29 de setembro de 2015

Capítulo 34 - Declarados

Ouvi a música antes de sair do carro. Edward não tocava piano desde a noite em que Alice partira. Agora, enquanto eu fechava a porta do carro, ouvi o som se transformar em minha cantiga de ninar. Edward estava me dando as boas-vindas.
Eu me movia devagar enquanto tirava Renesmee do carro. Ela dormia profundamente; havíamos ficado fora o dia todo. Tínhamos deixado Jacob na casa de Charlie – ele dissera que pegaria uma carona para casa com Sue. Perguntei-me se ele estava tentando encher a cabeça com banalidades, a fim de apagar minha expressão ao cruzar a porta de Charlie.
Enquanto caminhava devagar para a casa dos Cullen, reconheci que a esperança e o ânimo que pareciam quase uma aura visível em volta da grande casa branca também tinham sido meus naquela manhã. Mas agora me eram totalmente estranhos.
Queria chorar de novo, ouvindo Edward tocar para mim. Mas me compus. Não queria que ele ficasse desconfiado. Eu não deixaria pistas em sua mente para Aro; não se pudesse evitar.
Edward virou a cabeça e sorriu quando surgi à porta, mas continuou tocando.
— Bem-vinda ao lar — disse ele, como se este fosse apenas mais um dia normal. Como se não houvesse outros doze outros vampiros na sala, envolvidos em várias atividades, e mais uma dezena espalhados por outros lugares. — Divertiu-se muito como Charlie hoje?
— Sim. Desculpe-me demorar tanto. Saí um pouco para fazer umas compras de Natal para Renesmee. Sei que não será um grande acontecimento, mas... — Eu dei de ombros.
Os lábios de Edward curvaram-se para baixo. Ele parou de tocar e girou no banco, de modo que todo o seu corpo ficou de frente para mim.
— Eu não tinha pensado nisso. Se quiser que seja um acontecimento...
— Não — eu o interrompi. Eu me encolhi por dentro com a ideia de tentar fingir mais entusiasmo do que o mínimo. — Só não queria deixar passar sem dar nada a ela.
— Posso ver?
— Se quiser. É só uma bobagenzinha.
Renesmee estava inconsciente, ressonando delicadamente em meu pescoço. Eu a invejava. Teria sido bom escapar da realidade, mesmo que por algumas horas.
Com cuidado, peguei o saquinho de veludo em minha bolsa sem abri-la o bastante para que Edward visse o dinheiro que eu ainda tinha ali.
— Chamou minha atenção na vitrine de um antiquário enquanto eu passava de carro.
Coloquei o pequeno medalhão de ouro na mão dele. Era redondo, com uma videira entalhada em volta do círculo externo. Edward abriu a caixinha e olhou o interior. Ali havia espaço para uma pequena foto e, do outro lado, uma inscrição em francês.
— Sabe o que diz aí? — perguntou ele, num tom diferente, mais moderado do que antes.
— O vendedor me disse que era algo como “Mais do que minha própria vida”. É isso mesmo?
— Sim, ele tinha razão.
Ele olhou para mim, os olhos topázio me sondando. Encarei-o por um momento, depois fingi me distrair com a televisão.
— Espero que ela goste — murmurei.
— É claro que ela vai gostar — disse ele com leveza, despreocupado, e naquele segundo eu tive certeza de que ele sabia que eu estava escondendo algo. Também tive certeza de que ele não fazia ideia do que era.
— Vamos levá-la para casa — sugeriu ele, levantando-se e colocando o braço em meus ombros.
Eu hesitei.
— O que foi? — perguntou ele.
— Eu queria treinar com Emmett um pouco...
Havia perdido o dia todo em minha missão vital; por isso, me sentia ficando para trás.
Emmett – no sofá com Rose e tendo na mão o controle remoto, é claro olhou e sorriu, antecipadamente.
— Ótimo. A floresta precisa ser desbastada.
Edward olhou de cara feia para Emmett e depois para mim.
— Haverá muito tempo para isso amanhã — disse ele.
— Não seja ridículo — eu me queixei. — Não existe mais muito tempo. Este conceito deixou de existir. Tenho muito o que aprender e...
Ele me interrompeu.
— Amanhã.
E sua expressão era tal que nem Emmett discutiu.
Fiquei surpresa em ver como era difícil voltar a uma rotina que, afinal de contas, era completamente nova. Mas perder mesmo aquela pequena esperança que eu viera nutrindo fez tudo parecer impossível.
Tentei me concentrar nos aspectos positivos. Havia uma boa possibilidade de que minha filha sobrevivesse ao que viria, e Jacob também. Se eles tinham um futuro, então isso era uma espécie de vitória, não era? Nosso pequeno grupo continuaria se Jacob e Renesmee tivessem a oportunidade de fugir. Sim, a estratégia de Alice só faria sentido se fôssemos enfrentar uma boa briga. Assim, havia uma espécie de vitória ali também, levando-se em conta que os Volturi nunca haviam sido seriamente desafiados em milênios.
Não seria o fim do mundo. Seria só o fim dos Cullen. O fim de Edward, o meu fim.
Eu preferia desta forma – a última parte, pelo menos. Eu não viveria sem Edward de novo; se ele ia deixar este mundo, então eu iria logo atrás dele.
De vez em quando eu me perguntava inutilmente se haveria alguma coisa para nós do outro lado. Eu sabia que Edward não acreditava nisso, mas Carlisle, sim. Eu mesma não conseguia imaginar. Por outro lado, tampouco conseguia imaginar Edward não existindo de alguma forma, em algum lugar. Se pudéssemos ficar juntos em outro lugar, então seria um final feliz.
E assim o padrão dos meus dias continuava, só que muito mais difíceis do que antes.
Fomos ver Charlie no dia de Natal – Edward, Renesmee, Jacob e eu. Toda a matilha de Jacob estava presente, além de Sam, Emily e Sue. Foi de muita ajuda que eles estivessem na casinha de Charlie, seus corpos imensos e quentes apertados nos cantos em volta da árvore pouco decorada – era possível ver exatamente onde Charlie tinha se entediado e desistido – e transbordando de sua mobília. Era sempre possível contar que os lobisomens ficassem animados com uma luta iminente, por mais suicida que fosse.
A eletricidade de sua empolgação produziu uma boa corrente que disfarçou minha completa falta de ânimo. Edward, como sempre, foi melhor ator do que eu.
Renesmee usava o medalhão que dei a ela ao amanhecer, e no bolso de seu casaco estava o MP3 player que Edward lhe dera – uma coisinha minúscula que guardava cinco mil músicas, já cheia com as preferidas de Edward. Em seu pulso estava uma versão quileute, intrincadamente trançada, de um anel de noivado. Edward tinha trincado os dentes ao vê-la, mas eu não me incomodei.
Logo, muito em breve, eu a daria a Jacob para proteção dela. Como eu poderia me incomodar com um símbolo do compromisso de que eu tanto dependia?
Edward salvara o dia encomendando um presente para Charlie também. Tinha chegado na véspera – por remessa expressa prioritária – e Charlie passou a manhã toda lendo o grosso manual de instruções de seu novo sistema de sonar para pesca.
Pelo modo como os lobisomens comiam, o almoço de Sue devia estar bom. Imaginei como o grupo pareceria a quem estivesse de fora. Será que fizemos nosso papel bem o bastante? Será que um estranho teria nos visto como um círculo contente de amigos, curtindo as festas com uma alegria despreocupada?
Acho que Edward e Jacob ficaram tão aliviados quanto eu quando chegou a hora de ir embora. Era estranho gastar energia com o disfarce humano quando havia tantas coisas mais importantes para fazer. Tive dificuldades para me concentrar. Ao mesmo tempo, aquela, talvez, fosse a última vez em que veria Charlie. Talvez fosse bom que estivesse entorpecida demais para registrar isso de fato. Eu não vira minha mãe desde o casamento, mas descobri que só podia me sentir feliz com a gradual distância que começara dois anos antes. Ela era frágil demais para meu mundo. Não queria que participasse daquilo. Charlie era mais forte. Talvez até bem forte para um adeus, mas eu não era.
O silêncio era intenso no carro; do lado de fora, a chuva era só uma névoa, pairando entre o líquido e o gelo. Renesmee estava sentada no meu colo, brincando com seu medalhão, abrindo-o e fechando-o. Eu a observava e imaginava o que diria a Jacob naquele momento, se não tivesse de esconder minhas palavras da mente de Edward.
Se um dia for seguro de novo, leve-a para ver Charlie. Conte toda a história a ele um dia. Diga-lhe o quanto eu o amava, como eu não suportava a ideia de deixá-lo quando minha vida humana acabou. Diga-lhe que ele foi o melhor pai do mundo. Diga-lhe que transmita meu amor a Renée, todos os meus votos de que ela seja feliz...
Precisaria dar a Jacob os documentos antes que fosse tarde demais. Eu lhe daria um bilhete para Charlie também. E uma carta para Renesmee. Algo para ela ler quando eu não pudesse mais dizer que a amava.
Não havia nada de extraordinário do lado de fora da casa dos Cullen quando entramos na campina, mas eu podia ouvir um alvoroço sutil lá dentro. Muitas vozes baixas murmuravam e grunhiam. Parecia uma discussão. Eu captava a voz de Carlisle e de Amun como mais frequência do que a dos outros.
Edward estacionou na frente da casa em vez de ir para a garagem. Trocamos um olhar preocupado antes de sair do carro.
A atitude de Jacob mudou; seu rosto ficou grave e cauteloso. Imaginei que ele estivesse no modo alfa de novo. Evidentemente, algo tinha acontecido, e ele ia buscar a informação de que ele e Sam precisariam.
— Alistair foi embora — murmurou Edward enquanto subíamos em disparada pela escada.
Na sala da frente, o principal confronto era fisicamente evidente. Alinhado junto às paredes via-se um círculo de espectadores, todos os vampiros que haviam se unido a nós, exceto Alistair e os três envolvidos na discussão. Esme, Kebi e Tia estavam mais perto dos três vampiros no centro da sala, onde Amun sibilava para Carlisle e Benjamin.
O queixo de Edward retesou e ele seguiu rapidamente para o lado de Esme, puxando-me pela mão. Eu apertei Renesmee junto ao peito.
— Amun, se quiser ir embora, ninguém o está obrigando a ficar — disse Carlisle calmamente.
— Você está roubando metade do meu clã, Carlisle! — guinchou Amun, apontando um dedo para Benjamin. — Foi por isso que me chamou aqui? Para me roubar?
Carlisle suspirou e Benjamin revirou os olhos.
— Sim, Carlisle arrumou uma briga com os Volturi, colocou em risco toda a sua família, só para me atrair à morte aqui — disse Benjamin com sarcasmo. — Seja razoável, Amun. Estou comprometido em fazer o que é certo aqui... não estou me unindo a nenhum outro clã. É claro que você pode fazer o que quiser, e Carlisle já deixou isso claro.
— Isso não vai terminar bem — grunhiu Amun. — Alistair era o único são aqui. Todos devíamos fugir.
— Olhe quem você está chamando de são — murmurou Tia, num aparte discreto.
— Vamos ser todos massacrados!
— Não vai chegar a haver uma briga — disse Carlisle numa voz firme.
— É o que você diz!
— Se houver, pode trocar de lado, Amun. Sei que os Volturi apreciarão sua ajuda.
Amun dirigiu-lhe um sorriso de desprezo.
— Talvez esta seja a resposta.
A réplica de Carlisle foi suave e sincera.
— Não vou ficar aborrecido com você por causa disso, Amun. Somos amigos há muito tempo, mas nunca lhe pediria para morrer por mim.
A voz de Amun também soou mais controlada.
— Mas você está levando meu Benjamin com você.
Carlisle pôs a mão no ombro de Amun; Amun esquivou-se.
— Eu vou ficar, Carlisle, mas pode ser para prejuízo seu. Eu vou me juntar a eles se for este o caminho para a sobrevivência. Vocês são todos tolos se pensam que podem desafiar os Volturi. — Ele fechou a cara, depois suspirou, olhou para Renesmee e para mim e acrescentou, num tom exasperado: — Vou testemunhar que essa criança cresceu. Isso não é nada mais do que a verdade. Qualquer um poderia ver.
— É só o que pedimos.
Amun fez uma careta.
— Mas não é só o que está conseguindo, ao que parece. — Ele se virou para Benjamin. — Eu lhe dei a vida. Você a está jogando fora.
O rosto de Benjamin parecia mais frio do que eu jamais o vira; a expressão vazia um contraste estranho com suas feições juvenis.
— É uma pena que no processo você não tenha podido substituir minha vontade pela sua; talvez assim ficasse satisfeito comigo.
Os olhos de Amun se estreitaram. Ele gesticulou abruptamente para Kebi, e eles passaram por nós, saindo pela porta da frente.
— Ele não vai embora — disse Edward baixinho — mas vai manter uma distância ainda maior a partir de agora. Ele não estava blefando quando falou em se unir aos Volturi.
— Por que Alistair foi embora? — sussurrei.
— Ninguém tem certeza; ele não deixou bilhete. Pelos murmúrios dele, ficou claro que ele pensa que é inevitável ocorrer uma luta. Apesar de seu comportamento, ele gosta muito de Carlisle para ficar ao lado dos Volturi. Acho que ele concluiu que era arriscado demais. — Edward deu de ombros
Embora a conversa fosse claramente entre nós dois, é claro que todos podiam ouvir. Eleazar respondeu ao comentário de Edward como se tivesse sido feito para todos.
— Pelo tom dos murmúrios dele, foi mais do que isso. Não falamos muito da agenda dos Volturi, mas Alistair preocupava-se, achando que, por mais decisivamente que possamos provar sua inocência, os Volturi não ouvirão. Ele acha que eles encontrarão uma desculpa para alcançar suas metas aqui.
Os vampiros se entreolharam, inquietos. Não era popular a ideia de que os Volturi manipulariam sua própria lei sacrossanta para vencer. Só os romenos ficaram compostos, com seus meios sorrisos irônicos. Eles pareciam se divertir em ver como os outros queriam pensar bem de seus antigos inimigos.
Muitas discussões em voz baixa começaram ao mesmo tempo, mas eram os romenos que eu ouvia. Talvez porque Vladimir, com seus cabelos claros, ficasse lançando olhares na minha direção.
— Espero que Alistair tenha razão sobre isso — murmurou Stefan a Vladimir. — Independentemente do resultado, a notícia se espalhará. Está na hora de nosso mundo ver no que os Volturi se transformaram. Eles jamais cairão se todos acreditarem nessa bobagem de eles protegerem nosso estilo de vida.
— Pelo menos, quando governávamos, éramos sinceros sobre o que éramos — replicou Vladimir.
Stefan assentiu.
— Nunca usamos auréola e nos chamamos de santos.
— Acredito que chegou a hora de lutar — disse Vladimir. — Você pode crer que algum dia vamos encontrar uma força melhor a quem apoiar? Outra possibilidade tão boa?
— Nada é impossível. Talvez um dia...
— Estamos esperando há mil e quinhentos anos, Stefan. E eles só vão ficando mais fortes a cada ano. — Vladimir fez uma pausa e olhou para mim de novo. Ele não mostrou surpresa quando viu que eu também o olhava. — Se vencerem esse conflito, os Volturi sairão com mais poder do que chegaram.Com cada conquista eles aumentam suas forças. Pense no que só essa recém-criada pode dar a eles — ele apontou o queixo para mim — e ela mal esta descobrindo seus dons. E aquele que move a Terra. — Vladimir indicou Benjamin, que enrijeceu. Agora quase rodos ouviam os romenos, como eu. — Com seus gêmeos feiticeiros, eles não precisam de ilusionistas nem do choque elétrico.
Seus olhos dirigiram-se a Zafrina e depois a Kate. Stefan olhou para Edward.
— Nem o leitor de pensamento é muito necessário. Mas eu entendo seu argumento. De fato, eles ganharão muito se vencerem.
— Mais do que podemos permitir que ganhem, não concorda?
Stefan suspirou.
— Acho que devo concordar. E isso significa...
— Que devemos nos colocar contra eles enquanto ainda há esperanças.
— Se pudermos só aleijá-los, expô-los...
— Então um dia outros terminarão o serviço.
— E nossa longa vingança será cumprida. Finalmente.
Eles se olharam por um momento e murmuraram, em uníssono:
— Parece ser a única maneira.
— Então lutaremos — disse Stefan.
Embora eu pudesse ver que estavam divididos, a autopreservação lutando com a vingança, o sorriso que trocaram era cheio de expectativa.
— Lutaremos — concordou Vladimir.
Achei que isso era bom; como Alistair, tinha certeza de que era impossível evitar a batalha. Nesse caso, mais dois vampiros lutando a nosso lado podiam ajudar. Mas, ainda assim, a decisão dos romenos me fez tremer.
— Lutaremos também — disse Tia, sua voz em geral grave mais solene do que nunca. — Acreditamos que os Volturi vão abusar de sua autoridade. Não queremos pertencer a eles. — Seus olhos demoraram-se no parceiro.
Benjamin sorriu e lançou um olhar malicioso para os romenos.
— Ao que parece, sou mercadoria disputada. Parece que tenho de conquistar o direito à liberdade.
— Essa não vai ser a primeira vez que luto para evitar as regras de um rei — disse Garrett num tom zombeteiro. Então foi até Benjamin e deu-lhe um tapa nas costas. — Que nos libertemos de toda opressão!
— Ficamos com Carlisle — disse Tanya — e lutamos com ele.
O pronunciamento dos romenos pareceu fazer os outros sentirem a necessidade de se declarar também.
— Ainda não decidimos — disse Peter.
Ele baixou os olhos para sua minúscula companheira; os lábios de Charlotte estavam cerrados de insatisfação. Parecia que ela havia tomado sua decisão. Eu me perguntei qual seria.
— O mesmo é válido para mim — disse Randall.
— E para mim — acrescentou Mary.
— As matilhas lutarão com os Cullen — disse Jacob de repente. — Temos medo de vampiros — acrescentou ele com um sorriso afetado.
— Crianças — murmurou Peter.
Bebês — corrigiu Randall.
Jacob sorriu, zombeteiro.
— Bem, também estou dentro — disse Maggie, livrando-se da mão restritiva de Siobhan. — Sei que a verdade está do lado de Carlisle. Não posso ignorar isso.
Siobhan encarou com olhos preocupados a integrante mais nova de seu clã.
— Carlisle — disse ela como se eles estivessem a sós, ignorando o sentido súbito e formal da reunião, o surto inesperado de declarações. — Não quero que isso chegue a uma luta.
— Nem eu, Siobhan. Você sabe que esta é a última coisa que eu quero. — Ele deu um meio sorriso. — Talvez deva se concentrar em manter a paz.
— Sabe que não vai ajudar — disse ela.
Lembrei-me da discussão de Rose e Carlisle sobre a líder irlandesa; Carlisle acreditava que Siobhan tinha um dom poderoso mas sutil para conseguir o que queria – e no entanto a própria Siobhan não acreditava naquilo.
— Não vai fazer mal — disse Carlisle.
Siobhan revirou os olhos.
— Devo imaginar o resultado que desejo? — perguntou ela, sarcástica.
Carlisle agora sorria abertamente.
— Se não se importa.
— Então não há necessidade de meu clã se declarar, há? — retorquiu ela. — Já que não há possibilidade de uma luta.
Ela pôs a mão no ombro de Maggie de novo, puxando a garota para mais perto dela. O parceiro de Siobhan, Liam, continuava em silêncio e sem expressão.
Quase todos os outros na sala pareciam aturdidos com o diálogo claramente jocoso de Siobhan e Carlisle, mas estes não se explicaram.
Esse foi o fim dos discursos dramáticos da noite. O grupo aos poucos se dispersou, alguns para caçar, outros para matar tempo com os livros de Carlisle, a televisão ou os computadores.
Edward, Renesmee e eu fomos caçar. Jacob nos acompanhou.
— Sanguessugas idiotas — murmurou ele para si mesmo quando estávamos lá fora. — Se acham tão superiores. — Ele bufou.
— Eles vão ficar chocados quando os bebês salvarem sua vida superior, não vão? — disse Edward.
Jake sorriu e lhe deu um soco no ombro.
— Pode apostar que vão.
Aquela não foi nossa última excursão de caça. Todos caçaríamos de novo, mais perto do momento em que esperávamos os Volturi. Como o prazo não era exato, pretendíamos ficar algumas noites na grande clareira de beisebol que Alice tinha visto, só por precaução. Todos sabíamos que eles viriam no dia em que a neve se prendesse ao chão. Não queríamos os Volturi perto demais da cidade, e Demetri os levaria aonde estivéssemos. Perguntei-me quem ele rastrearia e deduzi que seria Edward, uma vez que ele não podia me rastrear.
Pensei em Demetri enquanto caçava, prestando pouca atenção à minha presa ou aos flocos de neve que finalmente haviam aparecido, mas que derretiam antes de tocar o solo rochoso. Será que Demetri perceberia que não podia me rastrear? O que ele faria com isso? O que Aro faria? Ou Edward estava enganado? Ali estavam pequenas exceções ao que eu podia resistir, caminhos para atravessar meu escudo. Tudo o que estava fora de minha mente era vulnerável – aberto ao que Jasper, Alice e Benjamin podiam fazer. Talvez o talento de Demetri também funcionasse de uma forma meio diferente.
E então me ocorreu um pensamento que me fez parar de súbito. O alce cujo sangue eu ainda não terminara de sugar caiu de minhas mãos no chão rochoso. Flocos de neve se vaporizavam a alguns centímetros do corpo quente com leves chiados. Fitei sem ver minhas mãos ensanguentadas.
Edward viu minha reação e correu para o meu lado, sem terminar com sua caça.
— O que foi? — perguntou em voz baixa, os olhos varrendo a floresta à nossa volta, procurando o que poderia ter deflagrado meu comportamento.
— Renesmee — eu disse sufocada.
— Ela está atrás daquelas árvores — ele me tranquilizou. — Posso ouvir os pensamentos dela e de Jacob. Ela está bem.
— Não é a isso que me refiro — eu disse. — Eu estava pensando em meu escudo... Você acha realmente que vale algo, que vai ajudar de alguma forma? Sei que os outros esperam que eu seja capaz de proteger Zafrina e Benjamin, mesmo que eu só possa manter o escudo por alguns segundos de cada vez. E se for um erro? E se sua confiança em mim for o motivo de nosso fracasso?
Minha voz beirava a histeria, embora eu tivesse controle suficiente para mantê-la baixa. Eu não queria perturbar Renesmee.
— Bella, de onde você tirou essas ideias? É claro, é maravilhoso que você possa se proteger, mas você não tem a responsabilidade de salvar ninguém. Não se aflija sem necessidade.
— Mas e se eu não puder proteger nada? — sussurrei, arfando. — Isso que eu faço é falho, é errático! Não tem pé nem cabeça. Talvez não faça nada contra Alec.
— Psiu — ele me silenciou. — Não entre em pânico. E não se preocupe com Alec. O que ele faz não é diferente do que Jane ou Zafrina fazem. É só uma ilusão... Ele não pode entrar em sua cabeça mais do que eu.
— Mas Renesmee pode! — sibilei entredentes. — Parecia tão natural, que eu nunca questionei antes. Sempre foi parte de quem ela é. Mas Renesmee coloca seus pensamentos em minha cabeça como faz com todos os outros. Meu escudo tem falhas, Edward!
Eu o encarei, desesperada, esperando que ele admitisse minha revelação terrível. Seus lábios estavam franzidos, como se ele estivesse tentando decidir como dizer algo. Sua expressão era perfeitamente relaxada.
— Você pensou nisso há muito tempo, não é? — perguntei, sentindo-me uma idiota por ter passado meses sem ver o óbvio.
Ele assentiu, com um sorriso fraco erguendo um canto de sua boca.
— Na primeira vez em que ela a tocou.
Suspirei diante de minha própria estupidez, mas a calma dele tinha me abrandado um pouco.
— E isso não o incomoda? Não vê como um problema?
— Eu tenho duas teorias, uma mais provável do que a outra.
— Me dê a menos provável primeiro.
— Bem, ela é sua filha — salientou ele. — Metade você, geneticamente. Eu costumava brincar com você sobre sua mente estar numa frequência diferente da do resto de nós. Talvez ela esteja na mesma frequência.
Não funcionou para mim.
— Mas você ouve a mente de Renesmee muito bem. Todo mundo a ouve. E se Alec tiver numa frequência diferente? E se...?
Ele colocou um dedo em meus lábios.
— Eu pensei nisso. E é por isso que creio que a teoria seguinte é mais provável.
Trinquei os dentes e esperei.
— Lembra o que Carlisle me disse sobre Renesmee, logo depois de ela lhe mostrar sua primeira lembrança?
É claro que eu lembrava.
— Ele disse: “É uma distorção interessante. Como se ela fizesse exatamente o contrário do que você faz.”
— Sim. E então fiquei pensando. Talvez ela tenha tomado seu talento e o virado pelo avesso também.
Eu refleti.
— Você mantém todo mundo de fora — começou ele.
— E ninguém a deixa de fora? — terminei, hesitante.
— Minha teoria é essa — disse ele. — E se ela pode entrar em sua cabeça, duvido que haja um escudo no planeta que possa mantê-la distante. Isso vai ajudar. Pelo que vimos, ninguém pode duvidar da verdade de seus pensamentos, quando permitem que ela os mostre. E acho que ninguém pode impedir que ela mostre, se ela chegar bem perto. Se Aro permitir que ela explique...
Estremeci ao pensar em Renesmee tão perto dos olhos gananciosos e leitosos de Aro.
— Bem — disse ele, esfregando meus ombros tensos — pelo menos não há nada que possa impedi-lo de ver a verdade.
— Mas a verdade será suficiente para detê-lo? — murmurei.
Para isso Edward não tinha resposta.

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