23 de outubro de 2015

4 - Babbitty, a Coelha, e seu Toco Gargalhante


Há muitos e muitos anos, em uma terra muito distante, vivia um rei apalermado que decidiu que somente ele devia ter poderes mágicos.
Assim, ordenou que o chefe do seu exército formasse uma Brigada de Caçadores de Bruxos, e equipou-a com uma matilha de ferozes cães negros.
Ao mesmo tempo, determinou que em cada aldeia e cidade de suas terras fosse lida a seguinte proclamação: “O rei procura um Instrutor de Magia.”
Nenhum bruxo ou bruxa ousou se candidatar ao cargo, pois estavam todos escondidos da Brigada de Caçadores de Bruxos.
Entretanto, um astucioso charlatão, sem qualquer poder mágico, viu nisso uma chance de enriquecer e apresentou-se ao palácio como um bruxo de enorme perícia. O charlatão executou alguns truques simples que convenceram o rei dos seus poderes mágicos, e foi imediatamente nomeado Grande Feiticeiro-Chefe, Mestre Régio de Magia.
O charlatão pediu ao rei que lhe desse um polpudo saco de ouro para ele poder comprar varinhas e outros materiais mágicos necessários. Pediu, ainda, vários rubis graúdos para serem usados no lançamento de feitiços curativos e uns dois cálices de prata para guardar e maturar poções. Tudo isso o apalermado rei lhe entregou.
O charlatão guardou o tesouro a salvo em sua própria casa e voltou aos jardins do palácio.
Ele não sabia, no entanto, que estava sendo observado por uma velha que vivia em um casebre na periferia dos jardins do palácio. Seu nome era Babbitty, e ela era uma lavadeira que mantinha as roupas de cama e mesa do palácio macias, cheirosas e alvas. Espreitando por trás dos lençóis que secavam no varal, Babbitty viu o charlatão partir dois galhinhos de uma das árvores do rei e desaparecer no interior do palácio.
O charlatão entregou um dos gravetos ao rei e lhe garantiu que era uma varinha de formidável poder.
— Mas somente produzirá resultados — disse o charlatão — quando o senhor se mostrar merecedor.
Toda manhã o charlatão e o apalermado rei saíam aos jardins onde agitavam suas varinhas e bradavam disparates para o céu. O charlatão tinha o cuidado de executar mais truques, de modo a manter o rei convencido da perícia do seu grande feiticeiro e do poder das varinhas que tinham lhe custado tanto ouro.
Certa manhã, quando o charlatão e o rei apalermado faziam floreios com suas varinhas, pulavam em círculos e entoavam rimas sem sentido, uma grande gargalhada chegou aos ouvidos do rei. Babbitty, a lavadeira, apreciava o rei e o charlatão da janela de sua casinha, e gargalhava com tanto gosto que não tardou a desaparecer de vista, fraca demais para continuar de pé.
— Devo parecer muito indigno para fazer a velha lavadeira dar tantas risadas — disse o rei. Ele parou de pular e agitar a varinha e enrugou a testa. — Estou cansado de praticar! Quando estarei pronto para realizar feitiços régios diante dos meus súditos, feiticeiro?
O charlatão tentou tranquilizar seu discípulo, assegurando-lhe que logo seria capaz de feitos mágicos surpreendentes. Porém, as gargalhadas de Babbitty incomodaram o rei mais do que o charlatão imaginava.
— Amanhã — disse o rei — convidaremos nossa corte para assistir ao seu rei realizar mágicas!
O charlatão viu que chegara a hora de apanhar seu tesouro e fugir.
— Ai de mim, será impossível! Esqueci-me de informar Vossa Majestade que preciso sair amanhã em uma longa viagem...
— Se você deixar este palácio sem a minha permissão, feiticeiro, minha Brigada de Caçadores de Bruxos o perseguirá com os seus cães! Amanhã de manhã você me ajudará a realizar mágicas diante dos nossos lordes e damas, e se alguém rir de mim, mandarei decapitá-lo!
O rei entrou enfurecido no palácio, deixando o charlatão só e amedrontado. Agora nem toda a sua astúcia seria capaz de salvá-lo, pois não poderia fugir nem tampouco ajudar o rei com a magia que nenhum dos dois conhecia.
Procurando uma válvula para aliviar seu medo e raiva, o charlatão se aproximou da janela de Babbitty, a lavadeira. Espiando para dentro da casa, viu a velhinha sentada à mesa, encerando uma varinha. Em um canto às suas costas, os lençóis do rei estavam se lavando sozinhos em uma tina de madeira.
O charlatão compreendeu imediatamente que Babbitty era uma bruxa genuína, e que, tendo lhe causado aquele terrível problema, poderia também resolvê-lo.
— Sua bruxa velha! — berrou o charlatão. — Sua gargalhada me custou caro! Se não me ajudar, vou denunciá-la, e você é que será despedaçada pelos cães do rei!
A velha Babbitty sorriu para o charlatão e tranquilizou-o, dizendo que faria tudo em seu poder para ajudá-lo.
O charlatão lhe deu instruções para se esconder em uma moita enquanto o rei apresentava o seu espetáculo de magia, e para executar os feitiços do rei sem que ele soubesse. Babbitty concordou com o plano, mas fez uma pergunta.
— E, meu senhor, se o rei tentar um feitiço que Babbitty não seja capaz de realizar?
O charlatão zombou.
— A sua mágica é superior à imaginação daquele tolo — garantiu-lhe o homem e se retirou para o castelo muito satisfeito com a própria esperteza.
Na manhã seguinte todos os lordes e damas do reino se reuniram nos jardins do palácio. O rei subiu a um palco à frente deles acompanhado pelo charlatão.
— Primeiro, farei o chapéu dessa dama desaparecer! — anunciou o rei, apontando o seu galhinho para uma dama.
Do meio de uma moita próxima, Babbitty apontou a varinha para o chapéu e o fez sumir. Grande foi o espanto e a admiração da nobreza e forte o seu aplauso para o jubiloso rei.
— A seguir, farei aquele cavalo voar! — anunciou o rei, apontando o galhinho para o próprio ginete.
Do meio da moita, Babbitty apontou a varinha para o cavalo e o animal se elevou no ar.


Os nobres ficaram ainda mais arrebatados e surpresos, e, aos gritos, manifestaram o seu apreço pelo rei mágico.
— E, agora — disse o rei, correndo o olhar ao redor em busca de uma ideia; e o capitão de sua Brigada de Caçadores de Bruxos correu para o rei.
— Majestade — disse o capitão — esta manhã, Sabre morreu depois de comer um cogumelo venenoso! Ressuscite-o, majestade, com a sua varinha!
E o capitão carregou até o palco o corpo sem vida do maior dos cães caçadores de bruxos.
O apalermado rei brandiu o seu galhinho e apontou para o cão morto. Mas, no meio da moita, Babbitty sorriu, e não se deu sequer o trabalho de erguer a varinha, porque nenhuma mágica é capaz de ressuscitar os mortos.
Ao ver que o cão continuava imóvel, os nobres começaram primeiro a murmurar e depois a rir.
Desconfiaram que os primeiros dois feitos do rei, afinal, não tinham passado de simples truques.
— Por que não está funcionando? — gritou o rei para o charlatão, que recorreu ao último ardil que lhe restava.
— Ali, majestade, ali! — gritou ele, apontando para a moita onde Babbitty estava escondida. — Vejo-a claramente, a bruxa má que está bloqueando a nossa magia com os seus próprios feitiços malignos! Prenda-a, alguém, prenda-a!
Babbitty fugiu da moita, e a Brigada de Caçadores de Bruxos saiu em sua perseguição, soltando os cães, que latiram longamente, sedentos pelo sangue da bruxa. Mas, ao alcançar uma sebe baixa, a bruxa desapareceu de vista, e quando o rei, o charlatão e todos os cortesãos chegaram ao outro lado, encontraram a matilha caçadora latindo e escarafunchando ao redor de uma árvore velha e curvada.
— Ela se transformou em uma árvore! — berrou o charlatão e, temendo que Babbitty retomasse sua forma humana e o denunciasse, acrescentou: — Derrube-a, Vossa Majestade, é assim que se lida com bruxas más!
Imediatamente trouxeram um machado, e a velha árvore foi abatida com sonoros vivas dos cortesãos e do charlatão.
Entretanto, quando se preparavam para retornar ao palácio, o som de uma gargalhada os fez parar de estalo.
— Tolos! — exclamou a voz de Babbitty do toco que eles haviam deixado para trás. — Bruxos e bruxas não podem ser mortos rachando-os ao meio! Se não acreditam em mim, peguem o machado e cortem o grande feiticeiro ao meio!


O capitão da Brigada de Caçadores de Bruxos se apressou a fazer a experiência, mas, quando ergueu o machado, o charlatão caiu de joelhos pedindo misericórdia e confessando toda a sua maldade. Ao vê-lo sendo arrastado para a masmorra, o toco de árvore gargalhou mais alto que nunca.
— Quando cortou uma bruxa ao meio, Vossa Majestade desencadeou uma terrível maldição sobre o seu reino! — disse o toco ao rei aterrorizado. — De hoje em diante, cada maldade que o senhor infligir aos meus companheiros bruxos se refletirá como uma machadada do lado do seu corpo, até o senhor desejar morrer.
Ao ouvir isso, o rei também caiu de joelhos e disse ao toco que faria imediatamente uma proclamação, protegendo todos os bruxos do seu reino e deixando-os praticar sua magia em paz.
— Muito bem — disse o toco — mas o senhor ainda não compensou Babbitty!
— Farei qualquer coisa, qualquer coisa que pedir! — exclamou o apalermado rei, torcendo as mãos diante do toco.
— O senhor construirá uma estátua de Babbitty em cima de mim, em memória da sua pobre lavadeira, para lembrá-lo para sempre de sua própria tolice! — ordenou o toco.
O rei concordou imediatamente e prometeu contratar o maior escultor da terra para fazer uma estátua de ouro puro. Depois o envergonhado rei e toda a nobreza retornaram ao palácio, deixando o toco dando gargalhadas às suas costas.
Quando os jardins se esvaziaram novamente, esgueirou-se do buraco entre as raízes do toco uma velha coelha robusta e bigoduda com uma varinha presa entre os dentes. Babbitty saiu saltando pelos jardins para muito longe, a estátua de ouro da lavadeira, que recobria o toco, durou para sempre, e nunca mais os bruxos foram perseguidos naquele reino.


Comentários de Alvo Dumbledore sobre “Babbitty, a Coelha, e seu Toco Gargalhante”

A história de “Babbitty, a Coelha, e seu Toco Gargalhante” é, sob muitos aspectos, o conto de Beedle mais “real”, na medida em que a magia descrita na história está quase totalmente de acordo com as conhecidas leis da magia.
Foi graças a essa história que muitos de nós descobrimos que a magia não podia ressuscitar os mortos – o que foi um grande desapontamento e um choque, convencidos que estávamos na infância de que nossos pais seriam capazes de acordar os nossos ratos e gatos com um aceno de varinha. E, embora tenham transcorrido uns seis séculos desde que Beedle escreveu esse conto, e desde então tenhamos concebido inúmeras maneiras de manter a ilusão da presença continuada dos entes que amamos,1 os bruxos ainda não descobriram como juntar corpo e alma uma vez que a morte ocorra. Diz o eminente filósofo bruxo Bertrand de Pensées-Profondes em sua famosa obra Um estudo da possibilidade de reverter os efeitos metafísicos e reais da morte natural, com especial atenção à reintegração da essência com a matéria: “Desistam. Isto jamais acontecerá.”
O conto de Babbitty, a Coelha, porém, nos oferece uma das primeiras menções literárias a um animago, pois Babbitty, a lavadeira, é dotada dessa rara habilidade mágica de se transformar em animal, quando quer.
Os animagos formam uma pequena fração da população bruxa. Atingir a transformação perfeita e espontânea de humano para animal exige muito estudo e prática, e muitos bruxos consideram que seu tempo pode ser melhor empregado em outras atividades. Certamente, a aplicação de tal talento é limitada a não ser que a pessoa tenha grande necessidade de se disfarçar ou se ocultar. Por esta razão, o Ministério da Magia insiste em registrar os animagos, pois não resta dúvida de que tal tipo de feitiço tem maior utilidade para aqueles que se dedicam a atividades sub-reptícias, secretas ou até criminosas.2
É duvidoso que algum dia tenha havido uma lavadeira capaz de se transformar em coelha; entretanto, alguns historiadores da magia têm sugerido que Beedle criou Babbitty à feição da famosa francesa Lisette de Lapin, que foi condenada por feitiçaria em Paris, em 1422. Para assombro dos seus carcereiros trouxas, que mais tarde foram julgados por ajudar a bruxa a escapar, Lisette sumiu de sua cela prisional na véspera de sua execução. Embora nunca tenha se provado que Lisette fosse um animago que conseguiu se espremer entre as grades da janela de sua cela, subsequentemente, um grande coelho branco foi avistado atravessando o Canal da Mancha em um caldeirão equipado com uma vela, e um coelho semelhante tornou-se mais tarde conselheiro de confiança na corte do rei Henrique VI.3
O rei na história de Beedle é um trouxa imbecil que, ao mesmo tempo, cobiça e teme a magia. Ele acredita que pode se tornar bruxo simplesmente aprendendo encantamentos e agitando uma varinha.Ignora inteiramente a verdadeira natureza da magia e dos bruxos, e, portanto, engole as absurdas sugestões tanto do charlatão quanto de Babbitty. Tal atitude é típica de um determinado tipo de mentes trouxas: em sua ignorância, estão prontas a aceitar toda sorte de impossibilidades a respeito da magia, inclusive as hipóteses de que Babbitty se transforme em uma árvore que ainda pode pensar e falar. (Neste ponto, vale ainda notar que, embora Beedle use o artifício de fazer uma árvore falar para ressaltar como o rei trouxa é ignorante, ele nos pede também para acreditar que Babbitty é capaz de falar enquanto coelho. Isto poderia ser uma licença poética, mas acho mais provável que Beedle tenha ouvido falar de animagos sem jamais ter conhecido um, porque esta é a única liberdade que ele toma em relação às leis da magia em sua história. Os animagos não retêm o poder da fala humana enquanto sob a forma animal, embora conservem a capacidade humana de raciocinar. Isto, como qualquer escolar sabe, é a diferença fundamental entre ser animago e se transfigurar em animal. Neste último caso, a pessoa se transforma inteiramente em um animal e, em consequência, desconhece a magia, perde a consciência de ter sido bruxo, e precisaria de alguém que o transfigurasse em sua forma original.)
Creio ser possível que, ao preferir que sua heroína finja se transformar em árvore e ameace o rei com a dor de uma machadada no próprio corpo, Beedle tenha se inspirado em tradições e práticas reais da magia. As árvores com madeira apropriada para varinhas sempre foram ferozmente protegidas por seus fabricantes, que cuidam delas, e quando alguém as corta para roubá-las, se arrisca a expor-se não apenas à malícia dos tronquilhos5 que normalmente fazem seus ninhos ali, como também a efeitos adversos dos Feitiços de Proteção com que seus donos as cercaram. Na época de Beedle, a Maldição Cruciatus ainda não tinha sido declarada ilegal pelo Ministério da Magia,6 e poderia ter produzido a exata sensação que Babbitty usa para ameaçar o rei.


1 [As fotos e os retratos de bruxos têm movimentos e (no caso destes últimos) falam como seus personagens. Outros objetos raros, como o Espelho de Ojesed, podem também refletir mais do que uma imagem estática de alguém querido que perdemos. Os fantasmas são versões transparentes, dinâmicas, falantes e pensantes dos bruxos e bruxas que desejaram, por alguma razão, permanecer na terra. JKR]
2 [A professora McGonagall, diretora de Hogwarts, me pediu que esclarecesse que ela se tornou um animago em decorrência de suas extensas pesquisas em todos os campos da Transfiguração, e que jamais usou sua habilidade de se transformar em gato com nenhum objetivo sub-reptício, à exceção das atividades legais em favor da Ordem da Fênix, nas quais o sigilo e o disfarce eram imperativos. JKR]
3 Isto pode ter contribuído para a reputação de instabilidade mental daquele rei trouxa.
4 Conforme demonstraram as intensas pesquisas do Departamento de Mistérios que remontam a 1672, bruxos nascem feitos. Ainda que a habilidade fortuita de realizar mágicas ocorra em pessoas que aparentemente descendem de não-bruxos (e embora vários estudos sugiram que terá sempre havido alguém bruxo em sua árvore genealógica), trouxas não podem realizar mágicas. O melhor – ou pior – a que poderiam aspirar são eleitos aleatórios e não controláveis gerados por uma varinha mágica genuína, que, sendo um instrumento supostamente canalizador de magia, retém, por vezes, um poder residual que pode descarregar em um dado momento – veja também as notas sobre a tradição das varinhas em “O conto dos três irmãos”.
5 Para a descrição completa desses pequenos e curiosos habitantes das árvores, veja Animais fantásticos & onde habitam.
6 As Maldições Cruciatus, Imperius e Avada Kedavra foram classificadas como Imperdoáveis em 1717, com as mais rigorosas penalidades associadas ao seu uso.

Um comentário:

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