27 de setembro de 2015

Capítulo único

A manchete do jornal parecia gritar do outro lado do vidro da pequena máquina de venda: SEATTLE SITIADA — MORTES AUMENTAM NOVAMENTE. Eu ainda não havia visto essa. Algum jornaleiro devia ter reabastecido a máquina pouco antes. Sorte dele que não estava por perto agora.
Maravilha. Riley ia ter um ataque. Eu faria de tudo para não estar presente quando ele visse o jornal. Ele que arrancasse o braço de outra pessoa.
Fiquei escondida na sombra de um velho prédio de três andares, tentando não ser notada, enquanto esperava que alguém tomasse uma decisão. Não queria encarar ninguém, por isso olhei para a parede ao meu lado. O piso térreo do edifício tinha abrigado uma loja de discos que fechara havia muito tempo; as janelas, quebradas pelo mau tempo ou pela violência das ruas, estavam tampadas por tapumes de madeira. Nos andares de cima havia apartamentos — vazios, acho, já que não se ouvia o som normal de humanos dormindo. Eu não estava surpresa, pois o lugar parecia pronto para desmoronar com um vento um pouco mais forte. Os prédios do outro lado da rua escura e estreita também eram velhos e destruídos.
O cenário normal de uma noite pelas ruas da cidade.
Eu não queria falar e chamar atenção, mas seria bom se alguém decidisse alguma coisa. Estava com muita sede, e não me importava muito se iríamos para a direita, para a esquerda ou por cima do telhado. Só queria encontrar uns azarados quaisquer, que então não teriam nem tempo de pensar lugar errado, hora errada.
Infelizmente, naquela noite Riley me mandara sair com dois dos vampiros mais inúteis que existiam. Ele nunca parecia se importar com quem mandava nos grupos de caça. Especialmente porque mandar as pessoas erradas em um grupo significava que menos gente voltaria para casa. Naquela noite ele havia me colocado com Kevin e outro garoto louro cujo nome eu não sabia. Os dois eram da gangue de Raoul, por isso nem preciso dizer que eram estúpidos. E perigosos. Mas, naquele momento, mais estúpidos que qualquer outra coisa.
Em vez de decidir em que direção caçaríamos, eles estavam em meio a uma discussão sobre qual de seus super-heróis preferidos seria melhor caçador. O louro sem nome demonstrava sua preferência pelo Homem-Aranha escalando a parede de tijolos do beco enquanto cantarolava a música tema do desenho animado. Eu suspirei frustrada. Quando íamos caçar?
Um movimento sutil à esquerda chamou minha atenção. Era Diego, o outro membro do grupo de caça formado por Riley. Eu não sabia muito sobre ele, somente que era mais velho que a maioria dos outros. E era o braço direito de Riley. Isso não me fazia gostar dele muito mais que dos outros idiotas.
Diego estava me olhando. Devia ter ouvido o suspiro. Eu desviei o olhar.
Manter a cabeça baixa e a boca fechada — esse era o caminho para continuar vivo na turma de Riley.
— O Homem-Aranha era um fracassado chorão — Kevin disse para o garoto louro. — Vou mostrar como um super-herói de verdade caça. — Ele sorriu. Seus dentes brilharam sob a luz de um poste.
Kevin saltou no meio da rua quando os faróis de um carro iluminaram o calçamento esburacado com um brilho branco-azulado. Ele flexionou os braços para trás, depois os uniu lentamente como um lutador profissional se exibindo. O carro se aproximava, provavelmente esperando que ele saísse do caminho como faria uma pessoa normal. Como ele deveria fazer.
— Hulk com raiva! — Kevin gritou. — Hulk... ESMAGA!
Ele saltou para a frente e foi de encontro ao carro antes que o motorista pudesse frear, agarrou o para-choque dianteiro, girou o veículo sobre a cabeça e jogou-o no chão com as rodas para cima, provocando um estrondo de metal se retorcendo e vidro quebrando. Lá dentro, uma mulher começou a gritar.
— Cara... — Diego disse balançando a cabeça. Ele era bonito, com cabelos escuros e encaracolados, olhos grandes e lábios carnudos, mas quem não era bonito ali? Até Kevin e os outros idiotas da gangue de Raoul eram bonitos. — Kevin, não devíamos chamar atenção. Riley disse...
— Riley disse! — Kevin o imitou, afinando a voz. — Não seja medroso, Diego. Riley não está aqui.
Kevin saltou sobre o Honda capotado e deu um soco na janela do lado do motorista, que de alguma forma permanecera intacta até aquele momento. Ele enfiou a mão entre os vidros quebrados e tateou o air bag que já murchava, tentando encontrar o motorista.
Eu me virei de costas e prendi a respiração, fazendo um grande esforço para não perder a capacidade de pensar.
Não podia ver Kevin se alimentando. Estava com sede demais para isso e não queria brigar com ele. Eu não precisava entrar na lista de alvos da gangue de Raoul.
O garoto louro não teve a mesma preocupação. Ele saltou da parede e aterrissou bem atrás de mim. Ouvi quando ele e Kevin rosnaram um para o outro, depois escutei um som como o de tecido molhado sendo rasgado, e os gritos da mulher cessaram. Provavelmente, eles a haviam partido ao meio.
Tentei não pensar nisso, mas podia sentir o calor e ouvir o gotejar atrás de mim, e isso fazia minha garganta arder insuportavelmente, embora eu não estivesse respirando.
— Vou dar o fora daqui — ouvi Diego resmungar.
Ele entrou por um vão entre os prédios escuros, e eu fui logo atrás. Se não saísse dali bem depressa, ia acabar brigando com os encrenqueiros da gangue de Raoul por um corpo que provavelmente não tinha muito mais sangue àquela altura. E então, talvez eu não voltasse para casa.
Ah, mas minha garganta ardia! Rangi os dentes para reprimir um grito de dor.
Diego seguia rapidamente por um beco cheio de latas de lixo e, quando chegou ao fundo, subiu pela parede. Enfiei os dedos nas brechas entre os tijolos e subi atrás dele.
No alto, Diego decolou, saltando com leveza de um telhado a outro na direção de luzes indistintas, fugindo daqueles ruídos. Eu ia atrás dele. Era mais nova e portanto mais forte — era uma boa coisa que nós, os mais jovens, fôssemos mais fortes, ou não teríamos sobrevivido à primeira semana na casa de Riley.
Eu poderia ter ultrapassado Diego com facilidade, mas queria ver para onde ele ia, não queria que ele ficasse atrás de mim.
Diego percorreu quilômetros sem parar; estávamos quase nas docas industriais. Eu podia ouvi-lo resmungando sozinho.
— Idiotas! Como se Riley não nos desse instruções por um bom motivo. Autopreservação, por exemplo. É preciso o mínimo de bom senso! Seria pedir demais?
— Ei! — eu chamei. — Vamos caçar logo? Minha garganta está pegando fogo.
Diego aterrissou sobre o amplo telhado de uma fábrica e se virou. Eu saltei alguns metros para trás, em guarda, mas ele não fez nenhum movimento agressivo na minha direção.
— Vamos — ele respondeu. — Só queria me afastar dos lunáticos.
Ele sorriu, todo simpático, e eu o encarei.
Diego não era como os outros. Era meio... calmo, acho que era essa a palavra. Normal. Não agora, mas antes. Seus olhos eram vermelhos, mais escuros que os meus. Ele devia existir daquele jeito havia um bom tempo, como eu ouvira dizer.
Da rua lá embaixo vinham os sons da noite em uma área pobre de Seattle. Poucos carros, o som pesado do baixo nas músicas, algumas pessoas caminhando com passos nervosos, rápidos, um bêbado cantando desafinado ao longe.
— Você é a Bree, não é? — perguntou Diego. — Uma das recém-criadas.
Eu não gostava disso. Recém-criada. Que fosse.
— Sim, eu sou a Bree. Mas não cheguei com o último grupo. Tenho quase três meses.
— É bem rápida para quem só tem três meses — ele disse. — Poucos teriam conseguido sair da cena do acidente desse jeito. — Ele falou como um elogio, como se estivesse realmente impressionado.
— Eu não queria me misturar àqueles malucos do Raoul.
Ele assentiu.
— Amém, irmã. Esse tipo só arruma encrenca.
Esquisito. Diego era esquisito. O jeito como ele falava, como uma pessoa conversando normalmente. Sem hostilidade, sem desconfiança. Como se não estivesse pensando em quanto seria fácil ou difícil me matar naquele exato momento. Estava apenas conversando comigo.
— Há quanto tempo está com Riley? — perguntei, curiosa.
— Quase onze meses.
— Uau! Você é mais velho que Raoul!
Diego revirou os olhos e cuspiu veneno de cima do prédio.
— Sim, eu lembro quando Riley chegou com aquele traste. Depois disso, tudo só foi ficando muito pior.
Fiquei quieta por um momento, imaginando se ele considerava qualquer um mais jovem que ele um traste. Não que eu me importasse. Não me incomodava mais com o que os outros pensavam. Não precisava me incomodar. Como Riley dizia, agora eu era uma deusa. Mais forte, mais rápida, melhor. Ninguém mais importava.
Diego assobiou baixo.
— Lá vamos nós. Só é preciso um pouco de inteligência e paciência.
Ele apontou para baixo, para o outro lado da rua.
Meio escondido pelas sombras de uma viela escura, um homem xingava e esbofeteava uma mulher, enquanto outra assistia à cena em silêncio. Pelas roupas, deduzi que eram um cafetão e duas de suas prostitutas.
Era isso que Riley nos mandava fazer. Caçar a escória. Escolher os humanos de quem ninguém sentiria falta, aqueles que não estavam voltando para casa e para a família, os que não gerariam ocorrências de desaparecimento.
Era o mesmo critério pelo qual ele nos escolhera. Refeições e deuses, ambos buscados da escória.
Diferentemente de muitos outros, eu ainda fazia o que Riley mandava. Não porque gostasse dele. Esse sentimento desaparecera havia muito tempo. Era porque o que ele dizia parecia certo. Que sentido faria chamar atenção para o fato de que um bando de novos vampiros dominava Seattle e fazia dela seu território de caça? Como isso poderia nos ajudar?
Eu nem mesmo acreditava em vampiros antes de me tornar uma. Se o restante do mundo não acreditava em vampiros, quer dizer que os outros da espécie deviam estar caçando com bom senso, como Riley nos dizia para fazer. E eles provavelmente tinham uma boa razão para isso.
E, como Diego dissera, caçar com bom senso só exige um pouco de inteligência e paciência.
É claro que todos nós cometíamos muitos deslizes; Riley lia os jornais, resmungava e gritava conosco e quebrava coisas — como o videogame favorito de Raoul. Então, Raoul ficava furioso e descontava a raiva queimando um de nós. Riley ficava ainda mais furioso e fazia outra revista para confiscar todos os isqueiros e fósforos. Algumas rodadas mais, e Riley trazia para casa outro punhado de garotos vampirizados, gente da escória que ele colocava no lugar daqueles que perdera. Era um ciclo infinito.
Diego puxou o ar pelo nariz — uma inspiração profunda, longa — e eu vi a postura dele mudar. Ele se abaixou no telhado, uma das mãos agarrada à beirada. Toda aquela estranha simpatia havia desaparecido — ele agora era um predador.
Isso era algo que eu reconhecia, algo com que me sentia confortável. Porque isso eu entendia.
Desliguei meu cérebro. Era hora de caçar. Respirei fundo, inalando o odor do sangue no corpo das pessoas lá embaixo. Não eram os únicos humanos por perto, mas eram os mais próximos. Quem você caça é o tipo de decisão que se deve tomar antes de farejar a presa. Agora já era tarde demais para fazer qualquer escolha.
Diego saltou do telhado, fora do campo de visão das vítimas. Sua aterrissagem foi silenciosa demais para chamar a atenção da prostituta chorona, da prostituta distraída ou do cafetão zangado.
Um grunhido baixo escapou por entre meus dentes. Meu. O sangue era meu. O fogo ardia em minha garganta e eu não conseguia pensar em mais nada.
Saltei do telhado, atravessei a rua e aterrissei ao lado da loura que chorava. Podia sentir Diego atrás de mim, bem perto, por isso rosnei para ele, advertindo-o, enquanto agarrava a garota de surpresa pelo cabelo. Eu a puxei para a parede do beco e encostei minhas costas nos tijolos. Uma posição defensiva, só por precaução.
Depois esqueci completamente Diego, porque podia sentir o calor sob a pele da mulher, ouvir sua pulsação latejando bem perto da superfície.
Ela abriu a boca para gritar, mas meus dentes dilaceraram sua traqueia antes que algum som pudesse ser emitido. Ouvi o borbulhar de ar e sangue invadindo seus pulmões e os gemidos baixos que eu não conseguia controlar.
O sangue era morno e doce. Aplacava o fogo na minha garganta, acalmava o vazio corrosivo e persistente no meu estômago. Eu sugava e engolia, vagamente consciente de qualquer outra coisa.
Ouvi os mesmos sons vindos de Diego — ele escolhera o homem. A outra mulher estava inconsciente no chão. Nenhum deles tinha feito qualquer barulho. Diego era bom.
O problema com os humanos era que nunca havia neles sangue o bastante. Tive a impressão de que em poucos segundos a garota estava seca. Sacudi seu corpo flácido num gesto frustrado. Minha garganta já começava a arder novamente.
Joguei o corpo vazio no chão e me abaixei encostada na parede, imaginando se conseguiria agarrar a mulher inconsciente e me alimentar dela antes que Diego me alcançasse.
Ele já havia terminado com o homem, e me olhou com uma expressão que eu só poderia descrever como... solidária. Mas eu podia estar mortalmente errada. Não me lembrava de ninguém me tratando com solidariedade antes, por isso não tinha muita certeza de como ela se manifestava.
— Vá em frente — ele disse, indicando a mulher caída no chão.
— Está brincando?
— Não, estou bem, por enquanto. Temos tempo para caçar mais um pouco hoje à noite.
Estudando-o atentamente para tentar identificar algum sinal de trapaça, eu me atirei sobre a mulher. Diego não tentou me impedir. Ele virou um pouco de lado e olhou para o céu escuro.
Enterrei os dentes no pescoço dela, mantendo os olhos nele. Era ainda melhor que a outra. Seu sangue era inteiramente limpo. O sangue da garota loura tinha um sabor amargo que sugeria o uso de drogas — eu estava tão acostumada a isso que quase nem notava. Era raro conseguir sangue limpo, porque eu seguia as regras sobre caçar a escória. Diego parecia seguir as regras também. Ele certamente farejara a boa presa de que abrira mão.
Por que tinha feito isso?
Quando o segundo corpo ficou vazio, senti minha garganta melhor. Havia muito sangue no meu organismo. Provavelmente, eu não sentiria o ardor por alguns dias.
Diego ainda esperava, assobiando baixo por entre os dentes. Quando larguei o corpo no chão com um baque, ele me olhou e sorriu.
— Obrigada — eu disse.
Ele moveu a cabeça em sentido afirmativo.
— Você parecia precisar mais que eu. Ainda lembro como é difícil no começo.
— Fica mais fácil depois?
Ele encolheu os ombros.
— Em alguns aspectos.
Nós nos entreolhamos por um segundo.
— Por que não jogamos esses corpos na enseada? — ele sugeriu.
Eu me abaixei, peguei o corpo da loura e o joguei sobre o ombro. Ia pegar a outra também, mas Diego foi mais rápido que eu, e já carregava também o corpo do cafetão.
— Peguei — ele disse.
Eu o segui parede acima no beco, e depois saltamos entre as vigas que sustentavam a via expressa. A luz dos faróis dos carros não nos atingia. Pensei em como as pessoas eram estúpidas, em como não enxergavam, e me senti feliz por não ser um dos ignorantes.
Escondidos na escuridão, seguimos nosso caminho até um píer vazio, fechado àquela hora da noite. Diego não hesitou ao chegar à extremidade da passarela de concreto, apenas saltou e desapareceu na água, levando sua carga. Eu o segui.
Ele nadava com a velocidade e a agilidade de um tubarão, mergulhando mais fundo e mais longe na escuridão silenciosa. De repente, ele parou ao encontrar o que estava procurando — uma larga plataforma coberta de lodo no fundo do oceano, com estrelas-do-mar e lixo presos nas laterais. Devíamos estar a mais de trinta metros de profundidade; para um humano, a escuridão ali seria completa. Diego soltou os corpos. Eles oscilavam suavemente na correnteza enquanto ele enfiava as mãos na areia lamacenta na base da plataforma de pedra. Depois de um segundo, encontrou uma alça e puxou a plataforma para cima. O peso da pedra o fez submergir até a cintura na areia escura do fundo do mar.
Ele olhou para cima e fez um gesto com a cabeça.
Eu nadei até ele, levando os corpos com uma das mãos. Empurrei a loura para o buraco sob a pedra, depois empurrei a outra mulher e, finalmente, o cafetão. Pisei os corpos sem muita violência, só para ter certeza de que estavam dentro do buraco, e então saí do caminho. Diego deixou cair a plataforma. Ela balançou um pouco, se ajustando à nova base irregular. Em seguida, ele sacudiu os pés até se livrar do lodo, nadou para cima da pedra e a empurrou para o fundo, achatando tudo o que estava embaixo dela.
Diego se afastou alguns metros para analisar o resultado.
Perfeito, eu movi os lábios. Aqueles três corpos jamais voltariam à superfície. Riley jamais ouviria uma história sobre eles no noticiário.
Ele sorriu e estendeu a mão.
Levei um minuto para entender que ele queria que eu batesse em sua mão aberta. Hesitante, nadei até chegar mais perto dele e aceitei o cumprimento, depois me afastei, abrindo uma boa distância entre nós.
Diego ficou com uma expressão estranha no rosto e, depois de um segundo, subiu para a superfície como uma bala.
Eu o segui com a mesma rapidez, confusa. Quando emergi, ele estava quase sufocando de tanto rir.
— O que foi?
Ele não conseguiu responder de imediato. Finalmente, entre uma gargalhada e outra, disse:
— Foi o pior cumprimento que já vi!
Eu funguei, irritada.
— Não dava para saber se você não ia arrancar meu braço ou coisa parecida.
Diego bufou.
— Eu não faria isso.
— Qualquer outro faria — retruquei.
— É verdade — concordou ele, repentinamente sério. — Pronta para caçar mais um pouco?
— Precisa perguntar?
Saímos da água sob uma ponte e tivemos a sorte de encontrar na mesma hora dois sem-teto dormindo em sacos de dormir imundos sobre um colchão de jornais velhos. Nenhum dos dois acordou. Ambos tinham no sangue o sabor azedo do álcool, mas isso era melhor que nada. Nós também os enterramos na enseada, sob outra pedra.
— Bem, estarei saciado por algumas semanas — Diego anunciou quando saímos da água novamente e ficamos parados em um velho píer vazio, pingando.
Eu suspirei.
— Acho que essa parte é mais fácil, não é? Eu vou sentir o ardor novamente em dois dias. E Riley provavelmente vai me mandar sair de novo com mais mutantes do Raoul.
— Posso sair com você, se quiser. Riley me deixa fazer quase tudo o que quero.
Pensei na oferta, desconfiada por um segundo. Mas Diego realmente não parecia ser como os outros. Eu me sentia diferente com ele. Como se não precisasse me preocupar tanto em proteger minha retaguarda.
— Seria bom — admiti.
Foi estranho dizer isso. Como se a declaração de algum modo me tornasse muito vulnerável ou coisa parecida. Mas Diego respondeu apenas “legal” e sorriu para mim.
— Por que Riley permite que você tenha tanta liberdade? — perguntei, especulando sobre que tipo de relacionamento havia entre eles.
Quanto mais tempo passava com Diego, menos conseguia imaginá-lo íntimo de Riley. Diego era tão... simpático. Não era nada parecido com Riley. Mas podia ser algo do tipo “os opostos se atraem”.
— Riley sabe que pode confiar em mim para limpar minha sujeira. Falando nisso, você se importa de irmos resolver uma coisinha rápida?
Eu estava começando a me divertir com aquele garoto estranho. E estava curiosa sobre ele. Queria ver o que ia fazer.
— É claro que não — eu disse.
Ele correu pelo píer para a estrada paralela ao litoral. Eu fui atrás dele. Percebi o cheiro de alguns humanos, mas sabia que estava muito escuro e que estávamos longe demais para que eles nos vissem.
Diego preferiu se deslocar por cima dos telhados novamente. Depois de alguns saltos, reconheci meu cheiro e o dele. Ele refazia o caminho que havíamos percorrido antes.
Voltamos à primeira rua escura onde Kevin e o outro garoto haviam cometido a estupidez com o carro.
— É inacreditável — Diego grunhiu.
Kevin e companhia haviam partido pouco antes, aparentemente. Dois outros carros estavam empilhados sobre o primeiro e um punhado de espectadores e transeuntes fora adicionado à contagem dos corpos. Os policiais ainda não haviam chegado, porque qualquer pessoa que pudesse denunciar a carnificina já estava morta.
— Ajude-me a dar um jeito nisso aqui — Diego pediu.
— Tudo bem.
Descemos do telhado, e Diego arrumou rapidamente a pilha de carros de outro jeito, criando a impressão de que haviam colidido, em vez de ter sido empilhados por um bebê gigante fazendo birra. Peguei os dois corpos secos e sem vida abandonados no meio da rua e os enfiei no ponto onde, aparentemente, ocorrera a colisão.
— Acidente terrível — comentei.
Diego sorriu com sarcasmo. Usando um isqueiro que tirou de um saco plástico em seu bolso, ele começou a atear fogo às roupas das vítimas. Eu peguei meu isqueiro — Riley os devolvia quando saíamos para caçar; e Kevin deveria ter usado o dele — e me dediquei a incendiar o estofamento. Os corpos, secos e contaminados pelo veneno inflamável, queimaram rapidamente.
— Afaste-se — Diego me preveniu, e eu vi que ele havia removido a tampa do tanque de combustível do primeiro automóvel.
Pulei para a parede mais próxima e me empoleirei para observar. Ele recuou alguns passos e riscou um fósforo. Com pontaria perfeita, arremessou-o no pequeno buraco. No mesmo instante, saltou e aterrissou ao meu lado.
O estrondo da explosão sacudiu a rua inteira. Luzes começaram a se acender a partir da esquina.
— Bom trabalho — comentei.
— Obrigado pela ajuda. Vamos voltar para a casa do Riley?
Eu franzi a testa. A casa de Riley era o último lugar onde eu gostaria de passar o resto da noite. Não queria ver o rosto estúpido de Raoul nem ouvir os gritos e as brigas constantes. Não queria ter de ranger os dentes e me esconder atrás do Freaky Fred para as pessoas me deixarem em paz. E eu não tinha mais nenhum livro.
— Temos algum tempo — Diego comentou, lendo minha expressão. — Não precisamos voltar agora.
— Queria ter alguma coisa para ler.
— E eu queria ter novas músicas. — Ele sorriu. — Vamos fazer compras.
Nós nos movemos rapidamente pela cidade — outra vez por cima de telhados e depois correndo pelas ruas escuras, quando os prédios ficaram muito distantes uns dos outros — até uma região menos inóspita. Não demoramos muito a encontrar uma área comercial com uma loja de uma grande cadeia de livrarias. Arrebentei a tranca do acesso pelo telhado e nós entramos. A loja estava vazia, e só havia alarmes nas janelas e nas portas. Fui diretamente para o corredor H, enquanto Diego ia para a seção musical no fundo da loja. Eu havia terminado de ler Hale. Peguei os doze livros seguintes na prateleira; isso me ocuparia por uns dois dias.
Olhei em volta procurando por Diego, e o vi sentado em uma das mesas do café, estudando as capas de seus novos CDs. Depois de um instante, fui me juntar a ele.
Aquilo me causava uma sensação estranha, porque era familiar de um jeito desconfortável, assustador. Eu havia me sentado daquele jeito antes, diante de alguém, com uma mesa entre nós. Havia conversado com alguém de modo espontâneo, pensando em coisas que não eram vida e morte ou sede e sangue. Mas isso tinha sido em outro tempo, em uma vida diferente, turva.
Na última vez que me sentara à mesa com alguém, essa pessoa foi Riley. Era difícil lembrar aquela noite, por várias razões.
— Então, como nunca notei você pela casa? — Diego perguntou de repente. — Onde se esconde?
Eu ri e fiz uma careta irônica ao mesmo tempo.
— Normalmente fico atrás do Freaky Fred, onde ele estiver.
Ele torceu o nariz.
— Sério? Como você aguenta?
— A gente se acostuma. Estar atrás dele não é tão ruim quanto na frente. De qualquer forma, foi o melhor esconderijo que encontrei. Ninguém chega perto de Fred.
Diego balançou a cabeça, concordando comigo, ainda com cara de nojo.
— É verdade. É um jeito de continuar vivo.
Eu encolhi os ombros.
— Sabia que Fred é um dos preferidos de Riley? — Diego perguntou.
— É mesmo? Como?
Ninguém suportava o Freaky Fred. Eu era a única que havia tentado, e só por uma questão de autopreservação.
Diego se debruçou sobre a mesa, aproximando-se de mim com ar de conspirador. Eu já estava tão acostumada com seu jeito estranho que nem me abalei.
— Eu o ouvi falando ao telefone com ela.
Senti um arrepio.
— Eu sei — ele continuou, voltando ao tom solidário. É claro, não era estranho que pudéssemos ser solidários uns com os outros quando se tratava dela.
— Foi há alguns meses. Riley falava sobre Fred e estava todo animado. Pelo que consegui entender do que ele dizia, acho que alguns vampiros são capazes de fazer coisas. Coisas além do que os vampiros normais podem fazer. E isso é bom, é algo que ela está procurando. Vampiros com habilidadezzz.
Ele enfatizou o som de “z”, para que eu entendesse como ele soletrava a palavra.
— Que tipo de habilidades?
— Todo tipo de coisa, pelo que entendi. Ler pensamentos, rastrear pessoas e até ver o futuro.
— Mentira!
— Estou falando sério. Acho que Fred repele as pessoas de maneira proposital. Tudo está só na nossa cabeça. Ele nos faz sentir repulsa pela ideia de chegar perto dele.
Eu franzi a testa.
— E como isso pode ser bom?
— Serve para mantê-lo vivo, não serve? E parece que mantém você viva também.
Eu concordei com a cabeça.
— É, acho que sim. Ele falou sobre mais alguém?
Tentei pensar em qualquer coisa estranha que tivesse visto ou ouvido, mas Fred era único. Os palhaços na rua aquela noite, fingindo ser super-heróis, não fizeram nada que qualquer um de nós não pudesse fazer.
— Ele falou sobre Raoul — contou Diego, os cantos da boca curvados para baixo.
— E que habilidade ele tem? Superestupidez?
Diego bufou.
— Sim, definitivamente. Mas Riley acredita que ele tem algum tipo de magnetismo; as pessoas são atraídas por ele e o seguem.
— Só as mentalmente perturbadas.
— É, Riley falou nisso. Não parecia funcionar com os — ele fez uma imitação muito boa da voz de Riley — garotos mais domesticados.
— Domesticados?
— Deduzi que ele se referia a pessoas como nós, que conseguem pensar de vez em quando.
Não gostei de ser chamada de domesticada. Não parecia algo positivo quando era colocado dessa maneira. O modo como Diego colocava aquilo fazia soar melhor.
— Era como se houvesse uma razão para Riley precisar de Raoul na liderança. Algo que vem por aí, eu acho.
Um arrepio estranho percorreu minhas costas quando ele disse isso, e eu me sentei mais ereta.
— Como o quê?
— Nunca pensou sobre por que Riley está sempre atrás de nós com essa história de sermos discretos?
Eu hesitei por meio segundo antes de responder. Essa não era a linha de questionamento que eu teria esperado do braço direito de Riley. Era quase como se ele estivesse questionando o que Riley nos dissera. A menos que Diego estivesse fazendo essas perguntas por Riley, como um espião. Tentando descobrir o que os “garotos” pensavam sobre ele. Mas não parecia isso. Os olhos vermelhos e escuros de Diego eram francos, confidentes. E por que Riley iria se importar? Talvez o que os outros diziam sobre Diego não se baseasse em nada verdadeiro. Era só fofoca.
Respondi com sinceridade.
— Na verdade, eu estava pensando exatamente nisso.
— Não somos os únicos vampiros no mundo — Diego declarou em tom solene.
— Eu sei. Às vezes Riley diz isso. Mas não pode haver tantos assim. Quer dizer, não teríamos notado antes?
Diego fez que sim com a cabeça.
— É o que eu penso também. E por isso é tão esquisito que ela continue criando mais de nós, não acha?
Eu franzi a testa.
— Hum. Porque não é como se Riley realmente gostasse de nós ou algo desse tipo... — Fiz outra pausa, esperando para ver se ele ia me contradizer. Diego não discordou. Ele só esperou, balançando levemente a cabeça para demonstrar que concordava, e eu continuei: — E ela nem se apresentou. Você tem razão. Eu não tinha pensado por esse lado. Quer dizer, eu nem tinha pensado nisso. Mas, afinal, eles nos querem para quê?
Diego levantou uma sobrancelha.
— Quer ouvir o que eu acho?
Eu movi a cabeça positivamente, com ar cansado, tenso. Mas minha ansiedade não tinha nada a ver com ele.
— Como eu disse, algo está por vir. Acho que ela quer proteção e incumbiu Riley de criar a linha de frente.
Pensei nisso e senti outro arrepio nas costas.
— Por que eles não nos contariam? Não devíamos estar, sei lá, de prontidão ou algo parecido?
— Isso faria sentido — Diego concordou.
Nós nos olhamos em silêncio por segundos que pareceram muito longos. Eu não tinha mais nada a acrescentar, e ele, aparentemente, também não.
Finalmente, eu sorri e disse:
— Não sei se acredito nisso, nessa parte sobre Raoul ser bom em alguma coisa.
Diego riu.
— É difícil rebater esse argumento. — Em seguida ele olhou pelas janelas para a madrugada escura lá fora. — Nosso tempo está acabando. É melhor voltarmos ou vamos virar torrada.
Ashes, ashes, we all fall down — eu cantei baixinho enquanto me levantava e pegava minha pilha de livros.
Diego riu.
Fizemos mais uma rápida parada no caminho — invadimos a loja vizinha, também vazia, e apanhamos sacos plásticos e duas mochilas. Embrulhei os livros em dois sacos. Páginas manchadas e enrugadas pela umidade me aborrecem.
Voltamos à enseada, percorrendo quase todo o caminho sobre os telhados. O céu começava a se tingir de um cinza mais claro no leste. Entramos na água bem debaixo do nariz de dois vigias distraídos, perto da balsa — para sorte deles eu estava satisfeita, senão a proximidade teria sido demais para o meu autocontrole —, e depois apostamos corrida pela água lamacenta de volta à casa de Riley.
No início eu não sabia que era uma corrida. Só nadava depressa porque o céu ia ficando mais e mais claro. Eu não costumava desafiar o tempo dessa maneira. Para ser bem honesta comigo mesma, eu me transformara numa perfeita vampira nerd. Seguia as regras, não causava problemas, convivia com os garotos menos populares do grupo e sempre voltava cedo para casa.
Mas então Diego realmente acelerou. Ele se adiantou alguns metros, olhou para trás sorrindo e disse:
— O que foi, não consegue me acompanhar?
E voltou a nadar.
Isso era algo que eu não ia aturar. Não conseguia lembrar se era competitiva antes — tudo parecia muito distante e sem importância —, mas talvez fosse, porque reagi imediatamente ao desafio. Diego era um bom nadador, mas eu era mais forte, especialmente depois de me alimentar.
Até mais, movi a boca ao passar por ele, mas não sabia ao certo se ele vira.
Eu o perdi de vista na água escura e não desperdicei tempo olhando para trás para checar quanto tinha de vantagem. Apenas nadei até alcançar a extremidade da ilha onde ficava a nossa casa mais recente. A anterior fora uma grande cabana no meio do nada em Snowville, na encosta de uma montanha qualquer das Cascades. Como a última, a casa atual era isolada, tinha um grande porão, e os proprietários haviam morrido recentemente.
Nadei até bem perto da praia de cascalho e enterrei os dedos na areia grossa para me levantar. Ouvi Diego saindo da água quando eu agarrava o tronco inclinado de um pinheiro e me balançava, tomando impulso para chegar ao alto do penhasco.
Duas coisas chamaram minha atenção quando meus pés aterrissaram suavemente. Uma: estava claro. Duas: a casa havia sumido.
Bem, não inteiramente. Parte dela ainda estava visível, mas o espaço antes ocupado pela casa estava vazio. O telhado havia desabado num emaranhado de madeira preta destroçada e agora parecia mais baixo do que o que antes fora a porta.
O sol se erguia depressa. Os pinheiros negros começavam a se tingir de verde. Logo as pontas mais claras se destacariam na penumbra, e nesse momento eu estaria morta.
Realmente morta, ou o que quer que fosse. Essa segunda vida de super-heroína sedenta terminaria numa súbita explosão de chamas. E eu só podia pensar que a explosão seria muito, muito dolorosa.
Essa não era a primeira vez que eu via nossa casa destruída — com todas as brigas e o fogo no porão, algumas delas haviam durado apenas poucas semanas —, mas era a primeira vez que eu chegava à cena da destruição com os primeiros raios pálidos de sol surgindo ameaçadores.
Engoli uma exclamação de surpresa quando Diego aterrissou ao meu lado.
— Talvez se corrermos para baixo dos escombros do telhado — sussurrei. — Seria suficientemente seguro ou...?
— Não entre em pânico, Bree — Diego disse com a voz muito calma. — Eu conheço um lugar. Vamos.
Ele saltou de costas e com muita elegância da beirada do penhasco.
Eu não acreditava que a água fosse suficiente para bloquear o sol. Será que submersos não queimaríamos? O plano me parecia bem ruim.
Porém, em vez de ir me esconder sob os escombros da casa, mergulhei do penhasco atrás dele. Eu não sabia se meu raciocínio estava certo, e essa era uma sensação estranha. Normalmente, eu fazia sempre a mesma coisa — seguia a rotina, agia como era sensato.
Alcancei Diego na água. Ele apostava corrida novamente, mas dessa vez não era uma bobagem. Ele corria contra o sol.
Diego contornou um ponto da pequena ilha e depois mergulhou fundo. Fiquei surpresa por ele não bater no chão rochoso da enseada, e ainda mais surpresa quando senti uma corrente de água mais quente fluindo do que eu pensara ser só um afloramento de pedra.
Diego fora esperto ao escolher um lugar como aquele. É claro que não seria nada divertido ficar sentada em uma caverna embaixo d’água o dia inteiro — não respirar se tornava irritante depois de algumas horas —, mas era melhor que explodir em cinzas. Eu deveria pensar como Diego. Pensar em alguma outra coisa que não fosse sangue, quero dizer. Deveria estar preparada para o inesperado.
Diego continuou nadando por uma fenda estreita entre as rochas. Era escuro, preto como tinta. Seguro. Eu não podia mais nadar — era muito apertado —, por isso me arrastei como Diego, escalando o espaço retorcido. Esperava que ele parasse, mas ele seguia adiante. De repente percebi que estávamos subindo. E então ouvi Diego irromper na superfície.
Emergi meio segundo depois.
A caverna não era mais que um pequeno buraco, uma cova mais ou menos do tamanho de um fusca, embora não tão alta. Um segundo vão levava à parte de trás, e eu podia sentir o ar fresco vindo daquela direção. Vi a forma dos dedos de Diego replicada muitas vezes na textura das paredes de calcário.
— Belo lugar — eu disse.
Diego sorriu.
— Melhor que ficar atrás do Freaky Fred.
— Não tenho como contestar isso. Ah... Obrigada.
— De nada.
Nós nos olhamos no escuro por um minuto. O rosto dele estava calmo, relaxado. Com qualquer pessoa, Kevin, Kristie ou um dos outros, aquilo teria sido aterrorizante — o espaço apertado, a proximidade forçada. Poder sentir o cheiro dele ao meu redor. Isso poderia ter significado uma morte rápida e dolorosa, a qualquer momento. Mas Diego era controlado. Diferente de todos os outros.
— Quantos anos você tem? — ele perguntou de repente.
— Três meses. Já disse.
— Não foi isso que eu quis dizer. Quantos anos você tinha? Acho que é a maneira mais correta de perguntar.
Eu me afastei um pouco, desconfortável, quando percebi que ele falava sobre coisas humanas. Ninguém falava sobre isso. Mas eu também não queria encerrar a conversa. Conversar era algo novo e diferente. Hesitei, e ele esperou com uma expressão curiosa.
— Eu tinha 15, acho. Quase 16. Não consigo lembrar o dia... já tinha feito aniversário? — Tentei pensar nisso, mas aquelas últimas semanas de fome eram uma grande confusão, e tentar entendê-las me dava dor de cabeça. Desisti. — E você?
— Eu tinha acabado de completar 18 — Diego revelou. — Estava tão perto!
— Perto do quê?
— De sair — ele respondeu, mas não continuou.
Houve um silêncio breve e estranho, e depois ele mudou de assunto.
— Você tem se saído muito bem desde que chegou — ele comentou, o olhar avaliando os meus braços cruzados, as pernas encolhidas. — Sobreviveu... Evitou atrair atenção indesejável, e se manteve intacta.
Eu encolhi os ombros e levantei a manga esquerda da camiseta, mostrando a linha fina e irregular que contornava meu braço.
— Foi arrancado uma vez — contei. — Consegui pegá-lo de volta antes que Jen o torrasse. Riley me mostrou como colocá-lo no lugar rapidamente.
Diego sorriu de lado e tocou o joelho direito com um dedo. O jeans escuro encobria a cicatriz que devia existir ali.
— Acontece com todo mundo.
— Ai — eu disse.
Ele assentiu.
— É sério. Mas, como eu dizia antes, você é uma vampira bem decente.
— Devo agradecer?
— Estou só pensando alto, tentando entender algumas coisas.
— Que coisas?
Ele franziu um pouco a testa.
— O que está acontecendo realmente. O que Riley está tramando. Por que continua levando para ela os garotos mais diferentes. Por que não tem importância para ele que seja alguém como você ou alguém como o idiota do Kevin.
Aparentemente, ele não conhecia Riley melhor que eu.
— Como assim alguém como eu? — perguntei.
— Você é o tipo que Riley deveria estar procurando: o tipo esperto, e não aqueles estúpidos meninos de gangue que Raoul insiste em trazer. Aposto que não era uma drogada quando era humana.
Eu me mexi com certo desconforto ao ouvir a última palavra. Diego continuava esperando por minha resposta, como se não tivesse dito nada fora do normal. Respirei fundo e pensei no passado.
— Estive bem perto disso — confessei depois que ele me observou pacientemente por alguns segundos. — Não era uma viciada ainda, mas seria em uma questão de semanas... — Encolhi os ombros. — Sabe, não me lembro de muita coisa, mas lembro que pensava não haver nada mais poderoso neste planeta do que a boa e velha fome. Descobri que a sede é pior.
Ele riu.
— Somos dois.
— E você? Não era um adolescente fugitivo e perturbado como todos nós?
— Ah, eu era perturbado, sim. — Ele parou de falar.
Mas eu também podia ficar ali sentada esperando por respostas a perguntas inadequadas. E fiquei olhando para ele.
Diego suspirou. Seu hálito era agradável. Todo mundo tinha um cheiro adocicado, mas Diego tinha algo mais — um tempero, algo parecido com canela ou cravo-da-índia.
— Tentava me manter afastado de toda essa porcaria. Estudava muito. Ia sair do gueto, sabe? Ia para a faculdade. Ser alguém. Mas tinha um cara, não muito diferente de Raoul. Seguir sua lei ou morrer, esse era seu lema. Eu não queria uma coisa nem outra, por isso ficava longe do grupo que ele liderava. Era cuidadoso. E me mantive vivo. — Ele parou, fechando os olhos.
Eu ainda não estava satisfeita.
— E?
— Meu irmão mais novo não teve o mesmo cuidado.
Eu ia perguntar se o irmão havia seguido a lei do tal cara ou morrido, mas a expressão no rosto dele tornou a pergunta desnecessária. Desviei o olhar, sem saber o que dizer. Eu não era capaz de entender realmente aquela perda, a dor tão evidente que ainda causava nele. Não deixara para trás nada que ainda me fizesse falta. Seria essa a diferença? Por isso ele insistia nas lembranças que todos nós evitávamos?
Ainda não tinha entendido como Riley entrava nessa história. Riley e o cheeseburger da dor. Eu queria saber, mas me sentia mal por ter pressionado Diego a me dar uma resposta.
Satisfazendo a minha curiosidade, depois de um minuto ele continuou:
— Eu perdi o controle. Roubei a arma de um amigo e saí caçando. — Sua risada soou sombria. — Naquele tempo não era tão bom nisso. Mas peguei o cara que matou meu irmão antes que me pegassem. O restante da gangue me encurralou em um beco. Então, de repente, Riley estava lá, entre mim e eles. Eu me lembro de ter pensado que ele era o sujeito mais branco que eu já tinha visto. Riley nem olhou para os outros quando atiraram nele. Era como se as balas fossem mosquitos. Sabe o que ele me disse? “Quer uma vida nova, garoto?”
— Hah! — Eu ri. — Foi bem melhor com você. Comigo foi: “Quer um hambúrguer, garota?”
Eu ainda me lembrava da aparência de Riley naquela noite, embora a imagem fosse nublada, porque minha visão era terrível naquela época. Ele era o homem mais lindo que eu já tinha visto, alto, louro, perfeito em cada traço. Eu sabia que os olhos deviam ser lindos por trás dos óculos escuros que ele não chegava a tirar. E a voz era gentil, doce. Imaginei que já soubesse o que ele ia querer como pagamento pela refeição, e não teria negado. Não por ele ser lindo, mas porque eu não comia nada além de lixo havia duas semanas. Mas ele quis algo diferente do que eu imaginava.
Diego riu da história do hambúrguer.
— Você devia estar com muita fome.
— Pode apostar.
— E por que tanta fome?
— Porque fui estúpida e fugi antes de ter uma carteira de motorista. Não conseguia arrumar emprego e era péssima em roubar.
— Do que você estava fugindo?
Hesitei. As lembranças ficavam um pouco mais claras quando eu me concentrava nelas, mas não tinha certeza de querer essa nitidez.
— Ah, vai — ele me incentivou. — Eu contei a minha história.
— É, contou. Tudo bem. Eu estava fugindo do meu pai. Ele me batia muito. Devia fazer o mesmo com minha mãe, porque ela também foi embora. Eu era muito pequena quando ela fugiu... Não entendia muita coisa. A situação ficou pior. Comecei a pensar que se esperasse demais acabaria morta. Ele me dizia que se algum dia eu fugisse ia morrer de fome. E estava certo. Foi a única vez em que esteve certo, pelo menos com relação a mim. Não penso muito nisso.
Diego fez que sim com a cabeça, indicando que me entendia.
— É difícil lembrar essas coisas, não é? Fica tudo muito escuro, confuso.
— É como tentar enxergar com lama nos olhos.
— Boa comparação — elogiou ele, apertando os olhos como se tentasse me enxergar e esfregando as pálpebras com a mão.
Rimos juntos novamente. Estranho.
— Não acho que tenha dado risada com alguém desde que conheci Riley — ele comentou, ecoando meus pensamentos. — Isso é bom. Você é legal. Não é como os outros. Já tentou conversar com um deles?
— Não, nunca.
— Não está perdendo nada. E é esse o meu ponto. O padrão de vida de Riley não seria um pouco melhor se ele se cercasse de vampiros decentes? Se deveríamos garantir a proteção dela, não seria mais lógico procurar os mais espertos?
— Sendo assim, Riley não precisa de qualidade — arrisquei. — Precisa de quantidade.
Diego pensou no que eu disse.
— É como xadrez. Ele não tem reis nem bispos.
— Somos só peões — eu me dei conta.
Nós nos olhamos novamente por um longo instante.
— Não quero pensar nisso — Diego declarou.
— Então, o que vamos fazer? — perguntei, usando o plural instintivamente, como se já fôssemos uma equipe.
Diego pensou na minha pergunta por um segundo, aparentemente incomodado, e eu me arrependi do plural. Mas, em seguida, ele disse:
— O que podemos fazer quando não sabemos o que está acontecendo?
Ele não estava incomodado com a coisa da equipe, o que me fez sentir bem de verdade. Bem como eu não me lembrava de ter me sentido antes. Nunca.
— Acho que devemos ficar de olhos abertos, prestar atenção, tentar entender.
Ele assentiu.
— Precisamos pensar em tudo o que Riley nos disse, em tudo o que ele fez. — Ele parou pensativo. — Sabe, tentei conversar sobre isso com Riley uma vez, mas ele não me deu a menor atenção. Disse que devia me preocupar com coisas mais importantes, como a sede. E sede era tudo em que eu conseguia pensar naquele momento, é claro. Ele me mandou sair para caçar, e eu não me preocupei mais...
Observei enquanto ele pensava em Riley, seus olhos sem foco, voltados para dentro, para as memórias, e refleti. Diego era meu primeiro amigo nessa vida, mas eu não era sua primeira amiga.
De repente o foco era eu.
— Então, o que temos sobre Riley?
Eu me concentrei, repassando mentalmente os últimos três meses.
— Ele não fala muito, você sabe. Só revela o básico sobre ser vampiro.
— Vamos ter que prestar mais atenção.
Ficamos sentados em silêncio, ponderando. Eu pensava principalmente em quanto não sabia. E por que não me preocupava com tudo o que não sabia antes? Era como se conversar com Diego tivesse esclarecido meus pensamentos. Pela primeira vez em três meses, sangue não era o centro das minhas atenções.
O silêncio se estendeu por um tempo. A abertura por onde eu sentira o ar fresco passando para o interior da caverna não estava mais escuro. Agora era de um cinza carregado e ia se tornando minimamente mais claro a cada segundo. Diego notou que eu olhava nervosa para lá.
— Não se preocupe — ele disse. — Uma luz fraca penetra aqui nos dias ensolarados. Não vai nos ferir. — Ele deu de ombros.
Eu me aproximei mais da abertura no chão, por onde a água desaparecia à medida que a maré baixava.
— É sério, Bree. Já estive aqui antes durante o dia. Falei com Riley sobre esta caverna e sobre como ela fica cheia de água quase todo o tempo. Ele disse que era um lugar legal para quando eu quisesse sair da casa de doidos. Enfim, pareço ter sofrido queimaduras?
Eu hesitei, pensando em como o relacionamento dele com Riley era diferente do meu com Riley. As sobrancelhas dele se ergueram enquanto esperava por uma resposta.
— Não — eu disse afinal. — Mas...
— Veja — ele me interrompeu impaciente. Rastejou rapidamente pelo túnel e enfiou o braço na abertura até a altura do ombro. — Nada.
Fiz que sim com a cabeça uma única vez.
— Relaxe! Quer que eu veja até onde posso ir? — Enquanto falava, ele enfiou a cabeça na abertura e começou a subir.
— Não, Diego. — Ele já estava fora do meu campo de visão. — Estou tranquila, juro.
Ele ria, e o som me deu a impressão de que já estava vários metros acima no túnel. Queria ir atrás dele, segurar seu pé e puxá-lo de volta, mas estava paralisada pela tensão. Seria estupidez arriscar a vida para salvar um estranho. Mas eu não tinha nada que se aproximasse de um amigo desde... sempre. Já era difícil pensar em voltar a não ter ninguém com quem conversar depois de uma única noite.
No estoy quemando — ele disse lá de cima em tom de deboche. — Espere... isso é...? Oh!
— Diego?
Atravessei a caverna em um salto e enfiei a cabeça no túnel. Seu rosto estava bem ali, a centímetros do meu.
— Bu!
Eu recuei — só um reflexo, um antigo hábito.
— Engraçadinho — disse secamente, afastando-me enquanto ele voltava ao interior da caverna.
— Precisa relaxar, garota. Eu já olhei tudo aqui, certo? A luz do sol não fere quando é indireta.
— Então está dizendo que posso simplesmente ficar embaixo de uma boa árvore e me sentir bem?
Ele hesitou por um minuto, como se tentasse decidir se me dizia ou não alguma coisa, e depois revelou em voz baixa:
— Já fiz isso uma vez.
Eu o encarei e esperei pela risada. Porque era uma piada.
Mas ele não riu.
— Riley disse... — comecei, mas parei antes de terminar a frase.
— Sim, eu sei o que Riley disse. Talvez ele não saiba tanto quanto afirma saber.
— Mas Shelly e Steve. Doug e Adam. Aquele garoto com o cabelo ruivo e brilhante. Todos eles. Todos desapareceram porque não voltaram a tempo. Riley viu as cinzas.
Diego franziu as sobrancelhas com uma expressão de infelicidade.
— Todos sabem que os vampiros antigos tinham de ficar em caixões durante o dia — continuei. — Para ficar longe do sol. Isso é de conhecimento geral, Diego.
— Você está certa. Todas as histórias dizem isso.
— Além do mais, o que Riley teria a ganhar nos mantendo o dia inteiro trancados em um porão à prova de luz, um grande caixão coletivo? Nós sempre destruímos o lugar, e ele tem que contornar todas as brigas, a confusão constante. Nada vai me convencer de que ele gosta disso.
Algo no que eu disse surpreendeu Diego. Ele ficou sentado com a boca aberta por um segundo, depois a fechou.
— O que é?
— Conhecimento geral — Diego repetiu. — O que os vampiros fazem o dia todo nos caixões?
— Ah... ah, bem, eles dormem, certo? Mas acho que eles ficam lá deitados e entediados, porque nós não... Tudo bem, essa parte está errada.
— Isso mesmo. Só que nas histórias eles não estão apenas dormindo, estão totalmente inconscientes. Não conseguem acordar. Um humano pode simplesmente se aproximar e cravar uma estaca nos vampiros sem nenhum problema. E essa é outra coisa. Estacas. Você realmente acha que alguém pode enfiar uma estaca em seu corpo?
Eu encolhi os ombros.
— Não tinha pensado nisso. Quer dizer, não, obviamente não um pedaço de madeira comum. Talvez madeira afiada tenha algum tipo de... Não sei. Propriedades mágicas ou coisa parecida.
Diego bufou impaciente.
— Ah, por favor...
— Bem, eu não sei. De qualquer maneira, não ficaria quieta se um humano tentasse me espetar com um cabo de vassoura pontudo.
Ainda com uma expressão contrariada, como se magia fosse algo realmente distante quando se é um vampiro, Diego ficou de joelhos e começou a cavar com as unhas o calcário sobre sua cabeça. Pequeninos fragmentos de pedra cobriam seus cabelos, mas ele os ignorava.
— O que está fazendo?
— Uma experiência.
Ele enterrou as duas mãos na rocha até conseguir ficar em pé e depois continuou subindo.
— Diego, se você chegar à superfície, vai explodir. Pare com isso.
— Não estou tentando... Ah, aqui está.
Houve um estalo alto e depois outro, mas nenhuma luz. Ele recuou até um ponto onde eu podia ver seu rosto e me mostrou o pedaço de raiz de árvore que tinha em uma das mãos, uma raiz branca, morta e seca sob a terra. A ponta quebrada era afiada, irregular. Ele a jogou na minha direção.
— Enfie isso em mim.
Eu a joguei de volta.
— Nem pensar.
— É sério. Você sabe que isso não pode me machucar.
Ele jogou de volta o pedaço de madeira; em vez de pegá-la, eu a rebati.
Ele agarrou a raiz no ar e resmungou:
— Você é tão... supersticiosa!
— Sou uma vampira. Se isso não é prova de que as pessoas supersticiosas estão certas, não sei o que é.
— Muito bem, eu mesmo faço.
Ele segurou o pedaço de madeira diante do corpo numa atitude dramática, o braço estendido como se empunhasse uma espada com a qual pretendia se transpassar.
— Ah, pare — eu disse, incomodada. — Isso é ridículo.
— É isso que estou dizendo. Não vai dar em nada.
Ele golpeou o peito com a estaca, bem no lugar onde seu coração deveria bater, com força suficiente para perfurar um bloco de granito. Eu fiquei totalmente paralisada pelo pânico até ele começar a rir.
— Devia ver sua cara, Bree.
Os pedaços da madeira quebrada caíram por entre seus dedos; a raiz estilhaçou-se no chão. Diego limpou a camisa com as mãos, embora ela estivesse castigada demais pela água e pelas escaladas e não fosse ficar muito melhor. Nós dois teríamos que roubar mais roupas na próxima vez que surgisse uma chance.
— Talvez seja diferente quando é um humano quem faz isso.
— E você se sentia assim tão mágica quando era humana?
— Não sei, Diego — respondi exasperada. — Não fui eu que inventei todas essas histórias.
Ele assentiu com a cabeça, repentinamente mais sério.
— E se as histórias forem exatamente isso? Inventadas?
Eu suspirei.
— Que diferença faz?
— Não sei. Mas se vamos pensar no motivo de estarmos aqui, em por que Riley nos trouxe para ela, em por que ela está criando mais como nós, temos que entender tudo o que for possível. — A testa dele estava franzida, e qualquer sinal de riso havia desaparecido de seu rosto.
Eu apenas o encarava. Não tinha respostas.
O rosto de Diego ganhou certa suavidade.
— Isso ajuda muito, sabe? Falar sobre o assunto. Ajuda a me dar foco.
— Também acho — concordei. — Não sei por que nunca pensei em tudo isso antes. Parece tão óbvio! Mas raciocinar... Não sei. É mais fácil manter a linha de pensamento.
— Exatamente. — Diego sorriu para mim. — Estou muito feliz por você ter vindo esta noite.
— Não me venha com essa conversa mole agora.
— O quê? Não quer ser... — ele estreitou os olhos e fez uma voz um pouco mais aguda — minha melhor amiga para sempre? — Ele mesmo riu da besteira que dizia.
Revirei os olhos, sem saber ao certo se ele debochava da expressão ou de mim.
— Ah, Bree. Seja minha melhor amiga para sempre. Por favor?
Diego ainda brincava, mas seu sorriso era mais largo e... esperançoso. Ele estendeu a mão.
Dessa vez eu bati na mão dele com vontade, cumprimentando-o de verdade, sem perceber que ele tinha outra intenção até que senti os dedos segurando os meus.
Era perturbador e esquisito tocar outra pessoa depois de uma vida inteira — porque os últimos três meses haviam sido toda a minha vida — evitando qualquer tipo de contato. Era como tocar um fio elétrico soltando faíscas e descobrir que não tinha problema nenhum nisso.
Tive a impressão de que meu sorriso saiu um pouco torto.
— Pode contar comigo.
— Excelente! Nosso clube particular.
— E muito exclusivo — acrescentei.
Ele ainda segurava minha mão. Não como num aperto, mas também não como se estivéssemos de mãos dadas.
— Precisamos de um cumprimento secreto.
— Você pode cuidar disso.
— Então, o clube supersecreto dos melhores amigos convoca uma reunião e, estando todos presentes, põe em pauta o cumprimento secreto, a ser decidido em outra data. — Ele continuou: — Primeira ordem do dia: Riley. Sem noção? Desinformado? Ou mentiroso?
Os olhos estavam fixos nos meus enquanto ele falava, olhos sinceros e atentos. E não houve nenhuma mudança quando ele disse o nome de Riley. Naquele instante, tive certeza de que não havia fundamento nas histórias sobre Riley e ele. Diego só estava por perto havia mais tempo que os outros, apenas isso. Eu podia confiar nele.
— Adicione mais um tópico à lista — completei. — Objetivo. Tipo, qual é a dele?
— Na mosca. Isso é exatamente o que precisamos descobrir. Mas, antes, outra experiência.
— Essa palavra me deixa nervosa.
— Confiança é parte essencial de toda essa história do clube secreto.
Ele se levantou no espaço adicional que abrira pouco antes e voltou a cavar. Um segundo depois, os pés balançavam no ar e ele se segurava com uma das mãos, cavando com a outra.
— Espero que esteja procurando alho — eu disse e recuei para o túnel que levava ao mar.
— Essas histórias não são reais, Bree — respondeu ele lá de cima.
Ele ergueu o corpo um pouco mais na abertura que escavava, provocando uma chuva de terra. Naquele ritmo, logo acabaria enchendo o esconderijo onde estávamos, ou o preencheria com luz, o que o tornaria ainda mais inútil.
Eu continuei recuando pelo canal de saída, apenas os olhos e os dedos do lado de fora. A água chegava apenas à altura do meu quadril. Eu não precisaria de mais do que um segundo para desaparecer na escuridão lá embaixo. E poderia passar um dia inteiro sem respirar.
Nunca havia sido muito fã de fogo. Talvez fosse por alguma lembrança da infância, alguma memória enterrada no inconsciente, ou talvez por algo mais recente. A transformação em vampiro implicara fogo mais que suficiente para mim.
Diego devia estar perto da superfície. Mais uma vez, me incomodou a ideia de perder meu novo e único amigo.
— Por favor, pare, Diego — murmurei, sabendo que ele provavelmente riria, sabendo que não me atenderia.
— Confiança, Bree.
Eu esperei, imóvel.
— Quase... — ele resmungou. — Tudo bem.
Fiquei tensa, esperando pela luz, pela faísca, ou pela explosão, mas Diego desceu de volta, e ainda estava escuro. Agora ele tinha na mão uma raiz ainda mais comprida, pontuda e dura, que era quase maior que eu. Ele me olhou com aquele ar de “eu disse”.
— Não sou uma pessoa completamente inconseqüente — ele falou. E apontou para a raiz com a mão livre. — Está vendo? Precaução.
Ao terminar sua declaração, ele cutucou a nova abertura com a raiz. Houve um último desmoronamento de pedregulhos e areia e Diego se jogou de joelhos, saindo do caminho. Então, um raio de luz brilhante — um raio da largura do braço de Diego — atravessou a escuridão da caverna. A luz desenhava uma coluna do teto ao chão, fazendo cintilar as partículas suspensas de poeira. Eu estava imóvel, agarrada à beirada do poço, pronta para me soltar e desaparecer.
Diego não se encolheu nem gritou de dor. Não havia cheiro de fumaça. A caverna estava cem vezes mais clara que antes, mas isso não parecia afetá-lo. Então, talvez aquela história sobre sombras e árvores fosse verdadeira. Eu observei com cautela enquanto ele se ajoelhava ao lado da coluna de luz, imóvel, apenas olhando fixamente. Diego parecia estar bem, mas havia uma mudança sutil em sua pele. Uma espécie de movimento, talvez da poeira assentando, refletindo a luminosidade. Tive a impressão de que ele brilhava um pouco.
Talvez não fosse a poeira. Talvez fosse a combustão. Talvez não doesse, e ele só perceberia quando fosse tarde demais...
Segundos se passaram enquanto olhávamos imóveis para a luz do dia.
Então, em um movimento que parecia ao mesmo tempo absolutamente esperado e completamente impensável, ele estendeu a mão com a palma voltada para cima e esticou o braço até o feixe de luz. Eu me movi mais depressa do que podia pensar, o que era bem rápido.
Empurrei Diego contra a parede do fundo da pequena caverna cheia de terra, antes que ele pudesse aproximar a mão da coluna da luz, a um centímetro dele, e expor sua pele.
O ambiente foi invadido por um clarão repentino, e no mesmo instante eu senti o calor em minha perna. Percebi que não havia espaço suficiente para manter Diego encostado na parede sem que alguma parte do meu corpo entrasse em contato com a luz.
— Bree! — ele exclamou.
Eu me virei instintivamente, e me espremi contra a parede. Tudo isso levou menos de um segundo, e nesse meio-tempo fiquei esperando pela dor. Esperei as chamas surgirem e se espalharem como na noite em que a conheci, porém mais depressa. O brilho ofuscante da luz havia desaparecido. Restava apenas aquela coluna de sol.
Olhei para o rosto de Diego e vi que seus olhos estavam arregalados, a boca aberta e o queixo caído. Ele estava completamente imóvel, um sinal certo de alarme. Eu queria olhar minha perna, mas tinha medo de ver o que restara dela. Não era como quando Jen arrancara meu braço, embora aquilo tivesse doído mais. Desta vez eu não teria como consertar o estrago.
Ainda não sentia nenhuma dor.
— Bree, você viu isso?
Fiz que não com a cabeça uma só vez, apressada.
— Está feio?
— Feio?
— Minha perna — eu disse por entre os dentes. — O que sobrou dela?
— Sua perna está bem.
Olhei para baixo rapidamente, e de fato lá estavam meu pé e minha canela, exatamente como antes. Mexi os dedos. Tudo bem.
— Está doendo? — ele indagou.
Eu me abaixei, ajoelhando-me no chão.
— Ainda não.
— Viu o que aconteceu? A luz?
Eu neguei com a cabeça.
— Veja isso — ele disse, ajoelhando-se diante do raio de sol. — E dessa vez não me empurre. Você já provou que eu estava certo.
Ele estendeu a mão. Dessa vez foi quase tão difícil de olhar quanto antes, mesmo sentindo minha perna e sabendo que ela estava inteira, normal.
No segundo em que os dedos de Diego encontraram o raio de luz, a caverna foi invadida por um milhão de reflexos brilhantes e coloridos, um verdadeiro arco-íris. A claridade era como a luz do meio-dia em uma sala de vidro — havia luz para todos os lados. Eu me encolhi e um tremor percorreu meu corpo. Estava completamente coberta pela luz do sol.
— Não pode ser — Diego sussurrou.
Ele pôs o restante da mão no feixe de luz, e a caverna tornou-se ainda mais radiante. Diego virou a mão para olhar o outro lado, e desvirou novamente. O movimento fazia os reflexos dançarem como se ele girasse um prisma.
Não havia cheiro de queimado e era evidente que ele não sentia dor. Olhei atentamente para a mão de Diego e tive a impressão de que havia um zilhão de minúsculos espelhos em sua pele, superfícies pequenas demais para serem distinguidas separadamente, todas refletindo a luz com o dobro da intensidade de um espelho regular.
— Venha, Bree. Você precisa experimentar...
Eu não conseguia pensar em um motivo para recusar o convite, e estava curiosa, mas também estava relutante ao me aproximar dele.
— Não arde?
— Nada. A luz não queima, apenas... é refletida por nós. Bem, acho que refletir é uma palavra amena demais para descrever o que estamos vendo.
Lenta como uma humana, estendi meus dedos com evidente indecisão em direção à luz. Imediatamente, os reflexos se espalharam em todas as direções partindo da minha pele, tornando a caverna tão brilhante que o dia lá fora chegava a parecer escuro. Mas não eram exatamente reflexos, porque a luz era fragmentada e colorida como um cristal. Coloquei a mão inteira na coluna de luz, e a caverna ficou ainda mais cintilante.
— Acha que Riley sabe? — murmurei.
— Talvez. Talvez não.
— Por que ele não contaria para nós, se soubesse? Qual seria o propósito de guardar segredo? Sim, somos como um globo de luz ambulante. — Encolhi os ombros.
Diego riu.
— Agora entendo de onde vieram as histórias. Imagine se você visse uma coisa dessas quando era humana. Não ia pensar que o sujeito havia simplesmente explodido em chamas?
— Se ele não continuasse por perto. Talvez.
— É incrível! — Diego comentou.
Com um dedo, ele traçou uma linha na palma da minha mão cintilante. Depois levantou-se e entrou inteiro no raio de luz, e todo o espaço à nossa volta virou uma explosão de brilho e luminosidade.
— Venha, vamos sair daqui. — Ele ergueu os braços e içou o corpo pela abertura que abrira na superfície.
Era de se esperar que eu já tivesse superado o choque inicial, mas ainda estava nervosa demais para segui-lo. Sem querer dar a impressão de que era uma grande covarde, fui junto, mas por dentro estava apavorada. Riley tinha mesmo nos convencido sobre queimarmos ao sol e, na minha cabeça, isso se remetia diretamente ao terrível período de ardor e queimação de quando me tornei uma vampira. E não conseguia evitar o pânico que instintivamente me dominava cada vez que pensava naquilo.
Diego saiu da abertura, e eu surgi cerca de meio segundo depois. Ficamos parados em uma trilha de grama e mato, poucos passos distante das árvores que cobriam a ilha. Atrás de nós havia apenas alguns metros até a beirada do penhasco, e depois a água. Tudo à nossa volta cintilava com a cor e a luz que refletíamos.
— Uau... — murmurei.
Diego sorriu para mim, seu rosto bonito sob a luz do sol, e, de repente, com um forte calafrio na barriga, percebi que toda aquela coisa de melhor amigo para sempre já era. Para mim, pelo menos. Foi rápido assim.
O sorriso dele ficou então mais suave. Seus olhos refletiam os meus, alertas. Tudo em nós era encanto e luz. Ele tocou meu rosto, como havia tocado minha mão, como se estivesse tentando entender o brilho.
— Tão linda — disse, e deixou a mão descansar em minha face.
Não sei por quanto tempo ficamos ali, sorrindo como completos idiotas, brilhando como tochas. Não havia barcos na baía, o que era bom, provavelmente. Nem mesmo a visão turva dos humanos deixaria de nos perceber. Não que pudessem fazer alguma coisa contra nós, mas eu não estava com sede, e toda a possível gritaria teria arruinado o clima.
Depois de um tempo uma nuvem cobriu o sol. De repente éramos só nós outra vez, embora ainda estivéssemos ligeiramente luminosos. Não o suficiente para que alguém com um olhar menos aguçado que o de um vampiro pudesse notar.
Assim que o brilho desapareceu, meus pensamentos recuperaram a nitidez e eu consegui refletir sobre o que aconteceria em seguida. Embora Diego tivesse voltado à aparência normal — ele não faiscava mais como um globo de luz —, eu sabia que não seria como antes para mim. Aquela sensação de calafrio na barriga continuava. Eu tinha a impressão de que ela ficaria ali para sempre.
— Vamos contar a Riley? Acha que ele não sabe? — perguntei.
Diego suspirou e abaixou a mão.
— Não sei. Vamos pensar nisso enquanto procuramos pelos outros.
— Temos que ser cuidadosos ao rastreá-los durante o dia. Sabe como é, somos fáceis de notar à luz do sol...
Ele riu.
— Vamos agir como ninjas.
Eu concordei com a cabeça.
— “Clube supersecreto ninja” soa muito melhor que aquela coisa de “melhor amigo para sempre”.
— Definitivamente.
Não levamos mais que alguns segundos para localizar o ponto de onde toda a turma havia partido ao sair da ilha. Essa foi a parte fácil. Descobrir para onde no continente eles haviam ido era outra história. Discutimos rapidamente a ideia de nos separar, mas a decisão de continuar juntos foi unânime. Nossa lógica fazia todo o sentido — se um de nós encontrasse algo, como contaria ao outro? —, mas, na verdade, eu simplesmente não queria sair de perto dele, e podia ver que ele sentia o mesmo. Nenhum de nós jamais teve um colega, uma companhia agradável, e a experiência era boa demais para perdermos um minuto sequer.
Eles poderiam ter ido para qualquer lugar. As opções eram muitas. Para o continente, ou para outra ilha, ou para a periferia de Seattle, ou para o norte do Canadá. Quando demolíamos ou queimávamos uma de nossas casas, Riley estava preparado — ele sempre parecia saber exatamente para onde ir. Devia planejar as mudanças com antecedência, mas nunca nos informava sobre seus planos.
Eles poderiam estar em qualquer lugar.
Ter de mergulhar e voltar à superfície para evitar que barcos e pessoas nos vissem significava uma tremenda perda de tempo. Não tivemos sorte durante todo o dia, mas também não estávamos incomodados com isso. Nós nos divertíamos como jamais havíamos nos divertido antes.
Foi um dia estranho. Em vez de estar sentada infeliz na escuridão, tentando não ouvir a confusão dos outros e me esforçando para engolir a repugnância pelo lugar onde nos escondíamos, estava brincando de ninja com meu melhor amigo, ou talvez algo mais. Rimos muito enquanto percorríamos os caminhos à sombra, jogando pedras um no outro como se fossem estrelas ninja.
Então o sol se pôs, e de repente fiquei nervosa. Riley procuraria por nós? Pensaria que havíamos fritado ao sol? Ou ele sabia que não?
Começamos a nos deslocar mais depressa. Muito mais depressa. Já havíamos percorrido todas as ilhas próximas e agora nos concentrávamos no continente. Cerca de uma hora depois do pôr do sol, farejei um cheiro conhecido, e em segundos encontramos o rastro. Depois que tínhamos a pista do cheiro, tudo ficou fácil como seguir uma manada de elefantes na neve fofa.
Enquanto corríamos, falamos sobre o que fazer, adotando um tom mais sério.
— Não acho que seja uma boa ideia contar a Riley — opinei. — Vamos dizer que passamos o dia inteiro na caverna e saímos ao anoitecer para procurar por eles. — Minha paranoia crescia. — Melhor ainda: vamos dizer a eles que sua caverna estava cheia de água. Não podíamos nem conversar.
— Acha que Riley é do mal, não é? — ele perguntou em voz baixa, depois de um minuto.
Enquanto falava, Diego segurava minha mão.
— Não sei. Mas prefiro agir como se fosse, só por precaução. — Hesitei por um instante antes de acrescentar: — Você não quer pensar que ele pode ser mau.
— Não — Diego admitiu. — Ele é meu amigo. Quer dizer, é como se fosse um amigo. Não é como você. — Os dedos afagaram os meus. — Mas é mais que todos os outros. Não quero pensar... — ele não concluiu a sentença.
Eu devolvi o afago.
— Talvez ele seja realmente bom. O fato de sermos cuidadosos não vai mudar quem ele é.
— É verdade. Tudo bem, vamos contar a história da caverna, então. Pelo menos no início... Posso conversar com ele sobre o sol depois, mais tarde. Vai ser melhor ter essa conversa durante o dia, mesmo, quando eu puder provar imediatamente minha afirmação. E caso ele já saiba, mas tenha um bom motivo para não nos ter contado antes, será melhor mesmo conversarmos sozinhos. Posso pegá-lo ao amanhecer, quando ele estiver voltando de onde quer que seja...
Notei que de repente ele dizia eu no lugar do nós, e isso me incomodou. Mas, ao mesmo tempo, eu não queria mesmo participar de nenhuma conversinha educativa envolvendo Riley. Não tinha nele a mesma fé que Diego.
— Ataque ninja ao amanhecer! — exclamei, tentando fazê-lo rir. E funcionou. Voltamos a brincar e seguimos rastreando nosso bando de vampiros, mas eu podia perceber que por trás da aparente diversão ele pensava em coisas sérias, como eu.
E eu ficava mais ansiosa à medida que seguíamos correndo. Éramos muito velozes, e não havia nenhuma possibilidade de estarmos na trilha errada, mas estávamos demorando demais para encontrá-los. Nós nos afastamos muito da costa, subindo as montanhas, entrando em um novo território. Esse não era o padrão habitual.
Todas as casas que havíamos ocupado, fossem elas na encosta de uma montanha, em uma ilha ou escondidas no meio de uma grande fazenda, tinham algumas características em comum. Os proprietários mortos, o local isolado e mais uma coisa: todas visavam Seattle. Margeavam a cidade como luas orbitais. Seattle era sempre o foco, o alvo.
Agora estávamos fora de órbita, e isso era estranho. Talvez isso não quisesse dizer nada, talvez fosse só uma das muitas coisas que mudaram naquele dia. Todas as verdades que eu aceitava estavam de cabeça para baixo, e eu não estava com disposição para outras revoluções. Por que Riley não havia simplesmente escolhido um lugar normal?
— Engraçado eles terem se afastado tanto — Diego murmurou, e eu ouvi a tensão em sua voz.
— Engraçado ou assustador — eu disse.
Ele apertou minha mão.
— Está tudo bem. O clube ninja pode encarar qualquer coisa.
— Já criou nosso cumprimento secreto?
— Estou pensando nisso — ele garantiu.
Algo começou a me incomodar. Era estranho, como se eu pudesse sentir um ponto cego... Sabia que havia alguma coisa que eu não enxergava, mas não conseguia identificar o quê. Algo óbvio...
E então, uns trinta e cinco quilômetros a oeste do nosso perímetro habitual, encontramos a casa. Era impossível não reconhecer o barulho. O tum tum tum do baixo, a trilha sonora do videogame, os grunhidos. Era típico.
Soltei a mão de Diego e ele me olhou.
— Ei, eu nem conheço você — falei num tom debochado. — Nós nem conversamos no meio de toda aquela água. Até onde sei, você pode muito bem ser um ninja ou um vampiro.
Ele riu.
— Vale para você também, estranha. — Depois, em voz mais baixa e falando depressa: — Faça as mesmas coisas que fez ontem. Amanhã à noite sairemos juntos. Vamos fazer um reconhecimento, tentar entender um pouco mais do que está acontecendo.
— Gostei do plano. Dê o sinal.
Ele se inclinou e me beijou — só um selinho, mas me beijou na boca. O choque provocado pelo contato percorreu todo o meu corpo.
— Vamos lá — ele disse, e desceu a encosta da montanha na direção do barulho impressionante sem olhar para trás, já representando seu papel.
Eu o segui um pouco atordoada, mantendo alguns metros de distância, lembrando-me de me comportar com ele como teria me comportado com qualquer outro.
A casa era grande, uma espécie de galpão de lenhador, e ficava em uma clareira cercada de pinheiros, sem nenhum sinal de vizinhança num raio de muitos quilômetros. Todas as janelas estavam escuras, como se o lugar estivesse vazio, mas a estrutura tremia com a reverberação do baixo no porão.
Diego entrou primeiro, e eu tentei segui-lo como se andasse atrás de Kevin ou Raoul. Hesitante, protegendo meu espaço. Ele encontrou a escada e desceu com passos confiantes.
— Tentando me despistar, bando de fracassados? — ele perguntou.
— Ah, ei, Diego está vivo — Kevin respondeu com uma marcada falta de entusiasmo.
— Não com sua ajuda — Diego acusou ao entrar no porão escuro.
A única luz provinha das várias telas de tevê, mas era muito mais do que qualquer um de nós precisava. Corri para perto de Fred, que tinha um sofá inteiro só para ele, satisfeita por poder me mostrar ansiosa como estava, porque não havia nenhuma possibilidade de esconder ou disfarçar o sentimento. Engoli em seco a onda de repulsa e me encolhi no meu lugar de costume, no chão, atrás do sofá. Assim que me abaixei, o poder repelente de Fred perdeu um pouco da força. Ou talvez eu já estivesse me acostumando com ele.
O porão estava meio vazio, já que era noite. Todos os garotos ali tinham olhos como os meus — vermelhos e brilhantes, recentemente alimentados.
— Levei um tempo para limpar a sujeira que você fez — Diego disse a Kevin. — Estava quase amanhecendo quando cheguei ao que restava da casa. Tive que passar o dia inteiro sentado em uma caverna cheia de água.
— Vá fofocar tudo para Riley. Não ligo.
— Notei que a garotinha também conseguiu voltar — disse outra voz, e eu estremeci, porque era Raoul.
Senti certo alívio por ele não saber meu nome, mas isso não diminuía o horror por ele ter me notado.
— É, ela me seguiu.
Eu não podia ver Diego, mas sabia que ele estava dando de ombros.
— Eis o grande herói do momento! — Raoul disparou sarcástico.
— Não ganhamos mais pontos por ser idiotas.
Eu teria preferido que Diego não discutisse com Raoul. E esperava que Riley chegasse logo. Só ele era capaz de controlar Raoul, mesmo que não completamente.
Mas Riley devia estar fora caçando garotos da escória para levar para ela. Ou fazendo o que fazia quando estava ausente, fosse o que fosse.
— Você é interessante, Diego. Acha que Riley gosta tanto de você que vai se importar se eu puser um fim em sua existência. Eu acho que está errado. E, de qualquer maneira, neste momento ele já acredita que você está morto.
Eu podia ouvir os outros se movendo. Alguns provavelmente para apoiar Raoul, outros simplesmente para sair do caminho. Hesitei no meu esconderijo, sabendo que não deixaria Diego lutar sozinho contra eles, mas temendo estragar o disfarce sem necessidade, caso não acontecesse um confronto. Imaginei que Diego não teria sobrevivido por tanto tempo sem ter fabulosas habilidades de combate. De minha parte, não tinha muito a oferecer nesse departamento. Havia três membros da gangue de Raoul ali, e alguns outros que poderiam ficar do lado dele só para ganhar sua simpatia. Será que Riley voltaria para casa antes que eles tivessem tempo de nos queimar?
A voz de Diego era calma quando ele respondeu:
— Tem mesmo todo esse medo de me enfrentar sozinho? Típico.
Raoul rosnou.
— Isso alguma vez já funcionou? Quer dizer, sem ser nos filmes. Por que eu deveria brigar sozinho? Não quero bater em você. Só quero destruí-lo.
Eu me abaixei atrás do sofá, pronta para saltar e entrar em ação.
Raoul continuava falando. Ele gostava muito do som da própria voz.
— Mas não vai ser preciso reunir todos nós para cuidar de você. Esses dois vão cuidar da outra prova da sua infeliz sobrevivência. A pequena sei-lá-o-nome-dela.
Meu corpo estava gelado, paralisado. Tentei me livrar dessa sensação para poder lutar. Não que isso fosse fazer alguma diferença.
Então senti algo mais, uma coisa totalmente inesperada — uma onda de repulsa tão forte que não consegui me manter agachada. Caí no chão encolhida, ofegando com horror.
Eu não era a única reagindo. Ouvi grunhidos enojados e sons de ânsia de todos os cantos do porão. Algumas pessoas se retiravam para os cantos mais afastados, onde eu podia vê-las. Elas se espremiam contra as paredes, esticando o pescoço como se assim pudessem escapar da horrível sensação. Pelo menos uma pertencia à gangue de Raoul.
Ouvi o rosnado distinto de Raoul e depois notei que o som se distanciava, uma indicação de que ele subia a escada. E Raoul não foi o único a fugir dali. Pelo menos metade dos vampiros saiu do porão.
Eu não tive essa chance. Mal podia me mover. Devia ser porque estava perto demais de Freaky Fred. Ele era o responsável pelo que estava acontecendo. E por mais que eu me sentisse horrível, conseguia perceber que ele, provavelmente, acabara de salvar minha vida.
Por quê?
A sensação de enjoo foi desaparecendo devagar. Assim que pude, me arrastei até a beirada do sofá e dei uma olhada no porão. Toda a gangue de Raoul sumira, mas Diego ainda estava lá, do outro lado do cômodo, perto das televisões. Os vampiros que restaram relaxavam pouco a pouco, embora todos parecessem um pouco abalados. Muitos lançavam olhares curiosos na direção de Fred. Espiei-o pelas costas, apesar de não conseguir ver nada de onde estava. E desviei o olhar bem depressa. Olhar para Fred trazia de volta parte da náusea.
— Continue abaixada.
A voz grave era de Fred. Eu nunca o ouvira falar. Todos olharam para ele e desviaram os olhos imediatamente, sentindo voltar a repugnância.
Fred afinal só queria paz e sossego. Por mim, tudo bem. Eu estava viva por causa disso. Muito provavelmente, Raoul se distrairia com alguma outra confusão antes do amanhecer e descarregaria a raiva em alguém ao alcance de suas mãos. E Riley sempre voltava no final da noite. Ficaria sabendo que Diego havia passado a noite na caverna, que não fora destruído pelo sol, e Raoul não teria desculpa para atacá-lo ou me atacar.
Pelo menos, esse era o melhor cenário que eu conseguia imaginar. Enquanto isso, talvez Diego e eu pudéssemos pensar em um plano para nos manter bem longe de Raoul.
Mais uma vez, tive a breve sensação de que estava deixando de ver uma solução óbvia. Antes que pudesse descobrir qual era, meus pensamentos foram interrompidos.
— Sinto muito.
O resmungo grave, quase silencioso, só podia ter partido de Fred. E tudo indicava que eu era a única suficientemente próxima para ouvi-lo. Ele estava falando comigo?
Olhei-o novamente e não senti nada. Não conseguia ver seu rosto — ele ainda estava de costas para mim. Fred tinha cabelos grossos, louros e ondulados. Eu nunca havia notado isso, apesar de todos os dias que passara sentada à sua sombra. Riley não estava brincando quando dizia que Fred era especial. Repulsivo, mas realmente especial. Será que Riley tinha alguma ideia de que ele era tão... tão poderoso? Ele conseguira dominar uma sala cheia de vampiros em um segundo.
Embora não pudesse ver sua expressão, tive a sensação de que Fred esperava por uma resposta.
— Não se desculpe — respondi num sussurro muito fraco. — Obrigada.
Fred encolheu os ombros.
E depois disso descobri que não podia mais olhar para ele.
As horas passaram mais devagar que de costume enquanto eu esperava pela volta de Raoul. De vez em quando, tentava olhar para Fred outra vez — enxergar além da proteção que ele criara para si mesmo —, mas sempre me sentia repelida. Se insistisse muito, acabaria vomitando.
Pensar em Fred era uma boa distração, um jeito de não pensar em Diego. Tentei fingir que não me importava saber onde ele estaria. Não olhei para ele, mas me concentrei no som de sua respiração — seu ritmo singular — para me manter orientada. Ele estava sentado do outro lado da sala, ouvindo seus CDs em um laptop. Ou fingindo ouvir, talvez, da mesma forma que eu fingia ler os livros da mochila úmida pendurada em meus ombros. Eu virava as páginas na velocidade habitual, mas não registrava nada. Estava esperando por Raoul.
Felizmente, Riley apareceu primeiro. Raoul e sua gangue entraram logo atrás, mas não tão ruidosos e provocativos como de hábito. Talvez Fred tivesse ensinado a eles um pouco de respeito.
Mas era pouco provável. O mais provável era que Fred só os tivesse enfurecido ainda mais. De minha parte, eu torcia para que Fred nunca abaixasse a guarda.
Riley se aproximou de Diego imediatamente; eu ouvi a conversa de costas para eles, com os olhos no livro. Na periferia do meu campo de visão, percebi que alguns idiotas da gangue de Raoul vagavam, procurando seu jogo favorito ou retomando o que faziam quando Fred os obrigara a sair correndo. Kevin era um deles, mas parecia estar procurando algo mais específico que entretenimento. Várias vezes seus olhos tentaram se fixar no lugar onde eu estava sentada, mas a aura de Fred o mantinha distante. Ele desistiu depois de alguns minutos e parecia um pouco enjoado.
— Soube que você tinha conseguido voltar — disse Riley. Sua voz soava genuinamente satisfeita. — Eu sempre posso contar com você, Diego.
— Sem problemas — Diego respondeu num tom relaxado. — A menos que prender a respiração o dia todo conte como problema.
Riley riu.
— Não fique tão no limite da próxima vez. Precisa servir de exemplo para os bebês.
Diego riu com ele. Pelo canto do olho, notei que Kevin relaxava um pouco. Será que ele estava realmente preocupado com a possibilidade de Diego metê-lo em alguma encrenca? Talvez Riley ouvisse mesmo Diego. Mais do que eu havia percebido. Talvez por isso Raoul tivesse ficado tão furioso antes.
O bom relacionamento de Riley e Diego seria algo favorável, afinal? Talvez Riley fosse legal. E a relação entre eles não comprometia o que existia entre nós, certo?
O tempo não passou mais depressa depois do raiar do dia. O porão estava lotado e o clima era instável, como sempre. Se vampiros ficassem roucos, Riley já teria perdido a voz de tanto gritar. Alguns garotos perderam membros temporariamente, mas ninguém foi queimado. A música variava com a trilha sonora dos jogos, e eu me dava por satisfeita por não ser “propensa” a dores de cabeça. Tentei ler meus livros, mas acabei apenas folheando um depois do outro, sem me interessar o suficiente para tentar focar nas letras. Eu os deixei em uma pilha perfeita ao lado do sofá, para Fred. Sempre deixava meus livros para ele, embora não soubesse dizer se ele os lia ou não. Não conseguia olhá-lo com atenção suficiente para ver o que, precisamente, fazia de seu tempo livre.
Pelo menos Raoul não olhou na minha direção. Nem uma vez. Nem Kevin, nem os outros. Meu esconderijo era mais seguro que nunca. Eu não conseguia ver se Diego era esperto o bastante para me ignorar, porque eu o estava ignorando completamente. Ninguém desconfiava de que formávamos uma equipe, exceto, talvez, Fred — será que ele estivera prestando atenção enquanto eu me preparava para lutar ao lado de Diego? Mesmo que ele tivesse percebido alguma coisa, eu não me preocupava muito. Se Fred tivesse alguma antipatia por mim, poderia ter me deixado morrer mais cedo. Teria sido fácil.
O barulho foi se tornando mais ensurdecedor com o pôr do sol. Não conseguíamos ver a claridade diminuindo, dali do porão, debaixo da terra, com todas as janelas lá em cima cobertas, só por precaução. Mas a espera em tantos dias longos e angustiantes nos tinha dado uma boa noção do momento em que o tormento estava quase acabando. Os garotos começavam a ficar animados, perguntando a Riley se podiam sair.
— Kristie, você saiu ontem — Riley respondeu, e era possível ouvir a impaciência crescendo na voz dele. — Heather, Jim, Logan, podem ir. Warren, seus olhos estão escuros, vá com eles. Ei, Sara, não sou cego. Volte aqui.
Os garotos que ele proibia de sair ficavam de cara fechada, pelos cantos, alguns esperando que o próprio Riley saísse para poderem escapar, apesar das regras.
— Fred, acho que é sua vez — Riley anunciou sem olhar na nossa direção.
Ouvi Fred suspirar ao se levantar. Todos se encolheram quando ele passou pelo centro do aposento, até mesmo Riley. Mas, diferentemente dos outros, Riley tinha um leve sorriso. Ele gostava de vampiros com talentos.
Eu me sentia nua sem Fred por perto. Agora qualquer um poderia olhar para mim. Fiquei quieta, imóvel, abaixada, fazendo tudo o que estava ao meu alcance para não chamar atenção.
Para minha sorte, naquela noite Riley estava com pressa. Ele mal parou para olhar feio para aqueles que se arrastavam disfarçadamente para a porta, não os ameaçou nem mesmo quando já estava saindo. Normalmente, ele fazia alguma versão do discurso habitual sobre sermos discretos, mas não naquele dia. Ele pareceu preocupado, ansioso. Eu poderia apostar que ele ia vê-la. E isso me fazia não querer reencontrá-lo quando amanhecesse.
Esperei Kristie e três de seus habituais companheiros saírem e escapei atrás deles, tentando parecer parte do grupo sem irritá-los. Não olhei para Raoul nem para Diego. Eu me concentrava em parecer insignificante — ninguém que merecesse ser notada. Só mais uma vampira qualquer.
Do lado de fora da casa, imediatamente me afastei de Kristie e corri para o bosque. Esperava que Diego se preocupasse em farejar meu rastro. Na metade da subida da montanha mais próxima, eu me empoleirei na copa de uma grande árvore que ficava isolada das vizinhas por muitos metros. Dali eu teria uma boa visão de qualquer um que tentasse me seguir.
Mas estava exagerando na cautela. Talvez tivesse exagerado durante todo o dia. Diego foi o único que se aproximou, procurando por mim. Eu o vi de longe e desci da árvore para encontrá-lo.
— Dia longo — ele disse ao me abraçar. — Seu plano é difícil.
Eu o abracei também, estranhando quanto o abraço era confortável.
— Talvez seja só paranoia minha.
— Sinto muito sobre Raoul. Foi por pouco.
Eu concordei com um movimento de cabeça.
— É sorte que Fred incomode tanto.
— Fico me perguntando se Riley sabe quanto aquele garoto é poderoso.
— Duvido. Nunca vi Fred fazer aquilo antes e passo muito tempo perto dele.
— Bem, isso é problema do Freaky Fred. Nós já temos o nosso próprio segredo para contar a Riley.
até ver como ele reage.
— Normalmente, não gosto de não saber.
Diego estreitou os olhos, com ar especulativo.
— O que acha de uma aventura?
— Depende.
— Estava pensando nas prioridades do clube. Sabe como é, descobrir o máximo possível.
— E...?
— Acho que devemos seguir Riley. Descobrir o que ele está fazendo.
Olhei para ele perplexa.
— Mas ele vai perceber que o seguimos. Vai farejar nossa presença.
— Eu sei. Pensei em agir assim: eu sigo o rastro de Riley. Você fica distante alguns metros e segue meu som. Então, Riley só vai saber que eu o segui, e posso argumentar que tinha algo importante a dizer, por isso fui atrás dele. Nesse momento, faço a grande revelação com o efeito globo de luz. E vejo como ele reage. — Seus olhos estavam fixos em mim. — Mas você... você será a carta na manga por enquanto, certo? E eu conto como ele reagiu.
— E se ele voltar mais cedo? Não quer que o encontro aconteça perto do amanhecer, para você poder brilhar?
— Sim... esse é um possível problema. E pode afetar o desenvolvimento da minha conversa com ele. Mas acho que devemos correr o risco. Ele parecia estar com pressa esta noite, não achou? Como se fosse precisar da noite inteira para o que tinha a fazer?
— Talvez. Ou só estava com muita pressa de encontrá-la. Talvez não seja boa ideia surpreendê-lo se ela estiver por perto.
Nós dois nos encolhemos.
— Tem razão. Ainda assim... — Ele franziu a testa. — Não tem a sensação de que o que está por vir, seja o que for, está cada vez mais perto? Como se não tivéssemos a eternidade para entender tudo isso?
Fiz que sim com a cabeça, mas com ar infeliz.
— Sim, é o que eu sinto.
— Então, vamos correr os riscos. Riley confia em mim, e tenho bons motivos para querer falar com ele.
Eu pensei na estratégia. Embora, na verdade, só conhecesse Diego havia um dia, sabia que aquele grau de paranoia não era do feitio dele.
— Esse seu plano elaborado... — eu disse.
— O que tem ele? — Diego perguntou.
— Bem, parece um plano solo. Não tem jeito de aventura do clube. Não na parte perigosa, pelo menos.
Ele fez uma careta, como se quisesse dizer que eu o pegara.
— A ideia é minha. Sou eu quem... — ele hesitou, como se fosse difícil pronunciar as palavras seguintes — confia em Riley. Só eu vou correr o risco de ficar encrencado se estiver errado.
Mesmo sendo uma covarde, não me deixei convencer.
— Não é assim que um clube funciona.
Ele assentiu, a expressão neutra.
— Tudo bem, vamos pensar nisso no caminho.
Eu não acreditava que ele tivesse mesmo a intenção de pensar em alguma coisa.
— Fique nas árvores e me acompanhe do alto, certo? — ele disse.
— Tudo bem.
Ele voltou à cabana, deslocando-se depressa. Eu o segui pelas árvores, a maioria dos galhos tão próximos uns dos outros que só raramente eu precisava de fato saltar de uma copa a outra. Fazia movimentos curtos, leves, torcendo para o balançar dos galhos sob o peso do meu corpo parecer apenas obra do vento. Havia uma brisa constante, o que era uma ajuda. Estava frio para o verão, mas a temperatura não me incomodava.
Diego farejou Riley do lado de fora da casa sem nenhuma dificuldade e depois seguiu o rastro rapidamente, enquanto eu o acompanhava por cima dos galhos, vários metros atrás e uns quarenta e cinco metros ao norte, mais no alto da encosta. Quando as árvores se tornaram realmente densas, ele passou a sacudir um tronco aqui e ali para que eu não o perdesse.
Seguimos em frente, ele correndo, eu feito um esquilo voador, por apenas quinze minutos, mais ou menos, até que Diego reduziu a velocidade. Devíamos estar chegando perto do nosso objetivo. Subi ainda mais pelos galhos, procurando uma árvore de onde tivesse uma boa visão. Escalei uma que era bem mais alta que as vizinhas e observei a cena.
Menos de um metro adiante havia um vão entre as árvores, um campo aberto de vários hectares. Perto do centro, mais próximo das árvores do lado leste, havia o que parecia ser uma gigantesca casa de doces. Pintada de rosa, verde e branco, era elaborada a ponto de parecer ridícula, com acabamento meticuloso e adornos exuberantes em todos os espaços disponíveis. Era o tipo de coisa da qual eu teria rido em uma situação menos tensa.
Riley não estava à vista, mas Diego havia parado lá embaixo, por isso deduzi que ali acabava nossa busca. Talvez aquela fosse a casa que Riley preparava para substituir a grande cabana quando ela desmoronasse. Mas era menor que todas as outras em que já havíamos ficado e não parecia ter um porão. E era ainda mais afastada de Seattle.
Diego me olhou e fiz um sinal convidando-o a subir. Ele concordou com a cabeça e voltou refazendo os próprios passos. Então, deu um salto fabuloso — eu não sabia se conseguiria pular tão alto, mesmo sendo jovem e forte — e agarrou um galho da árvore mais próxima. Ninguém, a menos que fosse extraordinariamente atento, jamais teria notado que Diego se desviara de sua trilha. Mesmo assim, ele ainda se deslocou pela copa das árvores a fim de que seu rastro não levasse diretamente a mim.
Quando finalmente decidiu que era seguro, ele se aproximou e imediatamente segurou minha mão. Em silêncio, lancei o olhar para a casa de confeitos. Um canto da boca dele tremeu.
Juntos, começamos a nos mover para o leste, ainda no topo das árvores. Chegamos tão perto da casa quanto a ousadia permitiu — deixando algumas árvores como cobertura entre a casa e nós — e então nos sentamos em silêncio, ouvindo.
A brisa soprava suave, e conseguimos escutar alguma coisa. Um estranho e breve farfalhar, um tique-tique. De início, não reconheci o que ouvia, mas Diego sorriu, fez um bico engraçado e beijou o ar na minha direção.
Os sons de um beijo entre vampiros não eram os mesmos que os de um beijo entre humanos. Não havia células cheias de líquido e tecido macio para serem espremidos. Só lábios de pedra, nenhuma troca. Eu escutara um beijo entre vampiros antes — o toque dos lábios de Diego nos meus na noite anterior —, mas jamais teria ligado uma coisa a outra. Não chegava nem perto do que eu esperava encontrar ali.
Essa constatação mudou tudo de lugar na minha cabeça. Deduzira que Riley tinha ido vê-la talvez para receber instruções ou levar novos recrutas, eu não sabia. Mas nunca havia imaginado deparar com algo do tipo de... ninho de amor. Como Riley podia beijá-la? Eu não contive um arrepio e olhei para Diego. Ele também parecia levemente horrorizado, mas encolheu os ombros.
Pensei em minha última noite como humana, e me encolhi ao recordar tão vividamente o ardor. Tentei lembrar os momentos anteriores, atravessar a névoa da confusão. Primeiro, senti um medo crescente surgir assim que Riley parou diante da casa velha, a segurança que eu tinha experimentado na lanchonete iluminada onde comera o hambúrguer se dissolvera completamente. Eu recuei, tentei fugir, mas ele agarrava meu braço com força e me tirou do carro como se eu fosse uma boneca, como se não pesasse nada. Depois vieram o terror e a incredulidade quando ele saltou cinco metros até a porta. Terror, e em seguida uma dor que não deixava espaço para dúvidas quando ele quebrou meu braço, arrastando-me pela porta para dentro da casa escura. E então, a voz.
Quando me concentrei na lembrança, consegui ouvi-la outra vez. Aguda e melodiosa, como a de uma menininha, mas mal-humorada. Parecia de uma criança fazendo birra.
Lembrei o que ela disse: “Por que trouxe essa? É muito pequena.” Ou algo do tipo, pensei. As palavras podiam não ser exatamente as mesmas, mas era esse o significado.
Eu tinha certeza de que Riley estava ansioso por agradar quando respondeu, temendo desapontá-la: “Mas ela é outro corpo. Outra distração, pelo menos.”
Acho que nesse momento choraminguei, e ele me sacudiu dolorosamente, mas não voltou a falar comigo. Era como se eu fosse um cachorro, não uma pessoa.
“Essa noite inteira foi um desperdício”, reclamou a voz infantil. “Matei todos eles. Argh!”
Lembrei que nesse momento a casa tremeu, como se um carro tivesse ido de encontro a ela. Agora percebia que ela provavelmente havia chutado alguma coisa num momento de frustração.
“Muito bem. Acho que até uma pequena é melhor que nada, se isso é o melhor que pode fazer. Agora já estou tão saciada que talvez consiga parar.”
Os dedos rígidos de Riley haviam desaparecido, e eu fiquei sozinha com a voz. Nesse ponto, estava tomada por um pânico tão absoluto que não emitia mais nenhum som. Apenas fechei os olhos, embora já estivesse completamente cega naquela escuridão. Não gritei até que algo cortou meu pescoço, ardendo como uma lâmina coberta de ácido.
Eu me encolhi, tentando interromper as lembranças, tentando banir da mente o que viria a seguir. Concentrei-me naquela conversa breve. Ela não parecia falar com um amante, nem mesmo com um amigo. Era mais como se tratasse com um empregado. Alguém de quem não gostava muito e que poderia demitir em breve.
Mas os estranhos sons de beijos persistiam. Um dos vampiros suspirou de satisfação.
Eu franzi a testa para Diego. O que escutávamos não nos revelava muita coisa. Por quanto tempo ainda teríamos que ficar ali?
Ele inclinou a cabeça para o lado, ouvindo com cuidado e atenção.
E depois de mais alguns minutos de paciência, os sons baixos, românticos, foram repentinamente interrompidos.
— Quantos?
A voz estava abafada pela distância, mas ainda era audível e clara. E podia reconhecê-la. Aguda, quase um trinado. Como a de uma menina mimada.
— Vinte e dois — Riley respondeu em tom orgulhoso.
Diego e eu trocamos um olhar penetrante. Éramos vinte e dois na última contagem. Deviam estar falando sobre nós.
— Pensei ter perdido mais dois para o sol, mas um dos meus garotos mais velhos é... obediente — Riley prosseguiu.
Havia quase um toque de afeto em sua voz quando ele se referiu a Diego como um de seus garotos.
— Ele tem um lugar, um esconderijo subterrâneo, e se escondeu com a mais nova.
— Tem certeza?
Houve uma longa pausa, dessa vez sem sons de romance. Mesmo de longe, eu acreditava poder sentir alguma tensão.
— Sim, ele é um bom garoto. Tenho certeza.
Outra pausa tensa. Eu não conseguia entender sua pergunta. O que ela queria dizer com tem certeza? Será que ela achava que ele ouvira a história de alguém, que não vira Diego pessoalmente?
— Vinte e dois é um bom número — ela murmurou, e a tensão pareceu se dissolver. — Como o comportamento deles está evoluindo? Alguns têm quase um ano de idade. Ainda seguem os padrões normais?
— Sim — respondeu Riley. — Tudo o que me disse para fazer funcionou impecavelmente. Eles não pensam, simplesmente agem como já estão acostumados. Sempre consigo distraí-los com a sede. Isso os mantém sob controle.
Eu franzi a testa para Diego. Riley não queria que pensássemos. Por quê?
— Você trabalhou muito bem — nossa criadora elogiou, e depois ouvimos outro beijo. — Vinte e dois!
— Chegou a hora? — Riley perguntou ansioso.
A resposta foi rápida e contundente como uma bofetada.
— Não! Ainda não decidi quando.
— Não entendo.
— Não precisa entender. É suficiente que saiba que nossos inimigos têm grandes poderes. Todo o cuidado é pouco. — A voz dela ficou suave, tornou-se outra vez melosa. — Mas os vinte e dois ainda estão vivos. Mesmo tudo o que eles são capazes de fazer... que efeito terá contra vinte e dois? — Ela deixou escapar uma risadinha que parecia sinos tilintando.
Diego e eu não paramos de nos olhar durante todo esse tempo, e agora eu podia ver em seus olhos que pensávamos a mesma coisa. Sim, fomos criados com um propósito, como imaginávamos. Tínhamos um inimigo. Ou nossa criadora tinha um inimigo. A distinção era importante?
— Decisões, decisões — ela murmurou. — Ainda não. Talvez alguns mais, só para ter certeza.
— Alguns mais podem, no final, reduzir nosso número — Riley preveniu hesitante, como se tomasse cuidado para não aborrecê-la. — Há sempre uma instabilidade quando um novo grupo é introduzido.
— É verdade — ela concordou, e eu imaginei Riley suspirando aliviado por não tê-la irritado.
De repente, Diego desviou os olhos dos meus, olhando para a campina. Eu não havia escutado nenhum movimento na casa, mas ela podia ter saído. Girei a cabeça e no mesmo instante o restante de mim ficou paralisado como uma estátua. E vi o que havia assustado Diego.
Quatro figuras atravessavam o campo aberto, caminhando na direção da casa. Haviam entrado na clareira vindos do oeste, o ponto mais afastado de onde nos escondíamos. Todos usavam longos mantos escuros com capuz, por isso minha primeira impressão foi de que eram humanos. Pessoas estranhas, mas ainda assim, apenas humanos, porque nenhum dos vampiros que eu conhecia usava aquelas roupas góticas e combinadas. E nenhum se movia de um jeito tão suave e controlado, tão... elegante. Foi quando percebi que nenhum dos humanos que eu já vira seria capaz de se deslocar daquela maneira, e mais: nenhum poderia se deslocar tão silenciosamente. Os mantos escuros deslizavam sobre a relva em absoluto silêncio. Então, ou aquelas criaturas eram vampiros ou eram alguma outra coisa sobrenatural. Fantasmas, talvez. Mas, se eram vampiros, eram vampiros que eu não conhecia, e isso significava que poderiam ser os inimigos de quem ela estava falando. Nesse caso, precisávamos sair dali imediatamente, porque não tínhamos outros vinte vampiros do nosso lado no momento.
Quase fugi naquele instante, mas tive muito medo de chamar a atenção das criaturas misteriosas.
Então os observei se movendo suavemente, e notei outros detalhes. Eles se mantinham numa formação perfeita, a forma de um diamante, que nunca desalinhava, por mais que o terreno mudasse sob seus pés. O que representava a ponta do diamante era menor que os outros, e seu manto era mais escuro. Eles não pareciam seguir nenhum rastro, nenhum cheiro, nenhuma pista. Simplesmente conheciam o caminho. Talvez fossem convidados.
O grupo se movia diretamente para a casa, e eu senti que era seguro respirar novamente quando começaram a subir a escada que levava à porta. Pelo menos não caminhavam na nossa direção, minha e de Diego. Quando sumissem de vista, poderíamos desaparecer por entre as árvores, protegidos pelo som da próxima brisa, e jamais saberiam que havíamos estado ali.
Olhei para Diego e virei a cabeça sutilmente na direção de onde viéramos. Ele estreitou os olhos e levantou um dedo. Ah, ótimo, ele queria ficar. Revirei os olhos. Apesar de todo o medo, me surpreendi por ainda conseguir ser sarcástica.
Olhamos novamente para a casa. Os seres encobertos por mantos haviam entrado silenciosamente, mas percebi que ela e Riley não falaram mais nada desde que notamos a chegada dos visitantes. Deviam ter escutado alguma coisa ou de algum modo percebido que estavam em perigo.
— Não se incomodem — uma voz muito clara e monótona ordenou preguiçosamente. Não era uma voz tão aguda quanto a da nossa criadora, mas ainda soava infantil aos meus ouvidos. — Creio que sabem quem somos, por isso deve saber também que é inútil tentar nos surpreender. Ou se esconder. Ou lutar. Ou fugir.
Uma risada masculina e profunda que não pertencia a Riley ecoou ameaçadora pela casa.
— Relaxem — instruiu a primeira voz sem entonação, a menina sob o manto. A voz tinha aquela característica distintiva que me fez ter certeza de que ela era uma vampira, não um fantasma ou outro tipo de pesadelo. — Não viemos para destruir vocês. Ainda.
Houve um momento de silêncio, e depois alguns movimentos que quase não se podia ouvir. Uma mudança de posições.
— Se não está aqui para nos matar, então... o que quer? — perguntou nossa criadora, tensa e estridente.
— Queremos saber quais são suas intenções. Especificamente, se envolvem... um certo clã local — a garota com o manto explicou. — Estamos imaginando se eles têm algo a ver com a confusão que vocês criaram aqui. Criaram ilegalmente.
Diego e eu franzimos a testa ao mesmo tempo. Nada daquilo fazia sentido, mas a última parte era a mais estranha. O que podia ser ilegal para vampiros? Que policial, que juiz, que prisão teria algum poder sobre nós?
— Sim — sibilou nossa criadora. — Meus planos visam exclusivamente a eles. Mas ainda não podemos agir. É complicado. — Uma nota petulante vibrou em sua voz no final da frase.
— Acredite, conhecemos as dificuldades melhor que você. É impressionante que tenha conseguido se manter fora do radar, digamos, por todo esse tempo. Diga — um certo interesse coloriu a monotonia da voz —, como tem feito isso?
Nossa criadora hesitou e depois falou tudo de uma vez, rapidamente, quase como se sob alguma intimidação silenciosa.
— Eu ainda não decidi — ela revelou. Depois acrescentou mais lentamente, relutante. — Atacar. Não decidi fazer algo com eles.
— Grosseira, mas direta — a menina do manto disse. — Infelizmente, seu período de deliberação chegou ao fim. Você precisa decidir, agora, o que vai fazer com seu pequeno exército. — Diego e eu arregalamos os olhos ao ouvir essa declaração. — Caso contrário, será nosso dever puni-la como exige a lei. Esse adiamento, mesmo breve, é um problema para mim. Não é assim que atuamos. Sugiro que nos dê todas as garantias que puder... e depressa.
— Vamos agir imediatamente! — Riley manifestou-se ansioso, e houve um chiado imediato e agudo, como o sibilar de uma serpente.
— Vamos agir assim que for possível — nossa criadora o corrigiu, furiosa. — Há muito por fazer. Imagino que queira nosso sucesso. Então, preciso de algum tempo para treiná-los... orientá-los... alimentá-los!
Houve uma pausa breve.
— Cinco dias. Voltaremos em cinco dias. E não há pedra sob a qual poderá se esconder ou velocidade na qual poderá fugir para se salvar. Se não tiver atacado quando voltarmos, você vai queimar.
A declaração não continha ameaça além da mais absoluta certeza.
— E se eu já tiver atacado? — nossa criadora perguntou abalada.
— Veremos — respondeu a garota com o manto, adotando um tom mais animado do que o que usara até então. — Suponho que tudo dependa de seu grau de sucesso. Trabalhe e se esforce para nos agradar.
A última ordem foi dada num tom neutro, duro, e essa nota de frieza me deu arrepios.
— Sim — nossa criadora grunhiu.
— Sim — Riley repetiu num sussurro.
Um segundo depois os vampiros cobertos por mantos deixavam a casa silenciosamente. Diego e eu nem respiramos nos cinco minutos seguintes ao desaparecimento do grupo. Dentro da casa, nossa criadora e Riley estavam igualmente quietos. Outros dez minutos transcorreram em total imobilidade.
Toquei o braço de Diego. Era nossa chance de sair dali. Naquele momento, eu não estava mais com tanto medo de Riley. Queria era me afastar o máximo possível daqueles mantos escuros. Queria a segurança da vantagem numérica, que esperava por nós na cabana, e imaginava que nossa criadora sentia exatamente o mesmo. Por que, em primeiro lugar, ela havia criado tantos de nós? Havia nisso algo mais assustador do que eu havia pensado.
Diego hesitou, ainda ouvindo, e um segundo depois sua paciência foi recompensada.
— Bem — ela sussurrou dentro da casa —, agora eles sabem.
Ela se referia aos de manto escuro ou ao clã misterioso? Qual deles era o inimigo que ela havia mencionado antes do drama?
— Isso não importa. Estamos em maior número...
— Qualquer aviso importa! — ela grunhiu, interrompendo o discurso de Riley. — Há muito por fazer. Só cinco dias! — Ela gemeu. — Chega de confusão. Você começa esta noite.
— Não vou desapontá-la! — Riley prometeu.
Droga. Diego e eu nos movemos ao mesmo tempo, saltando do nosso galho para a árvore vizinha, voando de volta pelo mesmo caminho que havíamos percorrido até ali. Agora Riley tinha pressa, e se encontrasse o rastro de Diego depois de tudo que acabara de acontecer com os dos mantos, e nenhum Diego no fim da trilha...
— Preciso voltar e ficar esperando — Diego cochichou enquanto corríamos. — Sorte que o ponto não dá vista para a casa. Não quero que ele saiba que eu ouvi.
— Precisamos conversar com ele juntos.
— É tarde demais para isso. Ele perceberia que não há rastro de seu cheiro. Vai parecer suspeito.
— Diego... — Ele não me deixou terminar.
Estávamos novamente no ponto onde ele se juntara a mim. Ele agora sussurrava.
— Siga o plano, Bree. Direi a ele o que planejei. Ainda não estamos perto do amanhecer, mas vai ter que ser assim. Se ele não acreditar em mim... — Diego encolheu os ombros. — Ele agora tem outras coisas com que se preocupar, coisas mais importantes que a minha imaginação fértil. Talvez esteja mais propenso a ouvir agora. Parece que precisaremos de toda ajuda que conseguirmos, e poder andar por aí à luz do dia não será nada mal.
— Diego... — repeti, sem saber o que mais poderia dizer.
Ele olhou nos meus olhos, e eu esperei que seus lábios se abrissem naquele sorriso fácil, que ele fizesse alguma piada sobre ninjas ou melhores amigos para sempre.
Ele não fez. Nem sorriu. Em vez disso, inclinou-se lentamente, sem desviar os olhos dos meus, e me beijou. Os lábios lisos encontraram os meus por um longo segundo enquanto nos olhávamos.
Depois ele recuou e suspirou.
— Vá para a casa, esconda-se atrás de Fred e aja como se não soubesse de nada. Eu vou logo depois de você.
— Tome cuidado.
Segurei a mão dele e a apertei com força, depois soltei. Riley havia falado sobre Diego com carinho. Eu só podia esperar que esse afeto fosse verdadeiro. Não havia escolha.
Diego desapareceu entre as árvores, silencioso como uma brisa amena. Eu não perdi tempo tentando acompanhá-lo com os olhos. Parti imediatamente, correndo pelos galhos em linha reta de volta para a casa. Esperava que meus olhos ainda estivessem suficientemente brilhantes da refeição da noite anterior para explicar minha ausência. Só uma caçada rápida. Tive sorte... encontrei um andarilho solitário. Nada demais.
O som da música retumbante que ouvi ao me aproximar era acompanhado pelo cheiro inconfundível, doce, e pela fumaça de um vampiro incinerado. Meu pânico se multiplicou. Dentro ou fora da casa, eu poderia morrer com a mesma facilidade. Mas não havia outro jeito. Não desacelerei, simplesmente desci a escada correndo e fui diretamente para o canto onde sentia a presença de Freaky Fred, embora não pudesse olhar diretamente para lá. Ele estava em pé. Estava procurando alguma coisa para fazer? Cansara de ficar sentado? Eu não tinha ideia do que ele tramava, nem queria saber. Ficaria bem perto dele até Riley e Diego voltarem.
No meio do porão havia uma pilha fumegante grande demais para ser só um braço ou uma perna. Os vinte e dois de Riley eram coisa do passado.
Ninguém parecia muito preocupado com a fogueira. A imagem era muito comum.
Corri para perto de Fred, e pela primeira vez a sensação de repulsa não aumentou. Pelo contrário, ela desapareceu. Ele não parecia notar minha presença; simplesmente continuou lendo o livro que segurava. Um dos que eu deixara para ele alguns dias antes. Não foi difícil ver o que ele fazia agora que estava perto do encosto do sofá no qual ele se apoiava. Hesitei, tentando entender por quê. Ele podia ligar e desligar o efeito náusea quando queria? Isso significava que nós dois estávamos desprotegidos agora? Pelo menos Raoul ainda não chegara em casa, felizmente, embora Kevin estivesse ali.
Pela primeira vez, vi como Fred realmente era. Alto, mais de 1,80 metro, o cabelo encaracolado e louro que eu havia notado antes. Tinha ombros largos e era musculoso. Parecia mais velho que a maioria dos outros — como um universitário, não um colegial. E — por alguma razão essa foi a parte que mais me surpreendeu — ele era bonito. Tão bonito quanto qualquer outro, talvez até mais que muitos ali. Eu não sabia por que isso me parecia estranho. Talvez por sempre ter associado Fred a repulsa.
Eu me senti esquisita por ficar observando-o. Olhei rapidamente em volta para ver se alguém no porão notara que Fred estava normal — e bonito — temporariamente. Ninguém olhava na nossa direção. Dei uma espiada rápida em Kevin, pronta para desviar o olhar rapidamente caso ele percebesse, mas ele estava concentrado em algum ponto à nossa esquerda. A testa estava marcada por uma ruga. Antes que eu pudesse desviar, seus olhos passaram direto por mim e se detiveram à minha direita. A ruga tornou-se mais profunda. Como... se ele estivesse tentando me ver e não conseguisse.
Senti os cantos da minha boca tremerem, e não era exatamente um sorriso. Havia muito com que me preocupar para poder me divertir de verdade com a cegueira de Kevin. Olhei novamente para Fred, imaginando se o fator repulsa retornaria, mas ele sorria para mim. Ele era simplesmente espetacular sorrindo.
Então o momento passou, e Fred voltou ao livro. Eu não me movi por um tempo, esperando que algo acontecesse. Diego passar pela porta. Ou Riley e Diego. Ou Raoul. Ou a náusea voltar, ou Kevin olhar diretamente para mim, ou a próxima briga explodir. Qualquer coisa.
Quando nada aconteceu, finalmente me recompus e fiz o que devia estar fazendo: fingi que não havia nada de anormal. Peguei um livro da pilha perto do pé de Fred e me sentei ali mesmo, fingindo que lia. Devia ser um dos livros que eu fingira ler no dia anterior, mas não parecia familiar. Virei algumas páginas, novamente sem apreender nada do conteúdo.
Minha mente girava em círculos muito pequenos. Onde estava Diego? Como Riley reagira a sua história? O que tudo aquilo significava — a conversa antes de os vampiros vestidos com mantos chegarem, a conversa depois da saída deles?
Examinei todas as lembranças, voltando no tempo, tentando unir os fragmentos em um todo reconhecível. O mundo dos vampiros tinha algum tipo de polícia, e ela era bem assustadora. Nosso grupo selvagem de vampiros com meses de idade seria um exército, e esse exército era, de alguma forma, ilegal. Nossa criadora tinha um inimigo. Ou melhor, dois inimigos. E nós atacaríamos um deles em cinco dias, ou os outros, com os mantos assustadores, a atacariam — ou nos atacariam, ou os dois. Seríamos treinados para esse ataque... assim que Riley voltasse. Dei uma olhada para a porta, depois me obriguei a manter os olhos fixados na página diante de mim. E na história dos visitantes. Ela estava preocupada com alguma decisão. Estava satisfeita por ter tantos vampiros — tantos soldados. Riley estava feliz por Diego e eu termos sobrevivido... Ele dissera que pensara ter perdido mais dois para o sol, então, isso devia significar que ele não sabia como os vampiros realmente reagiam ao sol. Mas o que ela dissera era estranho. Ela perguntara se Riley tinha certeza. Certeza de que Diego sobrevivera? Ou... certeza de que a história de Diego era verdadeira?
Esse último pensamento me amedrontou. Ela já sabia que o sol não nos fazia mal? Se sabia, por que mentira para Riley e, por intermédio dele, para nós?
Por que ela haveria de nos querer no escuro — literalmente? Era muito importante para ela que continuássemos ignorantes?
Importante o bastante para que isso colocasse Diego em perigo? Eu me aproximava do pânico e já estava paralisada pelo medo. Se ainda pudesse suar, estaria suando. Tive de me concentrar para virar a página, para manter os olhos baixos.
Riley estava sendo enganado ou também estava envolvido naquilo? Quando dissera que havia pensado ter perdido mais dois para o sol, ele se referira ao sol literalmente... ou à mentira sobre o sol?
Se a segunda alternativa fosse a correta, então, saber a verdade seria equivalente a estar perdido. O pânico atrapalhava meus pensamentos.
Tentei ser racional e encontrar algum sentido naquilo. Era mais difícil sem Diego. Ter alguém com quem conversar, com quem interagir, havia aguçado minha capacidade de concentração. Sem isso, o medo rondava meus pensamentos, misturando-se à sede sempre presente. A sedução do sangue estava constantemente prestes a aflorar. Mesmo bem alimentada, eu podia sentir o ardor e a necessidade.
Pense nela, pense em Riley, disse a mim mesma. Precisava entender por que eles mentiriam — se estavam mentindo — para tentar deduzir o que o fato de Diego conhecer seu segredo significaria para eles.
Se não tivessem mentido, se tivessem simplesmente dito que o dia era para nós tão seguro quanto a noite, o que teria mudado? Imaginei como tudo seria se não precisássemos ficar confinados em um porão escuro o dia inteiro, se os vinte e um — talvez menos agora, dependendo de como os grupos de caça estavam se saindo lá fora — fossem livres para fazer o que quisessem quando quisessem.
Desejaríamos caçar. Isso era certo.
Se não tivéssemos de voltar, se não precisássemos nos esconder... bem, muitos de nós não voltariam com regularidade. Era difícil pensar em voltar quando a sede ainda estava no comando. Mas Riley incutira profundamente em todos nós a ameaça da conflagração, de revivermos aquela dor horrível que havíamos sentido uma vez. Essa era a razão pela qual conseguíamos nos conter. Autopreservação, o único instinto mais forte que a sede.
Então, a ameaça nos mantinha juntos. Havia outros esconderijos, como a caverna de Diego, mas quem mais pensaria nesse tipo de coisa? Tínhamos um lugar para onde ir, uma base, era para lá que íamos. Pensar com clareza não é a especialidade de um vampiro. Ou, pelo menos, não dos vampiros jovens. Riley pensava com clareza. Diego tinha pensamentos mais nítidos que os meus. Aqueles vampiros cobertos por mantos eram terrivelmente focados. Senti um arrepio. Então, a rotina não nos controlaria para sempre. O que eles fariam quando fôssemos mais velhos, mais racionais? Eu me dei conta de que ninguém era mais antigo que Riley. Todo mundo ali era novo. Ela precisava de muitos de nós para enfrentar o inimigo misterioso. Mas e depois?
Tive a forte sensação de que não iria querer estar por perto nesse momento. E de repente percebi algo absurdamente óbvio. A resposta que antes estivera rondando, às margens da minha compreensão, enquanto rastreava o bando de vampiros até aquela nova casa com Diego.
Eu não precisava ficar por perto para esse momento. Não precisava ficar por perto nem por mais uma noite.
Fiquei novamente paralisada ao pensar nessa ideia colossal.
Se Diego e eu não soubéssemos os destinos prováveis da gangue, nós os teríamos encontrado? Possivelmente, não. E aquele era um grupo grande deixando um rastro considerável. E se você fosse um vampiro solitário, um vampiro que não precisasse se mover por terra, que se deslocasse por cima das árvores, saltasse, progredisse sem deixar uma trilha na margem da água... Só um, ou talvez dois vampiros capazes de nadar até onde quisessem mar adentro, para longe... E que pudessem voltar à terra onde decidissem... Canadá, Califórnia, Chile, China...
Seria impossível encontrar esses dois vampiros. Eles desapareceriam. Sumiriam como se tivessem virado fumaça.
Não precisávamos ter voltado na outra noite. Não devíamos ter voltado! Por que eu não pensara nisso antes?
Mas... Diego teria concordado? De repente, eu não me sentia mais tão confiante. Será que Diego seria mais leal a Riley? Ele acharia que era seu dever ajudar Riley? Diego conhecia Riley havia muito mais tempo... e só nos conhecemos de verdade havia um dia. Ele era mais próximo de Riley que de mim?
Pensei nisso e franzi a testa.
Bem, eu descobriria assim que tivéssemos um minuto a sós. E então, talvez, se nosso clube secreto realmente tivesse alguma importância, não faria diferença o que nossa criadora planejara. Poderíamos desaparecer, e Riley teria de se arranjar com dezenove vampiros, ou criar outros rapidamente. De um jeito ou de outro, não seria problema nosso.
Eu mal podia esperar para contar meu plano a Diego. Tinha a intuição de que ele ia concordar comigo. Esperava que concordasse.
De repente, imaginei se não havia sido isso o que realmente acontecera a Shelly, Steve e os outros garotos que desapareceram. Eu sabia que eles não tinham queimado ao sol. Será que Riley só afirmou ter visto as cinzas dos desaparecidos como um artifício para nos manter com medo, dependentes dele? Para nos obrigar a voltar para casa e para ele a cada amanhecer? Talvez Shelly e Steve tivessem simplesmente ido embora sozinhos. Sem Raoul. Sem inimigos ou exércitos ameaçando seu futuro imediato.
Talvez fosse esse o verdadeiro significado do que Riley dissera sobre tê-los perdido para o sol. Fugitivos. E, nesse caso, ele ficara feliz por Diego não ter desertado também, certo?
Ah, se Diego e eu tivéssemos fugido! Estaríamos livres, como Shelly e Steve. Sem regras, sem medo do raiar do sol.
Mais uma vez, imaginei todos nós soltos, sem hora para voltar para casa. Podia até ver Diego e eu nos movendo como ninjas pelas sombras. Mas também podia ver Raoul, Kevin e os outros, monstros brilhantes como globos de luz no meio de uma rua movimentada no centro da cidade, os corpos se acumulando, a gritaria, os helicópteros sobrevoando a área, os policiais impotentes com suas balas patéticas que não causariam nem arranhões, as câmeras, o pânico que se alastraria tão depressa quanto as fotos, compartilhadas rapidamente mundo afora.
Vampiros não seriam um segredo por muito tempo. Nem mesmo Raoul conseguiria matar as pessoas rápido o bastante para impedir que a história se espalhasse.
Havia ali uma linha de raciocínio que eu tentava apreender antes de me distrair novamente.
Um: humanos não sabiam sobre a existência de vampiros. Dois: Riley nos incentivava a ser discretos, a não atrair a atenção dos humanos ou, do contrário, eles nos reconheceriam. Três: Diego e eu havíamos deduzido que todos os vampiros deviam seguir as mesmas diretrizes, ou o mundo inteiro saberia sobre nós. Quatro: devia haver uma razão para tudo ser mantido como era, e certamente não eram as armas inofensivas da polícia humana o que os motivava. Sim, a razão tinha de ser muito séria para obrigar todos os vampiros a se esconder o dia inteiro em porões abafados. Razão suficiente, talvez, para fazer Riley e nossa criadora mentirem para nós e nos aterrorizarem com o sol incinerador. Quem sabe Riley explicaria a razão a Diego, que, dada a importância daquilo e sendo ele tão responsável, prometeria guardar o segredo — e os dois se dariam por satisfeitos. Sem dúvida.
Mas e se o que havia acontecido a Shelly e Steve fosse o oposto? Eles tinham descoberto a história da pele brilhante, mas não fugiram? E se foram falar com Riley?
E, droga, isso destruía o elo seguinte na minha cadeia lógica. A linha de raciocínio se interrompeu e comecei a entrar em pânico outra vez, por causa de Diego.
O nervosismo aumentava, e percebi que tinha passado um bom tempo pensando. Podia sentir a manhã se aproximando. Não faltava mais que uma hora. Então, onde estava Diego? Onde estava Riley?
Eu ainda pensava nisso quando a porta se abriu e Raoul pulou os degraus da escada, rindo com os companheiros. Eu me encolhi e cheguei mais perto de Fred. Raoul não nos notou. Ele olhou para o vampiro torrado no meio do porão e riu ainda mais. Seus olhos estavam vermelhos e brilhantes.
Nas noites em que saía para caçar, Raoul raramente retornava antes que fosse absolutamente necessário. Ele continuava se alimentando enquanto desse. Então, o raiar do dia devia estar ainda mais próximo do que eu havia pensado.
Riley devia ter exigido que Diego provasse o que dizia. Essa era a única explicação. E eles esperaram pelo amanhecer. Mas... isso significava que Riley não sabia a verdade, que nossa criadora estava mentindo para ele também. Ou não? Meus pensamentos se confundiram outra vez.
Kristie apareceu minutos mais tarde com três de seus parceiros. Ela reagiu com indiferença à pilha de cinzas. Fiz uma contagem rápida quando mais dois caçadores passaram correndo pela porta.
Vinte vampiros. Todos estavam em casa, exceto Diego e Riley. O sol surgiria a qualquer momento.
A porta no topo da escada do porão rangeu quando alguém a empurrou. Eu me levantei de um salto.
Riley entrou. E fechou a porta. E desceu a escada.
Não havia ninguém com ele.
Antes que eu pudesse processar a informação, Riley gritou, um animalesco urro de raiva. Ele olhava para as cinzas no chão, os olhos tomados pela fúria. Todos ficaram em silêncio, imóveis. Já tínhamos visto Riley perder a calma, mas aquilo foi diferente.
Ele se virou e agarrou uma caixa de som que estava presa à parede, arremessando-a do outro lado da sala. Jen e Kristie se desviaram do objeto, que se despedaçou contra a parede, espalhando uma nuvem de cimento e gesso. Depois esmagou o aparelho de som com o pé, e o baixo retumbante foi calado. Ele então saltou para onde estava Raoul e o agarrou pelo pescoço.
— Eu nem estava aqui — Raoul gritou, apavorado.
Isso era algo que eu nunca havia visto antes.
Riley grunhiu hediondamente e arremessou Raoul como havia feito com a caixa de som. Jen e Kristie novamente saíram da rota do míssil. O corpo de Raoul atravessou a parede, abrindo ali um enorme buraco.
Riley agarrou Kevin pelo ombro e — com um ruído familiar — arrancou sua mão direita. Kevin gritou de dor e tentou escapar das garras de Riley, que o chutou na altura das costelas. Outro grito lancinante e Riley arrancou o que restava do braço de Kevin. Ele partiu o braço em dois, na altura do cotovelo, e atirou os pedaços no rosto angustiado de Kevin — o barulho foi como o de um martelo batendo em uma pedra.
— Qual é o problema com vocês? — Riley gritou para todos nós. — Por que são tão estúpidos? — Ele tentou agarrar o garoto louro fã do Homem-Aranha, mas ele saltou e conseguiu escapar. O salto o deixou bem perto de Fred, e ele pulou de volta para perto de Riley, sufocado pela ânsia de vômito.
— Algum de vocês tem cérebro?
Riley lançou um garoto chamado Dean na direção dos consoles dos games, destruindo tudo, depois pegou outra menina — Sara — e arrancou sua orelha esquerda e um punhado de cabelos. Ela rosnou agoniada.
De repente ficou óbvio que o que Riley estava fazendo era muito perigoso. Éramos muitos ali. Raoul já estava de volta. Kristie e Jen, normalmente suas inimigas, colocavam-se a seu lado em atitude defensiva. Alguns outros se uniam em grupos no espaço do porão.
Eu não entendi se Riley tinha percebido a ameaça ou se o acesso de fúria chegara naturalmente ao fim. Ele respirou fundo. Jogou a orelha e os cabelos de volta para Sara, que se encolheu com medo. Ela lambeu o pedaço de orelha — o próprio veneno faria com que ele se reintegrasse ao restante do corpo. Mas não havia solução para o cabelo arrancado; Sara teria uma pequena calvície permanente.
— Escutem bem! — Riley disse em voz baixa, mas firme. — A vida de todos nós depende de vocês ouvirem o que vou dizer agora e pensarem! Todos vamos morrer. Cada um de nós, vocês e eu também, se não forem capazes de agir como se tivessem cérebro. Só por alguns dias!
O discurso não tinha nenhuma semelhança com suas habituais pregações e tentativas de nos controlar. Definitivamente, ele conseguira atrair a atenção de todos.
— É hora de crescer e assumir responsabilidades. Acham que vão viver desse jeito de graça? Acham que todo o sangue de Seattle não tem um preço?
Os pequenos grupos de vampiros já não pareciam ameaçadores. Todos estavam assustados, alguns trocavam olhares perplexos. Pelo canto do olho, vi que Fred virou o rosto para mim, mas não o encarei. Minha atenção estava focada em duas coisas: Riley, para o caso de ele começar a atacar novamente, e a porta. A porta, que continuava fechada.
— Estão me ouvindo agora? Estão ouvindo de verdade? — Riley fez uma pausa, mas ninguém respondeu. A sala estava absolutamente quieta. — Vou explicar o sistema precário em que todos vocês estão inseridos. Vou tentar falar de modo bem simples, para os mais estúpidos acompanharem. Raoul, Kristie, venham aqui.
Riley chamou os líderes das duas maiores gangues, naquele breve momento aliados contra ele. Nenhum dos dois atendeu ao chamado. Em vez disso, se prepararam para um confronto, Kristie mostrando os dentes.
Esperei que Riley retrocedesse, que se desculpasse. Para acalmá-los e depois convencê-los a fazer o que ele queria. Mas aquele era um Riley diferente.
— Muito bem — ele disse. — Vamos precisar de líderes para garantir nossa sobrevivência, mas vejo que nenhum dos dois está preparado para a tarefa. Pensei que tivessem aptidão para liderar. Estava enganado. Kevin, Jen, por favor, juntem-se a mim como chefes dessa equipe.
Kevin levantou a cabeça perplexo. Ele havia acabado de pôr o braço de volta no lugar. Embora cautelosa, sua expressão também revelava evidente satisfação. Ele se levantou devagar. Jen olhou para Kristie como se esperasse sua permissão. Raoul rangeu os dentes.
A porta no alto da escada continuava fechada.
— Também não é capaz? — Riley perguntou irritado.
Kevin deu um passo na direção de Riley, mas Raoul adiantou-se a ele, atravessando o porão com dois saltos fabulosos, embora baixos. Ele jogou Kevin contra a parede sem dizer uma única palavra e assumiu a posição atrás de Riley, à direita.
Riley se permitiu um sorriso contido. A manipulação não fora sutil, mas acabou sendo eficiente.
— Kristie ou Jen, quem vai liderar? — Riley perguntou, parecendo gostar daquilo.
Jen ainda esperava por um sinal de Kristie quanto ao que deveria fazer. Kristie a encarou por um instante, depois afastou do rosto os cabelos claros e lançou-se como um raio para ocupar o posto à esquerda de Riley.
— Essa decisão foi muito demorada — Riley disse num tom sério. — Não temos o luxo do tempo. Não podemos mais ficar por aí brincando. Deixei vocês fazerem praticamente tudo o que quiseram, mas isso acaba hoje. Esta noite.
Ele olhou em volta, encarando cada um de nós, certificando-se de que o escutávamos. Na minha vez, sustentei seu olhar apenas por um segundo e depois meus olhos escorregaram para a porta. Corrigi o deslize imediatamente, mas Riley já não me olhava. Eu me perguntei se ele havia notado o lapso. Ou mesmo se havia me visto, já que eu estava ao lado de Fred.
— Temos um inimigo — Riley anunciou.
Ele deixou que a notícia pairasse no ar por um instante.
Eu podia notar que a informação foi um choque para vários vampiros ali no porão. O inimigo era Raoul, ou, para os partidários de Raoul, o inimigo era Kristie. O inimigo estava ali, porque o mundo todo estava ali. A ideia de que lá fora havia outras forças suficientemente poderosas para nos afetar era nova para a maioria. E até o dia anterior, também teria sido nova para mim.
— Alguns de vocês talvez tenham sido suficientemente espertos para terem notado que, se existimos, outros vampiros também existem. Vampiros mais velhos, mais inteligentes... mais talentosos. Outros vampiros que querem nosso sangue!
Raoul sibilou, e vários de seus seguidores o imitaram numa demonstração de apoio.
— Exatamente — Riley confirmou, aparentemente com a intenção de inflamá-los. — Seattle já pertenceu a eles, mas esses vampiros se mudaram há muito tempo. Agora sabem sobre nós, e estão com inveja do sangue fácil que costumavam ter por aqui. Sabem que o território agora é nosso, mas querem tomá-lo de volta. E estão vindo buscar o que querem. Um a um, eles vão nos caçar! Vamos queimar enquanto eles se banqueteiam!
— Nunca! — Kristie rosnou.
Alguns de seus seguidores fizeram o mesmo, e outros da gangue de Raoul também.
— Não temos muitas opções — Riley nos disse. — Se esperarmos aqui, eles terão a vantagem. Afinal, estamos em um território conhecido pelo inimigo. E eles não querem um confronto direto, porque estamos em maior número e somos mais fortes. Querem nos pegar separadamente; querem tirar proveito da nossa maior fraqueza. Algum de vocês tem inteligência suficiente para saber qual é?
Ele apontou para as cinzas no chão, agora espalhadas pelo tapete e impossíveis de reconhecer como um ex-vampiro, e esperou.
Ninguém se mexeu.
Riley soltou um ruído de contrariedade.
— União! — ele gritou. — Não temos nenhuma! Que tipo de ameaça podemos oferecer se não paramos de nos matar? — Ele chutou as cinzas, levantando uma pequena nuvem negra. — Podem imaginar como vão rir de nós? Já estão certos de que vai ser fácil tomar a cidade que agora é nossa. Acreditam que somos fracos porque somos estúpidos! Que vamos simplesmente entregar nosso sangue.
Metade dos vampiros rosnava, protestando.
— São capazes de trabalhar juntos? Ou vamos todos morrer?
— Podemos acabar com eles, chefe. — Raoul grunhiu.
Riley o encarou furioso.
— Não se não conseguirem se controlar! Não se não puderem cooperar com cada pessoa nesta sala. Qualquer um que eliminarem — ele chutou as cinzas mais uma vez — pode ser aquele que o teria mantido vivo. Cada vez que matam alguém do próprio bando, estão dando um valioso presente ao inimigo. Estão dizendo: Aqui, venha me matar!
Kristie e Raoul se olharam como se estivessem se vendo pela primeira vez. Outros faziam o mesmo. A palavra bando não era desconhecida, claro, mas nenhum de nós a aplicara antes ao nosso grupo.
— Vou falar um pouco sobre os nossos inimigos — disse Riley, e todos os olhos se fixaram nele. — Eles são um bando muito mais antigo que o nosso. Estão por aí há centenas de anos e sobrevivem há tanto tempo por uma razão. São astutos e talentosos e virão retomar Seattle confiantes, porque ouviram dizer que os únicos adversários que terão nessa retomada são um bando de crianças desorganizadas que farão metade do trabalho por eles!
Mais grunhidos, mas alguns eram menos furiosos que cautelosos. Alguns dos vampiros mais quietos, os que Riley teria chamado de mais domesticados, pareciam nervosos.
E Riley também percebeu esse nervosismo.
— É assim que eles nos veem, mas isso porque não conseguem nos ver juntos. Juntos, podemos destruí-los. Se eles pudessem ver todos nós, lado a lado, lutando juntos, ficariam aterrorizados. E é assim que nos verão. Porque não vamos esperar que eles apareçam aqui e se lancem ao ataque. Vamos pegá-los numa emboscada. Em quatro dias.
Quatro dias? Não achava que nossa criadora fosse querer agir tão perto do prazo final. Olhei novamente para a porta fechada. Onde estaria Diego?
Outros reagiram com surpresa ao prazo anunciado, alguns com medo.
— Essa é a última coisa pela qual eles vão esperar — Riley nos garantiu — Todos nós, juntos, prontos para enfrentá-los. E deixei a melhor parte para o final. Eles são apenas sete.
Houve um instante de silêncio incrédulo.
Raoul foi o primeiro a reagir:
— O quê?
Kristie olhava para Riley com a mesma incredulidade, e ouvi sussurros pelo porão.
— Sete?
— Está brincando?
— Ei! — Riley disparou, firme. — Eu não estava brincando quando disse que esse bando é perigoso. Eles são inteligentes e... diabólicos. Dissimulados. Teremos a força do nosso lado; eles terão a sagacidade. Se jogarmos do jeito deles, eles serão os vencedores. Mas se os enfrentarmos nos nossos termos... — Riley não terminou a frase, apenas sorriu.
— Vamos agora — Raoul propôs. — Vamos tirá-los logo de cena.
Kevin rosnou entusiasmado, apoiando a sugestão.
— Devagar, idiota. Apressar as coisas e agir sem planejamento não vai nos ajudar a vencer — Riley retrucou.
— Conte tudo o que precisamos saber sobre eles — Kristie pediu, lançando para Raoul um olhar de superioridade.
Riley hesitou, como se estivesse escolhendo as palavras.
— Muito bem, por onde começo? Acho que a primeira coisa que precisam saber é que... vocês ainda não sabem tudo que há para saber sobre vampiros. Não quis assustá-los no começo com tanta informação. — Outra pausa. Todos pareciam confusos. — Vocês têm um pouco de experiência com o que chamamos de “talentos”. Temos Fred.
Todos olharam para Fred — ou tentaram olhar. Pela expressão de Riley, eu podia dizer que Fred não gostava nada de ser apontado como exemplo. A impressão era de que ele elevara realmente à potência máxima seu “talento”, como Riley chamava. Riley se encolheu e desviou os olhos rapidamente. Eu ainda não sentia nada.
— Sim, existem alguns vampiros que têm dons além da força incomum e dos sentidos aguçados. Vocês viram um exemplo disso em... no nosso bando. — Ele tomou o cuidado de não repetir o nome de Fred. — Os dotados de talentos especiais são raros, um em cinquenta, talvez, mas cada um é diferente. Há uma vasta gama de talentos por aí, e alguns são mais poderosos que outros.
Eu ouvia agora vários murmúrios, pessoas imaginando se podiam ser talentosas. Raoul inflava o peito como se já houvesse decidido que tinha algum talento. Até eu podia perceber que o único por ali que se enquadrava naquela categoria especial estava bem ao meu lado.
— Prestem atenção! — Riley exigiu. — Não estou aqui falando isso tudo para vocês se distraírem.
— Esse bando inimigo — interveio Kristie —, eles têm talentos, certo?
Riley respondeu com um movimento afirmativo de cabeça.
— Exatamente. Fico feliz por alguém aqui conseguir ligar os pontos.
Raoul retraiu o lábio superior, mostrando os dentes.
— Esse bando é perigosamente talentoso — Riley continuou, baixando um pouco a voz. — Há entre eles alguém que lê mentes. — Ele examinou o rosto de cada um de nós, tentando identificar se compreendíamos a importância dessa revelação. E não parecia satisfeito com o que via. — Pensem, garotos! Essa criatura vai saber tudo o que vocês têm em mente. Se atacarem, ele vai saber que movimento farão antes que vocês se movam. Se forem para a esquerda, ele estará esperando.
Houve um silêncio nervoso enquanto todos imaginavam a situação.
— É por isso que temos sido tão cuidadosos, eu e aquela que os criou.
Kristie deu um passo para longe de Riley quando ele a mencionou. Raoul parecia mais furioso. Todos estavam nervosos.
— Vocês não sabem o nome dela e não sabem como ela é. Isso nos protege. Se eles encontrassem um de vocês sozinho, não perceberiam a ligação com ela e poderiam deixá-lo seguir seu caminho em paz. Porém, se soubessem que vocês fazem parte do bando, a execução seria rápida.
Isso não fazia sentido para mim. O segredo não a protegia mais do que protegia qualquer um de nós? Riley continuou depressa antes que tivéssemos tempo de analisar essa afirmação.
— É claro, agora não importa, agora que eles decidiram vir para Seattle. Vamos surpreendê-los quando se aproximarem daqui, e vamos acabar com eles. — Ele silvou, uma única nota baixa por entre os dentes. — Pronto. E então não só essa cidade será nossa, como outros bandos saberão que não é bom se meter conosco. Não teremos mais que tomar tanto cuidado para encobrir nossos rastros. Todo mundo vai ter todo o sangue que quiser. Vamos caçar todas as noites. Vamos nos mudar para a cidade e vamos governá-la.
Os grunhidos e rosnados eram como aplausos. Todos o apoiavam. Exceto eu. Eu não me movi, não emiti nenhum som. Fred também não, mas por que seria?
Eu não apoiava Riley porque suas promessas soavam como mentiras. Ou toda a minha linha de raciocínio estava errada. Riley dizia que só o que nos impedia de caçar sem cautela ou contenção eram aqueles inimigos. Mas isso não batia com o fato de que todos os outros vampiros deviam ser muito discretos, ou os humanos já saberiam de sua existência há muito tempo.
Eu não conseguia me concentrar na solução desse enigma, porque a porta no alto da escada continuava fechada. Diego...
— Mas precisamos agir juntos. Hoje vou ensinar a vocês algumas técnicas. Técnicas de luta. É mais complicado que rolar no chão como crianças pequenas. Quando escurecer, vamos sair para treinar. Quero que treinem duro, mas mantenham o foco. Não posso perder mais nenhum membro desse bando! Precisamos uns dos outros, cada um de nós. Não vou tolerar mais nenhuma estupidez. Se acham que não precisam me ouvir, estão errados. — Ele parou por um segundo, os músculos compondo uma expressão diferente. — E vão descobrir quanto estão enganados quando eu os levar até ela. — Eu estremeci e senti o arrepio percorrer todos no porão. — Vou segurá-los enquanto ela arranca suas pernas e depois, lentamente, muito lentamente, queima seus dedos, orelhas, lábios, língua e todos os outros apêndices supérfluos, um a um.
Todos já havíamos perdido um membro, no mínimo, e todos havíamos queimado quando transformados em vampiros, por isso podíamos imaginar com facilidade qual seria a sensação, mas o mais aterrorizante não era a ameaça. O que realmente causava medo era a expressão de Riley enquanto descrevia a cena. O rosto não estava contorcido pela raiva, como costumava acontecer quando ele se irritava; sua expressão era calma, fria, suave, linda, a boca distendida em um sorriso sutil. De repente, tive a impressão de que aquele era um novo Riley. Algo mudara nele, se tornara mais severo, mas eu não conseguia imaginar o que poderia ter acontecido em uma noite para criar aquele sorriso cruel, perfeito.
Desviei o olhar, sacudida por um leve arrepio, e vi como o sorriso de Raoul se modificava para imitar o de Riley. Podia quase ver as engrenagens se movendo na cabeça de Raoul. No futuro, ele não mataria suas vítimas com tanta rapidez.
— Agora, vamos montar equipes para trabalhar em grupos — Riley decidiu, o rosto voltando ao normal. — Kristie, Raoul, reúnam seus garotos e dividam os outros igualmente entre vocês. Sem briga! Mostrem que podem fazer tudo isso de maneira racional. Provem seu valor.
Ele se afastou dos dois líderes, ignorando o fato de eles terem começado a discutir imediatamente, e descreveu um arco pela periferia do porão. Ele tocava alguns vampiros no ombro ao passar por eles, incentivando-os a se aproximar de um dos dois novos líderes. Riley deu uma volta enorme, e demorei a perceber que vinha em minha direção.
— Bree — ele disse, olhando com dificuldade para o lugar onde eu estava, como se olhar para mim fosse custoso.
Eu me senti um bloco de gelo. Ele devia ter farejado minha trilha. Estava morta.
— Bree? — ele repetiu, agora num tom mais suave. A voz me fez lembrar a primeira vez que ele falou comigo. Quando ele foi bom para mim. E depois, ainda mais baixo: — Prometi a Diego que daria o recado. Ele me pediu que lhe dissesse que foi uma coisa ninja. Isso faz algum sentido para você?
Riley ainda não conseguia olhar diretamente para mim, mas estava se aproximando.
— Diego? — murmurei, não consegui me conter.
Riley sorriu.
— Podemos conversar? — Ele inclinou a cabeça para a porta. — Já verifiquei todas as janelas. O primeiro andar está totalmente escuro e seguro.
Eu sabia que não estaria mais tão segura quando me afastasse de Fred, mas precisava ouvir o que Diego queria que eu soubesse. O que havia acontecido? Eu devia ter ficado com ele para ir ao encontro de Riley.
Segui Riley pelo porão, sempre de cabeça baixa. Ele deu algumas instruções a Raoul, cumprimentou Kristie com um aceno de cabeça e subiu a escada. Pelo canto dos olhos, notei que alguns acompanhavam curiosos sua movimentação.
Riley passou pela porta primeiro e, como ele havia afirmado, a cozinha da casa estava totalmente escura. Fez um sinal para que eu continuasse seguindo seus passos e me levou por um corredor escuro com alguns quartos de portas abertas, depois atravessamos uma porta cuja tranca ele removeu. Fomos parar na garagem.
— Você é corajosa — ele comentou em voz baixa. — Ou é muito ingênua. Esperava ter mais trabalho para convencê-la a deixar o porão com o sol alto.
Opa! Eu deveria ter demonstrado medo, hesitação. Mas agora era tarde demais. Encolhi os ombros.
— Então, você e Diego são bem próximos, não é? — ele perguntou. Falava tão baixo que as palavras mais pareciam suspiros. Ainda assim, se todos ficassem em silêncio no porão, provavelmente poderiam ouvi-lo, mas o barulho lá embaixo, porém, era agora assustador.
Encolhi os ombros mais uma vez.
— Ele salvou minha vida — murmurei.
Riley levantou o queixo, quase um aceno, mas incompleto, e me estudou. Ele acreditava em mim? Pensava que eu ainda tinha medo da luz do dia?
— Ele é o melhor — Riley respondeu. — O mais esperto que encontrei.
Concordei, movendo a cabeça uma vez.
— Tivemos uma breve reunião sobre a situação. Concluímos que precisamos de mais vigilância. Prosseguir às cegas é muito perigoso. Ele é o único em quem confio para mandar na frente. — Riley suspirou quase furioso. — Queria ter dois dele! Raoul tem pavio muito curto, e Kristie é muito autocentrada para conseguir enxergar o panorama geral, mas eles são os melhores que tenho, e vou ter que me contentar com isso. Diego disse que você também é esperta.
Esperei, sem saber quanto da história Riley sabia.
— Preciso da sua ajuda com Fred. Puxa, aquele garoto é forte! Hoje nem consegui olhar para ele.
Assenti outra vez, cautelosa.
— Imagine se nossos inimigos não puderem nem olhar para nós. Vai ser muito fácil!
Eu não acreditava que Fred fosse gostar da ideia, mas podia estar enganada. Ele não parecia se importar com nosso bando. Será que ia querer nos salvar? Não respondi a Riley.
— Você passa muito tempo com ele.
Mais uma vez, dei de ombros.
— Perto dele ninguém me incomoda. Não é fácil.
Riley apertou os lábios e assentiu com a cabeça.
— Esperta, como Diego disse.
— Onde ele está?
Eu não devia ter perguntado. As palavras simplesmente saíram da minha boca por vontade própria. Esperei, ansiosa, tentando parecer indiferente e, provavelmente, falhando.
— Não temos tempo a perder. Eu o enviei para o sul assim que descobri o que se aproxima de nós. Se nossos inimigos decidirem antecipar o ataque, precisamos saber. Diego estará conosco quando formos ao encontro deles.
Tentei imaginar onde Diego estaria. Queria estar lá com ele. Talvez conseguisse convencê-lo a não seguir as ordens de Riley, não se colocar na linha de fogo por ele. Talvez não conseguisse. Tudo indicava que Diego era realmente próximo de Riley, como eu temia.
— Diego me pediu para lhe dizer uma coisa.
Eu o encarei. Depressa demais, ansiosa demais. E me entreguei novamente.
— Para mim, soou como uma bobagem. Ele falou: “Diga a Bree que já pensei no cumprimento. Eu mostro a ela em quatro dias, quando nos encontrarmos”. Faz algum sentido para você?
Tentei fazer cara de desentendida.
— Um pouco. Ele disse algo sobre precisar de um cumprimento secreto. Para a caverna subaquática. Uma espécie de senha. Mas acho que estava apenas brincando. Não sei o que pode querer me dizer agora com esse recado.
Riley riu.
— Pobre Diego.
— Por quê?
— Acho que aquele garoto gosta muito mais de você que você dele.
— Ah... — Desviei o olhar, confusa.
Diego me mandara aquele recado como um meio de me fazer entender que podia confiar em Riley? Mas ele não contara a Riley que eu sabia sobre o sol. Ainda assim, devia confiar em Riley para revelar tanto, demonstrar que gostava de mim. Mas eu achava mais sensato manter a boca fechada. Muitas coisas tinham mudado.
— Não o descarte, Bree. Ainda não. Ele é o melhor, como eu disse. Dê uma chance ao garoto.
Riley estava me dando um conselho romântico? Aquilo não podia ficar mais esquisito do que já estava. Assenti uma vez e murmurei:
— É claro.
— Veja se consegue conversar com Fred. Ter certeza de que ele está conosco.
— Farei o que puder — disse, encolhendo os ombros mais uma vez.
Riley sorriu.
— Ótimo. Vou encontrar você em particular antes de partirmos, e então me contará como foi. Farei com que tudo pareça casual, não como hoje. Não quero que ele sinta que o estou espionando.
— Tudo bem.
Riley fez um gesto me convidando a segui-lo e nós voltamos ao porão.
O treinamento durou o dia inteiro, mas eu não participei. Quando Riley voltou para perto de sua dupla de líderes, retornei para o meu lugar ao lado de Fred. Os outros tinham sido divididos em quatro grupos de quatro, com Raoul e Kristie os orientando. Nenhum dos dois escolhera Fred para sua equipe; ou ele os ignorara, ou ninguém sequer havia percebido que ele estava ali. Mas eu conseguia vê-lo. Ele se destacava — o único que não estava participando, um grande elefante louro no meio da sala.
Sem nenhum interesse em integrar uma das equipes, eu apenas observava. Ninguém parecia notar que eu estava sentada com Fred. Embora fôssemos de certa forma invisíveis, graças ao talentoso Fred, eu me sentia terrivelmente óbvia. Queria ser invisível para mim mesma — queria poder ver a ilusão e acreditar nela.
Mas ninguém nos notava, e depois de um tempo consegui quase relaxar.
Assisti ao treino atentamente. Queria saber tudo, por precaução. Não planejava lutar; minha intenção era encontrar Diego e fugir de tudo aquilo. Mas e se Diego quisesse a luta? Ou se tivéssemos de lutar para escapar dos outros? Era melhor prestar atenção.
Só uma vez alguém perguntou por Diego. Foi Kevin, mas eu tinha a impressão de que Raoul o incitara a perguntar.
— E então, Diego acabou frito, mesmo? — Kevin perguntou com um tom de deboche forçado.
— Diego está com ela — Riley respondeu, e ninguém precisou perguntar a quem ele se referia. — Vigilância.
Alguns poucos deram de ombros. Ninguém disse mais nada sobre Diego.
Ele estaria mesmo com ela? A ideia me incomodava. Talvez Riley só quisesse evitar novas perguntas. Provavelmente, não queria que Raoul ficasse enciumado e se sentisse preterido, especialmente agora, quando Riley precisava dele mais arrogante que nunca. Eu não podia ter certeza e não ia perguntar. Fiquei quieta, como de costume, e continuei assistindo ao treino.
No final, assistir ficou sem graça, e a sede começou a se manifestar. Riley não deu descanso a seu exército por três dias e duas noites. Durante o dia era mais difícil me manter fora da situação, porque ficávamos todos espremidos no porão. De certa forma, isso tornava tudo mais fácil para Riley, pois ele podia interromper uma briga rapidamente, antes que ela se complicasse. À noite, do lado de fora, eles tinham mais espaço para treinar de verdade, mas Riley ficava ocupado na urgência para resgatar membros arrancados e devolvê-los rapidamente aos donos. Ele controlava bem seu temperamento, e dessa vez fora suficientemente astuto para recolher todos os isqueiros. Eu teria apostado que aquilo tudo ia escapar ao controle, que perderíamos pelo menos alguns do bando com Raoul e Kristie se enfrentando dia e noite. Mas Riley os controlava bem, melhor do que eu havia pensado ser possível.
De qualquer maneira, tudo era basicamente repetição. Ouvi Riley dizendo a mesma coisa muitas e muitas vezes. Trabalhem juntos, cuidado com a retaguarda, não ataquem de frente; trabalhem juntos, cuidado com a retaguarda, não ataquem de frente; trabalhem juntos, cuidado com a retaguarda, não ataquem de frente. Era meio ridículo, francamente, e fazia o grupo parecer excepcionalmente estúpido. Mas eu tinha certeza de que teria sido igualmente estúpida se estivesse com eles no meio da briga, em vez de me manter apenas como uma espectadora tranquila ao lado de Fred.
Aquilo me lembrava de algum modo como Riley havia incutido em nós o medo do sol. Repetição constante.
Mesmo assim, era tão chato que, depois de umas dez horas naquele primeiro dia, Fred arrumou um baralho e começou a jogar paciência. Era mais interessante que assistir aos mesmos erros muitas e muitas vezes, por isso passei a maior parte do tempo observando-o.
Depois de mais umas doze horas — estávamos no porão novamente —, toquei Fred para apontar um cinco vermelho que ele poderia mudar de lugar. Ele balançou a cabeça, concordando comigo, e moveu o cinco. Depois dessa mão, ele distribuiu as cartas para nós dois, e jogamos juntos. Não nos falávamos, mas Fred sorriu algumas vezes. Ninguém jamais olhava na nossa direção ou nos convidava a participar do treinamento.
Não havia intervalos para caçar e, conforme o tempo passava, essa necessidade foi ficando cada vez mais difícil de ignorar. As brigas eram mais constantes e surgiam pelas menores provocações. O comando de Riley se tornou mais severo, e ele mesmo arrancou dois braços. Eu tentava esquecer a sede ardente tanto quanto possível — Riley também devia estar com sede, então aquela situação não iria durar para sempre —, mas, na maior parte do tempo, a sede ocupava o centro dos meus pensamentos. Fred parecia bem tenso.
No início da terceira noite — quando ainda faltava um dia e, ao pensar no tempo passando, eu já tinha a impressão de que meu estômago vazio era um enorme nó —, Riley interrompeu todas as lutas.
— Reúnam-se, crianças — ele disse, e todos se juntaram em um semicírculo diante dele.
As gangues originais se mantinham juntas, sinal de que o treino não havia alterado nenhuma das alianças. Fred pôs o baralho no bolso traseiro da calça e se levantou. Eu fiquei de pé ao lado dele, contando com sua aura repulsiva para me esconder.
— Todos fizeram um bom trabalho — Riley começou. — Esta noite, terão uma recompensa. Alimentem-se, porque amanhã vão querer ter força.
Grunhidos aliviados soaram em todos os grupos.
— Eu disse querer, e não precisar, por um motivo — Riley continuou. — Acho que vocês já entenderam. Agiram com inteligência e trabalharam duro. Nossos inimigos nem vão saber o que os atingiu!
Kristie e Raoul rosnaram, e todos os seus aliados fizeram o mesmo. Eu estava surpresa com o que via: naquele momento, eles pareciam mesmo um exército. Não que estivessem marchando em formação ou algo do tipo, mas havia uma espécie de unidade na resposta. Como se todos fizessem parte de um grande organismo. Como sempre, Fred e eu éramos as gritantes exceções, mas eu achava que apenas Riley tinha uma vaga noção da nossa presença. De vez em quando, ele olhava pelo canto do olho para onde estávamos, quase como se quisesse ter certeza de que ainda podia sentir o talento de Fred. E Riley não parecia se importar por não nos juntarmos ao treinamento. Por enquanto, pelo menos.
— Quer dizer amanhã à noite, certo, chefe? — Raoul esclareceu.
— Certo — Riley confirmou com um sorrisinho estranho.
Ninguém parecia ter notado nada de diferente na resposta, exceto Fred. Ele me olhou com uma sobrancelha erguida. Eu encolhi os ombros.
— Estão prontos para a recompensa? — Riley perguntou.
Seu pequeno exército rosnou em resposta.
— Esta noite vocês terão uma amostra de como será nosso mundo quando a concorrência for eliminada. Venham comigo!
Riley ia na frente; Raoul e seu grupo o seguiam de perto. O grupo de Kristie começou a empurrar e arranhar os da frente para ultrapassá-los.
— Não me façam mudar de ideia! — Riley gritou das árvores adiante. — Posso deixar todos com sede. Não vou me importar!
Kristie berrou uma ordem e seu grupo seguiu indignado atrás do de Raoul. Fred e eu esperamos até o último deles desaparecer. Então, Fred fez com o braço um daqueles gestos de primeiro as damas. Não senti que ele tivesse medo de me dar as costas. Estava apenas sendo gentil. Comecei a correr atrás do exército.
Os outros já estavam bem longe, mas era fácil farejá-los. Fred e eu corríamos num silêncio cúmplice. Tentei imaginar o que ele estaria pensando. Talvez estivesse apenas com sede. Eu queimava; então, provavelmente, ele também.
Alcançamos os outros em cerca de cinco minutos, mas nos mantivemos distantes. O exército se movia num silêncio espantoso. Estavam focados, e mais... disciplinados. Lamentei que Riley não tivesse começado o treinamento há mais tempo. Agora era mais fácil ficar perto do grupo.
Atravessamos uma estrada de duas pistas completamente vazia, mais um trecho de floresta, e chegamos a uma praia. A água era calma, e como havíamos caminhado quase o tempo todo no sentido norte, aquele devia ser o estreito. Não passamos perto de nenhuma casa, e eu tinha certeza de que fora de propósito. Com sede e tensos, bastaria pouco para aquela modesta organização terminar em um barulhento vale-tudo.
Nunca havíamos caçado todos juntos, e eu tinha certeza absoluta de que mesmo agora essa não era uma boa ideia. Lembrei-me de Kevin e do garoto Homem-Aranha brigando pela mulher no carro naquela primeira noite em que falei com Diego. Se Riley não tivesse um bom suprimento de corpos a oferecer, o grupo começaria a se digladiar para ver quem conseguiria mais sangue.
Riley parou na beirada da água.
— Não se acanhem — ele nos orientou. — Quero todos bem alimentados e fortes, no auge. Agora... vamos nos divertir!
Ele mergulhou no mar. Os outros estavam animados quando submergiram atrás dele. Fred e eu os seguimos mais próximos que antes, porque não conseguíamos farejá-los na água. Mas eu sentia que Fred hesitava, pronto para fugir, caso aquilo se transformasse em algo mais que um banquete tipo “coma quanto puder”. Aparentemente, ele confiava em Riley tanto quanto eu.
Não nadamos por muito tempo e emergimos quando vimos os outros retornando à superfície. Fred e eu fomos os últimos a sair, e Riley começou a falar assim que nos viu pôr a cabeça para fora da água, como se esperasse por nós. Ele devia ter mais consciência da presença de Fred que os outros.
— Lá está! — ele disse, apontando para uma grande balsa que navegava para o sul, provavelmente fazendo a última travessia da noite, vindo do Canadá. — Esperem um minuto. Quando a energia cair, ela é toda de vocês.
Houve um murmúrio entusiástico. Alguém riu. Riley partiu como um raio, e, segundos depois, nós o vimos subir pela lateral da grande embarcação. Ele seguiu diretamente para a torre de comando no topo do navio. Imaginei que planejasse silenciar o rádio. Riley podia dizer tudo que quisesse sobre os tais inimigos serem o motivo da nossa cautela, mas eu tinha certeza de que havia mais por trás de tudo aquilo. Os humanos não deviam saber da existência dos vampiros. Pelo menos, não por muito tempo — só os instantes que levamos para matá-los.
Riley estraçalhou uma grande janela de vidro com o pé para abrir caminho e entrou na torre. Cinco segundos depois, as luzes se apagaram.
Percebi que Raoul já havia partido. Provavelmente submergira para que ninguém o escutasse nadando atrás de Riley. Todos os outros também mergulharam, e a água se agitou como se um enorme cardume de tubarões atacasse.
Fred e eu nadávamos atrás deles, sem muita pressa. De um jeito estranho, era como se fôssemos duas pessoas casadas há muito tempo. Nunca conversávamos, mas ainda assim fazíamos tudo juntos.
Chegamos ao barco cerca de três segundos depois, e já havia muitos gritos e o cheiro característico de sangue. O cheiro me fez perceber exatamente quanto eu estava sedenta, e essa é a última coisa de que tenho consciência. Meu cérebro se desligou completamente. Não havia nada senão a dor excruciante em minha garganta e o sangue delicioso — sangue por toda parte — prometendo aplacar aquela ardência.
Quando tudo acabou e não havia um único coração batendo na embarcação inteira, eu não sabia ao certo quantas pessoas eu matara. Mais que o triplo de qualquer marca já atingida em qualquer outra expedição de caça anterior, isso era evidente. Eu me sentia quente e agitada. Havia bebido muito mais do que precisava para saciar completamente a sede e estava satisfeita como jamais estivera. Quase todo o sangue no navio era limpo e saudável — os passageiros não eram da escória. Eu não havia me contido, mas estava entre os que menos mataram. Raoul estava cercado por tantos corpos que eles formavam uma pequena montanha. Sentado sobre a pilha de mortos, ele ria alto.
E não era o único. O barco escuro era dominado por ruídos de alegria e satisfação. Kristie disse:
— Isso é fabuloso! Três vivas para Riley!
Alguém de seu grupo puxou um coro de urras que soava como o canto de um bando de bêbados felizes.
Jen e Kevin pularam para o convés de volta da água.
— Pegamos todos, chefe — Jen gritou para Riley.
Algumas pessoas haviam saltado do barco numa tentativa desesperada e inútil de fuga. Eu nem notara.
Olhei em volta, à procura de Fred. Levei algum tempo para encontrá-lo. Finalmente percebi que não conseguia olhar diretamente para o canto escuro onde ficavam as máquinas de comida e fui até lá. No início tive a sensação de que o balanço da balsa me causava o enjoo, mas quando me aproximei o suficiente para superar a sensação, vi que era Fred em pé ao lado de uma janela. Ele sorriu para mim, depois olhou por cima da minha cabeça. Segui a direção de seu olhar e compreendi que ele observava Riley. Tive a impressão de que a observação silenciosa já se estendia por algum tempo.
— Muito bem, crianças — Riley manifestou-se. — Já tiveram uma amostra da boa vida, mas agora temos trabalho a fazer!
Todos rosnaram com entusiasmo.
— Restam três coisas a lhes dizer, e uma delas envolve uma pequena sobremesa. Então, vamos afundar o barco e voltar para casa!
Rindo e rosnando, o exército começou a trabalhar para desmantelar o barco. Fred e eu saltamos pela janela e ficamos assistindo à demolição a distância. Não levou muito tempo para a balsa se partir ao meio com um estrondo alto de metal se rompendo. A parte do meio afundou primeiro, a proa e a popa se erguendo até apontarem para o céu. Afundaram uma de cada vez, a popa poucos segundos antes da proa. O cardume de tubarões vinha em nossa direção. Fred e eu começamos a nadar para a praia.
Voltamos para casa correndo com os outros, mas mantendo a nossa distância. Duas vezes Fred olhou para mim como se quisesse dizer algo, mas nas duas vezes pareceu mudar de ideia.
Em casa, Riley esperou o clima de comemoração esfriar. Mesmo depois de algumas horas, ainda estava difícil devolver a seriedade ao grupo. Pela primeira vez não era uma briga que ele tentava conter, mas sim animação. Se as promessas de Riley fossem falsas, como eu pensava, ele teria um problema sério quando a emboscada terminasse. Agora que todos os vampiros tinham se banqueteado de verdade, não voltariam com facilidade à vida frugal e contida de antes. Mas naquela noite, pelo menos, Riley era um herói.
Finalmente, algum tempo depois de eu ter tido a sensação de que o sol já surgia lá fora, todos estavam quietos e prestando atenção. Pelas expressões, era de imaginar que estivessem prontos para ouvir qualquer coisa que ele quisesse dizer.
Riley estava parado na metade da escada, sério.
— Três coisas — ele começou. — Primeiro, precisamos ter certeza de que pegamos o bando certo. Se encontrarmos acidentalmente outro clã e partirmos para o ataque, daremos o alerta. Queremos o inimigo autoconfiante e despreparado. Há duas coisas que marcam esse bando, e é muito difícil deixar de notá-las. Uma é que são diferentes na aparência: têm olhos amarelos.
Houve um murmúrio de confusão.
— Amarelos? — Raoul repetiu em tom de repulsa.
— Há muitas coisas do mundo dos vampiros que vocês ainda não viram. Eu disse que esses vampiros eram velhos. Seus olhos são mais fracos que os nossos, amarelados pela idade. Mais uma vantagem a nosso favor. — Ele assentiu, como se quisesse dizer um a zero. — Mas, como existem outros vampiros antigos por aí, há mais um aspecto que nos ajudará a reconhecê-los... E é aí que entra a sobremesa que mencionei antes. — Riley sorriu e fez uma pausa breve para criar expectativa. — Essa vai ser difícil de processar — ele avisou. — Nem eu mesmo entendi bem, mas vi com meus próprios olhos. Esses vampiros velhos ficaram tão mansos que há entre eles, como membro do bando, uma humana de estimação.
A revelação provocou um profundo silêncio. Total incredulidade.
— Eu sei. É difícil de engolir. Mas é verdade. Saberemos imediatamente que são eles porque haverá uma garota humana com o bando.
— Como assim...? — Kristie perguntou. — Está dizendo que eles carregam as refeições por aí ou coisa parecida?
— Não. É sempre a mesma garota, só ela, e eles não pretendem matá-la. Não sei como conseguem, nem por quê. Talvez gostem de ser diferentes, só isso. Talvez queiram exibir seu autocontrole. Talvez pensem que isso os faz parecer mais fortes. Não faz sentido para mim. Mas eu a vi. Mais que isso, senti o cheiro dessa humana.
Devagar e de um jeito dramático, Riley levou a mão ao bolso da jaqueta e tirou dele um saquinho plástico com um tecido vermelho dentro.
— Fiz um trabalho de reconhecimento nas últimas semanas, estudei os dos olhos amarelos assim que eles se aproximaram da área. — Ele fez uma pausa para lançar um olhar paternal para o grupo. — Eu cuido das minhas crianças. Finalmente, quando tive certeza de que eles vinham em nossa direção, peguei isto — ele brandiu o pacote —, para nos ajudar a rastreá-los. Quero que todos vocês sintam esse cheiro.
Ele entregou o pacote a Raoul, que abriu o saco e inspirou profundamente. Ele olhou assustado para Riley.
— Eu sei — Riley respondeu. — Incrível, não é?
Raoul passou o pacote para Kevin, a testa franzida numa expressão pensativa.
Um a um, todos os vampiros sentiram o cheiro do pacote e todos reagiram arregalando os olhos, mas foi só isso. Eu estava tão curiosa que me afastei de Fred, e quando senti uma certa náusea vi que estava fora do perímetro dele. Continuei até parar ao lado do garoto Homem-Aranha, que parecia ser o último da fila. Ele cheirou o pacote quando chegou sua vez e se preparou para devolvê-lo ao menino que o havia passado, mas estendi a mão e sibilei baixo. Ele me olhou espantado, como se nunca me tivesse visto, e entregou a embalagem transparente.
O tecido vermelho parecia ser uma blusa. Enfiei o nariz na abertura, com os olhos fixados nos vampiros perto de mim, só por precaução, e inalei.
Ah. Agora entendia a expressão dos outros e sabia que meu rosto não estava muito diferente. A humana que usara aquela camisa tinha um sangue muito doce. Quando Riley falara em sobremesa, não poderia ter escolhido palavra melhor. Por outro lado, eu nunca estivera mais satisfeita. Então, apesar de reconhecer o forte poder de atração daquele aroma, não sentia na garganta a dor excruciante. Seria fabuloso poder sentir o sabor daquele sangue, mas, naquele exato momento, não sofria por não poder bebê-lo.
Tentei imaginar quanto tempo levaria até que voltasse a sentir sede. Normalmente, algumas horas depois de me alimentar já podia sentir a dor voltando, e ela só piorava e piorava até — depois de uns dois dias — ser impossível ignorá-la mesmo que apenas por um segundo. A quantidade excessiva de sangue que havia acabado de beber adiaria esse processo? Eu logo saberia.
Olhei em volta para ter certeza de que ninguém esperava pelo pacote, porque achava que Fred devia estar curioso também. Riley percebeu meu olhar, sorriu quase imperceptivelmente e inclinou a cabeça uma fração de centímetro na direção do canto onde Fred continuava calado. O que me deixou com vontade de fazer exatamente o contrário, mas tudo bem. Não queria que Riley desconfiasse de mim.
Voltei para perto de Fred, ignorando a náusea até que ela desaparecesse, e parei ao seu lado. Entreguei o pacote, e ele parecia contente por eu ter pensado em incluí-lo; sorrindo, cheirou a blusa. Depois de um segundo, balançou a cabeça afirmativamente, pensativo. E me devolveu o pacote com um olhar significativo. Na próxima vez que estivéssemos sozinhos, pensei, ele comentaria o que pareceu querer me dizer.
Joguei o saco de volta para o garoto Homem-Aranha, que reagiu como se ele tivesse vindo de lugar nenhum, mas conseguiu pegá-lo antes que caísse no chão.
Todos comentavam o cheiro. Riley bateu palmas duas vezes.
— Muito bem, essa é a sobremesa de que falei antes. A garota estará com os dos olhos amarelos. E quem pegar primeiro leva a sobremesa. Simples assim.
Grunhidos de apreciação, grunhidos competitivos.
Simples, sim, mas... errado. A intenção não era destruir o bando dos de olhos amarelos? A palavra-chave deveria ser “união”, então por que ele agora acenava com um prêmio tão cobiçado, um troféu que só um vampiro poderia ter? O único desfecho garantido daquele plano seria uma humana morta. Eu conseguiria pensar em meia dúzia de maneiras mais produtivas para motivar aquele exército. Quem matasse mais dos olhos amarelos ficaria com a garota. Quem mostrasse mais cooperação com a equipe levaria a garota. Quem cumprisse o plano mais à risca. Quem melhor seguisse as ordens. O foco deveria ser o perigo, e ele não estava na humana, definitivamente.
Olhei em volta e concluí que ali ninguém mais seguia a mesma linha de pensamento que eu. Raoul e Kristie se olhavam com verdadeiro furor. Ouvi Sara e Jen discutindo em voz baixa a possibilidade de dividir o prêmio.
Bem, talvez Fred pensasse como eu. A testa dele também estava franzida.
— E a última coisa — disse Riley. Pela primeira vez havia alguma relutância na voz dele. — Provavelmente, isso vai ser ainda mais difícil de compreender, por isso vou mostrar a vocês. Não vou pedir que façam nada que eu não vá fazer também. Lembrem-se disso, garotos: estarei com vocês em todos os passos do caminho.
Os vampiros ficaram quietos outra vez. Notei que Raoul estava com o saco da blusa e o segurava de um jeito possessivo.
— Ainda há muito que vocês precisam aprender sobre ser um vampiro — disse Riley. — Algumas coisas fazem mais sentido que outras. O que vou dizer agora não vai soar verdadeiro a princípio, mas eu já experimentei e vou lhes mostrar. — Ele refletiu por um segundo. — Quatro vezes por ano, o sol brilha num determinado ângulo indireto. Durante esse dia único, quatro vezes ao ano, é seguro... é seguro sair durante o dia.
Nenhum movimento. Nenhum som. Ninguém respirava. Riley falava para um bando de estátuas.
— Um desses dias especiais está começando agora. O sol que hoje começa a surgir lá fora não vai nos fazer mal algum. E vamos usar essa rara exceção para surpreender nossos inimigos.
Meus pensamentos se embaralharam e tudo ficou de cabeça para baixo. Então, Riley sabia que podíamos sair ao sol. Ou não sabia, e nossa criadora contara a ele essa história dos “quatro dias no ano”. Ou... isso era a verdade e Diego e eu havíamos tido a sorte de sair num desses dias. Mas Diego já tinha estado fora durante o dia antes. E Riley estava transformando tudo aquilo em algo sazonal, uma espécie de solstício vampiresco, enquanto Diego e eu havíamos nos exposto ao sol quatro dias antes sem sofrer nenhuma consequência.
Eu era capaz de entender que Riley e nossa criadora quisessem nos controlar com o medo do sol. Fazia sentido. Mas por que dizer a verdade — numa versão tão limitada — agora?
Podia apostar que isso tinha a ver com aqueles medonhos mantos escuros. Ela provavelmente queria se adiantar ao prazo final. Os dos mantos escuros não tinham prometido deixá-la viva quando matássemos todos os de olhos amarelos. Imaginei que ela iria desaparecer feito um raio no segundo em que cumprisse seu objetivo. Matar os de olhos amarelos, depois tirar férias prolongadas na Austrália ou em algum outro lugar do outro lado do mundo. E podia apostar que ela não nos mandaria convites. Eu precisava encontrar Diego depressa, para que também pudéssemos fugir. Na direção oposta à de Riley e de nossa criadora. E devia avisar Fred. Decidi que faria isso assim que tivéssemos um momento a sós.
Havia manipulação demais naquele breve discurso, e eu não tinha certeza de estar entendendo tudo. Queria que Diego estivesse ali para analisarmos a situação juntos.
Se Riley estava inventando aquela história dos quatro dias, eu entendia por quê. Ele não podia simplesmente dizer: Ei, menti para vocês o tempo todo, mas agora decidi dizer a verdade. Queria que o seguíssemos para o campo de batalha; não podia minar a confiança que conseguira conquistar.
— É normal que se apavorem com o que acabaram de ouvir — Riley disse às estátuas. — O motivo pelo qual ainda estão vivos é terem prestado atenção quando eu disse que fossem cuidadosos. Voltaram para casa na hora, não cometeram erros. Deixaram o medo alimentar sua esperteza e cautela. Não espero que deixem de lado esse medo inteligente com facilidade. Não espero que saiam correndo por aquela porta só porque estou dizendo que podem ir. Mas... — Ele olhou em volta. — Espero que me sigam lá para fora.
Os olhos dele se desviaram da plateia por um breve instante, detendo-se muito rapidamente em algo acima da minha cabeça.
— Observem-me — ele nos disse. — Escutem-me. Confiem em mim. E quando virem que o que digo é verdade, acreditem em seus olhos. O sol desse dia tem alguns efeitos interessantes sobre nossa pele. Vocês vão ver. E não vão se ferir. Eu não faria nada que expusesse minhas crianças a um perigo desnecessário. Sabem disso.
Ele começou a subir a escada.
— Riley, não podemos esperar... — Kristie começou.
— Prestem atenção — Riley a interrompeu, ainda subindo com passos comedidos. — Isso nos dá uma grande vantagem. Os de olhos amarelos sabem tudo sobre esse dia, mas não sabem que nós sabemos.
Enquanto falava, ele abriu a porta e passou do porão para a cozinha. Não havia luz lá em cima, mas todos recuaram, tentando evitar a porta aberta. Todos, menos eu. A voz dele continuava se movendo na direção da porta da frente.
— A maioria dos vampiros jovens leva um tempo para aceitar essa exceção, e com bons motivos. Aqueles que não são cuidadosos com a luz do dia não duram muito.
Senti os olhos de Fred em mim. Olhei para ele. Ele me encarava com certa urgência, como se quisesse fugir, mas não tivesse para onde ir.
— Tudo bem — sussurrei quase sem fazer barulho. — O sol não vai nos fazer mal algum.
Você confia nele?, perguntou Fred movendo os lábios silenciosamente.
De jeito nenhum.
Fred levantou uma sobrancelha e relaxou um pouco. Muito pouco.
Olhei para trás de nós. O que Riley estava olhando? Nada havia mudado — só algumas fotos de família, fotos de gente morta, um pequeno espelho, e um relógio cuco. Hum. Ele estava verificando a hora? Talvez nossa criadora tivesse dado um prazo a ele também.
— Vamos lá, garotos, estou saindo — Riley anunciou. — Garanto que hoje não precisam ter medo.
A luz invadiu o porão quando ele abriu a porta, intensificada — como só eu sabia — pelo efeito na pele de Riley. Eu podia ver os reflexos brilhantes dançando na parede.
Rosnando e sibilando, o bando se encolheu e recuou para o canto oposto ao de Fred. Kristie estava no fundo e parecia que usava o próprio grupo como escudo.
— Acalmem-se, todos! — Riley gritou para nós. — Estou bem. Sem dor, sem queimadura. Venham ver. Venham!
Ninguém se aproximou da porta. Fred estava agachado encostado na parede atrás de mim, olhando para a luz com verdadeiro pânico. Acenei discretamente para chamar sua atenção. Ele me olhou e estranhou minha calma. Depois, devagar, se levantou e parou ao meu lado. Eu sorri para encorajá-lo.
Todos os outros esperavam o fogo começar. Imaginei se teria parecido tão boba aos olhos de Diego.
— Sabem — Riley disse lá de cima —, estou curioso para ver quem de vocês é o mais corajoso. Tenho uma boa ideia de qual será a primeira pessoa a passar por essa porta, mas já me enganei antes.
Eu revirei os olhos; Riley, o sutil.
Mas é claro que funcionou. Raoul começou a se mexer imediatamente, aproximando-se da porta muito devagar. Pela primeira vez, Kristie não tinha pressa de competir com ele pela aprovação de Riley. Raoul estalou os dedos para Kevin, e ele e o garoto Homem-Aranha se moveram, relutantes, para acompanhá-lo.
— Vocês estão me ouvindo. Sabem que não fritei. Não sejam bobos! Vocês são vampiros. Ajam como tais.
Ainda assim, Raoul e seus companheiros não passaram do pé da escada. Nenhum dos outros se mexeu. Depois de alguns minutos, Riley voltou. Sob a luz indireta da porta da frente, ele ainda estava um pouco cintilante.
— Olhem para mim — ele disse do alto da escada. — Estou bem. É sério! Estou com vergonha de vocês. Venha, Raoul!
No final, Riley teve de agarrar Kevin e arrastá-lo para cima à força — Raoul saiu do caminho assim que percebeu o que Riley pretendia. Eu vi o momento em que eles saíram, quando a luz se tornou mais intensa com o reflexo dos dois corpos.
— Diga a eles, Kevin — Riley ordenou.
— Estou bem, Raoul! — ele gritou. — Uau! Estou todo... brilhante. Isso é muito louco! — Ele ria.
— Muito bem, Kevin — Riley o elogiou em voz alta.
Foi o suficiente para Raoul tomar a decisão. Rangendo os dentes, ele subiu a escada. Não foi depressa, mas logo também estava lá em cima, brilhando e rindo com Kevin.
Mesmo depois disso, o processo ainda demorou mais do que eu teria previsto. Ainda subimos um a um. Riley ficou impaciente. Agora ele usava mais ameaças que incentivo.
Fred me lançou um olhar que perguntava: Você sabia disso?
Sim, respondi apenas movendo os lábios.
Ele fez um gesto afirmativo com a cabeça e começou a subir a escada. Ainda havia cerca de dez pessoas, na maioria o pessoal do grupo de Kristie, espremidas junto à parede. Eu acompanhei Fred. Era melhor sair no meio do fluxo. E Riley que entendesse isso como quisesse.
Podíamos ver os vampiros brilhando como globos de luz no jardim da casa, olhando para as próprias mãos e uns para os outros em êxtase. Fred se dirigiu à luz sem diminuir o passo, o que eu achei um gesto de muita coragem, levando em conta tudo aquilo. Kristie era o melhor exemplo de como Riley nos doutrinara bem. Apegava-se ao que sabia, independentemente das evidências diante dela.
Fred e eu continuamos um pouco afastados dos outros. Ele se examinou cuidadosamente, depois olhou para mim, depois para os outros. Percebi que Fred, apesar de quieto, era muito observador e quase científico na maneira como examinava os fatos. Ele estivera avaliando as palavras e os atos de Riley o tempo todo. O que mais deduzira?
Riley precisou arrastar Kristie escada acima, e seu grupo com ela. Finalmente, todos estávamos expostos ao sol, a maioria apreciando sua beleza. Riley reuniu todo mundo para mais uma aula prática, principalmente, pensei, para fazer o grupo recuperar o foco. Foi preciso um minuto, mas todos começaram a perceber que era isso o que ele queria, e foram ficando mais quietos e ferozes. Era possível ver que a ideia de uma luta de verdade — não só ter permissão, mas ser encorajado a esquartejar e incendiar — era quase tão fascinante quanto caçar. Agradava a pessoas como Raoul, Jen e Sara.
Riley se concentrou na estratégia que tentara passar aos garotos nos últimos dias — uma vez identificados os de olhos amarelos, nós nos dividiríamos em dois grupos e os flanquearíamos. Raoul os atacaria pela frente, enquanto Kristie investiria pela lateral. O plano se adequava ao estilo dos dois, embora eu não tivesse certeza de que eles seriam capazes de seguir a estratégia no calor da caçada.
Quando Riley convocou todos depois de uma hora de treino, Fred começou imediatamente a andar de costas em direção ao norte; Riley pusera os outros de frente para o sul. Fiquei perto de Fred, embora não fizesse ideia do que ele estava fazendo. Fred parou quando estávamos a uns noventa metros de distância, à sombra das árvores na beira da floresta. Ninguém viu que nos afastávamos. Fred olhava para Riley como se esperasse para ver se ele perceberia ou não nossa retirada.
Riley começou a falar.
— Vamos partir agora. Vocês são fortes e estão preparados. E estão sedentos por isso, não estão? Podem sentir a ardência. Estão prontos para a sobremesa.
Ele estava certo. Todo aquele sangue não havia adiado a sede. Na verdade, eu não tinha certeza, mas achava que a sensação estivesse voltando mais depressa e mais intensa que de costume. Superalimentação devia ser contraproducente em alguns sentidos.
— Os de olhos amarelos se aproximam lentamente pelo sul e vêm se alimentando pelo caminho, tentando se fortalecer — Riley dizia. — Ela os está monitorando, por isso sei onde achá-los. Ela vai nos encontrar lá, com Diego — ele lançou um olhar significativo para onde eu estivera até pouco antes, e uma ruga surgiu em sua testa por uma fração de segundo, sumindo em seguida —, e nós os atingiremos como um tsunami. Vamos vencê-los facilmente. E depois vamos comemorar. — Ele sorriu. — Alguém, claro, vai comemorar mais que os outros. Raoul, me dê isso.
Riley estendeu a mão de modo imperativo. Raoul jogou relutantemente o saco com a blusa. Era como se ele estivesse tentando se apoderar da humana absorvendo seu cheiro.
— Cheirem mais uma vez, todos vocês. Vamos manter o foco!
Manter o foco na garota? Ou no combate?
Dessa vez, o próprio Riley percorreu o grupo levando a blusa, quase como se quisesse garantir que todos ficassem sedentos. E eu podia ver pela reação dos outros que, como eu, eles também sentiam a sede voltar. O cheiro da blusa os fazia rosnar e mudar de expressão. Não era necessário nos fazer experimentá-lo de novo, não havíamos esquecido nada. Então, aquilo devia ser só um teste. Pensar no cheiro da garota era suficiente para acumular veneno em minha boca.
— Estamos juntos? — Riley berrou.
Todos gritaram de volta.
— Vamos acabar com eles, crianças!
Era como o cardume de tubarões outra vez, mas agora em terra firme.
Fred não se moveu, e eu fiquei com ele, embora soubesse que estava desperdiçando um tempo necessário. Se queria encontrar Diego e tirá-lo de cena antes do início da luta, precisava ficar perto da linha de frente. Olhei para eles ansiosa. Eu ainda era mais jovem que a maioria... mais rápida.
— Riley não vai conseguir pensar em mim por cerca de vinte minutos, mais ou menos — Fred me disse, sua voz comum e familiar, como se já tivéssemos conversado milhões de vezes. — Tenho medido o tempo. Mesmo com uma boa distância entre nós, ele vai ficar enjoado se tentar se lembrar de mim.
— É mesmo? Isso é legal.
Fred sorriu.
— Tenho treinado, observado os efeitos. Agora sou capaz de me tornar totalmente invisível. Ninguém consegue olhar para mim se eu não quiser.
— Já percebi — respondi, antes de parar e deduzir: — Você não vai?
Fred balançou a cabeça.
— É claro que não. É óbvio que não nos disseram o que precisamos saber. Não vou ser peão do Riley.
Então, Fred já percebera tudo sozinho.
— Eu planejava escapar antes, mas resolvi falar com você primeiro, e não tive chance até agora.
— Eu também queria falar com você — respondi. — Achei que devia saber que Riley estava mentindo sobre o sol. Essa coisa dos quatro dias é uma bobagem. Acho que Shelly, Steve e os outros também perceberam. E há muito mais interesses por trás desse combate do que ele nos contou. Há mais de um grupo de inimigos.
Eu falava depressa, sentindo com terrível aflição o movimento do sol, o tempo passando. Eu precisava encontrar Diego.
— Não estou surpreso — disse Fred calmamente. — E eu estou fora. Vou explorar sozinho, ver o mundo. Ou ia sozinho, porque então pensei que talvez você quisesse vir também. Vai estar segura comigo. Ninguém poderá nos seguir.
Eu hesitei por um segundo. A ideia de segurança era quase irresistível naquele exato momento.
— Preciso encontrar Diego — eu disse, balançando a cabeça.
Ele concordou pensativo.
— Entendo. Bem, se está disposta a se responsabilizar por ele, pode trazê-lo. Parece que às vezes a vantagem numérica pode ser bem útil.
— Sim — concordei com veemência, lembrando como me sentira vulnerável na árvore quando, tendo apenas Diego comigo, vi os quatro mantos escuros se aproximando.
Ele ergueu uma sobrancelha, intrigado com meu tom.
— Riley está mentindo sobre pelo menos mais uma coisa importante — expliquei. — Tenha cuidado. Não podemos deixar que os humanos saibam da nossa existência. Existe um grupo de vampiros esquisitos que detém os bandos que se expõem demais. Eu os vi, e você não ia querer ser encontrado por eles. Fique escondido durante o dia, e cace com inteligência, só isso. — Olhei ansiosa para o sul. — Preciso correr!
Fred processava minhas revelações com expressão solene.
— Tudo bem. Venha me procurar, se quiser. Eu gostaria muito de ouvir mais. Vou esperar por você em Vancouver por mais um dia. Conheço a cidade. Vou deixar um rastro no... — ele pensou por um segundo antes de se decidir, sorrindo — Riley Park! Você vai me encontrar. Mas, depois de 24 horas, seguirei em frente.
— Vou encontrar Diego, e depois iremos atrás de você.
— Boa sorte, Bree.
— Obrigada, Fred! Boa sorte para você também. A gente se vê!
Eu já estava correndo.
— Espero que sim — ouvi a voz dele lá atrás.
Segui o rastro dos outros numa velocidade alucinante, voando bem perto do chão, correndo como nunca. Para minha sorte, deviam ter parado por algum motivo — para Riley berrar com eles, eu imaginava —, porque os alcancei antes do que deveria. Ou, talvez, Riley tivesse se lembrado de Fred e parara para nos procurar. Eles corriam num ritmo constante quando os alcancei, quase disciplinados, como na noite anterior. Tentei me misturar ao grupo sem chamar atenção, mas notei Riley virar a cabeça para examinar os que vinham atrás. Seus olhos pararam em mim, e então ele começou a correr mais depressa. Deve ter presumido que Fred estava comigo. Riley nunca mais veria Fred.
Menos de cinco minutos depois, tudo mudou.
Raoul sentiu o cheiro. Com um grunhido feroz, ele praticamente decolou. Riley nos inflamara de tal maneira que uma pequena faísca bastaria para provocar uma explosão. Os outros perto de Raoul também sentiram o cheiro, e então todos perderam o controle. A ladainha de Riley sobre a humana havia se sobreposto a todas as outras instruções. Éramos caçadores, não um exército. A equipe deixou de existir. Tudo se resumia a uma corrida por sangue.
Mesmo sabendo que havia muitas mentiras na história, eu não conseguia resistir inteiramente ao cheiro. Correndo atrás do grupo, tive de cruzar o rastro. Era fresco. Forte. A humana estivera ali recentemente, e seu cheiro era absurdamente doce. Eu me sentia forte com todo o sangue que havia bebido na noite anterior, mas isso não tinha importância. Estava com sede. E a sede queimava.
Corri atrás dos outros, tentando manter os pensamentos claros. Era só o que eu podia fazer para tentar manter um pouco do controle, continuar seguindo o bando. A pessoa mais próxima de mim era Riley. Ele estava... se contendo, também?
Ele gritava ordens, basicamente as mesmas coisas repetidas muitas vezes.
— Kristie, sua posição! Mexa-se! Dividam-se! Kristie, Jen! Dividam-se!
Todo o plano de uma emboscada em duas frentes desmoronava diante dos nossos olhos.
Riley correu até o grupo principal e agarrou Sara pelos ombros. Ela se sobressaltou quando ele a empurrou para a esquerda.
— Sua posição! — ele gritava.
Agarrou o garoto louro cujo nome eu nunca soube e o empurrou para Sara, que não ficou nada feliz com isso. Kristie voltou a si por tempo suficiente para perceber que devia estar se movendo de modo estratégico. Ela olhou para Raoul e depois começou a gritar ordens a seu grupo.
— Por ali! Mais depressa! Vamos passar na frente deles correndo por um atalho! Vamos!
— Vou fazer a linha de frente com Raoul! — Riley gritou para ela, olhando para trás.
Eu hesitei, ainda correndo. Não queria fazer parte de nenhuma “linha de frente”, mas o grupo de Kristie já começava a se desintegrar. Sara dava uma gravata no garoto louro. O som da cabeça dele sendo arrancada do corpo me fez decidir. Corri atrás de Riley, imaginando se Sara iria parar para incendiar o menino que gostava de imitar o Homem-Aranha.
Adiantei-me até conseguir ver Riley à minha frente e o segui, mantendo certa distância, até que se juntasse ao grupo de Raoul. O cheiro tornava difícil manter meus pensamentos focados no que realmente importava.
— Raoul! — Riley gritou.
Raoul rosnou, mas não se virou. Estava totalmente dominado pelo cheiro do sangue.
— Preciso ajudar Kristie! Encontro você lá! Não perca o foco!
Parei de repente, tomada pela insegurança.
Raoul seguiu em frente sem dar nenhuma resposta ao que Riley dissera. Riley, por sua vez, reduziu o ritmo da corrida para um trote, depois para uma caminhada. Eu devia ter saído dali, mas ele provavelmente teria me ouvido procurando um esconderijo. Ele se virou sorrindo e me viu.
— Bree. Pensei que estivesse com Kristie.
Eu não respondi.
— Alguém se machucou. Kristie precisa mais de mim que Raoul — ele explicou apressado.
— Está... nos deixando?
O rosto de Riley se modificou. Era como se eu pudesse ver em sua expressão que os planos haviam mudado. Seus olhos ficaram mais estreitos; de repente, pareciam ansiosos.
— Estou preocupado, Bree. Eu disse que ela iria nos encontrar, nos ajudar, mas não farejei seu rastro. Algo está errado. Preciso encontrá-la.
— Mas não há nenhuma possibilidade de você conseguir encontrá-la antes que Raoul ataque os de olhos amarelos — argumentei.
— Preciso descobrir o que está acontecendo. — Ele parecia sinceramente desesperado. — Preciso dela! O plano não era fazer isso sozinho!
— Mas os outros...
— Bree, eu tenho que encontrá-la! Agora! Vocês estão em número suficiente para derrotar os de olhos amarelos. Volto assim que puder.
Ele parecia verdadeiramente sincero. Hesitei, olhando para trás, para a trilha que havíamos percorrido. Fred já devia estar no meio do caminho para Vancouver àquela altura. Riley nem perguntara por ele. Talvez o talento de Fred ainda estivesse fazendo efeito...
— Diego está à nossa frente, Bree — Riley disse num tom urgente. — Ele vai participar do primeiro ataque. Não sentiu o cheiro dele lá atrás? Não esteve perto o suficiente?
Eu balancei a cabeça, totalmente confusa. Diego esteve ali?
— Ele deve estar com Raoul agora. Se correr, poderá ajudá-lo a sair dessa vivo.
Nós nos encaramos por um longo segundo, e depois olhei para o sul, para o caminho que Raoul seguira.
— Boa menina — Riley disse. — Eu vou atrás dela e voltaremos para ajudar a limpar a sujeira. Vocês vão ter que dar conta disso! Talvez já tenha acabado quando você chegar lá.
Ele partiu numa direção perpendicular ao nosso caminho original. Eu rangi os dentes ao ver quanto ele parecia certo do caminho a tomar. Mentindo até o fim!
Mas eu não tinha escolha. Voltei a correr como louca para o sul. Precisava encontrar Diego. Arrastá-lo para longe de tudo aquilo, se fosse necessário. Alcançaríamos Fred. Ou partiríamos sozinhos. Precisávamos fugir. Eu contaria a Diego como Riley havia mentido. Ele compreenderia que Riley não tinha nenhuma intenção de nos ajudar na batalha que ele havia deflagrado. Não havia mais motivo para ajudá-lo.
Eu identifiquei o cheiro da humana e, depois, o de Raoul. Não farejava Diego. Estava me deslocando depressa demais? Ou era o cheiro da humana que me dominava? Metade da minha mente estava voltada para aquela caçada estranha e contraproducente — sim, encontraríamos a garota, mas estaríamos prontos para lutar juntos quando isso acontecesse? Não, estaríamos, sim, nos digladiando por ela!
E foi então que ouvi a explosão de rosnados, gritos e guinchos em algum lugar adiante e soube que o combate começara. Era tarde demais para impedir que Diego se envolvesse. Mesmo assim, corri mais que antes. Talvez ainda pudesse salvá-lo.
Farejei a fumaça trazida pelo vento — o cheiro doce e denso de vampiros queimando. O som da confusão ficou mais alto. Talvez estivesse quase no fim. Eu encontraria Diego esperando, e o nosso bando vitorioso?
Corri por uma densa cortina de fumaça e emergi do outro lado da floresta, fora dela, em um campo verde e aberto. Saltei por cima do que pareceu uma pedra e percebi que era, na verdade, um tronco sem cabeça.
Meus olhos varreram o campo. Havia pedaços de vampiros por todos os lados, e uma fogueira gigantesca cuja fumaça roxa se erguia no céu ensolarado. Através da fumaça, eu conseguia ver corpos brilhantes se movendo rapidamente, enquanto o ruído de vampiros sendo desmembrados, dilacerados, persistia.
Eu procurava os cabelos negros e encaracolados de Diego. Ninguém que eu conseguia distinguir tinha cabelos tão negros. Havia um vampiro enorme com cabelos castanhos, quase pretos, mas era grande demais, e quando consegui focar a visão vi que ele tinha arrancado a cabeça de Kevin e a estava atirando na fogueira enquanto saltava nas costas de outro adversário. Seria Jen? Havia outro de cabelo liso e preto, mas era pequeno demais para ser Diego. E se deslocava tão depressa que eu nem conseguia saber se era homem ou mulher.
Olhei em volta mais uma vez, rápido, me sentindo horrivelmente exposta. Olhava os rostos. Não havia tantos vampiros ali, mesmo contando os que já estavam caídos. Não vi ninguém do grupo de Kristie. Muitos já deviam ter sido queimados. Muitos dos que ainda estavam em pé eram desconhecidos. Um vampiro louro olhou na minha direção, nossos olhares se encontraram e seus olhos brilharam, eram dourados ao sol.
Estávamos perdendo. Feio.
Comecei a recuar na direção das árvores, não tão depressa, porque ainda procurava por Diego. Ele não estava ali. Não havia nenhum sinal de que houvesse estado em algum momento. Nenhum traço de seu rastro, embora eu pudesse distinguir o cheiro de muitos membros da turma de Raoul e de muitos desconhecidos. Também me obriguei a olhar os restos de corpos. Nenhum deles pertencia a Diego. Eu teria reconhecido até mesmo um dedo dele.
Virei-me e corri para as árvores — de repente tive certeza de que a presença de Diego ali era só mais uma das mentiras de Riley.
E se Diego não estava ali, então já deveria estar morto. Cheguei a essa conclusão com tanta facilidade porque provavelmente devia pressentir a verdade havia algum tempo. Desde o momento em que Diego não seguira Riley pela porta do porão. Ele já tinha nos deixado.
Eu havia percorrido alguns metros por entre as árvores quando um golpe forte como o de uma bola de demolição me atingiu nas costas e me jogou no chão. Um braço passou por baixo do meu queixo.
— Por favor! — solucei.
E queria dizer: Por favor, me mate depressa.
O braço hesitou. Eu não reagi, embora meus instintos me induzissem a morder, arranhar e dilacerar o inimigo. A parte mais equilibrada em mim sabia que isso não funcionaria. Riley havia mentido também sobre os vampiros mais velhos e fracos — nunca tivemos a menor chance. E mesmo que eu tivesse algum meio de vencer aquele vampiro, não teria conseguido me mexer. Diego estava morto, e esse fato evidente minara minha vontade de lutar.
De repente eu estava no alto. Fui arremessada contra uma árvore e caí no chão. Devia tentar correr, mas Diego estava morto. Eu não conseguia superar essa realidade.
O vampiro louro da clareira olhava intensamente para mim, seu corpo pronto para atacar. Ele parecia muito competente, muito mais experiente que Riley. Mas não investia contra mim. Não estava enlouquecido como Raoul ou Kristie. Ele estava totalmente sob controle.
— Por favor — repeti, querendo que ele acabasse com aquilo de uma vez. — Não quero lutar.
Ele ainda se mantinha em posição de alerta, preparado, mas a expressão mudara. Agora ele me olhava de um jeito que eu não entendia. Era um rosto que parecia conhecer muito, e havia algo mais. Solidariedade? Piedade, pelo menos.
— Nem eu, criança — ele respondeu com a voz calma, bondosa. — Estamos só nos defendendo.
Havia tanta honestidade naqueles antigos olhos amarelos que eu me perguntei como pudera acreditar nas histórias de Riley. Eu me sentia... culpada. Talvez aquele bando nunca tivesse planejado nos atacar em Seattle. Como eu pudera confiar em qualquer coisa do que me disseram?
— Nós não sabíamos — expliquei, envergonhada. — Riley mentiu. Sinto muito.
Ele ouviu por um momento, e eu percebi que o campo de batalha mergulhara no silêncio. Havia acabado.
Se eu ainda tivesse alguma dúvida de quem fora o vencedor, ela teria desaparecido quando, um segundo depois, uma vampira com cabelos castanhos e ondulados e de olhos amarelos correu para perto dele.
— Carlisle? — ela perguntou num tom confuso, olhando para mim.
— Ela não quer lutar — o vampiro respondeu.
A mulher tocou seu braço. Ele ainda estava tenso, em posição de ataque.
— Ela está tão assustada, Carlisle. Não podemos...?
O louro, Carlisle, olhou para a vampira e depois ajeitou um pouco o corpo, embora eu pudesse perceber que ele ainda permanecia alerta, cauteloso.
— Não queremos machucá-la — a mulher me disse. A voz dela era suave, tranquilizadora. — Não queríamos lutar com nenhum de vocês.
— Sinto muito — repeti, sussurrando.
Eu não conseguia esclarecer toda a confusão na minha cabeça. Diego estava morto, e isso era o principal, o mais devastador. Além disso, a luta chegara ao fim, meu bando perdera e meus inimigos venceram. Mas o bando morto fora formado por muitas pessoas que teriam adorado me ver queimar, e meus inimigos falavam comigo num tom bondoso, quando não tinham nenhum motivo para ser generosos. Mais ainda: eu me sentia mais segura com aqueles dois estranhos do que jamais me sentira com Raoul e Kristie. Estava aliviada por Raoul e Kristie estarem mortos. Tudo era tão confuso!
— Criança — disse Carlisle —, vai se render a nós? Se não tentar nos ferir, prometemos não lhe fazer nenhum mal.
E eu acreditava nele.
— Sim — sussurrei. — Sim, eu me rendo. Não quero fazer mal a ninguém.
Ele estendeu a mão num gesto encorajador.
— Venha, criança. Deixe nossa família se reagrupar por um momento, depois vamos conversar. Temos algumas perguntas para você. Se responder honestamente, não terá nada a temer.
Levantei-me devagar, sem fazer movimentos que pudessem ser entendidos como ameaça.
— Carlisle? — chamou uma voz masculina.
Outro vampiro de olhos amarelos se juntou a nós. Toda a segurança que eu sentira com aqueles estranhos desapareceu assim que o vi.
Ele era louro, como o primeiro, porém mais alto e mais esguio. Sua pele era completamente coberta por cicatrizes, mais abundantes nas costas e no queixo. Algumas marcas menores no braço eram mais recentes, mas as outras não haviam sido causadas por aquele combate. Ele havia estado em mais batalhas do que eu poderia imaginar, e nunca perdera. Seus olhos amarelados brilhavam e a postura sugeria a violência contida de um leão furioso.
Assim que me viu, ele se preparou para atacar.
— Jasper! — Carlisle o deteve.
Ele se conteve e olhou para Carlisle com espanto.
— O que está acontecendo?
— Ela não quer lutar. Já se rendeu.
O vampiro coberto por cicatrizes franziu a testa, e de repente senti uma inesperada onda de frustração, embora não soubesse com o que estava tão frustrada.
— Carlisle, eu... — Ele hesitou, mas continuou: — Lamento, mas isso é impossível. Não podemos ter nenhum desses recém-criados associados a nós quando os Volturi chegarem. Percebe o perigo em que isso nos colocaria?
Não entendi muito bem o que ele dizia, mas captei o suficiente. Ele queria me matar.
— Jasper, ela é só uma criança — a mulher protestou. — Não podemos simplesmente assassiná-la a sangue-frio!
Era estranho ouvi-la falar como se fôssemos gente, como se assassinato fosse uma coisa ruim. Ou a se evitar.
— O que está em jogo aqui é nossa família, Esme. Não podemos deixar que eles pensem que violamos a lei.
A mulher, Esme, se colocou entre mim e o vampiro que queria me matar. Num gesto incompreensível, ela me virou as costas.
— Não. Não vou permitir.
Carlisle me olhou com ansiedade. Percebi que ele gostava muito daquela mulher. Eu teria olhado do mesmo jeito para qualquer um que estivesse atrás de Diego. Tentei parecer tão dócil quanto me sentia.
— Jasper, acho que devemos correr o risco — ele disse lentamente. — Não somos os Volturi. Seguimos as regras deles, mas não matamos sem motivo. Podemos explicar.
— Eles podem pensar que produzimos nossos próprios recém-criados para nos defender.
— Mas não produzimos. E mesmo que tivéssemos produzido, não há nenhuma violação em fazer isso aqui, somente em Seattle. Não há lei contra criar vampiros, desde que você os controle.
— Isso é muito perigoso.
Carlisle tocou o ombro de Jasper.
— Jasper, não podemos matar essa criança.
Jasper rosnou para o homem de olhos bondosos, e de repente fiquei furiosa. Ele não ousaria atacar aquele vampiro generoso ou a mulher que ele amava. Em seguida, Jasper suspirou, e eu senti que estava tudo bem. Minha raiva se foi.
— Não gosto disso — ele insistiu, mas estava mais calmo. — Ao menos deixem que eu cuide dela. Vocês dois não saberiam lidar com uma criatura que esteve livre por tanto tempo.
— É claro — a mulher respondeu. — Mas seja gentil.
Jasper revirou os olhos.
— Precisamos voltar para perto dos outros. Alice disse que não temos muito tempo.
Carlisle assentiu. Ele estendeu a mão para Esme e eles passaram por Jasper de volta à clareira.
— Você aí — Jasper me disse, o rosto novamente carrancudo. — Venha conosco. Não faça nenhum movimento brusco ou acabo com você.
Senti raiva outra vez diante daquele olhar penetrante, e uma pequena parte de mim teve vontade de rosnar e mostrar os dentes, mas tive a sensação de que esse tipo de desculpa era justamente o que ele estava procurando.
Jasper parou como se houvesse acabado de pensar em alguma coisa.
— Feche os olhos — ele ordenou.
Eu hesitei. Ele havia decidido me matar, afinal?
— Feche os olhos!
Rangi os dentes e obedeci. Agora me sentia duas vezes mais indefesa que antes.
— Siga o som da minha voz e não abra os olhos. Se olhar, está perdida. Entendeu?
Fiz que sim com a cabeça, imaginando o que ele poderia não querer que eu visse. De certa forma, era um alívio perceber que ele se importava em proteger um segredo. Não haveria razão nenhuma para isso se planejasse me matar.
— Por aqui.
Eu caminhava devagar atrás dele, tomando cuidado para não lhe aborrecer. Ele foi cuidadoso ao me conduzir; pelo menos não me fez bater em nenhuma árvore. Pude perceber como os ruídos haviam mudado quando chegamos ao espaço aberto; a sensação do vento era diferente também, e o cheiro do meu bando queimando estava mais forte. Eu podia sentir o calor do sol no meu rosto, e a parte interna das minhas pálpebras estava mais clara e cintilante, porque eu brilhava.
Estávamos indo para perto do crepitar do fogo, tão perto que eu podia sentir a fumaça roçando minha pele. Eu sabia que ele poderia ter me matado a qualquer momento, mas a proximidade do fogo ainda me deixava nervosa.
— Sente-se aqui. De olhos fechados.
O solo estava quente por causa do sol e do fogo. Eu me mantinha imóvel e tentava me concentrar em parecer inofensiva, mas podia sentir os olhos dele em mim, e isso me deixava inquieta. Embora não estivesse zangada com aqueles vampiros e acreditasse plenamente que eles tivessem apenas se defendido, sentia estranhas ondas de fúria dentro de mim. Ou vindo de fora, como se a batalha que acabara de ocorrer ali ainda ecoasse.
A raiva, contudo, não me tornava estúpida, e eu estava muito triste — infeliz até o fundo da minha essência. Miserável. Diego não saía da minha cabeça, e eu não conseguia deixar de imaginar como ele havia morrido.
Tinha certeza de que ele não tinha contado nossos segredos a Riley espontaneamente — os segredos que haviam sido o motivo para que eu confiasse em Riley por tempo suficiente até ser tarde demais. Na minha mente, conseguia ver o rosto de Riley de novo — aquela expressão fria, suave, quando ele ameaçou punir qualquer um de nós que não se comportasse. Ouvi novamente a descrição detalhada e macabra — quando eu os levar até ela, vou segurá-los enquanto ela arranca suas pernas e depois, lentamente, muito lentamente, queima seus dedos, orelhas, lábios, língua e todos os outros apêndices supérfluos, um a um.
Percebi então que tinha ouvido a descrição da morte de Diego.
Naquela noite, eu percebera com certeza que algo havia mudado em Riley. E esse algo foi ter matado Diego, isso o endurecera. Só acreditava em uma coisa de todas as que Riley me dissera: ele se importava com Diego mais do que com qualquer um de nós. Até gostava dele. Mesmo assim, assistira enquanto nossa criadora acabava com ele. E, sem dúvida, a ajudara. Matara Diego com ela.
Fiquei pensando em quanta dor seria necessária para me convencer a trair Diego. Imaginei que teria de ser muita. E tinha certeza de que Diego também havia sofrido terrivelmente antes de me trair.
Estava enjoada. Queria tirar da cabeça a imagem de Diego gritando em agonia, mas ela não ia embora.
E então ouvi um grito na clareira.
Minhas pálpebras tremeram, mas Jasper rosnou furiosamente e eu apertei os olhos para mantê-los fechados. Não veria mesmo nada através da densa fumaça lilás.
Ouvi gritos e um uivar estranho, selvagem. Era alto, e eram muitos. Eu não conseguia imaginar como um rosto teria de se contorcer para criar aquele som, e não saber o que era aquilo tornou o ruído ainda mais assustador. Os vampiros de olhos amarelos eram muito diferentes do restante de nós. Ou diferentes de mim, acho, já que era a única que restava. Riley e nossa criadora haviam desaparecido.
Ouvi alguns nomes. Jacob, Leah, Sam. Havia muitas vozes diferentes, mas os urros continuavam. É claro que Riley também havia mentido para nós sobre o número de vampiros que havia ali.
O som dos uivos foi diminuindo até se tornar só uma voz, um ganido agoniado que não era humano e que me fez ranger os dentes. Eu podia ver o rosto de Diego muito claro em minha mente, e o som ecoava como seus gritos.
Ouvi Carlisle falando mais alto que as outras vozes e o uivo. Ele implorava para ver alguma coisa.
— Por favor, deixem-me dar uma olhada. Por favor, deixem-me ajudar.
Ninguém discutia com ele, mas, por alguma razão, seu tom de voz dava a entender que ele perdia a disputa.
E então o ouvi atingir uma nova nota mais estridente; Carlisle disse “obrigado” com uma voz emocionada, e por trás do uivo identifiquei o som de muitos movimentos, muitos corpos se mexendo. Passos pesados que se aproximavam. Muitos passos.
Ouvi com atenção e escutei algo inesperado e impossível. Em meio a respirações pesadas — e eu nunca ouvira ninguém no meu bando respirar daquele jeito — havia vários baques surdos. Quase... corações batendo. Mas não eram corações humanos. Eu conhecia bem esse som em particular. Respirei fundo, mas o vento soprava na direção oposta e só consegui farejar a fumaça.
Sem nenhum som que me prevenisse, alguma coisa me tocou, segurando com firmeza os dois lados da minha cabeça.
Abri os olhos em pânico e me levantei, tentando me livrar do que me prendia, então me deparei com os olhos de Jasper a dois centímetros do meu rosto.
— Pare com isso — ele ordenou, me jogando de volta no chão.
Mal podia ouvi-lo e então percebi que as mãos dele estavam em minha cabeça tapando meus ouvidos. Para me impedir de escutar.
— Feche os olhos — ele instruiu novamente, provavelmente num tom normal, mas para mim a voz soava abafada.
Tentei ficar calma e fechei os olhos outra vez. Havia coisas que eles também não queriam que eu escutasse. Esse era um preço que eu podia pagar para continuar viva.
Por um segundo, enxerguei o rosto de Fred em minhas pálpebras cerradas. Ele dissera que esperaria por mim. Um dia. Imaginei se cumpriria a promessa.
Queria poder contar a ele a verdade sobre os de olhos amarelos, e sobre tudo o mais que parecia existir e que desconhecíamos. Era um mundo inteiro sobre o qual não sabíamos nada.
Seria interessante explorá-lo. Especialmente com alguém capaz de me tornar invisível e garantir minha segurança.
Mas Diego se fora. Não iria comigo procurar Fred. Isso tornava o exercício de tentar imaginar o futuro um tanto desagradável.
Eu ainda conseguia ouvir parte do que estava acontecendo, mas só os uivos e algumas vozes. O que quer que fossem aqueles baques surdos, agora eram abafados demais para que eu pudesse analisá-los.
Compreendi as palavras quando, alguns minutos mais tarde, Carlisle disse:
— Você vai ter que... — A voz dele ficou muito baixa por um segundo. E depois: — ... de agora em diante. Ajudaríamos se pudéssemos, mas não podemos partir.
Escutei um grunhido, mas era estranhamente inofensivo. Os uivos tornaram-se ganidos baixos que desapareceram lentamente, como se estivessem se afastando.
Por um minuto tudo ficou quieto. Ouvi algumas vozes baixas, as de Carlisle e Esme entre elas, mas também outras que eu não conhecia. Gostaria de poder farejar alguma coisa — não poder ver e conseguir ouvir tão pouco me impelia a procurar alguma outra informação sensorial. Mas tudo que eu podia captar era o cheiro horrivelmente doce da fumaça.
Havia uma voz, mais alta e mais clara que as outras, que eu podia escutar com relativa facilidade.
— Mais cinco minutos — ela disse. Tive certeza de que era uma garota. — E Bella abrirá os olhos em trinta e sete segundos. Eu não duvido de que ela possa nos ouvir agora.
Tentei entender aquilo. Havia mais alguém de olhos fechados, como eu? Ou ela pensava que meu nome era Bella? Eu não dissera meu nome a ninguém. Novamente, me esforcei para farejar alguma coisa.
Mais murmúrios. Tive a impressão de que uma voz soava deslocada — eu não conseguia identificar nela nenhuma nuance. Mas não conseguia ter certeza com as mãos de Jasper cobrindo minhas orelhas.
— Três minutos — disse a voz alta e clara.
As mãos de Jasper me soltaram.
— É melhor abrir os olhos agora — ele disse, já alguns passos longe de mim.
A maneira como ele falou me deixou assustada. Olhei em volta depressa, procurando pelo perigo que sua voz insinuava.
Boa parte do meu campo de visão estava obscurecida pela fumaça. Perto, Jasper tinha a testa franzida. Os dentes estavam à mostra, o maxilar contraído, e ele me olhava com uma expressão que era quase... amedrontada. Não como se tivesse medo de mim, mas como se sentisse medo por minha causa. Lembrei o que ele dissera antes, sobre eu representar para eles algum perigo relacionado a algo que chamavam de Volturi. O que seria um Volturi? Não conseguia imaginar o que seria capaz de assustar aquele vampiro perigoso, coberto de cicatrizes.
Atrás de Jasper, quatro vampiros formavam uma fila irregular, de costas para mim. Uma era Esme. Com ela havia uma mulher alta e loura, outra pequenina, de cabelos escuros, e um vampiro de cabelos escuros tão grande que me dava medo simplesmente olhar para ele. Fora aquele que eu vira matar Kevin. Por um instante imaginei-o pegando Raoul. A visão foi estranhamente prazerosa.
Havia mais três vampiros atrás do grandalhão. Eu não conseguia ver o que estavam fazendo com ele na minha frente. Carlisle estava ajoelhado no chão, e ao lado dele havia um vampiro de cabelos cor de bronze. Um corpo estava estendido, mas eu pouco podia ver dele, apenas uma calça jeans e botas marrons e pequenas. Era uma mulher ou um homem jovem. Imaginei se estavam pondo de volta os membros do vampiro.
Eram oito de olhos amarelos no total, além de todos aqueles uivos de antes, daqueles tipos estranhos de vampiros: eu havia identificado pelo menos outras oito vozes. Dezesseis, talvez mais. Mais que o dobro do que Riley nos alertara.
Desejei ardentemente que aqueles vampiros do manto escuro encontrassem Riley e o fizessem sofrer.
O vampiro no chão começou a se levantar devagar — eram movimentos estranhos, quase como se fosse um humano desajeitado.
A brisa mudou de direção, soprando a fumaça contra mim e contra Jasper. Por um momento, tudo ficou invisível, exceto ele. Eu não estava mais cega, como quando mantinha os olhos fechados, mas de repente, por alguma razão, me sentia mais ansiosa. Era como se pudesse absorver a ansiedade que irradiava do vampiro mais perto de mim.
O vento leve soprou novamente, agora, na direção oposta, e eu pude ver e farejar tudo.
Jasper sibilou para mim furiosamente e me empurrou para trás, obrigando-me a abandonar a posição em que estava, agachada, e me sentar no chão.
Era ela. A humana que eu estivera caçando minutos antes. O cheiro no qual todo meu corpo estivera concentrado. O aroma doce e úmido do sangue mais delicioso que eu já havia rastreado. Eu sentia a boca e a garganta queimando.
Tentei desesperadamente me agarrar à razão — pensar que Jasper só esperava que eu tentasse qualquer movimento para me matar —, mas só uma parte de mim era capaz disso. A sensação era de que eu estava muito perto de me rasgar ao meio na tentativa de continuar onde estava.
A humana — chamada Bella — me fitou com os olhos castanhos atordoados. Olhar para ela tornou tudo ainda pior. Eu conseguia ver o sangue correndo sob sua pele fina. Tentei me virar para outro lugar qualquer, mas meus olhos eram atraídos de volta para ela.
O de cabelos cor de bronze falou com ela em voz baixa.
— Ela se rendeu. É uma coisa que nunca vi na vida. Só Carlisle pensaria nessa oferta. Jasper não aprovou.
Carlisle devia ter explicado tudo ao grupo enquanto eu estava com os ouvidos tapados.
O vampiro abraçava a humana, e ela mantinha as mãos apoiadas no peito dele. Sua garganta estava a poucos centímetros da boca do vampiro, mas ela não parecia ter medo dele. E ele não parecia estar caçando. Eu tinha tentado entender a ideia de um bando com um humano de estimação, mas aquilo não passava nem perto de nada que eu pudesse ter imaginado. Se ela fosse uma vampira, eu deduziria que eles formavam um casal.
— Jasper está bem? — a humana sussurrou.
— Ele está bem. O veneno pinica — disse o vampiro.
— Ele foi mordido? — ela perguntou, como se estivesse chocada com a ideia.
Quem era aquela garota? Por que os vampiros a aceitavam no bando? Por que ainda não a haviam matado? Por que ela parecia tão confortável entre eles, como se não a assustassem? Ela parecia fazer parte daquele mundo, mas também não compreendia suas realidades. Jasper fora mordido, claro. Ele havia acabado de enfrentar — e destruir — meu bando inteiro. Aquela garota ao menos sabia o que éramos?
A ardência na minha garganta era insuportável! Tentei não pensar em aplacá-la com o sangue da humana, mas o vento soprava o cheiro dela diretamente para o meu nariz. Era tarde demais para conseguir me controlar — eu sentira o cheiro da presa que estava caçando, e nada poderia mudar isso agora.
— Ele tentava estar em toda parte ao mesmo tempo — o vampiro de cabelos cor de bronze contou à humana. — Tentando se certificar de que Alice não tivesse que fazer nada, na verdade. — Ele sacudiu a cabeça e olhou para a garota pequena de cabelos pretos. — Alice não precisa da ajuda de ninguém.
A vampira chamada Alice fez uma careta para Jasper.
— Tolo superprotetor — ela disse com uma voz clara de soprano.
Jasper a encarou com um meio sorriso, e por um segundo tive a impressão de que ele tinha esquecido que eu existia.
Era difícil segurar o impulso de tirar proveito desse lapso e saltar sobre a garota humana. Levaria menos de um instante, e então seu sangue quente — o sangue que eu podia ouvir pulsando, bombeado por seu coração — aplacaria a minha sede. Ela estava tão perto...
O vampiro de cabelos cor de bronze me encarou com um olhar furioso de advertência, e eu sabia que morreria se tentasse atacar a garota, mas a agonia na minha garganta dava a impressão de que também morreria se não tentasse. A dor era tão intensa que gritei de frustração.
Jasper rosnou para mim, e eu tentava não me mexer, mas era como se o cheiro fosse uma garra gigantesca que me arrancava do chão. Eu nunca havia tentado me abster do alimento uma vez iniciada uma caçada. Cravei os dedos no solo, procurando algo em que me segurar, mas não encontrei nada. Jasper ficou em posição de ataque, e, ao mesmo sabendo que eu estava a dois segundos da morte, não conseguia focar meus pensamentos sedentos.
E então Carlisle apareceu e colocou a mão no braço de Jasper. Ele me olhou com uma expressão bondosa, calma.
— Você mudou de ideia, jovem? — ele me perguntou. — Não queremos destruí-la, mas o faremos se não conseguir se controlar.
— Como pode suportar isso? — eu perguntei num tom de súplica. Ele não se sentia queimando, também? — Eu a quero.
Olhei a garota, desejando com desespero que a distância entre nós desaparecesse. Meus dedos cavavam inutilmente a terra encravada de pedras.
— Deve suportar — Carlisle disse num tom solene. — Deve exercitar o controle. É possível e é a única coisa que a salvará agora.
Se ser capaz de tolerar a presença da humana como faziam aqueles estranhos vampiros era minha única esperança de sobrevivência, eu já estava condenada. Não suportava o fogo. Além disso, também tinha opiniões conflitantes sobre sobrevivência. Eu não queria morrer, não queria a dor, mas qual era o propósito? Todos os outros estavam mortos. Diego estava morto havia dias.
Seu nome bailava nos meus lábios. Quase o pronunciei. Em vez disso, agarrei a cabeça com as duas mãos e tentei pensar em algo que não causasse dor. Algo que não fosse a garota, nem Diego. Não funcionou.
— Não devíamos nos afastar dela? — a humana murmurou, atrapalhando minha concentração.
Meus olhos voltaram a ela. Sua pele era muito fina e macia. Eu podia ver a veia pulsando em seu pescoço.
— Temos de ficar aqui — disse o vampiro que a abraçava. — Eles estão chegando ao norte da clareira agora.
Eles? Olhei para o norte, mas não havia nada além de fumaça. Ele se referia a Riley e minha criadora? Senti uma nova onda de pânico, seguida por um pequeno espasmo de esperança. Ela e Riley não poderiam enfrentar e vencer aqueles vampiros que já haviam matado tantos dos nossos, poderiam? Mesmo que os outros, os que uivavam, já tivessem partido, Jasper parecia capaz de lidar sozinho com os dois.
Ou ele se referia aos misteriosos Volturi?
O vento soprou o cheiro da garota humana contra meu rosto novamente, e meus pensamentos se dispersaram. Olhei-a sem disfarçar a sede.
A garota sustentou meu olhar, mas sua expressão era muito diferente do que deveria ser. Embora eu pudesse sentir meus lábios retraídos e os dentes expostos, embora o esforço de conter o impulso de atacá-la me fizesse tremer, ela não parecia ter medo de mim. Em vez disso, sua expressão sugeria que estava fascinada. Era quase como se quisesse falar comigo — como se tivesse uma pergunta que esperava que eu respondesse.
Carlisle e Jasper começaram a se afastar do fogo — e de mim —, fechando fileiras com os outros e a humana. Todos olhavam para um ponto atrás de mim, além da fumaça, sinal de que, qualquer que fosse a origem de seu medo, estava mais perto de mim que deles. Eu me encolhi no meio da fumaça, apesar das chamas próximas. Devia tentar correr? Eles estariam tão distraídos que eu teria a chance de fugir? E para onde iria? Procurar Fred? Seguir sozinha? Encontrar Riley e fazê-lo pagar pelo que fizera com Diego?
Hesitei, muito atraída por essa última alternativa, e o momento passou. Ouvi movimentos ao norte e soube que estava encurralada entre os de olhos amarelos e o que quer que se aproximasse.
— Hmmm — uma voz monótona soou por trás da fumaça.
Essa única sílaba me fez ter certeza de quem era, e se eu não estivesse gelada e paralisada com um terror incontrolável, já teria corrido.
Eram os dos mantos escuros. O que isso significava? Uma nova batalha começaria agora? Eu sabia que os vampiros de manto escuro queriam que minha criadora tivesse sucesso na destruição dos de olhos amarelos. Minha criadora falhara, evidentemente. Isso significava que eles iam matá-la? Ou será que, em vez disso, matariam Carlisle, Esme e todos ali? Se eu pudesse escolher, sabia quem destruiria, e não seriam aqueles que agora me mantinham cativa.
Os dos mantos escuros deslizaram por entre a fumaça e pararam diante dos de olhos amarelos. Nenhum deles olhava na minha direção. Eu continuava completamente imóvel.
Eram só quatro deles, como na vez anterior. Mas não fazia diferença o fato de haver sete dos de olhos amarelos. Eu sentia que eles eram tão cautelosos quanto Riley e nossa criadora haviam sido ao tratar com os de manto escuro. Havia mais neles do que eu podia ver, mas eu, definitivamente, podia sentir. Eram eles os que aplicavam as punições, e eles não perdiam.
— Bem-vinda, Jane — disse o de olho amarelo que abraçava a humana.
Eles se conheciam. Mas a voz do vampiro de cabelos cor de bronze não era amistosa — não era mansa, nem ansiosa para agradar, como havia soado a de Riley, nem furiosamente aterrorizada como a da minha criadora. A voz era simplesmente fria, educada e desprovida de qualquer nota de surpresa. Os de manto escuro eram os Volturi, então?
A pequena vampira que os liderava — Jane, aparentemente — olhou sem pressa para cada um dos sete do outro bando e para a humana e depois, finalmente, se virou para mim. Pude ver seu rosto pela primeira vez. Ela era mais jovem que eu, mas muito mais antiga também, pensei. Os olhos eram vermelhos como a mais escura e aveludada rosa. Sabia que era tarde demais para tentar passar despercebida, por isso baixei a cabeça, cobrindo-a com as mãos. Talvez se ficasse claro que eu não queria lutar, Jane me tratasse como Carlisle fizera. Mas eu não tinha muita esperança.
— Não entendo — a voz morta de Jane traía certo aborrecimento.
— Ela se rendeu — explicou o de cabelos cor de bronze.
— Rendeu-se? — Jane disparou.
Levantei a cabeça apenas o suficiente para ver que os de manto escuro se entreolhavam. O vampiro de cabelos cor de bronze dissera que nunca vira ninguém se render antes. Talvez eles também não.
— Carlisle lhe deu essa opção — disse então o vampiro.
Ele parecia ser o porta-voz dos de olhos amarelos, embora Carlisle parecesse ser o líder.
— Não há opções para os que quebram as regras — disse Jane com sua voz sem emoção.
Carlisle respondeu com a voz branda.
— Está em suas mãos. Como a menina se dispôs a parar de nos atacar, não vi necessidade de destruí-la. Ninguém lhe ensinou nada.
Embora suas palavras fossem neutras, tive a impressão de que ele quase intercedia por mim. Mas, como ele mesmo dissera, meu destino não dependia dele.
— Isso é irrelevante — Jane confirmou.
— Como quiser.
Jane fitava Carlisle com uma expressão que era um misto de dúvida e frustração. Ela sacudiu a cabeça, e seu rosto se tornou novamente uma máscara indecifrável.
— Aro esperava que viéssemos mais a oeste para ver você, Carlisle — ela disse. — Ele manda lembranças.
— Eu agradeceria se transmitisse as minhas a ele.
Jane sorriu.
— Claro. — Depois olhou para mim novamente, os lábios ainda distendidos num esboço de sorriso. — Parece que vocês fizeram o trabalho por nós hoje... A maior parte dele. Só por curiosidade profissional, quantos havia? Eles deixaram uma bela esteira de destruição em Seattle.
Ela falava de trabalho e profissionalismo. Eu estava certa, então, ao pensar que era sua função punir. E se havia os que puniam, devia haver regras. Carlisle dissera isso antes: Seguimos as regras, e também: Não há lei contra criar vampiros, desde que você os controle. Riley e minha criadora haviam ficado temerosos, mas não exatamente surpresos com a chegada dos de manto escuro, os Volturi. Eles sabiam sobre as leis, e sabiam que as estavam desrespeitando. Por que não nos disseram? E havia mais Volturi que aqueles quatro. Alguém chamado Aro e, provavelmente, muitos outros. Deviam ser muitos para todos sentirem tanto medo deles.
Carlisle respondeu à pergunta de Jane.
— Dezoito, incluindo esta.
Houve um murmúrio audível entre os quatro de manto.
— Dezoito? — Jane repetiu num tom surpreso.
Nossa criadora não dissera a ela quantos de nós havia criado. Jane estava realmente surpresa ou só fingia?
— Todos novos — continuou Carlisle. — Eram inábeis.
Inábeis e desinformados, graças a Riley. Eu começava a ter uma ideia de como esses vampiros mais velhos nos viam. Recém-criada, Jasper me chamara. Como um bebê.
— Todos? — Jane indagou, incisiva. — Então, quem foi seu criador?
Como se já não tivessem sido apresentadas. Aquela Jane mentia mais que Riley, e era muito melhor nisso que ele.
— O nome dela era Victoria — respondeu o de cabelos cor de bronze.
Como ele sabia disso, se nem eu sabia? Lembrei que Riley dissera que havia um entre eles capaz de ler mentes. Era assim que sabiam de tudo? Ou essa fora mais uma das mentiras de Riley?
— Era? — perguntou Jane.
O de cabelo de bronze inclinou a cabeça para o leste como se estivesse apontando. Ergui a cabeça e vi uma nuvem densa de fumaça lilás pairando acima da encosta de uma montanha.
Era. Senti um prazer semelhante ao que havia experimentado quando imaginara o vampiro grandalhão dilacerando Raoul. Só que muito, muito mais intenso.
— Essa Victoria... — Jane perguntou sem pressa. — Eram ela e mais os dezoito aqui?
— Sim — confirmou o cabelo de bronze. — Tinha um deles com ela. Ele não era tão jovem quanto esta aqui, mas não devia passar de um ano mais velho.
Riley. Meu prazer aumentou. Se — tudo bem, quando — eu morresse naquele dia, pelo menos não deixaria essa ponta solta. Diego fora vingado. Eu quase sorri.
— Vinte — Jane sussurrou. Ou o número era maior do que ela esperava ou ela era uma atriz fabulosa. — Quem lidou com a criadora?
— Eu — o de cabelo de bronze respondeu num tom frio.
Quem quer que fosse aquele vampiro, tendo ou não uma humana de estimação, ele era meu amigo. Mesmo que me matasse no final, ainda seria eternamente grata a ele.
Jane me olhou, estreitando os olhos.
— Você aí — disse com a voz severa. — Seu nome.
Eu estava morta de qualquer jeito, pelo que ela dissera pouco antes. Então, por que dar àquela vampira mentirosa o que ela queria? Eu a encarei, a cara fechada.
Jane sorriu para mim, o sorriso radiante e feliz de uma criança inocente, e de repente me senti queimar. Era como se eu tivesse voltado no tempo até a pior noite da minha vida. O fogo ardia em todas as veias do meu corpo, cobria cada centímetro de pele, devorava a medula de cada osso. Era como estar bem no meio da pira funerária do meu bando, cercada de chamas. Não havia uma única célula em meu corpo que não estivesse queimando na pior agonia imaginável. Eu mal podia ouvir meus próprios gritos, porque meus ouvidos doíam terrivelmente.
— Seu nome — Jane repetiu, e enquanto ela falava o fogo desapareceu. Sumiu, como se eu o houvesse imaginado.
— Bree — respondi tão depressa quanto pude, ainda ofegando, embora não sentisse mais a dor.
Jane sorriu outra vez, e o fogo voltou a arder em todos os lugares. Quanta dor teria de suportar antes de morrer? Os gritos nem pareciam brotar de mim. Por que alguém não arrancava minha cabeça? Carlisle era generoso o suficiente para isso, não era? Ou o tal leitor de mentes, quem quer que fosse — ele não conseguiria entender tudo e fazer aquilo parar?
— Ela vai lhe contar o que quiser — disse o de cabelo de bronze. — Não precisava fazer isso.
A dor desapareceu outra vez, como se Jane a controlasse por um interruptor. Eu estava deitada no chão, o rosto colado na terra, arfando como se o ar me faltasse.
— Ah, eu sei — Jane disse animada. — Bree?
Estremeci quando ela pronunciou meu nome, mas a dor não voltou.
— O que ele diz é verdade? Vocês eram vinte?
As palavras voaram da minha boca.
— Dezenove ou vinte, talvez mais, eu não sei! Sara e aquele cujo nome não sei brigaram no caminho...
Esperei a dor como punição pela falta de uma resposta melhor, mas em vez disso Jane falou novamente.
— E essa Victoria... Ela criou você?
— Não sei — admiti apavorada. — Riley nunca disse o nome dela. Eu não a vi naquela noite... Estava escuro, e doía... — Eu tremi. — Ele não queria que pudéssemos pensar nela. Disse que nossos pensamentos não estavam seguros...
Jane olhou para o vampiro de cabelos cor de bronze, depois voltou a olhar para mim.
— Fale-me de Riley — ela disse. — Por que ele a trouxe aqui?
Recitei as mentiras de Riley tão depressa quanto podia.
— Riley nos disse que tínhamos que destruir os estranhos de olhos amarelos aqui. Disse que seria fácil. Disse que a cidade era deles, e que eles viriam nos pegar. Disse que depois que eles sumissem, todo o sangue seria nosso. E nos deu o cheiro dela. — Apontei para a humana. — Ele disse que saberíamos que tínhamos o bando certo porque ela estaria com eles. Disse que quem a pegasse primeiro poderia tê-la.
— Parece que Riley estava enganado sobre a parte fácil — Jane disse num tom meio debochado.
Ela parecia satisfeita com a minha história. Num lampejo de percepção, compreendi que ela estava aliviada por Riley não ter me contado nem aos outros sobre a visita à nossa criadora. Victoria. Essa era a história que ela queria que os de olhos amarelos soubessem — uma história que não implicava Jane nem os Volturi de manto escuro. Pois bem, eu podia manter a versão. Com sorte, o leitor de mentes descobriria o que não fosse revelado com palavras.
Não podia me vingar fisicamente daquele monstro, mas podia contar aos de olhos amarelos tudo o que sabia usando meus pensamentos. Era o que eu esperava.
Assenti, concordando com a piadinha de Jane, e me sentei, porque queria a atenção do leitor de mentes, quem quer que ele fosse. Continuei com a versão da história que qualquer outro membro do meu bando poderia ter relatado. Fingi que era Kevin. Burro como um saco de pedras e totalmente ignorante.
— Não sei o que aconteceu. — Essa parte era verdadeira. A confusão no campo de batalha ainda era um mistério. Eu não vira ninguém do grupo de Kristie. Os vampiros misteriosos que uivavam tinham acabado com eles? Eu guardaria esse segredo para os de olhos amarelos. — Nós nos separamos, mas os outros não chegavam nunca. E Riley nos deixou, não voltou para ajudar, como prometeu. E depois ficou tudo muito confuso e todos estavam em pedaços. — Tremi ao lembrar o tronco sobre o qual havia saltado. — Eu fiquei com medo. Queria fugir. — Apontei para Carlisle. — Aquele ali disse que eles não me machucariam se eu parasse de lutar.
Eu não estava traindo Carlisle. Ele mesmo já dissera isso a Jane.
— Ah, mas ele não podia lhe oferecer esse presente, minha jovem — disse Jane. Ela parecia estar se divertindo. — A transgressão às regras tem suas consequências.
Ainda fingindo que era Kevin, simplesmente olhei-a como se fosse estúpida demais para entender.
Jane olhou para Carlisle.
— Tem certeza de ter eliminado todos eles? A outra metade que se dividiu?
Carlisle assentiu.
— Nós também nos dividimos.
Então foram os que uivavam que pegaram Kristie. Eu esperava que, fossem o que fossem, eles tivessem o poder de realmente aterrorizar. Kristie merecia.
— Não posso negar que estou impressionada — Jane disse num tom sincero, e pensei que, provavelmente, era verdade.
Jane esperara que o exército de Victoria causasse algum estrago ali, e nós havíamos fracassado.
— Sim — os três vampiros atrás de Jane concordaram em voz baixa.
— Nunca vi um bando escapar intacto de um ataque dessa magnitude — Jane continuou. — Sabe o que estava por trás disso? Parece uma conduta extremada, considerando o modo como vocês vivem aqui. E por que a garota era a chave?
Os olhos dela pousaram na humana por um momento.
— Victoria tinha ressentimentos com relação a Bella — o de cabelos cor de bronze respondeu.
E a estratégia finalmente fez sentido. Riley só queria acabar com a garota, não se importava com quantos de nós morreríamos para isso.
Jane riu com alegria.
— Essa aí — ela sorriu para a humana como sorrira para mim — parece provocar reações estranhamente fortes em nossa espécie.
Nada aconteceu com a garota. Talvez Jane não quisesse feri-la. Ou talvez seu horrível talento só funcionasse com vampiros.
— Poderia, por favor, não fazer isso? — o de cabelo cor de bronze perguntou numa voz controlada, mas furiosa.
Jane riu novamente.
— Só estou verificando. Ao que parece, não causei dano algum.
Tentei manter a expressão “kevinizada” e não entregar o que me interessava. Então Jane não conseguia causar dor à garota como fizera comigo, e isso não era algo normal para ela. Embora estivesse rindo, era visível que estava muito irritada. Era por isso que a garota humana era tolerada pelos de olhos amarelos? Mas, se ela era de alguma forma especial, por que eles não a transformavam em vampira e pronto?
— Bem, parece que não nos resta muito a fazer — disse Jane, a voz retomando aquela nota inexpressiva. — Singular. Não estamos acostumados a ser desnecessários. É uma pena que tenhamos perdido a luta. Parece que teríamos uma diversão para assistir.
— Sim — respondeu o de cabelos cor de bronze. — E vocês chegaram perto. É uma pena que não tenham chegado meia hora atrás. Talvez pudessem cumprir seus objetivos aqui.
Eu lutei contra um sorriso. Então, o cabelo cor de bronze era o que podia ler pensamentos, e ele ouvira tudo que eu queria que ouvisse. Jane não conseguiria esconder nada.
Ela olhou para o vampiro leitor de mentes com uma expressão indecifrável.
— Uma pena que as coisas tenham sido assim, não é?
O leitor de mentes assentiu, e eu fiquei imaginando o que ele ouvia dos pensamentos de Jane.
Jane virou o rosto sem expressão para mim. Não havia nada nos olhos dela, mas eu podia sentir que meu tempo se esgotara. Ela já obtivera de mim o que queria. Não sabia que eu também havia transmitido ao leitor de mentes tudo o que podia. E protegido os segredos do bando dele também. Eu devia isso a ele. Ele punira Riley e Victoria por mim.
Olhei-o pelo canto do olho e pensei: Obrigada.
— Felix? — Jane chamou sem pressa.
— Espere — disse em voz alta o que lia pensamentos.
Ele se virou para Carlisle e falou depressa:
— Podemos explicar as regras à jovem. Ela não parece relutante em aprender. Ela não sabe o que estava fazendo.
— É claro — Carlisle respondeu ansioso, olhando para Jane. — Certamente estaríamos preparados para assumir a responsabilidade por Bree.
Jane assumiu uma expressão cética, como se não soubesse se eles estavam brincando ou não, mas, se estivessem brincando, eram mais divertidos do que ela havia imaginado.
Eu estava profundamente tocada. Aqueles vampiros eram estranhos, e estavam se arriscando por mim. Eu já sabia que não ia adiantar nada, mas mesmo assim...
— Não abrimos exceções — Jane disse a eles num tom de prazer. — E não damos uma segunda chance. É ruim para nossa reputação.
Era como se ela discutisse sobre outra pessoa. Eu não me importava que estivesse se referindo a me matar. Sabia que os de olhos amarelos não podiam impedi-la. Ela era a polícia dos vampiros. E, embora os tiras vampiros fossem sujos — realmente sujos —, pelo menos os de olhos amarelos sabiam disso agora.
— O que me lembra... — Jane continuou, os olhos se fixando novamente na garota humana e o sorriso se tornando mais largo. — Caius vai ficar muito interessado em saber que ainda é humana, Bella. Talvez ele decida fazer uma visita.
Ainda humana. Então, eles iam transformar a garota. Tentei imaginar o que estariam esperando.
— A data está marcada — disse a vampira pequena de cabelos escuros e voz clara. — Talvez nós os visitemos daqui a alguns meses.
O sorriso de Jane desapareceu como se alguém o tivesse apagado. Ela deu de ombros sem olhar para a vampira de cabelos escuros, e tive a sensação de que, por mais que odiasse a garota humana, odiava aquela vampira dez vezes mais.
Jane deu as costas para Carlisle com a mesma expressão vaga de antes.
— Foi um prazer encontrá-lo, Carlisle... Pensei que Aro estivesse exagerando. Bem, até a próxima vez...
Era isso, então. Eu ainda não sentia medo. Só lamentava não poder contar mais sobre aquilo tudo a Fred. Ele entraria quase totalmente às cegas naquele mundo cheio de regras perigosas, policiais sujos e bandos misteriosos. Mas Fred era inteligente, cuidadoso e talentoso. O que poderiam fazer com ele, se nem conseguiam vê-lo? Talvez os de olhos amarelos um dia o encontrassem. Sejam bons para ele, por favor, pensei para o leitor de mentes.
— Cuide disso, Felix — disse Jane indiferente, apontando para mim com um movimento de cabeça. — Quero ir para casa.
— Não olhe — sussurrou o leitor de mentes de cabelos cor de bronze.
Eu fechei os olhos.

8 comentários:

  1. Desde a hora que o Diego não voltou, eu sabia que o fdp do Riley tinha matado ele...

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    1. Né! Deu pra perceber que tinha alguma coisa estranha acontecendo...
      Mas gostei desse conto, foi legal conhecer a visão de outro personagem

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  2. Poxa, mesmo sabendo que ela ia morrer eu desejei que ela vivesse... Amo o jeito com que a autora nos faz apaixonar pelos personagens <3 e odiar alguns com a mesma intensidade.
    Muito obrigado por postar essa one Ka (se é que posso te chamar assim.

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  3. Fernanda Boaventura25 de outubro de 2015 14:32

    Mesmo já sabendo que isso ia acontecer, não teve jeito... Quase chorei.. e foi impossível não desejar um final diferente para a Bree... Mas foi muito bom ter uma visão do outro lado da historia.

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  4. E eu achava que Crepúsculo não era uma saga triste.... :-: -N

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  5. Gente Que Linda kkkkkkkkk Amei Essa Garota, Seria Muito Legal Ela Descobrir O Mundo Lá Fora Com Os Cullen, E Ainda Iria Pra Escola, Aprenderia A Não Caçar Humanos, Ela Seria Otima Na Historia!!! Amei ELa

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    1. Né! Havia tantas possibilidades para ela.. E para o outro, que nem apareceu em Crepúsculo

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  6. muito 10 essas versões de outros personagens que a autora fez!! amei essa versão e triste pelo final dela, ela realmente merecia viver

    assinado: synthia

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