29 de setembro de 2015

Capítulo 38 - Poder

— Chelsea está tentando romper nossos laços — sussurrou Edward. — Mas não consegue encontrá-los. Ela não consegue nos sentir aqui... — Seus olhos pousaram em mim. — Você está fazendo isso?
Sorri sinistramente para ele.
— Estou cobrindo todos.
Edward se afastou de mim de repente, a mão estendida para Carlisle. Ao mesmo tempo, senti um golpe muito mais agudo contra o escudo, onde envolvia protetoramente a luz de Carlisle. Não doeu, mas também não foi agradável.
— Carlisle? Você está bem? — arquejou Edward freneticamente.
— Sim. Por quê?
— Jane — respondeu Edward.
No momento em que ele disse aquele nome, uma dúzia de ataques precisos nos atingiram em um segundo, golpeando todo o escudo elástico, mirando em doze diferentes pontos brilhantes. Eu me contraí, certificando-me de que o escudo não estava danificado. Não parecia que Jane fora capaz de perfurá-lo. Olhei em volta rapidamente; todos estavam bem.
— Incrível — disse Edward.
— Por que não estão esperando a decisão? — sibilou Tanya.
— Procedimento normal — respondeu Edward bruscamente. — Em geral, eles incapacitam os que estão em julgamento para que não possam fugir.
Olhei para Jane, do outro lado, encarando nosso grupo com uma incredulidade furiosa. Eu tinha certeza de que, além de mim, ela nunca vira alguém permanecer incólume a seu ataque feroz.
Provavelmente, não foi muito maduro de minha parte. Mas imaginei que Aro levaria meio segundo para deduzir – se é que já não tinha deduzido – que meu escudo era mais poderoso do que Edward imaginava; eu já trazia um alvo enorme na testa e não tinha sentido tentar guardar segredo do que eu podia fazer. Então abri um sorriso imenso e presunçoso para Jane.
Seus olhos se estreitaram e senti outra punhalada de pressão, dessa vez dirigida a mim. Arreganhei ainda mais os lábios, mostrando os dentes.
Jane soltou um rosnado alto e agudo. Todos pularam, até a guarda disciplinada. Todos, exceto os anciãos, que levantaram os olhos de sua conferência. O gêmeo de Jane pegou seu braço enquanto ela se agachava para atacar.
Os romenos começaram a rir em um antegozo sombrio.
— Eu lhe disse que essa era a nossa hora — disse Vladimir a Stefan.
— Olhe só a cara da bruxa — disse Stefan com uma risadinha.
Alec afagou o ombro da irmã, tranquilizando-a, depois a segurou sob o braço. Ele virou o rosto para nós, perfeitamente tranquilo, completamente angelical.
Esperei sentir alguma pressão, algum sinal do ataque dele, mas não senti nada. Ele continuava a nos olhar com o lindo rosto composto. Será que estava atacando? Estaria ele passando por meu escudo? Seria eu a única que ainda podia vê-lo? Apertei a mão de Edward.
— Você está bem? — perguntei, engasgada.
— Sim — sussurrou ele.
— Alec está tentando?
Edward assentiu.
— Seu dom é mais lento que o de Jane. Arrasta-se. Vai nos tocar daqui a alguns segundos.
Então eu o vi, quando tinha uma pista do que procurar.
Uma névoa clara e estranha se arrastava pela neve, quase invisível contra o branco. Lembrou uma miragem – uma leve deformação na visão, uma sugestão de tremor. Estendi meu escudo adiante de Carlisle e da linha de frente, temerosa de ter a neblina furtiva perto demais quando nos atingisse. E se conseguisse passar por minha proteção intangível? Deveríamos correr?
Um estrondo baixo ocorreu pelo chão sob nossos pés e uma lufada de vento soprou a neve em súbitas rajadas entre nossa posição e a dos Volturi. Benjamin também tinha visto a ameaça rastejante e agora tentava afastar a névoa de nós. Graças à neve, era fácil ver onde ele lançara o vento, mas a névoa não reagiu de maneira nenhuma. Era como o ar soprando inofensivamente uma sombra; a sombra era imune.
A formação triangular dos anciãos finalmente se separou quando, com um gemido torturante, uma fissura funda e estreita se abriu em um longo ziguezague no meio da clareira. A terra se agitou sob meus pés por um momento. As correntes de neve mergulharam na abertura, mas a névoa a atravessou, por cima, tão intocada pela gravidade quanto fora pelo vento.
De olhos arregalados, Aro e Caius viam a terra se abrir. Marcus olhava na mesma direção sem emoção alguma.
Eles não falaram; também esperaram, enquanto a névoa se aproximava de nós. O vento gritou mais alto, mas não mudou o rumo da neblina. Jane agora sorria.
E, então, a névoa atingiu uma parede.
Pude sentir o gosto assim que ela tocou meu escudo – um sabor denso, doce e enjoativo. Lembrou-me vagamente o torpor da novocaína em minha língua.
A névoa espiralou para cima, procurando uma brecha, um ponto fraco. Não encontrou nenhum. Os dedos da neblina se retorciam para o alto e em torno do escudo, tentando encontrar uma maneira de entrar, e assim revelando o tamanho impressionante da tela de proteção.
Ouviram-se arquejos de ambos os lados da fenda de Benjamin.
— Muito bom, Bella! — aprovou Benjamin em voz baixa.
Meu sorriso voltou.
Eu podia ver os olhos semicerrados de Alec, a dúvida em seu rosto pela primeira vez enquanto sua névoa girava inofensiva nos limites de meu escudo.
E então entendi que eu podia conseguir. Evidentemente, eu seria a prioridade número 1, a primeira a morrer, mas desde que me mantivesse firme, estaríamos em pé de igualdade com os Volturi. Ainda tínhamos Benjamin e Zafrina; eles não tinham nenhuma ajuda sobrenatural. Desde que eu conseguisse segurar.
— Terei de me concentrar — sussurrei para Edward. — Quando chegar a hora do corpo a corpo, será mais difícil manter o escudo em volta das pessoas certas.
— Eu os manterei afastados de você.
— Não. Você precisa pegar Demetri. Zafrina os manterá longe de mim.
Zafrina assentiu solenemente.
— Ninguém tocará esta jovem — prometeu ela a Edward.
— Eu iria atrás de Jane e Alec, mas sou mais útil aqui.
— Jane é minha — sibilou Kate. — Ela precisa provar do próprio remédio.
— E Alec me deve muitas vidas, mas vou me contentar com a dele — grunhiu Vladimir do outro lado. — Ele é meu.
— Eu só quero Caius — afirmou Tanya serenamente.
Os outros começaram a repartir os adversários, mas foram rapidamente interrompidos.
Aro, olhando calmamente a névoa ineficaz de Alec, por fim falou.
— Antes de votarmos — começou ele.
Sacudi a cabeça com raiva. Eu estava cansada daquele teatro. O desejo de sangue me incitava de novo, e eu lamentava que ajudasse mais aos outros ficando parada. Eu queria lutar.
— Permitam-me lembrá-los — continuou Aro — de que, qualquer que seja a decisão do conselho, não há necessidade de violência.
Edward rosnou uma risada sombria. Aro olhou para ele com tristeza.
— Será um desperdício lamentável para nossa espécie perder qualquer um de vocês. Mas você especialmente, jovem Edward, e sua parceira recém-criada. Os Volturi ficariam felizes em receber muitos de vocês em nossas fileiras. Bella, Benjamin, Zafrina, Kate. Há muitas opções diante de vocês. Considerem-nas.
A tentativa de Chelsea de nos abalar oscilou impotente contra meu escudo. O olhar de Aro percorreu nossos olhos duros, procurando algum sinal de hesitação. Pela expressão dele, não encontrou nenhum.
Eu sabia que ele estava desesperado para manter Edward e a mim, para nos aprisionar, como tinha esperado escravizar Alice. Mas essa luta era grande demais. Ele não venceria se eu vivesse. Eu estava tremendamente feliz por ser tão poderosa que não lhe deixava a possibilidade de não me matar.
— Sendo assim, vamos votar — disse ele com visível relutância.
Caius falou com uma pressa ansiosa.
— A criança representa o desconhecido. Não há motivo para permitir que um risco desses continue a existir. Ela deve ser destruída, junto com todos que a protegem. — Ele sorriu na expectativa.
Reprimi um grito de desafio em resposta a seu sorriso cínico e cruel. Marcus ergueu os olhos despreocupados, parecendo olhar através de nós enquanto votava.
— Não vejo nenhum perigo imediato. Por ora, a criança é suficientemente segura. Podemos reavaliar depois. Vamos embora em paz. — Sua voz era ainda mais fraca do que os suspiros frágeis do irmão.
Ninguém da guarda relaxou suas posições com as palavras de desacordo. O sorriso de expectativa de Caius não se abalou. Era como se Marcus não tivesse falado.
— Cabe a mim o voto de Minerva, ao que parece — refletiu Aro.
De repente, Edward enrijeceu a meu lado.
— Sim! — sibilou ele.
Arrisquei uma olhada para ele. Seu rosto cintilava com uma expressão de triunfo que eu não entendi – era a expressão que um anjo da destruição deveria ter enquanto o mundo queimava. Linda e apavorante. Houve uma fraca reação da guarda, um murmúrio inquieto.
— Aro? — chamou Edward, quase aos gritos, a vitória indisfarçada em sua voz.
Aro hesitou por um segundo, avaliando esse novo estado de espírito antes de responder.
— Sim, Edward? Há mais alguma coisa...?
— Talvez — disse Edward de modo agradável, controlando a empolgação inexplicada. — Primeiro, posso esclarecer uma questão?
— Certamente — disse Aro, erguendo as sobrancelhas, agora só o interesse educado na voz.
Meus dentes trincaram; Aro era sempre mais perigoso quando gentil.
— O perigo que você prevê vindo de minha filha... ele tem origem inteiramente em sua incapacidade de deduzir como ela se desenvolverá? É esse o xis da questão?
— Sim, amigo Edward — concordou Aro. — Se pudéssemos ter certeza de que, enquanto cresce, ela será capaz de permanecer escondida do mundo humano... de não colocar em risco a segurança de nossa obscuridade... — Ele se interrompeu, dando de ombros.
— Então, se pudéssemos ter certeza — sugeriu Edward — exatamente do que ela se tornará... então não haveria nem necessidade de um conselho deliberativo?
— Se houvesse alguma maneira de estar absolutamente certo — concordou Aro, a voz frágil um pouco mais estridente. Ele não entendia aonde Edward queria chegar. Nem eu. — Então, sim, não haveria o que debater.
— E poderíamos nos despedir em paz, como bons amigos novamente? — perguntou Edward com um toque de ironia. Ainda mais estridente.
— É claro, meu jovem amigo. Nada me agradaria mais.
Edward riu, exultante.
— Então tenho algo mais a oferecer.
Os olhos de Aro se estreitaram.
— Ela é absolutamente única. Seu futuro só pode ser conjecturado.
— Não absolutamente única — discordou Edward. — Rara, certamente, mas não única.
Lutei contra o choque, a esperança repentina ganhando vida, pois ela ameaçava me distrair. A névoa de aspecto doentio ainda girava nos limites do meu escudo. E enquanto eu me esforçava para me concentrar, senti de novo a pressão perfurante em minha proteção.
— Aro, poderia pedir a Jane que pare de atacar minha esposa? — perguntou Edward com cortesia. — Ainda estamos discutindo as provas.
Aro ergueu a mão.
— Paz, meus queridos. Vamos ouvi-lo.
A pressão desapareceu. Jane arreganhou os dentes para mim; não pude deixar de sorrir para ela.
— Por que não se junta a nós, Alice? — chamou Edward em voz alta.
— Alice — sussurrou Esme, chocada. — Alice!
Alice, Alice, Alice!
— Alice! Alice! — murmuraram outras vozes à minha volta.
— Alice — sussurrou Aro.
O alívio e a alegria violenta cresceram dentro de mim. Precisei de toda a minha força de vontade para manter o escudo no lugar. A névoa de Alec ainda procurava um ponto fraco – Jane veria se eu deixasse buracos.
Então os ouvi correndo pela floresta, voando, aproximando-se o mais rápido que podiam, sem nenhuma tentativa de manter silêncio.
Os dois lados ficaram imóveis, na expectativa. As testemunhas Volturi franziram a testa, novamente confusas.
Então Alice entrou bailando na clareira, vinda do sudoeste, e senti que a alegria de ver seu rosto novamente poderia me desconcentrar totalmente. Jasper estava poucos centímetros atrás dela, os olhos atentos e ferozes. Logo depois deles vieram três estranhos; a primeira era uma mulher alta e musculosa, com cabelos escuros e desgrenhados – evidentemente Kachiri.
Tinha os membros alongados e feições das outras Amazonas, ainda mais pronunciados no caso dela.
Em seguida uma vampira de pele morena com uma longa trança de cabelos negros presos nas costas. Seus profundos olhos cor de vinho percorreram nervosos o confronto que tinha diante de si.
E o último era um jovem... não tão veloz, nem tão fluido em sua corrida. Sua pele era de um castanho-escuro inacreditável. Seus olhos cautelosos passaram feito relâmpago pela reunião, e eram da cor da terra. O cabelo era preto e trançado, como o da mulher, embora não tão comprido. Ele era lindo.
Enquanto se aproximavam de nós, um novo som provocou ondas de choque pela multidão que assistia – o som de outro coração batendo, acelerado pelo esforço.
Alice saltou com leveza sobre os limites da névoa que se dissipava mas continuava tentando penetrar em meu escudo, e parou sinuosamente ao lado de Edward. Estendi a mão para tocar seu braço, e Edward, Esme e Carlisle fizeram o mesmo. Não havia tempo para outra recepção. Jasper e os outros seguiram-na através do escudo.
Toda a guarda observava, a especulação em seus olhos, enquanto os recém-chegados atravessavam a fronteira invisível sem dificuldade. Os musculosos, Felix e outros como ele, focalizaram os olhos repentinamente esperançosos em mim. Antes eles não tinham certeza do que meu escudo repelia, mas agora estava claro que não impediria um ataque físico. Assim que Aro desse a ordem, eles atacariam, tendo a mim como único alvo. Perguntei-me quantos Zafrina seria capaz de cegar e quanto isso os atrasaria. Tempo suficiente para Kate e Vladimir tirarem Jane e Alec da equação? Era só o que eu podia pedir.
Apesar de estar absorto no estratagema que dirigia, Edward enrijeceu-se furiosamente em reação aos pensamentos deles. Ele se controlou e voltou a falar com Aro.
— Alice procurou sua própria testemunha nas últimas semanas — disse ele aos anciãos. — E não voltou de mãos vazias. Alice, por que não apresenta as testemunhas que trouxe?
Caius rosnou.
— Já passou a hora das testemunhas! Dê seu voto, Aro!
Aro ergueu um dedo para silenciar o irmão, os olhos pousados no rosto de Alice. Ela avançou ligeiramente e apresentou os estranhos.
— Estes são Huilen e seu sobrinho, Nahuel.
Ouvir a voz dela... era como se ela nunca tivesse partido. Os olhos de Caius se estreitaram enquanto Alice nomeava a relação entre os recém-chegados. As testemunhas Volturi sibilaram entre si. O mundo vampiro estava mudando, e todos podiam sentir isso.
— Fale, Huilen — exigiu Aro. — Dê-nos o testemunho que foi trazida aqui para dar.
A mulher pequenina olhou nervosa para Alice, que assentiu, encorajando-a, e Kachiri pôs a comprida mão no ombro de Huilen.
— Meu nome é Huilen — anunciou a mulher com clareza, mas em um estranho sotaque. Enquanto ela continuava, ficou evidente que tinha se preparado para contar aquela história, que treinara para isso. Fluía como uma familiar canção de ninar. — Há um século e meio eu vivia com meu povo, os mapuches. Minha irmã chamava-se Pire. Nossos pais a batizaram com o nome da neve nas montanhas por causa de sua pele clara. E ela era muito bonita... bonita demais. Um dia ela me falou, em segredo, do anjo que encontrou no bosque e que a visitava à noite. Eu a adverti. — Huilen sacudiu a cabeça, pesarosa. — Como se os hematomas em sua pele não fossem advertências suficientes. Eu sabia que era o lobisomem de nossas lendas, mas ela não me deu ouvidos. Estava enfeitiçada.
“Ela me contou quando teve certeza de que o filho de seu anjo sombrio estava crescendo dentro dela. Eu não tentei dissuadi-la de seu plano de fugir... Eu sabia que até nosso pai e nossa mãe concordariam que a criança fosse destruída, e Pire com ela. Fui com ela para as partes mais escondidas da floresta. Ela procurou seu anjo-demônio, mas não encontrou nada. Eu cuidei dela, caçava para ela quando suas forças lhe faltaram. Ela comia animais crus, bebia seu sangue. Eu não precisava de mais confirmação do que ela carregava no útero. Eu tinha esperanças de salvá-la antes de matar o monstro.
“Mas ela amava o filho que trazia no ventre. E o chamava de Nahuel, um felino da selva, quando ele ficou forte e começou a quebrar seus ossos. Mas ainda assim ela o amava.
“Não pude salvá-la. A criança veio à luz rasgando-a, e ela morreu rapidamente, implorando que eu cuidasse de Nahuel. Seu desejo de moribunda... e eu concordei.
“Mas ele me mordeu quando tentei erguê-lo de sobre o corpo dela. Eu me arrastei pela selva para morrer. Não fui muito longe – a dor era demasiada. Ele me encontrou; a criança recém-nascida se arrastou pela vegetação rasteira até o meu lado e me esperou. Quando a dor passou, ele estava enroscado encostado ao meu corpo, dormindo.
“Cuidei dele até que foi capaz de caçar sozinho. Caçamos nas aldeias em volta de nossa floresta, sempre sozinhos. Nunca nos afastamos tanto de nosso lar, mas Nahuel queria ver a criança daqui.
Huilen curvou a cabeça quando terminou, e recuou, ficando parcialmente escondida atrás de Kachiri.
Os lábios de Aro estavam franzidos. Ele olhava o jovem de pele morena.
— Nahuel, você tem 150 anos? — perguntou ele.
— Uma década a mais ou a menos — respondeu ele numa voz clara, calorosa e linda. Seu sotaque mal era perceptível. — Não contamos.
— E com quantos anos chegou à maturidade?
— Cerca de sete anos após o meu nascimento, mais ou menos, eu já era adulto.
— Não mudou desde então?
Nahuel deu de ombros.
— Não que eu tenha percebido.
Senti um tremor repentino pelo corpo de Jacob. Eu não queria pensar naquilo ainda. Ia esperar até que o perigo passasse e eu pudesse me concentrar.
— E sua dieta? — pressionou Aro, parecendo interessado, mesmo contra a vontade.
— Principalmente sangue, mas como um pouco de alimento humano. Posso sobreviver com os dois.
— Você foi capaz de criar uma imortal? — Quando Aro apontou Huilen, a voz dele ficou subitamente intensa. Voltei a me concentrar no escudo; talvez ele procurasse uma nova desculpa.
— Sim, mas as outras não podem.
Um murmúrio de choque percorreu os três grupos. As sobrancelhas de Aro se ergueram.
— As outras?
— Minhas irmãs. — Nahuel deu de ombros de novo.
Aro o encarou irritado por um momento antes de se recompor.
— Talvez possa nos contar o resto de sua história, uma vez que parece haver mais.
Nahuel franziu a testa.
— Meu pai me procurou alguns anos depois da morte de minha mãe. — Seu rosto bonito se retorceu um pouco. — Ele ficou feliz ao me encontrar — O tom de Nahuel sugeria que o sentimento não fora mútuo. — Ele tinha duas filhas, mas nenhum filho homem. Esperava que eu me juntasse a ele como minhas irmãs. Ficou surpreso que eu não estivesse só. Minhas irmãs não eram venenosas, mas se isso se deve ao gênero ou ao acaso... quem sabe? Eu já tinha minha família com Huilen e não estava interessado — ele torceu a palavra — em mudar. Eu o vejo de tempos em tempos. E tenho uma nova irmã, que chegou à maturidade há uns dez anos.
— O nome de seu pai? — perguntou Caius entredentes.
— Joham — respondeu Nahuel. — Ele se considera um cientista. Acha que está criando uma nova super-raça. — Ele não tentou disfarçar a repulsa em seu tom de voz.
Caius olhou para mim.
— Sua filha, ela é venenosa? — perguntou ele asperamente.
— Não — respondi.
A cabeça de Nahuel se virou com a pergunta e seus olhos de teca se demoraram em meu rosto. Caius olhou para Aro em busca de confirmação, mas Aro estava absorto em seus pensamentos. Franziu os lábios e olhou para Carlisle, depois para Edward, e por fim seus olhos pousaram em mim.
Caius grunhiu.
— Vamos cuidar da aberração daqui, depois seguiremos para o sul — ele exortou Aro.
Aro me olhou nos olhos por um momento longo e tenso. Eu não fazia ideia do que ele procurava, ou do que encontrou, mas, depois de me avaliar assim, algo em seu rosto mudou, uma leve alteração na disposição da boca e dos olhos, e eu soube que Aro havia tomado sua decisão.
— Irmão — disse suavemente a Caius. — Não parece haver perigo. Esta é uma evolução incomum, mas não vejo ameaça. Estes semivampiros são muito semelhantes a nós, ao que parece.
— Este é o seu voto? — perguntou Caius.
— Sim.
Caius fechou a cara.
— E esse Joham? O imortal tão adepto da experimentação?
— Talvez devamos falar com ele — concordou Aro.
— Detenham Joham, se quiserem — disse Nahuel, decidido. — Mas deixem minhas irmãs em paz. Elas são inocentes.
Aro assentiu, a expressão solene. E então ele se voltou para sua guarda com um sorriso caloroso.
— Meus caros — disse ele. — Não lutaremos hoje.
A guarda assentiu em uníssono e abandonou a postura de ataque. A névoa se dissipou rapidamente, mas mantive meu escudo no lugar. Talvez esse fosse outro truque.
Analisei suas expressões quando Aro se voltou novamente para nós. Seu rosto era benevolente, como sempre, mas, ao contrário de antes, senti um estranho vazio por trás da fachada. Como se seus esquemas tivessem acabado. Caius estava visivelmente furioso, mas sua raiva agora se voltava para dentro; estava resignado. Marcus parecia... entediado; não havia outra palavra para descrevê-lo. A guarda mostrava-se impassível e disciplinada de novo. Não havia indivíduos entre eles, só o todo. Estavam em formação, prontos para partir. As testemunhas dos Volturi ainda estavam cautelosas; uma após a outra, elas se foram, dispersando-se pela floresta. Assim que seu efetivo diminuiu, os restantes se apressaram. Logo todos haviam partido.
Aro estendeu as mãos em nossa direção, quase como quem se desculpa. Atrás dele, a maior parte de sua guarda, assim como Caius, Marcus e as esposas misteriosas e silenciosas, já se afastavam rapidamente, a formação impecável de novo. Só os três que pareciam ser seus guardiões pessoais permaneceram com ele.
— Fico feliz que tenhamos podido resolver tudo sem violência — disse ele com doçura. — Meu amigo, Carlisle... Que satisfação poder chamá-lo de amigo de novo! Espero que não haja ressentimentos. Sei que entende o fardo severo que o dever coloca em nossos ombros.
— Vá em paz, Aro — disse Carlisle rigidamente. — Lembre-se, por favor, de que ainda temos nosso anonimato a proteger, e evite que sua guarda cace nesta região.
— É claro, Carlisle — Aro lhe garantiu. — Lamento ser alvo de sua desaprovação, meu querido amigo. Talvez, com o tempo, você vá me perdoar.
— Talvez, com o tempo, se você provar que é nosso amigo de novo.
Aro baixou a cabeça, a imagem do remorso, e recuou de costas por um momento antes de se virar. Observamos em silêncio enquanto os quatro últimos Volturi desapareciam entre as árvores.
Tudo ficou muito silencioso. Eu não recolhi o escudo.
— Acabou mesmo? — sussurrei para Edward.
Seu sorriso era imenso.
— Sim. Eles desistiram. Como todos os valentões, eles são covardes por baixo da arrogância. — Ele riu.
Alice riu com ele.
— É sério, gente. Eles não vão voltar. Todo mundo pode relaxar agora.
Houve outro silêncio.
— Mas que falta de sorte — murmurou Stefan.
E então aconteceu.
Vieram os gritos. Uivos ensurdecedores encheram a clareira. Maggie bateu nas costas de Siobhan. Rosalie e Emmett se beijaram de novo – mais demorada e ardorosamente do que antes. Benjamin e Tia estavam presos nos braços um do outro, assim como Carmen e Eleazar. Esme segurou Alice e Jasper num abraço apertado. Carlisle agradecia calorosamente aos recém-chegados sul-americanos que haviam salvado todos nós. Kachiri estava muito perto de Zafrina e Senna, as três com as pontas dos dedos entrelaçadas. Garrett levantou Kate do chão e a girou.
Stefan cuspiu na neve. Vladimir trincou os dentes com uma expressão azeda.
E eu quase subi no lobo gigante e avermelhado para tirar minha filha de suas costas e apertá-la junto ao peito. Os braços de Edward nos envolveram no mesmo instante.
— Nessie, Nessie, Nessie — entoei.
Jacob soltou sua metade gargalhada metade latido e cutucou minha nuca com o focinho.
— Cale a boca — murmurei.
— Vou poder ficar com vocês? — perguntou Nessie.
— Para sempre — prometi a ela.
Nós tínhamos a eternidade. E Nessie ia ficar bem, saudável e forte. Como o semi-humano Nahuel, dali a cento e cinquenta anos ela ainda seria jovem. E todos estaríamos juntos.
A felicidade se expandiu como uma explosão dentro de mim — tão extrema, tão violenta que não eu não sabia se sobreviveria a ela.
— Para sempre — Edward fez eco em meus ouvidos.
Eu não conseguia mais falar. Ergui a cabeça e o beijei com uma paixão capaz de incendiar a floresta. E eu nem teria notado.

3 comentários:

  1. ai meu deus amei amei e amei

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  2. ai cara eu amei muito é tipo essa historia é viciante

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