22 de setembro de 2015

Capítulo 37

— Saturno — gritou Emily. — Onde está você, seu mentiroso!
Emily não sabia ao certo há quanto tempo estava no Vácuo Energético. Mas, certamente, era tempo suficiente para que Saturno pudesse trazer Joel para ela, se é que realmente tinha essa intenção.
Ela andava de um lado para o outro, furiosa com a sua prisão. O que estava acontecendo lá fora? Será que os outros estavam bem? Será que haviam conseguido chegar a Titus e obter a arma?
Com Mike ao seu lado, Emily continuou a disparar rajadas de energia, na esperança de encontrar um ponto fraco. Mas toda vez que o fazia, Riza dizia que fortalecia sua prisão.
 Se você realmente quiser sair daqui — avisou Riza — terá realmente que encontrar a calma. Pare de usar qualquer um dos seus poderes. Negue sua raiva e sua dor. Traga a paz para si mesma. É a única maneira de derrotar um Vácuo Energético.
Emily já havia escutado a mesma coisa várias vezes, mas se perguntava como poderia colocar as emoções de lado quando tudo estava em jogo. Finalmente, ela se sentou e apagou a Chama em sua mão. Sentada na escuridão, ela se concentrou e tentou respirar com mais tranquilidade.
— Muito bem — disse Riza. — Agora, vá para algum lugar em sua mente. Vá para onde você fica mais tranquila. Imagine-se por lá e em nenhum outro lugar.
Emily fechou os olhos. Mike deitou a cabeça em seu colo enquanto ela acariciava, suavemente, todo o seu corpo quente. Ela imaginou que Mike fosse Pegasus. Eles estavam andando juntos na sua praia prateada particular. Era noite e as estrelas estavam refletidas como diamantes na água. O ar era quente e perfumado e os únicos sons que podia ouvir eram os cascos do garanhão na água.
A sensação de calma tomou conta de Emily. Não havia mais nada. Só ela e Pegasus. Nenhuma guerra, nenhuma violência e nenhuma perda – apenas as águas paradas, as estrelas e o garanhão alado ao seu lado.
Emily estava em paz.
Depois de algum tempo, ela levantou a cabeça e sentiu uma leve brisa no rosto. Mas, à medida que os momentos avançavam, as coisas mudavam. Não estava tão quente quanto antes. Na verdade, tudo cheirava a mofo e umidade. Ela abriu os olhos.
A praia de prata havia desaparecido. Pegasus também. Era a cabeça de Mike em seu colo, não a do garanhão. Emily se viu sentada em um chão de pedra frio, em um poço muito profundo.
— Você conseguiu! — gritou Riza. — Emily, você derrotou o Vácuo Energético, apesar das suas emoções. Sinto muito ter duvidado de você.
Emily se levantou, desorientada. Em um instante, estava com Pegasus na praia prateada, no outro, sozinha em um poço úmido com Mike. O som de água escorrendo vinha de toda aparte. Tudo voltou. Ela havia sido encarcerada em um lugar cuja escuridão não tinha limites. Havia a guerra, a arma Titã, e Joel.
Saturno estava com Joel!
— Sim, Riza — disse Emily com raiva. — Eu sou emotiva. Mas isso não significa que sou fraca. Quer dizer que, apesar de todos esses poderes, eu ainda me importo com as pessoas. E, agora, o que mais me importa é encontrar Joel!
Bem acima dela havia uma luz débil. Usando seus poderes, ela tomou impulso e se ergueu do chão. A necessidade urgente de encontrar Joel havia se tornado insuportável. Se Saturno o tivesse machucado, não haveria como detê-la.
No topo do poço, Emily foi recebida por vários Titãs das Sombras. Ela os despachou de forma eficiente com a Chama. A porta vinha logo depois, quando ela usou seus poderes para arrancá-la de suas dobradiças.
— Vamos, Mike, vamos encontrar Joel!
No corredor, Emily se lembrou da prisão em Tártaro. As paredes grossas de pedra estavam cobertas com uma camada de bolor, assim como na carceragem, e o ar cheirava a mofo do mesmo jeito. Ela também recordou a breve viagem que havia feito. Ela também recordou a breve viagem que havia feito pela Corrente Solar. Foi muito rápida e muito curta.
— Ainda estamos em Tártaro?
Júpiter lhe dissera que a prisão em Tártaro era enorme. Ela se estendia muito para o fundo, no subterrâneo, e protegia os Titãs contra os efeitos da arma. Como ela iria encontrar Joel?
Emily se ajoelhou ao lado do cachorro e coçou suas orelhas.
— Eu vinha pensando como uma humana, quando tenho os poderes dos Xan!
Emily colocou os braços ao redor do cão, fechou os olhos e imaginou o rosto de Joel. Ela se concentrou para que fosse transportada ao local onde o rapaz estava. No momento seguinte, foi parar em uma cela escura.
— Joel?
— Em?
Mike latia animadamente. O alívio tomou conta de Emily quando viu Joel agachando-se para cumprimentar o cachorro. Ele estava imundo, mas vivo!
— Graças a Deus! — gritou Joel enquanto corria para abraçá-la. Ele a levantou do chão e deu-lhe o maior abraço e o melhor beijo que ela já havia provado. — Eu estava tão preocupado! Onde você esteve?
— Saturno me trancou em uma coisa chamada Vácuo Energético.
— Você escapou de um Vácuo Energético? — Um jovem, um pouco mais velho que Joel, desceu de um beliche mais acima.
— Em, este é Prometeu — disse Joel.
Emily franziu a testa para o homem jovem e atraente.
— Como em Carvalho de Prometeu?
— Mais ou menos — disse Joel. — Mas este é o original. Ele é um Titã.
Emily ergueu a mão flamejante para Prometeu.
— Afaste-se de nós!
— Não, Em — gritou Joel. — Ele é legal. Prometeu se rebelou. Nem todos os Titãs estão do lado de Saturno. Aqueles que se opõem a ele estão presos aqui com a gente.
— O que Saturno está fazendo é errado — disse Prometeu. — Eu não podia ficar parado e deixar que destruísse os próprios filhos com essa arma sólida. Depois do Olimpo, Saturno planeja derrotar a Terra. Estou aqui porque o desafiei.
— Em, temos que sair daqui — disse Joel. — Mas não temos como derrubar a porta da cela. Nem mesmo meu braço prateado vai conseguir.
Emily dirigiu um último olhar desconfiado para Prometeu.
— Tem certeza que podemos confiar nele?
— Tenho — disse Joel. — Ele já me ajudou. Os Titãs das Sombras queriam me matar, mas ele conseguiu detê-los. Devo minha vida a Prometeu.
— Me desculpe por duvidar de você — disse ela. — Mas esta foi uma semana realmente podre para mim.
— Entendo — disse Prometeu. — No entanto, será muito pior se não pararmos Saturno. Ouvir dizer que ele obteve um voluntário para levar a arma para o Olimpo. Ele já saiu daqui. O tolo vai entregar sua vida à causa de Saturno.
— Não se pudermos detê-lo — disse Emily.
Emily levantou as mãos. As barras foram arrancadas das paredes e toda a parte da frente caiu no chão de pedra, emitindo um som estridente. Ao seu redor, outros presos do Olimpo gritavam para que fossem libertados. Ela parou e invocou seus poderes.
Com um único pensamento, Emily deu uma ordem: “abrir!” Todas as portas das celas se abriram e os prisioneiros foram soltos.
Instantes depois, os Titãs das Sombras adentraram os blocos com as celas e começaram a atacar os olímpicos que escapavam.
 Vocês não vão escapar daqui! — berrou outra voz.
Emily se virou e viu Saturno em carne e osso. Dava para ver que ele era bem maior do que ela esperava enquanto entrava na sala junto com outros Titãs.
— Afaste-se, Saturno! — gritou Emily. — Não estou mais no Vácuo Energético. Seus poderes podem não funcionar aqui em baixo, mas os meus sim!
— Criança imprudente, é claro que meus poderes ainda funcionam aqui... mais do que nunca. Você realmente acha que pode me desafiar?
— Eu o avisei — devolveu Emily. — Você pode ser um Titã, mas eu sou uma Xan. Será que tenho que provar isso?
— Emily, não — avisou Riza. — Você não deve matar um Titã. Isso vai mudar o futuro.
— Não há Xan nenhum! — gritou Saturno enquanto erguia a mão.
Emily foi atingida com uma rajada que a levantou do chão e a esmagou contra a parede de uma cela. Ela nunca havia visto esse tipo de poder antes. Aquilo a fez perder as estribeiras e deixou sua cabeça girando enquanto caía no chão.
— Em! — gritou Joel.
— Tão facilmente derrotada — Saturno ria enquanto ele e os outros Titãs avançavam sobre ela. — Vamos ver com que facilidade você morre.
Emily ofegava pesadamente enquanto lentamente se recuperava.
— Afaste-se, Joel! Saturno está prestes a conhecer uma nova-iorquina muito irritada!
Prometeu puxou Joel e o cachorro mais para trás.
— Não sei quem é a sua amiga, mas ela está prestes a morrer.
— Você não conhece a minha Emily — gritou Joel. — Pegue-os, Em, mostre a eles como fazemos as coisas na cidade!
Emily se levantou cambaleando. Ainda estava meio sem fôlego e sabia que tratava a luta de sua vida. Saturno tinha poderes maiores do que ela esperava. Ele poderia feri-la. Talvez até mesmo matá-la.
Ela ergueu a mão e a Chama subiu bem alto.
— Este é o último aviso, Saturno. — Ela palpitava enquanto cambaleava para a frente. — Acabe com a guerra agora!
Em resposta, Saturno disparou outra rajada de energia na direção de Emily. Mais uma vez ela foi derrubada violentamente e caiu no chão com um baque doloroso.
— Emily! — gritou Joel.
Ela gemia, mas levantou a mão para Joel.
— Fique para trás.
Seu nariz e seus ouvidos sangravam e se sentia como se estivesse sido atropelada por um trem de carga. Duas vezes. Saturno realmente era muito forte.
 Mas, até aí, ela também era.
Emily sentou-se e liberou a Chama. Acertou uma rajada de energia em Saturno que fez o Titã gritar enquanto era jogado para trás por toda a extensão da unidade prisional.
Ela se levantou ao mesmo tempo em que os outros Titãs erguiam suas mãos. Eles combinaram seus poderes e dispararam com tudo em sua direção. Emily achava que Vesta a havia preparado para qualquer coisa. Mas a professora nunca havia imaginado que um dia encararia os líderes dos titãs.
Emily precisou de toda a concentração para não ser rasgada ao meio pelos imensos poderes dos Titãs. Mas quando sentiu que estava escorregando, ela se lembrou de algo que havia aprendido sobre si mesma. Ela não era mais uma humana. Nem olímpica. Era uma Xan sem corpo – feita de energia pura. Não havia necessidade de energia para enfrentar energia.
Emily relaxou e abriu a guarda. O poder de todos os Titãs a atingiu em cheio e fez com ela caísse para trás mais uma vez. Mas não podiam destruí-la. Emily percebeu que ela era igual ao Vácuo Energético. Quanto mais atiravam nela, mais forte ela ficava.
À sua frente, os rostos dos Titãs mostravam o tamanho de seus esforços. Saturno se levantou e soltou um grito enfurecido enquanto fundia seus poderes com o dos outros.
Faíscas encheram o ar e a atmosfera ficou carregada de energia. Mas Emily aguentou firme. E reuniu os próprios poderes, reagindo com uma rajada que o encheu o corredor da prisão com luz branca ofuscante.
Os Titãs mais próximos dela gritaram enquanto eram instantaneamente vaporizados pela Chama. Saturno e os sobreviventes foram atirados contra a parede. Caíram no chão em uma pilha que gemia e ardia.
— Oh, Emily — disse Riza com tristeza. — O que você fez?
— O que eu tinha que fazer! — devolveu Emily.
Atrás dela, Joel estava no chão, coberto por Prometeu e dois outros olímpicos por conta do calor ardente que preenchera o corredor. Olímpicos estavam espalhados para todos os lados, gemendo baixinho por causa dos ferimentos.
Emily correu em sua direção e começou a curar Prometeu e os outros olímpicos. Ela os puxou para os lados e, abaixo deles, encontrou Joel e Mike.
— Você está bem?
Joel acenou positivamente.
— Graças a Prometeu e esses dois — ele foi se sentando lentamente. Sua pele estava rosa e brilhava por causa das queimaduras. Mas sem a proteção de Prometeu, teria sido muito pior. — Uau, Em, você realmente deu uma lição neles!
Emily olhou em volta.
— Onde estão os Titãs das Sombras?
— Você os destruiu — disse Prometeu.
— Prometeu, muito obrigada por ter salvado Joel — disse Emily. — Mas, agora, você nos ajuda a salvar os olímpicos?
— Claro — disse o Titã. — O que posso fazer?
— Se usarmos os meus poderes, você nos guia até Titus?


Chegaram a Titus no meio da batalha. Júpiter e sua equipe lutavam com todas as forças contra os milhares de Titãs das Sombras que fervilhavam.
— Onde Saturno está guardando a arma? — perguntou Joel para Prometeu.
O grande Titã apontou para o palácio se Saturno.
— Ele a desenvolveu no subsolo, bem no fundo da terra, e depois a trouxe para cá. É daqui que eles a estão lançando. Mas chegamos tarde demais.
— Como você sabe? — perguntou Emily.
— Porque estou me sentindo bem — disse Prometeu, com tristeza. — Assim como os olímpicos que estão enfrentando os Guerreiros das Sombras. Se a arma ainda estivesse aqui, estaríamos muito mal. Ela já deve ter sido enviada para o Olimpo. E derrotará tudo por lá antes de seus poderes chegarem aqui. Em breve vai matar todos nós.
— Não! — gritou Emily.
Ela percebeu que Prometeu estava certo. Os Três Grandes pareciam mais jovens e fortes enquanto enfrentavam os Titãs das Sombras. Os Quatro Guerreiros eram quase imbatíveis enquanto usavam suas espadas flamejantes para despachar todos os que se aproximavam. Briareos estava destruindo Sombras às centenas.
— Não podemos ter chegado tarde demais! — Emily os ergueu no ar e voou para o palácio de Saturno.
À medida que se aproximavam, Emily viu Stella no telhado... e lá estava a caixa dourada! Mas quando olhou mais de perto, viu Stella em graves apuros – dois Titãs das Sombras iam em direção, com as armas nas mãos.
Emily disparou uma rajada de fogo que destruiu instantaneamente os dois Titãs das Sombras.
— A arma ainda está aqui? — perguntou Joel enquanto pousavam no telhado.
Stella acenou com a cabeça.
— Está na caixa. — Ela empurrou a caixa para o lado e se arrastou até onde estava o Agente B, esforçando-se para remover o elmo dele. — Ajude-o!
No momento em que o elmo se soltou, eles viram que o Agente B já estava morto. Emily estendeu a mão e acariciou o rosto do agente da UCP.
— Isso não acabou entre nós, Agente B — disse ela suavemente. — Verei você novamente, muito em breve. — Ela se inclinou para a frente, puxou o pendente de Pegasus em seu pescoço e beijou sua testa delicadamente. — Logo te devolvo isso.
— O Agente B parou de lutar para colocar a arma dentro da caixa — disse Stella, com tristeza. — Ele deu a vida pelos olímpicos.
— Ele realmente mudou — disse Joel. — Quando as coisas pioraram, ele ficou do lado dos olímpicos.
Emily se ajoelhou diante da caixa dourada e sentiu seu peso com a pedra trancada em seu interior. Ela se agarrou ao pingente.
— Acabou, Pegs, logo vamos estar em casa.
— Acabou? — disse Prometeu. — Longe disso. Há ainda muitos Titãs das Sombras para serem destruídos. E embora você tenha ferido Saturno, ainda não o derrotou. Ele se erguerá novamente.
Joel estendeu a mão para Prometeu.
— Sim, ele voltará, mas Júpiter e os olímpicos o derrotarão. Saturno está destinado a permanecer em Tártaro.
— Como você pode saber disso? — Perguntou Prometeu.
Joel olhou para Emily e Stella.
— Confie em mim. Eu sei.
Eles voaram de volta para o campo de batalha onde os últimos Titãs das Sombras haviam tombado.
Mike voltou correndo para Emily, abanando a cauda de felicidade, enquanto carregava um elmo de tartaruga.
Júpiter abraçou Emily com força.
— Graças às estrelas! Temíamos o pior. Quando meu pai a capturou, não sabíamos o que poderia acontecer — ele abaixou a cabeça e deu um leve sorriso enquanto seus olhos brilhavam.
— Você pode me perdoar por não ter ido atrás de você?
— Não há nada a perdoar. Você tinha que vir atrás da arma — Emily apontou para a caixa dourada. — E lá está ela, trancada com segurança na caixa, graças à Stella e ao Agente B.
— Onde está o Agente B?
— Ele morreu protegendo vocês — disse Stella suavemente.
— Então ele deverá ser lembrado pelo resto dos tempos como um herói do Olimpo — Júpiter deu uma piscadela atrevida na direção de Emily. — Fico me perguntando o que a UCP acharia disso.
— Acho que o Agente B ficaria emocionado. A UCP? Nem tanto.
Joel colocou o braço em volta de Emily.
— Vamos lá, Em, vamos acabar com isso. Não gosto de saber que essa coisa está andando por aí. Que tal se você a destruir para que possamos todos voltar para casa?
— Ainda não, Joel — disse Netuno. — Há ainda mais uma coisa que temos que fazer.

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