25 de setembro de 2015

Capítulo 7 - Final infeliz

Rosalie hesitou na porta, seu rosto arrebatador estava incerto.
—É claro— eu respondi, minha voz estava um oitavo mais alta com a surpresa. —Entre—.
Eu sentei, escorregando para o fim do sofá pra dar espaço. O meu estômago revirou nervosamente enquanto a única Cullen que não gostava de mim se moveu silenciosamente pra se sentar no espaço aberto. Eu tentei pensar numa razão pela qual ela ia querer me ver, mas a minha mente estava vazia até o momento.
—Você se importa de conversar comigo por alguns minutos?— ela perguntou. —Eu não te acordei nem nada, acordei?— Os olhos dela passaram da cama desforrada e de volta para o meu sofá.
—Não, eu estava acordada. Claro, nós podemos conversar— Eu me perguntei se ela podia ouvir o alarme na minha voz tão claramente quanto eu.
Ela sorriu levemente, e o som pareceu com sinos tocando. —Ele tão raramente te deixa sozinha—, ela disse. —Eu achei que seria melhor que eu tirasse o melhor dessa oportunidade—.
O que ela queria dizer que não podia ser dito na frente de Edward? As minhas mãos torceram e destorceram na ponta da colcha.
—Por favor não pense que eu estou interferindo horrivelmente—, Rosalie disse, a voz dela estava gentil e quase implorativa. Ela cruzou as mãos no colo e olhou pra elas enquanto falava. —Eu tenho certeza que já magoei os seus sentimentos o suficiente no passado, e eu não quero fazer isso de novo—.
—Não se preocupe com isso, Rosalie. Os meus sentimentos estão ótimos. O que é?—
Ela riu de novo, parecendo estranhamente envergonhada. —Eu vou tentar te dizer porque eu acho que você devia permanecer humana – porque eu permaneceria humana se eu fosse você—.
—Oh—.
Ela sorriu com o tom chocado da minha voz, e então suspirou.
—Edward te contou o que levou a isso?— ela perguntou, fazendo um gesto para o seu glorioso corpo imortal.
Eu balancei a cabeça lentamente, repentinamente sombria. —Ele disse que foi perto do que aconteceu comigo em Port Angeles, só não havia ninguém lá pra salvar você—.
Eu tremi com a memória.
—Isso é realmente tudo o que ele te contou?— ela perguntou.
—Sim—, eu disse, a minha voz estava pasma de confusão. —Havia mais?—
Ela olhou pra mim e sorriu; era uma expressão dura, ácida – mas ainda estonteante.
—Sim—,ela disse. —Havia mais—.
Eu esperei enquanto ela olhava pela janela. Ela parecia estar tentando se acalmar.
—Você gostaria de ouvir a minha história, Bella? Ela não tem um final feliz – mas qual das nossas tem? Se nós tivéssemos finais felizes, nós estaríamos embaixo de lápides agora—.
Eu balancei a cabeça, apesar de estar assustada com o tom na voz dela.
—Eu vivi em um mundo diferente de você, Bella. O meu mundo humano era um lugar muito mais simples. Era mil novecentos e trinta e três. Eu tinha dezoito, e era linda. A minha vida era perfeita—.
Ela olhou pelas janelas para as nuvens prateadas, a expressão dela estava distante.
—Os meus pais eram inteiramente classe média. O meu pai tinha um emprego estável num banco, algo de que agora eu percebo que ele era presumido – ele viu a sua prosperidade como uma recompensa pelo seu talento e trabalho duro, e não reconhecendo a sorte que envolvia isso. Nessa época eu achava que tudo estava garantido; na minha casa, era como se a Grande Depressão fosse apenas um rumor problemático. É claro que eu via as pessoas pobres, aquelas que não tinham tanta sorte. O meu pai me passou a impressão de que eles haviam trazido os problemas para si mesmos.
—Era trabalho da minha mãe manter a nossa casa – e eu mesma e os meus dois irmãos mais jovens – para mantê-la impecável. Era claro que eu era tanto a sua prioridade como também a sua favorita. Eu não entendia completamente na época, mas eu estava sempre vagamente consciente que os meus pais não estavam satisfeitos com os que eles tinham, mesmo que isso fosse tão mais do que a maioria tinha. Eles queriam mais. Eles tinham aspirações sociais – escalas sociais, eu acho que você chamaria. A minha beleza era como um presente pra eles. Eles viam muito mais potencial nela do que eu.
—Eles não estavam satisfeitos, mas eu estava. Eu estava muito feliz por ser eu, por ser Rosalie Hale. Agradada porque os olhos dos homens me observavam onde quer que eu fosse, desde o ano que eu fiz doze anos. Deliciada porque as minhas amigas suspiravam de inveja quando elas tocavam o meu cabelo. Feliz porque a minha mãe estava orgulhosa de mim e que o meu pai gostava de me comprar vestidos bonitos.
—Eu sabia o que eu queria da vida, não parecia que haveria uma forma de eu não conseguir o que eu queria. Eu queria ser amada, ser adorada. Eu queria ter um casamento enorme, todo florido, onde todos na cidade ia me observar entrar na igreja de braço dado com o meu pai e pensar que eu era a garota mais bonita que eles já tinham visto. Admiração era como ar pra mim, Bella. Eu era boba e superficial, mas eu era feliz.— Ela sorriu, divertida com sua própria avaliação.
—A influência dos meus pais tinha sido tanta que eu também queria coisas materiais da vida. Eu queria uma casa grande com móveis elegantes que outra pessoa limparia e uma cozinha moderna na qual outra pessoa cozinharia. Como eu disse, superficial. Jovem e muito superficial. E eu não via nenhuma razão pela qual eu não conseguiria essas coisas.
—Haviam algumas coisas que eu queria que eram mais significantes. Uma em particular. A minha amiga mais próxima era uma garota chamada Vera. Ela se casou jovem, apenas aos dezessete.
Ela se casou com um homem que os meus pais jamais considerariam pra mim – um carpinteiro. Um ano depois ela teve um filho, um lindo menino com covinhas nas bochechas e cabelos pretos encaracolados. Foi a primeira vez na minha vida inteira que eu senti inveja de outra pessoa.—
Ela olhou pra mim com olhos insondáveis. —Era uma época diferente. Eu estava com a mesma idade que você, mas eu já estava pronta pra tudo isso. Eu desejava ter o meu próprio bebê. Eu queria ter a minha própria casa e um marido que me beijasse quando chegasse do trabalho – como Vera. Só que eu tinha um tipo diferente de casa em mente...—
Era difícil pra mim imaginar o tipo de mundo que Rosalie havia conhecido. A história dela parecia mais como um conto de fadas pra mim. Com um pequeno choque, eu me dei conta de que esse estava muito aproximado do tipo de mundo que Edward havia experimentado quando ele era humano, o mundo no qual ele havia crescido. Eu imaginei – enquanto Rosalie sentou em silêncio por um momento – será que meu mundo parecia tão confuso pra ele como o que Rosalie parecia pra mim?
Rosalie suspirou, e quando ela falou de novo a voz dela estava diferente, a saudade tinha ido embora.
—Em Rochester, havia uma família real – Os King, ironicamente o suficiente. Royce King era dono do banco onde meu pai trabalhava, e de praticamente todos os negócios bem sucedidos da cidade. Foi assim que o filho dele, Royce King Segundo— – aboca dela torceu com o nome, e ele saiu por entre os dentes dela – —me viu pela primeira vez. Ela ia herdar o banco, e então ele começou a vigiar diferentes posições. Dois dias depois, a minha mãe convenientemente esqueceu de mandar o almoço do trabalho pro meu pai. Eu me lembro de ter ficado confusa quando ela insistiu que eu usasse o meu vestido branco de organza e prendesse o meu cabelo só pra ir até o banco— Rosalie sorriu sem humor.
—Eu não reparei em Royce me observando particularmente. Todos me observavam. Mas naquela noite, a primeira das rosas veio. Todas as noites da nossa corte, ele me mandava um buquê de rosas. O meu quarto estava sempre transbordando com elas. Eu cheguei ao ponto de ficar com cheiro de rosas quando saía de casa.
—Royce era bonito também. O cabelo dele era mais claro que o meu, e olhos azuis claros. Ele disse que os meus olhos eram como violetas, e aí elas começaram a aparecer junto às rosas.
—Os meus pais aprovaram – pra dizer o mínimo. Isso era tudo com o que eles haviam sonhado. E Royce era tudo com o que eu havia sonhado. O príncipe dos contos de fada, que veio me transformar em princesa. Tudo o que eu queria, e mesmo assim não era nada além do que eu esperava. Nós estávamos noivos dois meses depois que eu o conheci.
—Nós não passávamos muito tempo juntos. Royce me disse que ele tinha muitas responsabilidades no trabalho, e, que quando estávamos juntos, ele gostava que as pessoas olhassem pra nós, que me vissem nos braços dele. Eu gostava disso também. Haviam muitas festas, danças, e belos vestidos. Quando você eram um King, todas as portas estavam abertas pra você, todos os tapetes vermelhos rolavam pra te saudar.
—Não foi um noivado longo. Os planos foram em frente para o casamento mais pródigo. Ia ser tudo o que eu havia desejado. Eu estava completamente feliz. Quando eu ligava pra Vera, eu não estava mais com inveja. Eu imaginava as minhas próprias crianças cabeludas brincando nos enormes gramados da propriedade dos King, e eu senti pena dela—.
Rosalie parou de repente, apertando os dentes. Isso me tirou da história, e eu me dei conta de que o terror não estava muito longe. Não haveria um final feliz, como ela havia prometido. Eu me perguntei se era por isso que ela era tão mais amarga do que o resto deles – porque ela esteve ao alcance de tudo o que queria quando a vida dela foi interrompida.
—Eu estava na casa de Vera naquela noite—, Rosalie sussurrou. O rosto dela estava suave como mármore, e tão duro quanto. —O pequeno Henry era realmente adorável, todo sorrisos e covinhas – ele já estava se sentando sozinho. Vera me acompanhou até a porta quando eu estava indo embora, seu bebê nos braços e o marido a seu lado, o braço dele estava na cintura dela. Ele beijou ela na bochecha quando pensou que eu não estava vendo. Aquilo me incomodou. Quando Royce me beijava, não era a mesma coisa – de alguma forma, não era tão doce... Eu coloquei esse pensamento de lado. Royce era o meu príncipe. Alguma dia, eu seria rainha—.
Era difícil dizer na luz da lua, mas parecia que o seu rosto branco estava mais pálido.
—As ruas estavam escuras, as lâmpadas já estavam acesas. Eu não tinha me dado conta do quanto era tarde.— Ela continuou a sussurrar quase inaudivelmente. —Estava frio também. Frio demais pra um final de abril. O casamento seria em apenas uma semana, e eu estava preocupada com o clima enquanto me apressava pra ir pra casa – eu me lembro disso claramente. Eu me lembro de cada detalhe daquela noite. Eu me apeguei a isso com tanta força... no inicio. Eu não pensava em nada mais. E então eu me lembro disso, quando tantas outras memórias agradáveis haviam desaparecido completamente...—
Ela suspirou, e começou a sussurrar de novo. —Sim, eu estava me preocupando com o clima... eu não queria ter que passar o casamento pra um lugar fechado...
—Eu estava a algumas ruas da minha casa quando eu ouvi eles. Uma corja de homens embaixo de uma lâmpada quebrada na rua, rindo alto demais. Bêbados. Eu desejei ter ligado para o meu pai pra que ele me acompanhasse até em casa, mas o caminho era tão curto, e me pareceu bobagem. E então ele chamou o meu nome.
‘Rose!’ ele gritou, e os outros riram estupidamente.
—Eu não tinha percebido que os bêbados estavam tão bem vestidos. Eram Royce e alguns outros amigos, filhos de outros homens ricos.
‘Aqui está a minha Rose!’ Royce gritou, rindo com eles, soando igualmente estúpido. ‘Você está atrasada. Nós estamos com frio, por causa do tempo que você nos fez esperar’.
—Eu nunca havia visto ele bêbado antes. Um brinde, de vez em quando, nas festas. Ele me disse que não gostava de champagne. Eu não tinha me dado conta de que ele gostava de algo muito mais forte.
—Ele tinha um novo amigo – o amigo de um amigo, vindo de Atlanta.
—O que eu te disse, John— Royce gritou alegremente, agarrando o meu braço e me puxando pra perto. ‘Ela não é mais adorável do que os seus pêssegos de Geórgia?’
—O homem chamado John tinha cabelos escuros e era bronzeado do sol. Ele me olhou como se eu fosse um cavalo que ele estivesse comprando.
‘É difícil dizer’ ele disse lentamente. ‘Ela está toda coberta’.
—Eles riram, Royce riu como o resto.—
—De repente, Royce arrancou o casaco dos meus ombros – foi um presente dele – arrancando fora os botões. Eles saíram de espalhando pela rua.
‘Mostre a ele como você é, Rose!’ Ele riu de novo, e então ele arrancou o meu chapéu da minha cabeça. Os broches estavam presos nas raízes dos meus cabelos, e eu chorei de dor. Eles pareceram gostar disso – do som da minha dor...—
Rosalie olhou para mim de repente, como se ela tivesse esquecido que eu estava lá. Eu estava certa que o meu rosto estava tão branco quanto o dela. A não ser que ele estivesse verde.
—Eu não vou te fazer ouvir o resto—, ela disse baixinho. —Eles me deixaram na rua, ainda rindo enquanto eles iam embora tropeçando. Eles pensaram que eu estivesse morta. Eles estavam zombando de Royce dizendo que ele teria que arrumar uma nova noiva. Ele riu e disse que antes ele teria que aprender a ter paciência.
—Eu esperei pra morrer na rua. Estava frio, apesar de eu estar sentindo tanta dor que eu me surpreendi por isso estar me incomodando. Começou a nevar, e eu me perguntei porque eu não estava morrendo. Eu estava impaciente para a morte chegar, e acabar com a dor. Estava demorando tanto...
—Aí Carlisle me achou. Ele sentiu o cheiro do sangue, e veio investigar. Eu me lembro de ficar vagamente irritada enquanto ele trabalhava em mim, tentando salvar a minha vida. Eu nunca gostei do Dr. Cullen ou de sua esposa e o irmão dela – como Edward fingia ser na época. Eu ficava aborrecida por eles serem mais bonitos do que eu era, especialmente os homens. Mas eles não se misturavam com a sociedade, então eu só os tinha visto uma ou duas vezes.
—Eu pensei que tinha morrido quando ele me tirou do chão e começou a correr comigo – por causa da velocidade – eu senti como se estivesse voando. Eu me lembro de ter ficado horrorizada quando a dor não parou...
—Então eu estava nunca sala clara, e estava quente. Eu estava ficando inconsciente, e eu fiquei grata pois a dor estava começando a diminuir. Mas de repente alguma coisa afiada estava me cortando, minha garganta, meus pulsos, meus tornozelos. Eu gritei com o choque, pensando que ele havia me trazido pra me machucar mais. Então o fogo começou a me queimar, e eu não me importei com mais nada. Eu implorei que ele me matasse. Quando Esme e Edward voltaram pra casa, eu implorei que eles me matassem também. Carlisle se sentou comigo. Ele segurou a minha mão e disse que sentia muito, prometendo que aquilo acabaria.
Ele me disse tudo, e as vezes eu escutava. Ele me disse o que ele era, e o que eu estava me tornando. Eu não acreditei nele. Ele pedia perdão toda vez que eu gritava.
—Edward não ficou feliz. Eu lembro de ouvi-los discutindo sobre mim. Eu parava de gritar as vezes. Gritar não adiantava de nada.—
‘No que você estava pensando, Carlisle?’ Edward disse. ‘Rosalie Hale?’ Rosalie imitou o tom de Edward com perfeição. —Eu não gostava do jeito como ele dizia o meu nome, como se houvesse alguma coisa errada comigo.—
‘ Eu não podia simplesmente deixá-la morrer’ Carlisle disse baixinho. ‘Foi demais – horrível demais, muito desperdício.’
‘ Eu sei’, Edward disse, eu pensei que ele parecia estar desinteressado. Isso me irritou. Nessa época eu não sabia que ele podia ver exatamente o que Carlisle havia visto.
‘Era desperdício demais. Eu não podia abandoná-la’ Carlisle repetiu em um sussurro.
‘É claro que você não podia’, Esme concordou.
‘Pessoas morrem o tempo todo’ Edward lembrou ele com uma voz dura. ‘No entanto, você não acha que ela é um pouco reconhecível demais? Os King vão fazer uma enorme procura – não que alguém suspeite daquele demônio’, ele rugiu.
—Eu fiquei satisfeita por eles parecerem saber que Royce era o culpado.
—Eu não me dei conta de que já estava quase acabado – que estava ficando mais forte e que eu era capaz de me concentrar no que eles estavam dizendo. A dor estava começando a desaparecer das pontas dos meus dedos.
’O que nós vamos fazer com ela?’ Edward disse, enojado – ou pelo menos, foi assim que soou pra mim.—
—Carlisle suspirou. ‘Isso depende dela, é claro. Ela pode querer seguir seu próprio caminho’.
—Eu acreditei o suficiente nele para as suas palavras me deixarem aterrorizada. Eu sabia que a minha vida estava acabada, e que não havia volta pra mim. Eu não conseguia suportar a ideia de ficar sozinha...
—A dor finalmente passou e eles me explicaram de novo o que eu era. Dessa vez eu acreditei. Eu senti a sede, a dureza da minha pele; eu vi meus olhos vermelhos brilhantes.—
—Superficial como eu era, eu me senti melhor quando vi minha reflexão no espelho pela primeira vez. Apesar dos olhos, eu era a coisa mais bonita que eu já havia visto— Ela riu de si mesma por um momento. —Levou algum tempo até que eu começasse a culpar a beleza pelo que havia me acontecido – pra que eu pudesse ver a maldição por trás dela. Eu desejei ser... bem, não feia, mas normal. Como Vera. Assim eu teria sido capaz de casa com alguém que me amasse, e ter belos bebês. Era isso que eu realmente queria, o tempo inteiro. Isso ainda não parece ser demais pra pedir.—
Ela ficou pensativa por um momento, e eu me perguntei se ela havia esquecido a minha presença de novo. Mas então, ela sorriu pra mim, a expressão dela repentinamente triunfante.
—Sabe, o meu histórico é quase tão limpo quanto o de Carlisle—, ela me disse. —Melhor que Esme. Mil vezes melhor que Edward. Eu nunca experimentei sangue humano—, ela anunciou orgulhosamente.
Ela entendeu a minha expressão confusa enquanto eu me perguntava porque o histórico dela era quase tão limpo.
—Eu matei cinco humanos—, ela me disse com um tom complacente. —Se é que você pode chamá-los de humanos. mas eu tive bastante cuidado pra não derramar o sangue deles – eu sabia que não seria capaz de resistir a isso, e eu não queria nenhuma parte deles em mim, sabe.
—Eu deixei Royce por último. Eu esperei que ele tivesse ouvido as mortes dos seus amigos e compreendesse, soubesse o que estava pra acontecer com ele. Eu esperava que o medo fosse tornar o fim pior pra ele. E eu acho que funcionou. Ele estava se escondendo num quarto sem janelas atrás de uma porta tão grossa quanto a de um cofre de banco, protegida por fora por homens armados, quando eu o peguei. Oops – sete assassinatos—, ela se corrigiu. —Eu esqueci dos guardas dele. Eles só levaram um segundo—.
—Eu fui extremamente teatral. Foi meio infantil, na verdade. Eu estava usando um vestido de noiva que eu havia roubado para a ocasião. Ele gritou quando me viu. Ele gritou bastante aquela noite. Deixar ele por último foi uma boa ideia – isso facilitou o meu auto-controle, me ajudou a fazê-lo mais devagar –—
Ela parou de repente, e olhou pra mim. —Me desculpe—, ela disse com uma voz pesarosa. —Eu estou te assustando, não estou?—
—Eu estou bem—, eu menti.
—Eu me deixei levar—.
—Não se preocupe com isso—.
—Eu estou surpresa por Edward não ter te contado mais sobre isso—.
—Ele não gosta muito de contar as histórias dos outros – ele se sente como se estivesse traindo confidências, já que ele ouve tantas coisas sobre você que ele não deveria ter ouvido—.
Ela sorriu e balançou a cabeça. —Eu provavelmente devo dar mais crédito a ele. Ele realmente é muito decente, não é?—
—Eu acho que sim—.
—Dá pra notar—. Então ela suspirou. —Eu também não fui justa com você, Bella. Ele te disse porque? Ou isso era confidencial demais?—
—Ele disse que era porque eu era humana. Ele disse que era mais difícil pra você ter alguém de fora que você não conhecia—.
A risada musical de Rosalie me interrompeu. —Agora eu realmente me sinto culpada. Ele foi muito, muito mais bonzinho comigo do que eu merecia—, ela pareceu mais cálida enquanto sorria, como se ela tivesse baixado uma guarda que nunca esteve ausente na minha presença. —Que mentiroso aquele garoto é—. Ela riu de novo.
—Ele estava mentindo?— eu perguntei, repentinamente cautelosa.
—Bom, provavelmente essa palavra seja forte demais. Ele só não te contou a história inteira. O que ele te contou era verdade, ainda mais verdadeira agora do que era antes. No entanto, naquela época...— Ela se deteve, gargalhando nervosamente. —Isso é vergonhoso. Veja, no início, eu estava em grande parte, mais enciumada porque ele queria você e não eu—.
As palavras dela mandaram uma onda de medo por mim. Sentada lá, na luz prateada, ela era mais bonita do que qualquer coisa que eu pudesse imaginar. Eu não podia competir com Rosalie.
—Mas você ama Emmett...— eu murmurei.
Ela balançou a cabeça pra frente e pra trás, divertida. —Eu não quero Edward desse jeito, Bella. Eu nunca quis – eu amo ele como irmão, mas ele me irritou desde o primeiro momento que eu o ouvi falando. Você tem que entender, porém... eu estava acostumada às pessoas querendo a mim. E Edward não estava nem um pouco interessado. Isso me frustrou, e até me ofendeu no início. Mas ele nunca quis ninguém, então isso não me incomodou por muito tempo. Mesmo quando Edward encontrou o clã de Tanya pela primeira vez em Denali – todas aquelas fêmeas! – Edward nunca demonstrou nem a mínima preferência. E aí ele conheceu você—. Ela me olhou com olhos confusos. Eu só estava prestando atenção pela metade. Eu estava pensando em Edward e Tanya e todas aquelas fêmeas, e os meus lábios se pressionaram em uma linha dura.
—Não que você não seja bonita, Bella—, ela disse, se enganando com a minha expressão. —Mas é só que isso significava que ele tinha te achado mais atraente do que eu. Eu sou vaidosa o suficiente pra me importar—.
—Mas você disse ‘no início’. Isso não te incomoda... ainda, incomoda? Quer dizer, nós duas sabemos que você é a pessoa mais bonita no planeta—.
Eu ri por ter que dizer as palavras – isso era tão óbvio. Que estranho que Rosalie precisasse ter desse tipo de segurança.
Rosalie riu também. —Obrigada, Bella. E não, isso realmente não me incomoda mais. Edward sempre foi um pouco estranho—. Ela riu de novo.
—Mas você ainda não gosta de mim—, eu sussurrei.
O sorriso dela desapareceu. —Eu lamento por isso—.
Nós sentamos em silêncio por algum tempo, e ela não parecia inclinada a continuar.
—Você pode me dizer porque? Eu fiz alguma coisa...?— Será que ela estava zangada por eu ter colocado a família dela – o Emmett dela – em perigo? De novo e de novo. James, e agora Victoria...
—Não, você não fez nada—, ela murmurou. —Ainda não—.
Eu olhei pra ela, perplexa.
—Você não vê, Bella?— A voz dela estava repentinamente mais apaixonada do que antes, mesmo quando ela me contou a sua história infeliz. —Você já tem tudo. Você tem uma vida inteira à sua frente – tudo o que você quer. E você simplesmente vai jogar tudo fora. Será que você não vê que eu trocaria tudo o que eu tenho pra ser você? Você tem a escolha que eu não tive, e você está fazendo a escolha errada!—.
Eu enrijeci por causa da expressão penetrante dela. Eu me dei conta de que a minha boca estava aberta e eu a fechei.
Ela me encarou por um longo momento, e lentamente, o fervor nos olhos dela diminuiu. De repente, ela estava envergonhada.
—E eu tinha tanta certeza de que poderia fazer isso com calma—, ela balançou a cabeça, parecendo confusa com a fluência das emoções. —É só que é mais difícil agora do que era antes, quando isso não passava de vaidade—.
Ela encarou a lua silenciosamente. Levaram alguns minutos até que eu fosse corajosa o suficiente pra quebrar o devaneio dela.
—Você ia gostar mais de mim se eu continuasse humana?—
Ela se virou pra mim, os lábios dela estavam tremendo com a sombra de um sorriso. —Talvez—.
—No entanto, você conseguiu o seu final feliz—, eu lembrei ela. —Você tem Emmett—.
—Eu tenho a metade—. Ela riu. —Você sabe que fui quem eu salvei Emmett do urso que estava atacando ele, e o carreguei até Carlisle. Mas será que você pode adivinhar porque eu não permiti que o urso comesse ele?—
Eu balancei minha cabeça.
—Com os cachos escuros... as covinhas que apareciam mesmo quando ele estava fazendo caretas de dor... a estranha inocência que parecia tão incomum no rosto de um homem adulto... ele me lembrou do pequeno Henry de Vera. Eu não queria que ele morresse – tanto que, mesmo odiando essa vida, eu fui egoísta o suficiente pra pedir que Carlisle transformasse ele.
—Eu tive mais sorte do que merecia. Emmett é tudo o que eu pediria se eu conhecesse a mim mesma bem o suficiente pra saber o que pedir. Ele é exatamente o tipo de pessoa que alguém como eu precisa. E, estranhamente o suficiente, ele precisa de mim também. Essa parte funcionou melhor do que eu podia ter esperado. Mas nunca haverá mais do que apenas nós dois. Eu nunca vou me sentar em uma varanda em algum lugar, com ele grisalho ao meu lado, cercados pelos nossos netos.—
O sorriso dela era gentil agora. —Isso soa um tanto bizarro pra você, não é? De algumas maneiras, você é muito mais madura do que eu era aos dezoito anos. Você é jovem demais pra saber o que você vai querer daqui a dez anos, quinze anos – e jovem demais pra desistir de tudo sem pensar. Você não vai querer se apressar sobre coisas permanentes, Bella—, ela deu um tapinha na minha mão, mas o gesto não pareceu condescendente.
Eu suspirei.
—Só pense nisso um pouco. Uma vez que isso esteja feito, não pode ser desfeito. Esme nos tem como substitutos... e Alice não lembra nada do que é ser humana, então ela não pode sentir falta disso... você, porém, irá se lembrar. É muita coisa pra abrir mão—.
Mas muito mais coisas pra receber, eu não disse isso em voz alta. —Obrigada, Rosalie. É bom entender... te conhecer melhor—.
—Eu peço perdão por ser uma monstra—. Ela sorriu. —Eu vou tentar me comportar de agora em diante—.
Eu sorri de volta pra ela.
Nós não éramos amigas ainda, mas eu tinha certeza de que ela já não me odiava tanto.
—Eu vou te deixar dormir agora—. Os olhos de Rosalie passaram para a cama, e os lábios dela se torceram. —Eu sei que você está frustrada por ele ter te trancado assim, mas não o castigue muito quando ele voltar. Ele te ama mais do que você imagina. Ele fica aterrorizado por ficar longe de você—. Ela se levantou silenciosamente e deslizou até a porta. —Boa noite, Bella—, ela sussurrou enquanto fechava a porta atrás de si mesma.
—Boa noite, Rosalie—, eu disse um segundo tarde demais.
Eu levei um longo tempo pra dormir depois disso.
Quando eu dormi, eu tive um pesadelo. Eu estava me arrastando no escuro, as pedras frias de uma ruas desconhecida, embaixo da neve que caia levemente, deixando uma trilha de sangue atrás de mim. Um anjo sombrio em um longo vestido branco observou o meu progresso com olhos ressentidos.
Na manhã seguinte, Alice me levou para a escola enquanto eu olhava inexpressivamente pelo pára-brisa. Eu estava sentindo a falta de sono, e isso deixou a minha irritação por ser prisioneira ainda mais forte.
—Hoje à noite nós vamos à Olympia ou alguma coisa assim—, ela prometeu. —Isso seria divertido, não é?—
—Porque você simplesmente não me tranca no porão?—, eu sugeri —e esquece a cota de açúcar?—
Alice fez uma careta. —Ele vai pegar o Porsche de volta. Eu não estou fazendo um trabalho muito bom. Era pra você estar se divertindo—.
—Não é sua culpa—, eu murmurei. Eu não conseguia acreditar que realmente estava me sentindo culpada. —Eu te vejo no almoço—.
Eu fui para a aula de Inglês. Sem Edward, o dia dava garantias de ser insuportável. Eu fiquei amuada durante a minha primeira aula, bem consciente de que a minha atitude não estava ajudando em nada.
Quando o sino tocou, eu me levantei sem muito entusiasmo. Mike estava lá na porta, segurando ela aberta pra mim.
—Edward está caminhando esse fim de semana?— ele perguntou socialmente enquanto caminhávamos para a leve chuva.
—É—.
—Você quer fazer alguma coisa essa noite?—
Como é que ele ainda podia ter tantas esperanças?
—Não posso. Eu vou a uma festa do pijama—, eu rosnei. Ele me deu uma olhada estranha enquanto processava o meu humor.
—Com quem você –—
A pergunta de Mike foi cortada quando um ronco alto de um motor emergiu atrás de nós no estacionamento. Todo mundo na calçada se virou pra olhar, encarando sem acreditar, a moto preta que parou bruscamente na beira do concreto, com o motor ainda roncando.
Jacob acenou pra mim urgentemente.
—Corra, Bella!— ele gritou por cima do ronco do motor.
Eu fiquei congelada por um segundo antes de entender.
Eu olhei pra Mike rapidamente. Eu sabia que só tinha alguns segundos.
Até onde Alice iria pra me restringir em público?
—Eu fiquei doente e fui pra casa, tudo bem?— eu disse para Mike, a minha voz cheia com excitação repentina.
—Ta bom—, ele murmurou.
Eu dei um beijo rápido na bochecha de Mike. —Obrigada, Mike. Eu te devo uma!—, eu falei enquanto saía correndo.
Jacob acelerou o motor, sorrindo. Eu pulei atrás do seu banco, passando os meus braços com força na cintura dele.
Eu vi Alice, congelada perto do refeitório, os olhos dela brilhando de fúria, os lábios dela curvados em cima dos dentes.
Eu lancei um olhar de piedade pra ela.
Então estávamos correndo na rua com tanta velocidade que o meu estômago se perdeu em algum lugar atrás de mim.
—Se segure—, Jacob gritou.
Eu escondi meu rosto nas costas dele enquanto ele aumentava a velocidade na pista. Eu sabia que ele diminuiria quando atingisse a fronteira dos Quileute. Eu só tinha que me segurar até lá. Eu rezei silenciosamente e ferventemente pra que Alice não nos seguisse, e que Charlie não me visse...
Foi óbvio quando nós chegamos à zona segura. A moto diminuiu de velocidade, e Jacob se endireitou e rosnou de rir. Eu abri os meus olhos.
—Nós conseguimos!— ele gritou. —Nada mal pra uma fuga da prisão, não é?—
—Boa ideia, Jake—.
—Eu me lembrei do que você disse sobre a sanguessuga vidente não ser capaz de prever o que eu vou fazer. Eu estou feliz que você não tenha pensado nisso – ela não teria deixado você ir para a escola—.
—Foi por isso que eu não levei isso em consideração—.
Ele sorriu triunfantemente. —O que você quer fazer hoje?—
—Qualquer coisa!— eu ri de volta. Era ótimo me sentir livre.

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