28 de setembro de 2015

Capítulo 8 - À espera de que a porcaria da briga comece

— Meus Deus, Paul, você não tem a droga da sua casa?
Paul, esticado no meu sofá, vendo algum jogo idiota de beisebol na porcaria da minha tevê, sorriu e depois – bem devagar – pegou um Doritos do saco em seu colo e colocou na boca.
— É melhor que você tenha trazido isso.
Mastiga.
— Não — disse ele enquanto comia. — Sua irmã disse para eu me servir do que eu quisesse.
Tentei fazer uma voz de quem não estava prestes a lhe dar um murro.
— Rachel está aqui agora?
Não deu certo. Ele percebeu aonde eu queria chegar e pôs o saco atrás das costas. O saco estalou enquanto era esmagado contra a almofada. Os salgados se despedaçaram. As mãos de Paul se fecharam em punhos, perto do rosto, como um boxeador.
— Pode vir, garoto, não preciso de Rachel para me proteger.
Eu bufei.
— Sei. Como se você não fosse gritar por ela na primeira oportunidade.
Ele riu e relaxou no sofá, baixando as mãos.
— Não vou fazer queixa para uma garota. Se você me acertasse, seria só entre nós dois. E vice-versa, certo?
Legal da parte dele me fazer o convite. Deixei meu corpo arriar, como se tivesse desistido.
— Certo.
Os olhos dele passaram para a tevê. Ataquei.
Seu nariz produziu um som muito satisfatório de algo se quebrando quando meu punho fez contato. Ele tentou me agarrar, mas me desviei antes que conseguisse, o saco destruído de Doritos na minha mão esquerda.
— Você quebrou meu nariz, seu idiota.
— Só entre nós, não é, Paul?
Fui jogar os salgadinhos no lixo. Quando me virei, Paul estava pondo o nariz no lugar antes que pudesse ficar torto. O sangue já havia estancado; parecia que não tinha origem enquanto escorria pela boca e caía pelo queixo. Ele xingou, estremecendo ao puxar a cartilagem.
— Você é um saco, Jacob. Eu juro que prefiro ficar com Leah.
— Ai. Caramba, aposto que Leah vai adorar saber que você quer passar um tempo de qualidade com ela. Isso vai tirar as teias de seu coração.
— Você vai esquecer que eu disse isso.
— Claro. Tenho certeza de que não vou deixar escapulir.
— Argh! — ele grunhiu, e depois voltou a se acomodar no sofá, limpando o sangue que restava na gola da camiseta. — Você é rápido, garoto. Isso eu tenho de reconhecer. — Ele voltou a atenção para o jogo indistinto.
Fiquei parado ali por um segundo, depois fui para o meu quarto, murmurando algo sobre abduções alienígenas.
Antigamente, podia-se contar com Paul para uma boa briga o tempo todo. Na época, não era preciso bater nele – qualquer insulto brando daria resultado. Não era preciso grande coisa para fazê-lo perder o controle.
Agora, e claro, quando eu realmente queria uma boa briga, com grunhidos, rasgões e árvores derrubadas, ele ficava todo meloso.
Já não era ruim o bastante que outro membro do bando tivesse sofrido imprinting? Francamente, agora eram quatro em dez! Quando é que aquilo ia parar? Mito idiota que devia ser raro, pelo amor de Deus! Toda essa história de amor-à-primeira-vista obrigatório era de dar náuseas!
Tinha de ser minha irmã? Tinha de ser Paul?
Quando Rachel voltou da Washington State no fim do semestre de verão porque formou-se mais cedo, a nerd – minha maior preocupação tinha sido a dificuldade que teria em guardar dela o segredo. Eu não estava acostumado a disfarçar as coisas em minha própria casa. Isso fizera com que eu me sentisse solidário com garotos como Embry e Collin, cujos pais não sabiam que eles eram lobisomens. A mãe de Embry pensava que ele estivesse passando por uma fase de rebeldia. Ele ficava permanentemente de castigo pelas fugas frequentes, mas é claro que não havia muito que ele pudesse fazer. Ela olhava o quarto dele toda noite, e toda noite o encontrava vazio. Ela gritava e ele ouvia em silêncio, depois tudo se repetia no dia seguinte. Tentamos conversa com Sam sobre dar uma folga a Embry e contar tudo à mãe dele, mas Embry disse que não se importava. O segredo era importante demais.
Eu estava preparado para guardar esse segredo. E, então, dois dias depois de Rachel vir para casa, Paul esbarrou com ela na praia. E, bum! – o amor verdadeiro. Nenhum segredo é necessário quando se encontra sua cara-metade, e toda aquela porcaria de imprinting de lobos.
Rachel soube da história toda. E eu terminei com Paul como cunhado. Sabia que Billy também não tinha gostado muito disso. Mas ele encarou o fato melhor do que eu. É claro, ele agora escapulia para a casa dos Clearwater com mais frequência que de costume. Eu não via como isso podia ser melhor. Nada de Paul, mas Leah demais.
Eu me perguntava: será que uma bala atravessando minha têmpora realmente me mataria, ou só deixaria uma sujeira danada para eu limpar?
Atirei-me na cama. Estava cansado – não dormia desde minha última patrulha – mas sabia que não ia conseguir pegar no sono. Minha cabeça estava louca demais. Os pensamentos quicavam dentro de meu crânio como um enxame desordenado de abelhas. Barulhentas. De vez em quando, davam uma ferroada. Deviam ser vespas, não abelhas. As abelhas morrem depois de picar. E os mesmos pensamentos ficavam me picando sem parar.
A espera estava me deixando maluco. Já haviam se passado quase quatro semanas. Eu imaginava que de uma maneira ou de outra a notícia já teria chegado a essa altura. Ficava sentado à noite imaginando de que forma viria.
Charlie chorando ao telefone – Bella e o marido mortos em um acidente. Uma queda de avião? Isso seria difícil fingir. A não ser que os sanguessugas não se importassem de matar um monte de espectadores para dar autenticidade, e por que se importariam? Quem sabe, um avião pequeno. Eles, provavelmente, tinham um desses sobrando.
Ou o assassino voltaria para casa sozinho, sem ter conseguido realizar sua tentativa de fazer dela um deles? Ou nem mesmo chegando a tentar. Talvez ele a tivesse esmagado como um saco de fritas no ímpeto de pegar algumas? Porque a vida dela era menos importante para ele do que o próprio prazer...
A história seria trágica – Bella perdida num acidente horrível. Vítima de um assalto que fugiu ao controle. Sufocada com a comida do jantar. Um acidente de carro, como o de minha mãe. Tão comum. Acontecia o tempo todo.
Será que ele traria para casa? Para enterrá-la aqui, por Charlie? Uma cerimônia de caixão lacrado, é claro. O caixão da minha mãe foi fechado com pregos... Eu só podia esperar que ele voltasse para cá, ao meu alcance.
Talvez não houvesse história nenhuma. Talvez Charlie ligasse para perguntar ao meu pai se ele sabia de alguma coisa sobre o Dr. Cullen, que certo dia não apareceu para trabalhar. A casa abandonada. Nenhuma resposta em qualquer dos telefones dos Cullen. O mistério narrado em um noticiário de segunda classe, a suspeita de um golpe...
Talvez a grande casa branca fosse completamente queimada, com todos presos lá dentro. É claro que eles precisariam de cadáveres para essa opção. Oito humanos mais ou menos do tamanho certo. Carbonizados, sem que pudessem ser reconhecidos – nem com a ajuda de registros odontológicos.
Qualquer uma dessas hipóteses seria complicada – isto é, para mim. Seria difícil encontrá-los se eles não quisessem ser encontrados. É claro que eu tinha a eternidade para procurar. Quando se tem a eternidade, é possível verificar cada pedacinho de palha no palheiro, um por um, para ver se há uma agulha.
Naquele exato momento, eu não me importaria de desmantelar um palheiro. Pelo menos seria algo para fazer. Odiava saber que podia estar perdendo minha chance. Dando aos sanguessugas tempo para escapar, se fosse esse o plano deles.
Podíamos ir naquela noite. Podíamos matar cada um deles que encontrássemos.
Eu gostava desse plano porque conhecia Edward bem o bastante para saber que, se eu matasse alguém do bando dele, teria minha chance com ele também. Ele viria para se vingar. E eu o enfrentaria – não deixaria que meus irmãos o pegassem como uma alcateia. Seríamos só ele e eu. E que o melhor vencesse.
Mas Sam não queria ouvir falar disso. Não vamos quebrar o tratado. Eles que o rompam. Só porque não tínhamos provas de que os Cullen tinham feito algo errado. Ainda. Era preciso acrescentar o ainda, porque todos nós sabíamos que era inevitável. Bella ou ia voltar como um deles, ou não voltaria. De qualquer maneira, uma vida humana estaria perdida. E isso significava o início do jogo.
No outro cômodo, Paul gargalhava feito uma mula. Talvez ele tivesse mudado para uma comédia. Talvez o comercial fosse engraçado. Tanto fazia. Aquilo me dava nos nervos.
Pensei em quebrar o nariz dele de novo. Mas não era com Paul que eu queria brigar. Não mesmo.
Tentei ouvir os outros sons, o vento nas árvores. Não era a mesma coisa, não com ouvidos humanos. Havia um milhão de vozes no vento que eu não podia ouvir nesse corpo.
Mas esses ouvidos eram muito sensíveis. Eu podia ouvir além das árvores na estrada, o som dos carros fazendo a última curva, onde por fim é possível ver a praia – a vista das ilhas, das rochas e do grande mar azul se estendendo até o horizonte. Os policiais de La Push gostavam de ficar por ali. Os turistas nunca viam a placa de redução do limite de velocidade do outro lado da estrada.
Eu podia ouvir as vozes do lado de fora da loja de presentes na praia. Podia ouvir o sino tocando quando a porta se abria e fechava. Podia ouvir a mãe de Embry no caixa, imprimindo um recibo.
Podia ouvir a maré contra as pedras da praia. Podia ouvir as crianças gritando quando a água gelada vinha rápido demais e elas não conseguiam fugir. Podia ouvir as mães reclamando das roupas molhadas. E podia ouvir uma voz conhecida...
Eu estava escutando com tanta atenção que a explosão súbita da gargalhada imbecil de Paul me fez pular da cama.
— Saia da minha casa — grunhi.
Sabendo que ele não daria nenhuma atenção, segui meu próprio conselho. Abri a janela e pulei para os fundos, para não vê-lo de novo. Seria tentador demais. Eu sabia que bateria nele outra vez, e Rachel já ia ficar bastante irritada. Ela ia ver o sangue na camisa dele e me culparia na mesma hora, sem esperar pelas provas. É claro que ela estaria certa, mas ainda assim...
Andei até a praia com as mãos nos bolsos. Ninguém prestou atenção em mim quando passei pelo estacionamento sujo da First Beach. Essa era uma coisa boa do verão – ninguém se importava que você só estivesse de short.
Segui a voz conhecida que tinha ouvido e encontrei Quil com facilidade: estava no extremo sul do crescente, evitando a maior parte da multidão de turistas. Ele derramava um fluxo constante de advertências.
— Saia da água, Claire. Vamos. Não, isso não. Ah! Que ótimo, garota. É sério, quer que Emily grite comigo? Não vou trazer você para a praia de novo se você não... Ah, é? Não... ah! Acha que isso é engraçado, não é? Rá! Quem está rindo agora, hein?
Ele segurava a criança risonha pelo tornozelo quando os alcancei. Ela estava com um balde em uma das mãos e seu jeans estava ensopado. A camisa dele tinha uma enorme mancha molhada na frente.
— Cinco pratas pela menininha — eu disse.
— Oi, Jake.
Claire gritou e atirou o balde nos joelhos de Quil.
— Chão, chão!
Ele a colocou com cuidado de pé e ela correu para mim, abraçando minha perna.
— Tio Jay!
— Como é que está, Claire?
Ela riu.
— O Cuil tá toooodo moiado.
— Estou vendo. Onde está sua mãe?
— Foi boia, boia, boia — cantou Claire. — Caire bincou cum Cuil o dia toooodo. Caire num vai pa casa. — Ela me soltou e correu para Quil. Ele a pegou e a pendurou nos ombros.
— Parece que alguém chegou aos terríveis dois anos.
— Na verdade, três — corrigiu Quil. — Você perdeu a festa. Tema de princesa. Ela me obrigou a usar uma coroa, depois Emily sugeriu que todos experimentassem o novo kit de maquiagem em mim.
— Caramba, eu lamento mesmo não ter estado lá para ver.
— Não se preocupe, Emily tirou fotos. Na verdade, eu fiquei uma gata.
— Você é um otário.
Quil deu de ombros.
— Claire se divertiu. É isso o que interessa.
Eu revirei os olhos. Era difícil estar perto de gente imprinted. Independentemente da fase – prestes a colocar a aliança, como Sam, ou só uma babá maltratada, como Quil – a paz e a certeza que eles sempre irradiavam eram de vomitar.
Claire gritou nos ombros dele e apontou para o chão.
— Pega peda, Cuil! Pa mim, pa mim!
— Qual, bebê? A vermelha?
— Vemeia não!
Quil se ajoelhou – Claire gritou e puxou os cabelos dele como se fossem as rédeas de um cavalo.
— A azul?
— Não, não, não... — cantarolou a menina, animada com o jogo novo.
O estranho era que Quil estava se divertindo tanto quanto ela. Ele não tinha aquela cara que se via em tantos pais e mães turistas – a cara de quando-será-a-hora-da-soneca? Eu nunca via um pai de verdade tão animado para brincar de qualquer coisa idiota que seu pestinha pudesse inventar. Já tinha visto Quil brincar de esconde-esconde por uma hora seguida sem se entediar.
E eu não conseguia gozar com a cara dele por isso – eu o invejava demais. Mas pensava que era chato que ele tivesse uns bons catorze anos de vida de monge pela frente antes que Claire tivesse a idade dele – para Quil, pelo menos, era bom que os lobisomens não envelhecessem. Mas nem esse tempo todo parecia aborrecê-lo muito.
— Quil, você já pensou em namorar? — perguntei.
— Hein?
— Não, malela não! — gritou Claire.
— Você sabe. Uma garota de verdade. Quer dizer, só por enquanto, né? Nas suas noites de folga como babá.
Quil me encarou com a boca escancarada.
— Peda! Peda! — Claire gritou quando ele não lhe deu escolha. Ela bateu na cabeça dele com o punho pequenino.
— Desculpe, Clairzinha. Que tal essa roxa linda?
— Não — ela riu. — Loxa não.
— Me dê uma dica. Estou pedindo, menina.
Claire pensou.
— Vede — disse ela, por fim.
Quil olhou as pedras, examinando-as. Pegou quatro pedras de diferentes tons de verde e as estendeu para ela.
— Acertei?
— Sim!
— Qual delas?
— Toooooodinhas!
Ela pôs as mãos em concha e ele colocou as quatro pedrinhas nelas. Claire riu e de imediato bateu na cabeça dele com as pedras. Ele encolheu-se teatralmente, ficou de pé e começou a voltar para o estacionamento. Provavelmente temendo que ela se resfriasse com as roupas molhadas. Ele era pior do que qualquer mãe paranoica e superprotetora.
— Desculpe se eu estava pressionando demais antes, cara, sobre a história da garota — eu disse.
— Não, tudo bem — disse Quil. — É que me pegou de surpresa. Eu não tinha pensado nisso.
— Aposto que ela iria entender. Sabe como é, quando estiver adulta. Não ficar zangada por você ter vivido um pouco enquanto ela estava de fraldas.
— Não, eu sei. Tenho certeza de que entenderia isso.
Ele não disse mais nada.
— Mas você não vai fazer, vai? — supus.
— Eu não vejo — disse ele em voz baixa. — Nem consigo imaginar. Eu simplesmente não... vejo ninguém dessa maneira. Não percebo mais as garotas, sabia? Não vejo mais os rostos delas.
— Junte isso à tiara e à maquiagem e talvez Claire vá ter um tipo diferente de competição com que se preocupar.
Quil riu e mandou beijos para mim.
— Está disponível na sexta, Jacob?
— Vai esperando — eu disse, depois fiz uma careta. — É, acho que estou.
Ele hesitou por um segundo e disse:
— Já pensou em namorar?
Suspirei.
— Acho que mereci essa.
— Sabe de uma coisa, Jake? Talvez você devesse pensar em viver um pouco.
Ele não disse isso como piada. A voz era solidária. O que piorava tudo.
— Eu também não as vejo, Quil. Não vejo os rostos delas.
Quil também suspirou.
Longe, baixo demais para que alguém além de nós dois ouvisse acima das ondas, um uivo se elevou na floresta.
— Droga, é Sam — disse Quil. As mãos dele voaram para tocar Claire, como para se assegurar de que ainda estivesse ali. — Não sei onde está a mãe dela!
— Vou ver o que é. Se precisarmos de você, eu chamo — eu atropelei as palavras, que pareceram ininteligíveis juntas. — Ei, por que não leva Claire para a casa dos Clearwater? Sue e Billy podem cuidar dela, se for preciso. Eles podem saber o que está acontecendo, de qualquer forma.
— Tudo bem... Dê o fora daqui, Jake!
Saí correndo, não pela trilha de terra que atravessava a cerca viva, mas na linha mais curta para a floresta. Saltei a primeira fila de madeira na areia e disparei pelas urzes, ainda correndo. Senti as pequenas fisgadas enquanto os espinhos cortavam minha pele, mas as ignorei. As feridas estariam curadas antes que eu chegasse às árvores.
Cortei caminho atrás da loja e disparei pela estrada. Alguém buzinou para mim. Uma vez na segurança das árvores, corri mais rápido, dando passadas mais longas. As pessoas ficariam olhando se eu estivesse em campo aberto. Pessoas normais não corriam daquele jeito. Às vezes, eu achava que seria divertido entrar numa corrida – sabe, como os Jogos Olímpicos ou coisa assim. Seria legal ver a expressão daqueles astros do atletismo quando eu passasse voando por eles. Só que eu tinha certeza de que os exames que faziam para se certificar de que você não usa esteroides provavelmente mostrariam algo assustadoramente estranho em meu sangue.
Assim que me vi na floresta de verdade, sem estradas ou casas beirando-a, parei e tirei o short. Com movimentos rápidos e treinados, enrolei-o e o amarrei na corda de couro no meu tornozelo. Ainda estava puxando as pontas quando comecei a me transformar. O fogo descia por minha coluna, provocando espasmos em meus braços e pernas. Só levou um segundo. O calor tomou conta de mim e senti o tremor silencioso que me transformava em outra coisa. As patas pesadas foram de encontro à terra e estiquei o dorso, comprido e ondulante.
A metamorfose era muito fácil quando eu estava concentrado assim. Eu não tinha mais problemas com meu temperamento. A não ser quando era provocado.
Por meio segundo, lembrei do momento horrível naquela abominável piada de casamento. Tinha ficado tão louco de fúria que não consegui controlar meu corpo. Eu fora apanhado numa armadilha, tremendo e ardendo, incapaz de me transformar e matar o monstro a pouca distância de mim. Fora muito perturbador. Morto de vontade de matá-lo. Com medo de machucá-la. Meus amigos no meio do caminho. E depois, quando finalmente consegui assumir a forma que eu queria, a ordem de meu líder. O edito do alfa. Se fossem só Embry e Quil ali naquela noite, sem Sam... Será que eu teria conseguido matar o assassino, então?
Eu odiava quando Sam impunha a lei daquele jeito. Odiava o sentimento de não ter alternativa. Ou de ter de obedecer.
E depois tomei consciência da plateia. Eu não estava sozinho em meus pensamentos.
Tão absorto em si mesmo o tempo todo, pensou Leah.
É, sem hipocrisia, Leah, pensei.
Chega, meninos, disse-nos Sam.
Ficamos em silêncio, e senti que Leah estremecia com a palavra meninosSensível, como sempre.
Sam fingiu não perceber. Onde estão Quil e Jared?
Quil está com Claire, foi levá-la para a casa dos Clearwater.
Ótimo. Sue vai cuidar dela.
Jared foi para casa de Kim, pensou Embry. É provável que não tenha ouvido você.
Um gemido baixo percorreu o bando. Eu gemi junto com eles. Quando Jared finalmente aparecesse, sem dúvida ainda estaria pensando em Kim. E aquele momento ninguém queria uma reprise do que eles estavam prestes a fazer.
Sam sentou-se nas patas traseiras e soltou outro uivo dilacerante no ar. Era ao mesmo tempo um sinal e uma ordem.
O bando estava reunido a poucos quilômetros a leste de onde eu estava. Saltei pela floresta densa na direção deles. Leah, Embry e Paul também seguiam para lá. Leah estava perto – logo pude ouvir seus passos não muito longe no bosque. Continuamos em linha paralela, preferindo não correr juntos.
Bom, não vamos esperar o dia todo por ele. Ele terá de nos alcançar depois.
Que foi, chefe?, Paul queria saber.
Precisamos conversar. Aconteceu uma coisa.
Senti os pensamentos de Sam dispararem para mim – e não só os de Sam, mas também os de Seth, Collin e Brady. Collin e Brady – os garotos novos – estiveram correndo em patrulha com Sam naquele dia, então eles sabiam o mesmo que Sam. Eu não sabia por que Seth já estava ali, e informado. Não era a vez dele.
Seth, conte a eles o que você soube.
Eu acelerei, querendo chegar lá. Ouvi Leah se mover mais rápido também. Ela odiava ser ultrapassada. Ser a mais rápida era a única vantagem que podia alegar.
Alegue isso, idiota, sibilou ela, e depois realmente acelerou. Eu cravei minhas unhas na terra e me lancei para a frente.
Sam não parecia estar com humor para aturar nossas bobagens de sempre. Jake, Leah, deem um tempo.
Nenhum dos dois desacelerou.
Sam grunhiu, mas deixou passar. Seth?
Charlie andou ligando até encontrar Billy na minha casa.
É, eu falei com ele, acrescentou Paul.
Senti um choque percorrer meu corpo quando Seth pensou no nome de Charlie. Chegara a hora. A espera terminara. Corri mais rápido, obrigando-me a respirar, embora meus pulmões de repente parecessem contraídos. Qual seria a história?
Ele está todo agitado. Acho que Edward e Bella voltaram para casa na semana passada e...
Meu peito se aliviou. Ela estava viva. Ou pelo menos não estava morta morta. Eu não tinha percebido como isso faria diferença para mim. Estive pensando nela como morta o tempo todo, e só vi isso ali. Vi que nunca tinha acreditado que ele a traria de volta viva. Não devia importar, porque eu sabia o que viria a seguir.
É, mano, e aqui está a má notícia. Charlie falou com ela, disse que ela parecia mal. Ela disse a ele que estava doente. Carlisle pegou o telefone e falou que Bella tinha contraído uma doença rara na América do Sul. Falou que estava de quarentena. Charlie ficou louco, porque nem ele podia vê-la. Disse que não ligava que ela estivesse doente, mas Carlisle não cedeu. Nada de visitas. Disse a Charlie que é muito grave, mas que ele está fazendo tudo o que é possível. Charlie ficou remoendo isso por dias, mas só ligou para Billy agora. Disse que a voz dela parecia pior hoje.
Quando Seth terminou, o silêncio mental foi profundo. Todos nós entendemos.
Então ela ia morrer dessa doença, pelo que Charlie sabia. Será que deixariam que ele visse o cadáver? O corpo branco, lívido, completamente imóvel, sem respirar? Eles não podiam deixar que ele tocasse a pele fria – ele podia perceber como era dura. Eles teriam de esperar até que ela pudesse se controlar, para não matar Charlie e os outros no velório. Mas quanto tempo isso levaria? Será que a enterrariam? Ela conseguiria cavar para sair ou os sanguessugas iriam buscá-la?
Os outros ouviam minhas especulações em silêncio. Eu pensara muito mais no assunto do que qualquer um deles.
Leah e eu entramos na clareira quase ao mesmo tempo. Mas ela estava certa de que tinha chegado na frente. Ela caiu sobre as patas traseiras ao lado do irmão enquanto eu segui em frente, para ficar do lado direito de Sam. Paul contornou e abriu espaço para mim.
Venci de novo, pensou Leah, mas eu mal a ouvia.
Perguntei-me por que eu era o único de pé. Meu pelo estava eriçado nos ombros, arrepiado de impaciência.
Bom, o que estamos esperando?, perguntei.
Ninguém disse nada, mas ouvi seus sentimentos de hesitação. Ah, tenha dó! o tratado foi rompido!
Não temos prova... Talvez ela esteja mesmo doente.
Ah, francamente!
Tudo bem, então as evidências circunstanciais são muito fortes; ainda assim... O pensamento de Sam chegou lento e hesitante. Tem certeza de que é isso o que você quer? É realmente a coisa certa? Todos sabemos o que ela queria.
O tratado não menciona nada sobre a vontade da vítima, Sam!
Ela é mesmo uma vítima? Você a rotularia dessa maneira?
Sim!
Jake, pensou Seth, eles não são nossos inimigos.
Cale a boca, garoto! Só porque você tem uma espécie de veneração doentia por aquele sanguessuga isso não muda a lei. Eles são nossos inimigos. Eles estão em nosso território. Vamos acabar com eles. Não ligo se você se divertiu lutando junto com Edward Cullen uma vez.
Então, o que você vai fazer quando Bella lutar com eles, Jacob? Hein?, perguntou Seth.
Ela não é mais a Bella.
E é você que vai acabar com ela?
Não consegui deixar de tremer.
Não, você não. E aí? Vai obrigar um de nós a fazer isso? E depois guardar rancor dele para sempre?
Eu não ia...
Claro que não. Você não está preparado para essa briga, Jacob.
O instinto me dominou e eu me agachei, rosnando para o lobo desajeitado e cor de areia do outro lado da roda.
Jacob!, alertou Sam. Seth, cale a boca por um segundo.
Seth assentiu com a cabeça grande.
Droga, o que foi que eu perdi?, pensou Quil. Ele estava correndo à toda para o lugar de reunião. Ouvi sobre o telefonema de Charlie...
Estamos nos preparando para ir, eu disse a ele. Por que não passa na casa de Kim e arrasta Jared de lá com os dentes? Vamos precisar de todos.
Venha direto para cá, Quil, ordenou Sam. Ainda não decidimos nada. Eu grunhi. Jacob, tenho de pensar no que é melhor para este bando. Tenho de decidir pelo curso que proteja melhor todos vocês. Os tempos mudaram desde que nossos ancestrais fizeram esse tratado. Eu... bem, sinceramente não acredito que os Cullen sejam um perigo para nós. E sabemos que eles não ficarão aqui por muito tempo. Certamente, depois que contarem sua história, vão desaparecer. Nossa vida pode voltar ao normal.
Normal?
Se nós os desafiarmos, Jacob, eles se defenderão muito bem.
Está com medo?
Você está pronto para perder um irmão? Ele parou. Ou uma irmã?, acrescentou.
Não tenho medo de morrer.
Eu sei disso, Jacob. É um motivo para eu questionar sua capacidade de julgamento nesse caso.
Fitei seus olhos negros. Você pretende honrar o tratado de nossos pais ou não?
Eu honro meu bando. Faço o que é melhor para eles.
Covarde.
Seu focinho se contraiu, recuando sobre os dentes.
Chega, Jacob. Você é minoria. A voz mental de Sam mudou, assumiu um timbre estranho e duplo que não podíamos desobedecer. A voz do alfa. Ele olhou nos olhos de todos os lobos na roda. O bando não vai atacar os Cullen sem um motivo. O espírito do tratado permanece. Eles não são um perigo para nosso povo, nem para o povo de Forks. Bella Swan tomou uma decisão consciente, e não vamos punir nossos antigos aliados por sua decisão.
Apoiado, apoiado, pensou Seth com entusiasmo.
Pensei ter dito que se calasse, Seth.
Epa, desculpe, Sam.
Jacob, aonde pensa que vai?
Deixei o círculo, movendo-me para oeste a fim de ficar de costas para Sam.
Vou me despedir de meu pai. Ao que parece, não tem sentido continuar por aqui.
Ah, Jake... Não faça isso de novo!
Cale a boca, Seth, pensaram várias vozes juntas.
Não queremos que você vá embora, disse-me Sam, o pensamento mais suave do que antes.
Então me obrigue a ficar, Sam. Tire de mim minha vontade. Me torne um escravo. Sabe que não vou fazer isso. Então, não há mais nada a dizer.
Corri para longe deles, tentando ao máximo não pensar no que faria a seguir. Em vez disso, concentrei-me na lembrança dos longos meses como lobo, de ter deixado que a humanidade saísse de mim até que me tornasse mais animal que humano. Vivendo o momento, comendo quando tinha fome, dormindo quando estava cansado, bebendo quando tinha sede, e correndo – correndo só por correr. Desejos simples, respostas simples para esses desejos.
A dor vinha em formas mais fáceis de administrar. A dor da fome. A dor do gelo sob as patas. A dor das garras cortantes quando a presa lutava. Cada dor tinha uma resposta simples, uma ação simples para interrompê-la. Não era como ser humano.
No entanto, assim que estava bem próximo para correr normalmente, passei para meu corpo humano. Precisava poder pensar com privacidade. Desamarrei o short e o vesti, já correndo para casa.
Eu tinha conseguido. Escondera o que estava pensando e agora era tarde demais para que Sam me impedisse. Agora ele não podia me ouvir.
Sam tinha deixado a ordem muito clara. O bando não atacaria os Cullen. Tudo bem. Não mencionou alguém agindo sozinho. Não, o bando não ia atacar ninguém naquele dia. Mas eu, sim.

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