28 de setembro de 2015

Capítulo 9 - Mas é claro que não vi o que ia acontecer

Eu não pretendia realmente me despedir de meu pai.
Afinal, uma rápida ligação para Sam, e o jogo estaria terminado. Eles me interceptariam e me obrigariam a voltar. Provavelmente, tentariam me deixar com raiva, ou até me ferir – de algum modo me obrigariam a me transformar para que Sam pudesse decretar uma nova lei.
Mas Billy esperava por mim, sabia que eu estaria um pouco desnorteado. Estava no jardim, sentado em sua cadeira de rodas, com os olhos fixos bem no ponto onde eu surgi entre as árvores. Vi-o avaliar a direção que eu tomava – passando direto pela casa até minha oficina.
— Tem um minuto, Jake?
Parei. Olhei para ele e depois para a oficina.
— Venha, garoto. Pelo menos me ajude a entrar.
Trinquei os dentes, mas concluí que era mais provável que ele me causasse problemas com Sam se eu não o enrolasse por alguns minutos.
— Desde quando você precisa de ajuda, velho?
Ele deu sua risada de trovão.
— Meus braços estão cansados. Vim na cadeira da casa de Sue até aqui.
— É uma descida. Você deslizou o caminho todo.
Empurrei a cadeira pela pequena rampa que fiz para ele, até a sala de estar.
— Você me pegou. Acho que cheguei a 50 por hora. Foi ótimo.
— Vai acabar estragando essa cadeira. E depois vai ficar se arrastando por aí pelos cotovelos.
— De jeito nenhum. Será sua tarefa me carregar.
— Então você não irá a muitos lugares.
Billy pôs as mãos nas rodas e girou o tronco para a geladeira.
— Sobrou alguma comida?
— Agora me pegou. Paul ficou o dia todo aqui, então é provável que não.
Billy suspirou.
— Temos de começar a esconder as compras, se não quisermos passar fome.
— Diga a Rachel que fique na casa dele.
O tom de piada de Billy desapareceu e seus olhos se suavizaram.
— Só a temos em casa há algumas semanas. É a primeira vez que ela vem aqui em muito tempo. É difícil... As meninas eram mais velhas do que você quando sua mãe morreu. Elas têm mais dificuldade de ficar nesta casa.
— Eu sei.
Rebecca não aparecia em casa desde que se casara, embora tivesse uma boa desculpa. As passagens de avião do Havaí eram muito caras. A Washington State ficava bem perto para Rachel não ter a mesma desculpa. Ela fez cursos em todos os semestres de verão, trabalhou dois turnos nas férias em uma lanchonete no campus. Se não fosse por Paul, era provável que novamente tivesse ido logo embora. Talvez por isso Billy não o expulsava.
— Bem, vou trabalhar numas coisas... — E segui para a porta da frente.
— Espere, Jake. Vai me contar o que aconteceu? Ou eu tenho de ligar para Sam para me informar?
Fiquei parado de costas para ele, escondendo meu rosto.
— Não aconteceu nada. Sam deixou passar. Acho que agora todos somos um bando de amiguinhos de sanguessugas.
— Jake...
— Não quero falar sobre isso.
— Você vai embora, filho?
A sala ficou em silêncio por um bom tempo enquanto eu decidia como dizer aquilo.
— Rachel pode ter o quarto dela de volta. Eu sei que ela odeia aquele colchão de ar.
— Ela prefere dormir no chão a perder você. E eu também.
Eu bufei.
— Jacob, por favor. Se você precisa de... um tempo, bem, tire-o. Mas não tão logo de novo. Volte.
— Talvez. Talvez minha deixa sejam os casamentos. Uma aparição especial no de Sam, depois no de Rachel. Mas Jared e Kim podem vir primeiro. Provavelmente, seria melhor eu ter um terno ou coisa assim.
— Jake, olhe para mim.
Virei-me devagar.
— O que foi?
Ele me fitou nos olhos por um longo minuto.
— Para onde você vai?
— Não tenho um lugar específico em mente.
Inclinou a cabeça e seus olhos se estreitaram.
— Não tem?
Nós nos encaramos. Os segundos passavam.
— Jacob — disse ele. Sua voz era tensa. — Jacob, não. Não vale a pena.
— Não sei do que você está falando.
— Deixe Bella e os Cullen em paz. Sam tem razão.
Olhei em seus olhos por um segundo, depois atravessei a sala em duas passadas longas. Peguei o telefone e desconectei o cabo da tomada. Enrolei o cabo cinza na palma da mão.
— Tchau, pai.
— Jake, espere... — gritou ele, mas eu já estava do lado fora, correndo.
A moto não era tão rápida quanto correr, mas era mais discreta. Imaginei quanto tempo levaria para Billy ir em sua cadeira até a loja e ligar para alguém que mandasse um recado a Sam. Apostava que Sam ainda estaria na forma de lobo. O problema seria se Paul voltasse para nossa casa logo. Ele poderia se transformar em um segundo e informar a Sam o que eu ia fazer...
Não ia me preocupar com aquilo. Eu iria o mais rápido possível, e se eles me pegassem, resolveria o problema quando chegasse a hora.
Dei a partida na moto e logo seguia disparado pela rua enlameada. Não olhei para trás quando passei pela casa.
A estrada estava movimentada com o trânsito de turistas; costurei entre os carros, ganhando um monte de buzinadas e alguns sinais com o dedo. Peguei a entrada para a 101 a mais de 110 km/h, sem me incomodar em olhar. Tive de seguir pela contramão por um minuto para não ser atingido por uma minivan. Não que isso fosse me matar, mas me atrasaria. Ossos quebrados, os grandes pelo menos, levam dias para curar completamente, e eu tinha boas razões para saber disso.
A via expressa estava um pouco mais vazia, e acelerei a moto para 130 km/h.
Não toquei o freio até me aproximar da entrada estreita; imaginei que então estivesse seguro. Sam não iria tão longe para me impedir. Era tarde demais. Foi só nesse momento – quando tive certeza de que conseguira – que comecei a pensar no que exatamente iria fazer. Reduzi para 30 km/h, contornando pelas árvores com mais cuidado do que precisava.
Sabia que eles me ouviriam chegando, com ou sem moto, então o fator surpresa estava fora. Não havia como disfarçar minhas intenções. Edward ouviria meus planos assim que eu estivesse perto. Talvez ele já pudesse ouvir. Mas pensei que ainda assim funcionaria, porque eu tinha seu ego a meu favor. Ele iria querer lutar comigo sozinho.
Assim, eu simplesmente chegaria, veria eu mesmo a preciosa prova de Sam, e então desafiaria Edward para um duelo.
Bufei. O parasita, provavelmente, se divertiria com a dramaticidade daquilo.
Quando acabasse com ele, pegaria tantos deles quantos pudesse, antes de eles me pegarem. Hmmm – imaginei se Sam consideraria minha morte uma provocação. Provavelmente diria que tive o que merecia. Não iria querer ofender a droga de seus grandes amigos sanguessugas.
O caminho se abria na campina, e o cheiro me atingiu como um tomate podre na cara. Vampiros fedorentos. Meu estômago começou a revirar. Seria difícil suportar o fedor daquele jeito – sem estar diluído pelo cheiro de humanos, como aconteceu na outra vez em que fora ali – embora não fosse tão ruim quanto poderia ser com meu olfato de lobo.
Eu não tinha certeza do que esperar, mas não havia sinal de vida na grande cripta branca. É claro que eles sabiam que eu estava ali.
Desliguei o motor e escutei o silêncio. Agora eu podia ouvir murmúrios tensos e coléricos logo do outro lado das grandes portas duplas. Alguém estava em casa. Ouvi meu nome e sorri, feliz por pensar que estava lhes causando algum estresse.
Tomei uma grande golfada de ar – seria ainda pior lá dentro – e subi a escada da varanda em um só pulo.
A porta se abriu antes que meu punho a tocasse, e o médico ficou parado na soleira, os olhos graves.
— Olá, Jacob — disse ele, mais calmo do que eu teria esperado. — Como vai você?
Respirei fundo pela boca. O fedor que saía pela porta era opressor. Fiquei decepcionado que Carlisle tivesse atendido. Preferiria que Edward fosse à porta, de presas expostas. Carlisle era tão... humano ou algo parecido. Talvez fossem as visitas domiciliares que ele me fez na primavera anterior quando me arrebentei. Mas me deixou pouco à vontade olhá-lo no rosto saber que, se possível, pretendia matá-lo.
— Soube que Bella voltou viva — eu disse.
— Ah! Jacob, esta não é a melhor hora para isso — o médico também parecia pouco à vontade, mas não como eu esperava. — Podemos deixar isso para mais tarde?
Eu o encarei, desnorteado. Ele estava pedindo para adiar a luta mortal para uma hora mais conveniente? E depois ouvi a voz de Bella, falhando e rouca, e não consegui pensar em mais nada.
— Por que não? — ela perguntava a alguém. — Vamos guardar segredo de Jacob também? Que sentido tem?
Sua voz não era o que eu esperava. Tentei me lembrar da voz dos vampiros jovens com quem tínhamos lutado na primavera, mas só o que eu registrara foram rosnados. Talvez aqueles recém-criados também não tivessem o som penetrante e claro dos mais velhos. Talvez todos os vampiros novos soassem roucos.
— Entre, por favor, Jacob — disse Bella, mais alto.
Os olhos de Carlisle se estreitaram.
Imaginei se Bella estaria com sede. Meus olhos se estreitaram também.
— Com licença — eu disse ao médico ao passar por ele.
Foi difícil; dar as costas a um deles contrariava todos os meus instintos. Mas não era impossível. Se havia um vampiro confiável, era aquele líder estranhamente gentil.
Eu ficaria longe de Carlisle quando a luta começasse. Havia um número suficiente deles para matar sem incluí-lo.
Entrei na casa andando de lado, mantendo as costas na parede. Meus olhos percorreram a sala – estava diferente. Da última vez em que fora ali, estava inteiramente decorada para uma festa. Agora tudo era claro e pálido. Inclusive os seis vampiros agrupados de pé perto do sofá branco.
Estavam todos ali, todos juntos, mas não foi isso o que me deixou paralisado e fez meu queixo cair.
Foi Edward. Foi a expressão em seu rosto. Eu já o vira com raiva, já o vira arrogante e, uma vez, o vira sofrendo. Mas aquilo – aquilo estava além da agonia. Seu olhar estava quase enlouquecido.
Ele não ergueu a cabeça para me fuzilar com os olhos. Fitava o sofá ao lado com a expressão de alguém em quem se houvesse ateado fogo. Suas mãos eram garras rígidas ao lado do corpo.
Nem consegui desfrutar a angústia dele. Só conseguia pensar em uma coisa que o faria ficar daquele jeito, e meus olhos seguiram os dele.
Eu a vi no mesmo momento em que senti seu cheiro. Seu cheiro quente, limpo e humano.
Bella estava meio escondida por trás do braço do sofá, enroscada em posição fetal, os braços ao redor dos joelhos. Por um longo segundo não consegui enxergar nada além de que ela ainda era a Bella que eu amava, a pele ainda de pêssego-claro e macia, os olhos ainda cor de chocolate. Meu coração martelou uma batida estranha e irregular, e me perguntei se aquilo era algum devaneio do qual estava prestes a acordar.
Então eu a vi realmente.
Havia olheiras fundas, círculos escuros em torno dos olhos que se destacavam porque o rosto estava completamente exausto. Será que estava mais magra? Sua pele parecia esticada – como se as maçãs do rosto pudessem rompê-la. A maior parte do cabelo escuro estava afastada do rosto e presa em um nó desarrumado, mas algumas mechas grudavam em sua testa e no pescoço, na camada de suor que lhe cobria a pele. Havia algo em seus dedos e nos pulsos que os fazia parecer assustadoramente frágeis.
Ela estava mesmo doente. Muito doente.
Não era mentira. A história que Charlie contara a Billy não era invenção. Enquanto eu olhava, de olhos arregalados, sua pele assumiu um tom verde pálido.
A sanguessuga loura – a exibida, Rosalie – curvou-se, bloqueando minha visão, pairando sobre ela de uma forma estranha e protetora.
Aquilo estava errado. Eu sabia como Bella se sentia com relação a quase tudo – seus pensamentos eram óbvios demais; às vezes, era como se estivessem impressos em sua testa. Então ela não precisava me contar todos os detalhes de uma situação para me fazer entender. Eu sabia que Bella não gostava de Rosalie. Vira isso nos seus lábios quando falava dela. Bella não só não gostava de Rosalie. Ela tinha medo de Rosalie. Pelo menos antes. Não havia medo quando Bella olhou para ela, ali. Sua expressão era... de quem se desculpava ou coisa assim. Então Rosalie pegou uma bacia no sofá e a segurou sob o queixo de Bella bem a tempo para que ela vomitasse ruidosamente.
Edward caiu de joelhos ao lado de Bella – os olhos completamente torturados – e Rosalie ergueu a mão, advertindo-o para que se afastasse. Nada daquilo fazia sentido.
Quando conseguiu levantar a cabeça, Bella me dirigiu um sorriso fraco, meio constrangido.
— Me desculpe por isso — ela sussurrou.
Edward gemeu muito baixo. Sua cabeça tombou nos joelhos de Bella. Ela pôs uma das mãos em seu rosto. Como se estivesse o reconfortando.
Não percebi que minhas pernas haviam me levado para a frente até que Rosalie sibilou, surgindo de repente entre mim e o sofá. Ela era como uma pessoa numa tela de tevê. Eu não me importava que estivesse ali. Ela não parecia real.
— Rose, não — sussurrou Bella. — Está tudo bem.
A loura saiu do meu caminho, embora eu soubesse que odiara ter de fazer aquilo. Lançando-me um olhar mal-humorado, agachou-se junto à cabeça de Bella, pronta para saltar. Ela era mais fácil de ignorar do que eu jamais teria imaginado.
— Bella, qual é o problema? — sussurrei. E, sem pensar, estava de joelhos também, inclinando-me sobre as costas do sofá e diante do... marido dela. Ele não pareceu dar por minha presença, e eu mal olhei para ele. Estendi o braço para a mão livre de Bella, pegando-a nas minhas. Sua pele estava gelada. — Está tudo bem?
Era uma pergunta idiota. Ela não respondeu.
— Estou tão feliz por ter vindo me ver hoje, Jacob — disse ela.
Embora eu soubesse que Edward não podia ouvir os pensamentos dela, ele pareceu ouvir alguma nuance que eu não consegui. Ele tornou a gemer, afundando o rosto na manta que a cobria, e ela afagou-lhe o rosto.
— O que é, Bella? — insisti, envolvendo seus dedos frios e frágeis com as minhas mãos.
Em vez de responder, ela olhou em torno da sala como se procurasse alguma coisa, com um olhar ao mesmo tempo de súplica e advertência. Seis pares de olhos amarelos e ansiosos a fitaram. Por fim, ela se virou para Rosalie.
— Ajude-me a me levantar, Rose — pediu ela.
Os lábios de Rosalie se repuxaram sobre os dentes, e ela me fuzilou com os olhos como se quisesse cortar minha garganta. Eu tinha certeza de que esse era exatamente o caso.
— Por favor, Rose.
A loura fez uma careta, mas inclinou-se sobre ela novamente, ao lado de Edward, que não se moveu um centímetro sequer. Ela pôs o braço com cuidado nas costas de Bella.
— Não — sussurrei. — Não se levante...
Ela parecia muito fraca.
— Estou respondendo à sua pergunta — rebateu ela, e isso pareceu um pouco mais com o modo como costumava falar comigo.
Rosalie puxou Bella do sofá. Edward ficou onde estava, vergando-se para a frente até enterrar o rosto nas almofadas. A manta caiu aos pés de Bella.
O corpo dela estava inchado; o tronco parecia um balão, de uma forma estranha e doentia. Deixava esticado o moletom cinza desbotado que era grande demais para seus ombros e braços. O restante do corpo parecia mais magro, como se o grande volume tivesse tomado forma a partir do que sugou dela. Precisei de um segundo para perceber o que era a parte deformada – só entendi quando ela cruzou as mãos ternamente sobre a barriga inchada, uma acima e outra abaixo. Como se a estivesse ninando.
E então eu vi, mas ainda não conseguia acreditar. Eu a tinha visto havia apenas um mês. Não era possível que estivesse grávida. Não grávida daquele jeito.
Só que ela estava.
Eu não queria ver, não queria pensar naquilo. Não queria imaginá-lo dentro dela. Não queria saber que uma coisa que eu odiava tanto tinha criado raízes no corpo que eu amava. Meu estômago se revirou e tive de engolir o vômito.
Mas era pior do que isso, muito pior. Seu corpo distorcido, os ossos salientes sob a pele do rosto. Eu só podia imaginar que sua aparência fosse aquela tão grávida, tão doente – porque o que quer que estivesse dentro dela estava usando sua vida para se alimentar...
Porque era um monstro. Exatamente como o pai. Eu sempre soube que ele a mataria.
A cabeça dele se ergueu de repente enquanto ele ouvia as palavras dentro da minha. Em um segundo estávamos os dois de joelhos, no outro ele estava de pé, assomando acima de mim. Seus olhos eram de um negror inexpressivo, os círculos sob eles de um roxo escuro.
— Lá fora, Jacob — rosnou ele.
Eu também me pus de pé. Olhando-o de cima. Era por isso que eu estava ali.
— Vamos resolver isso — concordei.
O grandão, Emmett, avançou do outro lado de Edward, com o de aparência faminta, Jasper, bem atrás dele. Eu não ligava. Talvez meu bando pudesse limpar a sujeira quando eles terminassem comigo. Talvez não. Isso não importava.
Por uma mínima fração de segundo meus olhos pousaram nas duas de pé ao fundo. Esme. Alice. Pequenas e perturbadoramente femininas. Bem, eu tinha certeza de que os outros me matariam antes que eu tivesse de fazer alguma coisa a elas. Eu não queria matar mulheres... mesmo que fossem vampiras.
Mas eu podia abrir uma exceção para a loura.
— Não — disse Bella, ofegante, e cambaleou para a frente, sem equilíbrio, para agarrar o braço de Edward. Rosalie se moveu com ela, como se uma corrente as unisse.
— Eu só preciso conversar com ele, Bella — disse Edward em voz baixa, falando somente com ela. Ele tocou seu rosto e o afagou.
Aquilo tingiu a sala de vermelho, me fez ver fogo – depois de tudo o que fizera a ela, ainda tinha permissão para tocá-la daquela maneira.
— Não se canse — continuou ele, suplicante. — Repouse, por favor. Estaremos os dois de volta daqui a alguns minutos.
Ela olhou seu rosto, lendo-o com cuidado. Depois assentiu e se deixou cair no sofá. Rosalie a ajudou a recostar nos travesseiros. Bella me fitava, tentando prender meu olhar.
— Comportem-se — insistiu ela. — E depois voltem.
Não respondi. Naquele dia eu não estava fazendo nenhuma promessa. Desviei os olhos e segui Edward, saindo pela porta da frente.
Uma voz fortuita e deslocada em minha cabeça observou que separá-lo do bando não tinha sido tão difícil, tinha?
Ele continuou andando, sem em nenhum momento checar se eu estava prestes a saltar sobre suas costas desprotegidas. Supus que ele não precisava olhar. Saberia quando eu decidisse atacar. O que significava que eu tinha de tomar a decisão com muita rapidez.
— Ainda não estou pronto para você me matar, Jacob Black — sussurrou ele enquanto se afastava rapidamente da casa. — Terá de ter um pouco de paciência.
Como se eu me importasse com seu cronograma. Grunhi baixo.
— A paciência não é o meu forte.
Ele continuou andando, talvez uns duzentos metros pelo caminho que dava para a casa, e eu o segui de perto. Eu estava completamente quente, meus levava dedos tremiam. Tenso, pronto e a espera.
Ele parou de repente e virou-se de frente para mim. Sua expressão me paralisou de novo.
Por um segundo eu era só um garoto – um garoto que tinha morado a vida toda na mesma cidadezinha. Só uma criança. Porque eu sabia que teria de viver muito mais, sofrer muito mais, para chegar a entender a agonia abrasadora nos olhos de Edward.
Ele ergueu a mão como se fosse enxugar o suor da testa, mas seus dedos arranharam o rosto como se quisessem arrancar a pele de granito. Seus olhos negros ardiam nas órbitas, fora de foco, ou vendo coisas que não estavam ali. Sua boca se abriu como se ele estivesse prestes a gritar, mas nada saiu dela.
Aquele era o rosto que teria um homem que estivesse ardendo na fogueira.
Por um momento, não consegui falar; aquele rosto era real demais – eu vira uma sombra dele na casa, vira nos olhos de Bella e nos dele, mas aquilo tornava tudo definitivo. O último prego no caixão dela.
— Aquilo a está matando, não está? Ela está morrendo.
E eu sabia, quando falei, que meu rosto era um eco enfraquecido do dele. Mais brando, diferente, porque eu ainda estava em choque. Ainda não absorvera o que tinha acontecido – era tudo rápido demais. Ele tivera tempo para entender. E era diferente, pois eu já a perdera tantas vezes, de tantas maneiras, em minha mente. E diferente porque ela nunca foi realmente minha, para que eu a pudesse perder.
E diferente porque aquilo não era minha culpa.
— Minha culpa — sussurrou Edward, e seus joelhos cederam.
Ele se curvou na minha frente, vulnerável, o alvo mais fácil que se podia imaginar.
Mas eu me senti frio feito neve – não havia fogo em mim.
— Sim — gemeu ele para a terra, como se estivesse confessando para o chão. — Sim, aquilo a está matando.
Sua impotência me irritou. Eu queria uma luta, não uma execução. Onde estava a superioridade presunçosa dele agora?
— Então por que Carlisle não faz nada? — rosnei. — Ele é médico, não é? Tirem aquilo dela.
Ele me olhou e respondeu, numa voz cansada. Como se estivesse explicando algo pela décima vez a uma criança de jardim de infância.
— Ela não vai permitir.
Precisei de um minuto para absorver as palavras. Meu Deus, não se podia esperar outra coisa dela. É claro, morrer pelo filho do monstro. Aquilo era tão Bella...
— Você a conhece bem — sussurrou ele. — Você viu com rapidez... o que eu não vi. Não a tempo. Ela não falou comigo a caminho de casa, não mesmo. Pensei que estivesse com medo... Isso seria natural. Pensei que estivesse com raiva de mim por fazê-la passar por isso, por arriscar sua vida. De novo. Nunca imaginei o que ela realmente estava pensando, o que estava planejando. Não até minha família nos encontrar no aeroporto e ela correr diretamente para os braços de Rosalie. De Rosalie! E então ouvi o que Rosalie estava pensando. Só entendi quando ouvi aquilo. E no entanto você entendeu depois de um segundo...
Ele meio suspirava, meio gemia.
— Espere aí um segundo. Ela não vai permitir? — O sarcasmo era ácido em minha língua. — Já percebeu que ela é tão forte quanto qualquer menina humana normal de cinquenta quilos? Vocês, vampiros, são idiotas? Segurem-na e a derrubem com drogas.
— Eu quis fazer isso — sussurrou ele. — Carlisle teria...
— O quê, são nobres demais para isso?
— Não. Nobres, não. A guarda-costas dela complicou as coisas.
Ah! A história dele não tinha feito muito sentido antes, mas agora tudo se encaixava. Então era o que a Loura estava aprontando. Mas que interesse ela teria naquilo? Será que a rainha da beleza queria tanto assim que Bella morresse?
— Talvez — disse ele. — Rosalie não parece ver as coisas dessa forma.
— Então pegue a loura primeiro. Sua gente pode se recompor, não é? Façam ela em pedaços e cuidem de Bella.
— Emmett e Esme a estão apoiando. Emmett nunca nos deixaria... Carlisle não vai me ajudar se Esme estiver contra...
A voz dele falhou, foi sumindo.
— Devia ter deixado Bella comigo.
— Sim.
Mas era tarde para isso. Talvez ele devesse ter pensado em tudo antes de tê-la engravidado do monstro sugador de vida.
Ele me olhou de dentro de seu inferno pessoal e pude ver que concordava comigo.
— Não sabíamos — disse ele, as palavras baixas como um suspiro. — Eu nunca imaginei. Nunca houve nada como Bella e eu antes. Como poderíamos saber que uma humana seria capaz de conceber o filho de um de nós?
— Já que a humana deveria ser dilacerada no processo?
— Sim — ele concordou num sussurro tenso. — Eles estão por aí, os sádicos, o íncubo, o súcubo. Existem. Mas a sedução é apenas um prelúdio ao banquete. Ninguém sobrevive.
Ele sacudiu a cabeça como se a ideia o revoltasse. Como se ele fosse diferente.
— Não sabia que tinham um nome especial para o que você é — cuspi.
Ele me fitou com um rosto que parecia ter mil anos.
— Nem você, Jacob Black, pode me odiar tanto quanto eu me odeio.
Errado, pensei, furioso demais para falar.
— Matar-me agora não irá salvá-la — disse ele em voz baixa.
— E o que a salvará?
— Jacob, você precisa fazer algo por mim.
— Uma ova que vou fazer, parasita!
Ele continuou me fitando com os olhos meio cansados, meio loucos.
— Por ela?
Trinquei os dentes com força.
— Fiz tudo o que pude para mantê-la longe de você. Tudo. É tarde demais.
— Você a conhece, Jacob. Vocês se conectam num nível que eu nem sequer compreendo. Você faz parte dela e ela faz parte de você. Ela não me ouve, porque acha que a estou subestimando. Pensa que é bastante forte para isso... — Ele engasgou, e depois engoliu. — Talvez ouça você.
— Por que ouviria?
Ele se levantou, os olhos ardendo mais do que antes, mais desvairados. Imaginei se ele realmente estava ficando louco. Os vampiros podiam perder o juízo?
— Talvez — ele respondeu ao meu pensamento. — Não sei. Parece que sim. — Ele sacudiu a cabeça. — Tenho de tentar esconder isso na frente dela, porque o estresse a deixa mais doente. Ela já não consegue manter nada no estômago. Tenho de ficar calmo; não posso dificultar tudo. Mas agora isso não importa. Ela precisa ouvir você!
— Não há nada que eu possa dizer a ela, que você não tenha dito. O que quer que eu faça? Dizer que ela é idiota? Ela provavelmente já sabe disso. Dizer que vai morrer? Aposto que ela sabe também.
— Você pode oferecer o que ela quer.
O que ele dizia não fazia sentido nenhum. Seria parte da loucura?
— Não me importo com nada, a não ser mantê-la viva — disse ele, de repente concentrado. — Se é um filho o que ela quer, ela pode ter. Pode ter meia dúzia de bebês. Qualquer coisa. — Ele parou por um instante. — Ela pode ter cachorrinhos, se for preciso.
Ele encontrou meu olhar por um momento, e seu rosto estava frenético sob a fina camada de controle. Minha expressão de mau humor se desfez enquanto eu processava aquelas palavras, e senti que minha boca se abria em choque.
— Mas não assim! — sibilou ele antes que eu pudesse me recuperar. — Não essa coisa que está sugando a vida dela enquanto eu fico ali, impotente! Vendo-a adoecer e definhar. Vendo que aquilo a está machucando. — Ele respirou fundo, rápido, como se alguém tivesse lhe dado um soco na barriga. — Você precisa fazê-la ver a razão, Jacob. Ela não me ouve mais. Rosalie sempre está ali, alimentando sua insanidade... encorajando-a. Protegendo-a. Não: protegendo a coisa. A vida de Bella não significa nada para ela.
O ruído que veio da minha garganta deu a impressão de que eu estava sufocando.
O que ele estava dizendo? Que Bella devia o quê? Ter um filho? Comigo? O quê? Como? Ele estava abrindo mão dela? Ou achava que ela não se importaria de ser partilhada?
— Tanto faz. Desde que a mantenha viva.
— Essa é a coisa mais doida que você já disse — murmurei.
— Ela ama você.
— Não o bastante.
— Está pronta para morrer para ter um filho. Talvez aceite algo menos radical.
— Você não a conhece mesmo?
— Eu sei, eu sei. Será preciso muita persuasão. É por isso que preciso de você. Você sabe como ela pensa. Faça com que veja a razão.
Eu não conseguia pensar no que ele estava sugerindo. Era demais. Impossível. Errado. Doentio. Pegar Bella emprestada nos fins de semana e devolver na segunda de manhã, como um filme alugado? Totalmente insano.
Tão tentador!
Eu não queria cogitar a hipótese, não queria imaginar, mas as imagens vinham, de qualquer forma. Eu tivera esse tipo de fantasia com Bella tantas vezes, na época em que havia a possibilidade de um nós, e ainda muito depois de ter ficado claro que as fantasias só deixariam feridas inflamadas porque não havia possibilidade, nem a mais remota. Eu não fora capaz de me reprimir na época. Não conseguiria me deter agora. Bella em meus braços, Bella suspirando o meu nome...
Pior ainda, essa nova imagem que eu nunca tivera, uma imagem que de modo algum deveria existir para mim. Ainda não. Uma imagem pela qual eu sabia que não iria sofrer anos a fio se ele não a tivesse colocado na minha mente. Mas ela se prendeu ali, lançando fios pelo meu cérebro como erva daninha – venenosa e impossível de matar. Bella, saudável e radiante, tão diferente de agora, mas de certo modo a mesma: seu corpo nada distorcido, modificado de uma forma natural. Redondo com meu filho.
Tentei escapar do veneno em minha mente.
— Fazer Bella ver a razão? Em que universo você vive?
— Ao menos tente.
Sacudi a cabeça com rapidez. Ele esperou, ignorando a resposta negativa, pois podia ouvir o conflito em meus pensamentos.
— De onde veio essa besteira psicótica? Você está inventando enquanto conversamos.
— Não tenho pensado em nada que não sejam maneiras de salvada desde que percebi o que ela planejava fazer. O que ela morreria para fazer. Mas eu não sabia como entrar em contato com você. Sabia que você não me ouviria se telefonasse. Teria de encontrar você logo, se não viesse hoje. Mas é difícil deixá-la, mesmo que por alguns minutos. O estado dela... muda rápido demais. A coisa está... crescendo. Rapidamente. Não posso ficar longe agora.
— O que é a coisa?
— Nenhum de nós tem a menor ideia. Mas é mais forte do que ela. Já é assim.
De repente eu podia ver – ver o monstro inchando em minha mente, rompendo-a de dentro para fora.
— Me ajude a impedir — sussurrou ele. — Me ajude a evitar que isso aconteça.
— Como? Oferecendo meus serviços de garanhão? — Ele nem piscou quando falei isso, mas eu sim. — Você é mesmo doente. Ela jamais dará ouvidos a isso.
— Tente. Não há nada a perder agora. Que mal isso fará?
— Fará mal a mim. Já não fui bastante rejeitado por Bella sem isso?
— Um pouco de dor para salvá-la? É um custo tão alto assim?
— Mas não vai dar certo.
— Talvez não. Mas talvez a deixe confusa. Talvez ela vacile em sua decisão. Um momento de dúvida é tudo o de que preciso.
— E depois você puxa o tapete sob a oferta? “É brincadeirinha, Bella”?
— Se ela quiser um filho, é o que terá. Não vou desistir.
Eu nem acreditava que estivesse pensando naquilo. Bella ia me socar. Não que eu me importasse com isso, mas provavelmente quebraria a mão dela de novo. Eu não deveria deixar que ele falasse comigo, que me confundisse. Deveria matá-lo ali.
— Agora não — sussurrou ele. — Ainda não. Certo ou errado, isso a destruiria, e você sabe disso. Não precisa ter pressa. Se ela não lhe der ouvidos, você terá sua chance. No momento em que o coração de Bella parar de bater, vou implorar que me mate.
— Não será preciso pedir por muito tempo.
A sugestão de um sorriso cansado repuxou o canto de sua boca.
— Estou contando com isso.
— Então, temos um acordo.
Ele assentiu e estendeu a fria mão de pedra. Engolindo minha repulsa, peguei-a. Meus dedos se fecharam em volta da rocha e sacudi a mão uma vez.
— Fechado — aquiesci.

2 comentários:

  1. Alessandra Ferreira31 de janeiro de 2016 05:07

    Meu Deus que doentio Edward ficou maluco! Jacob pelo anjo não fale nada disso pra bella, ela é uma pessoa ñ um objeto.

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!