30 de setembro de 2015

Capítulo 4

Então eu sentei na cama e tossi enquanto ouvia minha mãe fazer uma frenética ligação para a linha de emergência do nosso psicólogo, seguida por outra igualmente histérica ligação que iria ativar a árvore de rezas das Pessoas de Fé. Em 30 minutos nossa casa começou a se encher com mulheres gordas e seus maridos pedófilos de olhos pequenos. Eles me chamaram para a sala.
Minha Marca seria considerada um Problema Realmente Grande e Embaraçoso, então eles provavelmente me ungiriam com alguma merda que com certeza ia entupir meus poros e uma espinha enorme antes deles colocarem suas mãos em mim para rezar. Eles pediram a Deus para me ajudar a parar de ser uma adolescente tão problemática e um problema para os meus pais. Oh, e o pequeno problema da minha Marca tinha que ser resolvido também.
Se fosse tão simples. Eu com prazer faria um trato com Deus para ser uma boa garota versus mudar de escola e espécie. Eu até faria o teste de geometria. Bem, ok. Talvez não a prova de geometria - mas, ainda assim, não é como se eu tivesse pedido para ser uma aberração. Essa coisa toda significava que eu iria ter que ir embora. O começo da vida onde, em algum lugar, eu seria a novata. Algum lugar onde eu não tinha amigos. Eu pisquei com força, me forçando a não chorar. A escola era o único lugar onde eu me sentia em casa; meus amigos eram minha família. Eu apertei os pulsos e ergui a cabeça para não chorar. Um passo de cada vez - vou lidar com isso um passo de cada vez.
Não tinha jeito deu lidar com clones do padrasto-perdedor além do tudo mais. E, como se as Pessoas da Fé já não fossem ruim o suficiente, a terrível sessão de reza iria ser seguida por uma igualmente irritante sessão com o Dr. Asher. Ele fazia muitas perguntas sobre como isso e aquilo me faziam sentir. Então ele falava sobre raiva adolescente e angústia e sobre como eram normal, mas que eu podia escolher como elas teriam um impacto na minha vida... Blá... Blá... E já que isso era uma “emergência” ele provavelmente iria querer que eu desenhasse algo que representasse minha criança interior ou qualquer coisa assim.
Eu definitivamente tinha que sair daqui.
Que bom que eu sempre fui a “criança má” e sempre estive preparada para situações como essa. Ok, eu não estava exatamente pensando sobre fugir de casa para me juntar aos vampiros quando pus uma chave extra do meu carro de baixo do vaso de flor do lado de fora da minha janela. Eu só estava considerando que eu poderia querer escapar e ir para a casa da Kayla. Ou, se eu realmente quisesse ser má eu poderia me encontrar com Heath no parque e me agarrar com ele. Mas então Heath começou a beber e eu comecei a me transformar em uma vampira.
Às vezes a vida não faz sentido nenhum.
Eu peguei minha mochila, abri a janela, e mais fácil que os sermões chatos do meu padrasto-perdedor, eu sai pela janela. Eu coloquei meus óculos de sol e olhei ao redor. Era apenas 4:30 e não estava escuro ainda, então eu estava feliz que a nossa cerca me escondia dos nossos vizinhos.
Desse lado da casa a outra única janela era do quarto da minha irmã, e ela estava no treino das líderes de torcida. (O inferno deveria estar congelando porque pela primeira vez na vida eu estava feliz por minha irmã estar envolvida no que ela chamava de “esporte de torcer.”) Eu derrubei minha mochila primeiro e então devagar desci pela janela, tomando cuidado para não fazer barulho quando cheguei ao chão. Eu parei ali por vários minutos, enterrando meu rosto nos braços para abafar o som da terrível tosse. Então me curvei em direção ao pote onde havia uma planta de lavanda que a Vovó Redbird me deu, e deixei meus dedos encontrarem a chave de metal que estava na grama.
O portão nem rangeu quando eu o abri um centímetro a La As panteras. Meu Bug fofo estava onde sempre ficava – bem em frente a nossa garagem. O padrasto-perdedor não me deixava estacionar dentro porque ele disse que seu cortador de grama era mais importante. (Mais importante que uma vintage VW? Como? Isso nem fazia sentido, droga, eu acabei de soar como um garoto. Desde quando em importava com a vintage do meu Bug? Eu devo mesmo estar Mudando.) Eu olhei para os dois lados. Nada. Eu fui para o meu Bug, entrei, coloquei em ponto morto, e fiquei verdadeiramente agradecida por nossa entrada ser ridiculamente longe quando meu maravilhoso carro andou silenciosamente e suavemente pela rua. Dali eu fui para oeste e logo sai da rua das casas grandes e caras.
Eu nem olhei pelo espelho retrovisor.
Eu nem liguei meu telefone celular. Eu não queria falar com ninguém.
Não, isso não era exatamente verdade. Tinha uma pessoa que eu realmente queria falar. Ela era a única pessoa no mundo que eu tive certeza que não ia olhar para minha Marca e pensar que eu era um monstro ou uma aberração ou uma pessoa horrível.
Como se meu Bug pudesse ler minha mente ele pareceu virar sozinho na estrada que levava para Muskogee Turnpike e, eventualmente, para o lugar mais maravilhoso do mundo – a farmácia da minha Vovó Redbird.
Diferente do caminho da escola para casa, a viagem de uma hora e meia para a casa da Vovó Redbird pareceu levar uma eternidade. Quando eu finalmente sai da estrada e entrei na estrada de terra que levava para a casa da Vovó, meu corpo doía ainda mais do que aquela vez que eles contrataram aquele professor maluco de Ed. Física que pensou que deveríamos fazer oito circuitos enquanto ela balançava seu chicote para nós e ria. Ok, então talvez ela não tivesse um chicote, mas ainda sim. Meus músculos doíam pra caramba. Era quase seis horas e o sol finalmente estava começando a se pôr, mas meus olhos ainda doíam. Na verdade, até mesmo a luz do sol fraca fazia minha pele formigar e ficar estranha. O que me fez ficar feliz foi que era final de Outubro e finalmente tinha ficado frio o suficiente para eu usar meu casaco da Borg Invason 4D (claro, é um Star Trek: Next Generation que eu comprei numa viagem a Vegas, e eu ocasionalmente na época era uma grande fã), o que graças a Deus, cobria quase toda a minha pele. Antes de eu sair do meu Bug eu procurei no banco traseiro meu velho boné para que ele cobrisse meu rosto do sol.
A casa da minha avó ficava entre campos de flores e era protegido por grandes carvalhos. Foi construída em 1942 pela pedra crua de Oklahoma, com uma confortável varanda e janelas muito grandes. Eu amava essa casa. Só em subir os degraus que levavam para a varanda me fez sentir melhor... Segura. Então eu vi o bilhete no lado de fora da porta. Era fácil reconhecer a letra bonita da Vovó Redbird: Estou no penhasco pegando flores.
Eu toquei o papel com o suave cheiro de lavanda. Ela sempre sabia quando eu iria visitar.
Quando eu era criança eu achava isso estranho, mas quando fiquei mais velha eu comecei a apreciar o sexto sentido que ela tinha. Toda minha vida eu soube que, não importasse o que, eu poderia contar com a Vovó Redbird. Durante aqueles primeiros meses horríveis quando mamãe casou com John eu acho que eu teria murchado e morrido se não fosse para as escapas todo final de semana para a casa da vovó.
Por um segundo eu considerei entrar (Vovó nunca trancava a porta) e esperar por ela, mas eu precisava ver ela, ter ela me abraçando e me dizer o que minha mãe deveria dizer.
Não fique com medo... Vai ficar tudo bem... Eu vou fazer tudo ficar bem. Então ao invés de entrar, eu encontrei o pequeno caminho por entre o penhasco que me permitiria achar ela e eu o segui, deixando a ponta dos meus dedos passarem por entre as plantas mais perto para que enquanto eu andasse, elas liberassem um doce cheiro no ar ao meu redor como se estivessem me dando boas-vindas.
Parecia que fazia anos desde que eu estive aqui, embora eu soubesse que só fazia quatro semanas. John não gostava da vovó. Ele achava que ela era estranha. Eu até o ouvi dizer à mamãe que a vovó era “uma bruxa que iria ser um problema.”
Então um pensamento incrível veio na minha mente enquanto eu parei completamente. Meus pais não controlavam mais o que eu fazia. Eu nunca mais iria viver com eles. John não podia mais me dizer o que fazer.
Whoa! Que incrível!
Tão incrível que tive um espasmo de tosse que me fez enrolar os braços ao meu redor, como se eu estivesse tentando segurar meu peito. Eu precisava encontrar Vovó Redbird, e eu precisava encontrar ela agora.

6 comentários:

  1. Minha "vovó", é muito chata! MESMO gente!!!!

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  2. Minhas duas avós são muito legais , vou pra casa dela e volto com três quilos a mais ...só queria que as duas não fizessem tanto doce , eu não gosto de doce ( não me condenem , minha mãe é engenheira de alimentos , desde que eu era criança ela controla minha alimentação , por causa disso eu comia pouco doce e acabei crescendo com o paladar rejeitando brigadeiro e um monte de coisa ) mas chocolate eu até como de vez em quando

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  3. Eu até faria o teste de geometria. Bem, ok. Talvez não a prova de geometria... kkkkkk essa garota me representando na vida

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  4. Eu adoro as avos!!
    A minha avo p. Dava-me sempre dinheiro quendo a visitava. E a minha avo M. Dame sempre muitos doces!! :P

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