24 de setembro de 2015

Capítulo 6 - Amigos

As motos não precisaram ser arrastadas pra mais longe do que a garagem. A cadeira de rodas de Billy não podia passar pela terra desigual que a separava da casa.
Jacob começou a separar a primeira moto - a vermelha, que era destinada a mim - em pedaços imediatamente. Ele abriu o porta do passageiro do Rabbit pra que eu pudesse me sentar no banco ao invés de me sentar no chão. Enquanto ele trabalhava, Jacob conversava alegremente, precisando apenas do menor incentivo meu pra manter a conversa rolando. Ele me falou dos seus progressos no segundo ano da escola, falando das aulas e dos seus dois melhores amigos.
— Quil e Embry? — eu interrompi. — Esses são nomes incomuns.
Jacob gargalhou.
— Quil é um apelido, e eu acho que Embry ganhou o nome por causa de uma novela. Contudo, eu não posso falar nada. Eles jogam sujo se você falar dos nomes deles - eles começam a apelidar você.
— Bons amigos — eu ergui uma sobrancelha.
— Não, eles são. Só não mexa com os nomes deles.
Bem nessa hora um chamado ecoou na distância.
— Jacob? — alguém gritou.
— É Billy? — eu perguntei.
— Não — Jacob abaixou a cabeça, e parecia que ele estava corando em baixo da pele marrom. — Fale no diabo — ele murmurou. — Que ele aparece.
— Jake? Você tá aí? — A voz que gritava estava mais próxima agora.
— É! —Jacob gritou de volta, e suspirou.
Nós esperamos no silêncio até que dois garotos altos, de peles escuras, viraram na esquina vindo pra garagem.
Um era mais esguio, e quase tão alto quanto Jacob. O cabelo preto dele ficava na altura do queixo e era partido no meio, um lado enfiado atrás da orelha esquerda enquanto o lado direito ficava livre.
O garoto mais baixo era mais forte. A camiseta branca ficava estirada no seu peito bem estruturado, e ele parecia consciente desse fato. O cabelo dele era tão curto que era quase careca.
Os garotos pararam na hora quando me viram. O garoto magro olhou rapidamente pra frente e pra trás entre Jacob e eu, enquanto o garoto musculoso mantinha os olhos só em mim, um breve sorriso aparecendo no rosto dele.
— Ei, rapazes — Jacob os cumprimentou sem vontade.
— Ei, Jake —  o mais baixo falou sem tirar os olhos de mim. Eu tive que sorrir em resposta, já que o sorriso dele era tão travesso. — Oi, gente.
— Quil, Embry - essa é minha amiga, Bella.
Quil e Embry, eu ainda não sabia qual era qual, trocaram um olhar significante.
— A filha de Charlie, certo? — o garoto musculoso me perguntou, levantando a mão.
— Isso mesmo — eu confirmei, balançando a mão com ele. O aperto dele era firme; parecia que ele estava flexionando os bíceps.
— Eu sou Quil Ateara — ele anunciou largamente antes de soltar minha mão.
— Prazer em conhecê-lo, Quil.
— Oi, Bella. Eu sou Embry, Embry Call - porém, você provavelmente já adivinhou isso — Embry deu um sorriso tímido e acenou com uma mão, que depois ele enfiou no bolso.
Eu balancei a cabeça.
         — Prazer em te conhecer também.
— Então o que vocês estão fazendo? — Quil perguntou, ainda olhando pra mim.
— Bella e eu vamos concertar essas motos — Jacob explicou impacientemente. Mas motos pareciam ser uma palavra mágica. Os garotos foram examinar o projeto de Jacob, enchendo ele com perguntas educadas. Muitas das palavras não eram familiares pra mim, e eu entendi que precisaria ter um cromossomo Y pra realmente entender a excitação.
Eles ainda estavam envolvidos na conversa sobre as peças e partes quando eu decidi que estava na hora de ir pra casa antes que Charlie resolvesse aparecer por aqui. Com um suspiro, eu escorreguei pra fora do Rabbit.
Jacob olhou pra cima, se lamentando.
— Nós estamos te aborrecendo, não estamos?
— Não — e não era mentira. Eu estava me divertindo - que estranho.
 — É só que eu tenho que cozinhar o jantar pra Charlie.
— Oh... bem, eu vou terminar de montá-las hoje à noite e ver do que mais precisamos pra começar a reconstruí-las. Quando é que você quer trabalhar nelas de novo?
— Eu posso voltar amanhã? — Domingos eram a ruína da minha existência. Nunca havia dever de casa suficiente pra me manter ocupada.
Quil cutucou o braço de Embry e eles trocaram sorrisos.
Jacob sorriu deliciado.
— Isso seria ótimo!
— Se você fizer uma lista, nós podemos ir comprar as partes. — sugeri.
O rosto de Jacob caiu um pouco.
— Eu ainda não tenho certeza se devo deixar você pagar por tudo sozinha.
Eu balancei a cabeça.
— Sem essa. Eu vou bancar essa festa. Você só tem que entrar com o trabalho e com a habilidade.
Embry revirou os olhos pra Quil.
— Isso não parece certo — Jacob balançou a cabeça.
— Jake, se eu levasse elas a um mecânico, quanto ele me cobraria? — eu apontei.
Ele sorriu.
— Ok, você tem um trato.
— Sem mencionar as aulas de direção — eu acrescentei.
Quil deu um sorriso largo para Embry e falou alguma coisa que eu não consegui entender. A mão de Jacob voou pra bater na parte de trás da cabeça de Quil.
— É isso, se mandem — ele murmurou.
— Não, sério, eu tenho que ir — eu protestei indo pra porta. — A gente se vê amanhã, Jacob.
Assim que eu estava fora de vista, eu ouvi Quil e Embry em coro.: “Caraaaaaaa!”
O som de uma breve briga se seguiu, interceptadas por um “ouch” e um “ei!”.
— Se algum de vocês pisar um dedo na minha terra amanhã... — eu ouvi Jacob ameaçar. A voz dele se perdeu quando eu entrei nas árvores.
Eu gargalhei baixinho. O som fez os meus olhos se esbugalharem de dúvida. Eu estava sorrindo, sorrindo mesmo, e não havia ninguém olhando.
Eu me senti tão leve que quase ri de novo, só pra fazer a sensação se prolongar.
Eu cheguei em casa antes de Charlie. Quando ele chegou eu estava acabando de tirar o frango frito da frigideira e colocando-o em uma pilha de papel-toalha.
— Oi, pai —eu sorri pra ele.
O choque flutuou pelo rosto dele antes que ele pudesse recompor sua expressão.
— Oi, querida —ele disse com a voz incerta. — Você se divertiu com Jacob?
Eu comecei a levar a comida para a mesa.
— Sim , me diverti.
— Bem, isso é bom — Ele ainda estava cuidadoso. — O que vocês dois fizeram?
Agora era a minha vez de ser cuidadosa.
— Eu fiquei na garagem dele e olhei ele trabalhar. Você sabia que ele está reconstruindo um Volkswagen?
— É, eu acho que Billy mencionou isso.
O interrogatório teve que parar quando Charlie começou a mastigar, mas ele continuou estudando meu rosto enquanto comia.
Depois do jantar, eu fiquei vadiando, limpando a cozinha duas vezes, e então fiz meu dever de casa na sala da frente enquanto Charlie assistia um jogo de hóquei. Eu esperei o máximo que pude, mas finalmente Charlie mencionou que estava tarde. Quando eu não respondi, ele se levantou, se espreguiçou, e depois foi embora, desligando a luz atrás dele. Relutantemente, eu o segui.
Enquanto eu subia as escadas, eu senti o último senso anormal de bem estar da tarde saindo do meu sistema, sendo substituído pelo medo bobo do pensamento do que eu teria que viver a partir de agora.
Eu não estava mais entorpecida. Hoje seria, sem dúvida, tão horrível quanto na noite passada. Eu deitei na cama e me curvei numa bola me preparando para a dor. Eu apertei meus olhos e... a próxima coisa que eu sabia, já era de manhã.
Eu olhei para a pálida luz prateada entrando pela minha janela, atordoada.
Pela primeira vez em mais de quatro meses, eu tinha dormido sem sonhar. Sonhar nem gritar. Eu não sabia dizer que emoção era mais forte - o alívio ou o choque.
Eu fiquei parada na minha cama por alguns minutos, esperando que as coisas voltassem. Porque alguma coisa devia estar vindo. Se não a dor, então a entorpecência. Eu esperei, mas nada aconteceu. Eu me sentia mais descansada do que já havia estado em muito tempo.
Eu não acreditava que isso fosse durar. Era só uma borda escorregadia, precária, na qual eu me equilibrava. Só olhar pra o meu quarto com esse olhos repentinamente claros - percebendo o quanto ele parecia estranho, arrumado demais, como se eu nem vivesse aqui - já era perigoso.
Eu empurrei esses pensamentos da minha mente, e me concentrei, enquanto me vestia, no fato de que ia ver Jacob de novo hoje. Esse pensamento fez eu me sentir quase... esperançosa. Talvez fosse como ontem. Talvez eu não tivesse que me lembrar de parecer interessada e de balançar a cabeça ou sorrir nos intervalos apropriados, do jeito que eu fazia com as outras pessoas. Talvez... mas eu não podia confiar que isso fosse durar, também. Eu não confiaria que seria o mesmo - tão fácil - quanto ontem. Eu não ia me dispor á decepção desse jeito.
No café da manhã, Charlie estava sendo cuidadoso também. Ele tentou esconder sua curiosidade, mantendo seus olhos nos ovos até quando ele achava que eu não estava olhando.
— O que você vai fazer hoje? — ele perguntou, olhando para um fio solto no punho da camisa dele, como se ele não estivesse prestando atenção na minha resposta.
— Eu vou ficar com Jacob de novo.
Ele balançou a cabeça sem olhar pra cima.
— Oh — ele disse.
— Você se importa? — eu fingi me importar. — Eu posso ficar...
Ele olhou pra cima rapidamente, uma pontada de pânico nos olhos dele.
— Não, não! Vá em frente. Harry estava vindo pra assistir o jogo comigo mesmo.
— Talvez Harry pudesse dar a Billy uma carona pra cá — eu sugeri. Quanto menos testemunhas, melhor.
— Essa é uma ótima ideia.
Eu não tinha certeza se o jogo era só uma desculpa pra expulsar, mas agora ele parecia ansioso o suficiente.
Ele foi até o telefone enquanto eu abotoava o meu casaco de chuva. Eu me senti intimidada com o talão de cheques enfiado no bolso da jaqueta. Era uma coisa que eu nunca usava.
Do lado de fora, a chuva corria como se fosse água jogada de um balde. Eu tive que dirigir mais devagar do que queria; eu mal podia ver o formato de um carro na frente da caminhonete. Mas eu finalmente consegui chegar nas terras lamacentas da casa de Jacob.
Antes que eu desligasse o motor, a porta da frete se abriu e Jacob saiu correndo com um enorme guarda chuva preto.
Ele o segurou em cima da minha porta enquanto eu a abria.
— Charlie ligou - ele disse que você já estava vindo — Jacob explicou com um sorriso.
Sem esforço, sem uma ordem consciente para os músculos dos meus lábios, o meu sorriso de resposta apareceu no meu rosto. Um estranho sentimento de calor borbulhou na minha garganta, apesar da chuva gelada que pingava nas minhas bochechas.
— Oi, Jacob.
— Boa ideia de convidar Billy — ele levantou a mão para nos cumprimentarmos.
Eu tive que me contorcer tão alto pra bater na mão dele que ele sorriu.
Harry apareceu pra pegar Billy alguns minutos depois. Jacob me levou num breve tour até seu pequeno quarto enquanto esperávamos pra não sermos supervisados.
— Então pra onde vamos, Sr. Bom mecânico? — eu perguntei assim que ele fechou a porta atrás de Billy.
Jacob puxou um papel dobrado que estava no bolso dele e o alisou.
— Nós vamos começar num ferro velho primeiro, pra ver se temos sorte. Isso pode ficar uma pouco caro. — ele me avisou. — Aquelas motos vão precisar de muita ajuda antes de poderem andar de novo.— Meu rosto não pareceu preocupado o suficiente, então ele continuou. — Eu estou falando talvez de mais de cem dólares aqui.
Eu puxei meu talão de cheques, me abanei com ele, e revirei meus olhos pelas preocupações dele.
— Nós estamos cobertos.
Aquele foi um dia estranho. Eu me diverti. Mesmo no ferro velho, com a lama da chuva me prendendo até os calcanhares. Eu me perguntei se isso era só uma espécie de fase pós-entorpecência, mas eu não achava que essa era uma explicação boa o suficiente.
Eu estava começando a achar que era Jacob. Não era só porque ele sempre parecia tão feliz em me ver, ou que ele não ficava me vigiando pelo canto dos olhos, esperando que eu fizesse alguma coisa que me provasse louca ou deprimida. Não era absolutamente nada que me envolvia.
Era o próprio Jacob. Jacob era simplesmente uma pessoa perpetuamente feliz, e ele carregava aquela felicidade dele como uma aura, dividindo ela com quem quer que estivesse com ele.
Como o sol que abraçava a terra, quando quer que uma pessoa estava perto de sua órbita gravitacional, Jacob os acalentava.
Era natural, uma parte de quem ele era. Não era de estranhar que eu estava tão ansiosa pra vê-lo.
Mesmo quando ele comentou sobre o buraco vazio no meu painel, isso não pareceu me enviar a onda de pânico que devia.
— O som quebrou? — ele perguntou.
— É — menti.
Ele apalpou ao redor da cavidade.
— Quem foi que o arrancou? Aqui tem um monte de estragos...
— Fui eu — admiti.
Ele riu.
         — Talvez você não devesse mexer muito nas motos.
— Sem problema.
De acordo com Jacob, nós tivemos sorte no ferro velho.
Ele ficou muito excitado com algumas peças pretas com graxa feitas de metal retorcido que ele encontrou; eu só estava impressionada que ele sabia pra que elas serviam.
De lá, nós fomos para a Checker Auto Partes em Hoquiam. Na minha caminhonete, levamos mais de duas horas na estrada da sul, mas o tempo passava facilmente com Jacob. Ele tagarelava sobre seus amigos e sua escola, e eu me peguei fazendo perguntas, sem precisar fingir, realmente curiosa pra ouvir o que ele tinha a dizer.
— Eu estou falando sozinho — ele reclamou depois de contar uma longa história sobre os problemas que Quil teve chamando uma garota mais velha pra sair. — Porque não mudamos isso? O que tá havendo em Forks? Tem que ser mais excitante do que em La Push.
— Errado — suspirei. — Não tem nada de verdade. Os seus amigos são muito mais interessantes que os meus. Eu gosto dos seus amigos. Quil é engraçado.
Ele fez uma carranca.
— Eu acho que ele gosta de você também.
Eu sorri.
— Ele é um pouco novo demais pra mim.
A carranca de Jacob se aprofundou mais ainda.
— Ele não é assim tão mais novo do que você. É só um ano e alguns meses.
Eu tinha uma sensação de que não estávamos mais falando de Quil. Eu mantive minha voz leve, zombeteira.
— Claro, mas considerando a diferença de maturidade entre rapazes e garotas, não temos que contar como a idade dos cachorros? O que isso me torna, uns doze anos mais velha?
Ele sorriu, revirando os olhos.
— Ok, mas se vamos começar a ser seletivos assim, você tem que contar o seu tamanho também. Você é tão pequena que teria que descontar uns dez anos do seu total.
— Um metro e sessenta é perfeitamente normal — eu funguei. — Não é culpa minha que você é anormal.
Nós discutimos assim até chegarmos em Hoquiam, ainda falando sobre a fórmula perfeita pra determinar a idade - eu perdi mais dois anos porque não sabia trocar um pneu, mas ganhei um de volta porque eu era a encarregada de organizar os livros da minha casa - até que chegamos em Checker, e Jacob teve que se concentrar de novo. Nós encontramos tudo o que faltava na lista dele, e Jacob saiu muito confiante se que havíamos feito um grande progresso na nossa aventura.
Quando nós chegamos em La Push, eu estava com vinte e dois anos e ele estava com trinta - ele definitivamente estava colocando a balança a favor das habilidades dele.
Eu não havia esquecido a razão para o que eu estava fazendo. E mesmo assim, eu estava me divertindo mais do que havia julgado possível, não houve diminuição no meu real desejo.
Eu ainda queria trair o acordo. Era sem sentido, e eu não me importava.
Eu queria ser tão pouco cuidadosa quanto fosse possível ser em Forks. Eu não seria a única a manter um contrato vazio. Passar o tempo com Jacob me ajudou na recuperação muito mais do que imaginava.
Billy ainda não havia voltado, então não tivemos de ser cuidadosos quando descarregamos nossas compras do dia. Assim que nós depositamos tudo no chão de plástico perto da caixa de ferramentas de Jacob, ele foi direto ao trabalho, ainda falando e sorrindo enquanto seus dedos passavam sabiamente entre as peças de metal na frente dele.
A habilidade de Jacob com as mãos era impressionante. Elas pareciam grandes demais para tarefas delicadas nas quais trabalhavam com facilidade e precisão. Enquanto trabalhava, ele quase parecia gracioso. Diferente de quando ele estava de pé; ali, o peso e as mãos dele o faziam tão perigoso quanto eu era.
Quil e Embry não apareceram, então talvez a ameaça de ontem tenha sido levada a sério.
O dia passou rápido demais. Ficou escuro do lado de fora da garagem mais rápido do que eu esperava, e então eu ouvi Billy chamando por nós.
Eu me levantei pra ajudar Jacob a guardar as coisas dele, hesitando porque eu não sabia o que devia tocar.
— Deixa aí — ele disse. — Eu trabalharei nisso mais tarde.
— Não esqueça os seus trabalhos da escola ou alguma coisa assim. — eu disse, me sentindo um pouco culpada. Eu não queria que ele tivesse problemas. Esse plano era só pra mim.
— Bella?
Nossas duas cabeças se levantaram quando a voz familiar de Charlie soou por entre as árvores, parecendo mais próxima do que a casa.
— Droga — eu murmurei. —Já vou! — eu gritei na direção da casa.
— Vamos lá — Jacob sorriu, gostando de estar entre a cruz e a espada. Ele desligou a luz, e por um momento eu fiquei cega. Jacob agarrou minha mão e me guiou pra fora da garagem e entre as árvores, seus pés encontrando o caminho familiar na trilha facilmente.
A mão dele era dura, e muito quente.
Apesar da trilha, nós dois estávamos tropeçando nos nossos pés na escuridão. Então nós dois estávamos rindo quando começamos a ver a casa. As risadas não eram muito profundas; eram leves e superficiais, mas ainda era legal. Eu não estava acostumada a sorrir, e isso pareceu certo e também muito errado ao mesmo tempo.
Charlie estava de pé na varanda de trás, e Billy estava sentado na entrada da porta atrás deles.
— Oi, pai — nós dois dissemos ao mesmo tempo, e isso fez nós dois começarmos a rir de novo.
Os olhos de Charlie se arregalaram e voaram pra ver a mão de Jacob segurando a minha.
—Billy nos convidou pra o jantar — ele disse com uma voz de quem estava com a mente ausente.
— Minha receita super secreta de espaguete. Passada por gerações — Billy disse com uma voz grave.
Jacob bufou.
— Eu não acho que os molhos prontos existam há tanto tempo.
A casa estava lotada. Harry Clearwater estava lá também, com sua família - sua esposa,Sue, da qual eu me lembrava vagamente da minha infância nos verões em Forks, e os dois filhos dele. Leah estava no último ano como eu, mas era um ano mais velha. Ela era linda de um jeito exótico - pele perfeita cor de cobre, cabelo preto brilhante, cílios que pareciam plumas - e preocupada.
Ela estava no telefone de Billy quando nós entramos, e ela nunca o soltou. Seth tinha quatorze; ele captava cada palavra de Jacob olhando pra ele como se fosse um ídolo.
Nós estávamos num número grande demais pra mesa da cozinha, então Charlie e Harry trouxeram cadeiras para o quintal, e nós comemos spaghetti em pratos que colocamos no colo, com a luz fraca que vinha da porta aberta da casa de Billy.
Os homens falavam sobre o jogo, e Harry e Charlie faziam planos pra ir pescar. Sue zombou com o marido sobre o colesterol dele e tentou, sem sucesso, fazê-lo se envergonhar e comer folhas verdes. Jacob falou em grande maioria comigo e Seth, que nos interrompia ansiosamente quando Jacob demonstrava algum sinal de que estava prestes a esquecê-lo. Charlie me espionava, tentando ser sutil, com olhos agradados, mas cautelosos.
Ficava alto e às vezes confuso quando todo mundo tentava falar ao mesmo tempo com todo mundo, e as risadas de uma piada interrompiam outra. Eu não tinha que falar com frequência, mas eu sorri muito, e só porque eu queria.
Eu não queria ir embora.
Porém, isso era Washington, e a inevitável chuva acabou encerrando nossa festa; a sala de estar de Billy era pequena demais pra ser uma opção para a nossa reunião.
Harry tinha trazido Charlie, então nós dois voltamos pra casa juntos na minha caminhonete. Ele me perguntou sobre o meu dia, e eu contei a verdade em grande parte - que eu havia ido comprar partes com Jacob e que havia ficado olhando ele trabalhar na sua garagem.
— Você acha que vai visitá-los em breve? — ele perguntou, tentando parecer casual.
— Amanhã depois da escola — admiti. — Eu vou levar o dever de casa, não se preocupe.
— Faça isso — ele ordenou, tentando esconder sua satisfação.
Eu estava nervosa quando nós chegamos em casa. Eu não queria ir lá pra cima. A presença cálida de Jacob estava desaparecendo, e em sua ausência, a ansiedade ficava mais forte.
Eu não tinha certeza de que conseguiria ter duas noites de sono tranquilo seguidas.
Pra atrasar a hora de dormir, eu chequei meus e-mails; havia uma nova mensagem de Renée.
Ela escrevia sobre o dia dela, um novo clube dos livros que abusava nas horas de meditação e ela largou, a sua semana substituindo uma professora da segunda série e sentindo falta do jardim de infância.
Ela escreveu que Phil estava gostando do seu novo trabalho de técnico, e que eles estavam planejando uma segunda lua de mel pra o Disney World.
E eu percebi que a coisa toda parecia mais um diário do que uma carta pra outra pessoa. O remorso passou por mim, me deixando uma pontada de desconforto. Que bela filha que eu era.
Eu escrevi de volta pra ela rapidamente, comentando cada parte da carta dela, e voluntariando informações sobre mim mesma - o spaghetti na casa de Billy e como eu me sentia observando Jacob construir coisas úteis só usando pequenos pedaços de metal - impressionada e invejosa. Eu não fiz nenhuma referência que mudasse essa carta das outras que eu havia mandado antes nos últimos meses.
Eu mal podia me lembrar o que havia escrito pra ela, mesmo nas semanas mais recentes como a da semana passada, mas eu tinha certeza de que elas não eram muito compreensivas.
Quanto mais eu pensava nisso, mais culpada eu me sentia; eu realmente devo tê-la deixado muito preocupada.
Eu fiquei acordada até muito mais tarde depois disso, terminando mais deveres de casa do que eram estritamente necessários. Mas nem com a falta de sono ou as horas que passava com Jacob - sendo quase feliz num jeito superficial - eu conseguia sonhar em dormir bem duas noites seguidas.
Eu acordei tremendo, meus gritos abafados pelo travesseiro.
Enquanto a fraca luz se filtrava pela fraca névoa do lado de fora da minha janela, eu ainda fiquei deitada na minha cama tentando esquecer o sonho. Houve uma pequena diferença na noite passada, e eu me concentrei nisso.
Na noite passada eu não estava sozinha na floresta. Sam Uley - o homem que me tirou da floresta naquela noite na qual eu não conseguia pensar quando estava consciente - estava lá. Foi uma alteração estranha, inesperada.
Os olhos escuros do homem foram estranhamente não amigáveis, cheios com algum segredo que ele não parecia a fim de compartilhar.
Eu observei ele com a frequencia que a minha busca frenética me permitiu olhar; me deixou desconfortável, mesmo com o pânico de praxe, ter ele lá.
Talvez fosse por isso que, quando eu não olhava diretamente pra ele, a figura dele parecia tremer e mudar na minha visão periférica. Mesmo assim, ele não fazia nada a não ser ficar lá e observar. Diferente da vez em que nos encontramos de verdade, dessa vez ele não me ofereceu ajuda.
Charlie ficou me encarando durante o café da manhã, eu tentei ignorá-lo. Eu acho que eu merecia isso. Eu não podia esperar que ele não se preocupasse. Provavelmente se passaram semanas até que ele parasse de esperar que o zumbi voltasse, e eu simplesmente ia ter que tentar não me aborrecer. Dois dias não seriam o suficiente pra me declarar curada.
Na escola foi o oposto. Agora que eu estava prestando atenção, era claro que ninguém estava prestando atenção em mim.
Eu me lembrei do primeiro dia em que cheguei a Forks High School - como eu esperei desesperadamente que eu pudesse ficar cinza, me esconder entre o concreto da calçada, como um camaleão tamanho família. Parecia que eu estava conseguindo o que eu queria, um ano depois.
Era como se eu nem estivesse aqui. Mesmo os olhos dos meus professores passavam pela minha cadeira como se ela estivesse vazia.
Eu escutei a manhã inteira, ouvindo novamente as vozes das pessoas ao meu redor. Eu tentei entender o que estava acontecendo, mas as conversas eram tão bagunçadas que eu desisti.
Jéssica não olhou pra cima quando eu me sentei ao lado dela na aula de Cálculo.
— Ei, Jess — eu disse num tom educado. — Como foi o resto do seu fim de semana?
Ela olhou pra mim com olhos suspeitos. Será possível que ela ainda estivesse com raiva? Ou ela estava só impaciente por ter que lidar com uma pessoa louca?
— Super — ela disse, se virando de volta pro seu livro.
— Isso é bom — murmurei.
A figura de linguagem levar um gelo parecia ter um sentido literal. Eu podia sentir o ar quente vindo das tubulações, mas eu ainda estava com muito frio. Eu tirei o meu casaco de cima da cadeira e vesti de novo.
Minha quarta aula acabou atrasada, e a mesa do almoço onde eu sempre me sentava estava cheia na hora que eu cheguei.
Mike estava lá, Jéssica e Ângela, Conner, Tyler, Eric e Lauren.
Katie Marshall, a ruiva novata que morava na esquina da minha casa, estava sentada com Eric, e Austin Marks - o irmão mais velho do garoto das motos - estava do lado dela. Eu me perguntei por quanto tempo eles estariam sentando lá, incapaz de me lembrar se essa era a primeira vez ou uma espécie de hábito regular.
Eu estava começando a ficar brava comigo mesma. Eu devo ter sido empacotada com os amendoins para exportação no semestre passado.
Ninguém olhou pra cima quando eu me sentei ao lado de Mike, mesmo a cadeira tendo rangido de forma estranha no chão quando eu a puxei.
Eu tentei me informar na conversa.
Mike e Conner estavam falando de esportes, então eu desisti deles na hora.
— Onde está Ben hoje? — Lauren estava perguntando a Ângela. Eu comecei a ouvir interessada. Eu me perguntei se isso significava que Ângela e Ben ainda estavam juntos.
Eu mal reconheci Lauren. Ela cortou todo o seu cabelo louro cor de milho - agora ela usava o cabelo tão curto que o seu cabelo estava raspado atrás como o de um garoto. Que coisa estranha pra ela fazer.
Eu queria poder saber a razão por trás disso. Será que as pessoas com as quais ela era desagradável pegaram ela atrás do ginásio e a escalpelaram? Eu decidi que não era justo julgá-la agora pela minha opinião antiga. Pelo que eu sabia, ela podia ter se tornado uma pessoa legal.
— Ben está doente. — Ângela disse com a sua voz baixa, quieta. — Espera-se que seja só uma coisa que vinte e quatro horas. Ele estava muito mal ontem à noite.
Ângela tinha mudado o cabelo também. Ela o estirou em camadas.
— O que vocês dois fizeram esse fim de semana? — Jéssica perguntou,mas não parecia que ela se importava com a resposta. Eu apostava que aquilo era só uma brecha pra que ela pudesse contar as suas próprias histórias. Eu me perguntei se ela ia contar sobre nós em Port Angeles comigo sentada a duas cadeiras de distância. Eu era tão invisível, que as pessoas falavam sobre mim mesmo eu estando aqui?
— Na verdade, nós íamos fazer um piquenique no sábado, mas... mudamos de ideia — Ângela disse. Havia um tom estranho na voz dela que me chamou a atenção.
Mas não muito a de Jess.
— Que pena. — ela disse, prestes a começar a sua história. Mas eu não era a única prestando atenção.
— O que aconteceu? — Lauren perguntou curiosamente.
— Bem — Ângela disse, parecendo mais hesitante que de costume, apesar dela ser sempre reservada. — Nós fomos dirigindo pro norte - há um lugar legal lá só a um quilômetro da trilha. Mas quando estávamos a meio caminho de lá... nós vimos uma coisa.
— Viram alguma coisa? O que? — As sobrancelhas pálidas de Lauren estavam grudadas. Até Jess parecia estar prestando atenção agora.
— Eu não sei — Ângela disse. — Nós achamos que era um urso. De qualquer jeito, ele era preto, mas pareceu... grande demais.
Lauren bufou.
— Oh, não você também! — Os olhos dela ficaram zombeteiros, e eu decidi que não precisava dar a ela o benefício da dúvida. Obviamente a personalidade dela não mudou tanto quanto o seu cabelo. — Tyler tentou me vender essa na semana passada.
— Você não vai ver ursos assim tão perto da reserva — Jéssica disse, apoiando Lauren.
— Sério — Ângela disse com uma voz baixa, olhando para a mesa. — Nós vimos mesmo.
Lauren viu. Mike ainda estava conversando com Conner, sem prestar atenção nas garotas.
— Não, ela está certa —eu disse impaciente. — Nós vimos um mochileiro nesse sábado que também viu um urso, Ângela. Ele disse que era enorme e preto e que foi fora da cidade, não disse, Mike?
Houve um momento de silêncio. Todos os pares de olhos da mesa olharam pra mim chocados. A garota nova, Katie, ficou com a boca aberta como se ela tivesse acabado de presenciar uma explosão. Ninguém se mexeu.
— Mike? — eu murmurei, mortificada. — Lembra do cara com a história do urso?
— C- claro — Mike gaguejou depois de um segundo. Eu não sabia por que ele estava olhando pra mim de um jeito tão estranho. Eu falava com ele no trabalho, não falava? Falava? Eu achava que sim...
Mike se recuperou.
— É, houve um cara que disse que viu um enorme urso preto bem perto da trilha - maior que um pardo — Ele confirmou.
— Hmph — Lauren se virou pra Jéssica, com os ombros rígidos, e mudou de assunto.
— Você teve resposta da USC? — ela perguntou.
Todos os outros desviaram os olhos também, exceto Mike e Ângela. Ângela sorriu pra mim tentadoramente, e eu me apressei pra devolver o sorriso.
— Então, o que você fez nesse fim de semana, Bella? — Mike perguntou, curioso, mas estranhamente cauteloso.
Todo mundo com exceção de Lauren olhou de volta pra mim, esperando minha resposta.
— Sexta à noite eu e Jéssica fomos ao cinema em Port Angeles. E eu passei o sábado à tarde e grande parte do domingo em La Push.
Os olhos piscavam voando de Jéssica pra mim. Jess pareceu irritada.
Eu me perguntei se ela não queria que as pessoas soubessem que ela tinha saído comigo, ou se foi só porque ela mesma queria contar a história.
— Que filme você assistiram? — Mike perguntou, começando a sorrir.
Terror sem fim... aquele que tem os zumbis.— Eu sorri encorajando.
Talvez um pouco ds estrago que eu causei durante os meus meses como zumbi estivesse reparado.
— Eu ouvi que era assustador. Você achou? — Mike estava ansioso pra continuar a conversa.
— Bella teve que sair no final, de tão assustada. — Jéssica interferiu com um sorriso falso.
Eu balancei a cabeça, tentando parecer envergonhada.
— Era muito assustador.
Mike não parou de me fazer perguntas até que o almoço tinha acabado. Gradualmente, os outros na mesa foram capazes de recomeçar suas próprias conversas de novo, apesar de que eles ainda olhavam muito pra mim.
Ângela falou em maioria com Mike e comigo, e, quando eu me levantei pra jogar fora a minha bandeja, ela me seguiu.
— Obrigada — ela disse num voz baixinha quando estávamos longe da mesa.
— Pelo que?
— Por falar, por me defender.
— Sem problema.
Ela olhou pra mim preocupada, mas não ofensiva, com aquele olhar de talvez ela esteja perdida. 
— Você está bem?
Foi por isso que eu escolhi Jéssica ao invés de Ângela - apesar de gostar mais de Ângela - para aquela noite de garotas. Ângela era perceptiva demais.
— Não completamente — eu admiti. — Mas eu estou um pouco melhor.
— Eu fico feliz — ela disse. — Eu senti sua falta.
Lauren e Jéssica se aproximaram de nós nessa hora, e eu ouvi Lauren sussurrar alto.
— Oh, que alegria. Bella está de volta.
Ângela rolou os olhos pra elas, e sorriu pra mim me encorajando.
Eu suspirei. Era como se eu estivesse começando tudo de novo.
— Que data é hoje? — eu imaginei de repente.
— É dezenove de Janeiro.
— Hmm.
— O que é?— Ângela perguntou.
— Faz um ano que eu cheguei aqui pela primeira vez — eu meditei.
— Nada mudou muito — Ângela murmurou, olhando pra Lauren e Jéssica.
— Eu sei — concordei, pois estava pensando exatamente na mesma coisa.

2 comentários:

  1. Aff Lauren me dá nos nervos.....Falsiane Aff u.u

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