23 de setembro de 2015

Capítulo 6 - Histórias assustadoras

Eu sentei no meu quarto, tentando me concentrar no terceiro capítulo de MacBeth, estava tentando ouvir quando meu carro chegasse. Pensei que mesmo com a chuva torrencial, eu poderia ouvir o ronco do motor. Mas quando eu dei uma olhadinha pela cortina, de novo, ele estava lá.
Eu não estava muito ansiosa pela sexta-feira, e as minhas expectativas foram mais que atendidas. É claro que houve alguns comentários. Especialmente Jéssica que parecia já estar totalmente atualizada com a história. Por sorte, Mike ficou calado e ninguém soube do envolvimento de Edward na história. Jéssica, no entanto, tinha algumas perguntas pra fazer na hora do almoço.
— Então, o que Edward Cullen queria ontem na hora do almoço? — Jéssica perguntou na aula de Trigonometria.
— Eu não sei. — Eu disse sinceramente. — Ele não chegou ao ponto.
— Você parecia um pouco aborrecida. — Ela pescou.
— Eu? — Minha expressão não dizia nada.
— Sabe, eu nunca tinha o visto sentar com ninguém além da sua família antes. Aquilo foi estranho.
— Estranho. — Eu concordei.
Ela pareceu nervosa, ela balançava seus cachos pretos impacientemente, eu imaginei que ela estava esperando por uma boa fofoca pra passar por aí.
A pior parte da sexta-feira foi que, apesar de saber que ele não estaria lá, eu ainda esperava que ele estivesse. Quando eu entrei na cafeteria com Jéssica e Mike, eu não consegui deixar de olhar para a mesa dele, onde Rosalie, Alice e, Jasper estavam conversando, com as cabeças próximas umas das outras. Eu não consegui evitar a escuridão que me envolveu quando eu me dei conta de que não sabia quando voltaria a vê-lo.
Na minha mesa de sempre, todos estavam cheios de planos para o dia seguinte. Mike estava animado de novo, depositando muita confiança no homem do tempo que havia prometido sol amanhã. Eu acho que já ouvi isso antes. Hoje estava mais morno, quase 15 graus. Talvez a excursão não fosse um desastre total.
Eu interceptei algumas olhadas pouco amigáveis de Lauren no almoço, e eu não entendi até que todos nós fomos andando juntos para a sala.
Eu estava bem atrás dela, a um passo do seu cabelo liso, louro cinzento, e ela estava claramente inconsciente disso.
— Não sei por que a Bella — ela pronunciou meu nome com desprezo — simplesmente não se senta com os Cullen de agora em diante.
Eu a ouvi cochichando com Mike. Nunca havia percebido que voz chata e nasal, ela tinha, e eu estava surpresa com a malícia que havia nela. Eu nem sequer conhecia ela direito, certamente não bem o suficiente pra ela não gostar de mim, pelo menos eu achava.
— Ela é minha amiga, se senta conosco. — Mike disse lealmente, mas também demarcando um pouco de território.
Eu parei pra deixar Jess e Ângela me passarem. Eu não queria ouvir mais nada.
Naquela noite no jantar, Charlie pareceu entusiasmado com a minha viagem á La Push na manhã seguinte. Eu acho que ele se sentia culpado por me deixar sozinha nos fins de semana, mas ele passou anos demais construindo os seus hábitos pra quebrá-los agora. É claro que ele já sabia o nome de todas as pessoas que iam, e os dos pais deles, e os dos avós deles também, provavelmente. Ele parecia aprovar. Eu me perguntei se ele aprovaria o meu plano de ir á Seattle com Edward Cullen. Não que eu fosse dizer isso pra ele.
— Pai, você conhece algum lugar chamado Great Rocks ou alguma coisa assim? Eu acho que é a sul da montanha Rainier. — Eu perguntei casualmente.
— Sim, por quê?
Eu levantei os ombros.
— Alguns garotos estão falando de ir acampar lá.
— Não é um lugar muito bom pra acampar. — Ele pareceu surpreso. — Ursos demais. Algumas pessoas vão lá na temporada de caça.
— Oh, — eu murmurei — talvez eu tenha ouvido o nome errado.
Eu tentei dormir, mas uma estranha claridade amarela me acordou. Eu abri os meus olhos pra ver uma clara luz amarela entrando pela minha janela. Eu não podia acreditar. Eu corri para a janela pra me certificar, e lá estava ele, o sol.
Ele estava mal posicionado no céu, baixo demais, e não demonstrava estar tão próximo quanto deveria, mas definitivamente era o sol. As nuvens inundavam o horizonte, mas uma grande mancha azul estava visível bem no meio. Eu fiquei grudada na janela o máximo de tempo que pude, com medo de que se eu fosse embora o azul desaparecesse.
A Loja de Equipamentos Atléticos dos Newton era á Norte da cidade. Eu já havia visto a loja, mas nunca havia parado lá antes, eu nunca precisei dos suplementos requeridos pra ficar muito tempo fora de casa. No estacionamento, eu reconheci o Suburban de Mike e o Sentra de Tyler. Enquanto eu estacionava próximo ao carro deles, eu vi o grupo em pé na frente do Suburban. Eric estava lá, junto de outros garotos que tinham aula comigo, tinha quase certeza que eles se chamavam Ben e Conner. Jess estava lá, acompanhada de Ângela e Lauren. Três outras garotas estavam com elas, incluindo uma garota que eu derrubei na aula de Educação física. Essa garota me deu uma olhada feia e cochichou alguma coisa para Lauren. Lauren balançou seu cabelo louro e me deu uma olhada de nojo.
         Ia ser um dia daqueles.
Pelo menos Mike estava feliz em me ver.
— Você veio! — Ele disse encantado. — E eu disse que ia fazer sol, não disse?
— Eu disse que viria. — Eu lembrei a ele.
— Só estamos esperando Lee e Samantha... A não ser que você tenha convidado mais alguém. — Ele disse.
— Não. — Eu disse levemente, rezando pra não ser pega na mentira. Mas ao mesmo tempo, esperando que um milagre acontecesse, e Edward aparecesse.
Mike pareceu satisfeito.
— Você vai no meu carro? É isso ou a minivan da mãe do Lee.
— Claro.
Ele sorriu cheio de alegria. Deixar Mike feliz é tão fácil.
— Você pode ir na janela. — Ele prometeu. Eu escondi a minha tristeza.
Não era tão fácil deixar Mike e Jéssica felizes ao mesmo tempo. Eu podia ver Jéssica nos observando agora.
Apesar disso, os números estavam ao meu favor. Lee trouxe mais duas pessoas, e de repente, todos os lugares foram ocupados.
Eu consegui enfiar Jéssica entre Mike e eu no banco da frente do Suburban. Mike podia ter sido mais educado em relação a isso, mas pelo menos Jéssica pareceu satisfeita.
Eram só vinte e cinco quilômetros de Forks à La Push, com suas lindas, florestas verdes e densas na beira da maioria das estradas no caminho ao grande Rio Quillayute. Eu estava feliz por ter ficado com o assento da janela.
Tínhamos baixado as janelas, o Suburban ficou um pouco claustrofóbico com nove pessoas dentro dele, e eu tentei absorver todos os raios de sol que pude.
Eu já tinha ido às praias de La Push durante os meus verões em Forks com Charlie, então os primeiros quilômetros de praia eram familiares pra mim. Ainda era de tirar o fôlego. A água era de um cinza-escuro, mesmo no sol, e haviam encostas de pedra, de um cinza pesado. As ilhas apareciam nas águas do porto rodeadas por recifes de corais, alcançando ápices desiguais, e coroadas com coqueiros que flutuavam com a brisa. A praia propriamente dita, só tinha uma fina faixa de areia perto da água, atrás das águas apareciam milhares de pedras grandes e com aparência suave que pareciam uniformemente cinza de longe, mas olhando de perto elas eram de todas as cores que uma pedra poderia ser: terracota, verde-mar, lavanda, azul cinzento, dourado-areia.
A pequena encosta estava lotada com grandes árvores, descoloridas numa cor branca de osso, por causa das ondas do mar, algumas muito próximas umas das outras contra os limites da floresta, outras sozinhas, fora do alcance das ondas.
Havia um vento fresco vindo das ondas, fresco e revigorante. Pelicanos flutuavam sobre as ondas enquanto gaivotas e uma águia solitária voavam acima deles. As nuvens ainda circulavam o céu, ameaçando invadir a qualquer momento, mas por enquanto, o sol brilhava bravamente no céu azul.
Nós descemos para a praia, Mike nos guiando para um círculo feito com troncos de árvores que obviamente já havia sido usado para festas como a nossa antes. Já havia uma fogueira preparada, cheia de cinzas pretas.
Eric e o garoto que eu achava que se chamava Ben começaram a recolher galhos dos salgueiros mais secos perto da floresta, e logo eles haviam construído uma cabaninha com galhos no topo da velha fogueira.
— Você já viu uma fogueira de madeira de praia? — Mike me perguntou. Eu estava sentada num dos troncos descoloridos, as outras garotas reunidas, fofocando excitadamente, nos meus dois lados. Mike ficou de joelhos perto da fogueira, acendendo um dos galhos com um isqueiro.
— Não. — Eu respondi enquanto ele colocava o galho de volta na fogueira.
— Então você vai gostar disso aqui, observe as cores. — Ele acendeu outro galho e colocou junto com o primeiro. As chamas começaram a avançar rapidamente nos galhos secos.
— É azul. — Disse surpresa.
— É por causa do sal. Bonito, não é? — Ele acendeu mais um pedaço e colocou onde as chamas ainda não haviam alcançado, e veio sentar ao meu lado. Felizmente, Jess estava no outro lado dele. Ela virou e começou a reclamar sua atenção. Eu observei as estranhas chamas azuis e verdes crescerem em direção ao céu.
Depois de meia hora de bate-papo, alguns garotos quiseram ir caminhar perto das piscinas naturais. Era um dilema. Por um lado, eu amava as piscinas naturais. Elas haviam me fascinado quando eu era criança, eram uma das poucas coisas que me faziam querer voltar à Forks. Por outro lado, eu tinha caído muito nelas. Nada demais quando se tem sete anos e se está com o seu pai. Isso me lembrou do pedido de Edward – de que não caísse no mar.
Foi Lauren que decidiu por mim. Ela não quis ir, e ela definitivamente estava usando os sapatos errados pra esse tipo de coisa. A maioria das garotas além de Jéssica e Ângela também quiseram ficar. Eu esperei até Tyler dizer que ficaria com elas antes de me juntar silenciosamente ao grupo pró-caminhada. Mike me deu um sorriso gigantesco quando viu que eu estava vindo.
A caminhada não foi muito longa, apesar de eu ter odiado não poder ver o céu de dentro do bosque.
O verde claro da floresta ficava estranho com as risadas dos adolescentes, muito altas e alegres para se harmonizarem com os painéis verdes ao meu redor. Eu tinha que observar cuidadosamente cada passo que eu dava, evitando as pedras abaixo e os troncos acima, e logo eu acabei ficando pra trás.
Eventualmente eu saí dos confins verdes da floresta e encontrei pedras de novo.
A maré estava baixa, e um pequeno riozinho passava por nós indo a caminho do mar. Perto dos pedregulhos, havia pequenas piscinas que nunca estavam completamente secas por causa da água despejada do oceano.
Eu fui muito cuidadosa pra não me inclinar demais nos tanques de água do mar. Os outros não tinham medo, se inclinando nas rochas, brincando nas beiradas. Eu encontrei uma pedra que parecia muito estável perto de uma das piscinas maiores e me sentei lá cuidadosamente, encantada com o aquário natural abaixo de mim. Os buquês de anêmonas brilhantes balançavam sem parar na corrente invisível, conchas tortas apareciam nas beiras, escondendo os caranguejos dentro delas, estrelas do mar ficavam imóveis sobre as pedras e umas sobre as outras, enquanto uma pequena enguia preta com listras brancas nadava contra as ervas daninhas para voltar para o mar.
Eu estava completamente absorvida, exceto por uma pequena parte do meu cérebro que imaginava onde Edward estaria agora, e o que ele estaria me dizendo se estivesse aqui comigo.
Finalmente os rapazes ficaram com fome, e eu fiquei de pé para acompanhá-los de volta. Tentei acompanhá-los melhor dessa vez por dentro da floresta, então naturalmente eu caí algumas vezes. Eu arranjei uns arranhões artificiais em minhas mãos, e os joelhos dos meus jeans estavam manchados de verde, mas podia ser pior.
Quando nós voltamos para a praia, o grupo que deixamos havia se multiplicado. Enquanto nos aproximávamos, podíamos ver os cabelos brilhantes, muito pretos e a pele cor de cobre dos nossos visitantes, adolescentes das reservas próximas que vieram se socializar.
A comida já estava sendo passada, e os garotos correram para pegar as suas partes enquanto Eric nos apresentava a cada um no círculo de troncos. Ângela e eu fomos as últimas a chegar, e enquanto Eric falava nossos nomes, eu reparei num garoto mais jovem sentado numa das pedras perto da fogueira olhando pra mim cheio de interesse. Eu sentei perto de Ângela, e Mike nos trouxe sanduíches e uma rodada de refrigerante para aqueles que pediram, enquanto o garoto que parecia ser o mais velho do grupo foi dizendo os nomes dos outros sete que estavam com ele. Eu só lembrei o de uma das garotas que também se chamava Jéssica, e o garoto que reparou em mim que se chamava Jacob.
Era relaxante estar com Ângela. Ela era o tipo de pessoa que fazia você se sentir bem, não precisava preencher o silêncio com conversinhas. Ela me deixou livre pra pensar enquanto nós comíamos. E eu estava pensando em como o tempo passava desconjuntada mente em Forks, passando num sopro às vezes, com algumas imagens claramente se destacando de outras. E então, outras vezes, cada segundo era significante, gravando na minha memória. Eu sabia exatamente o que causava a diferença, e isso me perturbava.
Durante o almoço as nuvens começaram a avançar, se esquivando no céu azul, ficando momentaneamente na frente do sol, formando longas sombras na praia, e escurecendo as ondas.
Enquanto terminavam de comer, as pessoas começaram a formar grupos de duas e de três pessoas. Algumas caminharam até as ondas, tentando subir nas pedras de superfície cortante. Outros estavam formando uma segunda excursão às piscinas.
Mike, com Jéssica na cola dele, foi até uma loja na vila. Alguns dos garotos da localidade foram com eles, outros se juntaram á caminhada. Quando todos eles sumiram, eu estava sentada sozinha no meu tronco, Lee e Tyler estavam se ocupando com um som que alguém havia pensado em trazer, e três garotos das reservas se juntaram ao círculo, menos aquele garoto chamado Jacob e o garoto mais velho que havia servido de apresentador.
Alguns minutos depois que Ângela foi embora com os excursionistas, Jacob se aproximou para tomar o lugar dela ao meu lado. Ele parecia ter catorze, talvez quinze, e tinha um cabelo longo, brilhante amarrado atrás da cabeça com um elástico de borracha perto da nuca. A pele dele era linda, sedosa e com uma cor saudável; seus olhos eram escuros, bem posicionados no alto das maçãs bem feitas do seu rosto. Ele tinha só um pouco de infantilidade que havia permanecido no seu queixo. No geral, um rosto bonito. No entanto, minha boa impressão em relação a aparência dele foi apagada pelas primeiras palavras que saíram da boca dele.
— Você é Isabella Swan, não é?
Foi como se o  primeiro dia de aula estivesse se repentindo.
— Bella. — Eu suspirei.
— Eu sou Jacob Black. — Ele me deu a mão num gesto amigável. — Você comprou a caminhonete do meu pai.
— Oh, —eu disse aliviada, balançando sua mão macia e brilhante. — Você é o filho de Billy, eu devia me lembrar de você.
— Não, eu sou o mais novo da família, deve lembrar-se das minhas irmãs mais velhas.
— Rachel e Rebecca. — Eu lembrei de repente.
Charlie e Billy haviam nos jogado juntas durante muitas das minhas visitas, pra nos mantermos ocupadas enquanto eles pescavam. Éramos todas muito tímidas pra fazer algum progresso como amigas. É claro que eu já tinha tido excessos de raiva suficientes pra acabar com as pescarias quando eu tinha onze anos.
— Elas estão aqui? — Eu examinei as garotas na beira do mar, imaginando se conseguia reconhecer alguma delas agora.
— Não. — Jacob balançou a cabeça. — Rachel recebeu uma bolsa de estudos no estado de Washington, e Rebecca casou com um surfista de Samoa, agora ela vive no Havaí.
— Casada. Uau. — Eu estava aturdida. As gêmeas eram mais velhas que eu pouco mais de um ano.
— Então você gosta da caminhonete? — Ele perguntou.
— Eu adoro. Funciona muito bem.
— É, mas é muito lenta. — Ele sorriu. — Eu fiquei muito aliviado quando Charlie a comprou. Meu pai não me deixaria construir outro carro quando tínhamos outro carro perfeitamente bom lá.
— Não é tão lenta. — Eu argumentei.
— Você já tentou passar de 80?
— Não. — Admiti.
— Bom. Não tente. — Ele riu.
Eu não pude deixar de rir também.
— Ela se sai muito bem em colisões. —Eu saí em defesa do meu carro.
— Eu acho que um tanque não poderia destruir aquele monstro velho. —Ele concordou com outra risada.
— Então você constrói carros? — Eu perguntei impressionada.
— Quando eu tenho tempo livre, e partes. Você não saberia como eu posso pôr as mãos num cilindro mestre para um Volkswagen Rabbit 1986, saberia? —Ele disse brincando. Tinha uma voz rouca, prazerosa.
— Desculpa. — Eu sorri. — Eu não tenho visto nenhum ultimamente, mas eu vou manter meus olhos abertos pra você. — Como se eu soubesse o que é isso.
Era muito fácil conversar com ele.
Ele me mostrou um sorriso brilhante, olhando pra mim de um jeito apreciativo que eu estava começando a reconhecer. Eu não fui a única a reparar.
— Você já conhece Bella, Jacob? — Lauren perguntou, num tom que me pareceu insolente, do outro lado da fogueira.
— Nós meio que nos conhecemos desde que eu nasci. — Ele sorriu olhando pra mim de novo.
— Que legal. — Ela não pareceu achar nem um pouco legal, e seus olhos pálidos, puxados, reviraram.
— Bella. — Ela me chamou novamente, observando meu rosto cuidadosamente. — Eu acabei de falar com Tyler que era uma pena que nenhum dos Cullen possa ter vindo hoje. Ninguém pensou em convidá-los? — A expressão de preocupação dela não era convincente.
— Você quer dizer a família do doutor Carlisle Cullen? — O garoto alto, mais velho respondeu antes que eu tivesse a chance, para irritação de Lauren.
Ele estava mais pra homem que pra garoto e sua voz era muito grossa.
— Sim, você os conhece? — Ela perguntou sem querer, se virando um pouco na direção dele.
— Os Cullen não vêm aqui. — Ele respondeu num tom que fechou o assunto, ignorando a pergunta dela.
Tyler, tentando ganhar a atenção dela de volta, perguntou a Lauren a sua opinião sobre um CD que ele segurava. Ela estava distraída.
Eu olhei para o garoto com a voz grossa, com um pé atrás, mas ele já estava olhando para a floresta atrás de nós.
Ele tinha dito que os Cullen não viriam aqui, mas o tom dele implicava algo mais. Como se eles não fossem permitidos vir, que eram proibidos.
Seus modos deixaram uma má impressão em mim, e eu tentei ignorar isso sem sucesso.
Jacob atrapalhou minha meditação.
— Então, Forks já está te levando á loucura?
— Oh, eu diria que isso é um jeito suave de dizer a verdade. — Sorri.
Ele sorriu compreendendo.
Eu ainda estava pensando no breve comentário sobre os Cullen, e eu tive uma inspiração repentina. Era um plano estúpido, mas eu não tive nenhuma ideia melhor. Rezei pra que o jovem Jacob não tivesse muita experiência com as garotas, assim ele não veria além da minha falsa máscara de interesse.
— Você quer caminhar pela praia comigo? — Eu perguntei, tentando imitar aquela olhada que Edward dava por debaixo dos cílios.
Eu não poderia ter o mesmo efeito nem de perto, eu tinha certeza, mas Jacob me pareceu interessado o suficiente.
Enquanto andávamos para o norte pelas pedras multicoloridas na direção dos salgueiros, as nuvens finalmente fecharam o céu, fazendo o mar ficar escuro e a temperatura baixar. Eu enfiei as mãos bem no fundo dos bolsos da minha jaqueta.
— Então, você tem quantos? Dezesseis? — Eu perguntei, tentando não parecer uma idiota enquanto flutuava os meus cílios do jeito que eu via as garotas fazendo na TV.
— Eu acabei de fazer quinze. — Ele admitiu, lisonjeado.
— Mesmo? — Meu rosto estava cheio de falsa surpresa. — Eu pensei que você fosse mais velho.
— Eu sou alto pra minha idade. — Ele explicou.
—Você vem muito à Forks? — Eu perguntei arfando, como se eu esperasse que a resposta fosse sim.
Eu soei idiota até pra mim mesma. Eu temia que ele se virasse contra mim com nojo, me acusando de fraude, mas ele ainda parecia estar lisonjeado.
— Não muito. — Ele admitiu com uma careta. — Mas quando meu carro estiver pronto eu posso vir quantas vezes eu quiser, quando eu tiver minha carteira de motorista.
— Quem era o outro garoto falando com Lauren? Ele pareceu um pouco velho pra estar andando com a gente. — Eu propositadamente me coloquei no grupo dos jovens pra demonstrar que eu preferia Jacob.
— Aquele é Sam, ele tem dezenove. — Ele me informou.
— O que era que ele estava falando sobre a família do médico? — Eu perguntei inocentemente.
— Os Cullen? Oh, eles não podem entrar na reserva. — Ele olhou pra longe, na direção da Ilha James, enquanto ele confirmava o que eu pensava ter ouvido na voz de Sam.
— Por que não?
Ele olhou de volta pra mim, mordendo o lábio.
— Oops. Eu não devia estar falando nada sobre isso.
— Oh, eu não vou contar pra ninguém, eu só estou curiosa. — Eu tentei deixar meu sorriso atraente, imaginando se eu estava indo longe demais.
Ele sorriu de volta, entretanto, parecendo atraído. Então levantou uma das sobrancelhas e sua voz ficou ainda mais rouca que antes.
— Você gosta de histórias assustadoras? —Ele perguntou obscuramente.
— Adoro. — Fiz um esforço pra parecer interessada.
Jacob caminhou para essa árvore próxima que tinha uns galhos que pareciam com patas de aranhas enormes. Ele se inclinou num dos galhos tortos enquanto eu sentava embaixo dele, no tronco da árvore. Ele olhou para as rochas, um sorriso começando a aparecer nos cantos dos seus lábios grossos. Eu podia ver que ele tentava deixar a história interessante. Eu tentei não deixar o interesse vital que eu sentia aparecer nos meus olhos.
— Você conhece alguma das nossas antigas histórias, sobre de onde viemos... quer dizer, dos  Quileutes? — Ele começou.
— Na verdade não. —Eu admiti.
— Bom, existem muitas lendas, algumas delas datam da época do Dilúvio, supostamente alguns dos nossos ancestrais Quileutes amarraram suas canoas nos topos das árvores mais altas da montanha pra se salvarem, como Noé fez com a Arca. — Ele sorriu pra mostrar o pouco crédito que ele dava a essas histórias.
— Outra lenda diz que nós somos descendentes dos lobos, e que os lobos ainda são nossos irmãos. É contra a lei tribal matar eles. Então tem as lendas sobre Os Frios. — A voz dele ficou um pouco mais baixa
— Os Frios? —Agora eu não estava fingindo minha intriga.
— Sim. Existem lendas sobre os frios como existem sobre os lobos, e algumas delas são muito mais recentes. De acordo com a lenda, o meu próprio tataravô conhecia alguns deles. Foi ele quem criou o tratado que os mantêm fora das nossas terras. — Ele revirou os olhos.
— Seu tataravô? — Eu encorajei.
— Ele era um líder tribal, como meu pai. Sabe, os frios são os inimigos naturais dos lobos, bem, não do lobo, mas os lobos que se transformam em homens, como os nossos ancestrais. Você os chamaria de lobisomens.
— Lobisomens têm inimigos?
— Só um.
Eu olhei pra ele ansiosamente, tentando fazer a minha impaciência se transformar em admiração.
— Entenda, — Jacob continuou — os frios são tradicionalmente nossos inimigos. Mas esse grupo que veio para o nosso território na época do meu tataravô era diferente. Eles não caçavam do jeito que os outros caçavam, eles não representavam perigo para a nossa tribo. Então meu tataravô fez um trato com eles. Se eles prometessem ficar longe das nossas terras, nós não iríamos expor eles para os caras-pálidas. — Ele piscou pra mim.
— Se eles não eram perigosos, então por que...? — Eu tentei entender, lutando pra não deixá-lo perceber o quanto eu estava levando essa história a sério.
— É sempre um risco para os humanos ficar perto dos frios, mesmo se eles forem civilizados como esse clã era. Nunca se sabe quando eles podem estar com fome demais pra resistir. — Ele deliberadamente colocou um tom de ameaça na voz dele.
— O que você quer dizer com 'civilizados'?
— Eles diziam que não caçavam humanos. Ao invés disso, eles supostamente eram capazes de se alimentar de animais.
Eu tentei manter minha voz casual.
— Então o que eles tinham a ver com os Cullen? Eles são parecidos com os frios que seu avô conheceu?
— Não. — Ele parou dramaticamente. — Eles são os mesmos.
Ele deve ter pensado que a expressão no meu rosto era medo inspirado pela história.
Ele sorriu, satisfeito, e continuou.
— Tem mais deles agora, uma nova fêmea e um novo macho, mas os outros são os mesmos. Na época do meu tataravô eles já conheciam o líder, Carlisle. Ele esteve aqui e foi embora antes que o seu povo chegasse. — Ele estava lutando pra não sorrir.
— E o que eles são? — Eu finalmente perguntei. — O que são os frios?
Ele sorriu obscuramente.
— Bebedores de sangue. — Ele respondeu com uma voz arrepiante. — Vocês os chamam de Vampiros.
Eu olhei para as ondas depois que ele disse isso, sem ter certeza do que o meu rosto estava demonstrando.
— Você ficou arrepiada. — Ele disse deliciado.
— Você é um bom contador de histórias. — Eu o cumprimentei, ainda olhando para as ondas.
— Uma história bem louca, não é? Não é de se admirar que o meu pai não queira que a gente fale disso pra ninguém.
Eu ainda não conseguia controlar a minha expressão o suficiente pra olhar pra ele.
— Não se preocupe, eu não vou espalhar.
— Eu acho que acabei de violar o acordo. — Ele sorriu.
— Eu vou levar isso pro meu túmulo. — Prometi, e então estremeci.
— Sério, mesmo, não diga nada pro Charlie. Ele já ficou bem bravo com o meu pai depois que descobriu que ninguém estava indo ao hospital desde que o Dr. Cullen começou a trabalhar lá.
— Eu não vou contar, claro que não.
— Então você acha que somos um bando de nativos supersticiosos ou o que? — Ele perguntou em tom de brincadeira, mas com uma ponta de preocupação.
Eu ainda não tinha tirado os olhos do oceano. Eu me virei pra ele e sorri tão naturalmente quanto pude.
— Não. Apesar disso, eu acho que você é um bom contador de histórias. Eu ainda estou arrepiada, viu? — Eu levantei meu braço.
— Legal. — Ele sorriu.
Então o barulho das pedras batendo umas contra as outras nos alertou de que alguém estava vindo. Nossas cabeças levantaram ao mesmo tempo pra ver Mike e Jéssica a cinquenta metros de nós e vindo em nossa direção.
— Aí estava você, Bella. — Mike disse aliviado, balançando seu braço sobre a cabeça.
—Esse é o seu namorado? — Jacob perguntou, alertado pelo tom de ciúmes na voz de Mike. Eu estava surpresa que fosse tão óbvio.
— Não, definitivamente não. — Eu cochichei.
Estava tremendamente agradecida a Jacob, e ansiosa pra deixá-lo tão feliz quanto fosse possível. Eu pisquei pra ele, me virando de costas pra Mike quando fiz isso. Ele sorriu, estimulado pelo meu flerte.
— Então quando eu conseguir a minha carteira de motorista... — Ele começou.
— Você devia vir me visitar em Forks. Nós podemos sair uma hora dessas.
Senti-me culpada quando disse isso, sabendo que eu estava usando ele. Mas eu realmente gostei de Jacob. Ele era alguém que podia facilmente ser meu amigo.
Mike nos alcançou agora, com Jéssica alguns passos atrás. Eu podia ver seus olhos avaliando Jacob, e parecendo satisfeito pela sua óbvia juventude.
— Onde você esteve? — Ele perguntou apesar da resposta estar bem na frente dele.
— Jacob estava apenas me contando uma história local. — Eu respondi. —Foi muito interessante.
Eu sorri calidamente pra Jacob e ele sorriu abertamente de volta.
— Bem... — Mike parou, cuidadosamente avaliando a situação enquanto observava a nossa camaradagem — já estamos indo embora, parece que vai chover logo. Todos nós olhamos para o céu. Certamente parecia que ia chover.
— Ok. — Levantei num pulo. — Eu estou indo.
— Foi bom te ver de novo. — Jacob disse, e eu podia ver que Mike pareceu um pouco insultado.
— Foi mesmo. Da próxima vez que Charlie for visitar Billy, eu vou junto. — Prometi.
O sorriso cresceu no seu rosto.
— Isso seria legal.
— E obrigada. — Disse sinceramente.
Levantei o meu capuz enquanto andávamos pelas rochas em direção ao estacionamento.
Algumas gotas já começavam a cair, fazendo pequenas manchas nas rochas onde elas caiam. Quando chegamos ao Suburban os outros já estavam lotando todos os espaços atrás. Eu me enfiei no banco de trás com Ângela e Tyler, anunciando que eu tinha tido a minha chance de ir na janela. Ângela só olhou pela janela para a tempestade que se formava, e Lauren se entortou no banco pra ganhar toda a atenção de Tyler, então eu pude simplesmente encostar minha cabeça no banco e fechar os meus olhos e fazer o máximo pra não pensar.

11 comentários:

  1. Ufa até que enfim , não aguentava mais esse suspense sobre OQUE eles são.. ( apesar de todo mundo já saber )

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  2. Uffa até que fim o Jacob apareceuuuu já estava ficando anciosa....<3

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  3. Rsrs sobre a bella acho q aquela menina que fez os vampiros que se mordam atuou melhor q a kristen kkk gosto mais da bella do livro do q da bella doa filmes

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  4. Eu vi os filmes e amei apesar de achar algumas partes bem toscas e perceber algumas falhas na trama. Então resolvi ler os livros mas fiquei com medo de achar as mesmas coisas. Até agora não, porém fiquei um tanto chocada com essa Bella usando o Jacob dessa maneira. Em relação aos filmes nunca entendi o comportamento dela com o Jacob,essa coisa de te amo e não te amo ao mesmo tempo. É também nunca entendi pq o Edward achava tão normal a até dava "espaço" para a Bella se derreter para o Jacob.

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    1. É que Edward tem aquele complexo de "não sou bom o suficiente pra você, fique com ele". É todo certinho, fica naquela coisa de "não sou o homem certo"... Se ficar com ela, é só pq Bella insiste, e ele quer dar o que ela quiser, não quer que perca experiências...

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    2. Hum... Entendo, mas acho que só mulheres conseguem entender... Meu marido e os primos dele sempre chamaram o Edward de "corno manso" kkkkk

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  5. Fascinada no livro,nos filmes... Tudo perfeito para mim

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  6. Não sei porque, mas estou começando a criar raiva do Jacob. E olha que sempre achei ele um amorzinho nos filmes

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  7. Faz tempo que assistir o filme. Mas lendo o livro agora, não estou achado tão interessante assim, mas vou continue lendo pois quero saber como vai ficar quando Bella dizer com todas letras que ele é um vampiro.
    Agora uma coisa que está me incomodando são as "amigas" da Bella. Parece que ela não tem amigas de verdade. Sempre tem uma intriguinha... isso tá chato. Como se toma amizade de garotas fossem falsas

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  8. #Amo os filmes e os livros também. Mas confesso que tenho um pouco de raiva do jacob em Lua Nova e Eclipse só por ele nao entender que a Bella ama o Edward e que eles foram feitos um p/ o outro!!
    #Amo muito o EDWARD CULLEN meu personagem favorito da saga!
    Karina de verdade eu amei esse blog !

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