28 de setembro de 2015

Capítulo 5 - Ilha de Esme

— Houston? — perguntei, erguendo minhas sobrancelhas quando chegamos ao portão em Seattle.
— Só uma escala — garantiu-me Edward com um sorriso.
Parecia-me que eu mal tinha dormido quando ele me acordou. Estava grogue enquanto ele me puxava pelos terminais, lutando para me lembrar como abrir os olhos a cada vez que piscava. Precisei de alguns minutos para perceber o que estava acontecendo quando paramos no balcão internacional para fazer o check-in de nosso próximo voo.
— Rio de Janeiro? — perguntei com um leve tremor.
— Outra escala — disse-me ele.
O voo para a América do Sul foi longo, mas confortável, no amplo assento da primeira classe, com os braços de Edward à minha volta. Dormi e acordei incomumente alerta enquanto fazíamos um contorno para o aeroporto com a luz do sol se pondo através das janelas do avião.
Não ficamos no aeroporto para pegar uma conexão, como eu esperava. Em vez disso, pegamos um táxi pelas ruas escuras, apinhadas e vivas do Rio. Incapaz de entender uma palavra das instruções em português que Edward dava ao taxista, imaginei que eram para encontrar um hotel antes da próxima parte da viagem. Uma pontada aguda de alguma coisa muito parecida com o pânico da estreia contorceu a boca de meu estômago enquanto eu pensava nisso. O táxi prosseguiu em meio ao enxame de gente até que de algum modo este se tornou menos denso, e nos aproximamos do mar.
Paramos em uma marina.
Edward seguiu na frente pela longa fila de iates ancorados na água escurecida pela noite. O barco diante do qual ele havia parado era menor do que os outros, mais estreito, obviamente construído para ser veloz, e não espaçoso. Ele saltou para o barco com agilidade, apesar das malas pesadas que carregava. Largou-as no convés e virou-se para me ajudar a transpor a borda.
Observei em silêncio enquanto ele preparava o barco para a partida, surpresa com a habilidade que demonstrava, pois ele nunca mencionara qualquer interesse em barcos. No entanto, ele era bom em quase tudo.
Enquanto seguíamos para o leste em mar aberto, analisei a geografia básica em minha mente. Pelo que eu podia me lembrar, não havia muito a leste do Brasil... até que se chegasse à África.
Mas Edward acelerava enquanto as luzes do Rio diminuíam, e por fim sumiram atrás de nós. Em seu rosto havia um sorriso de extrema felicidade que eu conhecia, aquele produzido por qualquer forma de velocidade. O barco mergulhava nas ondas e eu era borrifada com a água do mar.
Por fim a curiosidade que reprimi por tanto tempo me venceu.
— Vamos muito mais longe? — perguntei.
Não era próprio dele se esquecer de que eu era humana, mas me perguntei se pretendia que morássemos naquele pequeno barco por algum tempo.
— Mais quatro horas. — Seus olhos pousaram em minhas mãos, agarradas no banco, e ele sorriu.
Ah, bem, pensei comigo mesma. Ele era um vampiro, afinal. Talvez estivéssemos indo para a Atlântida.
Algum tempo depois, ele chamou meu nome acima do rugido do motor.
— Bella, olhe lá.
E apontou à frente.
De início, vi apenas escuridão e a trilha da lua branca na água. Mas procurei no espaço para onde ele apontava até que encontrei uma forma escura interrompendo o luar nas ondas. Enquanto eu semicerrava os olhos no escuro, a silhueta se tornava mais detalhada. A forma cresceu num triângulo irregular e achatado, com um lado estendendo-se mais do que o outro antes de mergulhar nas ondas. Chegamos mais perto e pude ver que o contorno oscilava na brisa leve.
E então meus olhos focalizaram de novo e as partes fizeram sentido: uma pequena ilha se elevava na água à nossa frente, ondulando com palmeiras, uma praia clara à luz da lua.
— Onde estamos? — murmurei pasma enquanto ele mudava de curso, indo para o extremo norte da ilha.
Ele me ouviu, apesar do barulho do motor, e deu um sorriso largo que cintilou no luar.
— Esta é a Ilha de Esme.
A velocidade do barco foi reduzida drasticamente, e ele foi precisamente posicionado contra um píer curto de pranchas de madeira, embranquecidas pela lua. O motor foi desligado e o silêncio que se seguiu foi profundo. Não havia nada a não ser as ondas batendo de leve no barco e o farfalhar da brisa nas palmeiras. O ar era quente, úmido e fragrante – como o vapor que fica de um banho quente.
— Ilha de Esme? — minha voz era baixa, mas ainda parecia alta demais ao romper a noite silenciosa.
— Um presente de Carlisle... Esme se ofereceu para nos emprestar.
Um presente. Quem dá uma ilha de presente? Franzi a testa. Não tinha percebido que a generosidade extrema de Edward era um comportamento aprendido.
Ele colocou as malas no píer e se virou, abrindo seu sorriso perfeito enquanto estendia a mão para mim. Em vez de pegar minha mão, ele me puxou direto para seus braços.
— Não devia esperar pelo momento de passar pela soleira da porta? — perguntei, sem fôlego, enquanto ele saltava agilmente do barco.
Ele sorriu.
— Tudo o que faço tem de ser completo.
Pegando as alças das malas imensas em uma das mãos e me aninhando com o outro braço, ele me carregou pelo píer até uma trilha de areia clara em meio à vegetação escura.
Por um instante a vegetação densa tornou-se um breu, depois pude ver uma luz à frente. Foi mais ou menos a essa altura, quando percebi que a luz era uma casa – os dois quadrados brilhantes e perfeitos eram janelas amplas emoldurando uma porta de entrada – que o pânico de estreia atacou de novo, mais forte que antes, pior do que quando pensei que íamos para um hotel.
Meu coração martelava audivelmente em minhas costelas, e minha respiração pareceu ficar presa na garganta. Senti os olhos de Edward em meu rosto, mas me recusei a olhá-lo. Olhava para a frente, sem nada ver.
Ele não perguntou o que eu estava pensando, o que era incomum nele. Imaginei que isso queria dizer que ele estava tão nervoso quanto eu acabara de ficar.
Pousou as malas na varanda para abrir as portas – estavam destrancadas. Olhou para mim, esperando até que eu o olhasse, antes de passar pela soleira.
Ele me carregou pela casa, nós dois em silêncio, acendendo as luzes ao passar. Minha vaga impressão da casa era de que era muito grande para uma ilha tão pequena, e estranhamente familiar. Eu havia me acostumado com o esquema de tons claros preferido dos Cullen; e me senti em casa. Mas não conseguia me concentrar em nenhum detalhe. A pulsação violenta por trás de meus ouvidos toldava tudo.
Depois Edward parou e acendeu a última luz.
O quarto era grande e branco, e a parede do fundo era quase toda de vidro – a decoração padrão de meus vampiros. Lá fora, a lua brilhava na areia branca, e a alguns metros da casa as ondas reluziam, mas eu mal percebi essa parte. Estava mais concentrada na cama branca absolutamente imensa no meio do quarto, com um mosquiteiro, como uma nuvem ondulante, pendendo do teto.
Edward me colocou de pé.
— Eu vou... pegar a bagagem.
O quarto era quente demais, mais abafado do que a noite tropical do lado de fora. Uma gota de suor surgiu em minha nuca. Avancei lentamente até poder estender a mão e tocar a tela que lembrava uma espuma. Por algum motivo, senti necessidade de me certificar de que tudo era real.
Não ouvi Edward voltar. De repente, seu dedo gélido acariciou minha nuca, limpando a gota de suor.
— Está meio quente aqui — disse ele, desculpando-se. — Pensei que... seria melhor.
— Perfeito — murmurei à meia-voz, e ele riu.
Foi um som nervoso, raro para Edward.
— Tentei pensar em tudo o que pudesse tornar isso... mais fácil — admitiu ele.
Engoli em seco, com um ruído, ainda sem olhar para ele. Será que algum dia tinha havido uma lua de mel como aquela? Eu sabia a resposta. Não. Nunca houve.
— Seria maravilhoso — disse Edward lentamente — se... primeiro... talvez quem sabe você não quisesse dar um mergulho noturno comigo? — Ele respirou fundo e sua voz estava mais tranquila quando falou novamente. — A água é muito quente. Esse é o tipo de praia que você aprova.
— Parece bom. — Minha voz falhou.
— Sei que você gostaria de um ou dois minutos como humana... Foi uma longa viagem.
Balancei a cabeça, sem jeito. Mal me sentia humana; talvez alguns minutos sozinha ajudasse.
Seus lábios roçaram meu pescoço, pouco abaixo da orelha. Ele riu uma vez e seu hálito frio fez cócegas em minha pele quente demais.
— Não demore muito, Sra. Cullen.
Tive um leve sobressalto ao ouvir meu próprio nome. Os lábios dele contornaram meu pescoço até a ponta do ombro.
— Vou esperar por você na água.
Ele passou por mim até as portas de madeira com frestas, que se abriam diretamente para a praia. No caminho, livrou-se da camisa, largando-a no chão; depois passou pela porta para a noite enluarada. O ar salgado e abafado entrou no quarto, girando atrás dele.
Será que minha pele estava em chamas? Precisei olhar para saber. Não, nada estava queimando. Pelo menos, não visivelmente.
Lembrei a mim mesma de que devia respirar, depois cambaleei até a mala gigantesca que Edward abrira no alto de uma cômoda branca e baixa. Devia ser minha, porque minha familiar nécessaire estava por cima, e havia muita coisa rosa ali, mas não reconheci nenhuma peça de roupa. Enquanto vasculhava as pilhas organizadas – procurando alguma coisa conhecida e confortável, um moletom velho, talvez – chamou minha atenção que havia muita renda e pouco cetim em minhas mãos. Lingerie. Uma lingerie muito lingerie, com etiquetas francesas.
Eu não sabia como nem quando, mas um dia faria Alice pagar por aquilo.
Desisti. Fui ao banheiro e espiei pelas longas janelas que se abriam para a mesma praia que via pelas portas do quarto. Não conseguia enxergá-lo; imaginei que estivesse embaixo d'água, sem se incomodar em subir para respirar. No céu, a lua estava torta, quase cheia, e a areia reluzia branca sob sua luz. Um pequeno movimento atraiu meus olhos – pendurado numa parte curva de uma das palmeiras que margeavam a praia, o resto de suas roupas balançava na brisa leve.
Uma lufada de calor percorreu minha pele novamente.
Respirei fundo algumas vezes e fui até o espelho acima da longa bancada. Eu tinha mesmo a aparência de alguém que dormira num avião o dia todo. Encontrei minha escova e a passei pelos nós em minha nuca até que se desfizeram, e as cerdas ficaram cheias de cabelo. Escovei os dentes meticulosamente, duas vezes. Depois lavei o rosto e borrifei água em minha nuca, que parecia febril. A sensação era tão boa que lavei os braços também, e finalmente desisti e decidi tomar um banho. Eu sabia que era ridículo tomar banho antes de nadar, mas eu precisava me acalmar, e a água quente era uma forma segura de conseguir isso.
Além de tudo, parecia uma boa ideia depilar minhas pernas mais uma vez.
Quando terminei, peguei uma toalha branca imensa na bancada e a enrolei sob os braços.
Então me vi diante de um dilema que não tinha considerado. O que eu devia vestir? Não um maiô, naturalmente. Mas parecia tolice também colocar a roupa de volta; eu não queria nem pensar nas coisas que Alice pusera na mala para mim.
Minha respiração começou a se acelerar de novo, e minhas mãos tremiam – aquilo era muito para o efeito calmante do chuveiro. Comecei a me sentir meio tonta. Ao que parecia, uma crise de pânico estava a caminho. Sentei-me no chão de ladrilhos frios com minha toalha grande e pus a cabeça entre os joelhos. Rezei para que ele não decidisse voltar para me procurar antes que eu conseguisse me recompor. Podia imaginar o que ele pensaria se me visse naquele estado de choque. Não seria difícil para ele se convencer de que estávamos cometendo um erro.
E eu não estava em pânico porque pensava que tínhamos cometido um erro. De forma alguma. Estava em pânico porque não tinha ideia de como fazer aquilo, e tinha medo de sair do quarto e enfrentar o desconhecido. Ainda mais de lingerie francesa! Eu sabia que ainda não estava pronta para aquilo.
A sensação era exatamente a mesma de andar pelo palco de um teatro cheio de gente sem ter ideia de quais eram as minhas falas.
Como as pessoas faziam isso – engoliam todos os medos e confiavam tão implicitamente em alguém, com toda a imperfeição e o medo que tinham – com menos do que o compromisso absoluto que Edward me dera? Se não fosse Edward lá fora, se eu não soubesse em cada célula de meu corpo que ele me amava tanto quanto eu o amava – incondicional e irrevogavelmente e, para ser franca, de forma irracional –, eu nunca seria capaz de me levantar daquele chão.
Mas era Edward lá fora, então sussurrei as palavras "Não seja covarde" e com dificuldade me coloquei de pé. Prendi a toalha com firmeza sob os braços e marchei decidida para fora do banheiro, passando sem olhar pela mala cheia de renda e a grande cama. Pela porta de vidro aberta e pela areia fina como pó.
Tudo estava em preto e branco, descorado pela lua. Andei devagar pela areia quente, parando ao lado da árvore curva onde ele tinha deixado as roupas. Pousei a mão no tronco áspero e verifiquei minha respiração para ter certeza de que estava regular. Ou regular o suficiente.
Olhei pelas ondas baixas, negras na escuridão, procurando por ele.
Não foi difícil encontrá-lo. Estava de pé, de costas para mim, com a água na altura da cintura, fitando a lua oval. O luar pálido transformava sua pele num branco perfeito, como a areia, como a própria lua, e deixava negro como o oceano seu cabelo molhado. Ele estava imóvel, as mãos com as palmas repousando na água; as ondas baixas quebravam em torno dele como se ele fosse uma pedra. Olhei as linhas suaves de suas costas, os ombros, os braços, o pescoço, sua forma impecável...
O fogo não era mais de chamas ardendo por minha pele – agora era lento e profundo; e derreteu todo o meu constrangimento, minha tímida incerteza. Tirei a toalha sem hesitar, deixando-a na árvore com as roupas dele, e andei em direção à luz branca; ela também me deixou pálida como a areia alva.
Eu não ouvia o som de meus passos enquanto andava até a beira d'água, mas sabia que ele tinha ouvido. Edward não se virou. Deixei que as ondas delicadas quebrassem nos dedos de meus pés e descobri que ele tinha razão sobre a temperatura – era bem quente, como a água de um banho. Avancei, andando com cuidado pelo solo invisível do mar, mas meu cuidado era desnecessário; a areia continuava perfeitamente lisa, inclinando-se delicadamente até Edward.
Atravessei a fraca correnteza até estar ao lado dele e coloquei a mão de leve em sua mão fria, mergulhada na água.
— Lindo — eu disse, olhando a lua também.
— Está tudo perfeito — respondeu ele, sem se impressionar.
Então ele se virou devagar para me olhar; seu movimento criou pequenas marolas, que quebraram em minha pele. Seus olhos pareciam prateados no rosto cor de gelo. Ele virou a mão para cima para entrelaçarmos os dedos sob a água, quente o bastante para que sua pele fria não me provocasse arrepios.
— Mas eu não usaria a palavra lindo — continuou ele. — Não com você aqui para comparar.
Abri um meio sorriso, depois ergui a mão livre – que agora não tremia – e a coloquei sobre seu coração. Branco no branco; combinávamos, dessa vez. Ele estremeceu um pouquinho com meu toque quente. Sua respiração agora era mais irregular.
— Prometi que iríamos tentar — sussurrou ele, tenso de repente. — Se... se eu fizer alguma coisa errada, se eu machucá-la, você deve me dizer na hora.
Assenti solenemente, mantendo os olhos nos dele. Dei outro passo pelas ondas e deitei a cabeça em seu peito.
— Não tenha medo — murmurei. — Nós pertencemos um ao outro.
De repente fui dominada pela verdade de minhas palavras. Aquele momento era tão perfeito, tão correto, que não havia dúvidas. Seus braços me envolveram, apertando-me contra ele, verão e inverno. Eu tinha a sensação de que cada terminação nervosa do meu corpo era um fio desencapado.
— Para sempre — concordou ele, depois me levou com delicadeza para águas mais profundas.


O sol quente na pele nua de minhas costas me despertou de manhã. Era o fim da manhã, talvez já tivesse passado do meio-dia, eu não tinha certeza. Mas tudo a meu lado estava claro; eu sabia exatamente onde estava – o quarto iluminado com a cama grande e branca, a luz radiante entrando pelas portas abertas. A nuvem do mosquiteiro atenuava o brilho.
Não abri os olhos. Estava feliz demais para mudar alguma coisa, por menor que fosse. Os únicos sons eram as ondas do lado de fora, nossa respiração, meu coração batendo...
Eu estava à vontade, mesmo com o sol escaldante. Sua pele fria era o antídoto perfeito para o calor. A sensação de deitar atravessada em seu peito gélido, os braços dele me envolvendo, era muito confortável e natural. Perguntei-me preguiçosamente por que tinha sentido tanto medo da noite anterior. Ali todos os meus temores pareciam tolos.
Seus dedos acompanhavam com suavidade os contornos de minha coluna e eu sabia que ele sabia que eu estava acordada. Mantive os olhos fechados e envolvi seu pescoço com os braços, aproximando-me mais dele.
Ele não falou; seus dedos subiam e desciam por minhas costas, mal me tocando enquanto traçavam padrões leves em minha pele.
Eu teria ficado feliz se permanecesse ali para sempre, se jamais perturbasse aquele momento, mas meu corpo tinha outras ideias. Ri de meu estômago impaciente. Parecia um pouco sem sentido ter fome depois de tudo o que acontecera à noite. Era como ser trazida de volta à terra, de uma grande altitude.
— Qual é a graça? — ele murmurou, ainda afagando minhas costas.
O som de sua voz, séria e rouca, trouxe um dilúvio de lembranças da noite, e senti meu rosto e meu pescoço corando.
Em resposta à pergunta dele, meu estômago roncou. Eu ri de novo.
— Não se pode fugir de ser humana por muito tempo.
Esperei, mas ele não riu comigo. Devagar, através das muitas camadas de êxtase que toldavam minha mente, veio a percepção de um clima diferente, o lado de fora de minha esfera de felicidade.
Abri os olhos. A primeira coisa que vi foi a pele pálida e quase prateada de seu pescoço, o arco do queixo acima de meu rosto. Seu queixo estava rígido. Apoiei-me no cotovelo para ver seu rosto.
Ele fitava o dossel no alto, e não olhou para mim enquanto eu examinava suas feições graves. Sua expressão foi um choque – e provocou um tremor por meu corpo.
— Edward — eu disse, com um travo estranho na garganta —, o que foi? Qual é o problema?
— Precisa perguntar? — Sua voz era dura e cínica.
Meu primeiro instinto, o produto de uma vida inteira de inseguranças, foi imaginar o que eu tinha feito de errado. Pensei em tudo o que havia acontecido, mas não consegui encontrar na memória uma nota amarga que fosse. Tinha sido tudo mais simples do que eu esperava: nós nos encaixamos como peças que se complementam, feitas uma para a outra. Isso me deu uma satisfação secreta – éramos fisicamente compatíveis, assim como em todos os outros aspectos. Fogo e gelo, de certo modo, existindo juntos, sem se destruir. Mais provas de que eu pertencia a ele.
Não conseguia pensar em nada que pudesse tê-lo deixado daquele jeito – tão severo e frio. O que eu havia deixado passar?
Seu dedo alisou as rugas de preocupação em minha testa.
— Em que está pensando? — sussurrou ele.
— Você está aborrecido. Não entendo. Será que eu...? — Não consegui terminar.
Seus olhos se estreitaram.
— Qual a extensão de seus machucados, Bella? A verdade... Não tente atenuá-la.
— Machucados? — repeti; minha voz saiu mais alta que o habitual porque a palavra me pegou de surpresa.
Ele ergueu uma sobrancelha, os lábios formando uma linha fina. Fiz uma avaliação rápida, esticando o corpo automaticamente, contraindo e flexionando os músculos. Havia um pouco de rigidez e estava dolorido, era verdade, mas principalmente havia a estranha sensação de que todos os meus ossos tinham se separado das articulações e eu estava a meio caminho da consistência de uma gelatina. Não era uma sensação desagradável.
E depois fiquei com um pouco de raiva, porque ele estava manchando a mais perfeita das manhãs com suas suposições pessimistas.
— Por que chegou a essa conclusão? Estou melhor do que nunca.
Seus olhos se fecharam.
— Pare com isso.
— Parar com o quê?
— Pare de agir como se eu não fosse um monstro por ter concordado com isso.
— Edward! — sussurrei, agora verdadeiramente aborrecida. Ele estava empurrando minhas lembranças luminosas para a escuridão, maculando-as. — Não diga uma coisa dessas.
Ele não abriu os olhos; era como se não quisesse me ver.
— Olhe para si mesma, Bella. Depois me diga se não sou um monstro.
Magoada, chocada, segui suas instruções sem pensar e arfei.
O que havia acontecido comigo? Eu não conseguia entender a camada branca e penugenta que se grudava em minha pele. Sacudi a cabeça, e uma cascata branca caiu de meu cabelo. Peguei um pedaço macio e branco entre os dedos. Era uma pluma.
— Por que estou coberta de plumas? — perguntei, confusa.
Ele suspirou, com impaciência.
— Eu mordi um travesseiro. Ou dois. Mas não é disso que estou falando.
— Você... mordeu um travesseiro? Por quê?
— Olhe, Bella! — ele quase rosnou. Então pegou minha mão, com muito cuidado, e estendeu meu braço. — Olhe isto.
Dessa vez, vi do que ele falava.
Sob a poeira de plumas, grandes hematomas arroxeados começavam a brotar na pele clara de meu braço. Meus olhos seguiram a trilha que formavam até meu ombro, descendo depois por minhas costelas. Puxei a mão livre para cutucar uma descoloração no braço esquerdo, observando-a sumir onde eu tocava e depois reaparecer. Latejava um pouco.
Com tanta suavidade que mal me tocava, Edward colocou a mão sobre os hematomas de meu braço, um de cada vez, acompanhando com seus dedos longos o desenho na pele.
— Ah! — eu disse.
Tentei me lembrar daquilo – lembrar da dor – mas não consegui. Não me recordava de nenhum momento em que seu abraço tivesse sido apertado demais, as mãos duras demais em mim. Só me lembrava de querer que ele me abraçasse com mais força e de ficar satisfeita quando ele o fazia...
— Eu... Me desculpe, Bella — sussurrou ele enquanto eu olhava os hematomas. — Eu devia saber. Não devia ter... — Ele emitiu um som baixo e revoltado no fundo da garganta. — Lamento mais do que posso dizer.
Ele escondeu o rosto com o braço e ficou completamente imóvel.
Permaneci sentada por um longo tempo em total perplexidade, tentando confrontar – agora que compreendia – a infelicidade dele. Era tão contrária ao modo como me sentia, que era difícil de entender.
O choque cedeu aos poucos, sem nada deixar em sua ausência. Vazio. Minha mente estava oca. Não conseguia pensar no que dizer. Como poderia explicar a ele do jeito certo? Como poderia fazê-lo feliz como eu estava – ou estivera, um minuto antes?
Toquei seu braço, e ele não reagiu. Segurei seu pulso e tentei afastar o braço do rosto, mas teria dado na mesma se eu estivesse puxando uma estátua.
— Edward.
Ele não se mexeu.
— Edward?
Nada. Então, seria um monólogo.
— Eu não lamento nada, Edward. Eu... nem posso lhe dizer. Estou tão feliz. Esta palavra não abrange tudo. Não fique com raiva. Não fique. Eu estou realmente b...
— Não diga a palavra bem. — Sua voz era fria como gelo. — Se valoriza minha sanidade, não diga que está bem.
— Mas eu estou — sussurrei.
— Bella — ele quase gemia. — Não faça isso.
— Não. Não faça você, Edward. — Ele mexeu o braço; seus olhos dourados me observavam com cautela. — Não estrague isso — eu disse a ele. — Eu. Estou. Feliz.
— Eu já estraguei tudo — sussurrou ele.
— Sem essa — rebati.
Ouvi seus dentes trincarem.
— Argh! — gemi. — Por que não pode ler minha mente agora? É tão inconveniente ser mentalmente muda!
Seus olhos se abriram um pouco, distraídos, contra a sua vontade.
— Essa é nova. Você adora o fato de eu não poder ler sua mente.
— Hoje não.
Ele me fitou.
— Por quê?
Joguei as mãos para cima, num gesto de frustração, sentindo no ombro uma dor que ignorei. Minhas palmas caíram em seu peito com um estalo agudo.
— Porque toda essa angústia seria completamente desnecessária se você pudesse ver como me sinto agora! Cinco minutos atrás, melhor dizendo. Eu estava perfeitamente feliz. Em um êxtase total e completo. Agora... bem, estou meio irritada, na verdade.
— Você devia estar com raiva de mim.
— E estou. Isso faz com que se sinta melhor?
Ele suspirou.
— Não. Não acho que alguma coisa vá fazer com que eu me sinta melhor agora.
— Ai está — rebati. — É exatamente por isso que estou com raiva. Você está acabando com minha felicidade, Edward.
Ele revirou os olhos e sacudiu a cabeça. Respirei fundo. Agora sentia mais a dor, mas não era tão ruim. Uma sensação parecida com a do dia seguinte a uma malhação pesada. Fiz isso com Renée durante uma de suas obsessões com a forma física. Sessenta e cinco séries com cinco quilos em cada mão. Eu não conseguia andar no dia seguinte. O que eu sentia agora não era nem a metade daquela dor.
Engoli minha irritação e tentei suavizar a voz.
— Nós sabíamos que seria difícil. Pensei que isso estivesse claro. E depois... Bom, foi muito mais fácil do que pensei. E isso não é realmente nada. — Passei os dedos pelo braço. — Acho que para uma primeira vez, sem saber o que esperar, foi maravilhoso. Com alguma prática...
Sua expressão de repente ficou tão lívida, que parei no meio da frase.
— Claro. Você esperava por isso, Bella? Estava prevendo que eu ia machucá-la? Estava pensando que seria pior? Você considera a experiência um sucesso porque pode sair dela andando? Nenhum osso quebrado... isso corresponde à vitória?
Esperei, deixando que ele desabafasse. Depois esperei mais um pouco, para que a respiração dele voltasse ao normal. Quando seus olhos estavam calmos, respondi, falando com uma calma precisão:
— Não sei o que esperava... Mas, sem dúvida, não esperava que fosse... que fosse... tão maravilhoso e perfeito. — Minha voz tornou-se um sussurro, meus olhos baixaram de seu rosto para minhas mãos. — Quer dizer, não sei como foi para você, mas foi assim para mim.
Um dedo frio puxou meu queixo para cima.
— É com isso que está preocupada? — disse ele entre os dentes. — Que eu não tenha gostado?
Mantive a cabeça baixa.
— Sei que não foi a mesma coisa. Você não é humano. Só estava tentando explicar que, para uma humana, bom, não imagino que a vida possa ser melhor do que isso.
Ele ficou em silêncio por tanto tempo que, por fim, tive de olhar. Seu rosto agora era mais suave, pensativo.
— Parece que tenho mais motivos para me desculpar. — Ele franziu o cenho. — Nem imaginei que você pudesse achar que o que sinto quanto ao que lhe fiz signifique que a noite passada não tenha sido... bem, a melhor noite de minha existência. Mas não quero pensar dessa maneira, não quando você estava...
Meus lábios se curvaram um pouco nas pontas.
— É mesmo? A melhor? — perguntei em voz baixa.
Ele pegou meu rosto entre as mãos, ainda introspectivo.
— Conversei com Carlisle depois de fazermos nosso trato, na esperança de que ele pudesse me ajudar. É claro que ele me alertou que seria muito perigoso para você. — Uma sombra cruzou o seu rosto. — Mas ele tinha fé em mim... Uma fé que eu não merecia.
Comecei a protestar, e ele pôs dois dedos em meus lábios antes que eu pudesse comentar.
— Também perguntei a ele o que eu devia esperar. Eu não sabia como seria para mim... Sendo eu um vampiro. — Ele abriu um sorriso desanimado. — Carlisle me disse que era uma coisa muito poderosa, diferente de tudo. Disse-me que o amor físico era algo que eu não devia tratar com leviandade. Com nosso temperamento que raras vezes muda, as emoções fortes podem nos alterar de maneira permanente. Mas ele disse que eu não precisava me preocupar com essa parte... Você já havia me alterado completamente. — Dessa vez seu sorriso foi mais autêntico. — Falei com meus irmãos também. Eles me disseram que era um imenso prazer. Só perdia para beber sangue humano. — Uma ruga vincou sua testa. — Mas eu provei seu sangue, e não pode haver sangue mais poderoso do que esse... Não acho que eles estivessem errados. É só que foi diferente para nós. Teve um algo a mais.
— Foi mais. Foi tudo.
— Isso não muda o fato de que foi errado. Mesmo que seja possível que você realmente se sinta assim.
— O que isso significa? Acha que estou inventando? Por quê?
— Para atenuar minha culpa. Não posso ignorar as provas, Bella. Ou seu histórico de tentar me desculpar quando cometo erros.
Peguei seu queixo e inclinei-me para a frente, de modo que nossos rostos ficaram a centímetros de distância.
— Agora me escute, Edward Cullen, não estou fingindo nada para o seu bem, está certo? Eu nem sabia que havia um motivo para fazer você se sentir melhor até você começar a ficar todo infeliz. Eu nunca fui tão feliz em toda a minha vida... Nem quando você decidiu que me amava mais do que queria me matar, ou na primeira manhã em que acordei e você estava lá esperando por mim... Nem quando ouvi sua voz no estúdio de balé. — Ele se encolheu com a velha lembrança de meu encontro quase fatal com um vampiro caçador, mas eu não parei. — Ou quando você disse “Sim” e eu percebi que, sabe-se lá como, teria você para sempre. Essas são as lembranças mais felizes que tenho, e isso é melhor do que qualquer uma delas. Então trate de aceitar.
Ele tocou a ruga entre minhas sobrancelhas.
— Estou deixando você infeliz agora. E não quero fazer isso.
— Então não fique você infeliz. É a única coisa errada aqui.
Seus olhos se estreitaram, depois ele respirou fundo e assentiu.
— Tem razão. O que passou, passou e não posso fazer nada para mudá-lo. Não tem sentido deixar que meu humor estrague seu momento. Vou fazer o que puder para deixá-la feliz agora.
Examinei seu rosto com desconfiança, e ele me abriu um sorriso sereno.
— Qualquer coisa que me faça feliz?
Meu estômago roncou ao mesmo tempo que eu falava.
— Você está com fome — disse ele.
Então saltou da cama, levantando uma nuvem de plumas. E isso me lembrou de uma coisa.
— Mas por que exatamente você decidiu arruinar os travesseiros de Esme? — perguntei, agitando o cabelo e liberando mais plumas.
Ele já tinha vestido uma calça cáqui larga, e estava na porta, sacudindo o cabelo e tirando dele algumas penas.
— Não sei se eu decidi fazer alguma coisa ontem à noite — murmurou. — Tivemos sorte por serem os travesseiros, e não você.
Ele respirou fundo e balançou a cabeça, como se tentasse expulsar a ideia sombria. Um sorriso que parecia autêntico abriu-se em seu rosto, mas acho que foi preciso muito esforço para colocá-lo ali.
Deslizei com cuidado da cama alta e me espreguicei, mais ciente, agora, das dores e dos hematomas. Ouvi-o ofegar. Ele desviou os olhos de mim e suas mãos se fecharam contraindo-se e deixando as articulações brancas.
— Estou assim tão horrível? — perguntei, esforçando-me para manter o tom leve.
Sua respiração voltou ao normal, mas ele não se virou, provavelmente para esconder de mim sua expressão. Fui até o banheiro me olhar.
Fitei-me nua no espelho de corpo inteiro atrás da porta.
Não estava tão mal assim. Havia uma leve sombra em uma das bochechas e meus lábios estavam meio inchados, mas, tirando isso, meu rosto estava bem. O restante de mim estava decorado com manchas azuis e roxas. Concentrei-me nos hematomas que seriam mais difíceis de esconder – nos braços e nos ombros. Não estavam tão ruins. Minha pele ficava marcada com facilidade. Quando surgia um hematoma, em geral eu já havia me esquecido de como o conseguira. É claro que aqueles ainda estavam se formando. Estariam piores no dia seguinte. E isso não tornaria as coisas mais fáceis.
Olhei meu cabelo, então, e gemi.
— Bella? — Ele estava bem atrás de mim assim que emiti o som.
— Eu nunca vou conseguir tirar tudo isso do meu cabelo!
Apontei para minha cabeça, onde parecia que uma galinha estava aninhada. Comecei a tirar as penas.
— Tinha de ficar preocupada com o cabelo — murmurou ele, mas veio se colocar atrás de mim, pegando as penas com muito mais rapidez.
— Como conseguiu não rir disso? Eu estou ridícula.
Ele não respondeu; só continuou puxando-as. E eu sabia a resposta – não havia nada engraçado para ele, com aquele humor.
— Isso não vai dar certo — suspirei depois de um minuto. — Está tudo ressecado. Vou ter de lavar. — Eu me virei, passando os braços em sua cintura fria. — Quer me ajudar?
— É melhor encontrar alguma coisa para você comer — disse ele em voz baixa, e gentilmente soltou-se de meus braços.
Suspirei enquanto ele desaparecia, rápido demais. Parecia que minha lua de mel tinha chegado ao fim. Esse pensamento formou um nó imenso em minha garganta.
Quando estava quase totalmente livre das plumas e com um vestido de algodão branco desconhecido que escondia o pior das manchas violeta, segui descalça para o local de onde vinha o cheiro de ovos, bacon e queijo cheddar.
Edward estava parado diante do fogão de aço inox, deslizando uma omelete para o prato azul-claro que aguardava na bancada. O cheiro da comida me dominou. Achei que seria capaz de comer também o prato e a frigideira; meu estômago rosnou.
— Pronto — disse ele.
Edward se virou com um sorriso e pôs o prato na pequena mesa ladrilhada.
Sentei-me em uma das duas cadeiras de metal e comecei a engolir os ovos quentes. Queimavam minha garganta, mas não me importei. Edward se sentou de frente para mim.
— Não a estou alimentando com frequência suficiente.
Eu engoli e lembrei a ele:
— Eu dormi. Isso está muito bom, aliás. É impressionante para alguém que não come.
— Programas de culinária na tevê — disse ele, abrindo meu sorriso torto preferido.
Fiquei feliz por ele parecer mais normal.
— De onde vieram os ovos?
— Pedi aos empregados que abastecessem a cozinha. O que é fundamental neste lugar. Vou ter de pedir que cuidem das plumas... — Ele se interrompeu, o olhar fixo num espaço acima de minha cabeça.
Não respondi, não querendo dizer nada que o aborrecesse novamente.
Devorei tudo, embora ele tivesse preparado comida bastante para dois.
— Obrigada — disse a ele.
Inclinei-me sobre a mesa para lhe dar um beijo. Ele retribuiu automaticamente, depois de repente se retesou e voltou a se recostar.
Trinquei os dentes e a pergunta que quis fazer saiu parecendo uma acusação.
— Não vai me tocar novamente enquanto estivermos aqui, não é?
Ele hesitou, depois abriu um meio sorriso e ergueu a mão para afagar meu rosto. Seus dedos tocaram suavemente minha pele, e não consegui deixar de inclinar a cabeça para sua mão.
— Você sabe que não foi isso que eu quis dizer.
Ele suspirou e baixou a mão.
— Eu sei. E você tem razão. — Ele parou, levantando o queixo ligeiramente. Em seguida falou, com firme convicção: — Não vou fazer amor com você antes que esteja transformada. Nunca mais voltarei a machucá-la. 

4 comentários:

  1. Esses dois são complicados.

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  2. Afff !

    Assi: Apaixonada por livros.

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  3. Fazer amor.... Fala logo a palavra: TRANSAR! Merda...
    Lamento, guys, mas eu precisava dizer isso.

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    1. Mas da uma raiva msm parece retardado falando assim

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