24 de setembro de 2015

Capítulo 8 - Adrenalina

— Ok, onde é a sua embreagem?
Eu apontei para a alavanca no lado esquerdo do guidão. Soltar o apoio foi um erro. A moto pesada cambaleou embaixo de mim, ameaçando me jogar de lado. Eu agarrei o guidão de novo, tentando segurar direito.
— Jacob, eu não vou ficar de pé — reclamei.
— Você vai quando estiver se movendo — ele prometeu. — Agora, onde está seu freio?
— Atrás do meu pé direito.
— Errado.
Ele agarrou minha mão direita e curvou meus dedos na alavanca em cima do regulador.
— Mas você disse...
— Esse é o freio que você quer. Não use o freio de trás agora, isso é pra depois, quando você souber o que está fazendo.
— Isso não parece certo — eu disse suspeitosamente. — Os dois freios não são importantes?
— Esqueça o freio de trás, tá legal? Aqui — Ele agarrou sua mão na minha e me fez puxar a alavanca pra baixo. — Esse é o seu freio. Não esqueça — Ele apertou minha mão mais uma vez.
— Tá bom — Eu concordei.
—Acelerador?
Eu virei punho direito.
—Câmbio?
Eu bati com o meu calcanhar esquerdo.
— Muito bom. Eu acho que você aprendeu todas as partes. Agora você só tem que começar a se mover.
— Uh-huh — eu murmurei, com medo de dizer mais. Meu estômago estava se contorcendo de uma maneira estranha e eu achei que minha voz podia sair esganiçada. Eu estava morta de medo. Eu tentei pensar comigo mesma que o meu medo era sem motivos. Eu já havia sobrevivido á pior coisa possível. Em comparação com aquilo, porque alguma coisa devia me assustar agora? Eu devia ser capaz de olhar na cara da morte e sorrir.
Meu estômago não tava acreditando.
Eu olhei para a longa extensão da estrada de terra, incomodada pela grossa névoa verde que havia dos dois lados. A pista era arenosa e suja. Melhor que lama.
— Eu quero que você segure a embreagem — Jacob instruiu.
Eu agarrei meus dedos na embreagem.
— Agora isso é crucial, Bella — Jacob se estressou. — Não solte isso, Ok? Eu quero que você finja que está segurando uma granada armada. O pino saiu e você está segurando o trinco.
Eu apertei com mais força.
— Bom. Você acha que consegue dar a partida?
— Se eu mover o meu pé, eu vou cair — eu disse pra ele através de dentes trincados, meus dedos segurando a granada armada com força.
— Ok, eu faço isso. Não solte a embreagem.
Ele deu um passo pra trás, e de repente bateu seu pé no pedal. Houve um breve som de alguma coisa rasgando, e a força do seu empurrão fez a moto balançar. Eu comecei a cair de lado, mas Jake agarrou a moto antes que ela me derrubasse.
— Firme aí — ele encorajou. — Você ainda está segurando a embreagem?
— Sim — eu disse sem fôlego.
— Segure seus pés - eu vou tentar de novo — Mas ele colocou a mão na parte de trás do banco também, só pra ter certeza.
Foram mais quatro tentativas até que a ignição se ligasse. Eu podia sentir a roncando embaixo de mim como um animal raivoso. Eu agarrei a embreagem até que meus dedos doeram.
— Tente a alavanca — ele sugeriu. — Bem de leve. E não solte a embreagem.
Hesitantemente, eu girei a alavanca direita. Apesar de o movimento ter sido pequeno, a moto rosnou embaixo de mim. Ela parecia com raiva e faminta agora. Jacob sorriu com profunda satisfação.
— Você lembra de como colocar na primeira marcha? — ele perguntou.
— Sim.
— Bem, vá em frente e faça isso.
— Ok.
Ele esperou por alguns segundos.
— Pé esquerdo — ele lembrou.
— Eu sei — eu disse, respirando fundo.
— Você tem certeza de que quer fazer isso? — Jacob perguntou. Você parece assustada.
— Eu estou bem. — eu atirei. Eu chutei o trocador de marcha pra baixo.
— Muito bom. — ele me parabenizou. — Agora, bem gentilmente, solte um pouco a embreagem.
Ele deu um passo pra trás se distanciando da moto.
— Você quer que eu solte a granada? — eu perguntei incrédula. Não era de estranhar que ele estivesse se afastando.
— É assim que você se move, Bella. Só faça isso pouco a pouco.
Enquanto eu começava a soltar o meu aperto, eu fiquei chocada por ser interrompida por uma voz que não era a do garoto ao meu lado.
“Isso é descuidado e infantil e idiota, Bella” a voz aveludada fumaçou.
— Oh! — eu fiquei sem fôlego e minha mão soltou a embreagem.
A moto pulou embaixo de mim, me jogando pra frente e depois caindo no chão meio em cima de mim. O motor rosnou e depois parou de funcionar.
— Bella? — Jacob tirou a moto de cima de mim com facilidade. — Você está ferida?
Mas eu não estava escutando.
“Eu te avisei”a voz perfeita murmurou, clara feito cristal.
— Bella? — Jacob chacoalhou meu ombro.
— Eu estou bem — murmurei, confusa.
Mais que bem. A voz na minha cabeça estava de volta. Ela ainda estava ecoando nos meus ouvidos - ecos macios, de veludo.
Minha mente correu rapidamente pelas possibilidades. Não havia nenhuma familiaridade ali - numa estrada que nunca havia visto, fazendo uma coisa que eu nunca havia feito - não era déjà vu.
Então as alucinações devem ser desencadeadas por outra coisa... eu sentia a adrenalina passando pelas minhas veias de novo, e aí eu pensei que tinha minha resposta.
Uma combinação de perigo e adrenalina, ou talvez só a estupidez.
Jacob estava me colocando de pé.
— Você bateu a cabeça? — ele perguntou.
— Eu acho que não — eu a balancei pra frente e pra trás, checando.
— Eu não estraguei a moto, estraguei? — Esse pensamento me preocupou.
Eu estava ansiosa pra tentar de novo, imediatamente.
Ser descuidada estava funcionando melhor do que eu esperava. Esqueça a quebra de acordo. Talvez eu tivesse encontrado uma forma de gerar as alucinações - e isso era muito mais importante.
— Não. Você só afogou o motor — Jacob disse, interrompendo minhas rápidas especulações. — Você soltou a embreagem rápido demais.
Eu balancei a cabeça.
— Vamos tentar de novo.
— Você tem certeza? — Jacob perguntou.
— Absoluta.
Dessa vez eu mesma tentei dar a partida. Foi complicado; eu tive que pular um pouco pra bater no pedal com força suficiente, e toda vez que eu fazia isso, a moto tentava me derrubar. As mãos de Jacob ficaram no guidão, prontas pra me segurar se eu caísse.
Foram várias tentativas boas, e muitas ruins, antes que o motor roncasse vindo á vida embaixo de mim.
Me lembrando de segurar a granada, eu virei a alavanca, experimentando.
Ela roncou com o menor toque. O meu sorriso imitou o de Jacob agora.
— Vá com calma na embreagem — ele me lembrou.
“Você quer se matar então? É disso que se trata?” A outra voz falou de novo, com um tom severo.
Eu sorri com força - estava funcionando - e eu ignorei as perguntas.
Jacob não ia deixar nada sério acontecer comigo.
“Volte para casa, para Charlie” a voz ordenou. A beleza transparente me deslumbrou. Eu não podia deixar minha memória deixá-la ir, não importava o preço.
— Solte devagarzinho — Jacob me encorajou.
— Eu vou — eu disse. Me incomodou um pouco quando eu percebi que estava respondendo pra eles dois.
A voz na minha cabeça rosnou contra o ronco da moto.
Tentando me concentrar desse vez, sem deixar a voz me ofuscar de novo, eu relaxei minha mão aos poucos.
De repente, a marcha funcionou e me impulsionou pra frente.
Eu estava voando.
Havia um vento que não estava lá antes, soprando a pele do meu crânio e fazendo o meu cabelo voar pra trás com força suficiente pra fazer parecer que alguém o estava puxando.
Eu deixei o meu estômago lá no lugar de onde eu havia saído; a adrenalina passou pelo meu corpo, fazendo cócegas nas minhas veias.
As árvores passavam correndo por mim, parecendo uma parede borrada de verde.
Essa era só a primeira marcha, meu pé se aproximou do trocador de marcha enquanto eu procurava por mais força.
“Não, Bella!” a voz raivosa, doce como mel ordenou no meu ouvido. “Veja o que você está fazendo!”
Isso me distraiu o suficiente da velocidade pra que eu percebesse que a estrada estava começando numa leve curva para a esquerda, e eu ainda estava indo em frente. Jacob não havia me ensinado a virar.
— Freios, freios — eu murmurei pra mim mesma, e eu instintivamente bati o meu pé direito, como eu faria na minha caminhonete.
A moto ficou instável de repente embaixo de mim, tremendo primeiro pra um lado e depois pro outro. Eu estava sendo arrastada para a parede verde, e eu estava indo rápido demais. Eu tentei virar o guidão para a outra direção, e a mudança repentina de peso empurrou a moto pro chão, ainda virando na direção das árvores.
A moto caiu por cima de mim, roncando alto, me jogando no chão molhado até que eu bati em alguma coisa que me fez parar. Eu não conseguia enxergar. Meu rosto estava misturado com os musgos. Eu tentei levantar minha cabeça, mas havia algo me atrapalhando.
Eu estava ofuscada e confusa. Parecia que havia três coisas rosnando - a moto em cima de mim, a voz na minha cabeça, e alguma outra coisa...
— Bella — Jacob gritou, e eu ouvi o motor da outra moto ser desligado.
A moto já não estava mais me prendendo no chão, e eu me virei pra respirar. Todos os rosnados ficaram silenciosos.
— Uau — eu murmurei. Eu estava vibrando de emoção. Tinha que ser isso, a receita para a alucinação - a dose extra de adrenalina mais estupidez. Ou algo mais ou menos assim, de qualquer forma.
— Bella — Jacob estava se abaixando perto de mim ansiosamente. — Bella, você está viva?
— Eu estou ótima! — eu me entusiasmei. Eu flexionei meus braços e pernas. Tudo parecia estar funcionando corretamente. — Vamos fazer de novo.
— Eu acho que não — Jacob ainda parecia preocupado. — Eu acho melhor te levar á um hospital antes.
— Eu estou bem.
— Hmm, Bella? Você está com um corte enorme na sua testa, e ele está sangrando — ele me informou.
Eu coloquei minha mão na testa. Com certeza, ela estava molhada e grudenta. Eu não conseguia sentir o cheiro de nada além dos musgos molhados no meu rosto, e isso impediu a náusea.
— Oh, me desculpe, Jacob — Eu segurei com força no meu ferimento, como se eu pudesse empurrar o sangue de volta para a minha testa.
— Porque você está se desculpando por sangrar? — ele se perguntou enquanto colocava um braço pela minha cintura e me ajudava a ficar de pé. —Vamos. Eu dirijo.
Ele levantou a mão pedindo as chaves.
— E as motos? —,eu perguntei, passando elas pra ele.
Ele pensou por um segundo. — Espere aqui. E tome isso. — Ele tirou sua camisa, que já estava suja de sangue, e jogou ela pra mim. Eu a agarrei e apertei-a com força na minha testa. Eu estava começando a sentir o cheiro do sangue; eu respirei fundo pela minha boca e tentei me concentrar em pensar em outra coisa.
Jacob pulou na moto preta, fez ela começar a funcionar na primeira tentativa, e começou a correr pela estrada, jogando areia e pedrinhas pra trás dele. Ele parecia atlético e profissional enquanto ele se inclinava no guidão, com a cabeça baixa, o rosto pra frente, seu cabelo preto brilhante voando nas suas costas cor de cobre. Meus olhos se estreitaram com inveja. Eu tinha certeza que não ficava daquele jeito na moto.
Eu fiquei surpresa de ver o quanto tinha ido longe. Eu mal podia ver Jacob à distancia quando ele finalmente parou perto da caminhonete.
Ele jogou a moto na traseira e se enfiou no lado do motorista.
Eu realmente não me senti nem um pouco mal quando ele forçou a minha caminhonete com um ronco desafiador na sua pressa de voltar até mim. A minha cabeça pulsava um pouco, e meu estômago estava inquieto, mas o corte não era sério. Os cortes na cabeça sangram mais do que os outros. A urgência dele não era necessária.
Jacob deixou a caminhonete funcionando enquanto corria de volta pra mim, passando o braço pela minha cintura de novo.
— Ok, vamos te colocar na caminhonete.
— Honestamente, eu tô bem. — eu assegurei ele enquanto ele me ajudava a entrar. — Não fique agitado. É só um pouco de sangue.
— Só um monte de sangue — eu ouvi ele murmurar enquanto voltava pra pegar a minha moto.
— Agora, vamos pensar nisso por um segundo — eu comecei quando ele voltou. — Se você me levar pra um pronto socorro assim, Charlie com certeza vai descobrir. — Eu olhei para a areia e para a sujeira grudadas na minha calça.
— Bella, eu acho que você precisa de pontos. Eu não vou deixar você sangrar até morrer.
— Eu não vou morrer — eu prometi. — Vamos só deixar as motos de volta antes, e depois vamos pra minha casa pra que eu possa me livrar das provas antes de irmos pra o hospital.
— E quanto à Charlie?
— Ele disse que tinha que ir trabalhar hoje.
— Você tem certeza mesmo?
— Confie em mim. Eu sangro fácil. Não é tão ruim quanto parece.
Jacob não estava feliz - a boca dele se curvou pra baixo numa careta pouco característica - mas ele não queria me envolver em problemas. Eu olhei pra fora pela janela, segurando a camisa arruinada dele na minha cabeça, enquanto ele me dirigia pra Forks.
A moto estava melhor do que eu havia sonhado. Ela serviu ao meu propósito original. Eu havia traído - quebrado minha promessa. Eu fui desnecessariamente descuidada. Eu me sentia um pouco menos patética agora que as promessas haviam sido feitas e quebradas de ambos os lados.
E eu ainda tinha descoberto a chave para as alucinações! Pelo menos, eu esperava que sim. Eu ia testar essa teoria o mais rápido possível. Talvez eles terminassem rápido comigo no pronto socorro, e eu pudesse tentar de novo essa noite.
Descer a estrada correndo daquele jeito tinha sido incrível. A sensação do vento no meu rosto, a velocidade e a liberdade... isso me lembrou de uma vida passada, voando pela grossa floresta sem uma estrada, nas costas dele enquanto ele corria - eu parei de pensar aí, deixando as memórias me atingirem com uma súbita agonia. Eu vacilei.
— Você ainda está bem? — Jacob checou.
— É — eu tentei parecer tão convincente quanto antes.
— Aliás —, ele acrescentou. — Eu vou desconectar o seu freio de pé hoje á noite.
Em casa, a primeira coisa que eu fiz foi me olhar num espelho; eu estava grotesca.
O sangue estava secando e deixando trilhas grossas nas minhas bochechas e no meu pescoço, se colando com o meu cabelo cheio de lama.
Eu me examinei clinicamente, fingindo que o sangue era tinta pra que ele não incomodasse meu estômago. Eu respirei pela minha boca e fiquei bem. Eu me lavei tão bem quanto pude. Então eu escondi minhas roupas sujas, ensanguentadas, no fundo do cesto de roupa suja, colocando outra calça jeans e uma camisa de abotoar (que eu não precisava passar pela minha cabeça) tão cuidadosamente quanto pude.
Eu consegui fazer isso tudo com uma só mão, e manter tudo livre de sangue.
— Se apresse — Jacob chamou.
— Tá bom, tá bom — eu gritei de volta. Depois de ter certeza de que nada mais me incriminava, eu desci as escadas.
— Como é que eu estou? — eu perguntei pra ele.
— Melhor — ele admitiu.
— Mas parece que eu tropecei na sua garagem e bati a cabeça num martelo?
— Claro, eu acho que sim.
— Então vamos lá.
Jacob me apressou pela porta, e insistiu em dirigir de novo. Nós já estávamos a meio caminho do hospital quando eu me dei conta de que ele ainda estava sem camisa.
Eu fiz uma carranca me sentindo culpada.
— Nós devíamos ter pego uma casaco pra você.
— Isso teria nos denunciado — ele zombou. — Além do mais, não está frio.
— Você está brincando? — eu tremi e me inclinei pra aumentar o aquecedor.
Eu observei Jacob pra ver se ele estava só brincando pra que eu não me preocupasse com ele, mas ele parecia confortável o suficiente.
Ele estava com um braço em cima do encosto do meu banco, apesar de eu estar me abraçando pra me aquecer.
Jacob realmente parecia ter mais de dezesseis anos - não exatamente quarenta, mas talvez mais velho que eu. Quil não tinha muito mais que ele no departamento dos músculos, mas por isso Jacob dizia que era um esqueleto. Os músculos eram longos e poucos, mas eles definitivamente existiam embaixo da pele macia. A pele dele tinha uma cor tão bonita, que me deixou com inveja.
Jacob notou minha análise.
— O que foi? — ele perguntou de repente, envergonhado.
— Nada. É só que eu nunca tinha reparado antes. Você sabia que é meio bonitão?
Assim que as palavras saíram, eu me preocupei que ele desse às palavras o significado errado.
Mas Jacob só rolou os olhos.
— Você bateu a cabeça com bastante força, não foi?
— Eu estou falando sério.
— Bem, então, obrigado. Mais ou menos.
Eu sorri.
— Mais ou menos de nada.
Eu precisei de sete pontos pra fechar o corte na minha testa. Depois de um pouco de anestesia local, não houve nem uma ponta de dor no procedimento. Jacob segurou minha mão enquanto o Dr. Snow estava costurando, e eu tentei não pensar no quanto isso era irônico.
Nós ficamos uma eternidade no hospital. Quando eu acabei, eu tive que deixar Jacob em casa, e voltar correndo pra cozinhar o jantar de Charlie. Charlie pareceu acreditar na minha história de ter caído na garagem de Jacob. Afinal, não era como se eu fosse capaz de ir para no pronto socorro com ajuda nenhuma além da dos meus próprios pés.
Aquela noite não foi tão ruim quanto a primeira noite que eu ouvi aquela voz em Port Angeles. O buraco havia voltado, do jeito como sempre voltava quando eu estava longe de Jacob, mas ele não parecia tão em carne viva nas beiradas. Eu já estava planejando o futuro, ansiosa pelas próximas alucinações, e isso era uma distração.
Também, eu sabia que me sentiria melhor amanhã quando estivesse com Jacob de novo. Isso fez o buraco vazio e a dor familiar um pouco mais fáceis de suportar; o alívio estava á vista.
O pesadelo também havia perdido a sua potência. Eu estava aterrorizada pelo vazio, como sempre, mas eu também me sentia estranhamente impaciente enquanto esperava pelo momento de gritaria que me traria de volta á consciência. Eu sabia que o pesadelo tinha que acabar.
Na quarta seguinte, antes que eu pudesse chegar em casa do pronto socorro, o Dr. Gerandy ligou pra avisar o meu pai de que eu podia ter concussões e pra avisá-lo pra me acordar a cada duas horas durante a noite pra ter certeza de que não era nada sério. Os olhos de Charlie se estreitaram suspeitosamente com a minha explicação fraca de ter caído de novo.
— Talvez você devesse ficar fora da garagem por um tempo, Bella — ele me sugeriu á noite durante o jantar.
Eu entrei em pânico, com medo de que Charlie de que Charlie pudesse editar alguma proibição à La Push, e consequentemente à minha moto.
E eu não ia desistir - eu tive a alucinação mais incrível hoje.
A alucinação da minha voz aveludada gritou comigo por quase cinco minutos antes que eu pisasse abruptamente no freio e me lançasse naquela árvore. Eu ia aguentar qualquer dor que fosse hoje e sem reclamar.
— Isso não aconteceu na garagem — eu protestei rapidamente. Nós estávamos fazendo uma caminhada e eu tropecei numa pedra.
— Desde quando você fez caminhadas? — Charlie perguntou ceticamente.
— Trabalhar nos Newton vale a pena de vez em quando — eu apontei. —Passar os dias trancada vendendo as coisas que se usa ao ar livre, eventualmente te deixa curioso.
Charlie me encarou, não convencido.
— Eu serei mais cuidadosa — eu prometi, surrupiamente cruzando meus dedos por debaixo da mesa.
— Eu não me importo que você faça caminhadas enquanto estiver em La Push, mas fique perto da cidade,está bem?
— Por quê?
— Bem, nós temos recebido muitas denuncias de incêndios ultimamente. O departamento florestal está checando, mas enquanto isso...
— Oh, o urso gigante — eu disse compreendendo subitamente. — É, alguns dos mochileiros que vão à Newton's também o viram. Você acha que ele é algum urso pardo que sofreu mutação ou alguma coisa assim?
A testa dele se enrugou.
— Tem alguma coisa. Fique perto da cidade, está bem?
— Claro, claro — eu disse rapidamente. Ele não pareceu completamente convencido.
— Charlie está ficando desconfiado — eu reclamei pra Jacob quando o apanhei na escola na sexta.
— Talvez devêssemos tirar uma folga nas motos. — Ele viu minha expressão de objeção e adicionou — Pelo menos por um semana ou algo assim. Você pode ficar fora do hospital por uma semana, certo?
— O que nós vamos fazer? — eu pressionei.
Ele sorriu alegremente.
— O que você quiser.
Eu pensei nisso por um minuto - o que eu queria.
Eu odiei perder os poucos minutos de memória mais próximas que não me machucavam- aquelas que vinham por si próprias, sem que eu pensasse nelas conscientemente. Se eu não podia ter a moto, eu teria que encontrar outra forma de encontrar perigo e adrenalina, e isso requeria muito pensamento e criatividade. Não fazer nada no meio tempo não era apelativo. E se eu ficasse deprimida de novo, mesmo com Jake? Eu tinha que me manter ocupada.
Talvez houvesse outro jeito, outra receita... algum outro lugar.
A casa havia sido um erro, certamente. Mas a presença dele tinha que estar estampada em algum lugar, outro lugar além de dentro de mim. Tinham que haver lugares onde ele tinha que ser mais real entre os lugares familiares que estavam cheios de memórias humanas.
Eu podia pensar em um lugar que podia ser real. Um lugar que sempre pertenceu a ele e a mais ninguém. Um lugar mágico, cheio de luz. A linda clareira onde eu o havia visto apenas uma vez na vida, faiscando com o brilho do sol e o brilho da sua pele.
Essa ideia tinha um grande potencial para a contra partida - isso podia ser perigosamente doloroso.
O meu peito com o vazio só de pensar nisso. Era difícil de me segurar inteira, pra não me denunciar. Mas certamente, de todos os lugares, era lá que eu podia ouvir a voz dele. E eu já havia dito pra Charlie que estava caminhando...
— No que é que você está pensando tanto? — Jacob perguntou.
— Bem... — eu comecei lentamente. — Eu encontrei esse lugar na floresta uma vez - eu o encontrei quando estava, hmm, caminhando. Uma pequena clareira, o lugar mais lindo. Eu não sei se conseguiria encontrá-lo sozinha de novo. E definitivamente ia requerer algumas tentativas...
— Nós podíamos usar um compasso e um padrão de cruzamento — Jacob disse esperançoso pra ajudar. — Você sabe por onde começar?
— Sim, bem abaixo do trilha no fim da 110. Eu fui mais na direção do sul, eu acho.
— Legal. Nós achamos — Como sempre, Jacob estava fazendo qualquer coisa que eu quisesse. Não importava o quanto fosse estranho.
Então, sábado à tarde, eu coloquei as minhas novas botas de caminhada - adquiridas com o meu desconto de vinte por cento do funcionário pela primeira vez - peguei meu novo mapa topográfico da Península Olímpica, e dirigi para La Push.
Nós não começamos imediatamente; primeiro, Jacob se inclinou na mesa da sala de estar- que tomava a sala inteira - e, por uns bons vinte minutos, ele desenhou uma complicada teia numa seção do mapa enquanto eu me sentava numa cadeira da cozinha e conversava com Billy. Billy não parecia nem um pouco preocupado com a nossa caminhada.
Eu fiquei surpresa por Jacob ter dito pra onde estávamos indo, já que as pessoas andavam tão preocupadas com os ataques dos ursos. Eu queria pedir a Billy pra não contar nada pra Charlie, mas eu temi que o meu pedido causasse o efeito oposto.
— Talvez a gente veja o super urso — Jacob brincou, com os olhos no seu desenho.
Eu olhei pra Billy rapidamente, temendo que ele reagisse à moda de Charlie.
Mas Billy só sorriu pra filho.
— Talvez vocês devessem levar um pote de mel, só na dúvida.
Jake gargalhou.
— Eu espero que suas botas sejam rápidas, Bella. Um pequeno pote não vai manter o urso ocupado por muito tempo.
— Eu só tenho que ser mais rápida que você.
— Boa sorte com isso! — Jacob disse, revirando os olhos enquanto redobrava o mapa. — Vamos lá.
— Divirtam-se — Billy rosnou, se levando na cadeira de rodas até a geladeira.
Charlie não era uma pessoa difícil de se conviver, mas parecia que para Jacob era ainda mais fácil.
Eu dirigi até o fim da estrada de poeira, parando perto da placa que indicava o início da trilha. Fazia muito tempo que eu não vinha aqui, e o meu estômago reagiu nervosamente. Isso devia ser uma coisa muito ruim. Mas tudo valeria a pena, se eu pudesse ouvir ele.
Eu saí e olhei para a densa parede verde.
— Eu fui por aqui — eu murmurei, apontando diretamente pra frente.
— Hmm — Jake murmurou.
— O que foi?
Ele olhou para a direção que eu havia apontado, então para a trilha demarcada, e depois de volta.
— Eu devia ter te imaginado você como uma garota de trilhas.
— Eu não — eu sorri vazia. — Eu sou uma rebelde.
Ele sorriu, e então ele tirou o nosso mapa do bolso.
— Me dê um segundo — Ele segurou o compasso de uma forma habilidosa, girando o mapa até que ficasse no ângulo que ele queria.
— Ok - primeira linha no cruzamento. Vamos lá.
Eu podia reparar que estava atrapalhando Jacob, mas ele não reclamou. Eu tentei não pensar na minha última viagem por essa parte da floresta que eu fiz, com uma companhia muito diferente.
Memórias normais ainda eram perigosas. Se eu me deixasse deslizar nelas, eu acabaria com os braços abraçando meu peito pra me segurar junta, lutando por ar, e como era que eu ia explicar isso pra Jacob?
Não foi tão difícil me manter focada no presente quanto eu pensei.
A floresta se parecia muito com qualquer outra parte da floresta de península, e Jacob a enchia com outro humor.
Ele assobiava alegremente, num tom desconhecido, balançando os braços e se movendo com facilidade no chão duro. As sombras não pareciam tão escuras como sempre. Não com o meu sol particular do meu lado.
Jacob conferia a cada minuto, nos mantendo numa linha reta com uma das linhas que radiavam no cruzamento. Ele parecia saber o que estava fazendo. Eu ia cumprimentá-lo, mas me segurei. Sem dúvida ele ia querer adicionar mais alguns anos á sua já inflada.
Minha mente vagava enquanto eu andava, e eu fiquei curiosa.
Eu não tinha esquecido a conversa que tínhamos tido nos penhascos -
eu estive esperando que ele falasse nisso de novo, mas não parecia que isso ia acontecer.
— Ei... Jake? —,eu perguntei hesitante.
— Sim?
— Como estão as coisas... com Embry? Ele já voltou ao normal?
Jacob ficou em silêncio por um instante, ainda seguindo em frente com longos passos. Quando ele já estava uns dez passos á frente, ele parou pra esperar por mim.
— Não. Ele não está de volta ao normal — Jacob disse quando eu me aproximei dele, a boca dele esta com os cantos inclinados pra baixo.
Ele não começou a andar de novo.
Eu imediatamente me arrependi por ter tocado no assunto.
— Ele ainda está com Sam.
— É.
Ele colocou o braço ao redor do meu ombro, e parecia tão preocupado que eu não tirei o braço de brincadeira, como teria feito em outra situação.
— Eles ainda estão te olhando engraçado? — eu meio suspirei.
Jacob olhou para as árvores.
— Às vezes.
— E Billy?
— Ajudando tanto quanto sempre — ele disse com uma voz azeda, raivosa, que me perturbou.
— Nosso sofá está sempre vago — eu ofereci.
Ele sorriu, quebrando a neblina incomum.
— Mas pense em que lado Charlie vai ficar, quando Billy ligar para a polícia pra denunciar o meu sequestro.
Eu sorri também, feliz por Jacob ter voltado ao normal.
Nós paramos quando Jacob disse que havíamos andado seis milhas, andando para o oeste por um curto tempo, então nós seguimos por outro lado do seu cruzamento.
Tudo parecia ser exatamente igual, e eu comecei a sentir que o meu pedido havia sido muito bobo. Eu comecei a admitir isso quando começou a escurecer, e o dia pouco ensolarado começou a se transformar numa noite pouco estrelada, mas Jacob estava mais confiante.
— Contanto que você tenha certeza de que estamos indo para o lugar certo...— ele olhou pra baixo pra mim.
— Sim, eu tenho certeza.
— Então nós vamos encontrar — ele prometeu, agarrando minha mão e me puxando entre as grossas samambaias. Do outro lado estava a caminhonete. Ele fez um gesto na direção dela. — Confie em mim.
— Você é bom — eu admiti. — Mas da próxima vez nós vamos trazer lanternas.
— A partir de agora nós vamos deixar as caminhadas para os Domingos. Eu não sabia que você era tão lenta.
Eu puxei minha mão de volta e me empurrei para o lado do motorista enquanto ele gargalhava com a minha reação.
— Então você está disposta a dar outra tentativa amanhã? — ele perguntou escorregando para o banco do passageiro.
— Claro. A não ser que você queira vir sozinho pra que eu não te atrapalhe com a minha lentidão.
— Eu vou sobreviver — ele me assegurou. — Se nós vamos caminhar de novo, é melhor você vir com outros sapatos. Eu aposto que você está sentindo essas botas agora.
— Um pouco — eu confessei. Eu sentia que tinha mais dedos do que espaço pra comportá-los.
— E espero que possamos ver o urso amanhã. Eu to meio desapontado com isso.
— É, eu também — concordei sarcasticamente
— Talvez a gente tenha sorte amanhã e alguma coisa coma a gente.
— Ursos não querem comer gente. O nosso gosto não é tão bom — Ele riu pra mim na cabine escura. — É claro que você pode ser uma exceção. Eu aposto que o seu gosto é bom.
— Muito obrigada — eu disse, desviando o olhar. Ele não era a primeira pessoa a me dizer isso.

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