23 de outubro de 2015

3 - O coração peludo do mago


Era uma vez um jovem mago rico, bonito e talentoso, que observou que seus amigos agiam como tolos quando se apaixonavam, se enfeitando, andando aos saltos e corridinhas, perdendo o apetite e a dignidade. O jovem mago resolveu jamais se deixar dominar por tal fraqueza, e recorreu às artes das trevas para garantir sua imunidade.
Sem saber do seu segredo, a família do mago achava graça de vê-lo tão distante e frio.
“Tudo mudará”, vaticinavam eles, “quando uma donzela atrair seu interesse!”
O jovem mago, porém, permanecia impassível. Embora muita donzela se sentisse intrigada por seu ar altivo e recorresse às artes mais sutis para agradá-lo, nenhuma conseguia tocar seu coração. Ele se vangloriava de sua indiferença e da sagacidade que a produzira.
O frescor da juventude foi dissipando-se e os jovens de mesma idade e posição que o mago começaram a casar e a ter filhos.
“O coração deles deve ser apenas uma casca”, desdenhava ele mentalmente, observando o ridículo comportamento dos jovens pais ao seu redor, “ressecada pelas exigências desses pirralhos chorões!”
E mais uma vez ele se felicitou pela sabedoria da opção que fizera no primeiro momento.
No devido tempo, os pais do mago, já idosos, faleceram. O filho não lamentou a morte deles; ao contrário, considerou-se abençoado por terem desaparecido. Agora ele reinava sozinho em seu castelo. Depois de transferir o seu maior tesouro para a masmorra mais profunda, ele se entregou a uma vida desregrada e farta, na qual o seu conforto era o único objetivo dos inúmeros criados.
O mago estava convencido de que devia ser alvo da imensa inveja de todos que contemplavam sua solidão esplêndida e despreocupada. Feroz, portanto, foi sua raiva e desgosto, quando um dia ouviu dois dos lacaios discutindo a sua pessoa.
O primeiro criado manifestou pena do mago que, com tanto poder e riqueza, continuava sem alguém que o amasse.
Seu colega, entretanto, desdenhou, perguntando por que um homem com tanto ouro e dono de tão esplêndido castelo não fora capaz de atrair uma esposa.
Tal conversa desferiu um terrível golpe no orgulho do mago que os ouvia.
Ele decidiu imediatamente escolher uma esposa, e uma que fosse superior a todas as existentes. Possuiria uma beleza assombrosa e provocaria inveja e desejo em todo homem que a contemplasse; descenderia de uma linhagem mágica para que seus filhos herdassem excepcionais dons de magia; e seria dona de uma fortuna no mínimo igual à dele, para garantir sua confortável existência, apesar do acréscimo de pessoas e despesas.
Encontrar tal mulher talvez levasse cinquenta anos, mas aconteceu que, no dia seguinte à sua decisão, chegou à vizinhança, em visita a parentes, uma donzela que correspondia a todos os seus desejos.
Era uma bruxa de prodigioso talento e dona de grande riqueza. Sua beleza era tanta que mexia com o coração de todos os homens que a contemplavam, isto é, todos, exceto um. O coração do mago não sentiu absolutamente nada. Contudo, a moça era o prêmio que ele buscava, e, assim sendo, começou a cortejá-la.
Todos que notaram a mudança no comportamento do mago ficaram surpresos e disseram à donzela que ela tivera êxito, onde uma centena de outras havia fracassado.
A jovem, por sua vez, sentiu ao mesmo tempo fascínio e repulsa pelas atenções do mago. Ela pressentiu a frieza que havia sob o calor de suas lisonjas, pois jamais conhecera um homem tão estranho e distante. Seus parentes, contudo, consideraram essa união extremamente desejável e, muito interessados em promovê-la, aceitaram o convite do mago para um grande banquete em homenagem à donzela.
A mesa, carregada com peças de ouro e prata, continha os mais finos vinhos e as comidas mais suntuosas. Menestréis dedilhavam alaúdes de cordas sedosas e cantavam um amor que o seu senhor jamais sentira. A donzela sentou-se em um trono ao lado do mago, que lhe falava suavemente, empregando palavras de carinho que roubara dos poetas, sem a mínima ideia do seu real significado.
A donzela ouvia, intrigada, e por fim respondeu:
— Você fala bonito, mago, e eu ficaria encantada com suas atenções, se ao menos acreditasse que você tem coração!
O mago sorriu e lhe respondeu que, quanto a isso, ela não precisava temer. Pediu-lhe que o acompanhasse e, conduzindo-a para fora do salão, desceu à masmorra trancada à chave onde guardava o seu maior tesouro.
Ali, em uma caixa de cristal encantada, encontrava-se o coração pulsante do mago.

Há muito tempo desligado dos olhos, ouvidos e dedos, o coração jamais se deixara cativar pela beleza, ou por uma voz musical, ou pelo tato de uma pele sedosa. A donzela ficou aterrorizada ao vê-lo, pois o coração encolhera e se cobrira de longos pelos negros.
— Ah, o que você fez! — lamentou ela. — Reponha o coração no lugar a que pertence, eu lhe imploro!
Ao perceber que isto era necessário para agradá-la, o mago apanhou a varinha, destrancou a caixa de cristal, abriu o próprio peito e repôs o coração peludo na cavidade vazia que outrora ocupara.
— Agora você está curado e conhecerá o verdadeiro amor! — exclamou a donzela e abraçou-o.
O toque dos macios braços alvos da donzela, o som de sua respiração no ouvido dele, o aroma dos seus cabelos dourados; tudo isto penetrou como uma lança o seu coração recém-despertado. Mas o órgão se corrompera durante o longo exílio, cego e selvagem na escuridão a que fora condenado, seus apetites tinham se tornado vorazes e perversos.
Os convidados ao banquete notaram a ausência do anfitrião e da donzela. A princípio despreocupados, começaram, porém, a se sentir ansiosos à medida que as horas passavam e, por fim, decidiram revistar o castelo.
Acabaram encontrando a masmorra, onde uma cena aterrorizante os aguardava.
A donzela jazia morta no chão, de peito aberto, e ao seu lado ajoelhava-se o mago enlouquecido, segurando em uma das mãos ensanguentadas um grande e reluzente coração, que ele lambia e acariciava, jurando trocá-lo pelo seu.
Na outra mão, ele empunhava a varinha, tentando induzir o coração murcho e peludo a sair do próprio peito. O coração, porém, era mais forte do que ele e se recusou a renunciar ao controle dos seus sentidos ou a retornar à urna em que estivera trancado por tanto tempo.
Diante do olhar aterrorizado dos convidados, o mago atirou para um lado a varinha e agarrou uma adaga de prata. Jurando jamais ser dominado pelo próprio coração, arrancou-o do peito.
Por um momento, o mago permaneceu de joelhos, triunfante, segurando um coração em cada mão; em seguida caiu atravessado sobre o corpo da donzela e morreu.


  
Comentários de Alvo Dumbledore sobre “O coração peludo do mago”

Vimos anteriormente que os dois primeiros contos de Beedle atraíram críticas por seus temas de generosidade, tolerância e amor. “O coração peludo do mago”, no entanto, não parece ter sofrido alterações nem muitas críticas nas centenas de anos que transcorreram desde que foi escrito; a história, quando afinal a li nas runas originais, era quase exatamente igual à que minha mãe me contara. Dito isto, “O coração peludo do mago” é de longe a mais horripilante das dádivas de Beedle, e muitos pais não a compartilham com os filhos até achar que eles têm idade suficiente para não ter pesadelos.1
Como explicar, então, a sobrevivência desse conto macabro? Eu argumentaria que “O coração peludo do mago” sobreviveu intacto através dos séculos porque fala às profundezas sombrias do nosso ser. Aborda uma das tentações maiores e menos admissíveis em magia: a busca da invulnerabilidade.
Naturalmente, tal busca é nada mais nada menos que uma vã fantasia. Nenhum homem ou mulher vivos, mágicos ou não, jamais escapou de alguma forma de lesão, seja física, seja mental ou emocional. Ferir-se é tão humano quanto respirar. Apesar disso, nós bruxos parecemos particularmente favoráveis à ideia de que podemos dobrar a natureza da existência à nossa vontade. O jovem mago2 dessa história, por exemplo, conclui que a paixão afeta, adversamente, o seu conforto e segurança. Ele vê o amor como uma humilhação, uma fraqueza, um desperdício dos recursos materiais e emocionais de uma pessoa.
Naturalmente, o comércio secular de poções de amor comprova que o nosso mago ficcional não está sozinho quando busca controlar o curso imprevisível do amor. A pesquisa para encontrar uma verdadeira poção do amor3 tem continuado até os nossos dias, mas tal elixir ainda não foi criado, e eminentes preparadores de poções duvidam que isto seja possível.
O herói desse conto, no entanto, não está sequer interessado em um simulacro de amor que ele possa criar ou destruir a seu bel-prazer. Quer permanecer imune àquilo que ele considera uma espécie de fraqueza e, portanto, executa um feitiço das trevas que não seria possível fora de um livro de histórias: guarda a sete chaves o seu coração.
Muitos autores observaram a semelhança deste ato com a criação de uma Horcrux. Embora o herói de Beedle não esteja procurando evitar a morte, como Tom Riddle, está separando o que evidentemente não deve ser separado – o corpo e o coração – e, ao fazê-lo, infringe a primeira das Leis Fundamentais da Magia de Adalberto Waffling:

Somente interfira com os mistérios mais profundos – a origem da vida, a essência do eu – se estiver preparado para enfrentar as consequências mais extremas e perigosas.

E, efetivamente, ao procurar se tornar sobre-humano, esse jovem imprudente se torna inumano. O coração que ele guardou, escondido, lentamente murcha e cria pelos, simbolizando sua própria descida à animalidade. Finalmente, o bruxo é reduzido a um violento animal que arrebata o que quer à força, e morre na inútil tentativa de recuperar aquilo que, então, estava para sempre fora do seu alcance – um coração humano.
Embora um tanto antiquada, a expressão inglesa “ter um coração peludo” foi incorporada à linguagem cotidiana para descrever um bruxo ou bruxa frio ou insensível. Honória, minha tia solteirona, sempre alegou que desmanchara um noivado com um bruxo da Seção de Controle do Uso Indevido da Magia porque descobriu em tempo que “ele possuía um coração peludo”. (Corria, porém, o boato de que, na realidade, ela o surpreendera acariciando libidinosamente uns toletes,4 o que julgou profundamente chocante.) Mais recentemente, o livro de autoajuda O coração peludo: um guia para bruxos que não querem se comprometer5 encabeçou a lista dos mais vendidos.


1 Segundo registrou em seu próprio diário, Beatrix Bloxam jamais se recuperou do abalo de ter ouvido a tia contar essa história às suas primas mais velhas. “Por acaso, a minha orelhinha encostou no buraco da fechadura. Só posso imaginar que devo ter ficado paralisada de horror, uma vez que ouvi involuntariamente a repulsiva história, sem falar nos detalhes chocantes do caso muitíssimo imoral do meu tio Nobby, a megera local e um saco de bulbos saltadores. O choque quase me matou; passei uma semana de cama e tão profundamente traumatizada que desenvolvi o hábito de andar durante o sono e toda noite espreitar à mesma fechadura, até que o meu querido pai, zelando pelo meu bem, pôs um Feitiço Adesivo na minha porta na hora de dormir.” Aparentemente, Beatrix não conseguiu uma maneira de adequar “O coração peludo do mago” aos ouvidos sensíveis das crianças, pois jamais o reescreveu para Os contos do chapéu-de-sapo.
2 [O termo “mago” usado para se referir ao protagonista desse conto é muito antigo. Embora seja intercambiável com “bruxo”, designou originalmente aquele que aprendeu as artes marciais e duelísticas próprias da magia. Era também um título concedido a bruxos que tivessem realizado feitos de bravura, tal como os trouxas são por vezes nomeados cavaleiros por atos de valor. Ao chamar o jovem bruxo dessa história de “mago”, Beedle indica que ele já era reconhecido por sua especial perícia em magia ofensiva. Em nossos dias, “mago” é usado de duas maneiras: na descrição de um bruxo de aparência excepcionalmente feroz, ou como um título indicativo de extraordinário talento ou realização. Assim, Dumbledore, um mago, é bruxo-presidente da Suprema Corte dos Bruxos. JKR]
3 Hector Dagworth-Granger, fundador da Mui Extraordinária Sociedade dos Preparadores de Poções, explica: “Violentas paixonites podem ser induzidas por um competente preparador de poções, mas até hoje ninguém conseguiu criar o vínculo verdadeiramente incondicional, eterno, irrompível, o único que pode ser chamado de Amor.”
4 Toletes são seres rosados, semelhantes a cogumelos cerdosos. É difícil entender por que alguém iria querer acariciá-los. Maiores informações em Animais fantásticos & onde habitam.
5 Não deve ser confundido com Focinho peludo, coração humano, um relato comovente da luta de um homem contra a licantropia.

Um comentário:

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