29 de setembro de 2015

Capítulo 37 - Artifícios

Aro não foi até a guarda angustiada que esperava do lado norte da clareira; em vez disso, acenou para que o seguissem.
Edward começou a recuar imediatamente, puxando meu braço e o de Emmett. Voltamos, apressados, de olho na ameaça que avançava. Jacob recuou mais lentamente, o pelo dos ombros se eriçando enquanto ele arreganhava as presas para Aro. Renesmee agarrou a ponta de sua cauda, e a segurou como uma guia, obrigando-o a ficar conosco. Alcançamos nossa família no mesmo instante em que os mantos escuros cercaram Aro de novo.
Agora só havia cinquenta metros entre nós e eles – uma distância que qualquer um de nós podia saltar em uma fração de segundo.
Caius começou a discutir com Aro imediatamente.
— Como pode tolerar esta infâmia? Por que estamos aqui, parados e impotentes, diante de um crime tão ultrajante, encoberto por uma fraude tão ridícula? — Ele mantinha os braços rígidos ao lado do corpo, as mãos formando garras.
Perguntei-me por que ele não tocava Aro para partilhar sua opinião. Já estaríamos vendo uma divisão em suas fileiras? Será que tínhamos tanta sorte assim?
— Porque é tudo verdade — disse Aro calmamente. — Cada palavra dita. Veja quantas testemunhas estão prontas para dar prova de que viram essa criança miraculosa crescer e amadurecer no pouco tempo em que a conhecem. Que sentiram o calor do sangue que pulsa em suas veias. — O gesto de Aro abarcou Amun, de um lado, e Siobhan, do outro.
Caius reagiu estranhamente às palavras tranquilizadoras de Aro a partir da menção da palavra testemunhas. A raiva desapareceu de seu rosto, substituída por uma fria maquinação. Ele olhou para as testemunhas dos Volturi com uma expressão que parecia um tanto... nervosa.
Eu também olhei para a turba furiosa e imediatamente vi que a descrição não era mais válida. O frenesi de ação tinha se transformado em confusão. Conversas aos sussurros fervilhavam pela multidão tentando encontrar sentido no que acontecera.
Caius tinha a testa franzida, imerso em pensamentos. Sua expressão especulativa alimentou as chamas de minha raiva abrasadora ao mesmo tempo em que me preocupava. E se a guarda agisse novamente a um sinal invisível, como fizera em sua marcha? Ansiosa, examinei meu escudo; parecia tão impenetrável quanto antes. Eu o flexionei num domo baixo e amplo que cobria todo o nosso grupo.
Podia sentir as fluidas agulhas de luz onde estavam minha família e meus amigos – cada um deles um cheiro especial, que eu imaginava, com a prática, ser capaz de reconhecer. Já conhecia o de Edward – era o mais brilhante de todos. O espaço a mais em volta dos pontos luminosos me incomodava; não havia barreira física ao escudo, e se qualquer um dos talentosos Volturi entrasse debaixo dele, ele protegeria só a mim. Senti a testa enrugar enquanto puxava com cuidado a armadura elástica para mais perto. Carlisle era o mais distante; puxei o escudo centímetro por centímetro, tentando envolvê-lo com a maior exatidão possível.
Meu escudo parecia querer cooperar. Ele abraçou seu corpo e, quando Carlisle se moveu para o lado, para ficar mais perto de Tanya, o elástico se esticou com ele, atraído por sua centelha. Fascinada, puxei mais fios do tecido, passando-o em volta de cada forma cintilante que era um amigo ou aliado. O escudo prendeu-se a eles de boa vontade, movendo-se quando eles se moviam.
Só um segundo tinha se passado; Caius ainda estava deliberando.
— Os lobisomens — murmurou por fim.
Com um pânico repentino, percebi que a maioria dos lobisomens estava desprotegida. Eu estava prestes a estender o escudo até eles quando percebi que, estranhamente, ainda podia sentir suas centelhas. Curiosa, recolhi o escudo até Amun e Kebi – na extremidade mais distante de nosso grupo – ficarem de fora com os lobisomens. Quando eles ficavam do outro lado, suas luzes desapareciam. Deixavam de existir, naquele novo sentido. Mas os lobos ainda eram chamas brilhantes – ou melhor, metade deles. Humm... Eu o estendi novamente, e assim que Sam estava sob a cobertura, todos os lobos eram centelhas brilhantes outra vez.
Suas mentes deviam ser mais interconectadas do que eu imaginava. Se o alfa estivesse dentro de meu escudo, as demais mentes ficavam tão protegidas quanto a dele.
— Ah, irmão... — Aro respondeu à declaração de Caius com um olhar de dor.
— Defenderá essa aliança também, Aro? — perguntou Caius. — Os Filhos da Lua têm sido nossos inimigos mais amargos desde a aurora dos tempos. Nós quase os levamos à extinção na Europa e na Ásia. E, no entanto, Carlisle estimula uma relação familiar com essa enorme infestação... sem dúvida numa tentativa de nos destronar. Melhor para proteger seu estilo de vida distorcido.
Edward pigarreou e Caius o fuzilou com os olhos. Aro colocou a mão fina e delicada no rosto como se estivesse constrangido pelo outro ancião.
— Caius, estamos no meio do dia — observou Edward. Ele gesticulou para Jacob. — Estes não são Filhos da Lua, obviamente. Não têm nenhuma relação com seus inimigos do outro lado do mundo.
— Vocês criaram mutantes aqui — cuspiu Caius.
O queixo de Edward enrijeceu e relaxou, e então ele respondeu, tranquilamente:
— Eles nem são lobisomens. Aro pode lhe contar tudo sobre isso, se não acredita em mim.
Não são lobisomens? Olhei pasma para Jacob. Ele ergueu os ombros imensos e os soltou, dando de ombros. Ele também não sabia do que Edward estava falando.
— Meu caro Caius, eu o teria alertado a não insistir nesse ponto, se tivesse me contado seus pensamentos — murmurou Aro. — Embora as criaturas se considerem lobisomens, elas não o são. Um nome mais preciso para elas seria transfiguradores. A opção pela forma de lobo foi puramente fortuita. Podia ter sido urso, falcão ou pantera, quando aconteceu a primeira transformação. Essas criaturas nada têm a ver com os Filhos da Lua. Elas meramente herdaram essa habilidade de seus pais. É genético... Eles não dão continuidade a sua espécie infectando outros, como fazem os lobisomens.
Caius olhou para Aro com irritação e algo mais – uma acusação de traição, talvez.
— Eles conhecem nosso segredo — disse ele.
Edward parecia prestes a responder a essa acusação, mas Aro foi mais rápido.
— Eles são criaturas de nosso mundo sobrenatural, irmão. Talvez ainda mais dependentes do sigilo do que nós; não podem nos expor. Cuidado, Caius. Alegações falsas não nos levam a lugar nenhum.
Caius respirou fundo e assentiu. Eles trocaram um longo olhar, cheio de significado. Pensei ter entendido a instrução por trás da advertência de Aro. Acusações falsas não iam ajudar a convencer as testemunhas de nenhum dos lados; Aro estava alertando Caius a passar para a estratégia seguinte. Perguntei-me se o motivo por trás da aparente tensão entre os dois anciãos – a má vontade de Caius em partilhar seus pensamentos com um toque – seria Caius não se importar com a exibição tanto quanto Aro. Se a carnificina esperada não seria tão mais essencial para Caius do que uma reputação imaculada.
— Quero falar com a informante — anunciou Caius abruptamente e voltou seu olhar para Irina.
Irina não prestava atenção na conversa de Caius e Aro; seu rosto estava retorcido de agonia, os olhos, fixos nas irmãs, enfileiradas para morrer. Em seu rosto estava claro que agora ela sabia que sua acusação fora totalmente falsa.
— Irina — ladrou Caius, insatisfeito por ter de se dirigir a ela.
Ela levantou a cabeça, assustada e amedrontada.
Caius estalou os dedos. Hesitante, ela saiu da margem da formação Volturi para ficar de frente para Caius de novo.
— Parece que você cometeu um erro em suas alegações — começou Caius.
Tanya e Kate inclinaram-se para a frente, ansiosas.
— Desculpe-me — sussurrou Irina. — Eu deveria ter me certificado do que estava vendo. Mas eu não fazia ideia... — Ela gesticulou desamparada na nossa direção.
— Meu Caro Caius, você esperaria que ela adivinhasse em um instante algo tão estranho e impossível? — perguntou Aro. — Qualquer um de nós teria feito a mesma suposição.
Caius agitou os dedos para silenciar Aro.
— Todos sabemos que você cometeu um erro — disse ele bruscamente. — Eu me referia a suas motivações.
Nervosa, Irina esperou que ele continuasse, então repetiu:
— Minhas motivações?
— Sim, para vir espioná-los, antes de tudo.
Irina se encolheu com a palavra espionar.
— Estava insatisfeita com os Cullen, não é verdade?
Ela voltou seus olhos infelizes para Carlisle.
— Estava — admitiu.
— Porque...? — incitou Caius.
— Porque os lobisomens mataram meu amigo — sussurrou ela. — E os Cullen não me permitiram vingá-lo.
— Os transfiguradores — corrigiu Aro em voz baixa.
— Então os Cullen tomaram o partido dos transfiguradores e contra nossa própria espécie... contra o amigo de uma amiga, até — resumiu Caius.
Ouvi Edward deixar escapar um som de repulsa. Caius estava verificando sua lista, procurando uma acusação que pegasse. Os ombros de Irina enrijeceram.
— Era assim que eu via.
Caius esperou novamente e sugeriu:
— Se quiser fazer uma queixa formal contra os transfiguradores... e os Cullen, por apoiarem seus atos... esta é a hora. — Ele abriu um sorrisinho cruel, esperando que Irina lhe desse a próxima desculpa.
Talvez Caius não entendesse as famílias de verdade – as relações baseadas em amor, e não apenas no amor pelo poder. Talvez ele superestimasse a força da vingança. O queixo de Irina empinou-se e seus ombros se endireitaram.
— Não, não tenho nenhuma queixa contra os lobisomens, nem contra os Cullen. Vocês vieram aqui para destruir uma criança imortal. Não existe nenhuma criança imortal. Esse foi meu erro, e assumo total responsabilidade por ele. Mas os Cullen são inocentes e vocês não têm motivos para permanecer aqui. Sinto muito — ela nos disse, e então se voltou para as testemunhas dos Volturi. — Não houve nenhum crime. Não há motivo válido para ficarem.
Enquanto ela falava, Caius ergueu a mão, e nela havia um estranho objeto de metal, entalhado e decorado.
Era um sinal. A reação foi tão rápida que todos assistimos em aturdida incredulidade enquanto acontecia. Antes que houvesse tempo para reagir, estava acabado.
Três dos soldados Volturi saltaram para a frente, e Irina foi completamente obscurecida por seus mantos cinza. No mesmo instante, um horrendo guincho metálico rasgou a clareira. Caius deslizou para o meio do alvoroço cinza, e o guincho chocante explodiu numa chuva assustadora de centelhas e línguas de fogo. Os soldados fugiram do inferno repentino, saltando para trás e imediatamente reassumindo suas posições na linha perfeitamente reta da guarda.
Caius permaneceu sozinho ao lado dos restos em brasa de Irina, o objeto de metal em sua mão ainda lançando um jato espesso de fogo na pira.
Com um pequeno estalo, o fogo que esguichava da mão de Caius desapareceu. Um arquejo percorreu a massa de testemunhas atrás dos Volturi. Estávamos horrorizados demais para emitir qualquer ruído. Uma coisa era saber que a morte viria com uma velocidade feroz e irreprimível; outra era vê-la acontecer.
Caius deu um sorriso frio.
— Agora ela assumiu toda a responsabilidade por seus atos.
Seus olhos dispararam para a nossa linha de frente, tocando rapidamente as formas paralisadas de Tanya e Kate.
Naquele segundo, entendi que Caius não havia subestimado os laços de uma verdadeira família. Essa era a trama. Ele não quisera arrancar a queixa de Irina; o que ele queria era que ela o desafiasse. Uma desculpa para destruí-la, para inflamar a violência que enchia o ar como uma névoa espessa e combustível. Ele havia riscado um fósforo.
A paz tensa daquela reunião já oscilava mais precariamente do que um elefante numa corda bamba. Assim que a luta começasse, não haveria como pará-la. Ela só aumentaria até que um lado estivesse inteiramente extinto. Nosso lado. Caius sabia disso.
E também Edward.
— Detenham-nas! — gritou Edward, saltando para agarrar o braço de Tanya enquanto ela se atirava na direção do sorridente Caius com um grito enlouquecido de puro ódio. Ela não conseguiu se livrar de Edward antes que Carlisle passasse os braços em sua cintura, prendendo-a.
— É tarde demais para ajudá-la — argumentou ele com urgência enquanto ela lutava. — Não lhe dê o que ele quer!
Kate foi mais difícil de conter. Gritando sem dizer nada, como Tanya, ela deu o primeiro passo do ataque que terminaria com a morte de todos.
Rosalie estava mais perto dela, mas, antes que Rose pudesse imobilizá-la com uma gravata, Kate lhe aplicou um choque tão violento que Rose caiu ao chão. Emmett agarrou o braço de Kate e a derrubou, depois recuou, baleando, seus joelhos cedendo. Kate se levantou, e parecia que ninguém poderia detê-la.
Garrett atirou-se sobre ela, jogando-a no chão novamente. Ele passou os braços em torno dos dela, segurando com força os próprios punhos. Vi o corpo dele agitar-se em espasmos enquanto ela lhe aplicava choques. Os olhos de Garrett rolaram nas órbitas, mas ele não a soltou.
— Zafrina — gritou Edward.
Os olhos de Kate ficaram vagos e seus gritos transformaram-se em gemidos. Tanya parou de lutar.
— Devolva minha visão — sibilou Tanya.
Desesperada, mas com toda a delicadeza que consegui, eu empurrei meu escudo ainda mais contra as centelhas de meus amigos, retirando-o cuidadosamente de Kate enquanto tentava mantê-lo em torno de Garrett, formando uma membrana fina entre eles.
E então Garrett tinha o controle de si mesmo outra vez, segurando Kate na neve.
— Se eu a deixar levantar, vai me derrubar de novo, Kate? — sussurrou ele.
Ela rosnou em resposta, ainda se debatendo cegamente.
— Ouçam-me, Tanya, Kate — disse Carlisle num sussurro baixo mas intenso. — A vingança não as ajudará agora. Irina não ia querer que desperdiçassem a vida dessa maneira. Pensem no que estão fazendo. Se os atacarem, todos vamos morrer.
Os ombros de Tanya desabaram com a dor, e ela se recostou em Carlisle, buscando apoio. Kate finalmente ficou imóvel. Carlisle e Garrett continuaram a consolar as irmãs com palavras insistentes demais para parecerem reconfortantes.
E minha atenção se voltou para os olhares que pesavam sobre nosso momento de caos. Pelo canto do olho pude ver que Edward e todos, exceto Carlisle e Garrett, estavam em guarda novamente.
O olhar mais pesado vinha de Caius, olhando com uma incredulidade enfurecida Kate e Garrett na neve. Aro também observava os dois, descrença era a emoção mais forte em seu rosto. Ele sabia o que Kate podia fazer. Tinha sentido sua potência por meio das lembranças de Edward.
Será que ele entendia o que estava acontecendo agora – via que meu escudo tinha adquirido força e sutileza muito além do que Edward sabia que eu era capaz de fazer? Ou ele pensava que Garrett tinha aprendido sua própria forma de imunidade?
A guarda Volturi não tinha mais aquela atenção disciplinada – estava agachada, esperando para lançar o contra-ataque no momento em que fizéssemos a investida.
Atrás deles, quarenta e três testemunhas observavam com expressões muito diferentes daquelas que tinham ao entrar na clareira. A confusão se transformara em desconfiança. Todos ficaram abalados com a destruição relâmpago de Irina. Qual fora o crime dela?
Sem o ataque imediato com que Caius havia contado para distraí-los de seu ato temerário, as testemunhas Volturi se viram questionando exatamente o que estava acontecendo ali. Aro olhou para trás rapidamente enquanto eu observava, seu rosto traindo-o com um lampejo de irritação. Sua necessidade de uma plateia havia se voltado contra ele.
Ouvi os murmúrios silenciosos de alegria de Stefan e Vladimir com o desconforto de Aro.
Aro, obviamente, estava preocupado em manter sua auréola, como disseram os romenos. Mas eu não acreditava que os Volturi nos deixariam em paz só para salvar sua reputação. Depois que terminassem conosco, certamente abateriam também suas testemunhas. Senti uma compaixão estranha e repentina pela massa de estranhos que os Volturi trouxeram para nos ver morrer. Demetri os perseguiria até que eles também estivessem extintos.
Por Jacob e Renesmee, por Alice e Jasper, por Alistair e por todos aqueles estranhos que não sabiam o que lhes custaria aquele dia, Demetri tinha de morrer.
Aro tocou de leve o ombro de Caius.
— Irina foi punida por dar falso testemunho contra esta criança. — Então essa era a desculpa deles. Ele continuou: — Talvez devamos voltar à questão que nos interessa.
Caius endireitou o corpo e sua expressão endureceu, tornando-se impenetrável. Ele olhava à frente, sem nada ver. Seu rosto lembrou, estranhamente, o de uma pessoa que tinha acabado de saber que fora rebaixada.
Aro adiantou-se, Renata, Felix e Demetri automaticamente movendo-se com ele.
— Para cobrirmos todos os aspectos — disse ele — gostaria de falar com algumas de suas testemunhas. Protocolo, vocês sabem. — Ele agitou a mão com desdém.
Duas coisas aconteceram a um só tempo. Os olhos de Caius se concentraram em Aro e o sorrisinho cruel voltou. E Edward sibilou, as mãos fechando se com tanta força que parecia que os ossos dos nós dos dedos romperiam a pele dura como diamante.
Eu estava desesperada para perguntar a ele o que se passava, mas Aro estava muito perto para ouvir o mais leve sussurro. Vi Carlisle olhar ansioso para Edward, e então seu rosto enrijeceu.
Enquanto Caius tropeçava em acusações inúteis e tentativas precipitadas de incitar à luta, Aro devia ter pensado numa estratégia mais eficaz.
Aro caminhou como um fantasma pela neve até a extremidade esquerda de nossa linha, parando a uns dez metros de Amun e Kebi. Os lobos próximos se eriçaram, coléricos, mas se mantiveram no lugar.
— Ah, Amun, meu vizinho do sul! — disse Aro calorosamente. — Faz muito tempo que não me visita.
Amun estava imóvel, ansioso; Kebi uma estátua ao lado dele.
— O tempo pouco significa; nunca percebo sua passagem — disse Amun com os lábios imóveis.
— É verdade — concordou Aro. — Mas quem sabe tem outro motivo para se manter afastado?
Amun nada disse.
— Pode tomar muito tempo de nosso tempo organizar recém-chegados em um clã. Sei bem disso! Sinto-me grato por ter outros para lidar com o tédio. E fico feliz que seus novos acréscimos tenham se adaptado tão bem. Eu teria adorado ter sido apresentado a eles. Sei que você pretendia me procurar em breve.
— É claro — disse Amun, o tom tão sem emoção que era impossível dizer se havia medo ou sarcasmo em sua voz.
— Ah, ora, agora estamos todos juntos! Não é maravilhoso?
Amun assentiu, o rosto inexpressivo.
— Mas o motivo para sua presença aqui não é tão agradável, infelizmente. Carlisle o chamou para testemunhar?
— Sim.
— E o que você testemunhou?
Amun falou com a mesma frieza e falta de emoção.
— Observei a criança em questão. Quase imediatamente ficou claro que não se tratava de uma criança imortal...
— Talvez devamos definir nossa terminologia — interrompeu Aro — agora que parece haver novas classificações. Por criança imortal você se refere, é claro, a uma criança humana que foi mordida e assim transformada em vampira.
— Sim, é o que quero dizer.
— O que mais observou sobre a criança?
— O mesmo que você certamente viu na mente de Edward. Que a criança é biologicamente dele. Que ela cresce. Que ela aprende.
— Sim, sim — disse Aro, uma ponta de impaciência no tom amistoso. — Mas, especificamente nas poucas semanas em que esteve aqui, o que você viu?
A sobrancelha de Amun se franziu.
— Que ela cresce... rapidamente.
Aro sorriu.
— E acredita que devamos permitir que ela viva?
Um silvo escapou por meus lábios, e eu não fui a única. Metade dos vampiros em nossa linha ecoou meu protesto. O som era um chiado baixo de fúria que pairou no ar. Do outro lado da campina, algumas testemunhas dos Volturi fizeram o mesmo ruído. Edward recuou e me conteve, passando a mão em minha cintura.
Aro não se virou para o ruído, mas Amun olhou em volta, inquieto.
— Não estou aqui para fazer julgamentos — ele se esquivou.
Aro riu levemente.
— Apenas a sua opinião.
O queixo de Amun se ergueu.
— Não vejo nenhum perigo na criança. Ela aprende ainda mais rapidamente do que cresce.
Aro assentiu, refletindo. Depois de um instante, ele se afastou.
— Aro? — chamou Amun. Aro girou.
— Sim, meu amigo?
— Já dei meu testemunho. Não tenho outros interesses aqui. Minha parceira e eu gostaríamos de partir agora.
Aro sorriu calorosamente.
— Claro. Fico feliz que tenhamos podido conversar um pouco. E sei que nos veremos novamente em breve.
Os lábios de Amun eram uma linha reta enquanto ele inclinava a cabeça, reconhecendo a ameaça mal disfarçada. Ele tocou o braço de Kebi, e então os dois correram rapidamente para a margem sul da campina e desapareceram em meio às árvores. Eu sabia que eles não parariam de correr por um bom tempo.
Aro deslizava de volta, seguindo para a direita de nossa fila, seus guardas rondando-o, tensos. Ele parou diante da imensa forma de Siobhan.
— Olá, minha cara Siobhan. Está linda como sempre.
Siobhan inclinou a cabeça, esperando.
— E você? — perguntou ele. — Teria respondido a minhas perguntas da mesma forma que Amun?
— Sim — disse Siobhan. — Mas talvez eu acrescentasse um pouco mais. Renesmee entende as limitações. Ela não coloca os humanos em risco... Ela se mistura melhor do que nós. Não oferece nenhuma ameaça de nos expor.
— Não consegue pensar em nenhuma? — perguntou Aro com gravidade.
Edward grunhiu, um ruído baixo e violento do fundo da garganta.
Os olhos carmim e nebulosos de Caius se iluminaram. Renata estendeu o braço protetor para o mestre.
E Garrett libertou Kate a fim de avançar um passo, ignorando a mão de Kate enquanto, dessa vez, ela tentava alertá-lo. Siobhan respondeu lentamente.
— Acho que não o compreendi.
Aro recuou um pouco, casualmente, em direção ao resto de sua guarda. Renata, Felix e Demetri estavam mais próximos do que sua sombra.
— Não houve nenhuma infração à lei — disse Aro numa voz apaziguadora, mas cada um de nós podia perceber que viria um porém.
Reprimi a raiva que tentava se apoderar de minha garganta e libertar meu rosnado de desafio. Transferi a fúria para meu escudo, espessando-o, certificando-me de que todos estivessem protegidos.
— Nenhuma infração à lei — repetiu Aro. — No entanto, isso assegura que não haja perigo? Não. — Ele sacudiu a cabeça gentilmente. — Esta é outra questão.
A única resposta foi o endurecimento de nervos já tensos, e Maggie, na extremidade de nosso grupo de lutadores, sacudiu a cabeça com uma raiva lenta.
Aro andava de um lado para o outro, pensativo, parecendo flutuar em vez de tocar o chão com os pés. Percebi que cada passo o colocava mais próximo da proteção de sua guarda.
— Ela é única... Completa e impossivelmente única. Seria um desperdício destruir algo tão maravilhoso. Em especial quando podemos aprender tanto... — Ele suspirou, como se hesitasse continuar. — Mas existe perigo, um perigo que não pode ser ignorado.
Ninguém respondeu a essa afirmativa. Fez-se um silêncio mortal enquanto ele continuava o monólogo, como se falasse consigo mesmo.
— Que ironia que à medida que os homens avançam, que sua fé na ciência aumenta e controla seu mundo, mais livres fiquemos de ser descoberto. No entanto, à medida que nos tornamos cada vez mais desinibidos por sua descrença no sobrenatural, eles se tornem tão fortes em suas tecnologias que se desejassem, poderiam realmente representar uma ameaça para nós até destruir alguns de nós.
“Por milhares e milhares de anos, nosso segredo tem sido mais uma questão de conveniência, de comodidade, em vez de segurança real. Este último século, cruel e furioso, deu à luz armas com tal poder que colocam em risco até os imortais. Agora nossa condição de mero mito na verdade nos protege dessas criaturas fracas que caçamos.
“Esta criança impressionante”, ele ergueu a palma da mão como se para pousá-la em Renesmee, embora estivesse a quarenta metros dela, quase dentro da formação Volturi, “se pudéssemos conhecer seu potencial... saber com absoluta certeza que ela poderia sempre continuar abrigada na obscuridade que nos protege... Mas nada sabemos do que ela se tornará! Seus próprios pais temem por seu futuro. Não podemos saber no que ela se transformará.
Ele parou, olhando, primeiro, para nossas testemunhas, depois, para as dele. Sua voz convencia como a de alguém dilacerado pelo que dizia. Ainda olhando para suas testemunhas, ele voltou a falar.
— Só o conhecido é seguro. Só o conhecido é tolerável. O desconhecido é... uma vulnerabilidade.
O sorriso de Caius se ampliou cruelmente.
— Está se estendendo demais, Aro — disse Carlisle numa voz fria.
— Paz, amigo. — Aro sorriu, o rosto tão gentil, a voz tão suave como sempre. — Não vamos nos precipitar. Vamos examinar a questão de todos os aspectos.
— Posso propor um aspecto a ser considerado? — solicitou Garrett num tom equilibrado, dando outro passo à frente.
— Nômade — disse Aro, dando sua permissão.
O queixo de Garrett se ergueu. Seus olhos focalizaram a massa acotovelada no fim da campina e ele falou diretamente às testemunhas dos Volturi.
— Vim aqui a pedido de Carlisle, assim como os outros, para testemunhar — disse ele. — Isso, certamente, não é mais necessário, com relação criança. Todos vemos o que ela é.
“Fiquei para observar outra coisa. Vocês.” Ele apontou para os vampiros cautelosos. “Dois de vocês eu conheço... Makenna, Charles... E sei que muitos outros também são errantes, nômades como eu. Que não respondem a ninguém. Pensem com cuidado no que vou lhes dizer agora.
“Esses anciãos não vieram para fazer justiça, como lhes disseram. Tínhamos essa desconfiança, e agora isso foi provado. Eles vieram, equivocados, mas com uma desculpa válida para seus atos. Vocês os veem agora procurar desculpas frágeis para continuar sua verdadeira missão. Vejam como lutam para encontrar uma justificativa para seu verdadeiro propósito... destruir esta família aqui.”
Ele gesticulou na direção de Carlisle e Tanya.
— Os Volturi vieram eliminar o que veem como uma concorrência. Talvez, como eu, vocês olhem para os olhos dourados deste clã e se surpreendam. É difícil entendê-los, é verdade. Mas os anciãos olham e veem algo além de sua estranha opção. Eles veem poder.
“Testemunhei os laços que unem esta família – notem que digo família, e não clã. Esta gente estranha, de olhos dourados, nega sua própria natureza. Mas será que em troca encontraram algo que vale mais, talvez, do que a mera satisfação do desejo? Estudei-os um pouco enquanto estive aqui, e me parece que intrínseco a este forte laço familiar – o que o torna possível – é o caráter pacífico dessa vida de sacrifício. Não há agressividade, como todos vimos nos grandes clãs do sul, que cresceram e diminuíram tão rapidamente em suas rixas desvairadas. Não há a intenção de domínio. E Aro sabe disso melhor que eu.
Olhei o rosto de Aro enquanto as palavras de Garrett o condenavam, esperando, tensa, uma reação. Mas a expressão de Aro era apenas educadamente divertida, como se esperasse que uma criança em um acesso de pirraça percebesse que ninguém estava prestando atenção nela.
— Quando nos disse o que estava por vir, Carlisle garantiu a todos que não nos chamou aqui para lutar. Estas testemunhas — Garrett apontou para Siobhan e Liam — concordaram em vir para reduzir o avanço dos Volturi com sua presença, de modo que Carlisle tivesse a oportunidade de apresentar seus argumentos.
“Mas alguns de nós se perguntavam”, seus olhos passaram pelo rosto de Eleazar, “se ter a verdade a seu lado seria o suficiente para Carlisle impedir a assim chamada justiça. Os Volturi estão aqui para proteger a segurança de nosso segredo ou para proteger seu próprio poder? Eles vieram destruir uma criação ilegal ou um modo de vida? Eles ficariam satisfeitos quando o perigo se revelasse nada mais do que um mal-entendido? Ou levariam a questão adiante, sem a desculpa da justiça?
“Já temos a resposta a todas estas perguntas. Nós a ouvimos nas palavras enganadoras de Aro – temos alguém com o dom para saber essas coisas com certeza – e a vemos agora no sorriso ávido de Caius. Sua guarda é apenas uma arma irracional, um instrumento na busca de domínio de seu senhores.
“Assim, agora há mais questões, questões a que vocês devem responder. Quem os governa, nômades? Vocês respondem aos desejos de alguém, além dos próprios? São livres para escolher seu caminho ou os Volturi decidirão como vocês vão viver?
“Eu vim testemunhar. Fico para lutar. Os Volturi não se importam com a morte da criança. O que eles buscam é a morte de nosso livre-arbítrio.
Ele se virou, então, para encarar os anciãos.
— Então venham, é o que digo! Não vamos mais ouvir racionalizações mentirosas. Sejam francos em seus propósitos, como somos nos nossos. Defenderemos nossa liberdade. Vocês a atacarão ou não. Decidam agora e deixem que essas testemunhas vejam a questão verdadeiramente em debate aqui.
Mais uma vez ele olhou para as testemunhas dos Volturi, os olhos sondando cada rosto. O poder de suas palavras estava evidente na expressão deles.
— Talvez queiram considerar se juntar a nós. Se pensam que os Volturi os deixarão viver para contar esta história, estão enganados. Seremos todos destruídos — ele deu de ombros — ou talvez não. Talvez estejamos em pé de igualdade, mais do que eles acreditam. Talvez, finalmente, os Volturi tenham encontrado adversários à altura. Mas eu lhes garanto: se cairmos, vocês cairão.
Ele terminou seu discurso acalorado recuando para o lado de Kate e então deslizando numa postura semiagachada, preparado para o ataque.
Aro sorriu.
— Um belo discurso, meu amigo revolucionário.
Garrett manteve a postura de ataque.
— Revolucionário? — ele grunhiu. — Contra quem estou me rebelando, posso perguntar? Você é meu rei? Quer que o chame de mestre também, como sua guarda de sicofantas?
— Paz, Garrett — disse Aro com tolerância. — Apenas me referi à sua época de nascimento. Pelo que vejo, ainda é um patriota.
Garrett o olhou furioso.
— Indaguemos a nossas testemunhas — sugeriu Aro. — Ouçamos seus pensamentos antes de tomarmos nossa decisão. Digam-nos, amigos — e ele voltou as costas despreocupadamente para nós, andando alguns metros na direção de sua massa de observadores nervosos, agora ainda mais próxima da beira da floresta — o que pensam de tudo isso? Posso lhes garantir que a criança não é o que temíamos. Assumimos o risco e deixamos a criança viver? Colocamos nosso mundo em perigo para preservar essa família intacta? Ou o sincero Garrett tem razão? Vocês se unirão a eles numa luta contra nossa súbita busca de dominação?
As testemunhas responderam a seu olhar com expressões cautelosas. Uma mulher pequena de cabelos pretos olhou brevemente o louro ao seu lado.
— Essas são nossas únicas opções? — ela perguntou de repente, o olhar cintilando de volta a Aro. — Concordar com vocês ou lutar contra vocês?
— É claro que não, minha encantadora Makenna — disse Aro, parecendo horrorizado com o fato de que alguém pudesse chegar àquela conclusão. — Você pode ir em paz, é claro, como fez Amun, mesmo que discorde da decisão do conselho deliberativo.
Makenna olhou o rosto do parceiro de novo, e ele assentiu minimamente.
— Não viemos para lutar. — Ela parou, soltou o ar, então disse: — Estamos aqui para testemunhar. E nosso testemunho é que esta família condenada é inocente. Tudo o que Garrett afirmou é a verdade.
— Ah! — disse Aro com tristeza. — Lamento que nos veja dessa maneira. Mas essa é a natureza do nosso trabalho.
— Não é o que vejo, mas o que sinto — disse o parceiro louro de Makenna num tom alto e nervoso. Ele olhou para Garrett. — Garrett disse que eles têm formas de identificar mentiras. Eu também sei quando estou ouvindo a verdade e quando não estou. — Com olhos assustados, ele se aproximou da parceira, esperando pela reação de Aro.
— Não tenha medo de nós, amigo Charles. Não há dúvida de que o patriota acredita de fato no que diz. — Aro riu de leve e os olhos de Charles se estreitaram.
— Este é nosso testemunho — disse Makenna. — Agora vamos partir.
Ela e Charles recuaram lentamente, só nos voltando as costas depois de os perdermos de vista nas árvores. Outro estranho começou a se retirar da mesma maneira, depois mais três dispararam atrás dele.
Avaliei os trinta e sete vampiros que ficaram. Alguns pareciam confusos demais para tomar a decisão. Mas a maioria parecia estar totalmente ciente do rumo que o confronto assumia. Calculei que estavam desistindo da vantagem de uma saída antecipada em favor de saber exatamente quem os caçaria depois.
Eu tinha certeza de que Aro via o mesmo que eu. Ele se afastou, retornando à sua guarda com um passo comedido. Parou diante deles e lhes falou em tom claro.
— Somos em menor número, meus queridos — disse ele. — Não podemos esperar ajuda externa. Devemos deixar esta questão sem uma solução para nos salvar?
— Não, mestre — sussurraram eles em uníssono.
— A proteção de nosso mundo vale a possível perda de alguns de nós?
— Sim — sussurraram. — Não temos medo.
Aro sorriu e virou-se para seus companheiros de mantos negros.
— Irmãos — disse Aro sombriamente — há muito o que considerar aqui.
— Deliberemos — disse Caius com ansiedade.
— Deliberemos — repetiu Marcus num tom desinteressado.
Aro nos deu as costas de novo, ficando de frente para os outros anciãos. Eles se deram as mãos, formando um triângulo de mantos negros.
Assim que a atenção de Aro se voltou para a muda deliberação, outras duas testemunhas desapareceram silenciosamente na floresta. Desejei, para o bem deles, que fossem rápidos.
Era agora. Com cuidado, soltei os braços de Renesmee de meu pescoço.
— Lembra o que eu disse a você?
Lágrimas encheram seus olhos, mas ela assentiu.
— Eu amo você — sussurrou ela.
Agora Edward nos observava, os olhos topázio arregalados. Jacob nos olhava pelo canto de seus grandes olhos escuros.
— Eu também amo você — eu disse, depois toquei seu medalhão. — Mais do que minha própria vida. — E lhe dei um beijo na testa.
Jacob gemeu, inquieto. Fiquei na ponta dos pés e sussurrei em seu ouvido:
— Espere até que eles estejam totalmente distraídos, depois corra com ela. Vá para o lugar mais longe daqui possível. Quando estiver o mais distante que conseguir a pé, ela terá aquilo de que vocês precisam para continuar por ar.
O rosto de Edward e Jacob eram máscaras quase idênticas de pavor, apesar do fato de um deles ser um animal.
Renesmee estendeu a mão para Edward e ele a pegou nos braços. Eles se abraçaram com força.
— Foi isso que escondeu de mim? — sussurrou ele por cima da cabeça e Renesmee.
— De Aro — sussurrei.
— Alice?
Assenti. Seu rosto se retorceu com compreensão e dor. Teria sido aquela a expressão em meu rosto quando eu finalmente reunira as pistas de Alice?
Jacob grunhia baixo, um som áspero que era tão regular e ininterrupto quanto um ronronar. Os pelos de seu dorso estavam eriçados e os dentes, expostos.
Edward beijou a testa e ambos os lados do rosto de Renesmee, depois a colocou no ombro de Jacob. Ela subiu com agilidade em suas costas, agarrando-se aos pelos, e se acomodou facilmente no espaço entre os ombros imensos.
Jacob virou-se para mim, os olhos expressivos cheios de agonia, o grunhido ainda rasgando seu peito por dentro.
— Você é o único a quem poderíamos confiá-la — murmurei para ele. — Se você não a amasse tanto, eu não suportaria isso. Sei que pode protegê-la, Jacob.
Ele gemeu de novo e baixou a cabeça para encostá-la em meu ombro.
— Eu sei — sussurrei. — Eu também amo você, Jake. Você sempre será meu padrinho.
Uma lágrima do tamanho de uma bola de beisebol caiu no pelo avermelhado embaixo do olho. Edward inclinou a cabeça no mesmo ombro onde tinha colocado Renesmee.
— Adeus, Jacob, meu irmão... meu filho.
Os outros não estavam alheios à cena de despedida. Seus olhos estavam fixos no silencioso triângulo negro, mas eu sabia que estavam ouvindo.
— Não há esperanças, então? — sussurrou Carlisle.
Não havia medo em sua voz. Só determinação e aceitação.
— Há esperança, definitivamente — murmurei. Pode ser verdade, eu disse mim mesma. — Só sei de meu próprio destino.
Edward pegou minha mão. Ele sabia que estava incluído. Quando eu disse meu destino, não havia dúvida de que me referia a nós dois. Éramos as metades de um todo.
A respiração de Esme, atrás de mim, era entrecortada. Ela passou por nós tocando-nos o rosto, e foi se colocar ao lado de Carlisle e segurar sua mão. De repente, estávamos cercados por murmúrios de adeus e eu te amo.
— Se sobrevivermos a isso — Garrett sussurrou para Kate — eu a seguirei a qualquer lugar, mulher.
— Agora é que ele me diz isso — ela murmurou.
Rosalie e Emmett se beijaram rápida mas apaixonadamente.
Tia afagou o rosto de Benjamin. Ele sorriu para ela, alegre, pegando sua mão e a segurando junto a seu peito.
Não vi todas as expressões de amor e dor. Uma súbita e latejante pressão do lado externo de meu escudo me chamou a atenção. Eu não sabia de onde vinha, mas parecia que era dirigida às extremidades de nosso grupo, a Siobhan e Liam particularmente. A pressão não causou danos, e então se foi.
Não houve alteração nas formas silenciosas e imóveis dos anciãos em deliberação. Mas talvez houvesse algum sinal que eu perdera.
— Preparem-se — sussurrei aos outros. — Está começando.

2 comentários:

  1. ''— Preparem-se — sussurrei aos outros. — Está começando.''
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