampira. No fundo do seu coração, vampira ou não, ela seria eternamente uma garota que amava as manhãs, os cavalos e um humano alto, com a pele cor de cappuccino, que havia morrido muito tempo atrás quando ele ainda era jovem demais.
Seus ombros desabaram. Ela não costumava pensar tanto em Martin havia décadas. A memória reavivada dele era uma espada de dois gumes. Por um lado, ela amava se lembrar do seu sorriso, do seu cheiro, do seu toque. Por outro, sua lembrança também evocava o vazio que a sua ausência tinha deixado. Por mais de duzentos anos, Lenobia havia sofrido por uma possibilidade perdida – uma vida desperdiçada.
— O nosso futuro foi queimado e arrancado de nós. Destruído pelas chamas do ódio, da obsessão e do mal — Lenobia balançou a cabeça e enxugou os olhos.
Ela precisava recuperar o controle sobre as suas emoções. O mal ainda estava queimando e abrindo terreno no campo do bem. Ela inspirou o ar profundamente para se centrar e voltou seus pensamentos para um assunto que nunca falhou em acalmá-la, não importando o quão caótico o mundo ao redor dela tivesse se tornado: cavalos e Mujaji, em particular.
Sentindo-se mais calma agora, Lenobia se concentrou de novo, atingindo aquela parte superespecial do seu espírito que Nyx tocara – e que recebera o dom da sua afinidade com cavalos – no dia em que a Lenobia de dezesseis anos havia sido Marcada. Ela encontrou sua égua facilmente e, no mesmo instante, sentiu-se culpada pela sua agitação refletida em Mujaji.
— Shhh — Lenobia a tranquilizou novamente, repetindo em voz alta a sensação de segurança que ela estava enviando através do seu elo com a égua. — Eu só estou sendo tola e indulgente. Isso vai passar, eu prometo, minha querida.
Lenobia projetou uma maré de ternura e amor sobre sua égua da cor da noite e, como sempre, Mujaji recuperou a calma.
Lenobia fechou os olhos e soltou um longo suspiro. Ela podia visualizar sua égua, negra e bela como a noite, finalmente se tranquilizando, levantando uma pata traseira e caindo num sono sem sonhos.
A Mestra dos Cavalos se concentrou na sua égua, afastando o turbilhão que a chegada do jovem cowboy ao seu estábulo havia causado dentro dela. Amanhã, ela prometeu para si mesma, amanhã eu vou deixar claro para Travis que nós nunca vamos ser mais do que patroa e empregado. A cor dos seus olhos e o jeito com que ele me faz sentir, tudo isso vai começar a acalmar quando eu me distanciar dele... Isso tem que... tem que...
Finalmente, Lenobia adormeceu.


Neferet

Shadowfax atendeu prontamente ao chamado de Neferet, apesar de o felino não ser ligado a ela. Felizmente, as aulas já haviam terminado por esta noite, portanto, quando o grande Maine Coon a encontrou no meio do ginásio, o lugar estava com as luzes parcialmente apagadas e totalmente vazio – não havia nenhum estudante por perto; o próprio Dragon Lankford também estava ausente, mas provavelmente por pouco tempo. Ela tinha visto apenas alguns novatos vermelhos no caminho até ali.
Neferet sorriu, satisfeita por pensar em como ela havia colocado os vermelhos do mal na House of Night. Quantas possibilidades adoráveis e caóticas eles apresentaram – especialmente depois de ela ter certeza de que o círculo de Zoey seria quebrado e que a melhor amiga dela, Stevie Rae, ficaria arrasada, sofrendo com a perda do seu amante.
A constatação de que ela iria assegurar dor e sofrimento futuros para Zoey agradou infinitamente Neferet, mas ela era disciplinada demais para se permitir começar a tripudiar antes que o feitiço de sacrifício estivesse terminado e os seus comandos fossem postos em andamento.
Apesar de a escola estar surpreendentemente quieta esta noite, quase abandonada, na verdade qualquer um podia aparecer no ginásio. Neferet precisava trabalhar rapidamente e em silêncio. Haveria tempo de sobra para se regozijar com os frutos do seu trabalho mais tarde.
Ela falou suavemente com o gato, atraindo-o para mais perto dela, e quando ele estava próximo o bastante ela se ajoelhou ao seu nível. Neferet pensou que ele desconfiaria dela – os gatos sabem das coisas. Eles eram muito mais difíceis de enganar do que humanos, novatos ou até mesmo vampiros. O próprio gato de Neferet, Skylar, havia se recusado a se mudar para a nova cobertura dela no edifício Mayo, preferindo ficar espreitando nas sombras da House of Night, observando-a deliberadamente com seus grandes olhos verdes. Mas Shadowfax não era tão precavido.
Neferet acenou. Shadowfax veio até ela, encurtando vagarosamente o último espaço que os separava. O grande gato não foi amigável – ele não se esfregou contra ela, marcando-a afetivamente com o seu cheiro – mas veio até ela. A sua obediência era tudo o que importava para Neferet. Ela não queria o amor dele; ela queria a sua vida.
A Tsi Sgili, Consorte imortal das Trevas e ex-Alta Sacerdotisa da House of Night, sentiu apenas uma vaga e remota sombra de remorso quando a sua mão esquerda acariciou o grande Maine Coon cinza rajado. O seu pelo era macio e grosso sobre o seu corpo ágil e atlético. Como Dragon Lankford, o guerreiro que o gato havia escolhido como seu, Shadowfax era poderoso e estava em pleno vigor. Era uma pena que ele fosse necessário para atender a um propósito maior. Um propósito superior.
O remorso de Neferet não equivalia a hesitação. Ela usou o seu dom concedido pela Deusa – a afinidade com felinos – e canalizou afeto e confiança através da palma da sua mão para o gato já confiante. Enquanto sua mão esquerda o acariciava, encorajando-o a se arquear e começar a ronronar, a sua mão direita sorrateiramente puxou o seu afiado athame, sua faca cerimonial, com o qual ela rapidamente, de modo preciso, cortou o pescoço de Shadowfax.
O grande gato não emitiu nenhum som. O seu corpo deu um espasmo, tentando se lançar para longe de Neferet, mas a mão dela agarrou o pelo do animal, segurando-o tão perto que o seu sangue respingou, quente e úmido, sobre o corpete do seu vestido de veludo verde.
Os filamentos de Trevas que estavam sempre em volta de Neferet pulsaram e estremeceram na expectativa. Neferet os ignorou.
O gato morreu mais rápido do que ela imaginara, e Neferet ficou feliz por isso. Ela não tinha imaginado que ele fosse encará-la, mas o gato guerreiro sustentou o olhar dela mesmo depois de desabar no chão arenoso do ginásio, quando ele já não podia mais combatê-la, mas ainda assim ficou deitado respirando com dificuldade, contorcendo-se em silêncio e encarando-a.
Trabalhando rapidamente, enquanto o gato ainda estava vivo, Neferet começou o feitiço. Usando a lâmina do seu athame, Neferet desenhou um círculo em volta do corpo moribundo de Shadowfax, de modo que o sangue que se empoçava em volta dele escorria para dentro do círculo, e um fosso escarlate em miniatura se formou.
Então ela pressionou uma palma da mão dentro do sangue fresco e quente, levantou-se do lado de fora do círculo, ergueu as duas mãos – uma ensanguentada, a outra segurando a faca com a ponta escarlate – e entoou:

“Com este sacrifício eu comando
as Trevas controladas pela minha mão.
Aurox, obedeça-me!
A morte de Rephaim acontecerá”.

Neferet fez uma pausa, permitindo que os filamentos pegajosos, negros e frios se esfregassem contra ela e se agrupassem em toda a volta do círculo. Ela sentiu a sua ânsia, a sua necessidade, o seu desejo, o seu perigo. Mas, acima de tudo, ela sentiu o seu poder.
Para completar o feitiço, ela mergulhou o athame dentro do sangue e escreveu diretamente na areia com ele, fechando o encantamento:

“Através do pagamento de sangue, dor e batalha,
Eu forço o Receptáculo a ser minha arma!”

Concentrando-se na imagem de Aurox em sua mente, Neferet entrou no círculo e cravou o punhal no corpo de Shadowfax, espetando-o no chão do ginásio enquanto ela soltava as gavinhas de Trevas para que elas pudessem consumir o seu banquete de sangue e dor.
Quando o gato estava completamente drenado e morto, Neferet disse:
— O sacrifício está concluído. O feitiço foi feito. Façam como eu ordeno. Forcem Aurox a matar Rephaim. Façam Stevie Rae quebrar o círculo. Façam com que o feitiço de revelação falhe. Agora!
Como um ninho agitado de cobras, os filamentos subordinados às Trevas serpentearam para dentro da noite, afastando-se do ginásio e indo em direção a um campo de lavandas e ao ritual que já estava em andamento.
Neferet olhou-os atentamente, sorrindo de satisfação. Um filamento de Trevas em particular, grosso como o seu braço, chicoteou através da porta que se abria do ginásio para o estábulo. A atenção de Neferet foi atraída naquela direção pelo som abafado de vidro quebrado.
Curiosa, a Tsi Sgili deslizou até lá. Tomando cuidado para não fazer barulho e disfarçando-se nas sombras, Neferet espiou o estábulo. Os seus olhos esmeralda se arregalaram com uma agradável surpresa. O filamento grosso de Trevas havia sido desajeitado. Ele havia derrubado um dos lampiões a gás que ficavam pendurados não muito longe das pilhas de feno de ótima qualidade que Lenobia era sempre tão meticulosa em escolher para as suas criaturas. Neferet assistiu, fascinada, quando o primeiro ramo de feno pegou fogo, crepitou e então, com uma renovada onda amarela e um poderoso som de whoosh, incendiou-se completamente.
Neferet olhou para a longa fileira de baias de madeira fechadas. Ela só conseguia ver os contornos escuros e indistintos de alguns dos cavalos. A maioria estava dormindo. Alguns estavam pastando preguiçosamente, já acomodados para o amanhecer que se aproximava e para o descanso que o dia iria proporcionar a eles até o pôr do sol, quando os estudantes chegariam para as suas aulas intermináveis.
Ela olhou de volta para o feno. Um fardo inteiro foi engolfado em chamas. O cheiro de fumaça foi levado até ela, e era possível ouvir o som crepitante do fogo se alimentando e crescendo, como uma besta descontrolada.
Neferet saiu do estábulo, fechando a pesada porta que dava para o ginásio com firmeza.
Parece que provavelmente Stevie Rae não vai ser a única a sofrer depois desta noite. Esse pensamento satisfez Neferet, e ela saiu do ginásio e da matança que ela havia causado ali, sem ver a pequena gata branca que caminhou até o corpo imóvel de Shadowfax, deitou ao lado dele e fechou os olhos.


Lenobia

A Mestra dos Cavalos acordou com um terrível pressentimento. Confusa, Lenobia esfregou as mãos no rosto. Ela havia pegado no sono na cadeira de balanço perto da janela e esse súbito despertar parecia mais um pesadelo do que realidade.
— Isso é tolice — ela resmungou sonolenta. — Preciso encontrar meu centro de novo.
A meditação a havia ajudado a silenciar seus pensamentos no passado. Resolutamente, Lenobia inspirou profundamente o ar para se purificar.
Foi com essa inspiração profunda que Lenobia sentiu o cheiro – fogo. Mais especificamente, um estábulo em chamas. Ela cerrou os dentes. Desapareçam, fantasmas do passado! Sou velha demais para esse tipo de jogo. Então um agourento som crepitante fez Lenobia afastar o último resquício de sono que havia obscurecido a sua mente. Ela se moveu rapidamente até a janela e abriu as pesadas cortinas pretas. A Mestra dos Cavalos olhou para o seu estábulo e arfou de horror.
Não era um sonho. Não era a sua imaginação. Em vez disso, era um pesadelo real.
Chamas estavam lambendo as laterais do edifício. Enquanto ela observava, as portas duplas no canto da sua visão foram abertas pelo lado de dentro e, contra o pano de fundo de uma onda de fumaça e labaredas ardentes, estava a silhueta de um cowboy alto guiando uma enorme Percherão cinza e uma égua negra como a noite para fora.
Travis soltou as éguas, tocando-as para os jardins da escola e para longe do estábulo em chamas; então, ele correu de volta para a boca flamejante do edifício.
Tudo dentro de Lenobia ficou vivo quando aquela visão extinguiu o seu medo e a sua dúvida.
— Não, Deusa. De novo, não. Eu não sou mais uma garota assustada. Desta vez, o fim dele vai ser diferente!

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