24 de setembro de 2015

Capítulo 9 - Triângulo

O tempo estava passando muito mais rápido do que antes. Escola, trabalho e Jacob - não necessariamente nessa ordem - criaram um padrão que eu seguia ser esforço. E Charlie realizou seu desejo: eu não estava mais infeliz. É claro, eu não conseguia me enganar completamente. Quando eu parava de agir, o que eu tentava não fazer com muita frequencia, eu não conseguia ignorar minhas razões pra me comportar daquele jeito.
Eu era como uma lua perdida - meu planeta havia sido destruído em algum desastre cataclístico, um cenário de filme desolador - que continuava, ainda assim, girando ao redor da órbita apertada do buraco vazio deixado pra trás, ignorando as leis da gravidade.
Eu estava melhorando com a minha moto, isso significava menos curativos pra preocupar Charlie. Mas isso também significou que a voz na minha cabeça começou a desaparecer, até que eu não a ouvia mais. Silenciosamente, eu entrei em pânico. Eu me joguei na procura da clareira com uma intensidade levemente frenética. Eu torturei meu cérebro à procura de outras atividades producentes de adrenalina.
Eu não tinha noção dos dias que se passavam - não havia motivo, já que eu tentava viver no presente o máximo de tempo possível, sem que o passado desaparecesse, sem que o futuro impedisse.
Então eu me surpreendí com a data quando Jacob a comentou num dos nossos dias de dever de casa. Ele já estava me esperando quando eu parei na frente da casa dele.
— Feliz dia dos namorados — Jacob disse, sorrindo, mas baixando a cabeça enquanto me cumprimentava.
Ele segurou uma caixa pequena, cor de rosa, segurando ela na palma.
Ela tinha formato de coração.
— Bem, eu me sinto uma idiota — murmurei. — Hoje é dia dos namorados?
Jacob balançou a cabeça com falsa tristeza.
— Você viaja às vezes. Sim, é catorze de fevereiro. Então você vai ser minha namorada? Já que você não me comprou uma caixa de cinquenta centavos de doces pra mim, isso é o mínimo que você pode fazer.
Eu comecei a me sentir desconfortável.
As palavras eram de brincadeira, mas só na superfície.
— O que exatamente isso envolve?
— O de sempre - escrava pra toda a vida, esse tipo de coisa.
— Oh, bem, se isso é tudo...— eu peguei os doces. Mas eu estava pensando num jeito de limpar as coisas. De novo. Elas pareciam ficar turvas com frequencia com Jacob.
— Então, o que vamos fazer amanhã? Caminhada ou pronto socorro?
— Caminhada — eu decidi. — Você não é o único que pode ser obsessivo. Eu estou começando a pensar que imaginei aquele lugar — Eu fiz uma carranca pra o espaço.
— Nós vamos encontrar — ele me assegurou. — Motos na Sexta? — ele ofereceu.
Eu vi a chance e a agarrei antes de ter tempo pra pensar.
— Eu vou pro cinema na Sexta. Faz uma eternidade que eu estou prometendo pra os meus amigos da escola que nós vamos sair — Mike ia ficar feliz.
Mas o rosto de Jacob caiu. Eu captei a expressão dos olhos dele antes que ele os baixasse para olhar pro chão.
— Você vai vir também, né? — eu acrescentei rapidamente. — Ou será que vai ser chato demais ficar com um monte de veteranos enfadonhos? — Minha chance de colocar uma distância entre nós já era.
Eu não podia aguentar machucar Jacob; nós parecíamos estar conectados de uma forma estranha, e a dor dele dava pontadas na minha própria. Além do mais, ter a companhia de Jacob na minha provação - eu tinha prometido à Mike, mas realmente não me sentia muito entusiasmada a cumprir - era tentador demais.
— Você quer que eu vá, com os seus amigos lá?
— Sim — eu admiti honestamente, sabendo que enquanto eu dizia aquelas palavras eu estaria atirando no meu próprio pé. — Eu vou me divertir muito mais com você lá. Traga Quil, nós vamos fazer uma festa.
— Quil vai enlouquecer. Garotas veteranas — Ele gargalhou e fechou os olhos. Eu não mencionei Embry, e ele também não. Eu ri também.
— Eu vou tentar fazer uma boa seleção pra ele.
Eu falei sobre o assunto com Mike na aula de Inglês.
— Ei, Mike — eu disse quando a aula acabou. — Você está livre na sexta à noite?
Ele olhou pra cima, seus olhos azuis instantaneamente esperançosos.
— É, eu estou. Você quer sair?
Eu dei minha resposta tomando cuidado com as palavras.
— Eu estava pensando em formar um grupo —  eu enfatizei a palavra  —pra irmos ver Crosshairs —, dessa vez eu fiz meu dever de casa - eu até li as sinopses de alguns filmes pra ter certeza de que não seria pega fora de guarda. Esse filme era pra ser um banho de sangue do início até o fim. Eu não estava recuperada o suficiente pra encarar um romance. — Parece divertido?
— Claro — ele disse, visivelmente menos ansioso.
— Legal.
Depois de um segundo, ele voltou ao seu nível normal de excitação.
— Que tal chamarmos Angela e Ben? Ou Eric e Katie?
Ele estava determinado a transformar isso numa espécie de duplo encontro, aparentemente.
— Que tal todos? — eu sugeri. — E Jéssica, também, é claro. E Tyler e Conner, e talvez Lauren — eu disse com malevolência. Eu tinha prometido variedade pra Quil.
— Ok — Mike murmurou, derrotado.
— E — eu continuei. — Eu tenho dois amigos de La Push que eu estou convidando. Então parece que vamos precisar do seu carro se todos vierem.
Os olhos de Mike se estreitaram de suspeita.
— É com esses amigos que você passa todo o seu tempo estudando agora?
— É, eles mesmos — eu respondi alegremente. — Apesar de você poder dizer que eu estou mais tutorando - eles são do segundo ano.
— Oh — Mike disse surpreso. Depois de um segundo pensando, ele sorriu.
No fim, porém, o carro de Mike não foi necessário.
Jéssica e Lauren disseram que estavam ocupadas assim que Mike disse que eu estava envolvida no plano. Eric e Katie já tinham planos - era o aniversário de três semanas deles, ou alguma coisa assim.
Lauren falou com Tyler e Conner antes de Mike, então aqueles dois também estavam ocupados. Até Quil estava de fora - ele estava de castigo por ter brigado na escola. No fim, só Ângela e Ben, e Jacob, é claro, foram capazes de ir.
O número diminuído não conseguiu apagar a animação de Mike, porém.
Isso era tudo sobre o que ele falava na sexta.
— Você tem certeza que não vai querer assistir Amanhã e para sempre?— ele perguntou no almoço, falando da nova comédia romântica que estava no auge. — Ele teve uma crítica melhor.
— Eu quero ver Crosshairs—, eu insisti. — Eu estou a fim de ação. Podem trazer o sangue e os intestinos!
— Ok — Mike se virou, mas não antes que eu pudesse ver a expressão dele de talvez-ela-seja-louca-mesmo.
Quando eu cheguei em casa da escola, um carro muito familiar estava estacionado na porta da frente da minha casa. Jacob estava encostado no capô, com um sorriso enorme iluminando seu rosto.
— Sem essa! — Eu gritei enquanto pulava pra fora da caminhonete. — Você acabou! Eu não acredito! Você terminou o Rabbit!
Ele brilhou.
— Na noite passada. Essa é a viagem de inauguração.
— Incrível — Eu levantei a mão pra ele bater.
Ele bateu sua mão na minha, mas a deixou lá, cruzando seus dedos com os meus.
— Então eu vou poder dirigir hoje?
— Definitivamente — eu disse, e depois suspirei.
— Qual é o problema?
— Eu desisto - eu não consigo superar isso. Então você vence. Você é o mais velho.
Ele levantou os ombros, sem se surpreender com a minha desistência.
— É claro que eu sou.
O Suburban de Mike virou na esquina. Eu tirei minha mão da de Jacob, e ele fez uma cara que não era pra eu ver.
— Eu me lembro desse cara — ele disse baixinho enquanto Mike estacionava do outro lado rua. — O que pensava que você era namorada dele. Ele ainda está confuso?
Eu ergui uma sobrancelha.
— Algumas pessoas são difíceis de desencorajar.
— Ainda assim — Jacob disse pensativo. — Às vezes a persistência trás lucros.
— No entanto, às vezes é só muito irritante.
Mike saiu do seu carro e atravessou a rua.
— Oi, Bella —,ele me cumprimentou, e então seus olhos se tornaram cautelosos quando ele olhou pra Jacob. Eu olhei brevemente pra Jacob também, tentando ser objetiva.
Ele realmente não parecia nem um pouco estar no segundo ano.
Ele era tão grande - a cabeça de Mike mal alcançava os ombros dele; eu nem queria pensar em como eu ficava ao lado dele - e então até o rosto dele parecia mais envelhecido do que estava há um mês.
— Oi, Mike! Você se lembra de Jacob Black?
— Na verdade não — Mike estendeu sua mão.
— Velho amigo da família — ele se apresentou, com um aperto de mãos.
Eles apertaram as mãos com mais força que o necessário. Quando o aperto acabou, Mike flexionou os dedos.
Eu ouvi o telefone tocando na cozinha.
— É melhor eu ir atender - pode ser Charlie — eu disse pra eles, e corri pra dentro.
Era Ben. Ângela estava doente com um problema no estômago, ele não estava a fim de ir sem ela. Ele se desculpou por furar com a gente.
Eu caminhei de volta lentamente para os garotos esperando. Eu realmente esperava que Ângela melhorasse logo, mas eu tinha que admitir que estava egoistamente aborrecida por isso. Só nós três, Mike e Jacob e eu, juntos durante a noite - isso ia ser brilhante, eu pensei com um sorriso de sarcasmo.
Não parecia que Jacob e Mike havia feito grandes progressos na amizade durante a minha ausência. Eles estavam alguns metros distantes, olhando pra longe um do outro enquanto esperavam; a expressão de Mike estava solene, mas a de Jacob estava tão alegre como sempre.
—Ang está doente — eu disse a eles mal humorada. — Ela e Ben não vêm.
— Eu acho que essa doença está se espalhando. Austin e Conner também estão de cama hoje. Talvez a gente devesse fazer isso outra hora — Mike sugeriu.
Antes que eu pudesse concordar, Jacob falou.
— Eu ainda estou a fim. Mas se você preferir ficar, Mike.
— Não, eu vou — Mike interrompeu. — E só estava pensando em Ângela e Ben. Vamos lá — ele começou a se dirigir para o Suburban dele.
— Ei, você se importa se Jacob dirigir? — eu perguntei. — Eu disse que ele podia - ele acabou de terminar seu carro. Ele o construiu inteiro, sozinho — eu alardeei como uma mãe orgulhosa cujo filho é o primeiro da sala.
— Tá bom — Mike atirou.
— Ta bom então —  Jacob disse, como se isso acertasse tudo. Ele parecia mais confortável que todo mundo.
Mike se sentou no banco de trás do Rabbit com uma expressão de nojo.
Jacob estava brilhante como sempre, tagarelando sem parar até que eu me esqueci de Mike amuado no banco de trás.
E então Mike mudou sua estratégia. Ele se inclinou pra frente, descansando o queixo no encosto de ombros do meu banco; a bochecha dele quase tocava a minha. Eu me afastei, ficando de costas para a janela.
— O som dessa coisa não funciona? — Mike perguntou com uma pontada de petulância, interrompendo Jacob no meio de uma frase.
— Sim — Jacob respondeu. — Mas Bella não gosta de música.
Eu encarei Jacob, surpresa. Eu nunca tinha dito isso pra ele.
— Bella? — Mike perguntou, aborrecido.
— Ele está certo — eu respondi, ainda olhando para o perfil sereno de Jacob.
— Como é que você pode não gostar de música? — Mike quis saber.
Eu levantei os ombros.
— Eu não sei. Só me irrita.
— Hmph — Mike se afastou.
Quando nós chegamos no cinema, Jacob me deu uma nota de dez dólares.
— O que é isso? — eu perguntei.
— Eu não sou velho o suficiente pra ver esse — ele me lembrou.
Eu ri alto.
— Já era com as idades relativas. Billy vai me matar se eu te arrastar lá pra dentro?
— Não. Eu vou dizer que você estava tentando corromper minha inocência juvenil.
Eu ri silenciosamente, e Mike forçou o passo pra se aproximar de nós.
Eu quase desejei que Mike tivesse desistido de vir. Ele ainda estava solene- não era uma grande contribuição para a festa. Mas eu também não queria acabar sozinha num encontro com Jake. Isso não ia ajudar em nada.
O filme era exatamente o que eu esperava que fosse. Só nos créditos iniciais, quatro pessoas explodiram e uma foi decapitada. A garota na minha frente tapou os olhos com as mãos e escondeu o rosto no peito do namorado. Ele deu uns tapinhas no ombro dela, e ocasionalmente estremecia também. Mike não parecia estar assistindo.
O rosto dele estava rígido enquanto ele olhava para a cortina franzida em cima da tela.
Eu me fiz confortável pra aguentar as duas horas, preferindo ver as cores e os movimentos da tela do que ver as pessoas e os carros e as casas.
Mas então Jacob começou a rir silenciosamente.
— Que foi? — eu perguntei.
— Oh, fala sério! — ele sussurrou de volta. — O sangue daquele cara voou metros. Quão falso você pode ser?
Ele gargalhou de novo, enquanto um mastro de uma bandeira espatifava outro homem numa parede de concreto.
Depois disse, eu realmente comecei a assistir o show, rindo com ele enquanto o desfecho se tornava mais e mais ridículo. Como era que eu ia lutar com as linhas distorcidas do nosso relacionamento quando eu gostava tanto de ficar com ele?
Tanto Jacob quanto Mike usaram os meus descansos de braço dos dois lados. As mãos dos dois descansava levemente, com a palma virada pra cima, numa posição que não parecia muito natural. Como armadilhas de metal pra ursos, abertas e prontas. Jacob tinha o hábito de agarrar a minha mão sempre que tinha a oportunidade, mas ali no escuro do cinema, com Mike olhando, isso teria um significado diferente - e eu tinha certeza que ele sabia disso. Eu não conseguia acreditar que Mike estava pensando a mesma coisa que Jacob, mas ele colocou a mão exatamente do mesmo jeito.
Eu cruzei meus braços com força no peito e esperei que as mãos deles ficassem dormentes.
Mike desistiu primeiro. Lá pro meio do filme, ele puxou seu braço, e se inclinou pra frente pra colocar a cabeça nas mãos. No começo eu pensei que ele estava reagindo à alguma coisa que tinha visto na tela, mas depois ele gemeu.
— Mike, você está bem? — eu sussurrei.
O casal na nossa frente se virou pra olhar pra ele quando ele gemeu de novo.
Eu podia ver um brilho de suor no rosto dele com a luz fraca da tela.
Mike gemeu de novo, e saiu correndo pela porta. Eu me levantei pra segui-lo, e Jacob me copiou imediatamente.
— Não, fique — eu sussurrei. — Eu vou ver se ele está bem.
Jacob veio comigo do mesmo jeito.
— Você não tem que vir. Faça os seus oito dólares valerem a pena.
Eu insisti enquanto caminhava pelo corredor.
— Tudo bem. Você pode ficar com eles, Bella. Esse filme não presta — A voz dele passou de um sussurro pra o seu tom normal enquanto saíamos da sala.
Não havia sinal de Mike no corredor, e eu fiquei feliz que Jacob tivesse vindo comigo - ele se enfiou no banheiro masculino pra procurá-lo por mim.
Jacob voltou depois de alguns segundos.
— Oh, ele está lá, com certeza—, ele disse, revirando os olhos. — Que molenga. Você devia ter chamado por alguém com um estômago mais forte. Alguém que ri daquilo que faz homens mais fracos vomitarem.
— Eu vou manter os olhos abertos pra alguém assim.
Nós estávamos sozinhos no corredor. As duas salas estavam com os filmes na metade, e ele estava deserto - quieto o suficiente pra nós ouvirmos a pipoca estourando no balcão de venda no saguão.
Jacob foi se sentar no banco coberto de veludo, dando uns tapinhas no espaço vazio ao lado dele.
— Acho que ele ainda ia ficar lá dentro por algum tempo — ele disse, esticando as pernas na frente dele enquanto se preparava pra esperar.
Eu me juntei a ele com um suspiro. Ele parecia estar pensando em cruzar mais algumas linhas. Assim, assim que eu me sentei, ele se inclinou pra colocar o braço sobre os meus ombros.
— Jake — eu protestei, saindo de perto. Ele tirou o braço sem parecer nem um pouco aborrecido com a pequena rejeição. Ele avançou e pegou minha mão com firmeza, passando o outro braço na minha cintura quando eu tentei me afastar de novo. De onde foi que ele tirou essa confiança?
— Agora, só espere um momento, Bella — ele disse com uma voz calma. — Me diga uma coisa.
Eu fiz uma careta. Eu não queria fazer isso. Não só agora, mas nunca. Não havia mais nada nesse ponto da minha vida que fosse mais importante que Jacob Black. Mas ele parecia determinado a arruinar tudo.
— O que? — eu perguntei acidamente.
— Você gosta de mim, certo?
— Você sabe que eu gosto.
— Mas do que daquele palhaço botando as tripas pra fora lá dentro?
Ele fez um gesto para a porta do banheiro.
— Sim — eu suspirei.
— Mais que os outros caras que você conhece? — Ele estava calmo, sereno como se minha resposta não importasse, ou como se ele já soubesse qual ela seria.
— Mais do que as garotas também — eu apontei.
— Mas isso é tudo — ele disse, e isso não era uma pergunta.
Era difícil responder, dizer a palavra. Será que ele ficaria magoado e me evitaria? Como eu aguentaria isso?
— Sim — eu sussurrei.
Ele sorriu pra mim.
— Está tudo bem, sabe. Contanto que você goste mais de mim. E você me ache bonito - mais ou menos. Eu estou preparado para ser irritadoramente persistente.
— Eu não vou mudar — eu disse, a apesar de tentar fazer minha voz parecer normal, eu podia ouvir a tristeza nela.
O rosto dele estava pensativo, não estava mais zombeteiro.
— Ainda é o outro, não é?
Eu enrolei. Engraçado como ele parecia saber que não devia dizer o nome dele - exatamente como no carro em relação à musica.
Ele havia entendido tanta coisa sem que eu precisasse dizer.
— Você não tem que falar sobre isso — ele disse.
Eu balancei a cabeça, agradecida.
— Não fique brava comigo por estar por perto, tá legal? — Jacob deu uns tapinhas nas costas da minha mão. — Porque eu não vou desistir. Eu tenho bastante tempo.
Eu suspirei.
— Você não devia perdê-lo — eu disse, apesar de querer que ele perdesse. Especialmente se ele estava disposto a me aceitar do jeito que eu era - bem danificada, desse jeito.
— É isso que eu quero fazer, enquanto você ainda gostar de ficar comigo.
— Eu não consigo imaginar como eu poderia não gostar de estar com você — eu disse honestamente.
Jacob brilhou.
— Eu posso viver com isso.
— Só não espere mais — eu avisei, tentando puxar minha mão. Ele a segurou obstinadamente.
— Isso não te incomoda de verdade, incomoda? — ele quis saber, apertando os meus dedos.
— Não — eu suspirei. Realmente, era bom. A mão dele era muito mais quente do que a minha; eu estava sempre com frio demais ultimamente.
— E você não se importa com o que ele pensa — Jacob apontou o polegar para a porta do banheiro.
— Eu acho que não.
— Então qual é o problema?
— O problema — eu disse — é que isso, pra mim, significa uma coisa diferente do que significa pra você.
— Bem — ele apertou sua mão na minha. — Isso é problema meu não é?
— Tudo bem — eu rosnei — Contudo, não se esqueça disso.
— Eu não vou. Agora o pino da minha granada saiu, não foi? — Ele cutucou minhas costelas.
Eu revirei os olhos. Se ele estava com vontade de fazer piada com isso, ele podia fazer.
Ele gargalhou silenciosamente por um minuto enquanto seus dedos rosados traçavam desenhos no lado da minha mão.
— É uma cicatriz engraçada que você tem aqui — ele disse de repente, virando minha mão para examiná-la. — Como isso aconteceu?
O dedo indicador da mão livre dele seguia a linha prateada que mal era visível na minha pele pálida.
Eu dei um olhar zangado.
— Você realmente espera que eu me lembre de onde todas as minhas cicatrizes vieram?
Eu esperei por um momento para que a memória o abrisse - o grande buraco vazio. Mas, como acontecia frequentemente, a presença de Jacob me manteve inteira.
— É fria — ele murmurou, pressionando levemente o lugar onde James havia me cortado com seus dentes.
E então Mike cambaleou do banheiro, seu rosto estava cinzento e coberto de suor. Ele parecia horrível.
— Oh, Mike — eu asfixiei.
— Você se importa se formos mais cedo? — ele sussurrou.
— Não, é claro que não — Eu livrei minha mão e fui ajudar Mike a caminhar. Ele parecia prestes a cair.
— O filme foi demais pra você? — Jacob perguntou sem se importar.
O olhar de Mike foi malevolente.
— Na verdade eu nem o vi — ele murmurou. — Eu já estava enjoado antes das luzes apagarem.
— Porque você não disse nada? — eu repreendi enquanto nós íamos para a saída.
— Eu estava esperando que passasse — ele disse.
— Só um segundo — Jacob disse enquanto nós nos aproximamos da porta. Ele caminhou rapidamente para o balcão de vendas.
— Será que eu posso pegar um balde de pipocas vazio? — ele pediu para a vendedora. Ela olhou pra Mike uma vez, e então jogou um balde pra Jacob.
— Leve ele pra fora, por favor — ela implorou. Obviamente era ela que ia limpar o chão.
Eu guiei Mike para o ar frio, molhado. Ele inalou profundamente. Jacob estava bem atrás de nós. Ele me ajudou a colocar Mike no banco de trás do carro, e o passou o balde com uma cara séria.
— Por favor — foi tudo o que Jacob disse.
Ele abriu as janelas, deixando o ar gelado da noite entrar no carro, esperando que isso ajudasse Mike. Eu enrolei meus braços nas minhas pernas pra me manter aquecida.
— Com frio de novo? — Jacob perguntou colocando o braço ao redor do meu ombro antes que eu pudesse responder.
— Você não?
Ele balançou a cabeça.
— Você deve estar com febre ou alguma coisa assim — eu rosnei. Estava congelando. Eu toquei meus dedos na testa dele e a cabeça dele estava quente.
— Nossa, Jake - você está fervendo!
— Eu me sinto bem — Ele levantou os ombros. — Absolutamente normal.
Eu fiz uma careta e toquei a testa dele de novo. A pele dele queimou embaixo dos meus dedos.
— Suas mãos são como gelo — ele reclamou.
— Talvez seja eu — admiti.
Mike gemeu no banco de trás, e vomitou no balde. Eu fiz uma careta, esperando que o meu estômago conseguisse aguentar o som e o cheiro. Jacob olhou ansiosamente por cima do ombro pra ter certeza de que o seu carro estava intacto.
A estrada pareceu mais longa no caminho de volta.
Jacob estava quieto, pensativo. Ele deixou seu braço ao meu redor, e ele era tão quente que o ar frio parecia agradável.
Eu olhei pelo pára-brisa, consumida de culpa.
Era muito errado encorajar Jacob. Puro egoísmo. Não importava que eu tivesse tentado me livrar da responsabilidade. Se ele achava que isso podia ser alguma coisa além de amizade, então eu não tinha sido clara o suficiente.
Como era que eu ia explicar de uma forma que ele entendesse? Eu era uma concha vazia.
Como uma casa abandonada - condenada - por meses eu estive completamente inabitável. Agora eu estava um pouco melhorada. A sala da frente havia sido um pouco concertada. Mas isso era tudo - só um pequeno pedaço.
Ele merecia mais do que isso - mais que um pedaço, mal concertado.
Nenhum investimento da parte dele podia me colocar em bom estado mais uma vez.
Mesmo assim, eu sabia que não poderia mandá-lo embora sem arrependimentos. Eu precisava muito dele, e eu era egoísta. Talvez eu pudesse deixar o meu lado mais claro, assim ele saberia que devia me deixar. O pensamento me fez tremer, e Jacob apertou o braço ao meu redor.
Eu levei Mike com o carro dele, enquanto Jacob nos seguia atrás pra me levar pra casa. Jacob estava quieto no caminho de volta pra minha casa, e eu me perguntei se ele estava pensando nas mesmas coisas que eu estava. Talvez ele estivesse mudando de ideia.
— Eu me convidaria pra entrar, já que voltamos cedo — ele disse enquanto estacionava ao lado da minha caminhonete. — Mas eu acho que você pode estar certa sobre a febre. Eu estou começando a me sentir um pouco... estranho.
— Ah não, não você também! Você quer que eu te leve até em casa?
— Não — ele balançou a cabeça, as sobrancelhas se juntando. — Eu ainda não estou me sentindo mal. Só... errado. Se eu precisar, eu paro.
— Você me liga assim que chegar? — eu perguntei ansiosamente.
— Claro, claro — ele fez uma careta, olhando em frente para a escuridão e mordendo o lábio.
Eu abri minha porta pra sair, mas ele segurou meu punho levemente e me segurou lá. Eu reparei de novo como a pele quente dele ficava na minha.
— O que é, Jake? — eu perguntei.
— Há algo que eu quero te dizer, Bella... mas eu acho que vai parecer meio meloso.
Eu suspirei. Isso ia ser que nem no cinema.
— Vá em frente.
— É só que, eu sei que você provavelmente está muito infeliz. Eu, talvez isso não ajude em nada, mas eu quero que você saiba que eu vou estar sempre aqui. Eu nunca vou te decepcionar - eu prometo que você pode sempre contar comigo. Uau, isso parece meloso. Mas você sabe disso, não sabe? Que eu nunca, jamais machucaria você?
— É, Jake, eu sei disso. E eu já estou contando com você, provavelmente mais do que você sabe.
Um sorriso se abriu no rosto dele do jeito como um nascer do sol nasce entre as nuvens, e eu queria cortar minha língua. Nenhuma das palavras que eu disse era mentira, mas eu devia ter mentido. A verdade era errada, ia machucar ele. Eu ia decepcioná-lo.
Um olhar estranho apareceu no rosto dele.
— Eu realmente acho melhor eu ir pra casa agora — ele disse.
Eu saí rapidamente.
— Me liga! — eu gritei enquanto ele ia embora.
Eu olhei ele ir, e ele pelo menos parecia ter o controle do carro. Eu olhei para a rua vazia depois que ele já tinha ido embora, me sentindo um pouco doente também, mas não era nada físico.
Como eu queria que Jacob tivesse nascido meu irmão, meu irmão de carne e sangue, pra que assim eu tivesse direitos sobre ele sem que tivesse que tivesse que me sentir culpada. Os céus sabem que eu nunca quis usar Jacob, mas eu não podia deixar de interpretar a culpa que eu sentia agora como um sinal de que eu havia feito isso.
Mais ainda, eu não queria amá-lo. Uma coisa eu realmente sabia - sabia com a pontada do meu estômago, no centro dos meus ossos, sabia isso do topo da minha cabeça até as solas dos pés, sabia isso no meu peito vazio - o amor por uma pessoa pode ter o poder de te destruir.
Eu estava destruída e sem reparo.
Mas eu precisava de Jacob agora, precisava dele como uma droga. Eu o havia usado como bengala por tempo demais, e eu estava mais apegada do que havia planejado fazer com uma pessoa de novo. Agora eu não podia suportar que ele se ferisse, e eu não podia fazer nada pra poupá-lo, também.
Ele pensava que tempo e paciência iam me mudar, e, apesar de saber que ele estava completamente errado, eu também havia o deixado tentar.
Ele era meu melhor amigo. Eu sempre ia amá-lo, e isso nunca, jamais seria suficiente.
Eu fui lá pra dentro me sentar perto do telefone e roer as unhas.
— O filme já acabou? — Charlie perguntou surpreso quando me viu entrar. Ele estava no chão, bem perto da TV. Provavelmente estava esperando um jogo.
— Mike ficou doente — eu expliquei. — O mesmo problema no estômago.
— Você está bem?
— Eu me sinto bem agora — eu disse duvidosamente. Claramente, eu estive exposta.
Eu me inclinei no balcão da cozinha, minha mão a centímetros do telefone, e tentei esperar pacientemente. Eu pensei no jeito estranho do rosto de Jacob antes de ele ter ido embora, e meus dedos começaram a batucar no balcão da cozinha. Eu devia ter insistido pra levá-lo pra casa.
Eu olhei para o relógio enquanto os minutos se passagem rapidamente. Dez. Quinze. Mesmo quando era eu quem estava dirigindo, só levavam quinze minutos, e Jacob dirigia mais rápido que eu. Dezoito minutos. Eu peguei o telefone e disquei.
Tocou e tocou. Talvez Billy tivesse dormido. Talvez eu tivesse ligado errado. Eu tentei de novo.
No oitavo toque, bem quando eu estava prestes a desligar, Billy atendeu.
— Alô? — ele perguntou. A voz dele estava cautelosa, como se ele estivesse esperando notícias ruins.
— Billy, sou eu, Bella - Jacob já chegou em casa? Ele saiu daqui a mais ou menos uns vinte minutos.
— Ele está aqui — Billy disse sem tom.
— Era pra ele me ligar — eu estava um pouco irritada. — Ele estava ficando doente quando foi embora, e eu fiquei preocupada.
— Ele estava... doente demais pra ligar. Ele não está se sentindo muito bem agora — Billy parecia distante. Eu me dei conta de que ele podia querer ir ficar com Jacob.
— Me avise se eu puder ajudar em alguma coisa — eu ofereci. — Eu posso ir até aí — Eu pensei em Billy preso em sua cadeira, e Jake tendo que se virar sozinho...
— Não, não — Billy disse rapidamente. — Nós estamos bem. Fique em sua casa.
O jeito que ele disse foi quase rude.
— Tudo bem — concordei
— Tchau, Bella.
A linha caiu.
— Tchau — eu murmurei.
Bem, pelo menos ele chegou em casa. Estranhamente, eu não me sentia menos preocupada. Eu subi as escadas, temendo. Talvez eu fosse até lá amanhã antes do trabalho pra ver como ele estava. Eu podia levar uma sopa - nós devíamos ter uma lata de sopa em algum lugar.
Eu me dei conta de que todos os meus planos foram cancelados quando eu me acordei mais cedo - meu relógio dizia quatro e meia - e cambaleei até o banheiro. Charlie me achou lá meia hora depois, deitada no chão, com minha bochecha encostada na beira fria da banheira.
Ele olhou pra mim por um longo momento.
— Doente do estômago — ele disse finalmente.
— Sim — eu gemi.
— Você precisa de alguma coisa? — ele perguntou.
— Ligue pra o Newton's pra mim, por favor — eu instruí com a voz rouca. — Diga pra eles que eu tenho o que Mike tem, e que eu não posso ir hoje. Diga a eles que eu lamento.
— Claro, sem problemas — Charlie me assegurou.
Eu passei o resto do dia no chão do banheiro, dormindo por algumas horas com a cabeça em cima de uma toalha. Charlie disse que ele tinha que ir trabalhar, mas eu suspeitei que ele só queria poder ter acesso a um banheiro. Ele deixou um copo de água ao meu lado no chão pra eu me manter hidratada.
Eu só acordei quando ele voltou pra casa. Eu podia ver que estava escuro no meu quarto - depois do cair da noite. Ele subiu as escadas pra vir me ver.
— Ainda viva?
— Mais ou menos — eu disse.
— Você quer alguma coisa?
— Não, obrigada.
Ele hesitou, claramente sem saber o que fazer.
— Tudo bem, então — ele disse e então voltou para a cozinha.
Eu ouvi o telefone tocar alguns minutos depois. Charlie falou com uma voz baixa por alguns instantes e depois desligou.
— Mike se sente melhor — ele me informou.
Bem, isso era encorajador. Ele só tinha ficado doente oito horas antes de mim. Mais oito horas.
O pensamento fez meu estômago revirar, e eu me levantei pra me inclinar na privada.
Eu peguei no sono na toalha de novo, mas quando eu me acordei eu estava na minha cama e já estava claro no lado de fora da minha janela; Charlie deve ter me carregado pro meu quarto - ele também havia colocado um copo de água na minha mesinha de cabaceira pra mim. Eu me sentia ressecada. Eu o bebi, apesar de ele estar com um gosto engraçado por ter permanecido intocado a noite inteira.
Eu me levantei lentamente, tentando não desencadear a náusea de novo. Eu estava fraca, e minha boca estava com um gosto horrível, mas o meu estômago estava bem. Eu olhei para o meu relógio.
As vinte e quatro horas haviam passado.
Eu não forcei, e não comi nada além de biscoitos salgados no café da manhã. Charlie pareceu aliviado por me ver recuperada.
Assim que eu tive a certeza de que não precisaria passar o dia inteiro no chão do banheiro de novo, eu liguei pra Jacob.
Foi Jacob que atendeu, mas quando eu ouvi a saudação dele, eu sabia que ele ainda não estava bem.
— Alô? — a voz dele estava quebrada, rachada.
— Oh, Jake— eu disse simpatizada. —Você parece horrível.
— Eu me sinto horrível —,ele sussurrou.
— Eu lamento por ter feito você sair comigo. Isso é péssimo.
— Eu estou feliz por ter ido — a voz dele ainda era só um sussurro.
— Não se culpe. Isso não é culpa sua.
— Você vai melhorar logo — eu prometi. — Eu já estava bem quando acordei essa manhã.
—Você estava doente? — ele perguntou abobalhado.
— Sim, eu peguei também. Mas agora eu já estou bem.
— Isso é bom — a voz dele estava morta.
— Então você provavelmente vai ficar melhor em algumas horas — eu encorajei.
Eu mal pude ouvir a resposta dele.
— Eu não acho que estou com a mesma coisa que você teve.
— Você não está com a doença no estômago? — eu perguntei, confusa.
— Não, é outra coisa.
— O que há de errado com você?
— Tudo — ele sussurrou. —Todas as partes de mim doem.
A dor na voz dele era quase tocável.
— O que eu posso fazer, Jake? O que eu posso levar pra você?
— Nada. Você não pode vir aqui — Ele foi abrupto. Isso me fez lembrar de Billy na noite passada.
— Eu já fui exposta a o que quer que você tenha — eu apontei.
Ele me ignorou.
— Eu te ligo quando puder. Eu te aviso quando você puder vir aqui.
— Jacob...
— Eu tenho que ir — ele disse com uma urgência repentina.
— Me ligue quando estiver se sentindo melhor.
— Certo — ele concordou, e a voz dele tinha uma pontada estranha, ácida.
Ele ficou em silêncio por um minuto. Eu estava esperando que ele dissesse tchau, mas ele estava esperando também.
— Eu te vejo depois — eu finalmente disse.
— Espere que eu ligue — ele disse de novo.
— Ok... Tchau, Jacob.
— Bella — ele sussurrou meu nome, e então desligou o telefone.

2 comentários:

  1. Eu tenho certeza que os ursos e o q o Jacobe tá sentindo tem a ver com.os vampiros

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  2. O jacob nao e vampiro, mas tbm e um ser anormal! Erika

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