29 de setembro de 2015

Capítulo 35 - Prazo final

— Vai sair? — perguntou Edward, num tom despreocupado.
Havia uma espécie de forçada serenidade em sua expressão. Ele apertou Renesmee ligeiramente mais junto ao peito.
— É, algumas coisas de última hora... — respondi com o mesmo tom casual.
Ele abriu meu sorriso preferido.
— Volte correndo para mim.
— Sempre.
Peguei novamente seu Volvo, perguntando-me se ele havia observado o odômetro depois de minha última saída. O que ele tinha concluído? Que eu tinha um segredo, era certo. Ele teria deduzido o motivo de eu não me explicar para ele? Será que imaginava que, talvez, Aro logo soubesse tudo o que ele sabia? Pensei que Edward podia ter chegado a essa conclusão, por isso não teria exigido de mim explicações. Imaginei que estivesse tentando não especular demais, tentando deixar meu comportamento fora de sua mente. Será que ele considerara minha estranha atitude na manhã seguinte à partida de Alice, queimando meu livro na lareira? Eu não sabia que ele poderia ter feito essa associação.
Era uma tarde lúgubre, já escura ao pôr do sol. Acelerei em meio às sombras, meus olhos nas nuvens negras. Nevaria esta noite? O suficiente para cobrir o chão e criar a cena da visão de Alice? Edward estimava que tínhamos mais dois dias. Depois nos instalaríamos na clareira, atraindo os Volturi para o local escolhido.
Enquanto eu seguia pela floresta que escurecia, pensei em minha última viagem a Seattle. Pensei que sabia o propósito de Alice em me mandar a uma espelunca dilapidada onde J. Jenks atendia a seus clientes mais obscuros. Se eu tivesse ido a um de seus outros escritórios, mais legítimos, teria sabido o que pedir? Se o conhecesse como Jason Jenks ou Jason Scott, advogado legítimo, teria eu desenterrado J. Jenks, fornecedor de documentos ilegais? Eu tivera de seguir o caminho que deixava claro que estava pretendendo algo ilícito. Essa foi minha pista.
Estava escuro quando parei no estacionamento do restaurante, alguns minutos adiantada, ignorando os manobristas ansiosos perto da entrada. Coloquei as lentes de contato e fui esperar J no restaurante. Embora tivesse pressa de acabar com aquela exigência deprimente e voltar para minha família, J parecia cauteloso em não se deixar manchar por suas associações mais vis; eu tinha a impressão de que uma entrega no estacionamento escuro ofenderia sua suscetibilidade.
Dei o nome Jenks na recepção e o maître obsequioso levou-me a uma salinha privativa com um fogo crepitando numa lareira de pedra. Ele pegou o casaco marfim abaixo do joelho que vesti para disfarçar o fato de que estava usando o que Alice considerava um traje adequado, e ofegou em silêncio diante de meu vestido de cetim cor de ostra. Não pude evitar me sentir meio lisonjeada; eu ainda não estava acostumada a ser linda aos olhos de todos, e não só aos de Edward. O maître gaguejou elogios pela metade enquanto deixava, vacilante, a saleta.
Fiquei esperando perto do fogo, mantendo os dedos perto da chama para aquecê-los um pouco antes do inevitável aperto de mãos. Não que J não estivesse ciente de que havia algo estranho com os Cullen, mas ainda assim era um bom hábito para se praticar.
Por meio segundo imaginei como seria colocar a mão no fogo. O que eu sentiria quando queimasse...
A entrada de J me tirou de minha morbidez. O maître havia pegado o casaco dele também, e ficou evidente que eu não era a única que me produzira para aquela reunião.
— Eu sinto muito pelo atraso — disse J assim que ficamos a sós.
— Não, chegou exatamente na hora.
Ele estendeu a mão, e quando trocamos o aperto pude sentir que seus dedos ainda eram perceptivelmente mais quentes que os meus. Isso não pareceu incomodá-lo.
— Você está impressionante, se me permite o atrevimento, Sra. Cullen.
— Obrigada, J. Por favor, me chame de Bella.
— Devo dizer que é uma experiência diferente trabalhar com você em vez de com o Sr. Jasper. Bem menos... inquietante. — Ele abriu um sorriso hesitante.
— É mesmo? Sempre achei que Jasper tem uma presença muito tranquilizadora.
Suas sobrancelhas se uniram.
— Verdade? — murmurou ele educadamente, embora fosse evidente que discordava.
Que estranho. O que Jasper fizera com aquele homem?
— Conhece Jasper há muito tempo?
Ele suspirou, parecendo pouco à vontade.
— Trabalho com o Sr. Jasper há mais de vinte anos, e meu antigo sócio o conhecia por quinze anos antes disso... Ele jamais muda. — J se encolheu discretamente.
— É, Jasper é meio estranho nesse aspecto.
J sacudiu a cabeça como se pudesse afugentar os pensamentos perturbadores.
— Não vai se sentar, Bella?
— Na verdade, estou com um pouco de pressa. Tenho uma longa viagem até em casa. — Enquanto eu falava, peguei na bolsa o envelope branco grosso com a bonificação dele e o estendi.
— Ah! — disse ele, com certa decepção na voz. Enfiou o envelope num bolso interno do paletó sem se incomodar em conferir a quantia. — Eu esperava que pudéssemos conversar um pouco.
— Sobre o quê? — perguntei, curiosa.
— Bem, deixe-me entregar sua encomenda primeiro. Quero ter certeza de que ficou satisfeita.
Ele se virou, colocou a pasta na mesa e abriu os fechos. Tirou um envelope pardo tamanho ofício.
Embora eu não fizesse ideia do que devia procurar, abri o envelope e olhei rapidamente o conteúdo. J tinha invertido a foto de Jacob e mudado a cor para que não ficasse tão evidente que era a mesma foto no passaporte e na carteira de motorista. Os dois pareciam perfeitamente bons para mim, mas isso pouco significava. Olhei a foto no passaporte de Vanessa Wolfe por uma fração de segundo, depois desviei os olhos rapidamente, um nó subindo por minha garganta.
— Obrigada — eu disse a ele.
Seus olhos se estreitaram um pouco e senti que ele ficou decepcionado por meu exame não ter sido mais minucioso.
— Posso lhe garantir que cada um desses documentos é perfeito. Tudo preparado para passar pelo exame mais rigoroso de especialistas.
— Tenho certeza disso. Agradeço de verdade o que fez por mim, J.
— O prazer foi meu, Bella. No futuro, fique à vontade para me procurar para qualquer necessidade da família Cullen. — Ele não fez nenhuma sugestão, mas parecia um convite para eu assumir o lugar de Jasper como elemento de ligação.
— Havia alguma coisa que queria discutir?
— Hã, sim. É um pouco delicado...
Ele indicou com um gesto a lareira de pedra com uma expressão inquisitiva. Sentei-me na beira da pedra e ele se sentou ao meu lado. O suor gotejava em sua testa de novo e ele pegou um lenço de seda azul do bolso e começou a enxugar.
— Você é irmã da esposa do Sr. Jasper? Ou é casada com o irmão dele? — perguntou ele.
— Casada com o irmão dele — esclareci, perguntando-me aonde ele queria chegar.
— Seria a jovem recém-casada com o Sr. Edward, então?
— Sim.
Ele sorriu como quem se desculpa.
— Eu vi todos os nomes muitas vezes, entenda. Meus parabéns atrasados. É bom que o Sr. Edward tenha encontrado uma parceira tão adorável depois de todo esse tempo.
— Muito obrigada.
Ele fez uma pausa, enxugando o suor.
— Com o passar dos anos, deve imaginar que desenvolvi um nível muito saudável de respeito pelo Sr. Jasper e por toda a família.
Assenti com cautela. Ele respirou fundo e expirou sem falar.
— J, por favor, diga o que precisa dizer.
Ele respirou fundo de novo e murmurou rapidamente, atropelando as palavras.
— Se pudesse me garantir que não está pretendendo sequestrar a menina, tirando-a do pai, eu dormiria melhor esta noite.
— Ah! — eu disse, pasma. Precisei de um minuto para entender a conclusão errônea a que ele havia chegado. — Ah, não. Não é nada disso. — Abri um sorriso fraco, tentando tranquilizá-lo. — Estou simplesmente preparando um lugar seguro para ela, caso algo venha a acontecer com meu marido e comigo.
Seus olhos se estreitaram.
— Espera que algo aconteça? — Ele corou, depois se desculpou. — Não que seja da minha conta.
Eu vi o rubor se espalhar por trás da membrana delicada de sua pele e fiquei feliz – como sempre ficava – que eu não fosse uma recém-criada comum. J parecia um homem muito gentil, à parte o comportamento criminoso, e teria sido uma pena matá-lo.
— Nunca se sabe — eu suspirei.
Ele franziu o cenho.
— Eu lhe desejo toda a sorte, então. E, por favor, não se ofenda, minha cara, mas... se o Sr. Jasper me procurar e perguntar que nomes coloquei nestes documentos...
— É claro que deve contar a ele imediatamente. Acharia bem melhor ter o Sr. Jasper plenamente ciente de toda a nossa transação.
Minha sinceridade transparente pareceu atenuar um pouco sua tensão.
— Muito bom — disse ele. — E eu não posso convencê-la a ficar para jantar?
— Desculpe, J. No momento estou sem tempo.
— Então, novamente, meus mais sinceros votos por sua saúde e felicidade. Qualquer coisa que a família Cullen precisar, por favor, não hesite em me ligar, Bella.
— Obrigada, J.
Saí com meu contrabando, olhando para trás e vendo que J me observava, sua expressão uma mescla de ansiedade e desapontamento.
A viagem de volta me consumiu menos tempo. A noite era escura, então desliguei os faróis e voei. Quando cheguei à casa, a maioria dos carros, inclusive o Porsche de Alice e minha Ferrari, não estava lá. Os vampiros tradicionais iam o mais longe possível para saciar sua sede. Tentei não pensar neles caçando na noite, encolhendo-me com a imagem mental de suas vítimas.
Só Kate e Garrett estavam na sala da frente, discutindo de bom humor o valor nutricional do sangue animal. Concluí que Garrett tinha tentado uma excursão de caça no estilo vegetariano e achara difícil.
Edward devia ter levado Renesmee para dormir em casa. Jacob, sem duvida, estava no bosque, perto do chalé. O restante de minha família devia estar caçando também. Talvez estivessem fora, com os outros Denali.
O que basicamente deixava a casa para mim, e eu rapidamente tirei proveito disso.
Eu sabia, pelo cheiro, que era a primeira a entrar no quarto de Alice e Jasper, provavelmente desde a noite em que eles nos deixaram. Vasculhei em silêncio seu imenso closet até encontrar a bolsa certa. Devia ser de Alice; era uma pequena mochila de couro preto, do tipo que se costuma usar como bolsa, bem pequena para que mesmo Renesmee a usasse sem chamar a atenção. Depois assaltei o local onde guardavam o dinheiro, pegando duas vezes a renda anual de uma família americana média. Imaginei que meu roubo seria menos perceptível ali do que em qualquer outro lugar da casa, uma vez que o quarto entristecia todo mundo. O envelope com os passaportes e documentos falsos foi para a bolsa, por cima do dinheiro. Depois me sentei na borda da cama de Alice e Jasper e olhei o pacote insignificante que era tudo o que eu podia dar a minha filha e a meu melhor amigo para ajudar a salvar a vida dos dois. Desabei de encontro à coluna da cama, sentindo-me indefesa.
Mas o que mais eu podia fazer? Fiquei sentada ali vários minutos, de cabeça baixa, antes que me ocorresse a insinuação de uma boa ideia.
Se eu supusesse que Jacob e Renesmee iam escapar, então isso incluiria o pressuposto de que Demetri estaria morto. O que daria a qualquer sobrevivente algum espaço para respirar, inclusive Alice e Jasper.
Então, por que Alice e Jasper não podiam ajudar Jacob e Renesmee? Se eles se reunissem, Renesmee teria a melhor proteção imaginável. Não havia motivo para isso não acontecer, a não ser o fato de que tanto Jake quanto Renesmee eram pontos cegos para Alice. Como ela começaria a procurar por eles?
Pensei por um momento, depois saí do quarto, atravessando o corredor até a suíte de Carlisle e Esme. Como sempre, a mesa de Esme estava cheia de plantas e projetos, tudo organizado em pilhas altas. A mesa tinha escaninhos acima da superfície de trabalho; em um deles estava uma caixa de papel de carta. Peguei uma folha de papel e uma caneta.
Depois fiquei olhando a página marfim por uns bons cinco minutos, concentrando-me em minha decisão. Alice podia não ser capaz de ver Jacob ou Renesmee, mas podia me ver. Eu a visualizei vendo este momento, numa esperança desesperada de que ela não estivesse ocupada demais para prestar atenção.
Devagar, deliberadamente, escrevi as palavras RIO DE JANEIRO em maiúsculas, de um lado a outro da folha.
O Rio parecia o melhor lugar para mandá-los: era bem longe daqui, Alice e Jasper já estavam na América do Sul, segundo o último relato, e nossos antigos problemas não haviam deixado de existir só porque agora tínhamos problemas piores. Ainda havia o mistério do futuro de Renesmee, o terror de seu envelhecimento acelerado. Nós havíamos planejado ir para o sul de qualquer forma. Seria então tarefa de Jacob e, se tivéssemos sorte, de Alice rastrear as lendas.
Abaixei a cabeça novamente, reprimindo um impulso repentino de chorar e trincando os dentes. Era bom que Renesmee sobrevivesse, mesmo sem mim. Mas eu já sentia tanta falta dela que mal conseguia suportar a ideia.
Respirei fundo e coloquei o bilhete no fundo da bolsa, onde Jacob não demoraria a encontrá-lo.
Cruzei os dedos para que – como era improvável que a escola dele oferecesse aulas de português – Jake pelo menos tivesse aprendido espanhol como língua eletiva.


Agora não restava mais nada a não ser esperar. Por dois dias, Edward e Carlisle ficaram na clareira onde Alice tinha visto a chegada dos Volturi. Era o mesmo campo de morte onde os recém-criados de Victoria haviam atacado no verão passado. Perguntei-me se pareceria repetitivo a Carlisle, como um déjà vu. Para mim, seria completamente novo. Dessa vez Edward e eu estaríamos com nossa família.
Só podíamos imaginar que os Volturi estariam rastreando Edward ou Carlisle. Perguntei-me se seria surpresa para eles que sua presa não fugisse. Será que isso os deixaria cautelosos? Eu não conseguia imaginar os Volturi sentindo alguma necessidade de cautela.
Embora eu fosse – assim esperávamos – invisível a Demetri, fiquei com Edward. É claro. Só nos restavam algumas horas juntos.
Edward e eu não tivemos uma última grande cena de despedida, nem eu planejei uma. Pronunciar a palavra era torná-la definitiva. Seria o mesmo que digitar a palavra Fim na última página de um original.
Então não dissemos adeus, e ficamos muito perto um do outro, sempre nos tocando. Qualquer que fosse o nosso fim, ele não nos encontraria separados.
Armamos uma barraca para Renesmee a alguns metros na floresta protetora, depois houve mais déjà vu enquanto nos víamos acampando no frio mais uma vez com Jacob. Era quase impossível acreditar em quanto havia mudado desde junho passado. Sete meses atrás, nossa relação triangular parecia impossível, três tipos diferentes de mágoa que não podiam ser evitados. Agora tudo estava em perfeito equilíbrio. Parecia de uma ironia horrenda que as peças do quebra-cabeças se encaixassem pouco antes de serem todas destruídas.
Começou a nevar de novo na noite que antecedia a véspera de Ano-novo. Dessa vez, os minúsculos flocos não se dissolveram no chão pedregoso da clareira. Enquanto Renesmee e Jacob dormiam – Jacob roncando tão alto que me perguntei como Renesmee não acordava – a neve formou, primeiro, uma fina camada de gelo na terra, depois, criou montes mais espessos. Quando o sol nasceu, a cena da visão de Alice era completa. Edward e eu nos demos as mãos ao olhar o campo branco e reluzente, e nenhum de nós disse nada.
No começo da manhã os outros se reuniram, os olhos trazendo a prova muda de seus preparativos – alguns dourado-claro, outros de um vermelho vivo. Quando estávamos todos juntos, ouvimos os lobos movendo-se na floresta. Jacob saiu da barraca, deixando Renesmee ainda dormindo, para se juntar a eles.
Edward e Carlisle estavam organizando os outros numa formação frouxa, nossas testemunhas ao lado como colunas.
Fiquei olhando de longe, esperando perto da barraca que Renesmee acordasse. Quando ela acordou, eu a ajudei a se vestir com as roupas que eu havia escolhido com cuidado dois dias antes. Roupas que pareciam frágeis e femininas, mas na verdade eram bastante resistentes para não revelar nenhum desgaste – mesmo que uma pessoa as usasse enquanto cavalgava um lobisomem gigante por alguns estados do país. Por cima do casaco, pus a mochila de couro com os documentos, o dinheiro, a pista e meus bilhetes de amor para ela e Jacob, Charlie e Renée. Ela era bem forte para que isso não lhe fosse um fardo pesado.
Seus olhos estavam imensos enquanto ela lia a agonia em meu rosto. Mas ela adivinhara o suficiente para não me perguntar o que eu estava fazendo.
— Eu amo você — eu disse a ela. — Mais do que tudo.
— Eu também amo você, mamãe — respondeu ela. E tocou o medalhão no pescoço, que agora tinha uma minúscula foto dela, comigo e com Edward. — Sempre estaremos juntos.
— Em nossos corações, sempre estaremos juntos — eu a corrigi com um sussurro muito baixo. — Mas quando chegar a hora, hoje, você terá de me deixar.
Seus olhos se arregalaram e ela tocou meu pescoço. O não silencioso foi mais alto do que se ela tivesse gritado. Lutei para engolir; minha garganta parecia inchada.
— Fará isso por mim? Por favor?
Ela pressionou os dedos com força em meu rosto. Por quê?
— Não posso lhe dizer — sussurrei. — Mas você entenderá em breve. Eu prometo.
Em minha cabeça, vi o rosto de Jacob. Assenti, depois afastei seus dedos.
— Não pense nisso — respirei em seu ouvido. — Não conte a Jacob antes de eu lhe dizer para correr, está bem?
Isso ela entendeu. E concordou também. Tirei do bolso um último detalhe.
Enquanto preparava as coisas de Renesmee, uma faísca inesperada de cor tinha atraído meus olhos. Um raio de sol, através da claraboia, atingira as joias da antiga caixa preciosa colocada numa prateleira alta em um canto intocado. Pensei por um momento e dei de ombros. Depois de reunir as pistas de Alice, eu não podia ter esperanças de que o confronto fosse resolvido pacificamente. Mas por que não tentar começar da forma mais amistosa possível?, perguntei a mim mesma. No que isso seria prejudicial? Então achei que devia ter alguma esperança, afinal de contas – uma esperança cega e insensata – porque escalei a estante e peguei o presente de casamento de Aro.
Agora coloquei o cordão grosso de ouro e senti o peso do enorme diamante aninhado na concavidade abaixo do pescoço.
— Lindo — sussurrou Renesmee.
Depois ela passou os braços como um torno em meu pescoço. Eu a apertei de encontro ao peito.
Entrelaçadas daquela maneira, tirei-a da barraca e a levei até a clareira. Edward ergueu uma sobrancelha quando nos aproximávamos, mas não fez nenhuma observação sobre o meu acessório ou o de Renesmee. Só nos abraçou com força por um longo momento e depois, com um suspiro profundo, nos soltou. Eu não podia ver um adeus em nenhum lugar de seus olhos. Talvez ele tivesse mais esperanças de haver algo depois dessa vida do que deixara transparecer.
Assumimos nossas posições, Renesmee passando com agilidade para minhas costas a fim de que minhas mãos ficassem livres. Fiquei um pouco atrás da linha de frente, composta por Carlisle, Edward, Emmett, Rosalie, Tanya, Kate e Eleazar. Ao meu lado estavam Benjamin e Zafrina; era minha tarefa protegê-los pelo máximo de tempo que eu pudesse. Eles eram nossas melhores armas de ataque. Se fossem os Volturi não pudessem ver, mesmo por alguns momentos, tudo mudaria.
Zafrina estava rígida e feroz, com Senna quase uma imagem especular ao lado dela. Benjamin estava sentado no chão, as mãos na terra, e murmurava baixo sobre falhas geológicas. Na noite anterior, ele havia espalhado pilhas de rocha de aparência natural, agora montes cobertos de neve, atrás da campina. Não eram suficientes para ferir um vampiro, mas poderiam, com sorte, distraí-los.
As testemunhas agrupavam-se à nossa esquerda e à direita, alguns mais próximos do que outros – aqueles que se declararam eram os mais próximos. Percebi Siobhan massageando as têmporas, os olhos fechados, concentrando-se; estaria ela atendendo ao pedido de Carlisle? Tentando visualizar uma solução diplomática?
Na floresta atrás de nós, os lobos, invisíveis, estavam imóveis e preparados; só podíamos ouvir seu arfar pesado, os corações batendo.
As nuvens rolavam, tornando a luz difusa, de modo que tanto podia ser manhã quanto tarde. Edward estreitou os olhos enquanto examinava a área, e eu tinha certeza de que ele estava vendo aquele exato cenário pela segunda vez – tendo sido a primeira na visão de Alice. A cena seria a mesma quando os Volturi chegassem. Agora só nos restavam minutos, ou segundos.
Toda a nossa família e nossos aliados se prepararam. Da floresta, o imenso lobo alfa ruivo avançou para se postar ao meu lado; devia ter sido demais para ele manter distância de Renesmee quando ela estava em perigo tão iminente.
Renesmee estendeu a mão para entrelaçar os dedos no pelo de seu ombro imenso, e o corpo dela relaxou um pouco. Ela se sentia mais calma com Jacob por perto. Eu também me senti um pouquinho melhor. Desde que Jacob estivesse com Renesmee, ela ficaria bem.
Sem arriscar um olhar para trás, Edward estendeu a mão para mim. Eu estiquei o braço para pegar sua mão. Ele apertou meus dedos.
Mais um minuto se passou, e me vi procurando ouvir algum som de aproximação. E, então, Edward enrijeceu e sibilou baixo entre os dentes trincados. Seus olhos focalizaram a floresta ao norte de onde estávamos.
Olhamos para onde ele fitava e esperamos, enquanto os últimos segundos passavam.

6 comentários:

  1. É agora Jesus !

    Assi: Apaixonada por livros.

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  2. Ai meu coraçao. VOU TER UM TRECO

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  3. Meu coração ta batendo tão auto que acho que se tivesse um vampiro(a) aqui me matariam

    O que será que vai acontecer? OMG!!!!

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