24 de setembro de 2015

Capítulo 7 - Repetição

Eu não tinha certeza do que diabos eu estava fazendo aqui. Será que eu estava tentando me jogar de volta naquele torpor de zumbi? Eu virei masoquista - desenvolvi um gosto pela tortura? Eu devia ter ido direto pra La Push onde eu me sentia muito, muito mais saudável perto de Jacob. Essa não era uma coisa saudável a fazer.
Mas eu continuei a dirigir lentamente pela rua coberta de vegetação, virando entre as árvores que se contorciam por cima de mim como um túnel verde, vivo. Minhas mãos estavam tremendo, então eu apertei elas no volante.
Eu sabia que parte pra eu estar fazendo isso era o pesadelo, agora que eu estava realmente acordada, o nada do sonho roia meus nervos, como um cão roendo um osso.
Havia uma coisa pra procurar. Inacessível e impossível, sem se importar e distraído... mas ele estava lá, em algum lugar. Eu tinha que acreditar nisso.
A outra parte era a estranha sensação de repetição que eu senti no meu dia na escola hoje, a coincidência da data. O sentimento de que eu estava recomeçando - talvez do jeito como o meu dia primeiro teria sido se eu realmente fosse a pessoa mais incomum na cafeteria naquela tarde.
As palavras corriam na minha cabeça, sem som, como se eu estivesse lendo elas ao invés de ouvi-las.
Será como se eu nunca tivesse existido.
Eu estava mentindo pra mim mesma quando dividi o meu motivo pra vir aqui em duas partes. Eu não queria admitir a minha motivação mais forte. Porque eu estava mentalmente deteriorada.
A verdade é que eu queria ouvir a voz dele de novo, como ouvi na minha estranha ilusão na Sexta. Por um breve momento, quando a voz dele veio de outra parte consciente da minha memória, quando a voz dele era perfeita e suave como o mel e não pálida como as outras memórias que eu costumava reproduzir, eu fui capaz de lembrar sem sentir dor.
Não durou muito; a dor me encontrou, assim como eu tinha certeza que faria com esse meu passeio bobo. Mas aqueles momentos preciosos quando eu pude ouvir a voz dele de novo eram um chamariz irresistível.
Eu tinha que encontrar um meio de repetir a experiência... ou talvez a melhor palavra fosse episódio.
Eu estava esperando que déjà vu fosse a chave. Então eu estava indo para a casa dele, um lugar onde eu não tinha ido desde a festa catastrófica do meu aniversário, há tantos meses atrás.
A grossa quase floresta crescia e passava pelas minhas janelas. A viagem continuou e continuou. Eu comecei a ir mais rápido, ficando nervosa. Por quanto tempo eu estive dirigindo? Eu já não devia ter chegado na casa? A rua estava tão coberta de vegetação que quase não me parecia familiar.
E se eu não conseguisse achar? Eu tremi. E se não houvesse provas tangíveis?
Então, lá estava a entrada entre as árvores que eu estava procurando, só que ela já não se pronunciava tanto como antes.
A flora aqui não demorava muito pra reclamar qualquer terreno que estivesse sem cuidados. As altas samambaias haviam infestado a clareira que cercava a casa, se aglomerando nas árvores, mesmo na grande varanda.
Era como se a grama estivesse fluindo - na altura da cintura - com ondas verdes, flutuantes.
E havia uma casa lá, mas ela não era a mesma.
Apesar de nada ter mudado do lado de fora, o vazio gritava pelas janelas brancas. Era arrepiante. Pela primeira vez desde que eu vi a linda casa, ela me pareceu um local apropriado para vampiros.
Eu pisei no freio, desviando o olhar. Eu estava com medo de ir mais em frente.
Mas nada aconteceu. Nenhuma voz na minha cabeça.
Então eu deixei o motor ligado e pulei pra fora no mar de grama. Talvez, como na sexta, se eu caminhasse em frente...
Eu me aproximei da entrada estéril, vaga, lentamente, minha caminhonete tremendo num barulho reconfortante atrás de mim. Eu parei quando cheguei nas escadas da entrada, porque não havia nada aqui. Nenhum senso demorado de presença... da presença dele.
A casa estava solidamente ali, mas isso significava pouco. Essa concreta realidade não ia afastar o vazio dos meus sonhos.
Eu não cheguei mais perto. Eu não queria olhar pela janela.
Eu não tinha certeza do que seria mais difícil de ver. Se os quartos estivessem vazios, ecoando o vazio do chão até o teto, isso certamente ia doer. Como no enterro da minha avó, quando minha mãe insistiu que eu ficasse do lado de fora durante a cerimônia. Ela disse que eu não precisava ver vovó daquele jeito, me lembrar dela daquele jeito, era melhor quando ela estava viva.
Mas será que não seria pior se não houvessem mudanças? Se os sofás estivessem lá como da última vez que eu os havia visto, as pinturas nas paredes - pior ainda, o piano na baixa plataforma? Era melhor ver a casa desaparecendo por inteiro, do que ver que não havia nenhuma posição física que os ligava de qualquer forma. Que tudo havia permanecido, intocado e esquecido, pra trás deles.
Assim como eu.
Eu virei as costas para a brecha vazia, e me apressei para a minha caminhonete. Eu quase corri. Eu estava ansiosa pra ir embora, pra voltar para o meu mundo humano. Eu me sentia terrivelmente vazia, e eu queria ver Jacob. Talvez eu estivesse desenvolvendo uma outra espécie de doença, outro vício, como a entorpecência de antes.
Eu não me importava. Eu forcei minha caminhonete a ir o mais rápido que ela podia enquanto eu ia procurar a minha cura.
Jacob estava esperando por mim. Meu peito pareceu relaxar assim que eu vi ele, tornando mais fácil respirar.
— Ei, Bella — ele chamou.
Eu sorri aliviada.
— Oi, Jacob — Eu acenei pra Billy, que estava olhando pela janela.
— Vamos trabalhar — Jacob disse numa voz baixa mas ansiosa.
De alguma forma consegui sorrir.
— Você realmente não enjoou de mim ainda? — eu me perguntei. Ele deve ter começado a se perguntar o quanto eu estava desesperada por companhia.
Jacob guiou o caminho da sua casa até a garagem.
— Não. Ainda não.
— Por favor, me avise quando eu começar a enlouquecer os seus nervos. Eu não quero ser um incômodo.
— Ok — ele sorriu, um som gutural. — Mas eu não seguraria o fôlego pra isso.
Quando nós entramos na garagem, eu fiquei chocada de ver a moto vermelha de pé, parecendo mais um moto do que um monte de metal retorcido.
— Jake, você é incrível — eu asfixiei.
Ele sorriu de novo.
— Eu fico obcecado quando tenho um projeto. — Ele levantou os ombros. — Se eu tivesse cérebro, porém, eu ia arrasar as coisas um pouco.
— Porque?
Ele olhou pra baixo, pausando por tanto tempo que eu me perguntei se ele havia ouvido a minha pergunta. Finalmente, ele me perguntou.
— Bella, se eu te dissesse que não sabia concertar essas motos, o que você diria?
Eu também não respondi na hora, e ele olhou pra cima pra olhar a minha expressão.
— Eu diria... que pena, mas nós vamos arranjar alguma outra coisa pra fazer. Se nós estivéssemos realmente desesperados, nós podíamos fazer o dever de casa.
Jacob sorriu e os ombros dele relaxaram. Ele sentou perto da moto e pegou um trapo.
— Então você acha que ainda vai vir quando eu tiver acabado?
— Foi isso que você quis dizer? — eu balancei minha cabeça. — Eu acho que eu estou me aproveitando das suas habilidades de mecânico gratuitas. Mas enquanto você quiser que eu venha, eu venho.
— Esperando ver Quil de novo? — ele zombou.
— Você me pegou.
Ele gargalhou.
— Você realmente gosta de passar tempo comigo? — ele perguntou maravilhado.
— Muito, muito mesmo. E eu vou provar. Eu tenho que trabalhar amanhã, mas quarta nós vamos fazer alguma coisa que não envolva mecânica.
— Tipo o que?
— Eu não tenho ideia. Nós podemos ir para minha casa para que você não fique tentado pela sua obsessão. Você pode trazer o seu dever da escola - você deve estar ficando pra trás, porque eu sei que estou.
— Dever de casa pode ser uma boa ideia — ele fez uma cara, e eu me perguntei quanta coisa ele estava deixando de fazer pra ficar comigo.
— Sim — eu concordei. — Nós vamos ter que começar a sermos responsáveis ocasionalmente, se não Billy e Charlie não vão facilitar pra nós —Eu fiz um gesto indicando nós dois como uma só entidade.
Ele gostou disso - ele se iluminou.
— Dever de casa uma vez por semana? — ele propôs
— Talvez seja melhor duas — eu sugeri, pensando na pilha que eu tinha que fazer pra hoje.
Ele suspirou um suspiro pesado. Então ele se inclinou para a caixa de ferramentas pra pegar uma sacola de papel de supermercado. Ele puxou duas latas de refrigerante, abrindo uma e passando ela pra mim. Ele abriu a outra, e a segurou cerimonialmente.
— À responsabilidade — ele brindou. — Duas vezes por semana.
— E a cada dia irresponsável entre elas —  enfatizei.
Ele sorriu e tocou a lata dele na minha.
Eu cheguei em casa mais tarde do que esperava e descobri que Charlie preferiu pedir uma pizza do que me esperar. Ele não permitiu que eu me desculpasse.
— Eu não me importo — ele me garantiu. — De qualquer forma, você merecia uma folga da cozinha.
Eu sabia que ele só estava aliviado porque eu estava agindo como uma pessoa normal, e ele não queria afundar meu barco.
Eu chequei meu e-mail antes de começar a fazer o dever de casa, e havia um bem longo de Renée.
Ele tagarelava sobre cada detalhe do que eu tinha escrito para ela, então eu escrevi de volta outra exaustiva descrição do meu dia.
Tudo menos as motos. Mesmo a cabeça de vento de Renée ficaria preocupada com isso.
A escola na terça teve seus altos e baixos. Ângela e Mike realmente pareceram me receber de volta com os braços abertos - pra gentilmente esquecer sobre os meus meses de comportamento aberrante.
Jess estava mais resistente. Eu me perguntei se ela ia precisar de uma carta formal pedindo desculpas pelo episódio de Port Angeles.
Mike estava animado e falante no trabalho. Parecia que ele havia guardado um semestre inteiro de conversas, e de repente estava soltando tudo. Eu descobri que era capaz de rir e sorrir com ele, apesar de que não era tão sem esforço quanto com Jacob. Mas me pareceu inofensivo o suficiente, até a hora de ir embora.
Mike colocou a placa de fechado na janela enquanto eu dobrava meu uniforme e o colocava embaixo do balcão.
— Hoje foi divertido. — Mike disse feliz.
— É — eu concordei, apesar de que eu ia preferir ter passado essa tarde na garagem.
— É uma pena que você tenha que ter saído do filme mais cedo na semana passada.
Eu fiquei um pouco confusa com essa direção dos pensamentos. Eu levantei os ombros.
— Eu só uma chorona, eu acho.
— O que eu quero dizer é, você devia ir assistir um filme melhor, algum que você gostasse — ele explicou.
— Oh — eu murmurei, ainda confusa.
— Tipo talvez essa sexta. Comigo. Nós podemos ir assistir uma coisa que não seja assustadora.
Eu mordi meu lábio.
Eu não queria estragar as coisas com Mike, não quando ele era uma das únicas pessoas a me perdoar por ter sido louca. Mas isso, de novo, parecia familiar demais. Como se o ano passado nunca tivesse acontecido. Eu queria ter Jess como desculpa dessa vez.
— Tipo um encontro? — eu perguntei. Honestidade era provavelmente o melhor caminho nessa hora. Lidar com isso.
Ele processou o som da minha voz.
— Se você quiser. Mas não tem que ser desse jeito.
— Eu não tenho encontros — eu disse lentamente, me dando conta do quanto isso era verdade. Esse mundo todo agora parecia impossivelmente distante.
— Só como amigos? — ele sugeriu. Seus claros olhos azuis não estavam mais ansiosos. De qualquer forma, eu realmente esperava que ele estivesse falando sério quando disse que podíamos ser amigos.
— Isso seria divertido. Mas na verdade eu já tenho planos pra essa sexta, então talvez semana que vem?
— O que você vai fazer? — ele perguntou, menos casualmente do que eu achava que ele queria fazer parecer.
— Dever de casa. Eu tenho uma... sessão de estudos planejada com um amigo.
— Oh. Ok. Talvez semana que vem.
Ele me acompanhou até o meu carro, menos exuberante que antes. Isso me lembrava tão claramente os meus primeiros meses em Forks. O círculo havia se fechado, e agora tudo parecia um eco - um eco vazio, destituído do interesse que ele costumava ter.
Na noite seguinte, Charlie não pareceu nem um pouco surpreso de ver Jacob e eu espalhados na sala de estar com nossos livros espalhados ao nosso redor, então eu acho que ele e Billy estiveram fofocando pelas nossas costas.
— Ei, crianças — ele disse, seus olhos se esticando para a cozinha.
O cheiro da lasanha que eu passei a tarde fazendo - enquanto Jacob observava e ocasionalmente experimentava - se espalhava pela sala; eu estava sendo boazinha, tentando me redimir de toda a pizza.
Jacob ficou para o jantar, e levou um prato pra casa pra Billy. Ele invejosamente adicionou um ano na minha idade negociável por eu ser boa cozinheira.
Sexta foi a garagem, e sábado, depois do meu turno na Newton's, foi o dever de casa de novo. Charlie se sentia seguro o suficiente da minha sanidade pra ir pescar com Harry. Quando ele voltou, nós já havíamos terminado - e nos sentindo muito sensíveis e maduros por isso também - e estávamos assistindo Monster Garage no Discovery Channel.
— Eu provavelmente devia ir — Jacob suspirou. — Está mais tarde do que eu esperava.
— Ok, tá legal — eu rosnei. — Eu vou te levar pra casa.
Ele sorriu com a minha expressão de má vontade - isso pareceu agradá-lo.
— Amanhã, de volta ao trabalho — eu disse assim que estávamos seguros na minha caminhonete. — A que horas você quer que eu apareça?
Havia uma excitação inexplicada no sorriso de resposta dele.
 —Eu vou te ligar antes, tá legal?
— Claro — eu fiz uma careta pra mim mesma, imaginando o que estava acontecendo. O sorriso dele cresceu.
Eu limpei a casa na manhã seguinte - esperando Jacob ligar e tentando esquecer o pesadelo. O cenário havia mudado. Na última noite eu vaguei num mar de grama que se intercalava com enormes árvores de cicuta. Não havia nada mais lá, e eu estava perdida, e eu vagava á toa e sozinha, procurando por nada. Eu queria poder me chutar por aquela estúpida viagem na semana passada. Eu expulsei o sonho da minha mente consciente, esperando que ele ficasse preso em algum lugar e não escapasse de novo.
Charlie estava do lado de fora lavando a viatura, então quando o telefone tocou, eu larguei a escova do banheiro e corri lá pra baixo pra atender.
— Alô?— eu perguntei sem fôlego.
— Bella — Jacob disse com um estranho tom formal na voz.
— Oi, Jake!
— Eu acredito que... nós temos um encontro. — ele disse, seu tom estava cheio de implicações.
Eu levei um segundo pra entender.
— Elas estão prontas? Eu não acredito! — Que timing perfeito. Eu precisava de alguma coisa pra me distrair dos pesadelos e do vazio.
— É, elas estão correndo e tudo mais.
— Jacob, você é, sem dúvida, a pessoa mais talentosa e maravilhosa que eu conheço. Você ganhou dez anos por isso.
— Legal! Eu já sou de meia idade agora.
Eu sorrí.
— Eu estou indo aí!
Eu joguei os suplementos de limpeza embaixo da pia do banheiro e peguei meu casaco.
— Vai ver Jake — Charlie disse quando eu passei correndo por ele. Não era realmente uma pergunta.
— É — eu respondi enquanto pulava dentro da minha caminhonete.
— Eu vou estar na delegacia mais tarde — Charlie disse atrás de mim.
— Tá legal — eu gritei de volta, ligando a chave.
Charlie disse mais alguma coisa, mas eu não consegui ouvi-lo claramente por causa do ronco do motor. Pareceu com alguma coisa tipo: “Onde é o incêndio?”
Eu estacionei minha caminhonete do lado da casa dos Black, perto das árvores, pra facilitar quando tivéssemos que escapar com as motos. Quando eu saí, um flash de cor apareceu na frente dos meus olhos - duas motos brilhantes, uma vermelha, uma preta, estavam escondidas embaixo de uma árvore, invisível da casa. Jacob estava preparado.
Havia um pedaço de fita azul amarrado como um laço ao redor do guidão. Eu estava rindo disso quando Jacob saiu correndo da casa.
— Pronta? — ele perguntou numa voz baixa, os olhos dele estavam brilhantes.
Eu olhei por cima do ombro dele, e não havia sinal de Billy.
— É —eu disse, mas eu não me sentia mais tão excitada quanto antes; eu estava tentando me imaginar realmente em uma moto.
Jacob colocou as motos na traseira da caminhonete com facilidade, colocando-as cuidadosamente de lado pra que elas não aparecessem.
— Vamos lá — ele disse, a voz dele mais alta que o normal com a excitação. — Eu conheço o lugar perfeito - ninguém vai nos pegar lá.
Nós dirigimos para o sul da cidade. A estrada de terra passava por dentro e por fora da floresta - às vezes não havia nada além de árvores, e então haviam vistas de tirar o fôlego do oceano pacífico, alcançando o horizonte, cinza escuro por baixo das nuvens.
Nós estávamos acima da costa, no topo dos penhascos que cercavam a praia aqui, e a vista parecia durar pra sempre.
Eu estava dirigindo devagar, pra que assim eu pudesse olhar com segurança de vez em quando para o oceano, enquanto a estrada se aproximava dos penhascos do mar. Jacob estava falando em terminar as motos, mas as descrições dele estavam ficando técnicas, então eu não estava prestando um pingo de atenção.
Foi aí que eu vi quatro figuras na encosta de pedra, muito perto de precipício. Eu não podia dizer pela distância a idade deles, mas eu presumia que fossem todos homens. Apesar do frio que estava fazendo hoje, eles pareciam estar usando apenas shorts.
Enquanto eu observava a pessoa mais alta se aproximou do abismo. Eu diminui automaticamente, meu pé hesitante no pedal do freio.
E então ele se atirou do precipício.
— Não! — eu gritei, pisando com tudo no freio.
— Qual é o problema? — Jacob gritou de volta, alarmado.
— O cara - ele pulou do penhasco! Porque eles não o pararam? Nós temos que chamar uma ambulância! — Eu abri minha porta e comecei a sair do carro, e isso não fazia o mínimo sentido.
O jeito mais rápido de encontrar um telefone seria voltar dirigindo para a casa de Billy. Mas eu não conseguia acreditar no que eu havia acabado de ver. Talvez, subconscientemente, eu esperava que eu visse alguma coisa diferente sem o para-brisa no meu caminho.
Jacob sorriu, e eu me virei pra ele selvagem. Como era que ele podia ser tão cruel, tão sangue frio?
— Eles só estão praticando mergulho no penhasco, Bella. Recreação. La Push não tem um shopping, sabe — Ele estava zombando, mas havia uma estranha nota de irritação na voz dele.
— Mergulhando no penhasco? — eu repeti, confusa. Eu olhei sem acreditar enquanto uma segunda figura se aproximou da beira, pausou, e então muito graciosamente se atirou no espaço. Ele ficou caindo pelo que pareceu uma eternidade pra mim, finalmente caindo vagarosamente nas ondas cinza escuras abaixo.
— Uau. É tão alto. — Eu voltei pra meu banco, ainda olhando com os olhos esbugalhados para os outros dois restantes. — Devem ser mais de cem metros.
— Bem, é, a maioria de nós pula do mais baixo, aquela outra pedra ali junto no meio — ele apontou pela sua janela. O lugar que ele apontou parecia ser muito mais razoável. — Aqueles caras são insanos. Eles provavelmente querem mostrar o quanto são durões. Quer dizer, fala sério, hoje está congelando. Aquela água não pode estar boa. — Ele fez uma cara enfadada, como se aquela demonstração o ofendesse pessoalmente. Eu tinha pensado que Jacob era quase impossível de aborrecer.
— Você pula do penhasco? — eu prestei atenção no “nós”.
— Claro, claro — Ele levantou os ombros e riu. — É divertido. Um pouco assustador, por causa da adrenalina.
Eu olhei de volta para os penhascos, onde a terceira figura estava se aproximando da beira. Eu nunca tinha presenciado uma coisa tão descuidada em toda a minha vida. Meus olhos se arregalaram e eu sorri.
— Jake, você tem que me levar pra mergulhar do penhasco.
Ele fez uma careta pra mim, seu rosto desaprovando.
— Bella, você queria que eu chamasse uma ambulância pra Sam — ele me lembrou. Eu fiquei surpresa que ele soubesse dizer quem era dessa distância.
— Eu posso tentar. — eu insisti, começando a sair do carro de novo.
Jacob agarrou meu pulso.
— Hoje não, tá legal? Será que podemos pelo menos esperar um dia mais quente?
— Ok, tá certo — eu concordei. Com a porta aberta, a brisa glacial estava fazendo o meu braço se arrepiar. — Mas eu quero ir logo.
— Logo — Ele rolou os olhos. — Às vezes você é um pouco estranha, Bella. Você sabia disso?
Eu suspirei.
— Sim.
— E nós não vamos pular do topo.
Eu observei, fascinada, enquanto o terceiro garoto fazia uma corrida de preparação e se atirava no ar num espaço ainda mais vazio que os outros dois. Ele se torcia e rodopiava no espaço enquanto caia, como se ele estivesse pulando para quedas.
Ele estava absolutamente livre - sem pensar e incrivelmente irresponsável.
— Tá legal — eu concordei. — Pelo menos, não da primeira vez.
Agora Jacob suspirou.
— Nós vamos testar as motos ou não? — ele quis saber.
— Tá bom, tá bom — eu disse, tirando meus olhos da última pessoa que se preparava pra pular no penhasco. Eu recoloquei meu cinto de segurança e fechei a porta. O motor ainda estava ligado, roncando enquanto estava inativo. Nós continuamos na estrada de novo.
— Quem eram aqueles caras - os loucos? — eu imaginei.
Ele fez um som de novo no fundo da garganta.
— A gangue de La Push.
— Vocês têm uma gangue? — eu perguntei. Eu me dei conta de que parecia impressionada.
Ele riu uma vez com a minha reação.
— Não desse jeito. Eu juro, eles são como monitores de corredor que ficaram maus. Eles não começam brigas, eles mantêm a paz. —. Ele bufou. —Tem esse cara que vem de algum lugar em Makah, um cara grande também, com uma cara assustadora. Bem, as pessoas dizem que ele estava vendendo metanol para as crianças, e Sam Uley e seus discípulos o expulsaram daqui. Eles são cheios de nossa terra e orgulho da tribo... está ficando ridículo. A pior parte é que o conselho os leva a sério. Embry disse que na verdade, o conselho até se encontra com Sam. — Ele balançou a cabeça, o rosto cheio de ressentimento. —Embry também ouviu de Leah Clearwater que eles se chamam de 'protetores' ou alguma coisa assim.
As mãos de Jacob estavam curvados nos punhos, como se ele estivesse pronto pra bater em alguma coisa. Eu nunca tinha visto esse outro lado dele.
Eu fiquei surpresa ao ouvir o nome de Sam Uley.
Eu não queria que isso trouxesse de volta as imagens do meu pesadelo, então eu fiz uma rápida observação pra me distrair.
— Você não gosta muito deles.
— Dá pra notar? — ele perguntou sarcasticamente.
— Bom... não parece que eles estão fazendo nada de errado — Eu tentei amaciá-lo, pra deixá-lo alegre de novo. — Só um bando de chatos bonzinhos demais pra ser uma gangue.
— É. Chatos é uma boa palavra. Eles sempre estão se mostrando - como a coisa do penhasco. Eles agem como... como, eu não sei. Como caras durões. Eu estava numa loja com Embry e Quil uma vez, semestre passado e Sam veio até nós com os seus seguidores, Jared e Paul. Quil disse alguma coisa, você sabe que ele tem a boca grande, e isso tirou Paul do sério. Os olhos dele ficaram escuros, e ele meio que sorriu - não, ele mostrou os dentes, mas não sorriu - e era como se ele estivesse com tanta raiva que ele começou a tremer ou alguma coisa assim. Mas Sam colocou a mão no peito de Paul e balançou a cabeça. Paul olhou pra ele por um minuto e se acalmou.
Honestamente, era como se Sam estivesse controlando ele - como se Paul fosse esquartejar a gente se Sam não o tivesse parado—. Ele rugiu. —Como um faroeste ruim. Sabe, Sam é um cara bem grande, ele tem vinte. Mas Paul só tem dezesseis também, é mais baixo que eu e mais magro que Quil. Eu acho que qualquer um de nós podia ter lidado com ele—.
— Caras durões — eu concordei. Eu podia ver na minha cabeça como ele descrevia, e isso me lembrou de uma coisa... um trio de homens altos, escuros empá muito rígidos e muito próximos uns dos outros na sala de estar do meu pai. A imagem estava de lado, porque a minha cabeça estava deitada no sofá enquanto o Dr. Gerandy e Charlie se inclinavam sobre mim... Aquela seria a gangue de Sam?
Eu falei rapidamente de novo pra me distrair das memórias.
— Sam não é um pouco velho demais pra esse tipo de coisa?
— É. Ele tinha que ter ido para a faculdade, mas ele ficou. E ninguém implicou com ele também. O conselho inteiro criticou quando a minha irmã largou uma bolsa de parcial e se casou. Mas, oh não, Sam Uley não faz nada de errado.
O rosto dele possuía linhas não familiares de ultraje - ultraje eu outra coisa que eu não reconheci no começo.
— Isso parece realmente incômodo e... estranho. Mas eu não entendo porque você está levando isso pro lado pessoal — Eu dei uma olhada pro rosto dele, esperando não o ter ofendido. De repente ele estava calmo, olhando pra fora pela janela.
— Você perdeu a curva — ele disse numa voz uniforme.
Eu fiz uma curva U apertada, quase batendo numa árvore quando o círculo meio que tirou a minha caminhonete da estrada.
— Obrigada pela direção — eu murmurei enquanto comecei a subir na estrada.
— Desculpe, eu não estava prestando atenção.
Ficou silencioso por um breve minuto.
— Você pode parar em qualquer lugar por aqui — ele disse suavemente.
Eu encostei e desliguei o motor. Meus ouvidos tilintaram com o silêncio que se seguiu. Nós dois saímos, e Jacob foi pra trás para pegar as motos. Eu tentei ler a expressão dele. Algo o estava incomodando. Eu toquei um nervo.
Ele sorriu meio sem vontade enquanto empurrava a moto vermelha para o meu lado.
— Feliz aniversário atrasado. Você está pronta pra isso?
— Eu acho que sim — A moto de repente parecia intimidante, assustadora, enquanto eu me dava conta que em breve estaria guiando ela.
— Nós vamos devagar — ele prometeu. Eu cuidadosamente encostei a moto na lateral da caminhonete enquanto ele ia buscar a dele.
— Jake? — eu perguntei hesitante enquanto ele dava a volta pela caminhonete.
— Sim?
— O que é que tá te incomodando? Sobre o negócio de Sam, eu quero dizer? Há algo mais? — Eu observei o rosto dele. Ele fez uma careta, mas ele não parecia com raiva. Ele olhava para a poeira e chutava o pneu da frente da sua moto de novo e de novo, como se ele estivesse poupando tempo.
Ele suspirou.
— É só que... o jeito que eles me tratam. Isso me assusta.
As palavras começaram a sair apressadas agora.
— Sabe, o conselho deve ser feito por iguais, mas se houvesse um líder, ele seria meu pai. Eu nunca fui capaz de entender o jeito como as pessoas o tratam. Porque a opinião dele é a que mais conta. Tem alguma coisa a ver com o pai dele e com o pai do pai dele. Meu bisavô, Ephraim Black, foi meio que o último chefe que tivemos, e eles ainda escutam o Billy, talvez por causa disso.
— Mas eu sou como qualquer outra pessoa. Ninguém me tratava de um jeito especial... até agora.
Isso me pegou fora de guarda.
— Sam te trata de um jeito especial?
— É — ele concordou, olhando pra mim com olhos confusos. — Ele olha pra mim como se estivesse esperando alguma coisa... como se algum dia eu fosse me juntar à estúpida gangue dele algum dia. Ele presta mais atenção em mim do que nos outros caras. Eu odeio isso.
— Você não tem que se juntar a nada — minha voz estava enraivada. Isso realmente estava aborrecendo Jacob, e isso me enfurecia. Quem esses —protetores — pensavam que eram?
— É — o pé dele mantinha o ritmo contra o pneu.
— O que? — eu podia notar que tinha algo mais.
Ele fez uma carranca, as sobrancelhas dele se juntando de um jeito que parecia mais triste e preocupado do que com raiva. — É Embry. Ele tem me evitado ultimamente.
Os pensamentos não pareciam estar conectados, mas eu me perguntava se a culpa era minha por ele estar tendo problemas com os amigos.
— Você está andando demais comigo — eu o lembrei, me sentindo egoísta. Eu estava monopolizando ele.
— Não, não é isso. Não sou só eu - é Quil também, e todo mundo. Embry perdeu uma semana de aula, mas ele nunca estava em casa quando nós tentávamos vê-lo. E quando ele voltou, ele parecia... ele parecia maluco. Aterrorizado. Tanto Quil quanto eu tentamos fazê-lo contar o que estava acontecendo, mas ele não fala com nenhum de nós.
Eu olhei pra Jacob, mordendo meu lábio ansiosamente - ele estava realmente assustado. Mas ele não olhou pra mim.
Ele observava seu próprio pé chutando a borracha como se ele pertencesse a outra pessoa. O ritmo ficou mais rápido.
— Então essa semana, do nada, Embry começou a sair com Sam e o resto deles. Ele estava nos penhascos hoje — A voz dele estava baixa e tensa. Ele finalmente olhou pra mim. — Bella, eles o chateavam muito mais do que a mim. Ele não queria nada com eles. E agora Embry está com eles como se tivesse se juntado a um culto. E era assim com Paul. Exatamente igual. Ele não era nem um pouco amigo de Sam. Então ele parou de ir para a escola por algumas semanas, e, quando voltou, Sam de repente era dono dele. Eu não sei o que isso significa. Eu não consigo entender, mas eu sinto que devo, porque Embry é meu amigo e... Sam está me olhando estranho... e...— Ele parou.
— Você já falou com Billy sobre isso? — eu perguntei. O horror dele estava passando pra mim. Eu sentia os arrepios passando na minha nuca.
Agora havia raiva no rosto dele.
— Sim — ele bufou. — Isso foi de grande ajuda.
— O que foi que ele disse?
A expressão de Jacob era sarcástica, e quando ele falou, a voz dele imitava o tom profundo da voz do pai.
— “Não é nada com o que você precise se preocupar agora, Jacob. Em alguns anos, se você não... bem, eu vou explicar depois.” — E então a voz dele voltou ao normal. — O que é que eu devia entender com isso? Ele está tentando dizer que isso é coisa da estúpida puberdade, da idade? Isso é outra coisa. Algo errado.
Ele estava mordendo o lábio de baixo e apertando as mãos. Parecia que ele estava prestes a chorar.
Eu joguei meus braços ao redor dele instintivamente, os envolvendo na cintura dele e colocando meu rosto no seu peito. Ele era tão grande, que eu me senti como uma criança abraçando um adulto.
— Oh, Jake, vai ficar tudo bem! — eu prometi. — Se isso piorar você pode ir morar com Charlie e comigo. Não fique assustado, nós vamos pensar em alguma coisa!
Ele ficou congelado por um segundo, e então ele envolveu seus longos braços hesitantemente ao meu redor.
— Obrigado, Bella.
A voz dele estava mais rouca do que o normal.
Nós ficamos daquele jeito por um momento, e isso não me incomodou; na verdade, eu me sentia confortável com o contato. Isso não parecia nem um pouco com a última vez que eu havia sido abraçada por alguém. Isso era amizade. E Jacob era quentinho.
Era estranho pra mim, ficar perto assim - mais emocionalmente que fisicamente, apesar de o físico ser estranho pra mim também - de outro ser humano. Não era o meu estilo normal. Eu geralmente não me relacionava com as pessoas tão facilmente, num nível tão básico.
Não com seres humanos.
— Se é assim que você vai reagir, eu vou enlouquecer mais vezes — A voz de Jacob estava leve, normal de novo, e o sorriso dele estrondou nos meus ouvidos. Os dedos dele tocaram meus cabelos, leves e tentadores.
Bem, era amizade pra mim.
Eu me separei rapidamente, rindo com ele, mas determinada a colocar as coisas de volta em perspectiva rapidinho.
— É difícil de acreditar que eu sou dois anos mais velha que você — eu disse enfatizando as palavras mais velha. — Você faz eu me sentir uma anã — ficando perto dele eu realmente tinha que inclinar a cabeça pra olhar para o seu rosto.
— Você está esquecendo que eu estou na casa dos quarenta, é claro.
— Oh, é mesmo.
Ele deu um tapinha na minha cabeça.
— Você é como uma bonequinha — ele zombou. — Uma boneca de porcelana.
Eu revirei os olhos, dando outro passo pra trás.
— Não vamos começar com as piadas de Albinos.
— Sério, Bella, você tem certeza que não é uma? — Ele esticou seu braço cor de cobre perto do meu. A diferença não me favorecia.
— Eu nunca vi ninguém mais pálido que você... bem, exceto por — Ele parou, eu desviei o rosto, tentando não entender o que ele esteve prestes a dizer.
— Então vamos andar ou não?
— Vamos lá — eu concordei, mais entusiasmada do que estava a meio minuto atrás. A frase inacabada dele me lembrou porque eu estava aqui.

Um comentário:

  1. Pobre Jacob... Apesar de lindo não tem como competir com Edward Cullen...

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