28 de setembro de 2015

Capítulo 7 - Inesperado

A fila de preto avançava para mim através do manto de névoa. Eu podia ver escuros olhos rubi cintilando de desejo, desejando matar. Lábios repuxados por sobre os dentes afiados – alguns para rosnar, outros, para sorrir.
Ouvi a criança atrás de mim choramingar, mas não consegui me virar para olhá-la. Embora estivesse desesperada para ter certeza de que ela estava segura, não podia perder o foco naquele momento.
Eles se aproximavam como fantasmas, os mantos pretos ondulando de leve com o movimento. Vi as mãos se curvarem como garras cor de osso. Começaram a se separar, e vinham de todos os lados. Estávamos cercados. Íamos morrer.
E, então, como o clarão de um flash, a cena toda ficou diferente. Sem, no entanto, que nada mudasse – os Volturi ainda nos vigiavam, preparados para matar. Só o que mudou de fato foi minha percepção do que estava acontecendo. De repente, eu ansiava por aquilo. Eu queria que eles atacassem. O pânico deu lugar ao desejo de sangue, enquanto eu me agachava para a frente, um sorriso no rosto, e um rosnado escapou entre os meus dentes expostos.
Sentei-me de repente, escapando em choque do sonho. O quarto estava escuro. E também quente como uma sauna. O suor colava meu cabelo nas têmporas e escorria pelo pescoço.
Apalpei os lençóis quentes e os encontrei vazios.
— Edward?
Nesse momento, meus dedos encontraram alguma coisa lisa, plana e firme. Uma folha de papel, dobrada ao meio. Peguei o bilhete e tateei até encontrar o interruptor do quarto.
O bilhete estava endereçado na parte externa à Sra. Cullen.

Espero que não acorde e perceba minha ausência, mas, se acordar, voltarei logo. Fui caçar no continente.
Volte a dormir e estarei aí quando acordar novamente.
Eu amo você.

Suspirei. Estávamos ali havia duas semanas, então eu devia esperar que ele tivesse de partir, mas não tinha pensado quando. Parecíamos estar fora do tempo naquela ilha, à deriva, num estado de perfeição.
Enxuguei o suor da testa. Sentia-me absolutamente desperta, embora o relógio na cômoda mostrasse que passava da uma hora da manhã. Eu sabia que não conseguiria dormir com tanto calor e pegajosa como estava. Para não mencionar o fato de que, se eu apagasse a luz e fechasse os olhos, certamente veria aquelas figuras de preto à espreita em minha cabeça.
Levantei-me e vaguei sem rumo pela casa escura, acendendo as luzes – parecia muito grande e vazia sem Edward. Diferente.
Terminei na cozinha e concluí que talvez precisasse de uma comida caseira para me reconfortar.
Remexi na geladeira até encontrar todos os ingredientes para um frango frito. Os estalos e chiados na panela eram um som bom, agradável; eu me senti menos nervosa enquanto aquilo enchia o silêncio.
O cheiro estava tão bom que comecei a comer direto da panela, e queimei a língua. Na quinta ou sexta mordida, porém, tinha esfriado o suficiente para que eu saboreasse. Mastiguei mais devagar. Havia algo estranho no sabor? Verifiquei a carne, e estava completamente branca, mas me perguntei se estava bem cozida. Experimentei outro pedaço; mastiguei duas vezes.
Argh!
Sem dúvida estava ruim. Dei um salto para cuspir na pia. De repente, o cheiro de frango e óleo era repugnante. Peguei o prato e despejei aquilo no lixo, depois abri as janelas para me livrar do cheiro. Uma brisa fresca soprava. Dava uma sensação boa em minha pele.
De repente, eu me senti exausta, mas não queria voltar para o quarto quente. Então abri mais janelas na sala de tevê e me deitei no sofá embaixo delas. Botei o mesmo filme que tínhamos visto outro dia e rapidamente caí no sono com a música animada de abertura.
Quando abri os olhos de novo, o sol estava alto no céu, mas não foi a luz que me acordou. Braços frios me envolviam, puxando-me para si. Ao mesmo tempo, uma dor repentina retorcia meu estômago, quase como o choque depois de levar um soco na barriga.
— Desculpe — murmurava Edward enquanto passava a mão gélida por minha testa suada. — Tanto cuidado que tive! Não pensei em como você ficaria quente sem mim. Terei de instalar um ar-condicionado antes de sair de novo.
Eu não conseguia me concentrar no que ele dizia.
— Com licença! — arfei, lutando para me libertar de seus braços.
Ele me soltou automaticamente.
— Bella?
Disparei para o banheiro com a mão cobrindo a boca. Sentia-me tão mal que nem me importei – de início – que ele estivesse comigo enquanto eu me agachava diante da privada e vomitava violentamente.
— Bella? Qual é o problema?
Eu ainda não conseguia responder. Ele me segurava, ansioso, mantendo meu cabelo longe do rosto, esperando até que eu pudesse respirar de novo.
— Droga de frango estragado — gemi.
— Você está bem? — A voz dele era tensa.
— Estou — respondi, ofegante. — É só uma intoxicação alimentar. Você não precisa ver isso. Saia daqui.
— Nem pense nisso, Bella.
— Vá embora — tornei a gemer, lutando para me levantar e poder lavar a boca.
Ele me ajudou delicadamente, ignorando os fracos empurrões com que eu tentava afastá-lo.
Depois que minha boca estava limpa, ele me carregou para a cama e me sentou com cuidado, escorando-me com os braços.
— Intoxicação alimentar?
— É — resmunguei. — Fiz um frango ontem à noite. O gosto estava ruim, então o joguei fora. Mas antes havia comido uns pedaços.
Ele pôs a mão fria em minha testa. A sensação era boa.
— Como se sente agora?
Pensei por um momento. A náusea tinha passado com a mesma rapidez com que surgira e eu me sentia como em qualquer outra manhã.
— Bem normal. Na verdade, com um pouco de fome.
Ele me fez esperar uma hora e beber um grande copo de água antes de fritar uns ovos para mim. Eu me sentia perfeitamente normal, só um pouco cansada por ter ficado acordada no meio da noite. Ele ligou a tevê no noticiário – estávamos tão desligados do mundo que se a Terceira Guerra tivesse estourado não saberíamos – e eu deitei sonolenta em seu colo.
Fiquei entediada com o noticiário e me virei para beijá-lo. Como pela manhã, uma dor aguda atingiu meu estômago quando me mexi. Eu me afastei de repente dele, a mão apertada sobre a boca. Sabia que não conseguiria chegar ao banheiro, então corri para a pia da cozinha. Edward segurou meu cabelo de novo.
— Talvez devamos voltar ao Rio e procurar um médico — ele sugeriu, ansioso, enquanto eu lavava a boca depois de vomitar.
Sacudi a cabeça e fui para o corredor. Médicos significam agulhas.
— Vou ficar bem depois de escovar os dentes.
Quando minha boca estava com um gosto melhor, procurei em minha mala um kit de primeiros socorros que Alice preparara para mim, cheio de coisas humanas, como ataduras, analgésicos e – meu objetivo naquele momento – um antiácido. Talvez eu pudesse aquietar meu estômago e acalmar Edward.
Mas, antes que encontrasse o remédio, deparei com outra coisa que Alice empacotara para mim. Peguei a caixinha azul e a observei nas mãos por um longo tempo, esquecendo todo o resto.
Depois comecei a contar mentalmente. Uma. Duas vezes. De novo.
A batida me sobressaltou; a caixinha caiu na mala.
— Você está bem? — perguntou Edward através da porta. — Está enjoada de novo?
— Sim e não — eu disse, mas minha voz soou estrangulada.
— Bella? Posso entrar, por favor? — Agora ele estava preocupado.
— Tu... tudo bem.
Ele entrou e avaliou minha posição, sentada de pernas cruzadas no chão ao lado da mala, e minha expressão, vazia e fixa. Ele se sentou do meu lado, a mão indo imediatamente para minha testa.
— O que foi?
— Há quantos dias foi o casamento? — sussurrei.
— Dezessete — respondeu ele automaticamente. — Bella, o que foi?
Eu agora estava contando. Levantei um dedo, alertando-o para que esperasse, e murmurei os números comigo mesma. Eu me enganara em relação aos dias. Estávamos ali havia mais tempo do que eu pensava. Recomecei a contar.
— Bella! — ele sussurrou, insistindo. — Você está me deixando maluco.
Tentei engolir. Não funcionou. Então estendi a mão para a mala e vasculhei até encontrar de novo a caixinha azul de absorventes. Eu a ergui em silêncio.
Ele me fitou, confuso.
— O que é? Está achando que esse mal-estar é TPM?
— Não — consegui dizer, sufocada. — Não, Edward. Estou tentando dizer que minha menstruação está cinco dias atrasada.
Sua expressão não se alterou. Era como se eu não tivesse falado.
— Não acho que o que tenho seja intoxicação alimentar — acrescentei.
Ele não respondeu. Tinha se transformado numa escultura.
— Os sonhos — murmurei comigo mesma em uma voz monocórdia. - O sono excessivo. O choro. Toda essa comida. Ah! Ah! Ah!
O olhar de Edward parecia de vidro, como se ele não conseguisse mais me ver. Por reflexo, quase involuntariamente, minha mão baixou para minha barriga.
— Ah! — exclamei novamente.
Levantei-me, escapulindo das mãos imóveis de Edward. Eu não havia tirado o short de seda e a camisola que vestira para dormir. Puxei o tecido azul e olhei minha barriga.
— Impossível — sussurrei.
Eu não tinha absolutamente nenhuma experiência com gravidez, bebês nem qualquer outra coisa desse mundo, mas não era idiota. Vi muitos filmes e programas de tevê para saber que não era assim que funcionava. Só estava cinco dias atrasada. Se eu estivesse grávida, meu corpo ainda não teria registrado esse fato. Não teria enjoo matinal. Eu não teria mudado meus hábitos de sono e alimentação.
E eu, definitivamente, não teria um volume pequeno mas definido entre meus quadris.
Girei o tronco de um lado para o outro, examinando-o de cada ângulo, como se ele pudesse desaparecer na luz certa. Passei os dedos pela protuberância sutil, surpresa com a firmeza que sentia sob a pele.
— Impossível — repeti, porque, com ou sem volume na barriga, com ou sem menstruação (e não houve menstruação nenhuma, embora eu nunca tivesse atrasado um só dia na vida), não era possível eu estar grávida. A única pessoa com quem fiz sexo foi um vampiro, pelo amor de Deus!
Um vampiro que ainda estava paralisado no chão, sem dar sinais de que voltaria a se mexer. Então, devia haver outra explicação. Algum problema comigo. Uma estranha doença sul-americana com todos os sinais de gravidez, só que acelerados...
E nesse momento me lembrei de uma coisa – uma manhã que passei fazendo pesquisas na Internet e que pareceu ter acontecido uma vida atrás. Sentada na velha mesa de meu quarto na casa de Charlie, com a claridade cinzenta brilhando fosca pela janela, olhando para meu computador velho e cheio de chiados, lendo avidamente um site chamado “Vampiros de A-Z”. Menos de vinte quatro horas haviam se passado desde que Jacob Black, tentando me divertir com as lendas quileutes em que ele ainda não acreditava, me contara que Edward era um vampiro. Percorri ansiosa as primeiras entradas do site, dedicado a mitos de vampiros de todo o mundo. O Danag filipino, o Estrie hebraico, os Varacolaci romenos, os Stregoni benefici italianos (uma lenda na verdade baseada nas primeiras façanhas de meu novo sogro com os Volturi, mas na época eu não sabia de nada disso)...
À medida que as histórias iam se tornando mais implausíveis, eu prestava cada vez menos atenção. Elas pareciam, principalmente, justificativas imaginadas para explicar coisas como taxas de mortalidade infantil – e infidelidade. Não, querida, eu não estou tendo um caso! Essa mulher sensual que você viu entrando de mansinho na casa era um súcubo do mal. Tenho sorte por ter escapado com vida! (É claro que, com o que agora eu sabia sobre Tanya e suas irmãs, suspeitava de que algumas daquelas justificativas fossem nada mais do que a realidade.) Havia uma para as mulheres também. Como pode me acusar de trair você – só porque chegou em casa de uma viagem de dois anos no mar e me encontrou grávida? Foi um incubo. Ele me hipnotizou com seus poderes místicos de vampiro...
Essa tinha sido parte da definição de íncubo – a capacidade de gerar filhos com sua presa indefesa.
Sacudi a cabeça, confusa. Mas...
Pensei em Esme e especialmente em Rosalie. Os vampiros não podiam ter filhos. Se isso fosse possível, a essa altura Rosalie teria encontrado um jeito. O mito do incubo não passava de uma fábula.
A não ser que... Bom, havia uma diferença. É claro que Rosalie não podia conceber um filho porque ela estava paralisada no estado em que passara de humana para inumana. Totalmente imutável. E o corpo das mulheres humanas tinha de mudar para gerar filhos. Primeiro, a mudança constante de um ciclo menstrual e, depois, as grandes mudanças necessárias para acomodar uma criança em crescimento. O corpo de Rosalie não podia mudar.
Mas o meu podia. O meu mudava. Toquei o volume em minha barriga que não estava ali na véspera.
E os homens humanos – bom, eles permaneciam praticamente os mesmos da puberdade até a morte. Lembrei-me de uma informação banal, saída de Deus sabe onde: Charlie Chaplin estava com mais de 70 anos quando foi pai de seu filho caçula. Os homens não tinham coisas como anos férteis ciclos de fertilidade.
Evidentemente, como alguém saberia se um homem vampiro podia ser pai, se as parceiras deles não são capazes disso? Que vampiro na Terra teria o autocontrole necessário para testar a teoria com uma mulher humana? Ou a vontade?
Eu só conseguia pensar em um.
Parte de minha mente estava analisando informações, lembranças e especulações, enquanto outra – a parte que controlava a habilidade de mover até os menores músculos – estava estarrecida a ponto de não ser capaz de executar operações normais. Eu não conseguia mover os lábios para falar, embora quisesse pedir a Edward que explicasse, por favor, o que estava acontecendo. Eu precisava voltar ao lugar em que ele estava sentado, tocá-lo, mas meu corpo não obedecia às instruções. Eu só conseguia ver meus olhos chocados no espelho, meus dedos comprimindo com cuidado o volume em meu ventre.
E depois, como no vívido pesadelo que tivera na noite anterior, a cena de repente se transformou. Tudo o que vi no espelho parecia totalmente diferente, embora nada tivesse mudado de fato.
O que aconteceu para transformar tudo foi que um pequeno e suave toque atingiu minha mão – vindo de dentro do meu corpo.
No mesmo instante, o telefone de Edward tocou, estridente e exigente. Nenhum de nós se moveu. O aparelho tocava sem parar. Tentei me abstrair dele enquanto pressionava os dedos sobre a barriga, esperando. No espelho, minha expressão não era mais confusa – era agora maravilhada! Mal percebi quando as lágrimas estranhas e silenciosas começaram a descer por meu rosto.
O telefone ainda tocava. Eu queria que Edward atendesse – eu estava em um momento especial. Possivelmente, o maior de minha vida.
Trim! Trim! Triiim!
Por fim a irritação venceu todo o resto. Ajoelhei-me ao lado de Edward – vi-me agindo com mais cuidado, umas mil vezes mais consciente de cada movimento – e tateei seus bolsos até encontrar o telefone. De certa maneira, esperava que ele o pegasse para atender, mas ele continuou completamente imóvel.
Reconheci o número e pude adivinhar com facilidade por que ela estava ligando.
— Oi, Alice — eu disse. Minha voz não estava muito melhor do que antes. Pigarreei.
— Bella? Bella, você está bem?
— Estou. Hã. Carlisle está aí?
— Está. Qual é o problema?
— Eu não... tenho certeza... absoluta.
— Edward está bem? — perguntou ela, preocupada. Chamou Carlisle e indagou, antes que eu pudesse responder à primeira pergunta: — Por que ele não atendeu ao telefone?
— Não sei bem.
— Bella, o que está havendo? Eu acabo de ver...
— O que você viu?
Houve silêncio.
— Carlisle está aqui — disse ela por fim.
Senti como se água gelada tivesse sido injetada em minhas veias. Se Alice tivesse tido uma visão minha com uma criança de olhos verdes e cara de anjo nos braços, ela teria me respondido, não teria?
Enquanto eu esperava pela fração de segundo que Carlisle levou para falar, a visão que imaginei para Alice dançou atrás de minhas pálpebras. Um bebezinho lindo, ainda mais bonito do que o menino de meus sonhos – uma miniatura de Edward em meus braços. O calor voltou às minhas veias, afugentando o gelo.
— Bella, é Carlisle. O que está acontecendo?
— Eu... — Não sabia o que responder. Será que ele iria rir de minhas conclusões, dizer-me que eu estava louca? Que eu só estava tendo outro sonho? — Estou preocupada com Edward... Os vampiros podem entrar em estado de choque?
— Ele foi ferido? — A voz de Carlisle de repente era urgente.
— Não, não — eu o tranquilizei. — Só... pego de surpresa.
— Não estou entendendo, Bella.
— Eu acho... Bom, acho que... talvez... eu esteja... — respirei fundo. — Grávida.
Como se fosse para me reafirmar, houve outra cutucada muito sutil em meu abdome. Minha mão disparou para a barriga. Depois de uma longa pausa, a formação médica de Carlisle entrou em cena.
— Quando foi o primeiro dia de seu último ciclo menstrual?
— Dezesseis dias antes do casamento. — Eu já havia feito as contas mentalmente muitas vezes, e podia responder com certeza.
— Como está se sentindo?
— Estranha — disse a ele, e minha voz falhou. Outra lágrima escorreu por meu rosto. — Vai parecer loucura... Olhe, eu sei que é meio cedo para isso. Talvez eu esteja mesmo louca. Mas estou tendo sonhos estranhos, comendo o tempo todo, chorando, vomitando e... e... Eu juro que alguma coisa se mexeu dentro de mim agora mesmo.
A cabeça de Edward se ergueu repentinamente. Suspirei de alívio. Edward estendeu a mão para o telefone, o rosto lívido e rígido.
— Hã, acho que Edward quer falar com você.
— Coloque-o na linha — disse Carlisle com a voz tensa.
Sem ter certeza de que Edward pudesse falar, pus-lhe o telefone na mão estendida. Ele o comprimiu contra a orelha.
— Isso é possível? — sussurrou ele.
Então ouviu por um bom tempo, fitando o vazio.
— E Bella? — perguntou ele. Seu braço me envolveu enquanto ele falava, puxando-me para mais perto. Ele escutou durante o que pareceu um longo tempo e depois disse: — Sim. Sim, farei isso.
Edward afastou o fone da orelha e apertou o botão “end”. Imediatamente discou outro número.
— O que Carlisle disse? — perguntei, impaciente.
Edward respondeu numa voz sem vida.
— Ele acha que você está grávida.
As palavras provocaram um tremor quente por minha coluna. O pequeno cutucador se agitou dentro de mim.
— Para quem está ligando agora? — perguntei enquanto ele colocava o telefone na orelha outra vez.
— Para o aeroporto. Vamos para casa.


Edward ficou ao telefone por mais de uma hora, sem intervalo. Imaginei que estivesse fazendo os preparativos para nosso voo para casa, mas não podia ter certeza, porque ele não falava inglês. Parecia que estava discutindo; ele falava entredentes.
Enquanto argumentava, ele fazia as malas. Girava pelo quarto feito um tornado furioso, deixando ordem e não destruição pelo caminho. Atirou uma muda de minhas roupas na cama sem olhar para elas – então pressupus que era hora de me vestir. Ele continuou com sua discussão enquanto eu trocava de roupa, gesticulando com movimentos súbitos e agitados.
Quando não consegui mais suportar a energia violenta que irradiava dele, saí em silêncio do quarto. Sua concentração maníaca me deixava enjoada – não como o enjoo matinal, mas era desagradável. Ia esperar em outro lugar até que aquele estado de espírito dele passasse. Eu não podia falar com aquele Edward gélido e concentrado que, sinceramente, me apavorava um pouco.
Mais uma vez, terminei na cozinha. Havia um saco de biscoitos na bancada Comecei a comer distraidamente, pela janela olhando a areia, as pedras, as árvores e o mar, tudo brilhando ao sol.
Alguém me cutucou.
— Eu sei — eu disse. — Eu também não quero ir.
Olhei pela janela por um momento, mas o cutucador não respondeu.
— Não entendo — sussurrei. — O que há de errado aqui? Surpreendente, é claro... Assombroso até; mas, errado? Não.
Então, por que Edward estava tão furioso? Foi ele quem confessou que chegou a desejar um casamento forçado por uma gravidez. Tentei raciocinar.
Talvez não fosse tão estranho que Edward quisesse que fôssemos para casa agora. Ele queria que Carlisle me examinasse, para ter certeza de que minha suposição era correta – embora àquela altura não houvesse nenhuma dúvida em minha mente. Talvez eles quisessem descobrir por que eu já estava tão grávida, com o volume, os cutucões e tudo mais. Isso não era normal.
Após pensar no assunto, tive certeza. Ele devia estar muito preocupado com o bebê. Eu não tinha chegado ao pânico ainda. Meu cérebro trabalhava mais lentamente que o dele – ainda estava maravilhado com o quadro que conjurara antes: o bebezinho com os olhos de Edward, verdes como eram quando ele era humano, deitado, perfeito e lindo, em meus braços. Eu esperava que ele tivesse exatamente o rosto de Edward, sem nenhuma interferência minha.
Era estranho como essa visão havia se tornado tão repentina e inteiramente necessária. A partir daquele pequeno toque, o mundo inteiro mudou. Onde antes havia só uma coisa sem a qual eu não poderia viver, agora eram duas. Não havia divisão – meu amor não estava dividido entre eles; não era assim. Era mais como se meu coração tivesse crescido, inchado até duas vezes seu tamanho. Todo o espaço extra já preenchido. O aumento era quase vertiginoso.
Eu nunca entendera realmente a dor e o ressentimento de Rosalie. Nunca me imaginara mãe; jamais quisera isso. Tinha sido fácil prometer a Edward que eu não me importava de abrir mão de filhos por ele, porque eu verdadeiramente não ligava. As crianças, em teoria, nunca tiveram apelo para mim. Pareciam criaturas barulhentas, quase sempre soltando alguma forma de gosma. Nunca tive muita ligação com elas. Quando sonhava que Renée me daria um irmão, sempre imaginava um irmão mais velho, alguém para cuidar de mim, não o contrário.
Essa criança, o filho de Edward, era uma história totalmente diferente.
Eu o queria como queria o ar para respirar. Não era uma opção – era uma necessidade.
Talvez eu simplesmente tivesse pouca imaginação. Talvez, por isso, tivesse sido incapaz de imaginar como eu gostaria de estar casada até depois de estar de fato – incapaz de ver que queria um filho até que um estivesse a caminho...
Enquanto colocava a mão na barriga, esperando pelo próximo cutucão, as lágrimas se derramaram de novo por meu rosto.
— Bella?
Eu me virei, preocupada com o tom de voz dele. Era frio demais, cuidadoso demais. Seu rosto combinava com a voz, vazio e rígido. E, então, ele viu que eu estava chorando.
— Bella! — Ele atravessou o aposento num segundo e pôs as mãos em meu rosto. — Está sentindo dor?
— Não, não...
Ele me puxou para seu peito.
— Não tenha medo. Vamos estar em casa daqui a dezesseis horas. Você vai ficar bem. Carlisle estará preparado quando chegarmos lá. Vamos cuidar disso e você vai ficar bem, você vai ficar bem.
— Cuidar disso? O que quer dizer?
Ele se afastou e me olhou nos olhos.
— Vamos tirar essa coisa antes que possa ferir você. Não tenha medo. Eu não vou deixar que ele a machuque.
— Essa coisa? — repeti, ofegante.
Edward desviou os olhos rapidamente, fitando a porta da frente.
— Que droga! Esqueci que Gustavo vinha aqui hoje. Vou me livrar dele.
Ele saiu em disparada da cozinha. Agarrei a bancada para me apoiar. Meus joelhos tremiam. Edward tinha chamado meu pequeno cutucador de coisa. E disse que Carlisle iria se livrar dele.
— Não — sussurrei.
Eu havia entendido tudo errado. Ele não se importava com o bebê. Queria feri-lo. A linda imagem em minha mente mudou de repente, transformada em algo sombrio. Meu bebê lindo chorando, meus braços sem força não bastavam para protegê-lo...
O que eu podia fazer? Conseguiria argumentar com eles? E se não conseguisse? Isso explicaria o estranho silêncio de Alice ao telefone? Seria isso o que ela vira? Edward e Carlisle matando a criança pálida e perfeita antes que ela pudesse viver?
— Não — sussurrei novamente, minha voz mais forte. Aquilo não poderia acontecer. Eu não permitiria.
Ouvi Edward falando em português de novo. Discutindo novamente. Sua voz ficou mais próxima e o ouvi grunhir, exasperado. Depois ouvi outra voz, baixa e tímida. Uma voz de mulher.
Ele entrou na cozinha antes dela e veio direto até mim. Enxugou minhas lágrimas e murmurou em meu ouvido através dos lábios finos que formavam uma linha rígida.
— Ela insiste em deixar a comida que trouxe... Ela fez nosso jantar. — Se ele estivesse menos tenso, menos furioso, eu sabia que teria revirado os olhos. — É uma desculpa... Ela quer ter certeza de que eu ainda não matei você. — Sua voz ficou fria como gelo no fim.
Kaure, com um prato coberto nas mãos, contornou, nervosa, a bancada. Eu queria poder falar português, ou que meu espanhol não fosse tão rudimentar, para tentar agradecer àquela mulher que se atreveu a irritar um vampiro só para ver como eu estava.
Seus olhos moviam-se rapidamente entre nós dois. Eu a vi avaliando a cor de meu rosto, a umidade nos olhos. Murmurando algo que não entendi, ela pôs o prato na bancada.
Edward disse-lhe alguma coisa; nunca o vira ser tão grosseiro. Ela se virou para se retirar e o movimento de sua saia comprida lançou o cheiro da comida em meu rosto. Era forte – cebola e peixe. A ânsia de vômito me fez correr para a pia. Senti as mãos de Edward em minha testa e ouvi seu murmúrio tranquilizador em meio ao rugido em meus ouvidos. Suas mãos desapareceram por um segundo e ouvi a porta da geladeira bater. Misericordiosamente o cheiro desapareceu com o som, e as mãos de Edward estavam de novo frias em meu rosto pegajoso. Passou rapidamente.
Lavei a boca na torneira enquanto ele acariciava meu rosto. Houve um cutucão vacilante em meu útero.
Está tudo bem. Nós estamos bem, disse em pensamento para o volume. Edward me virou, puxando-me para seus braços. Pousei a cabeça em seu ombro. Minhas mãos, por instinto, cruzaram-se sobre minha barriga. Ouvi um pequeno arquejo e ergui o olhar.
A mulher ainda estava ali, hesitando na soleira da porta com as mãos meio estendidas, como se estivesse procurando um modo de ajudar. Seus olhos estavam fixos em minhas mãos, esbugalhados pelo choque. Sua boca pendia escancarada.
Então Edward também arfou e em seguida virou-se para encarar a mulher, empurrando-me um pouco para trás de seu corpo. Seu braço envolveu meu tronco, como se ele estivesse me abraçando de costas.
De repente, Kaure estava gritando com ele – alto e furiosamente, as palavras ininteligíveis voando pela cozinha como facas. Ela ergueu o punho minúsculo no ar e avançou dois passos, agitando-o para ele. Apesar de sua ferocidade, era fácil ver o terror em seus olhos.
Edward também avançou, e eu agarrei seu braço, temendo pela mulher. Quando ele a interrompeu, porém, sua voz me pegou de surpresa, especialmente considerando a aspereza que ele havia demonstrado quando ela não estava gritando com ele. Agora a voz era baixa; suplicante. Não só isso, mas o som era diferente, mais gutural, sem cadência. Não me pareceu que ele ainda estivesse falando português.
Por um momento a mulher o fitou, surpresa; depois seus olhos se estreitaram enquanto ela gritava uma longa pergunta na mesma língua estranha.
Vi o rosto dele ficar mais triste e sério, e ele assentiu. Ela recuou um passo e fez o sinal da cruz.
Ele estendeu a mão para ela, gesticulando em minha direção, e então pôs a mão em meu rosto. Ela respondeu com raiva novamente, agitando as mãos de modo acusador para Edward. Quando terminou, ele lhe suplicou novamente com a mesma voz baixa e urgente.
Sua expressão mudou – ela o fitava com dúvida enquanto ele falava, seus olhos repetidamente disparando para meu rosto confuso. Ele parou de falar e ela parecia estar pensando. Então, olhou de um lado para o outro, entre mim e ele, e, inconscientemente, ao que parecia, avançou um passo. Ela fez um movimento com as mãos, imitando a forma de um balão inchando em sua barriga. Eu me assustei – será que suas lendas de predadores que bebiam sangue incluíam isso? Seria possível que ela soubesse alguma coisa sobre o que crescia dentro de mim?
Dessa vez ela avançou alguns passos decididos e fez algumas perguntas curtas que ele respondeu tenso. Depois foi a vez de Edward fazer as perguntas – um interrogatório rápido. Ela hesitou e lentamente sacudiu a cabeça.
Quando ele falou de novo, sua voz tinha tanta agonia que eu o olhei, chocada. Seu rosto estava exaurido de dor.
Em resposta, ela se aproximou lentamente até estar perto o bastante para colocar a pequena mão em cima da minha, sobre meu ventre. Então falou uma palavra em português.
— Morte — suspirou.
Depois se virou, os ombros curvados como se a conversa a tivesse envelhecido, e saiu da cozinha.
Eu sabia espanhol o suficiente para entender essa palavra.
Edward estava paralisado de novo, vendo-a afastar-se com a expressão torturada fixa no rosto. Alguns segundos depois, ouvi o barulho de um motor de barco, que desapareceu na distância.
Edward só se mexeu quando fiz menção de ir para o banheiro. Depois sua mão pegou meu ombro.
— Aonde você vai? — A voz dele era um sussurro de dor.
— Escovar os dentes de novo.
— Não se preocupe com o que ela disse. São apenas lendas, mentiras antigas que só servem para distrair.
— Eu não entendi nada — disse a ele, embora não fosse inteiramente verdade.
Como se eu pudesse desprezar qualquer coisa por ser só uma lenda. Minha vida estava cercada de lendas, e todas eram verdadeiras.
— Guardei sua escova de dentes. Vou pegar para você.
Ele foi na minha frente até o quarto.
— Vamos embora logo? — perguntei atrás dele.
— Assim que você terminar.
Ele esperou para guardar novamente minha escova, andando em silêncio pelo quarto. Entreguei-a a ele quando terminei.
— Vou levar as malas para o barco.
— Edward...
Ele se virou.
— Sim?
Hesitei, tentando pensar numa maneira de ficar alguns segundos sozinha.
— Poderia... levar alguma comida? Sabe como é, para o caso de eu sentir fome novamente.
— Claro — disse ele, os olhos suavizando-se de repente. — Não se preocupe com nada. Vamos encontrar Carlisle daqui a algumas horas. Isso tudo vai acabar logo.
Sem confiar em minha voz, apenas acenei com a cabeça. Ele se virou e saiu do quarto, com uma mala grande em cada mão. Eu girei e peguei o telefone que ele deixara na bancada. Era muito atípico de Edward esquecer coisas – esquecer que Gustavo estaria chegando, deixar o telefone ali. Ele estava tão estressado que parecia fora de si.
Abri o aparelho e percorri os números da agenda. Fiquei feliz por ele ter desligado o som, com medo de que me pegasse. Será que agora ele estaria no barco? Ou já estaria de volta? Ele me ouviria da cozinha se eu sussurrasse?
Encontrei o número que queria, um número para o qual nunca ligara na vida. Apertei “send” e cruzei os dedos.
— Alô? — atendeu a voz de sinos de vento dourados.
— Rosalie? — sussurrei. — É Bella. Por favor. Você precisa me ajudar.

3 comentários:

  1. Ka eu n sei c ta certo mas depois desse capitulo aparece o prologo

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  2. N ta certo desconsidere pf

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    1. ehauheaueauehuh sem problemas, entendi o que você pensou :)

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