29 de setembro de 2015

Capítulo 36 - Desejo de sangue

Eles vieram com pompa, com uma espécie de encanto.
Vieram numa formação rígida e convencional. Moviam-se juntos, mas não marchavam; fluíam das árvores numa sincronia perfeita – uma forma escura e ininterrupta que parecia pairar alguns centímetros acima da neve branca, tão suave era seu avanço.
O perímetro mais externo era cinza; a cor escurecia a cada fila de corpos até o cerne da formação, intensamente negro. Cada rosto estava encapuzado, ensombrecido. O fraco roçar de seus pés era tão regular que parecia música, uma batida complexa que nunca falhava.
A um sinal que não vi – ou talvez não fosse um sinal, só milênios de prática – a configuração se desdobrou. O movimento foi rígido demais, quadrado demais para se assemelhar à abertura de uma flor, embora a cor sugerisse isso; era a abertura de um leque, gracioso mas muito anguloso. As figuras de manto cinza se espalharam nos flancos enquanto as formas mais escuras surgiam precisamente no centro, cada movimento rigorosamente.
Seu progresso era lento mas decidido, sem pressa, sem tensão, sem ansiedade. Era o ritmo dos invencíveis.
Era quase o meu antigo pesadelo. A única coisa que faltava era o desejo triunfante que eu vira nos rostos de meu sonho – os sorrisos de alegria da vingança. Até agora, os Volturi estavam disciplinados demais para demonstrar qualquer emoção. Também não revelaram surpresa nem espanto com o grupo de vampiros que os esperava ali – em comparação, um grupo que parecia de repente desorganizado e despreparado. Tampouco mostraram surpresa com o lobo gigantesco no meio de nosso grupo.
Não pude deixar de contar. Eles eram trinta e dois. Mesmo que se excluíssem as duas figuras de mantos pretos desgarradas atrás, que eu tomaria pelas esposas – sua posição protegida sugerindo que não se envolveriam no ataque – ainda éramos em menor número. Só dezenove de nós iriam lutar, e outros sete assistiriam enquanto éramos destruídos. Mesmo contando os dez lobos, eles nos sobrepujavam.
— Os britânicos estão vindo, os britânicos estão vindo — murmurou Garrett misteriosamente consigo mesmo, e depois riu. Ele se aproximou um passo de Kate.
— Eles vieram — sussurrou Vladimir a Stefan.
— As esposas — sibilou Stefan de volta. — Toda a guarda. Todos eles juntos. Ainda bem que não tentamos Volterra.
E depois, como se não bastasse estarem em maior número, enquanto os Volturi avançavam lenta e majestosamente, mais vampiros começaram a surgir na clareira atrás deles.
Os rostos naquele influxo aparentemente interminável de vampiros eram a antítese da disciplina inexpressiva dos Volturi – mostravam um caleidoscópio de emoções. Inicialmente, havia o choque e até alguma ansiedade enquanto eles viam a força inesperada que os aguardava. Mas a preocupação passou rapidamente; eles estavam seguros em seu número esmagador, seguros em sua posição atrás da irreprimível força dos Volturi. Suas feições voltaram à expressão que tinham antes de os surpreendermos.
Era fácil entender sua disposição – os rostos eram explícitos. Aquela era uma turba irritada, impelida a um frenesi e babando por justiça. Eu não entendera plenamente o sentimento do mundo dos vampiros em relação às crianças imortais antes de ver aqueles rostos.
Estava claro que sua horda heterogênea e desorganizada – mais de quarenta vampiros reunidos – eram as testemunhas dos Volturi. Quando estivéssemos mortos, eles espalhariam a notícia de que os criminosos tinham sido erradicados, que os Volturi agiram com absoluta imparcialidade. A maioria parecia esperar por mais que uma oportunidade de testemunhar – queria ajudar a dilacerar e queimar.
Não tínhamos a menor chance. Mesmo que de algum modo conseguíssemos neutralizar as vantagens dos Volturi, eles ainda poderiam nos soterrar em corpos. Mesmo que matássemos Demetri, Jacob não conseguiria.
Eu podia sentir a mesma compreensão instalando-se à minha volta. O desespero pesava no ar, forçando-me para baixo com mais pressão do que antes.
Um vampiro na força adversária não parecia pertencer a nenhum dos do grupos; reconheci Irina enquanto ela hesitava entre os dois grupos, a expressão única em meio aos outros. O olhar apavorado de Irina estava fixo na posição de Tanya na linha de frente. Edward rosnou, um som muito baixo mas fervoroso.
— Alistair tinha razão — murmurou para Carlisle.
Vi Carlisle olhar para Edward de forma inquisitiva.
— Alistair tinha razão? — sussurrou Tanya.
— Eles, Caius e Aro, vieram destruir e conquistar — sussurrou Edward quase em silêncio; só nosso lado podia ouvir. — Eles têm muitas estratégias já preparadas. Se a acusação de Irina se provasse falsa de algum modo, eles se empenhariam em encontrar outro motivo para ofender-se. Mas eles podem ver Renesmee agora, então estão completamente otimistas quanto ao rumo que tomarão. Ainda podemos tentar nos defender das outras acusações maquinadas por eles, mas primeiro eles têm de parar, ouvir a verdade sobre Renesmee. — Depois, ainda mais baixo: — O que eles não têm a intenção de fazer.
Jacob soltou um bufo baixo e estranho.
E então, inesperadamente, dois segundos depois, a procissão parou. A música baixa dos movimentos em perfeita sincronia transformou-se em silêncio. A disciplina impecável continuou intacta; os Volturi ficaram absolutamente imóveis. Estavam a cerca de cem metros de nós.
Atrás de mim, para os lados, ouvi o batimento de corações grandes, mais perto que antes. Arrisquei-me a olhar para a esquerda e para a direita pelo canto do olho, para ver o que havia detido o avanço dos Volturi.
Os lobos tinham se juntado a nós.
De ambos os lados de nossa linha irregular, os lobos se posicionaram, estendendo-se em braços longos, limítrofes. Só precisei de uma fração de segundo para perceber que havia mais de dez lobos, para reconhecer os que eu conhecia e os que nunca vira antes. Eles eram dezesseis, espaçados uniformemente em torno de nós – dezessete no total, contando Jacob. Estava claro, pela altura e pelas patas imensas, que os recém-chegados eram muito jovens. Pensei que deveria ter previsto isso. Com tantos vampiros acampados por perto, era inevitável uma explosão populacional de lobisomens.
Mais crianças morrendo. Perguntei-me por que Sam permitira isso, e então me dei conta de que ele não tinha alternativa. Se algum dos lobos ficasse do nosso lado, os Volturi cuidariam de procurar pelo resto. Estavam apostando toda a sua espécie naquele embate. E nós íamos perder.
De repente, eu me senti furiosa. Mais do que furiosa, eu experimentava uma fúria homicida. Meu desespero desapareceu inteiramente. Um brilho avermelhado e fraco destacou as figuras escuras diante de mim, e tudo o que eu queria nesse momento era a oportunidade de cravar meus dentes neles arrancar-lhes os membros dos corpos e empilhá-los numa fogueira. Eu estava tão enlouquecida que podia ter dançado em volta da pira onde eles tostariam vivos; eu teria gargalhado enquanto suas cinzas ardiam. Meus lábios se retraíram automaticamente, e um rosnado baixo e feroz rompeu por minha garganta, vindo do fundo do estômago. Percebi que os cantos de minha boca estavam levantados num sorriso.
Ao meu lado, Zafrina e Senna ecoaram meu rosnado abafado. Edward apertou a mão que ainda segurava, advertindo-me.
Os rostos sombrios dos Volturi, em sua maioria, ainda não tinham expressão. Só dois pares de olhos traíam alguma emoção. No centro deles, com as mãos se tocando, Aro e Caius tinham parado para avaliar, e toda a guarda havia parado com eles, esperando pela ordem de matar. Os dois não se olhavam, mas era evidente que estavam em comunicação. Marcus, embora tocasse a outra mão de Aro, não parecia participar da conversa. Sua expressão não era tão descuidada quanto a dos guardas, mas era quase igualmente vazia. Como na outra ocasião em que eu o vira, ele parecia completamente entediado.
As testemunhas dos Volturi inclinavam-se para nós, os olhos fixos furiosamente em mim e Renesmee, mas eles se mantiveram perto da lateral da floresta, deixando um amplo espaço entre si e os soldados Volturi. Somente Irina pairava atrás dos Volturi, a alguns passos das anciãs – ambas com cabelos claros, a pele como talco, e de olhos leitosos – e seus dois imensos seguranças.
Havia uma mulher em um dos mantos cinza mais escuros, logo atrás de Aro. Eu não podia ter certeza, mas ela parecia tocar as costas dele. Seria ela o outro escudo, Renata? Perguntei-me, como Eleazar, se ela seria capaz de me repelir.
Mas eu não ia desperdiçar minha vida tentando pegar Caius ou Aro. Eu tinha alvos mais vitais.
Eu os procurei na fila e não tive dificuldade de localizar os dois mantos pequenos e cinza-escuros perto do centro do grupo. Alec e Jane, certamente os menores membros da guarda, encontravam-se ao lado de Marcus, que era flanqueado por Demetri do outro lado. Seus rostos adoráveis eram suaves, sem deixar nada transparecer; usavam os mantos mais escuros, afora o preto puro dos anciãos. Os gêmeos bruxos, Vladimir os chamara. Seus poderes eram a base da ofensiva Volturi. As joias da coleção de Aro.
Meus músculos se contraíram, e o veneno encheu minha boca.
Os olhos vermelhos e toldados de Aro e Caius percorreram nossa linha. Vi a decepção no rosto de Aro enquanto seu olhar vagava por nossos rostos repetidas vezes, procurando alguém que faltava. A contrariedade enrijeceu-lhe os lábios.
Nesse momento, senti-me grata por Alice ter fugido. Enquanto a pausa se estendia, ouvi a respiração de Edward se acelerar.
— Edward? — perguntou Carlisle num tom baixo e ansioso.
— Eles não sabem bem o que fazer. Estão pesando as opções, escolhendo os principais alvos... Eu, é claro, você, Eleazar, Tanya. Marcus está lendo a força de nossos laços, procurando pontos fracos. A presença dos romenos os irrita. Eles estão preocupados com os rostos que não reconhecem... Zafrina e Senna, em particular... E com os lobos, naturalmente. Nunca estiveram em desvantagem numérica. Foi isso que os deteve.
— Desvantagem numérica? — sussurrou Tanya, incrédula.
— Eles não contam as testemunhas que trouxeram — sussurrou Edward. — Elas são inexistentes, não significam nada para a guarda. Aro só gosta de uma plateia.
— Devo falar? — perguntou Carlisle. Edward hesitou, depois assentiu.
— É a única chance que você terá.
Carlisle endireitou os ombros e avançou vários passos à frente de nossa linha de defesa. Eu odiei vê-lo sozinho e desprotegido.
Ele abriu os braços, erguendo as palmas das mãos como em um cumprimento.
— Aro, meu velho amigo. Já faz séculos.
Sobre a clareira branca caiu um silêncio mortal por um longo momento. Eu podia sentir a tensão irradiando de Edward enquanto ele ouvia a avaliação que Aro fazia das palavras de Carlisle. A tensão aumentava com o passar dos segundos.
E, então, Aro deu um passo à frente, saindo do centro da formação Volturi. O escudo, Renata, moveu-se com ele como se as pontas de seus dedos estivessem costuradas ao manto dele. Pela primeira vez a tropa dos Volturi reagiu. Um grunhido percorreu a formação, as sobrancelhas franziram-se desenhando carrancas, os lábios se repuxaram sobre os dentes. Alguns membros da guarda se agacharam. Aro ergueu a mão para eles.
— Paz.
Ele andou mais alguns passos, depois inclinou a cabeça para um lado. Seus olhos leitosos cintilavam de curiosidade.
— Belas palavras, Carlisle — sussurrou ele em sua voz fina e ciciada. — Mas parecem deslocadas, considerando o exército que você reuniu para me matar e matar os que me são caros.
Carlisle sacudiu a cabeça e estendeu a mão direita, como se não houvesse ainda quase uma centena de metros entre eles.
— Basta tocar minha mão para saber que essa nunca foi minha intenção.
Os olhos astutos de Aro se estreitaram.
— Mas que importância pode ter sua intenção, meu caro Carlisle, diante do que você fez?
Ele franziu a testa e uma sombra de tristeza cobriu suas feições. Se era ou não autêntica, eu não sabia dizer.
— Não cometi o crime pelo qual você está aqui para me punir.
— Então saia da frente e deixe-nos punir os responsáveis. Na verdade, Carlisle, nada me agradaria mais do que preservar sua vida hoje.
— Ninguém infringiu a lei, Aro. Deixe-me explicar. — De novo, Carlisle lhe ofereceu a mão.
Antes que Aro pudesse responder, Caius moveu-se rapidamente e parou ao lado de Aro.
— Tantas regras sem sentido, tantas leis desnecessárias você criou para si mesmo, Carlisle — sibilou o ancião de cabelos brancos. — Como é possível que defenda a violação daquela que verdadeiramente importa?
— A lei não foi violada. Se vocês ouvissem...
— Estamos vendo a criança, Carlisle — grunhiu Caius. — Não nos trate como tolos.
— Ela não é uma imortal. Ela não é uma vampira. Posso provar facilmente isto em apenas alguns momentos...
Caius o interrompeu.
— Se ela não é uma das proibidas, então por que reuniu um batalhão para protegê-la?
— Testemunhas, Caius, como vocês mesmos trouxeram. — Carlisle gesticulou para a horda furiosa na margem da floresta; alguns grunhiram em resposta. — Qualquer um desses amigos pode lhes dizer a verdade sobre a criança. Ou vocês podem simplesmente olhar para ela, Caius. Ver o fluxo de sangue humano em seu rosto.
— É um truque! — rebateu Caius. — Onde está a informante? Que ela avance! — Ele esticou o pescoço até localizar Irina, hesitante, atrás das esposas. — Você! Venha!
Irina o fitou sem compreender, o rosto como o de alguém que não despertou inteiramente de um pesadelo horrendo. Impaciente, Caius estalou os dedos. Um dos imensos seguranças das esposas caminhou até Irina e a cutucou rudemente nas costas. Irina piscou duas vezes e andou lentamente até Caius, atordoada. Parou a vários metros, os olhos ainda nas irmãs.
Caius cobriu a distância até ela e lhe deu uma bofetada. Não podia ter doído, mas houve algo de terrivelmente degradante no ato. Era como ver alguém chutar um cachorro. Tanya e Kate sibilaram em sincronia.
O corpo de Irina ficou rígido e seus olhos finalmente focalizaram Caius, e apontou um dedo em garra para Renesmee, agarrada às minhas costas, os dedinhos ainda emaranhados no pelo de Jacob. Caius ficou totalmente vermelho em minha visão furiosa. Um rosnado trovejou no peito de Jacob.
— É esta a criança que você viu? — perguntou Caius. — Aquela que era evidentemente mais do que humana?
Irina nos olhou, examinando Renesmee pela primeira vez desde que entrara a clareira. Sua cabeça tombou para o lado, a confusão cruzando seu rosto.
— E então? — rosnou Caius.
— Eu... não tenho certeza — disse ela, a voz perplexa.
A mão de Caius crispou-se, como se ele quisesse bater nela outra vez.
— O que quer dizer? — disse ele num sussurro de aço.
— Ela não está igual, mas acho que é a mesma criança. Quero dizer, ela mudou. Esta criança é maior do que a que eu vi, mas...
O arfar furioso de Caius passou por seus dentes subitamente expostos e Irina interrompeu-se, sem terminar. Aro flutuou até o lado de Caius e pôs a mão, restritiva, em seu ombro.
— Componha-se, irmão. Temos tempo para esclarecer isso. Não há necessidade de pressa.
Com uma expressão rabugenta, Caius deu as costas a Irina.
— Agora, minha querida — disse Aro num murmúrio caloroso e açucarado. — Mostre-me o que está tentando dizer. — Ele estendeu a mão para a desnorteada vampira.
Insegura, Irina pegou sua mão. Ele a segurou por apenas cinco segundos.
— Está vendo, Caius? — disse ele. — É uma simples questão de conseguir o que precisamos.
Caius não respondeu. Pelo canto do olho, Aro olhou para sua plateia sua turba, depois voltou-se para Carlisle.
— Ao que parece, temos um mistério em nossas mãos. Aparentemente, a criança cresceu. No entanto, a primeira lembrança de Irina foi claramente de uma criança imortal. Curioso.
— É exatamente o que estou tentando explicar — disse Carlisle, e pela mudança em sua voz pude ver seu alívio.
Esta era a pausa em que apostáramos todas as nossas nebulosas esperanças.
Mas eu não senti alívio. Esperava, quase entorpecida de fúria, pelas várias estratégias que Edward mencionara. Carlisle estendeu a mão de novo. Aro hesitou por um momento.
— Preferiria receber a explicação de alguém mais central nesta história, meu amigo. Estou errado em supor que esta violação não foi obra sua?
— Não houve violação.
— Ainda que assim seja, terei cada aspecto da verdade. — A voz frágil de Aro endureceu. — E a melhor maneira de conseguir isso é ter a prova diretamente de seu filho talentoso. — Ele inclinou a cabeça na direção de Edward. — Como a criança está nas costas de sua parceira recém-criada, suponho que Edward esteja envolvido.
É claro que ele queria Edward. Assim que olhasse na mente de Edward, ele saberia todos os nossos pensamentos. Exceto os meus.
Edward virou-se rapidamente para beijar minha testa e a de Renesmee, sem me olhar nos olhos. Depois atravessou o campo nevado, dando um tapinha no ombro de Carlisle ao passar. Ouvi um gemido baixo atrás de mim – o pavor de Esme transparecia.
A névoa vermelha que eu via em volta do exército Volturi flamejou, mais brilhante do que antes. Eu não suportava ver Edward atravessar sozinho o espaço branco e vazio – mas também não podia suportar ter Renesmee um passo mais próxima de nossos adversários. As necessidades contrárias dilaceravam; fiquei tão paralisada que parecia que meus ossos poderiam espatifar com a pressão.
Vi Jane sorrir enquanto Edward passava da metade da distância, quando ele ficou mais perto deles do que de nós.
Aquele sorrisinho presunçoso foi o bastante. Minha fúria chegou ao auge, mais intensa até do que o violento desejo de sangue que senti no momento em que os lobos se comprometeram com aquela guerra condenada. Eu sentia na língua o gosto da loucura – sentia-a fluir por mim como uma onda de puro poder. Meus músculos se contraíram, e eu agi automaticamente. Lancei meu escudo com toda a força de minha mente, arremessando-o pelo espaço impossível do campo – dez vezes minha melhor distância – como um dardo. O esforço me fez bufar.
O escudo explodiu de mim como uma bolha de pura energia, uma nuvem de aço líquido. Pulsava como um ser vivo – eu podia senti-lo, do ápice às pontas.
Agora o tecido elástico não se retraiu; nesse instante de força bruta, vi que a reação que senti antes era criação minha – estivera me prendendo àquela parte invisível de mim, em autodefesa, subconscientemente hesitando soltá-lo. Agora o liberava, e meu escudo explodiu uns bons cinquenta metros sem nenhum esforço, e usei apenas uma fração de minha concentração. Eu podia senti-lo se flexionar como qualquer outro músculo, obediente à minha vontade. Eu o empurrei, modelei-o em uma forma oval longa e pontiaguda. Tudo sob o escudo de ferro flexível de repente era parte de mim – eu podia sentir a força vital de tudo que ele cobria como pontos de um calor luminoso, centelhas deslumbrantes de luz que me cercavam. Lancei o escudo adiante, até a beira da clareira, e respirei aliviada quando senti a luz brilhante de Edward dentro de minha proteção. Mantive-me ali, contraindo aquele novo músculo de modo que envolvesse Edward, um manto fino, mas inviolável, entre seu corpo e nossos inimigos.
Mal se passou um segundo. Edward ainda andava até Aro. Tudo tinha mudado completamente, mas ninguém percebera nada, a não ser eu. Uma risada sobressaltada escapou de meus lábios. Senti os outros olhando para mim e vi os olhos negros e grandes de Jacob me encarando como se eu tivesse enlouquecido.
Edward parou a pouca distância de Aro, e percebi com certo dissabor que, embora certamente pudesse, eu não devia evitar que aquele diálogo acontecesse. Esse tinha sido o objetivo de todos os nossos preparativos: conseguir que Aro ouvisse nosso lado da história. Era quase fisicamente doloroso fazer isso, mas, com relutância, fiz meu escudo recuar e deixei Edward exposto de novo. A disposição para rir desapareceu. Concentrei-me totalmente em Edward, pronta para protegê-lo imediatamente se algo desse errado.
O queixo de Edward projetou-se com arrogância, e ele estendeu a mão para Aro como se estivesse lhe conferindo uma grande honra. Aro parece deliciado com a atitude dele, mas seu prazer não era universal. Renata tremulava nervosa na sombra de Aro. As rugas na testa franzida de Caius eram tão profundas que parecia que sua pele translúcida, friável, ficaria permanentemente vincada. A pequena Jane mostrou os dentes, e ao lado dela os olhos de Alec se estreitaram, concentrados. Adivinhei que, como eu, ele estava preparado para agir assim que fosse necessário.
Aro cobriu a distância sem interrupção – mas, francamente, o que ele teria para temer? As sombras imensas dos mantos cinza mais claros claros – os lutadores musculosos como Felix – estavam a poucos metros. Jane e seu dom de queimar podiam lançar Edward no chão, retorcendo-se em agonia. Alec podia deixá-lo cego e surdo antes que ele pudesse dar um passo para Aro. Ninguém sabia que eu tinha o poder de impedi-los, nem mesmo Edward.
Com um sorriso imperturbável, Aro pegou a mão de Edward. Seus olhos se fecharam de pronto e os ombros se curvaram sob a enxurrada de informações.
Cada pensamento secreto, cada estratégia, cada insight – tudo o que Edward tinha ouvido nas mentes dos que o cercavam no último mês – agora eram de Aro. E mais além – cada visão de Alice, cada momento de silêncio com nossa família, cada imagem na mente de Renesmee, cada beijo, cada toque entre mim e Edward... Tudo agora também era de Aro.
Sibilei de frustração e o escudo se moveu com minha irritação, alterando a forma e contraindo-se em torno dos nossos.
— Calma, Bella — sussurrou Zafrina.
Trinquei os dentes.
Aro continuava a se concentrar nas lembranças de Edward. A cabeça de Edward curvou-se também, os músculos de seu pescoço enrijecendo enquanto ele lia de volta tudo o que Aro tirava dele, e a reação de Aro a tudo aquilo.
O diálogo de duas vias, mas desigual, continuou por tempo suficiente para que até a guarda ficasse inquieta. Murmúrios baixos percorreram a linha até que Caius ladrou uma ordem de silêncio. Jane estava avançando aos poucos, como se não conseguisse evitar, e o rosto de Renata estava rígido de aflição. Por um momento, examinei aquele escudo poderoso que parecia tão apavorado e fraco; embora ela fosse útil a Aro, eu podia ver que ela não era uma guerreira. Sua função não era lutar, mas proteger. Não havia nela nenhum desejo de sangue. Crua como eu era, sabia que se fosse entre mim e ela, eu a bloquearia.
Voltei a me concentrar enquanto Aro endireitava o corpo, os olhos abrindo-se, a expressão pasma e cautelosa. Ele não soltou a mão de Edward.
Os músculos de Edward relaxaram ligeiramente.
— Viu? — perguntou Edward, a voz aveludada e calma.
— Sim, eu vi, deveras — concordou Aro, e surpreendentemente ele quase parecia se divertir. — Duvido que deuses ou mortais pudessem ver com tanta clareza.
Os rostos disciplinados da guarda mostraram a mesma incredulidade que eu sentia.
— Deu-me muito o que refletir, jovem amigo — continuou Aro. — Muito mais do que eu esperava. — Ele ainda não soltara a mão de Edward, e a atitude tensa de Edward era a de quem ouve.
Edward não respondeu.
— Posso conhecê-la? — perguntou Aro, quase suplicante, com um interesse ansioso e repentino. — Nunca imaginei a existência de uma coisa dessas em todos os meus séculos. Que acréscimo à nossa história!
— Do que se trata, Aro? — perguntou Caius antes que Edward pudesse responder.
Bastou a pergunta de Aro para que eu puxasse Renesmee para meus braços, aninhando-a protetoramente em meu peito.
— Algo que você jamais sonhou, meu amigo pragmático. Reflita por um momento, pois a justiça que pretendíamos aplicar não é mais válida.
Caius sibilou de surpresa com as palavras dele.
— Paz, irmão — advertiu Aro, tranquilizador.
Isso devia ser uma boa notícia – eram as palavras que esperávamos, a chance que nunca julgamos de fato possível. Aro tinha ouvido a verdade. Aro admitira que a lei não fora infringida.
Mas meus olhos estavam fixos em Edward, e vi os músculos de suas costas enrijecerem. Repassei mentalmente a instrução de Aro para Caius refletir e percebi o duplo significado.
— Vai me apresentar sua filha? — perguntou Aro a Edward novamente.
Caius não foi o único que sibilou com esta revelação.
Edward concordou, relutante. E, no entanto, Renesmee havia conquistado tantos outros! Aro sempre pareceu o líder dos anciãos. Se ele ficasse do lado dela, poderiam os outros agir contra nós?
Aro ainda segurava a mão de Edward, e ele agora respondeu a uma pergunta que o resto de nós não ouvira.
— Creio que um meio-termo a essa altura certamente é aceitável, nessas circunstâncias. O encontro se dará no meio.
Aro soltou sua mão. Edward se virou para nós, e Aro se juntou a ele passando um braço casualmente sobre o ombro de Edward, como se fossem grandes amigos – mantendo contato o tempo todo com a pele de Edward. Eles começaram a cruzar o campo até o nosso lado.
Toda a guarda começou a acompanhá-los. Aro ergueu a mão negligentemente sem olhar para eles.
— Esperem, meus caros. É verdade, eles não nos causarão mal algum se formos pacíficos.
A guarda reagiu mais abertamente do que antes, com rosnados e silvos de protesto, mas se manteve no lugar. Renata, mais presa a Aro do que nunca, gemeu de angústia.
— Mestre — sussurrou ela.
— Não tema, minha amada — respondeu ele. — Está tudo bem.
— Talvez deva levar alguns membros de sua guarda conosco — sugeriu Edward. — Isso os deixará mais à vontade.
Aro assentiu como se fosse uma observação sensata que ele mesmo devia ter feito. Então estalou os dedos duas vezes.
— Felix, Demetri.
Os dois vampiros estavam a seu lado num instante, com a mesmíssima aparência da última vez em que os vi. Ambos eram altos e tinham cabelos escuros, Demetri rígido e magro como a lâmina de uma espada, Felix imenso e ameaçador como uma maça com pontas de ferro.
Os cinco pararam no meio do campo nevado.
— Bella — chamou Edward. — Traga Renesmee... e alguns amigos.
Respirei fundo. Meu corpo estava rígido, opondo-se à ideia de levar Renesmee ao meio do conflito... Mas eu confiava em Edward. Àquela altura, ele saberia se Aro estivesse planejando alguma traição.
Aro tinha três protetores de seu lado do encontro, então eu levaria dois. Só precisei de um segundo para decidir.
— Jacob? Emmett? — perguntei em voz baixa.
Emmett, porque estaria morrendo de vontade de ir. Jacob, porque não suportaria ficar para trás.
Os dois assentiram. Emmett sorriu.
Atravessei o campo ladeada por eles. Ouvi outro rumor vindo da guarda ao verem minhas opções – evidentemente, eles não confiavam no lobisomem. Aro levantou a mão, desprezando seu protesto outra vez.
— Companhia interessante vocês têm — murmurou Demetri para Edward.
Edward não respondeu, mas um grunhido baixo escapou pelos dentes de Jacob. Paramos a alguns metros de Aro. Edward escapou de seu braço e juntou-se a nós, pegando minha mão.
Por um momento nos olhamos em silêncio. Então Felix me cumprimentou num tom baixo.
— Olá de novo, Bella. — Ele deu um sorriso arrogante ao mesmo tempo em que acompanhava cada movimento de Jacob com sua visão periférica.
Eu sorri obliquamente para o enorme vampiro.
— Olá, Felix.
Ele riu.
— Você está muito bem. A imortalidade lhe cai perfeitamente.
— Muito obrigada.
— Por nada. Pena que...
Ele deixou o comentário perder-se no silêncio, mas eu não precisava do dom de Edward para concluir a frase. Pena que vamos matá-la daqui a um segundo.
— Sim, é mesmo uma pena, não é? — murmurei.
Felix piscou.
Aro não prestava atenção a nosso diálogo. Ele inclinou a cabeça para o lado, fascinado.
— Ouço seu coração estranho — murmurou ele com um tom quase musical. — Sinto seu cheiro estranho. — Depois seus olhos nebulosos passaram a mim. — Na verdade, jovem Bella, a imortalidade a tornou extraordinária — disse ele. — É como se tivesse sido feita para esta vida.
Assenti, agradecendo o elogio.
— Gostou do meu presente? — perguntou ele, olhando o pingente que eu usava.
— É lindo. Foi muita, muita generosidade de sua parte. Obrigada. Eu devia ter lhe mandado um bilhete.
Aro riu, deliciado.
— Foi só uma coisinha que eu tinha por perto. Pensei que podia complementar seu novo rosto, e vejo que acertei.
Ouvi um leve silvo vindo do centro da linha dos Volturi. Olhei por cima do ombro de Aro. Humm. Parecia que Jane não estava satisfeita com o fato de Aro ter me dado um presente. Aro deu um pigarro para recuperar minha atenção.
— Posso cumprimentar sua filha, adorável Bella? — perguntou-me com doçura.
Era o que esperávamos, lembrei a mim mesma. Reprimindo o impulso de fugir dali com Renesmee, dei dois passos lentamente em sua direção. Meu escudo ondulou atrás de mim como uma capa, protegendo o restante de minha família enquanto Renesmee ficava exposta. Parecia um erro terrível.
Aro veio ao nosso encontro, o rosto radiante.
— Mas ela é excepcional — murmurou ele. — Tão parecida com você e com Edward. — E, mais alto: — Olá, Renesmee.
Renesmee olhou para mim rapidamente. Eu assenti.
— Olá, Aro — respondeu ela formalmente com sua voz aguda e ressoante.
Os olhos de Aro estavam perplexos.
— O que é isso? — sibilou Caius de trás.
Ele parecia enfurecido pela necessidade de perguntar.
— Meio mortal, meio imortal — anunciou Aro a ele e ao restante da guarda sem desviar seus olhos encantados de Renesmee. — Concebida e trazida à luz por esta recém-criada enquanto ainda era humana.
— Impossível — Caius zombou.
— Acha então que eles me enganaram, irmão? — A expressão de Aro era de muita diversão, mas Caius se retraiu. — O coração que você está ouvindo também é um truque?
Caius fechou a cara, parecendo contrariado, como se as perguntas gentis de Aro fossem golpes.
— Calma e cuidado, irmão — alertou Aro, ainda sorrindo para Renesmee. — Sei quanto você ama sua justiça, mas não há justiça em agir contra esta pequenina singular por sua ascendência. E há muito o que aprender, muito o que saber! Sei que você não compartilha meu entusiasmo por colecionar histórias, mas seja tolerante comigo, irmão, e eu acrescentarei um capítulo que me espanta com sua improbabilidade. Viemos esperando apenas justiça e a tristeza de falsos amigos, mas veja o que ganhamos! Um novo conhecimento sobre nós mesmos, nossas possibilidades.
Ele estendeu a mão para Renesmee, em um convite. Mas não era isso que ela queria. Ela se afastou de mim, esticando-se, para tocar o rosto de Aro com a ponta dos dedos.
Aro não reagiu com o choque que quase todos tiveram a essa demonstração de Renesmee; ele estava acostumado com o fluxo de pensamento e lembranças de outras mentes, como Edward.
Seu sorriso se ampliou e ele suspirou de satisfação.
— Brilhante — sussurrou ele.
Renesmee relaxou em meus braços, seu rostinho muito sério.
— Por favor? — ela perguntou a ele. Seu sorriso tornou-se gentil.
— É claro que não desejo machucar seus entes queridos, preciosa Renesmee.
A voz de Aro era tão reconfortante e afetuosa, que me convenceu por um segundo. Mas então ouvi os dentes de Edward ranger e, atrás de nós, o silvo de ultraje de Maggie com a mentira.
— O que me faz imaginar — disse Aro, pensativo, parecendo não ter ciência da reação a suas palavras anteriores.
Seus olhos passaram inesperadamente a Jacob, e em vez da repulsa que os outros Volturi mostraram pelo lobo gigante, os olhos de Aro eram cheios de um desejo que eu não compreendia.
— Não funciona assim — disse Edward, a neutralidade cautelosa distanciando-se de seu tom subitamente áspero.
— Foi só uma ideia errante — disse Aro, avaliando Jacob abertamente.
Então seus olhos moveram-se lentamente pelas duas filas de lobisomens atrás de nós. O que quer que Renesmee tenha mostrado a ele, tornou os lobos repentinamente interessantes.
— Eles não nos pertencem, Aro. Eles não seguem nossos comandos dessa maneira. Estão aqui porque querem.
Jacob rosnou de forma ameaçadora.
— Mas parecem muito ligados a você — disse Aro. — E à sua jovem parceira e à sua... família. Leais. — Sua voz acariciou a palavra com suavidade.
— Eles têm o compromisso de proteger a vida humana, Aro. Isso os torna capazes de coexistir conosco, mas não com você. A não ser que esteja repensando seu estilo de vida.
Aro riu.
— Só uma ideia errante — repetiu ele. — Você sabe muito bem como é isso. Nenhum de nós pode controlar inteiramente nossos desejos subconscientes.
Edward fez uma careta.
— Sei como é isso. E também sei a diferença entre esse tipo de ideia e o tipo que tem um propósito por trás. Nunca daria certo, Aro.
A imensa cabeça de Jacob virou-se para Edward, e um gemido fraco escapou por seus dentes.
— Ele está intrigado com a ideia de... cães de guarda — murmurou Edward.
Houve um segundo de silêncio mortal, então o som de rosnados furiosos vindos de toda a matilha encheu a grande clareira.
Houve um brusco latido de comando – de Sam, imaginei, embora não me virasse para olhar – e a queixa foi interrompida, transformando-se em um silêncio agourento.
— Imagino que isso responda à pergunta — disse Aro, rindo de novo. — Este bando escolheu seu lado.
Edward sibilou e se inclinou para a frente. Segurei seu braço, perguntando-me quais seriam os pensamentos de Aro para que ele reagisse com tamanha violência, enquanto Felix e Demetri agachavam-se em sincronia. Aro os dispensou de novo. Todos voltaram à atitude anterior, inclusive Edward.
— Há muito o que discutir — disse Aro, o tom subitamente o de um homem de negócios assoberbado. — Muito o que decidir. Se vocês e seu protetor peludo me derem licença, meus caros Cullen, devo conferenciar com meus irmãos.

3 comentários:

  1. Noooooossaaaaa!!
    Eu já lí todos os livros da Saga, faltava apenas algumas páginas deste para terminar e, com certeza, está emocionante!
    Parabéns Karina, seu blog é muito bom! Apesar de não comentar, sempre leio os livros postados. Parabéns de Novo! �� Bjs

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  2. *-------------------------*

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  3. Tbm nunca comento e leio tudo

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