25 de setembro de 2015

Capítulo 5 - Imprinting

—Você está bem, Jake? Charlie disse que você está passando por um momento difícil... Isso não tá melhorando?—
A mão quente dele circulou a minha. —Não é tão ruim—, ele disse, mas ele não me olhava nos olhos.
Ele caminhou lentamente para o banco de salgueiro, olhando para as pedrinhas com cor de arco-íris, e me puxando para o lado dele. Eu me sentei na nossa árvore, mas ele preferiu se sentar no chão molhado, coberto de pedras do que perto de mim. Eu me perguntei se era pra que ele pudesse esconder o rosto com mais facilidade. Ele continuou segurando minha mão.
Eu comecei a tagarelar para acabar com o silêncio. —Já faz tanto tempo desde que eu estive aqui. Eu provavelmente perdi uma tonelada de coisas. Como estão Sam e Emily? E Embry? E Quil -?—
Eu parei no meio da frase, lembrando que o amigo de Jacob, Quil, costumava ser uma assunto sensível.
—Ah, Quil—, Jacob suspirou.
Então já devia ter acontecido - Quil deve ter se juntado ao bando.
—Eu lamento—, eu murmurei.
Para a minha surpresa, Jacob bufou. —Não diga isso a ele—.
—O que você quer dizer?—
—Quil não está procurando por pena. Pelo contrário - ele está contente. Simplesmente louco de felicidade—.
Isso não fazia sentido pra mim. Todos os outros lobos tinham estado tão deprimidos com a ideia do amigo deles dividir esse mesmo destino. —Huh?—
Jacob pendeu a cabeça de lado pra olhar pra mim. Ele sorriu e revirou os olhos.
—Quil acha que isso é a coisa mais legal que já aconteceu com ele. Agora ele já sabe realmente o que está acontecendo. E ele está feliz por ter os amigos de volta - por ser parte —do grupo—. Jacob bufou de novo. —Eu não devia estar surpreso, eu acho. Isso é tão Quil—.
—Ele gosta disso?—
—Honestamente... a maioria deles gosta—, Jacob admitiu lentamente. —Definitivamente têm lados bons nisso - a velocidade, a liberdade, a força... o sensação de - de família... Sam e eu somos os únicos que se sentem mal. E Sam já superou isso a muito tempo. Então agora eu sou o bebê chorão.— Jacob riu de si mesmo.
Haviam tantas coisas que eu queria saber. —Porque você e Sam são diferentes? O que aconteceu com Sam, afinal? Qual é o problema dele?— As perguntas iam escapando sem dar tempo pra uma resposta, e Jacob riu de novo.
—Essa é uma longa história—.
—Eu te contei uma longa história. Além do mais, eu não estou com pressa.— Eu disse, e depois fiz uma careta quando eu pensei no problema em que ia me meter.
Ele olhou pra mim rapidamente, ouvindo o tom de dúvida nas minhas palavras. —Ele vai ficar com raiva de você?—
—Sim—, eu admiti. —Ele realmente odeia quando eu faço coisas que ele considera... arriscadas—.
—Como andar com lobisomens—
—É—.
Jacob levantou os ombros. —Então não volte. Eu durmo no sofá—.
—Essa é uma ótima ideia— eu rosnei. —Porque aí ele ia vir procurar por mim—.
Jacob enrijeceu, e sorriu sem sinceridade. —Viria?—
—Se ele estivesse com medo de que eu fosse me machucar ou coisa assim - provavelmente—
—A minha ideia está parecendo melhor a cada segundo—.
—Por favor, Jake. Isso realmente me incomoda—
—O que?—
—Que vocês dois estejam tão prontos pra matar um ao outro!— eu reclamei. —Isso me deixa louca. Porque vocês dois não podem ser civilizados?—
—Ele está pronto pra me matar?— Jacob perguntou com um sorriso de zombaria, despreocupado com a minha raiva.
—Não como você parece estar!— eu me dei conta de que estava gritando. —Pelo menos ele consegue ser maturo em relação a isso. Ele sabe que te machucar ia me machucar - então ele nunca faria isso. Você não parece se importar com isso nem um pouco!—
—É, tá—, Jacob murmurou. —Estou certo de que ele é um pacificador—.
—Ugh!— eu puxei a minha mão da dele e empurrei a cabeça dele pra longe. Então eu puxei os meus joelhos para o meu peito e passei os meus braços com força ao redor deles.
Eu olhei para o horizonte, enfurecida.
Jacob ficou quieto por alguns minutos. Finalmente, ele levantou do chão e se sentou ao meu lado, colocando o braço ao redor do meu ombro. Eu o afastei.
—Desculpe—, ele disse baixinho.
—Eu vou tentar me comportar—.
Eu não respondi.
—Você quer ouvir sobre Sam?—, ele ofereceu.
Eu levantei os ombros.
—Como eu disse, é uma longa história. E muito... estranha. Existem muitas coisas estranhas sobre essa nova vida. Eu não tive tempo pra te contar nem a metade. E essa coisa com Sam - bem, eu não sei se serei capaz de explicar direito—.
As palavras dele eriçaram a minha curiosidade apesar da minha irritação.
—Eu estou ouvindo—, eu disse rigidamente.
Pelo canto do meu olho, eu vi os cantos da boca dele se levantarem em um sorriso.
—Sam e eu sofremos muito mais com isso do que os outros. Porque ele foi o primeiro, e ele estava sozinho, e ele não tinha ninguém pra dizê-lo o que estava acontecendo. O avô de Sam morreu antes que ele tivesse nascido, e o pai dele nunca esteve por perto. Não havia ninguém lá pra reconhecer os sinais. Na primeira vez que aconteceu - a primeira vez que ele se transformou - ele pensou que tinha enlouquecido. Ele levou duas semanas pra se acalmar o suficiente pra voltar ao normal.
—Isso foi antes de você vir a Forks, então você não poderia lembrar. A mãe de Sam e Leah Clearwater fizeram os guardas da floresta procurar ele, a polícia. As pessoas pensaram que ele tinha sofrido um acidente ou algo assim...—
—Leah—, eu perguntei, surpresa. Leah era a filha de Harry. Ouvir o nome mandou uma onda imediata de piedade por mim. Harry Clearwater, velho amigo de Charlie, tinha morrido de um ataque do coração na primavera passada.
A voz dele mudou, ficou mais pesada. —É. Leah e Sam eram namorados na escola. Eles começaram a namorar quando ela ainda era caloura. Ela ficou frenética quando ele desapareceu.—
—Mas ele e Emily -—
—Eu vou chegar lá - isso é parte da história—, ele disse. Ele inalou lentamente, e exalou com força.
Eu acho que eu tinha sido boba por pensar que Sam nunca havia amado ninguém além de Emily. A maioria das pessoas se apaixona e desapaixona tantas vezes na vida. É só que eu tinha visto Sam com Emily, e eu não conseguia imaginá-lo com mais ninguém.
O jeito como ele olhava pra ela... bem, isso me lembrava de um olhar que eu já tinha visto algumas vezes nos olhos de Edward - quando ele estava olhando pra mim.
—Sam voltou—, Jacob disse. —mas ele não disse a ninguém onde havia estado. Os rumores começaram a aparecer - de que ele não estava fazendo nada bom, em grande parte. E depois Sam se bateu com o avô de Quil quando o velho Quil Ateara veio visitar a Sra. Uley. Sam balançou a mão dele. O velho Quil quase teve um derrame—. Jacob parou pra rir.
—Porque?—
Jacob colocou a mão na minha bochecha e puxou meu rosto pra que eu pudesse olhar pra ele - ele estava inclinado na minha direção. A palma dele queimava a minha pele, como se ele estivesse com febre.
—Oh, certo—, eu disse. Eu estava desconfortável, tendo o meu rosto tão perto do dele e a mão quente dele na minha pele. —Sam estava com a temperatura alta—.
Jacob riu de novo. —Parecia que Sam tinha colocado a mão dele no fogão—.
Ele estava tão perto, que eu podia sentir a sua respiração quente. Eu alcancei casualmente, pra retirar a mão dele e libertar o meu rosto, mas entrelacei meus dedos com os dele pra não magoar seus sentimentos. Ele sorriu e se afastou, sem ser enganado com a minha tentativa de ser gentil.
—Então o Sr. Ateara foi até os anciões—, Jacob continuou. —Eles eram os únicos que haviam restado que ainda sabiam, ainda lembravam. O Sr. Ateara, Billy e Harry realmente haviam visto seus avôs se transformando. Quando o velho Quil os contou, eles se encontraram com Sam secretamente e explicaram.
—Foi mais fácil quando ele entendeu - quando ele não estava mais sozinho. Eles sabiam que ele não seria o único a ser afetado pela volta dos Cullen— - ele pronunciou o nome com uma acidez inconsciente - —mas ninguém mais era velho o suficiente. Então Sam esperou até que o resto de nós se juntasse a ele...—
—Os Cullen não tinham ideia—, eu disse em um sussurro. —Eles não sabiam que os lobisomens ainda existiam aqui. Eles não sabiam que vir aqui faria com que vocês mudassem—.
—Isso não muda o fato de que fez—
—Me lembre de não mexer com o seu lado ruim—.
—Você acha que eu devia perdoá-los como você? Nós não podemos ser todos Santos e Mártires—.
—Cresça, Jacob.—
—Eu queria poder—, ele murmurou baixinho.
Eu o encarei, tentando entender o sentido da frase dele. —O que?—
Jacob gargalhou. —Uma daquelas muitas coisas estranhas que eu mencionei—.
—Você... não pode... crescer?— eu disse vazia. —Você o que? Não vai... envelhecer? Isso é uma piada?—
—Nope—, ele estalou os lábios no P.
Eu senti o sangue escapando do meu rosto. Lágrimas - lágrimas de raiva - encheram os meus olhos. Os meus dentes rangeram, com um audível som incômodo.
—Bella? O que foi que eu disse?—
Eu estava de pé de novo, minhas mãos eram bolas nos meus pulsos, o meu corpo estava tremendo.
—Você. Não. Vai. Envelhecer—. Eu rugi por entre os dentes.
Jacob puxou o meu braço gentilmente, tentando me fazer sentar. —Nenhum de nós vai. Qual é o problema com você?—
—Eu sou a única que tem que ficar velha? Eu estou ficando mais velha a cada dia nojento!— eu praticamente gritei, jogando as mãos pra o ar. Uma parte de mim reconheceu que eu estava fazendo um escândalo Charlie-esco, mas essa parte racional estava dominada pela parte irracional. —Droga! Que espécie de mundo é esse? Onde está a justiça?—
—Pega leve, Bella—
—Cala a boca, Jacob. Só cala a boca! É tão injusto!—
—Você seriamente acabou de bater o pé? Eu pensei que as garotas só faziam isso na TV—.
Eu rosnei de forma não impressionante.
—Não é tão ruim quanto você pensa. Sente e eu vou explicar—.
—Eu vou ficar de pé—
Ele revirou os olhos. —Tá certo. O que você quiser. Mas escute, eu vou envelhecer... algum dia—.
—Explique—.
Ele deu um tapinha na árvore. Eu rosnei por um segundo, mas depois eu me sentei; meu temperamento melhorou tão rapidamente quanto tinha piorado e eu me acalmei o suficiente pra me dar conta que eu estava fazendo papel de boba.
—Quando nos tornarmos velhos o suficiente pra desistir...— Jacob disse. —Quando nós pararmos de nos transformar por uma sólida quantidade de tempo, nós envelheceremos de novo. Não é fácil—. Ele balançou a cabeça, abruptamente duvidoso. —Vai levar bastante tempo para aprender esse tipo de restrição, eu acho. Sam ainda nem chegou lá. É claro que não ajuda o fato de que há um enorme grupo de vampiros por perto. Nós não podemos nem pensar em desistir enquanto a tribo precisar de protetores. Mas você não devia ficar louca por causa disso, de qualquer forma, porque eu já sou mais velho de que você, fisicamente, pelo menos—.
—Do que é que você está falando?—
—Olha pra mim, Bells. Você acha que eu pareço ter dezesseis?—
Eu olhei para a estatura de mamute dele, tentando ser imparcial. —Não exatamente, eu acho—.
—Nem um pouco. Porque nós atingimos a maturidade máxima dentro de alguns meses quando o gene lobisomem é ativado. É um tremendo período de crescimento.— Ele fez uma cara. —Fisicamente, eu provavelmente tenho vinte e cinco ou coisa parecida. Então você não precisa se preocupar em ser velha demais pra mim por pelo menos sete anos—.
Vinte e cinco ou coisa assim. A ideia mexeu com a minha cabeça. Mas eu me lembrei daquele período de crescimento - eu me lembrei de observar ele crescer bem em frente aos meus olhos. Eu me lembrei de como ele parecia diferente todos os dias... eu balancei a minha cabeça, me sentindo tonta.
—Então, você quer ouvir sobre Sam, ou você quer gritar mais comigo por coisas que estão fora do meu controle?—
Eu respirei fundo. —Desculpa. Idade é um assunto complicado pra mim. Isso atacou meus nervos—.
Os olhos de Jacob estreitaram, como se ele estivesse tentando decidir a forma de falar alguma coisa.
Já que eu não queria falar sobre as coisas realmente complicadas pra mim - meus planos pra o futuro, ou os acordos que podiam ser quebrados por tais planos, eu fiz ele ir em frente.
—Então, quando Sam entendeu o que estava acontecendo, quando ele tinha Billy e Harry e o Sr. Ateara, você disse que não foi mais difícil. E, como você também disse, existem partes boas...— eu hesitei brevemente. —O que faz Sam odiá-los tanto? O que faz ele desejar que eu os odeie?—
Jacob suspirou. —Essa á a parte realmente estranha—.
—Eu sou profissional em coisas estranhas—.
—É, eu sei—. Ele riu antes de continuar. —Então, você está certa. Sam sabia o que estava acontecendo, e tudo estava meio que bem. Em maioria, a vida dele estava, bem, não normal. Mas melhor—. Aí a expressão de Jacob endureceu, como se alguma coisa dolorosa estivesse vindo. —Sam não podia contar a Leah. Nós não devemos contar a ninguém que não deva saber. E não era muito seguro ele estar perto dela - mas ele trapaceou, exatamente como eu fiz com você. Leah ficou furiosa por ele não contá-la o que estava acontecendo - onde ele havia estado, onde ele esteve a noite inteira, porque ele estava sempre tão exausto - mas eles estavam fazendo dar certo. Eles estavam tentando. Eles realmente se amavam—.
—Ela descobriu? Foi isso que aconteceu?—
Ele balançou a cabeça. —Não, esse não é o problema. A prima dela, Emily Young, veio da reserva de Makah pra fazer uma visitar ela num fim de semana—.
Eu sufoquei. —Emily é prima de Leah?—
—Prima de segundo grau. No entanto, elas são próximas. Elas eram como irmãs quando eram crianças.—
—Isso é... horrível. Como Sam pôde...?— eu parei, balançando minha cabeça.
—Não o julgue ainda. Alguém já te disse... Você já ouviu falar do imprinting?
Imprinting? — eu repeti a palavra estranha. — Não. O que significa?
— É uma daquelas coisas estranhas com as quais eu tenho que lidar. Isso não acontece com todo mundo. Na verdade, eu acho que é uma rara exceção, não uma regra. Até essa hora, Sam já havia ouvido todas as histórias, as histórias que todos nós costumávamos pensar que eram lendas. Ele ouviu da impressão, mas ele nunca sonhou que...
— O que é? — eu instiguei.
Os olhos de Jacob grudaram no oceano. —Sam amava Leah. Mas quando ele viu Emily, isso não importou mais. As vezes... nós não sabemos exatamente porque... nós encontramos as nossas parceiras assim—. Os olhos dele voltaram pra mim, o rosto dele ficando vermelho. —Eu quero dizer... as nossas almas gêmeas—.
—Que jeito? Amor à primeira vista?— eu ri silenciosamente.
Jacob não estava rindo. Os olhos dele estavam criticando a minha reação. —Isso é um pouco mais poderoso do que isso. Mais absoluto—.
—Desculpa—, eu murmurei. —Você estão falando sério, não está?—
—É, eu estou—.
—Amor à primeira vista? Mas mais poderoso?— A minha voz soava duvidosa, e ele podia ouvir isso.
—Não é fácil explicar. De qualquer forma, não importa—. Ele levantou os ombros indiferentemente. —Você queria saber o que aconteceu com Sam pra fazê-lo odiar os vampiros por fazer ele mudar, pra fazê-lo odiar a si mesmo. E foi isso que aconteceu. Ele partiu o coração de Leah. Ele teve que voltar atrás em todas as promessas que havia feito a ela. Todos os dias ele tem que ver a acusação nos olhos dela, e saber que ela está certa—.
Ele parou de falar abruptamente, como se ele tivesse dito alguma coisa que não devia ter dito.
—Como Emily lidou com isso? Se ela era tão próxima a Leah...?— Sam e Emily eram extremamente certos juntos, duas partes de quebra-cabeças, feitos um para o outro exatamente. Ainda assim... Como Emily ignorou o fato de que ele pertencia a outra pessoas? Quase a irmã dela.
—Ela ficou com muita raiva no início, mas era difícil resistir àquele nível de compromisso e adoração—. Jacob suspirou. —E depois, Sam pôde contar tudo pra ela. Não existem regras que te impeçam quando você realmente encontra a sua outra metade. Você sabe como ela se machucou?—
—Sei—. A história em Forks era de que ela tinha sido atacada por um urso, mas eu sabia do segredo.
Lobisomens são instáveis, Edward tinha dito. As pessoas próximas a eles se machucam.
—Bem, estranhamente o suficiente, isso foi meio que a forma como eles acertaram as coisas. Sam ficou tão horrorizado, tão enojado consigo mesmo, tão cheio de ódio pelo que ele havia feito... Ele teria se atirado na frente de um ônibus se isso fizesse com que ela se sentisse melhor. Ele deve ter feito do mesmo jeito, só pra escapar do que ele havia feito. Ele estava arrasado... Então, de alguma forma, era ela que estava confortando ele, e no fim das contas...—
Jacob não terminou o seu pensamento, e eu senti que a história tinha se tornado pessoal demais pra dividir.
—Pobre Emily—, eu sussurrei. —Pobre Sam. Pobre Leah...—
—É, Leah ficou com a pior parte—, ele concordou. —Ela faz cara de durona. Ela vai ser uma das damas de honra—.
Eu olhei pra longe, para as rochas pontudas que se erguiam do oceanos como se fossem dedos quebrados ao sul do porto, enquanto eu tentei entender o sentido disso tudo. Eu podia sentir os olhos dele no meu rosto, esperando que eu dissesse alguma coisa.
—Isso aconteceu com você?—, eu finalmente perguntei, ainda olhando pra longe. —Essa coisa de amor à primeira vista?—
—Não—, ele respondeu vivamente. —Sam e Jared são os únicos—.
—Hmm— eu disse, tentando soar educadamente interessada. Eu estava aliviada, e eu tentei explicar a minha reação para mim mesma. Eu decidi que eu só estava feliz que não havia nenhuma ligação mística, de lobos, entre nós. O nosso relacionamento já era confuso o suficiente do jeito que era. Eu não queria mais nada sobrenatural além daquilo com o que eu já tinha que lidar.
Ele estava quieto também, e o silêncio ficou um pouco estranho. A minha intuição me disse que eu não ia querer saber o que ele estava pensando.
—Como foi que isso funcionou pra Jared?— eu perguntei pra quebrar o silêncio.
—Nenhum drama aqui. Era só uma garota da qual ele passou o ano todo sentando perto na escola e ele nunca a olhou duas vezes. E depois, quando ele foi transformado, ele olhou pra ela e não conseguiu desviar o olhar—.
—Kim ficou muito feliz. Ela tinha uma enorme queda por ele. Ela tinha escrito o sobrenome dele depois do nome dela no diário dela inteiro—. Ele sorriu de zombaria.
Eu fiz uma careta. —Jared te contou isso? Ele não devia ter contado—.
Jacob mordeu o lábio. —Eu acho que não devia rir. No entanto, é engraçado—.
—Bela alma gêmea—.
Ele suspirou. —Jared não nos contou de propósito. Eu já te contei essa parte, lembra?—
—Oh, é. Vocês podem ouvir os pensamentos uns dos outros, mas só quando são lobos, certo?—
—Certo. Igual ao seu sugador de sangue—.
—Edward—, eu corrigi.
—Claro, claro. É assim que eu sei tanto sobre como Sam se sentiu. Não é como se ele fosse nos contar isso se ele tivesse escolha. Na verdade, isso é uma coisa que todos nós odiamos.— A acidez repentinamente endureceu a voz dele. —É horrível. Sem privacidade, sem segredos. Todas as coisas das quais você se envergonha, expostas pra todo mundo ver—. Ele estremeceu.
—Parece horrível—, eu sussurrei.
—Isso é útil quando nós precisamos nos coordenar—, ele disse carrancudo. —Uma vez a cada lua azul, quando um sugador de sangue ultrapassa o nosso território. Laurent foi divertido. E se os Cullen não tivessem ficado no nosso caminho no sábado passado... ugh!— ele rugiu. —Nós podíamos ter agarrado ela!— Os punhos dele viraram duas bolas raivosas.
Eu enrijeci. Mesmo me preocupando que Jasper ou Emmett se machucassem, isso não era nada comparado com o pânico que eu senti com a ideia de Jacob tentando enfrentar Victoria. Emmett e Jasper eram as duas coisas mais próximas do indestrutível que eu podia imaginar. Jacob ainda era quente, ainda era comparativamente humano. Mortal. Eu pensei em Jacob enfrentando Victoria, seu cabelo brilhante esvoaçando ao redor do seu rosto estranhamente felino... e estremeci.
Jacob olhou pra mim com uma expressão curiosa. —Mas não é assim pra você o tempo todo? Tendo ele em sua cabeça?—
—Oh, não. Edward nunca está em minha cabeça. Ele só deseja isso—.
A expressão de Jacob ficou confusa.
—Ele não pode me ouvir—, eu expliquei, a minha voz estava um pouco presumida por causa do hábito. —Eu sou a única que é assim pra ele. Nós não sabemos porque ele não pode—.
—Estranho—, Jacob disse.
—É—, a presunção desapareceu. —Isso provavelmente significa que tem alguma coisa errada com o meu cérebro—, eu admiti.
—Eu já sabia que tinha alguma coisa errada com o seu cérebro—, Jacob murmurou.
—Obrigada—.
O sol saiu do meio das nuvens de repente, uma surpresa que eu não estava esperando, e eu tive que apertar os meus olhos pra olhar para a água. Tudo tinha mudado de cor - as ondas mudaram de cinza para azul, as árvores de uma cor de oliva chata para um brilhante jade, e as pedrinhas com cor de arco-íris brilhavam como se fossem pedras preciosas.
Nós piscamos por um segundo, deixando os nossos olhos se ajustarem. Não havia nenhum som além do murmúrio das ondas que ecoavam de todos os lados do porto abrigado, o som suave das pedras batendo umas contra as outras a cada movimento que a água fazia, e o choro das gaivotas lá no alto. Era muito tranquilo.
Jacob se aproximou de mim, até que ele estava se inclinando no meu braço. Ele era tão quente. Depois de um minuto disso, eu tirei o meu casaco de chuva. Ele fez um sonzinho de contentamento no fundo da garganta, e descansou o seu queixo em cima da minha cabeça. Eu podia sentir o sol esquentando a minha pele - apesar dele não ser tão quente quanto Jacob. E eu me perguntei à toa quanto tempo eu levaria até me queimar.
Com a mente ausente, eu virei minha mão direita para o lado, e observei a minha pele brilhar subitamente na cicatriz que James havia me deixado lá.
—No que você está pensando?— ele murmurou.
—O sol—.
—Hmm. É legal—.
—No que você está pensando?—
Ele gargalhou para si mesmo. —Eu estava lembrando daquele filme idiota que você me levou. E de Mike Newton vomitando em tudo—.
Eu ri também, surpresa de ver como o tempo havia mudado aquela memória. Ela costumava ser uma memória de estresse, de confusão.
Tanta coisa mudou naquela noite... E agora eu podia rir. Essa foi a última noite que eu e Jacob havíamos tido antes que ele soubesse a verdade sobre a sua herança. A última memória humana. Uma memória estranhamente agradável agora.
—Eu senti falta disso—, Jacob disse. —Do jeito que isso costumava ser tão fácil... descomplicado. Eu estou feliz por ter uma boa memória—. Ele suspirou.
Ele sentiu a tensão repentina no meu corpo quando as memórias dele desencadearam as minha próprias memórias.
—O que foi?— ele perguntou?
—Sobre essa sua boa memória...— eu me separei dele pra que assim eu pudesse ver o seu rosto. No momento, ele estava confuso. —Você se importa de dizer o que você estava fazendo na segunda de manhã? Você estava pensando em alguma coisa que incomodou Edward—. Incomodaram não era exatamente a palavra pra isso, mas eu queria uma resposta, então eu achei que era melhor não começar muito severamente.
O rosto de Jacob brilhou com a compreensão, e ele riu. —Eu só estava pensando em você. Ele não gostou muito, não é?—
—Em mim? O que sobre mim?—
Jacob sorriu de novo, dessa vez com um tom mais duro. —Eu estava me lembrando do jeito como você estava na noite em que Sam te achou - eu vi isso na cabeça dele, e é como se eu estivesse lá; aquela memória sempre perseguiu Sam, sabe. E depois eu me lembrei de como você estava na primeira vez que foi na minha casa. Eu aposto que você não imagina a confusão que você estava na época, Bella. Levaram semanas até que você começasse a parecer humana de novo. E eu me lembrei de como você sempre costumava passar os braços ao redor de si mesma, tentando se manter inteira...— Jacob gemeu, e depois balançou a cabeça. —É difícil pra mim lembrar do quanto você estava triste, e não era minha culpa. Então eu me dei conta de que seria mais difícil pra ele. E eu pensei que ele devia dar uma olhada no que ele tinha feito—.
Eu bati no ombro dele. Isso machucou a minha mão. —Jacob Black, nunca mais faça isso de novo! Me prometa que você não vai—.
—De jeito nenhum. Eu não me divertia daquele jeito ha meses—.
—Então me ajude, Jake -—
—Oh, deixa dessa, Bella. Quando é que eu vou conseguir vê-lo de novo? Não se preocupe com isso—.
Eu fiquei de pé, e ele segurou a minha mão enquanto começamos a caminhar. Eu tentei me soltar.
—Eu vou embora, Jacob—.
—Não, não vá ainda—, ele protestou, a mão dele apertando a minha. —Me desculpe. E... está bem, eu não vou fazer aquilo de novo. Prometo—.
Eu suspirei. —Obrigada, Jake—.
—Vamos lá, vamos voltar para a minha casa—, ele disse ansiosamente.
—Na verdade, eu acho que eu realmente preciso ir. Ângela Weber está me esperando, e eu sei que Alice está preocupada. Eu não quero deixá-la muito chateada.—
—Mas você acabou de chegar aqui!—
—É o que parece—, eu concordei. Eu olhei para o sol, de alguma forma ele já estava diretamente à frente. Como o tempo tinha passado tão rapidamente?
As sobrancelhas dele se juntaram em cima dos seus olhos. —Eu não sei quando vou ver você de novo—, ele disse com uma voz machucada.
—Eu volto da próxima vez que ele estiver longe—, eu prometi impulsivamente.
—Longe?— Jacob rolou os olhos. —Essa é uma forma legal de descrever o que ele está fazendo. Parasitas nojentos—.
—Se você não consegue ser gentil, eu não vou voltar!— eu ameacei, tentando soltar a minha mão. Ele se recusou a soltar.
—Aw, não fique com raiva—, ele disse, rindo. —Reação instantânea—.
—Se eu vou tentar vir outra vez, você vai ter que entender bom uma coisa, certo?—
Ele esperou.
—Entenda—, eu expliquei. —Eu não me importo com quem é o vampiro e quem é o lobisomem. Isso é irrelevante. Você é Jacob, e ele é Edward, e eu sou Bella. Nada mais importa—.
Os olhos dele estreitaram um pouco. —Mas eu sou um lobisomem—, ele disse sem vontade. —E ele é um vampiro—, ele disse com óbvia repulsa.
—E eu sou do signo de Virgem!— eu gritei, exasperada.
Ele ergueu as sobrancelhas, medindo a minha expressão com olhos curiosos. Finalmente, ele ergueu os ombros.
—Se você realmente consegue ver dessa forma...—
—Eu consigo. Eu vejo.—
—Está bem. Simplesmente Bella e Jacob. Nada desses Virginianos esquisitos por aqui—. Ele sorriu pra mim, o sorriso cálido, familiar do qual eu sentia tanta falta. Eu senti o sorriso de resposta se abrindo no meu rosto.
—Eu realmente senti sua falta, Jake— Eu admiti impulsivamente.
—Eu também— o sorriso dele abriu mais. Os olhos dele estavam felizes e claros, livres pelo menos uma vez da raiva ácida. —Mais do que você sabe. Você vai voltar logo?—
—Assim que eu puder—, eu prometi.

11 comentários:

  1. Jacob é o personagem mais irritante da saga... Queria que ele morresse

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    1. Ai que horror
      Eu acho ele tão bonzinho

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    2. Alessandra Ferreira26 de janeiro de 2016 03:14

      Jacob é muito legal um dos melhores personagens

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    3. papai noel deve ter te dado carvão por causa deste pensamento maldoso!

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    4. Tanto Edward como Jacob São importantes na saga , sem o jake nao haveria a menor graça

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  2. Daí eu imagino como seria se o Jake tivesse um imprinting, como seria...

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  3. Só eu peguei a referência de Bella ?????

    "E eu sou do signo de VIRGEM !!!!!! " .

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    1. Kkkkkkkkkk... Será que percebemos a mesma coisa?

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  4. Eu amo o Jacob, ele ajudou tanto a bella quando ela mais precisou, na verdade não deveriam sentir ódio dele, ele merece ser bem tratado. Se não fosse por ele ela ainda estaria um zumbi e talvez Edward nunca teria voltado.
    Muito obrigada Karina por escrever <3

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  5. Eu acho engraçado que o único personagem que eu não gosto é a Bella.

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